PRISÃO APÓS CONDENAÇÃO EM SEGUNDA INSTÂNCIA-UM
ENTENDIMENTO CONFUSO DE POSIÇÕES ENTRE SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E A LEI PROCESSUAL PENAL
Antonio Carlos Carvalho, André F. Andrade, Ednilson Godoi da Silva, Ewerton Ghosn de Oliveira1; Carlos Barbará2 Resumo
Trata-se sobre a regra prescrita nos artigos 283 e 594 do Código de Processo Penal, onde será abordado o tema da prisão em segunda instância e o princípio da inocência, onde após, a condenação de segunda instância, cuja prisão fere ou não a constituição. Logo, como citado no artigo 5º da Constituição Federal, ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
Palavras-Chave: Direito Processual Penal – Prisão Após Condenação em Segunda Instância –
Constituição Federal – Supremo Tribunal Federal.
Abstract
It is about the rule prescribed in the of articles 283 and 594 of the Code of Criminal Procedure, which will deal with the subject of arrest in second instance and the principle of innocence, where after the conviction of second instance, whose arrest where after the same, the conviction of second, does or not hurt the constitution. Therefore, as mentioned in article 5 of the Federal Constitution, no one will be considered guilty until the final res judicata conviction.
Keywords: Criminal Procedural Law - Arrest After Conviction in Second Instance - Federal Constitution -
Supreme Court
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO. 2. SEGURO DOS ACUSADOS. 2.1. ADOÇÃO DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO: 3. Texto Constitucional. 3.1. A Controvérsia do Entendimento Constitucional. 4. CONSEQUÊNCIA JURÍDICAS: 4.1. O Sistema Penal; 4.2. Princípio da Inocência. 5. APRISIONAMENTO EM SEGUNDA INSTÂNCIA: 5.1 Textos Normativos; 5.2. A Jurisprudência do STF. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 7. REFERÊNCIAS.
1 INTRODUÇÃO
Pela regra imposta no art. 594 do Código de Processo Penal, o réu não poderá apelar sem recolher se à prisão, ou prestar fiança, salvo se for primário e de bons antecedentes, assim reconhecido na sentença condenatória, ou condenado por crime que se livre solto.
1
Graduandos pela Faculdade de Direito do Centro Universitário Brazcubas,
2 Advogado, Professor Universitário do Centro Universitário Brazcubas.
Revista do Curso de Direito do Centro Universitário Brazcubas V3 N2: Dezembro de 2019
Sendo, em relação ao condenado que não seja primário e não tenha bons antecedentes, dois ônus a ele se impõem por força de lei: a prisão automática decorrente da sentença condenatória. Na verdade, se nos limitarmos a interpretar literalmente este artigo chegaremos forçosamente à conclusão que ele afronta a Constituição em pelo menos duas oportunidades: Quando o texto constitucional garante a presunção de inocência, e no momento em que assegura a ampla defesa, com os recursos a ela inerentes.
Já o art.283 cpp, nos ditames processuais está em perfeita consonância com o dispositivo constitucional elencado no art. 5°, inciso LVII da Constituição Federal de 1988, proclama que ...
"ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”3,
É de todo inadmissível que alguém seja preso antes de definitivamente julgado, salvo a hipótese desta prisão provisória se revestir de caráter cautelar, independentemente de primariedade e de bons antecedentes. Logo, seja estranho, alguém ser presumivelmente considerado não culpado (pois ainda não foi condenado definitivamente) e, ao mesmo tempo, ser obrigado a se recolher à prisão, mesmo não representando a sua liberdade nenhum risco, seja para a sociedade, seja para o processo, seja para a aplicação da lei Penal. Mais estranho se nos afigura ao atentarmos que aquela presunção foi declarada constitucionalmente.
Desta forma, esta 'prisão' provisória, anterior a uma decisão transitada em julgado, só se revestirá de legitimidade caso seja devidamente fundamentada (art. 5o, LXI, CF/88) e reste demonstrada a sua necessidade (periculum libertatis).
2 SEGURO DOS ACUSADOS
Partindo desta peculiaridade o direito de defesa e a presunção de inocência, segundo preceitos constitucionais e da reação contrária a estes princípios pela mídia na atualidade ora posta, ultrapassa os limites da razoabilidade e condena sumariamente e antecipadamente o acusado.
4É sabido que a igualdade perante a lei e o devido processo legal são princípios constitucionais complementares entre si, pois os princípios da legalidade e da isonomia – são pilares essenciais ao Estado Democrático de Direito, outrossim não fariam qualquer sentido sem um poder capaz de fazer cumprir e pôr em prática, para com todos, com a necessária presteza, a Constituição e as leis do País ora vigentes.
2.1 Adoção do Duplo Grau de Jurisdição
3 art. 5°, inciso LVII da Constituição Federal de 1988,
4 Texto publicado Jurisway, Paulo Roberto Alfieri Bonetti Gonçalves, Pós-Graduado em Direito Civil e
Processo Civil pela FMB - coord. PUC/SP e em Direito UNIBAN, advogado, membro do TED VI da OAB/SP
No mesmo passo, há a segunda questão: se a Constituição também assegura aos acusados em geral a ampla defesa com recursos a ela inerentes, parece nos também claro que uma lei infraconstitucional não poderia condicionar este direito de recorrer àquele que não tem bons antecedentes e não é primário, ao recolhimento a prisão. Observa se que esta regra legal está completamente no artigo seguinte, segundo o qual "se o réu condenado fugir depois de haver apelado, será declarada deserta a apelação."
5
.
Da mesma forma, agora igualmente soa estranho para nós não se permitir ao acusado ao acesso ao duplo grau de jurisdição, quando não seja primário e não tenha bons antecedentes.
Não esqueçamos que a adoção do duplo grau de jurisdição, deixa de ser uma escolha eminentemente técnica jurídica e passa a ser, num primeiro instante, uma opção política do legislador.
3 Texto Constitucional
Apesar do texto Constitucional não conter expressamente a garantia do duplo grau de jurisdição (como ocorre com a presunção de inocência), é indiscutível o seu caráter de norma materialmente constitucional, mormente porque o Brasil ratificou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica), que prevê em seu art.8°, 2 h, que todo acusado de delito tem "direito de recorrer da sentença para juiz ou tribunal superior", e tendo se em vista o estatuído no $2, do artigo 5º, da CF/88, segundo o qual os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte." Ratificamos, também, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de Nova lorque que no seu art. 14, 5, estatui que “toda pessoa declarada culpada por um delito terá o direito de recorrer da sentença condenatória e da pena a uma instância superior, em conformidade com a lei.
É bem verdade que a doutrina se debate a respeito da posição hierárquica que ocupam as normas advindas de tratado internacional. Parte dela entende que caso a norma internacional trate de garantia individual, terá ela status constitucional.
Como sabemos, entre nós, cabível será a prisão preventiva sempre que se tratar de garantira ordem pública, a ordem econômica, ou por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal. São estes os requisitos os requisitos da prisão preventiva e que configuram exatamente o 'periculum libertatis'. Estes requisitos, portanto, representam a necessidade da prisão preventiva, que não é outra coisa senão uma medida de natureza flagrantemente cautelar, pois visa a resguardar, em última análise, a ordem pública, a instrução criminal ou a aplicação da lei penal.
Se assim o é, fácil é interpretar este art., 594 da seguinte forma e nos seguintes termos: a prisão será uma decorrência de uma sentença condenatória recorrível sempre que, 'in casu', fosse cabível a prisão preventiva contra o réu, independentemente de sua condição pessoal de primário e de ter bons antecedentes; ou seja, o que definirá se o acusado aguardará preso ou em liberdade o julgamento final do processo é a comprovação da presença de um daqueles requisitos acima referidos.
Já o artigo 283 do Código de Processo Penal subintende que ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória TRANSITADA EM JULGADO ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
3.1 A Controvérsia do Entendimento Constitucional
In Verbis
Ninguém poderá ser
preso senão em flagrante delito
ou por ordem escrita e
fundamentada da autoridade
judiciária competente, em
decorrência de sentença
condenatória transitada em
julgado ou, no curso da
investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou
prisão preventiva.6
O texto estabelece taxativamente as hipóteses de cabimento da prisão: 1) Em flagrante delito.
2) Por ordem judicial fundamentada – nesse último caso, em decorrência de sentença condenatória irrecorrível (transitada em julgado) ou decreto de prisão temporária ou preventiva.
A prisão em flagrante está prevista nos arts. 301 a 310 do CPP, e seu regramento recebeu pequenas modificações pela Lei 12.403/11. O art. 306 prevê que a prisão em flagrante será comunicada também ao Ministério Público, além do juiz e à família do preso (ou à pessoa por ele indicada).
Além disso, não mais se exige que a autoridade policial, ao remeter o auto de prisão em flagrante delito ao juiz e, se preciso, à Defensoria Pública, o
remeta “acompanhado de todas as oitivas colhidas”, como exigia a antiga redação do §1º do art. 306, bastando a remessa do APFD àqueles órgãos no prazo de 24 hs.
O que vem chamando a atenção não só do mundo jurídico, mas da sociedade como um todo, é a questão do reconhecimento - ou não - da constitucionalidade do artigo 283 do Código de Processo Penal.
O julgamento do ex-presidente Lula, uma grande controvérsia e confusão jurídica ganhou uma repercussão enorme em nosso país e discussões pelo mundo.
Alvo de três ADC's (43, 44 e 54) que diz o no texto da regra processual penal:
"Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva." Ou seja, o CPP autoriza a restrição de liberdade apenas em três casos: flagrante delito; após o trânsito em julgado de sentença condenatória; e em sede de prisão temporária ou preventiva, que são as cautelares. O artigo é claro, não deixa dúvida alguma quanto ao seu conteúdo.
O que vem sendo discutido no Supremo Tribunal Federal é o conceito de
"trânsito em julgado" de sentença condenatória. Alguns entendem que o
trânsito em julgado ocorre após a condenação em segunda instância. Outros, após julgamento do recurso especial ou do agravo em recurso especial no STJ. E ainda há corrente, da qual tomo posição, que considera trânsito em julgado quando não há mais recurso a interpor, ou seja, o esgotamento da jurisdição.
O conceito de trânsito em julgado é o mais aceito entre os nobres doutrinadores. Não faz sentido dizer que transitou em julgado sendo que a decisão ainda não fez coisa julgada material, ou seja, ainda podendo ser discutida em instância superior.
Os ministros do STF não podem redefinir um conceito tão arcaico firmado, sendo apenas para satisfazer uma parte da população. E a segurança jurídica, seria abalada. Se um conceito tão concreto como esse pode ser mudado, quem garante que outros entendimentos não serão também.
Alguns setores da nossa sociedade, adotam um tom extremamente punitivo. Confundem o respeito à direitos e garantias fundamentais com a impunidade, o que não é verdade. Há distinção entre ambas.
O caso do ex-presidente Lula, formou-se o que chamamos de QUEDA DE BRAÇO, onde encontram-se dois lados opostos, uma querendo a destruição da outra, sem ater-se às regras do jogo, que é o Direito. Não importa se a vitória virá com um ato irregular, desde que saia vencedor. O problema é que, no próximo vez, esse mesmo lado poderá perder também com um ato irregular.
Entrando no mérito da discussão sobre a constitucionalidade do art. 283, vejo da seguinte forma: nossa Constituição é extremamente garantista. A obediência aos princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla
defesa, além da dignidade da pessoa humana não permitem que interpretemos algo que venha a ser o oposto disso tudo.
Não dá para interpretar um dispositivo de uma forma contrária aos direitos e garantias fundamentais expressos na Carta Magna.
O artigo 5, LVII da CRFB/88 diz que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Outrossim, o art. 283 do CPP está em perfeita consonância com esse dispositivo constitucional.
O princípio da presunção da inocência constante do art. 5, LVII deve ser consumado ao que reza. Não estamos em um estado de exceção. Nosso sistema processual penal, apesar de ainda haver vestígios inquisitório, não é. Ou pelo menos não deveria ser. Nossa Constituição é democrática e garantista, nosso Processo Penal tem a obrigação de ser acusatório, democrático e garantista, protegendo a parte mais vulnerável do processo, que é o réu, dos arbítrios do Estado.
4. CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS
Por que não foi posta na Constituição a primeira regra citada (ninguém será preso até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória), que diretamente trata sobre a prisão, com todos os elementos para aplicação imediata? Certamente porque não seria aprovada, com as consequências jurídicas e sociais imediatamente decorrentes. Optando se por uma regra fácil, uma tautologia (só pode haver conclusão de culpa depois de terminar o processo que apura a culpa), sem qualquer vínculo expresso com prisão ou cumprimento de pena.
O termo prisão não era desconhecido do constituinte.
A restrição à liberdade de ir e vir é tratada na Constituição como prisão, em vários incisos (LIV, LXI, LXII, LXIII, LXIV, LXV, LXVI e LXVII) do art. 5º da Constituição Federal.
A Constituição constrói e restringe o direito estatal de cercear a liberdade com base no termo de prisão. A CF, delimita completamente os fundamentos e requisitos da prisão sem qualquer menção de culpa ou culpado nos mencionados incisos. Se o consenso dominante na constituinte fosse impedir prisão antes do trânsito em julgado, a Constituição, que tanto fez uso do termo prisão, tendo incisivamente delimitado este importante instituto (devido processo legal e ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente), não seria grafada com palavra e conceito diferente (culpado). Não houve opção deliberada do constituinte em exigir trânsito julgado na última instância para início do cumprimento da pena ou prisão.
4.1 O Sistema Penal
O sistema penal vinha de uma indiscutível história de prisão após condenação da segunda instância, com possibilidade do tribunal Superior suspender justificadamente. Essa é a tradição histórica do nosso sistema judicial, que deve ser especialmente considerada. A Constituição entrou em vigência em 1988, mas somente em 2009, 21 anos depois, o Supremo foi
convencido, por maioria simples, que o texto falando de culpa poderia ser interpretado como proibição de prisão.
4.2 Princípio da Inocência
A construção da tese do princípio da inocência até quarta instância (Supremo), a partir da regra que fala da conclusão final da culpa, foi lenta, 21 anos. A sua aplicação, a partir de 2009, em apenas 7 anos, confirmou um caos de injustiça e desequilíbrio social. O tresloucado sistema de quatro instância de julgamento e centenas de recursos intermediários, passou a permitir que os mais ricos e poderosos ficassem impunes, salvos pelo decorrer do tempo processual e vergonhosas prescrições.
O próprio nome, princípio da inocência, que muito alimenta a polêmica, contém uma impropriedade grave. A regra constitucional não tem palavra “inocente". Ocorre um salto de não culpado para inocente. Mais apropriado seria "princípio de não culpabilidade". Parece pouco, mas não o é. Choca ouvir que inocente está preso7. Diferente se for dito que está preso um condenado em dois ou três julgamentos, mas ainda não culpado definitivamente, ante a possibilidade de recurso bastante limitado.
O professor Lenio cita Habermas:
"A busca da resposta correta ou de um resultado correto somente pode advir de um processo de autocorreções reiteradas, que constituem um aprendizado prático e social ao longo da história institucional do direito”.8
Nessa afirmação, Lenio confirma ensinando que o direito fundamental a uma resposta constitucionalmente adequada não implica a elaboração sistêmica de respostas definitivas. Isso porque a pretensão de se buscar respostas definitivas é, ela mesma, anti-hermenêutica, em face do congelamento de sentidos que isso propiciaria.
Parece que há argumento de que está sendo permitida a prisão de um acusado sem culpa definitivamente formada. A Constituição não proíbe e a interpretação da própria Constituição justifica essa resposta. A Constituição não autoriza expressamente prisão cautelar, provisória ou processual, mas não há qualquer resistência a essas medidas. Aceita se a justificativa de que são necessárias e indispensáveis, mesmo correndo risco de inocente ficar preso.
Com mais razão, no caso da prisão após julgamento da segunda instância, quando o devido processo legal já foi cumprido em duas instâncias, quando as questões de fato e de provas já foram definitivamente resolvidas e o risco de prisão de inocente é infimo.
7 ANDRADE, Leo Rosa de. A mitigação da presunção de inocência 8
https://www.conjur.com.br/2018-fev-08/senso-incomum-presuncao-inocencia-juiz-natural-dia-textos-revidar
5 APRISIONAMENTO EM SEGUNDA INSTÂNCIA
Muito se tem falado em prejuízo irreparável para o aprisionamento em segunda instância e posteriormente absolvido em tribunal superior. É uma possibilidade remota, pois, mesmo após dois julgamentos, decisões de prisões em desconformidade com a jurisprudência nacional podem ser suspensas pelo STJ ou Supremo. A própria Constituição, reconhecendo expressamente a possibilidade de erros judiciais (certamente incluídas eventuais falhas sistêmicas) e prisões além do tempo, apresenta solução novamente no contexto do instituto da prisão, determinando o pagamento de indenização (artigo 5o LXXV). É a solução possível e eleita pela Constituição.
Tem se argumentado também com o art.283 do Código de Processo Penal, que exige trânsito em julgado da sentença condenatória para prisão. Importante lembrar que a redação do mencionado art.283 decorreu da interpretação do Supremo em 2009 (redação dada pela Lei 12.403 de 2011). Portanto, se o Supremo voltou a antiga tradição, reconhecendo a possibilidade de prisão após segundo julgamento, a redação do art.283, dependente de interpretação decaída, deve ter o mesmo destino, por contrariar a Constituição explicitada pelo Supremo.
5.1 Textos Normativos
Qualquer que venha a ser a tese a ser consagrada na reinterpretação de textos e os normativos é de toda conveniência, em nome da segurança jurídica, que a Corte Suprema defina em nível abstrato e de forma definitiva quanto à constitucionalização ou não da prisão após a confirmação da decisão condenatória pelo tribunal local ou pelo tribunal regional. Abordaremos a questão em rápidas pinceladas.
Dos textos normativos em debate:
a) A CF dispõe em seu art. 5o, inciso LVII:9 "Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória".
B). Dos dispositivos da Constituição Federal: "Art.637. O recurso extraordinário não tem efeito suspensivo e uma vez arrazoado pelo recorrido os autos do traslado, os originais baixarão à primeira instância para a execução da sentença10" e artigo 283: Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva.
9
art. 5o, inciso LVII
5.2 A Jurisprudência do STF e UM NOVO EPISÓDIO
Por maioria, o plenário virtual do Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou a jurisprudência no sentido de que é possível a execução provisória do acórdão penal condenatório proferido em grau recursal, mesmo que estejam pendentes recursos aos tribunais superiores. A decisão foi tomada na análise do Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) 964246, que teve repercussão geral reconhecida. Assim, a tese firmada pelo Tribunal deve ser aplicada nos processos em curso nas demais instâncias.
O recurso foi interposto em ação penal na qual o réu foi condenado à pena de 5 anos e 4 meses de reclusão, em regime fechado, pelo crime de roubo (artigo 157, parágrafo 2o, incisos I e II, do Código Penal). A sentença foi confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que negou provimento à apelação da defesa e determinou expedição imediata de mandado de Prisão, para início da execução da pena11. O caso trata do mesmo sentenciado a favor do qual foi impetrado o Habeas Corpus (HC) 126292, julgado pelo Plenário.
Ao questionar o início do cumprimento da pena, a defesa apontava ofensa ao dispositivo constitucional que garante o direito de ninguém ser considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, previsto no art. 5o (inciso LVII) da Constituição Federal. Mesmo que os recursos aos tribunais superiores (recurso especial e recurso extraordinário) não tenham eficácia suspensiva, a defesa entendia que permanece válida a presunção constitucional de inocência até o trânsito em julgado.
Em sua manifestação, o relator do recurso, ministro Teori Zavaschi, se pronunciou pelo reconhecimento da repercussão geral da matéria. "É evidente que a questão em debate transcende o interesse subjetivo das partes, possuindo relevância social e jurídica", afirmou.
O ministro lembrou o julgamento do Habeas Corpus (HC) 126292, também de sua relatoria, em que o Supremo, por maioria, alterou o entendimento até então dominante e retomou a jurisprudência que vigorou na Casa até 2009, no sentido de que a presunção de inocência não impede prisão decorrente de acórdão que, em apelação, confirma sentença penal condenatória. Destacou ainda que a matéria voltou a ser apreciada pelo plenário, ocasião em que, ao indeferir medidas cautelares nas Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs) 43 e 44, os ministros, por maioria, reconheceram que o art. 283 do Código de Processo Penal não impede o início da execução da pena após condenação em segunda instância.
Segundo explicou o ministro, toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se prova sua culpabilidade, de acordo com a lei em processo público no qual se assegurem todas as garantias necessárias para a sua defesa:
"Realmente, antes de prolatada a sentença penal há de se manter reservas de dúvidas acerca do comportamento contrário à ordem jurídica, o que leva a atribuir ao acusado, para todos os efeitos, mas, sobretudo, no que se refere ao ônus da prova da incriminação, a presunção de inocência”, afirmou12
.
11 Habeas Corpus (HC) 126292, julgado pelo Plenário. 12
Em dia de terror, supremo rasga a Constituição no julgamento de um HC. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2016-fev-18/cezar-bittencourt-dia-terror-stf-rasgaconstituicao
Mesmo a sentença condenatória, juízo de culpabilidade que decorre dos elementos de prova produzidas em regime de contraditório no curso da ação penal, fica sujeita à revisão por tribunal de hierarquia imediatamente superior, se houver recurso, destacou o relator. É nesse juízo de apelação que, de ordinário, fica definitivamente exaurido o exame sobre os fatos e provas da causa, com a fixação, se for o caso, da responsabilidade penal do acusado. É ali que se concretiza, em seu sentido genuíno, o duplo grau de jurisdição, destinado aos reexames de decisão judicial em sua inteireza, mediante ampla, resolutividade da matéria deduzida na ação penal, tenha ela sido apreciada ou não pelo juízo de origem. Ao réu fica assegurado o direito de acesso, em liberdade, a esse juízo de segundo grau, respeitadas as prisões cautelares porventura decretadas.
Ressalvada a via da revisão criminal, é nas instâncias ordinárias que se esgota a possibilidade de exame de fatos e provas e, sob esse aspecto, a própria fixação da responsabilidade criminal do acusado, resumiu o relator. Isso porque os recursos de natureza extraordinária não configuram desdobramentos do duplo grau de jurisdição, por não se prestarem ao debate de matéria fático-probatória. Assim, enfatizou o ministro, com o julgamento da segunda instância se exaure a análise da matéria envolvendo os fatos da causa.
Nesse sentido, frisou o ministro Teori, a execução da pena na pendência de recursos de natureza extraordinária não compromete o núcleo essencial do pressuposto da não-culpabilidade, na medida em que o acusado foi tratado como inocente no curso de todo o processo ordinário criminal, observados os direitos e as garantias a ele inerentes, bem como respeitadas as regras probatórias e o modelo acusatório atual,
Com esses argumentos, o ministro Teori Zavaski se manifestou pela existência de repercussão geral na matéria e, no mérito, pelo desprovimento do recurso, com reafirmação da jurisprudência do Supremo, fixando a tese de que " a execução provisória de acórdão penal condenatório proferido em grau recursal, ainda que sujeito a recurso especial ou extraordinário, não compromete o princípio constitucional da presunção de inocência afirmado pelo artigo 5o, inciso LVII, da Constituição Federal.
STF admite execução da pena após condenação em segunda instância
13
Por maioria, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que o artigo 283 do Código de Processo Penal (CPP) * não impede o início da execução da pena após condenação em segunda instância e indeferiu liminares pleiteadas nas Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs) 43 e 44. O Partido Nacional Ecológico (PEN) e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), autores das ações, pediam a concessão da medida cautelar para suspender a execução antecipada da pena de todos os acórdãos prolatados em segunda instância. Alegaram que o julgamento do Habeas Corpus (HC) 126292, em fevereiro deste ano, no qual o STF entendeu possível
13
Publicado por Supremo Tribunal Federal-
a execução provisória da pena, vem gerando grande controvérsia jurisprudencial acerca do princípio constitucional da presunção de inocência, porque, mesmo sem força vinculante, tribunais de todo o país “passaram a adotar idêntico posicionamento, produzindo uma série de decisões que, deliberadamente, ignoram o disposto no artigo 283 do CPP”.
O caso começou a ser analisado pelo Plenário em 1º de setembro, quando o relator das duas ações, ministro Marco Aurélio, votou no sentido da constitucionalidade do artigo 283, concedendo a cautelar pleiteada. Contudo, com a retomada do julgamento na sessão desta quarta-feira (5), prevaleceu o entendimento de que a norma não veda o início do cumprimento da pena após esgotadas as instâncias ordinárias.
Por sua vez a presidente do STF Ministra Carmen Lúcia negou o pedido de cautelar nos pedidos. Ela relembrou, em seu voto, posicionamento proferido em 2010 sobre o mesmo tema, quando acentuou que, quando a Constituição Federal estabelece que ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado, não exclui a possibilidade de ter início a execução da pena – posição na linha de outros julgados do STF.14
Para a presidente, uma vez havendo apreciação de provas e duas condenações, a prisão do condenado não tem aparência de arbítrio. Se de um lado há a presunção de inocência, do outro há a necessidade de preservação do sistema e de sua confiabilidade, que é a base das instituições democráticas. “A comunidade quer uma resposta, e quer obtê-la com uma duração razoável do processo”.
* Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de
Prisão temporária ou prisão preventiva. Já neste ano de 2019 O Supremo Tribunal Federal concluiu que a possibilidade de execução da pena de prisão após condenação em segunda instância. O placar terminou em 6 a 5 pela proibição da prisão antes do trânsito em julgado, ou seja, a pena só poderá ser executada após o fim de todos os recursos,cabíveis.15 16A decisão não afasta a possibilidade de prisão antes do trânsito em julgado, desde que sejam preenchidos os requisitos do Código de Processo Penal para Prisão preventiva. .
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante de todo o conteúdo aqui analisado, foi possível compreender, em seus principais aspectos, sobre a prisão em segunda instância.
Dentre os modelos de concessão foi disciplinado o seguro dos acusados, cujo objeto é assegurar os direitos do preso diretamente à Administração Pública.
14
(Redação/AD, CR)1/9/2016 – Relator vota pela concessão de liminar para afastar execução da pena antes do trânsito em julgado Processos relacionados ADC 43 ADC 44.
15
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/11/07/prisao-em-2-instancia-saiba-como-cada-ministro-do-stf.
Neste trabalho também está contendo a adoção do duplo grau de jurisdição, bem como, o texto constitucional e suas consequências jurídicas.
Ainda assim, é possível ainda perceber que o sistema penal não contribui para o bem do preso, após ser preso em segunda instância, onde. Nas últimas décadas não houve nenhum investimento adequado na estrutura prisional, mas é preciso relacionar a crise também ao mau funcionamento do sistema de justiça criminal no Brasil, contudo, fora citado a jurisprudência do STF, onde é tratado a respeito do recurso especial, que pode trazer eficiência para o tema do trabalho citado.
Por fim, a manifestação do relator pelo reconhecimento da repercussão geral foi seguida por unanimidade no Plenário Virtual. O mérito foi decidido diretamente no mesmo sistema, por tratar-se de reafirmação da jurisprudência consolidada no STF. O entendimento, nesse ponto, foi firmado por maioria, vencidos os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello. Onde concluo que a Justiça tardia nada mais é do que injustiça institucionalizada.
Nota se que o Supremo fez em 2009 foi interpretar a Constituição, cumprindo sua função natural. Interpretar, porque a regra em referência não é clara e direta quanto à prisão, necessitando de uma ilação. Interpretar novamente, buscando uma resposta constitucionalmente adequada, como fez em 2016 e em 2017, retornando à antiga tradição, era um dever do Supremo, em nada podendo ser criticado por este procedimento. Por tudo isso, parece não adequada a alegação de que o tribunal está decidindo contra o texto constitucional. O Supremo está reinterpretando, voltando à antiga tradição.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Leo Rosa de. A mitigação da presunção de inocência. Disponível em:
http://www.conjur.com.br/. Acessado em: 15 janeiro de 2017.
ANDRADE, Mauro Fonseca e ALFLEN, Pablo Rodrigo. Audiência de Custódia no
Processo Penal Brasileiro. 2. ed. Livraria do Advogado, 2016.
BADARÓ, GUSTAVO HENRIQUE RIGHI IVAHY. A prisão preventiva e o
princípio da proporcionalidade. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2008.
BITENCOURT, Cezar Roberto; BITENCOURT, Vania Barbosa Adorno. Em dia de
terror, Supremo rasga a Constituição no julgamento de um HC. Disponível
em:http://www.conjur.com.br/2016-fev-18/cezar-bittencourt-dia-terror-stf-rasgaconstituicao. Acesso em: 08 de maio de 2017.
BOTTINO, Thiago. Os problemas da decisão do STF sobre execução provisória
da pena. Disponível em:
http://jota.uol.com.br/os-problemas-da-decisao-do-stf-sobreexecucao- provisoria-da-pena. Acesso em: 04 de janeiro de 2017. BRASIL.
Código de Processo Penal.17. ed. São Paulo. Editora Saraiva. 2017. BRASIL.
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