Cristo e Maria, primeiras criaturas ideadas por Deus
(Trechos extraídos do Io Livro) Antes de criar qualquer coisa, na mente das três divinas Pessoas - Pai, Filho e Espírito Santo - em primeiro lugar se achavam presentes: o Verbo encarnado - Jesus Cristo - e a Mulher da qual assumiria a natureza humana - Maria.
No instante da criação da alma de Maria, a beatíssima Trindade disse, com imenso amor, as palavras que Moisés refere no Gênesis (1,26): "Façamos Maria à nossa imagem e semelhança"; nossa verdadeira Filha e Esposa, para Mãe do Unigênito do Pai.
Não pôde tocá-la a mancha e obscu-ridade do pecado original, mas achou-se em perfeitíssima justiça, superior a de Adão e Eva ao serem criados.
Maria, Arca da Aliança, Mãe do Filho de Deus
(Trechos extraídos do 2° Livro ) A arca da aliança foi figura de Maria Santíssima.
Tão misteriosa e sagrada Arca construída pela mão do próprio Deus para sua habitação e propiciatório de seu povo, deveria ficar no Templo, onde se encontrava a outra arca material do Antigo Testamento. Por esta razão, ordenou o Senhor, que Maria fosse apresentada ao Templo aos três anos de idade. Ali permaneceu até os 13 anos e meio.
Os sacerdotes do Templo, responsáveis pela jovem cujos pais já eram falecidos, e movidos por inspiração divina, julgaram que, conforme o uso da época, deviam
es-tabelecer Maria no estado do matrimônio. Consultada por um deles, ela decla-rou: Quanto é de minha vontade, sempre desejei guardar perpétua virgindade, dedi-cando-me a Deus e ao seu serviço neste santo Templo. Vós, porém, que estais no lugar de Deus, me ensinareis o que for de sua santa vontade.
Com um milagroso sinal, o céu indi-cou José como o escolhido para esposo da puríssima jovem, a futura esposa do Espírito Santo e mãe do Filho de Deus.
Maria confia a José seu voto de perpétua castidade, dizendo-lhe: Meu se-nhor e esposo, em meus primeiros anos consagrei-me a Deus com perpétuo voto de ser casta de alma e corpo. Para cumpri-lo, quero que me ajudeis, e no mais, serei vossa fiel serva.
Repleto de espiritual júbilo pelas palavras de sua divina Esposa, o castíssimo José lhe respondeu: Quero que saibais, Senhora que aos doze anos, também fiz promessa de servir ao Altíssimo em castidade perpétua Confirmo-a agora e prometo ajudar-vos quanto estiver em minhas forças para que, em toda pureza o ameis e sirvais. Serei vosso fidelíssitno servo e guarda.
Sobre estes divinos alicerces - ilibada virgindade, oração, humildade, concórdia -fundou-se o lar e união da santíssima Virgem Maria e do castíssimo São José.
Assim foram sendo preparados para o mistério da Encarnação do Verbo, missão para a qual Deus os destinara.
Pedidos ao:
Mosteiro Portaceli
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Caixa Postal, 595
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84001 -970 - Ponta Grossa -
MÍSTICA CIDADE DE DEUS
PRIMEIRA PARTE
VIDA E MISTÉRIOS DA RAINHA DO CÉU - O QUE O ALTÍSSIMO
REALIZOU NESTA PURA CRIATURA DESDE
SUA IMACULADA CONCEIÇÃO ATÉ QUE EM SEU VIRGINAL SEIO O
VERBO ASSUMIU CARNE HUMANA -OS FAVORES QUE LHE FEZ
NESTES PRIMEIROS QUINZI ANOS, E O MUITO QUE POR SI MESMA
ADQUIRIU COIV
A DIVINA GRAÇA.
Primeiro Livro - Capítulo I
CAPÍTULO 1
DUAS VISÕES PARTICULARES QUE O SENHOR MANIFESTOU
À MINHA ALMA. OUTRAS INTELIGÊNCIAS E MISTÉRIOS QUE
ME IMPELIAM A AFASTAR-ME DAS COISAS TERRENAS,
ELEVANDO MEU ESPÍRITO ACIMA
DA TERRA.
Louvor a Deus
1.
Louvo-te e exalto (Mt 11, 25) Rei Altíssimo, que por tua dignação e elevada majestade escondeste aos sábios e mestres estes altos mistérios, e os revelas-te a mim, tua escrava, a menor e mais inútil de tua Igreja. Assim, com admiração, sereis conhecido por Todo-poderoso e autor desta obra, tanto quanto mais vil e fraco é o instrumento que utilizas.Estado de alma da Escritora
2.
Depois das longas resistências que referi, de infundados temores, e de grandes perplexidades nascidas de minha covardia, por conhecer este mar imenso de maravilhas no qual embarco, receiosa de nele me afogar - este Senhor altíssimo deu-me a sentir uma força do alto, suave, forte (Sb 8,1), eficaz e doce. Luz que esclarece o entendimento, submete a vontade rebelde, sossegando, dirigindo, governando e ordenando os sentidos interiores e exteriores, submetendo inteiramente a criatura ao agrado e vontade do Altíssimo, para procurar em tudo e somente sua honra e glória.Estando nesta disposição, ouvi voz do Todo-poderoso que fortemente r chamava e atraía para si. Elevava mim habitação ao alto (Eclo 51,13) e fortalec. contra os leões (Idem 4), a rugir faminto procurando afastar minha alma do bem qi lhe ofereciam no conhecimento dos gra des sacramentos encerrados nesl tabernáculo e santa cidade de Deus. Libe tou-me das portas da tribulação (Ibid.: por onde me convidavam a entrar, cercai pelas dores da morte (SI 17,5) e da perc ção, rodeada pela chama desta Sodoma Babilônia onde vivemos. Procuravam n transviar, para que cegamente voltasse: me entregasse a ela, oferecendo objetos i aparente deleite a meus sentido sugestionando-os com falsidade e dolc
De todos estes laços (SI 66,' 24,15), preparados a meus pés, livrou-n o Altíssimo, elevalivrou-ndo meu espírito e in: truindo-me com eficazes admoestações f caminho da perfeição. Convidou-me a un vida espiritualizada e angélica em can mortal, obrigando-me a viver tão solíciti que no obrigando-meio da fornalha não me tocasse: fogo (Eclo 51,6-7) e me livrasse da Iíngu iníqua, quando muitas vezes me conta\i mentiras terrenas (SI 118, 85).
Chamou-me Sua Alteza para me levantar do pó e da fraqueza causada pela lei do pecado, e resistir aos efeitos herdados da natureza corrompida, dominando-a em suas desordenadas inclinações. Devia destruí-las na presença da luz e elevar-me sobre mim mesma (Lm 3,28).
Com força de poderoso Deus. correções de pai e carinhos de esposo, muitas vezes me chamava e dizia: - Pomba minha e obra de minhas mãos, levanta-te (Ct 2,10) e apressa-te; vem a Mim que sou luz e caminho (Jo 8,12) e quem me segue não anda em trevas. Vem a Mim que sou verdade infalível, santidade verdadeira, sou poderoso e o sábio emendador dos sábios (Sb 7,15).
Efeitos da palavra divina
3. Estas palavras produziram em mim efeito de flechas de doce amor, admiração, reverência e também de temor, de ;onhecimento de meus pecados e de covardia com que me retraía e aniquilava. O Senhor me dizia: - Vem, alma, vem que sou eu Deus onipotente, e ainda que tenhas ido pródiga e pecadora, ergue-te e vem a iim que sou teu Pai; recebe a estola de linha amizade e o anel de esposa.
i\s anjos auxiliam a Escritora
4. Encontrando-me neste estado, certo dia os seis anjos, que como jádisse, >enhor designou para me assistirem nes-trabalho e em outras ocasiões de nbate. Eles me purificaram, prepararam em seguida, apresentaram-me ao Se-)r.
Sua Majestade deu à minha alma a nova luz e capacidade semelhante à da •ia, que me fortificou e me deu aptidão
para ver e conhecer o que está ut|ll|a ^ forças de criatura terrena. Em scgUl(,a . outros dois anjos, dc hierarquia que me atraíam fortemente ao sCnhor *' compreendi que eram muito ,n'Mcri0S(w me queriam manifestar altos v l'v n,,^^
sacramentos.
Respondi-lhes pmntamCri,e siosa por gozar daquele bem ÜU(, _ anunciavam, e com ardente afeto det|ar(;| minha disposição paia ver o que nlc ^ am mostrar c misteriosamente escondiam.
Imediatamente, tom muii;, ScVi;r.
dade. responderam: - Dclém-tc, alríla Voltci-mc para eles e lhes djSSc. Príncipes do Poderoso c mcnsugcir(,s d() Grande Rei, porque tendo-me chart);l(Jo agora me detendes assim, COWrw^.' meu desejo c retardando meu
£u,
uca|gria? Que força e poder 6 o vosso qUc chama, me empolga, c ao mesmo iempi, ^ atraie me detém? Atraindo nic|xloSpcr(.u mes de meu amado Senhor (Cl 1, 3^ detendes com prisões tão fortes? Dizci-me a causa disto.
Responderam-mc: - fWcsSarJO alma. vir descalça e despida dc i,lt|()s ^ teus apetites c paixões, para conhece, es tes altos mistérios que não admiter,, ncni são compatíveis com inclinações contra,.; as. Descalça-te com» Moiscs (í>x ^ conforme lhe foi ordenado, para vcruÜUt.|a milagrosa sarça.
- Príncipes c senhores mcuj respondi - muito foi pedido a Moisés, para em natureza terrena ter l,peruVões angélicas; todavia, ele era santo c jUs,0 eu pecadora cheia de misérias; pcrtUma.se meu coração e lamento a servidão Ju |cj do pecado (Rm 7, 23) que sinto cm membros, contrária à do espírito.
A istodisscram-nic: - Alma,CoJSa muito difícil ser-te-ia pedida, scdcpcnijCs se apenas dc tuas forças 0 Altís.sjmo
Primeiro Livro - Capítulo I
porém, que pede e quer esta disposição, é poderoso e não negará o seu auxilio, se de coração a pedires e te dispuseres para recebê-la.
- Seu poder que fazia arder a sarça (Ex 3,1) sem queimar-se, poderá fazer que a alma presa e cercada pelo fogo das paixões não se queime, desejando ela libertar-se. Sua Majestade pede o que quer e pode quanto pede, e com sua fortaleza serás capaz (Fl 4, 13) do que te manda. Descalça-te e chora amargamente, clama do íntimo do teu coração, para que seja ouvida tua oração e se cumpra teu desejo.
A Mulher do Apocalipse
5. Neste momento vi riquíssimo véu encobrindo um tesouro, e minha vontade se excitava para afastá-lo e descobrir o oculto mistério que a inteligência entrevia. A este meu desejo foi-me advertido: -Obedece, alma, ao que se te admoesta e manda; despe-te de ti mesma e então verás.
Propus emendar minha vida e vencer minhas inclinações, chorava e suspirava do íntimo da alma para me ser manifestado aquele bem; e assim como ia propondo, também ia se levantando o véu que escondia meu tesouro. Quando se afastou inteiramente, viram meus olhos interiores o que não saberei dizer, nem explicar com palavras.
Vi um grande e misterioso sinal no céu: uma mulher, uma senhora e formosíssima rainha coroada de estrelas, vestida de sol, tendo a lua a seus pés (Ap 12, 1)
Disseram-me os santos anjos: -Esta é aquela ditosa mulher que São João viu no Apocalipse, e onde estão compendiados, depositados e selados os maravilhosos mistérios da Redenção. Favoreceu tanto o Altíssimo e Todo-pode-roso a esta criatura, que a nós seus espíritos causa
admiração. Vê e considera suas excelências; escreve-as, que para isto e para teu proveito, te são manifestadas.
Conheci tantas maravilhas que sua abundância me emudece e a admiração me suspende. Julgo que, na vida mortal, todas as criaturas não seriam suficientes para conhecê-las. Adiante as irei expondo.
Exortação divina
6.
Outro dia, em tempo de quietu-de e serenidaquietu-de espiritual, no mesmo estado que já descrevi, ouvi a voz do Altíssimo que me dizia: - Esposa minha, quero que acabes de te resolver, que me procures solícita, que fervorosa me ames, e que tua vida seja mais angélica que humana, es-quecendo tudo o que é terreno: quero elevar-te do pó e do estéreo como pobre e necessitada (SI 112, 7). Ao ser elevada quero que te humilhes, e que teu nardo exale suave perfume (Ct 1,11), enquanto permaneces em minha presença; conhecendo tua fraqueza e misérias convence-te de que mereces a tribulação, e nela a tua profunda humilhação. Vê minha grandeza e tua pequenez. Sou justo e santo, e com justiça te aflijo, usando de misericórdia, e não te castigando segundo mereces. Procura sobre este fundamento de humildade adquirir as demais virtudes, para cumprires minha vontade. Para te instruir, corrigir e repreender te dou por mestra minha V irgem Mãe. Ela te formará e guiará teus passos no meu agrado e beneplácito.Maria, escada de Jacó
7.
Estava presente esta Rainha, quando o Altíssimo Senhor me disse aquelas palavras, e não se dedignou a divinaPrimeiro Livro • CaPí,ul0
Princesa em aceitar o ofício que sua Majestade lhe dava.
Recebeu-o benignamente e dis-se-me: - Minha filha, quero que sejas minha discípula e companheira, e eu serei tua mestra. Adverte, porém, que me hás de obedecer com coragem, e desde este dia não se há de perceber em ti vestígios de filha de Adão. Minha vida, as obras de minha peregrinação, as maravilhas que o poderoso braço do Altíssimo operou em mim, hão de ser teu espelho e modelo de tua vida.
Prostrei-me ante o real trono do Rei e Rainha do uni verso e ofereci-me para obedecer em tudo. Agradeci ao Altíssimo o benefício de me dar tal amparo e guia, tão acima de meus méritos. Renovei em suas mãos os votos de minha profissão, e me ofereci novamente para obedecer-lhe e cooperar com todas as forças na emenda de minha vida.
Disse-me o Senhor: - Presta atenção e olha.
Assim o fiz, e vi uma escada de muitos degraus, belíssima e com grande número de anjos, uns que a assistiam e outros que desciam e subiam por ela.
Disse-me Sua Majestade: - Esta é aquela misteriosa escada de Jacó (Gn 28, 12 -17) casa de Deus e porta do céu. Se te dispuseres e tua vida for tal que não mereça repreensão a meus olhos, subirás por ela até Mim.
Maria, caminho para Deus
8. Esta promessa excitava meu desejo, afervorava minha vontade, arrebatava meu espírito, e com muitas lágrimas queixava-me de ser tão pesada para mim mesma (Jó 7, 20). Suspirava pelo fim de meu cativeiro, e por chegar onde não há óbice que possa impedir o amor.
procurando apc^ Passei algu„s 4 do nova confi^*"linhavida fiJ^
alguma inípcrfc^ ÍCra/ e corrig,
continuava, ntas^ a v,são da e.v, cado. (nicndia seu si
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Fiz mo,. propondo íwvan^^ssas
ao Ser terrestre. conser^a!i,ar-me de tOJ vre
pira somente J m"iha vontad: inclinar-se a coi^^-h, sem dei^ pequena c 'noce^ ainda qUc , | tudo quanto 6 apu^'1* e
renuni; ,
Passado J( 'ee dusório.
timentos e dis^* dias nesiCsR
dcclamu-me ser o Alti\s ,
Santíssima Virgemaescada a vi(j4 rios. virtudes crn,3
ro.ciposíiinirihu.^ Majestade: - Q, dcJacó.ecntre porc^hasPorestacsCL
conhecer meus uir)L a Pona do céu n. nha divindade, so^ ec""tcmpi
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ela até mim. Estes e caminha i acompanham são „ J°s que a assist
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imitá-las. cs « trabalha ■
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a CSc?< inefável prodígio do ^Hhas c „ ^ tura,
a maior sant,ü^h"r cm pura C|1 virtudes
que jamais Cfj cc perfeição , potente. So
fim da Cv "u <> braço do Q, senhores e a Rainha ^ v'» -Senhor f mandaram-me que, * ''^a a criaçt^ sacramentos OglorifiQiestes
magna •,
tasse, cescrevesse o qü $Sc- ovasse, ■ ^ Deu-me o c^t.Cdc'« entende ss» nhor nestas tábuas. ^^"e eminente j Moisés, lei
para med;,^"10'" que us i var. escrita p<" «u p,)(í'f(S'2) c oh^ i»). Inspiro» '"'"ha v()Cr()Sodfdo (Êx Presença, dirigir-me | '"""«para, cm ^ Prometendo-"ic vcntCrPü''í"í'na Rai(% (
Puríssima Ran» minha
Primeiro Livro • CaPí,ul0
cia e com seu auxílio escrever sua vida santíssima, tendo em vista três objetivos: primeiro, que se conheça a profunda reverência devida ao Deus eterno, e como as criaturas devem se humi lhar, na medida em que Sua Majestade se lhes faz mais acessível. O efeito dos maiores favores e benefícios há de ser maior temor, reverência, solicitude e humildade.
Segundo, que o gênero humano esquecido de sua salvação, considere e conheça o que deve à sua Rainha e Mãe de piedade nas obras da redenção: o amor e reverência que Ela teve a Deus, e o que devemos ter a esta grande Senhora.
Terceiro, que o diretor de minha alma e todo o mundo, se for conveniente, conheçam minha pequenez, vileza, e má retribuição por tudo quanto recebo.
Oportunidade da obra
9. A este meu desejo respondeu a Santíssima Virgem: - Minha filha, o mundo está muito necessitado desta doutrina, porque não sabe e não tem a devida reverência ao Senhor onipotente. Por causa desta ignorância a audácia dos mortais provoca a retidão de sua justiça que os aflige e castiga. Vivem esquecidos de Deus, mergulhados nas trevas, sem saber procurar a salvação nem encontrar a luz. Isto é resultado da falta de temor e reverência que deviam ter pelo Senhor.
Estes e outros avisos deram-me o Altíssimo e a Rainha, para manifestar-me sua vontade a respeito desta obra. Pareceu-me temeridade e pouco amor a mim mesma, não aceitar a doutrina e ensinamento que esta grande Senhora prometeu dar-me, na descrição da sua vida santíssima. Tampouco julguei conveniente adiar para outro tempo, porque o Altíssimo manifestou-me ser este o oportuno e conveniente.
Sobre isto me disse estas pala vras: - Minha filha, quando enviei mei Unigênito ao mundo, este se encontras; no pior estado que havia tido desde c princípio, com exceção de alguns fiéis que me serviam.
A natureza humana é tão
imperfeita que não se
sujeitandoadireção interior de minha luz e prática dos ensinamentos de meus ministros; não submetendo seu próprio ditame para seguir a Mim que sou caminho, verdade e vida (Jo 14, 6), guardando meus mandamentose
minhaamizade, cairá logo em profundas trevas e inumeráveis misérias, de abismo em abismo, até obstinar-se no pecado.
Desde a criação e o pecado do primeiro homem até a lei que dei a Moisés, governaram-se pelas próprias inclinações, cometendo grandes erros e pecados (Rm 8, 13). Depois da lei os cometeram por desobedecê-la (Jo 7,19) e assim foram se afastando cada vez mais da verdade e luz. chegando ao maior esquecimento. Eu, com paternal amor, enviei a salvação eterna (Ef 3, 4, 5) e o remédio para as incuráveis enfermidades da natureza humana. Com isto justifiquei a minha causa.
Como, então, esperei o tempo no qual mais resplandecesse a misericórdia, quero agora fazer-lhes outra muito grande. Este é o tempo oportuno para dela usar enquanto não chegar a minha hora, na qual o mundo se encontrará com tantas dívidas e processos, que conhecerão justo motivo de minha indignação. Nessa hora manifestarei minha ira, justiça, eqüidade e quão justificada está minha causa.
Chegou o tempo em que melhor se há de manifestar o atributo de minha misericórdia, e no qual desejo que meu amor não fique inativo. Agora, quando o mundo chegou a tão infeliz época, depois que o Verbo se encarnou; quando os mor
Primeiro Livro - Capitulo I
tais se encontram mais descuidados do próprio bem e menos o procuram; quando mais se aproxima o fim de sua transitória vida, o pôr-do-sol do tempo, e a noite da eternidade para os reprovados; quando aos justos nasce o eterno dia sem noite; quando a maioria dos mortais jazem nas trevas da ignorância e das culpas, oprimindo os justos e zombando dos filhos de Deus; quando minha lei santa e divina é desprezada pela iníqua matéria de estado tão odiosa como inimiga de minha providência; quando os maus menos merecem; olhando para os justos que vivem neste tempo propício para eles, quero abrir a todos uma porta para entrarem em minha misericórdia. Acendo-lhes um farol para iluminar as trevas de sua cegueira, dou-lhes um oportuno remédio se o quiserem usar para voltarem à minha graça.
Felizes os que o encontrarem (Pr 3, 13 e s.) e bem-aventurados os que conhecerem seu valor. Ricos os que acharem este tesouro, felizes e muito sábios os que o explorarem reverentemente, para compreender seus mistérios.
Quero que saibam quanto vale a intercessão daquela que foi remédio de suas culpas, dando em seu seio, vida mortal ao Imortal. Quero que lhes sirvam de espelho onde vejam suas ingratidões, as maravilhosas obras, que meu poderoso braço operou nesta criatura. Mostrar-lhes-ei muitas das que realizei com a Mãe do Verbo, até agora ocultas por meus altos juízos.
Oportunidade das revelações
10. Não os manifestei na primitiva Igreja, porque são mistérios tão magníficos que os fiéis teriam ficado a estudá-los e contemplá-los, quando era mais necessário estabelecer a lei da graça eol.vangclho Ainda que ambas as coisas teriam sido compatíveis, a ignorância humana poderia ficar confusa, quando ainda estava uio IUI
princípio a fé na Enearnação. Redenção c preceitos da nova lei evangélica
Por isso, disse o Verbo humunade a seus discípulos na última ceia: 'Muitas coisas teria para vos dizer, mas agora nãc estais preparados para recebê-las'' (Jo 6, 12). Na pessoa deles falou ao mundo inteiro que ainda não eslava em condições dc receber o conhecimento d«>s IHISICIION d;. Mãe.
antes de estar estabelecida a graça c a fé em seu Filho.
Agora a necessidade í inaioi c ela me obriga mais do que o merecimento dos homens. Se me empenhassem reverenciando, crendo e conhecendo a\ maravilhas que cm si encerra ;i Mac dc piedade c sc dc coração solicitassem sua intercessão, o mundo poderia melhorar.
Não quero deixar de mostrar lhes esta mística cidade de refúgio. Dcsercvc-a delineando-a como conseguir tua limitação. Não quero que esta descrição dc sua vida componha-se de opiniões c hipóteses, mas seja a verdade certa Os que tem ouvidos para ouvir, (Mt 11,15) ouçam; os que têm sede (Ap 22, 17) venham às águas vivas e deixem as cisternas rachadas, os que desejam luz sigam-na até o fim - Palavra do Senhor Deus Onipotente
11. Estas são as palavras que me disse o Altíssimo na ocasião que referi. Satisfazendo a obediência que assim me ordena, explicarei no capítulo seguinte, para deixar esclarecido cm iodos os demais, o modo como recebo esta doutrina e luz; como contemplo 0 Senhor e as inteligências e misericórdias deste gênero me são comunicadas e descreverei adiante. 9 -M a t é r i a
Primeiro Livro - Capitulo I d e e s t a d o o u r a z ã o d e e s t a d o : p r i n c í p i o p o l í t i c o s o c i a l b a s e a d o n o i n t e r e s s e p ú b l i c o q u e n ã o l e v a e m c o n -s i d e r a ç ã o o s m o t i v o s d e f é e o s d i r e i t o s d e
Primeiro Livro - Capitulo I D e u s . ( N . d a T . )
Primeiro Livro - Capítulo 2
CAPITULO 2
EXPLICAÇÃO DO MODO COMO O SENHOR MANIFESTA À MINHA ALMA ESTES
MISTÉRIOS E A VIDA DA RAINHA. ESTADO EM QUE SUA MAJESTADE ME
COLOCOU.
12.
Para deixar declarado de uma vez, o modo como o Senhor manifesta-me estas maravilhas, pareceu-me conveniente escrevê-lo no princípio deste capítulo, onde explicarei como pudere me for concedido.Temores espirituais
13.
Desde que tive uso da razão, notei haver recebido do Senhor uma graça que julgo a maior que sua liberal mão me concedeu: um íntimo e grande temor de perdê-lo. Isto me tem incitado a desejar sempre, e praticar e pedir ao Altíssimo, o melhor e mais seguro.O temor dos juízos de Deus, o contínuo receio de perder a amizade do Todo-poderoso e a incerteza de nela estar, é um dardo com que Ele transpassou minha carne (SI 118, 120). Meu pão dia e noite tem sido as lágrimas (SI 41, 4) causadas por esta solicitude.
Nestes últimos tempos, quando os discípulos do Senhor que professam virtude devem ficar ocultos, sem se manifestar, esta inquietação me induziu a fazer grandes petições a Deus e a solicitar a intercessão da Rainha e Virgem pura,
supli cando-lhe com todo meu coração me guier e dirijam por um caminho reto e escondid aos olhos dos homens.
Visão de Deus
14. A estas instantes súplicas m respondeu o Senhor: - Não temas nem ti aflijas, que eu te darei um estado e caminhi de luz e segurança, de minha parte tãt oculto e estimável, que somente o auto dele o conhecerá. Todaexterioridade sujei ta a perigo te faltará desde hoje, e tet tesouro ficará escondido. De tua parti guarda-o e conserva-o levando vida per feita. Eu te porei numa senda oculta, clara verdadeira e pura; caminha por ela.
Desde essa ocasião, senti-me in teriormente mudada e num estado muite espiritualizado. Ao entendimento foi dada nova luz, sendo-lhe comunicadae infundida ciência, pela qual conhece o ser e operações de todas as coisas em Deus, na medida em que a vontade divina lhe quei manifestar.
Esta inteligência e luz que esclarece (Sb 7, 22) é santa, suave e pura, sutil.
aguda, nobre, certa e límpida; faz amar o tem e reprovar o mal; é um vapor (Idem 25) cia virtude de Deus e simples emanação de sua luz. E como espelho para o entendimento, e com a parte superior da alma e olhar interior vejo muito. Conhece-se que o objeto, com a luz que dele reverbera, é infinito, ainda que a vista seja limitada e curto o entendimento.
Esta visão é como se o Senhor estivesse assentado em trono de grande majestade, onde dentro dos limites da vida mortal se conhecem seus atributos com distinção. Cobre-o um como cristal puríssimo e através dele se entrevêem es-las maravilhas e perfeições de Deus. Grande é aclarezae distinção, não obstante íquele intermédio, véuou cristal que impele vê-lo inteira, imediata e intuitivamente.
A impossibilidade de ver o que sstá oculto, porém, não é penosa, mas Ldmirável para o entendimento. Entende |ue o objeto da visão é infinito, enquanto í limitado quem o contempla. Fica lugar >ara a esperança de afastar-se aquele véu ! cairo intermédio, quando a alma se despir la mortalidade do corpo, (2 Cor 5,4-6) se anto merecer.
afeitos da visão de Deus
15. Neste conhecimento há dois raus ou modos de visão, conforme a von-ide divina quer conceder, pois é espelho oluntário. Às vezes se manifesta mais laramente, outras menos; ora se mostram ns mistérios ocultando outros, mas sem-re grandes.
Esta diferença depende da dispo-ção da alma. Se não está com toda uietude e paz, ou cometeu alguma culpa a imperfeição, por pequena que seja, não ansegue ver esta luz no modo que digo, elo qual se conhece o Senhor com tanta claridade c certeza, que não deixa dúvida alguma no que se entende Entretanto, a percepção da presença dc Deus é anterior e maior do que o conhecimento de quanto Ele comunica. Aquela percepção, produz forte, suave c eficaz energia para amar, servir e obedecer ao Altíssimo.
Nesta claridade compreendem-sc grandes mistérios, quanto vale a virtude e quão preciosa coisa é possuí-la e praticá-la; entende-se a sua perfeição e segurança; sente-se uma força que arrasta para o bem, faz oposição e combate 0 mal I as paixões, c muitas vezes as domina
Se a alma goza desta luz e visão sem a perder, não é vencida (Sb 7, 30) porque lhe dá ânimo, fervor, segurança e alegria. Cuidadosa c solícita convida c eleva, dá presteza c brio, atraindo a si a parte superior da alma sobre a inferior. Até o corpo se torna leve e como espiritual izado durante esse tempo, suspendendo seu gravame e peso.
Transformação em Cristo
16.
Sentindo a alma estes doces efeitos, com amoroso afeto diz ao Altíssimo: - Leva-me após ti (Ct 1, 3) e correremos juntos. Unida com seu amado não sente as operações terrenas, e deixando-se levar pelo odor destes perfumes de seu querido, vem a ficar mais onde ama do que onde anima. Abandona a parte inferior e quando para ela volta é para aperfeiçoá-la, refor-mando e degolando os animais apetites das paixões. Se por acaso querem se revoltar, expulsa-os da alma com rapidez, pois já não sou eu que vivo (Gl 2,20), mas é Cristo que vive em mim.Cristo vivendo na alma
17.
Sente-se aqui, de certo modo, em todos esses movimentos e santas operações, a assistência do Espírito de Cristo que é Deus e vida da alma (ljo 5,11-12). Percebendo-se no fervor, no desejo, na luz, naeficácia para agir, uma força interior que somente Deus pode produzir.Sente-se na virtude desta luz eno amor que produz, uma voz interior contínua e viva, que prende a atenção a tudo o que é divino e abstrai do que é terrestre.
Em tudo isto manifesta-se viver Cristo em mim, com sua virtude e luz que sempre brilha nas trevas. É propriamente estar nos átrios da casa do Senhor, porque a alma se encontra onde se reflete a claridade da lâmpada do Cordeiro (Ap 21,23).
A ação da graça
18.
Não digo que a luz seja total. Mas sendo apenas uma parte, já é um conhecimento além das forças e capacidade da criatura.Para esta visão o Altíssimo forta lece o entendimento, dando-lhe cert qualidade de luz que proporcione esta fa
culdade ao conhecimento superior às sua forças. Isto também é compreendido pel certeza com que se crêem ou se conhecen as demais coisas divinas.
Entretanto, a fé também acompa nha a certeza, e neste estado mostra t Todo-poderoso à alma, o valor desta ciên cia e luz que lhe infunde. Sua claridade (SI 7,10-13) não pode ser extinta, e todos o bens me vieram juntamente com ela, e po suas mãos uma honestidade de grandt preço.
Esta lâmpada vai em minha frente dirigindo meus caminhos; aprendi-a sen intenções reservadas (Idem 8, 16, 18) desejo comunicá-la sem inveja e não es condo suas riquezas; é participação dt Deus, e seu uso é bom deleite e alegria.
Num momento ensina muito, con quista o coração, e com força poderosa t afasta da falsidade que, vista nesta luz está repleta de imensa amargura. A alma s< afasta do que é transitório, e correndo s< refugia na sagrada e eterna verdade, entr; na adega (Ct 2,4) do capitoso vinho, ond< o Altíssimo ordena em mim a caridade.
Obriga-me a ser paciente (lCoi 13,4) e sem inveja; benigna sem ofendera ninguém; a não ser soberba nem ambicio sa; que não me ire nem pense mal de ninguém; que tudo sofra e tolere; semprt clama (Pr 8,1) e admoesta-me interiormen te com poderosa força, para que faça o mais santo e puro, instruindo-me em tudo. E, se falto, ainda em pequenas coisas, repreende-me sem nada deixar passar.
Conhecimento místico
19. Esta luz a um tempo esclarece, afervora, instrui, repreende, transforma e
Primeiro Livro - Capílulo 2
vivifica. chama e detém, admoesta, impele, ensina com distinção o bem e o mal, o sublime e o profundo, a longitude e a latitude (Ef 3,18). Faz conhecer o mundo com seu caráter e enganos, as mentiras e fraudes de seus moradores e amadores, e mais que tudo. ensina-me a desprezá-lo e pisá-lo, para elevar-me ao Senhor, supremo dono e governador dc tudo.
Em Deus vejo e conheço a disposição das coisas (Sb 7, 17-20), as forças dos elementos, o princípio, o meio e o fim dos tempos, suas mudanças e variações, o curso dos anos, a harmonia dc todas as criaturas e suas propriedades.
Tudo o que é oculto aos homens, suas operações e pensamentos e quanto distam do Senhor; os perigos em que vivem, os sinistros caminhos que palmilham; os estados, os governos, sua momentânea firmeza e pouca estabilidade; em que consiste seu princípio e fim, o que têm de verdadeiro ou falso. Com esta luz tudo é visto distintamente em Deus. com conhe-cimento das pessoas e circunstâncias.
Há, porém, outro estado mais inferior no qual a alma se encontra ordinariamente, usando da substância e hábito da luz, mas não em toda a claridade. Neste estado há alguma limitação daquele conhecimento tão vasto de pessoas e estados, segredos e pensamentos. Nele não possuo mais conhecimento além do que basta para afastar-me do perigo e fugir do pecado.
Compadeço-me das pessoas, com verdadeiro amor. mas não tenho liberdade para lhes falar com clareza e descobrir-lhes D que sei. Nem poderia fazê-lo, porque Dareço emudecer, a menos que o autor iestas obras me permita e ordene que idmoeste algum próximo. Quando o faço, lão é revelando-lhes o modo como cheguei ao conhecimento de suas lecessidades, mas sim falando-lhes ao coração com reflexões simples. dcsprclen. siosas c caritativ;is em I >cus. além dc rezar por estas intenções, pois para tanto me são manifestada!
20. Ainda que eu tenha conhecido tudo isio com clareza, jamais o Senhor mostrou-meotriste funde alguma almaque se haja condenado A providência divina guarda esta ordem, poi sei |iisii> não mani
festar,
sem gravíssimas razoes, a condenação de alguém.Julgo que se o visse. i»,,rrcriacom a dor produzida pelo conhecimento ucssa luz, pois imensa é a pena de saber que uma alma perdeu a Deus para sempre, lenho-lhc suplicado não me mostrar ninguém que se condene. Se com minha vida posso |jvrar disso a alguém que esteja cm pecado,
não recusarei o trabalho nem a previsão dele; todavia, quem não pode se salvar, não o veja eu.
Uso da luz divina
21. Esta luz mc é dada não para revelar meu privilégio pessoal, mas para dele usar com prudência c sabedoria. Fica-me esta luzeomo uma subslânciaquecniana de Deus e vivifica, anula que si|" acidental, e o hábito para dela usar, ordenando bem os sentidos e a parte inferior A parte superior do espírito, porém, sempre goza da visão e estado dc paz. t conheço jnle_ lectualmentc lodosos mistérios da Rainha do céu c outros muitos da fé. 1uc me são mostrados e quase incessantemente os tenho presentes; pelo menos, a luz nunca a perco de vista.
Se às vezes desço, como criatura, pondo a atenção no convívio humano, logo mc chama o Senhor com insistência e suave força, c me faz. voltar a atenção para suas palavras, locuções, c para o conheci-mento dos mistérios, praças virtudes e
Primeiro Livro - Capítulo 2
obras exteriores e interiores da Virgem Mãe, conforme irei descrevendo.
Visão de Nossa Senhora e dos Anjos
22.
Deste modo, nos estados de luz que digo, vejo também a Senhora e Rainha nossa quando me fala, e aos santos anjos em sua natureza e excelência. Algumas vezes vejo-os no Senhor, e outras em si mesmos, com a diferença que para conhecê-los em si mesmos, desço a grau inferior. Sinto essa diferença porque ela resulta dos objetos e da maneira como o entendimento opera.Neste grau mais inferior vejo, falo e entendo os santos espíritos, que conversam comigo e me explicam muitos dos mistérios que o Senhor me tem mostrado. A Rainha do céu me explica e mostra os de sua vida santíssima com seus admiráveis sucessos. Distintamente conheço cada uma destas pessoas, sentindo os efeitos divinos que, respectivamente, cada qual produz na alma.
Visão só de Deus e das criaturas em Deus
23.
No Senhor vejo-os como num espelho voluntário, mostrando-me Sua Majestade os santos que quer, conforme lhe apraz, com grande claridade e efeitos maiores e superiores.Com admirável luz, conhece-se o Senhor e os santos, com suas excelentes e extraordinárias virtudes, e como as praticaram, auxiliados pela graça, porcujavirtude tudo puderam (Fl 4, 13).
Neste conhecimento a criatura fica mais repleta de gozo, cheiade mais vida e satisfação, e permanece como no repouso de seu centro. Quanto mais intelectual.
menos corpóreo e imaginário o conht mento, mais intensa a luz, os efeitos n elevados, maior a substância e a cert que se sente.
Todavia, aqui também se perc a diferença e se conhece que a visão Senhor, seus atributos e perfeições, e c
seqüentes efeitos dulcíssimos e inefáv é superior à visão e conhecimento criaturas, ainda que esta visão seja mesmo Senhor.
Esta inferioridade parece-me f ceder daalma. Sendo tão limitada sua vis vendo a Deus junto com as criaturas, i o conhece tanto como quando O vê s elas. Ver só a Deus oferece maior pleniti de gozo do que ver as criaturas em Dt Tão delicado é este conhecimento da vindade que, durante ele, prestar aten< a outra coisa o diminui um tanto, p menos enquanto somos mortais.
Modo de receber as comunicaç divinas
24. No estado mais inferior, qual tenho falado, vejo a Virgem Santíssi em si mesma e aos anjos. Entendo qu modo de me ensinarem, falarem, e ilusi rem é semelhante ao modo como os an se comunicam entre si, e como os supei res iluminam os inferiores.
Deus, causa primeira, dá esta I mas ela é participação daquela imensa 1 que Maria Santíssima goza com tanta f nitude. É comunicada à parte superior alma, e nela vejo a Ssma. Virgem, Si prerrogativas e mistérios, do modo com anjo inferior conhece o que lhe comun o superior.
Da eficácia da doutrina que er na, e por outras condições que se sent e gozam, infere-se a pureza, elevaçãt verdade da visão. Nada obscuro, impu
Primeiro Livro - Capítulo 2
falso, ou suspeito aí se nota, e tudo o que é santo, puro e verdadeiro não deixa de estar presente. O mesmo acontece, a seu modo, com os santos anjos e assim o Senhor me tem mostrado, muitas vezes, que a comunicação e ilustração em meu interior é como a que eles têm entre si.
Muitas vezes me acontece receber a iluminação através de todos estes canais e aquedutos: o Senhor dá a inteligência e luz, ou o objeto dela; a Virgem Santíssima a explica e os anjos me dão os termos. Outras vezes, mais ordinariamen-te,o Senhor faz tudo e me ensina a doutrina. Outras é a Rainha ou os anjos que me dão tudo.
Costumam também dar-me apenas a inteligência, e os termos para me declarar tomo-os do que tenho entendido. Nisto poderia errar se o permitisse o Senhor, porque sou mulher ignorante e me valho do que tenho entendido. Quando tenho dificuldade em expor as inteligências, nas matérias mais árduas e difíceis, recorro a meu mestre e pai espiritual.
Visões inferiores
25. Nestes tempos e estados. :enho muito poucas vezes visões lorpóreas, apenas algumas imaginárias. D grau destas é muito inferior a todos os ;utros graus que tenho descrito. Estes Io muito superiores, por serem espiritu-is ou intelectuais.
O que posso assegurar é que cm todas as inteligências, grandes tx. qucnas,
inferiores e superiores, recebidas do Senhor, da Santíssima Virgem e dot santos anjos, me c dada ahiindaiiiíMnu luz e doutrina muito proveitosa, na qual conheço a verdade, a maior perfeição t santidade. Sinto força c luz divina que
me obriga a fazer em tudo 0 melhor, | desejar mais pureza dc alma c graça do Senhor, até morrer por ela.
Com estes graus c modos de inteligência que tenho dito. conheço todos os mistérios da vida da Rainha do céu, com grande proveito e júbilo dc meu espírito.
Por tudo isto, de toda a minha mente e coração, exalto ao Todo-poderoso, glorifico-o, adoro-o c o confesso por santo e Onipotente Deus, forte c admirável, digno de louvor, magnificência. glórja e reverência por todos os séculos. Aniém.
Primeiro Livro - Capítulo J
CAPITULO 3
INTELIGÊNCIA QUE TIVE SOBRE A DIVINDADE E O
DECRETO DE DEUS PARA CRIAR TODAS AS COISAS.
Louvor ao Altíssimo
26. Ó altíssimo Rei e
sapientíssimo Senhor, quão
incompreensíveis são teus juízos (Rm 11, 33) e inescrutáveis teus caminhos! Deus invencível, que sem ter origem, hás de permanecer para sempre (Eclo 18, 1)! Quem poderá conhecer tua grandeza e contar tuas magníficas obras? Quem te poderá argüir por que assim fizeste? (Rm 9, 20) Pois tu és Altíssimo acima de todos e nossa vista não te pode alcançar, nem o nosso entendimento compreender.
Bendito sejas, magnífico Rei, porque te dignaste mostrar a esta tua escrava e vil bichinho grandes sacramentos e altíssimos mistérios, elevando e arrebatando meu espírito onde vi o que não saberei explicar.
Vi ao Senhor e Criador de todos, em si mesmo, antes de criar qualquer coisa; ignoro o modo como me foi mostrado, mas não o que vi e entendi. Sabe Sua Majestade, que tudo compreende, que para falar de sua deidade, meu pensamento suspende-se, minha alma perturba-suspende-se, minhas faculdades em suas operações paralisam-se. A parte superior abandona a inferior, deixa os sentidos e
voa para quem ai abandonando a quem anima. Nestes de lentos e delíquios amorosos meus ol derramam lágrimas e minha língua emu
ce.
Oh! Altíssimo e incompreensí Senhor meu, sem medida e eterno, obj infinito do meu entendimento! Como tua presença me sinto aniquilada, meu apega-se ao pó, quase não percebendt que sou! Como esta pequenez e miséria atreve a contemplar tua magnificênci; grande majestade? Conforta, Senhor meu ser, fortalece a minha visão, encor meu temor, para que possa dizer o que em obediência às tuas ordens.
O Mistério da Ssma. Trindade
27. Com o entendimento, vi Altíssimo como estava em si mesmo. Ti a clara inteligência e notícia verdadeira que é um Deus infinito em substância atributos, eterno, suma trindade: três p< soas e um só Deus verdadeiro. Três, porq realizam as operações de se conhecer, compreender e se amar; e só um, por cc seguir o bem da unidade eterna.
Primeiro Livre - Capitulo )
É trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai não é feito, nem criado, nem gerado, nem o pode ser, ou ter origem. Conheci
que o Filho
procede somente do Pai por eterna geração e são iguais em duração e eternidade, gerado pela fecundidade do entendimento do Pai. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho por amor.
Nesta indivisível Trindade não lá coisa que se possa dizer anterior nem josterior, maior ou menor. As três pesso-is, em si. são igualmente eternas e ítemamente iguais. É uma unidade de es-.ência em trindade de pessoas, um Deus na ndivisível trindade, e três pessoas na uni-lade de uma substância. Não se confundem is pessoas por ser um só Deus, nem se livide ou separa a substância por serem rês pessoas.
Sendo distintas entre si, é a mes-naadivindade do Pai. do Filhoedo Espírito ianto. Igual a glória, a majestade, o poder, eternidade, a imensidade, a sabedoria, a antidade e todos os demais atributos. E, inda que sejam três as pessoas nas quais ubsistem estas infinitas perfeições, é um ó Deus verdadeiro, Santo, Justo, Podero-o, Eterno e sem medida.
Operações,ntiiitniMi"1-^
28. Recebi também ^ de que esta divina Tnndaúc Sc f gCnt'a com uma
visão simples, sem O*?*0" cessaria
nova, nem distinta ,„„. Ja nC-° pai o
mesmo que o Fi"><>. c „ F*, Sahe
Espíht0 Santo o mesmo que <, "<> c 0 se entre si reciprocamente ' ma
m-mesmo amor imenso c eterno. f; um
dade de entender, amar. ;tg,r ( a
<">i-indivisívcl, uma simples, int()r8Ua' e
indivisível naturc/.a, um ser <jc ^ Pürca da^eiro. em quem estão ff "s ver.
concentradas todas as perfeiçc^ f as e Premo c infinito grau
comparação, eterno sem <cmpo, Sem fraqueza, vida sem mortandade, Sem ro sem falsidade; presente em
jTl
*dei-ln
g a r es enchendo-os sem os 0*^* °s tando
em uxlas as coisas, sem CX( r> es-não tem contradição na rKinda(J(,ef,sâ°: Meilo
na sabedoria; nela i mc.S(j^ nem lerrívei nos conselhos, justo ,l()s uvel. menios, secretíssimo m« Pensu,,,^'^-verdadeiro nas palavras, santo ^ ",0s; rico em
tesouros; a quem ncm 0 'ifn»a, nem a tentara * Nl» ancn. muda a vontade, náo se pcrlurba Z***0 ""'síe. as coisas
passadas não lhc de"m o recem nem as futuras HN»d0J||; , Sana-nem a origem deu
princípio, nem
q
.^"i dará fim. C|,1Po Oh! eterna imensidade, (Jü terminaveis espaços vi em ,j; ctrt-infinidade reconheço em vosso jnr/t>Ue "nito ao ser imutável, o ser acima de todo o ser, a santidade perfeitíssima, a verdade constantíssima; é o infinito, a latitude, a longitude, a altura, a profundidade, a glória e sua causa, o descanso sem fadiga, a bondade em grau imenso. Vi tudo juntamente e não acerto explicar o que vi.
30.
Vi ao Senhor como estava antes de criar qualquer coisa. Com admiração reparei onde se encontrava o Altíssimo, porque não havia céu empíreo, nem os outros inferiores, nem sol, lua, estrelas e elementos, e somente existiao Criador sem nada haver criado. Tudo estava deserto, sem o ser dos anjos, dos homens e dos animais.Conheci - necessariamente se há de concordar -, que estava Deus em seu mesmo ser, e que não teve necessidade nem precisão de tudo quanto criou. Tanto antes como depois da criação, infinito em seus atributos, sempre os possuiu e possuirá por toda a eternidade, em virtude de seu ser independente e incriado.
Nenhuma perfeição completa e simples pode faltar à sua divindade, porque somente ela é a que é, e contém em si, por inefável e eminente modo, todas as perfeições que se encontram nas criaturas. Tudo quanto existe, encontra-se naquele ser infinito como efeitos em sua causa.
Ciência de simples inteligência
31.
Conheci, pois, que estando o Altíssimo em si mesmo, decretou-se entre as três divinas pessoas - a nosso modo de entender - a comunicação e dom de suas perfeições.Deve-se advertir, para melhor me explicar, que Deus entende todas as coisas com um ato indivisível e simplicíssimo, sem sucessão de raciocínio. Não passa do conhecimento de uma coisa para outra, cor nós procedemos, raciocinando e conh cendo primeiro uma, com um ato i entendimento, e depois outra com um o tro ato.
Deus tudo conhece juntameni de uma só vez, sem que haja em seu infini entendimento, anterior e posterior. Ne todas as coisas estão juntas no conhe< mento e ciência
23
su-29.Conhec.aspronr,edadçsdes tas perfeições do Alnss""" *" ,,,r'"<»s„seiTJ
Não há fronteiras p*V v>Oo,
Primeiro Livre - Capitulo )
divina incriada, como estão no ser de Deus, onde se encontra contidas e encerradas como em primei princípio.
Deus antes da Criação
32.
Esta ciência que se chama < simples inteligência, por motivo do ente dimento naturalmente preceder à vontad há de se considerar em Deus, não p ordem de tempo, mas de natureza. Segui do esta ordem, supomos que exercite primeiro o ato de entendimento e depois da vontade, porque estamos a consider só o ato de entender, antes do decreto ( criar qualquer coisa.Neste estado ou instante, portai to, conferiram as três pessoas divinas, co aquele ato de entender, a conveniência d; obras ad extra, a saber, todas as criatur: que existiram e existirão no futuro.
Ciência de visão
33.
Apesar de indigna, manifesti a Sua Majestade o desejo de saber qual f< o lugar que na mente divina teve a Mãe c Deus, Rainha nossa, quando Ele determ nou criar todas as coisas, segundo a ordei que estabeleceu, ou que nós podeme entender.Como puder, explicarei o que m foi respondido, como também a ordem qu
Primeiro Livro - Capítulo .1
entendi nesta idéias em Deus, reduzindo-as a instantes. Sem isto, a nossa capacidade não se pode acomodar à notícia desta ciência divina, chamada aqui ciência dc visão. A ela pertencem as idéias ou imagens das criaturas que decretou criar c conserva ideadas em
sua mente, conhe-cendo-as
infinitamente melhor que nós ao vê-las agora.
34. Esta divina ciência é una. simplicíssima e indivisível, mas como as coisas a que se refere são muitas, existe entre elas ordem de sucessão; umas são anteriores, outras posteriores, umas rece-bemexistênciade outras com aconseqüente e mútua dependência entre si.
Por esta razão nos é necessário dividir a ciência dc Deus. c ,>u(ro ,an|o ( vontade, cm muitos atos corrc.sr.()njcn|es a diversos instantes, segundo a iX(jcm dos objetos. Deste modo dizemos quc entendeu c detenninou primei ro ,M„C aq(jj |o e uma coisa por causa dc outra, c que se primeiro não quisesse ou conhecesse com ciência de visão uma coisa, não quereria outra
Com isto náo se dcvc (K.nsar que Deus teve muitos atos dc entender e querer, mas queremos significar qUc as coisas estão entre si encadeadas e sucedem-se umas às outras. lmaginando-as C()rn es(a ordem objetiva, para melhor enicndc-la, transpomos a mesma ordem a„v a(os da divina ciência c vontade.
Primeiro Livro - Capítulo .1
10)
CAPÍTULO 4
DISTRIBUEM-SE POR INSTANTES OS DIVINOS DECRETOS,
DECLARANDO O QUE EM CADA UM DEUS DETERMINOU A
RESPEITO DE SUA COMUNICAÇÃO
AD EXTRA.
Deus é comunicativo - 1" instante 35. Entendi que esta ordem - referida no fim do capítulo precedente -, devia ser distribuída pelos seguintes instantes:
Primeiro: aquele no qual Deus conheceu seus divinos atributos e perfeições, com a inefável inclinação de comunicar-se fora de si.
Por este primeiro conhecimento de ser comunicativo ad extra, viu Deus que suas infinitas perfeições possuíam virtude e eficácia para realizar magníficas obras, e que para tão suma bondade era convenientíssimo justo e como necessário a doação de si mesmo. Procederia de acordo com sua propensão expansiva, e exercitaria sua liberalidade e misericórdia, ao distribuir com magnificência, fora de si, a plenitude dos infinitos tesouros encerra-dos na Divindade.
Sendo em tudo infinito, distribuir dons c graças lhe é muito mais natural que o fogo subir à sua esfera, a pedra descer ao centro e ao sol derramar sua luz. Este mar profundo de perfeições, esta abundância de tesouros, esta caudalosa infinidade de riquezas, tendem a comunicar-se por sua mesma inclinação.
Além disso. Deus sabiaque abrindo aquele inesgotável manancial de riquezas, para comunicar dons e graças, não iria diminuí-lo, mas no modo possíwl aumentá-lo.
Deus é feliz em se dar
36.
Tudo isto viu Deus naquee instante, depois da comunicação ad inta pelas eternas processões. Vendo-o, sentiu-se como obrigado, por amor a si mesnr.'. a comunicar-se ad extra, conhecendo si santo, justo, misericordioso e piedoso a sim fazer.Ninguém o poderia impedir e cofr forme ao nosso modo de entende:, podemos imaginar que Ele não se sentii tranqüilo nem em repouso em sua naturezi enquanto não estivesse entre as criaturas com as quais tem suas delícias (Pr 8,13i ao fazê-las participantes de sua divindaa e perfeições.
A infinita generosidade divina
37.
Duas coisas neste conhec mento admiram, arrebatam, enternecem mei tíbio coração e o deixam aniquilado:A primeira, aquela inclinação que vi em Deus e o ímpeto de sua vontade para comunicar sua divindade e os tesouros de sua glória.
A segunda, a imensidade inefá-vel e incompreensíinefá-vel dos bens e dons que, compreendi, queria e reservava para distribuir, continuando infinito como se nada tivesse dado. Conheci nesta sua inclinação e grandeza, que estava disposto para santificar, justificar e encher de dons e perfeições a todas as criaturas reunidas e cada uma em particular.
Mesmo que as gotas do mar e sua areia, as estrelas, plantas, elementos e todas as criaturas irracionais fossem dotadas de razão e capazes de receber seus dons, dispondo-se dispondo-sem apredispondo-sentar óbice que os impedisse, teria dado a cada uma ainda mais do que receberam todos os santos, anjos e serafins juntos Oh! terribilidade do pecado e sua malícia, tu somente bastas para impedir a impetuosa torrente de tantos bens eternos!
A glória de Deus, razão de sus obras -2" instante
38. O segundo instante consistiu cm conferir e decretar esta comunicação da Divindade por razões e motivos que redundassem na maior glória, exaltação e manifestação da grandeza de Sua Majestade ad extra. Esta exaltação de si mesmo, seu conhecimento, louvore glória, foi o fim visado por Deus ao comunicar-se pela revelação, ao expandir seus atributos e ao usar de sua onipotência.
) Verbo encarnado, protótipo da latureza humana - 3° instante
39. O terceiro instante consistiu em conhecer e determinai a disposição 0u modo desta comunicação, dc lorina que fosse realizada a suprema finalidade detão grandiosa obra. Foi estabelecida a ordem que deveria haver nos objetos, e os diferentes modos dc lhes comunicar a divindade c seus atributos, dc sorte que aquela inclinação do Senhor tivesse digna razão, objetos proporcionados, c entre eles a mais bela e admirável disposição, harmonia e subordinação.
Neste instante foi determinado, em primeiro lugar, que 0 Verbo divino se encarnasse fazendo-se visível. Dccretou-se a perfeita compleição da humanidade santíssima dc Cristo, que assim ficou criada na mente divina, como tipo dos outros homens.
Para estes, em segundo |Ugar, projetou a divina mente a harmonia da natureza humana, composta dc corpo or-gânico, e alma espiritual. Esta com capacidade para conhecer e gozar de seu Criador, com discernimento entre o bem e o mal, e com vontade livre para aniar ao Senhor.
A ordem na comunicação de l)eus aa-extra - União hlpOitátíct
40. Entendi que I união hipostática da segunda pessoa da Santíssima Trindade com a natureza
humana, forçosamente devia ser a primeira onra e objeto do entendimento c da vontade divina ad extra. Isto por altíssimas razões que tentarei explicar 0 quanto puder.
Depois de haver Deus sc conhe-cido e amado em si mesmo. I melhor ordem era conhecer e amar ao que estava niais próximo à sua divindade: a união hipostática. Outra razão c porque a
divindade devia comunicar-se
substancialmente ad extra, assim como havia se comunicado
ad intra. Deste modo, a intenção e vontade divina começaria suas obras pelo vértice de todas elas, e prosseguiria comunicando seus atributos com perfeitíssima ordem.
O fogo da divindade operaria primeiro, e quanto possível, no que se encontrava mais imediato a Ela, como era a união hipostática. Sua divindade seria comunicada em primeiro lugar, a quem
houvesse de chegar ao mais alto e excelente grau, depois do mesmo Deus, no conhecimento, no amor, operações e glória de sua mesma deidade.
Não queria Deus, - ao nosso baixo modo de entender - correr o risco de não conseguir este fim, sendo Ele o único ser capaz de justificar tão maravilhosa obra e ter com ela adequada proporção. Se Deus queria criar muitas criaturas, também era conveniente e como necessário, criá-las com harmonia e subordinação, e que esta fosse a mais admirável e gloriosa possível.
De acordo com isto, deviam ter uma por cabeça suprema, quanto possível imediata e unida a Deus, e pela qual passassem todas as demais para chegar à divindade.
Por estas e outras razões que nãc posso explicar, somente o Verbo humanado pôde satisfazer à dignidade das obras de Deus. Por Ele estabeleceu-se perfeita ordem em a natureza, ordem que, sem Ele, haveria faltado.
Humanidade de Cristo - 4° instante
41.
No quarto instante decretou os dons da graça que seriam dados à humanidade de Cristo Senhor nosso, unida à divindade. Aqui abriu o Altíssimo a mão de sua liberal onipotência e atributos, para enriquecer aquela santíssima humanidade e almade Cristo com a plenitude de dons e graças, no máximo grau possível.
Neste instante foi determinado o que depois disse David (Ps 45,5): acorren-teza do rio da divindade alegra a cidade de Deus. Dirigiu o caudal de seus dons a esta humanidade do Verbo. Comunicou-lhe toda a ciência infusa e beatífica, graça e glória que sua alma santíssima podia comportar, convenientes ao ser que era juntamente Deus e homem verdadeiro. Por esta razão, seria cabeça de todas as criaturas capazes de graça e glória. De sua plenitude é que receberiam esta graça e glória, como trans-bordamento da sua imensa torrente.
A Mãe de Deus
42.
A este mesmoinstante, consequentemente, e como em segundo lugar, pertence o decreto da predestinação da Mãe do Verbo humanado. Aqui compreendi, que esta pura criatura foi ordenada antes que houvesse decreto de criar qualquer outra coisa.
Deste modo, antes de todos, foi concebida na mente divina, na forma que convinha à dignidade, excelência e dons
Primeiro Livro - Capitulo 4
Criação dos
da humanidade de seu Filho santíssimo. Com Ele, imediatamente encaminhou-se para Ela toda a correnteza do rio da divindade e seus atributos, quanto era capaz de o receber uma pura criatura, e do modo conveniente à dignidade de Mãe de Deus.
| Sublimidade de Maria Santíssima 43. Confesso que a inteligência que recebi destes altíssimos mistérios e decretos, arrebatou-me de admiração, deixando-me fora de mim.
Conhecendo esta santíssima e puríssima criatura, formada e criada na mente divina, desde ab initio antes de todos os séculos, com alvoroço e júbilo de meu espírito glorifico ao Todo-poderoso, pelo admirável e misterioso decreto em criar-nos tão pura, grande, mística e divina criatura, mais para ser admirada com
louvor por
todas as
demais, do que para ser descrita por alguma.
Nesta
admiração, eu poderia dizer o mesmo que São Dionísio Areopagita (S. Dion. in epist. ad Paulum): se a fé não mc ensinasse, e a inteligência do que estou contemplando não me desse a conhecer que é Deus quem a está formando em sua idéia, e que somente sua onipotência podia e pôde formar tal imagem de sua divindade - se tudo não me fosse mostrado ao mesmo
tempo - poderia supor que a Virgem Mãe tinha em si divindade.
j
Maria ultrapassa o resto da criação 44. Oh! quantas lágrimas correm de meus olhos, e que dolorosa admiração sente minha alma, ver que este digno prodígio não é conhecido e que esta maravilha do Altíssimo não se revele a todos os mortais!. ,„sc sabe, mas muito mais se MU este livro selado nã0 foj ignora, porque ^ ^ ^ () aberto. Fico CS(.ibcrnacl,lo de Deus. mento deste ^ é mais admirá Reconheço qu<: io do que no resto de vel em sua ,or"J()t. .uferioracstaSenho-tudooqucétri^ djversjdadc dc criaturas ra, ainda que ' |mcnIe o poder de seu manifesta adn"r
Criador nte ncstaRa'nhade,odas-SOn!nais tesouros que em t0das encerram-se r Ja(Jc c prcço dc suas rique. juntas, e a vari ^ scU Autor d() ^ zas engrandeec todas as criam1'
i0 para Cristo e \1aria Tudo foi cn» 45. Mü der, foi Pr0,,1<;;d"adc, pcrfei<,ao c dons de contrato, a *an&iqüda qUe seria sUa Màe
amparo e defesa cidade dc DeUs. Nela
'crd-adCMajCstadc as graças e
contemplou Sua My»—
merecimentos </uc o amor e a ij<ici desta Senhora haveria dc ãdtmirir Dara ^ Para seu povo. Sle
30
I
,a nosso modo deenten-,ida ao Verbo, como em sant graça e glória Foi prevista a iPrimeiro Livro - Capitulo 4
Neste mesmo instante. eCQrj) terceiro
lugar, determinou Deus crjar. * onde o
Verbo humanado c sua Màc p sem
habitare conviver. Para cksCfK)fcs' em
primeiro lugar, criou ocóuca tCrra ees' seus astros e elementos c quarito Com
contêm. Secundariamente, foram dCs,
dos para os membros c vassalos d0s *
Cristo seria cabeça e rei, pois cnn^^ Previdência todo ° necessário overii cm ■
ente foi dc antemão disposto c pr
4 í ,
31
5" instante anj<>s:A, passo ao 5o infante, ai„à 46' o que procurava, já encontre"»1
Primeiro Livro - Capítulo 4
Neste, foi determinada a criação da natureza angélica que, por ser mais excelente e semelhante, no ser espiritual, à divindade, foi prevista e decretada antes dos homens. Foi também prevista a admirável disposição dos nove coros e três hierarquias.
Sendo criados, antes de tudo, para a glória de Deus, para conhecer, amar e servir sua divina grandeza, foram secundariamente ordenados para assistir, glorificar, honrar, reverenciar e servir à humanidade deificada no Verbo eterno, sua cabeça. Em seguida, fariam o mesmo por sua Mãe Santíssima, Rainha dos anjos. A estes foi dada a incumbência de, em todos os caminhos, levarem a ambos em suas mãos (SI 90, 12).
Neste instante, mereceu-lhes Cristo Senhor nosso, com seus infinitos merecimentos atuais e previstos, toda a graça que receberiam. Seriam vassalos desta cabeça, modelo e supremo Rei. Mesmo que o número dos anjos fosse infinito, seriam suficientíssimos os méritos de Cristo para lhes merecer a graça.
Criação do paraíso e do inferno
47. A este instante pertence a predestinação dos bons anjos e reprova-ção dos maus. Conheceu Deus, com sua ciência infinita, todas as obras de uns e outros, para predestinar, com sua livre vontade e liberal misericórdia, aos que lhe haviam de obedecer e reverenciar. Pela justiça reprovava aos que se insurgiriam contra Sua Majestade, com a soberba e desobediência nascidas do desordenado amor próprio dos rebeldes.
No mesmo instante foi determinado criar: o céu empíreo, onde sua glória fosse revelada para recompensa dos bons; a terra e o mais para outras criaturas; e, no centro e profundo dela, o inferno par castigo dos maus anjos.
Criação dos homens - 6" instante
48. No sexto instante foi determi nado criar povo e sociedade de homen para Cristo, já antes predeterminado m mente e vontade divina, e a cuja imagem < semelhança se decretou a formação d( homem. Assim, o Verbo humanado terii irmãos semelhantes e inferiores, formandi povo de sua mesma natureza e dcr'qual seri cabeça.
Neste instante, determinou-se ordem da criação de todo gênero humano tendo por origem um só homem e mulhei destes se
propagariam até a Virgem e sei Filho pelo modo em que foi concebido.
Ordenou-se, pelos
merecimento de Cristo, nosso bem, a graça e dons qui seriam dados aos homens, inclusive a jus tiça original, se nela quisessem perseverat Viu-se a queda de Adão e de todos nele com exceção da Rainha, que não foi inclu ida neste decreto. Para seu remédii ordenou-se que fosse passível a humani dade santíssima. Foram escolhidos o predestinados, por liberal graça, e reprova dos os proscritos por reta justiça.
Ordenou-se todo o necessárit para a conservação da natureza, em orden a conseguir sua redenção e predestinação Foi-lhe deixada a liberdade da vontade porque isto era mais conforme à sua natu reza e à eqüidade divina.
Não se lhes fez agravo, porque si pelo livre arbítrio poderiam pecar, com graça e luz da razão poderiam não fazê-lo Deus a ninguém haveria de coagir, comi tampouco a ninguém recusa o necessário Se gravou sua lei no coração humano (S 4, 7) ninguém tem desculpa em nã< reconhecê-lo e amá-lo como ao sumo ben e autor de toda a criação.