• Nenhum resultado encontrado

AS INTERFACES DA CONVIVÊNCIA COM O SEMI-ÁRIDO: O P1MC COMO EXPRESSÃO DA LUTA PELA ÁGUA E PELA TERRA 1. Danielle Leite Cordeiro 2

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "AS INTERFACES DA CONVIVÊNCIA COM O SEMI-ÁRIDO: O P1MC COMO EXPRESSÃO DA LUTA PELA ÁGUA E PELA TERRA 1. Danielle Leite Cordeiro 2"

Copied!
7
0
0

Texto

(1)

AS INTERFACES DA CONVIVÊNCIA COM O SEMI-ÁRIDO: O

P1MC COMO EXPRESSÃO DA LUTA PELA ÁGUA E PELA

TERRA

1

Danielle Leite Cordeiro

2

Introdução

Este artigo tem por objetivo principal trazer uma reflexão sobre a importância da construção de novas perspectivas para um desenvolvimento rural do semiárido brasileiro, a partir de pensamentos e práticas baseadas no paradigma da “Convivência com o Semiárido” e na construção de cisternas rurais, por meio do Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: Um Milhão de Cisternas Rurais – P1MC.

A “Convivência com o Semiárido” propõe o desenvolvimento dessa região através de parcerias com a sociedade civil organizada, valorizando as potencialidades desse território, os saberes tradicionais, o desenvolvimento local e a produção e conservação dos recursos naturais locais como fatores de enraizamento das populações. “A lógica de convivência com o semi-árido visa focar a vida nas condições socioambientais da região, em seus limites e potencialidades, pressupondo novas formas de aprender e lidar com esse ambiente.” (RESAB apud MALVEZZI, 2009).

Como um paradigma organizativo de cunho político e social, a “Convivência com o Semiárido” apresenta-se como “[...] um conceito ainda em gestação que surge na perspectiva de tornar viável conviver em qualquer ambiente desde que se aprenda a se adequar a ele de forma inteligente.” (MALVEZZI, 2007).

1

Artigo submetido ao Curso de Formação em Gestão Pública, Acesso à Água e Convivência com o Semiárido FGP/SAN/ÁGUAS/CISTERNAS/2011 voltado a avaliação final referente ao Módulo I do referido curso.

2 Aluna do Curso de Formação em Gestão Pública, Acesso à Água e Convivência com o Semiárido FGP/SAN/ÁGUAS/CISTERNAS/2011; Ocupou o cargo de Gerente Administrativo Financeira do P1MC junto à ONG Esplar Centro de Pesquisa e Assessoria entre os anos de 2008 e 2011; Graduada em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Ceará/UFC e Mestranda do Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – Prodema/UFC. E-mail: [email protected].

(2)

O P1MC é um programa gestado sob a perspectiva na “Convivência com o Semiárido”, organizada a partir da ação da sociedade civil organizada nos estados brasileiros, que já surge, em si, como uma proposta alternativa a uma política tradicionalista implantada no semiárido nordestino desde a década de 70, chamada de “Combate à Seca”.

Com isso, esse programa se propôs, desde sua implantação, a fazer parte de uma nova forma de pensar e de agir diante do desafio do desenvolvimento rural, cujo objetivo principal vai além da construção física de cisternas de placas, mas buscando transpor as barreiras de um imaginário simbólico que permeia ainda uma imagem negativa e imprópria para a vida, para a convivência e para o encontro de “vivências” no semiárido brasileiro.

Para tanto, o P1MC se pauta na organização e mobilização de populações rurais, diante da sensibilização social junto às famílias beneficiárias, no sentido de fortalecer processos organizativos para o desenvolvimento de atividades de convivência com o semi-árido. Constitui-se também a partir de cuidados com o meio-ambiente, da educação contextualizada por meio da educação ambiental e da importância do gerenciamento descentralizado dos recursos hídricos locais e do desenvolvimento de políticas públicas que sejam capazes de atender as reais necessidades das populações rurais nordestinas, diante da escassez de água e da luta pela terra como processos capazes de promover a resignificação simbólica e material dos territórios do semiárido.

O interesse por esta temática surge a partir do meu trabalho desenvolvido junto à Organização Não Governamental Esplar Centro de Pesquisa e Assessoria, localizada no Estado do Ceará, na cidade de Fortaleza, sendo uma dentre mais de mil entidades que hoje fazem parte da Articulação do Semiárido – ASA, e que conflui com a perspectiva de construção do paradigma da “Convivência com o Semiárido”, por meio do P1MC.

Tendo assumido a gestão administrativa e financeira do P1MC desde o ano de 2008, estive participando da construção de mais de duas mil setecentos e cinqüenta cisternas e capacitações em gestão de recursos hídricos, assim como participei do processo de organização e mobilização de quase quatorze mil famílias beneficiárias.

E hoje, como mestranda do Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – Prodema, ministrado na Universidade Federal do Ceará - UFC, aproveito minha experiência junto ao P1MC/ESPLAR para reforçar minha paixão pela temática em questão, buscando aprofundar meus conhecimentos

(3)

sobre o assunto e contribuir para a melhoria das populações de nosso semiárido nordestino.

Torna-se relevante, portanto, refletir sobre a formação histórica das populações do semiárido brasileiro, buscando entender como estas ainda vivenciam a escassez da água e da terra e como as “novas” formas de organização dos movimentos sociais estão buscando alternativas para mitigar os efeitos do descaso político com estas populações, tendo no paradigma da “convivência” um importante norteador desses processos e tendo, também, na construção de cisternas de placas um importante mecanismo de enfrentamento político, de mobilização social e de descentralização da água, que abrem perspectivas para repensar igualmente a centralização histórica da terra.

Desenvolvimento

As respostas governamentais aos efeitos da seca estiveram, ao longo da história de formação e ocupação do semiárido brasileiro, associadas à construção de grandes obras hídricas, muitas vezes nas propriedades dos latifundiários, que utilizaram a terra para a consolidação dos ciclos econômicos, como a pecuária e o algodão.

Essa situação ainda se reflete na atualidade, tendo se constituído a partir de um modelo de desenvolvimento econômico, fruto da chamada “revolução verde” e da supremacia das propostas de realização do lucro das agroindústrias sobre o pequeno agricultor, que se tornou altamente vulnerável ao latifundiário detentor do poder político e econômico local.

Essa discussão evidencia a existência de um “desenvolvimento tradicional que usa os recursos humanos, os recursos financeiros, a infra-estrutura e os recursos naturais, compromissado com a idéia de lucro gerador de progresso” (CAMARGO, 2008).

Ao mesmo tempo, possibilita, de acordo com Malvezzi (2007), o controle da água e da terra, resultando na sociedade nordestina que conhecemos, que tem como fundamento do poder das oligarquias nordestinas, antigas e modernas, sobre uma população que não está conseguindo sair da miséria.

Ainda segundo Malvezzi (2007), o semi-árido brasileiro é também o mais chuvoso do planeta e ocupa uma área de 912 mil quilômetros quadrados onde vivem

(4)

cerca de 22 milhões de pessoas, abrangendo 46% da população nordestina e 13% da brasileira e é também o mais populoso e em nenhum outro as condições de vida são tão precárias como aqui.

A água e a terra são importantes recursos naturais que vêm sendo afetados pela interferência do homem, cuja escassez e centralização geram conflitos que envolvem relações de poder e domínio político e econômico.

Essa discussão passa por um plano que visa à descentralização do uso e controle da água e da terra e tem no desenvolvimento de tecnologias alternativas para a captação de águas das chuvas um importante apoio político, ambiental e produtivo. “A grande tarefa presente e com uma enorme projeção para o futuro é aproveitar um forte equilíbrio em reprodução e conservação, aplicando para esse objetivo as tecnologias corretas que permitam desenvolver todo o potencial produtivo dessas regiões.” (ZARRILI, 2006).

De acordo com ASA, Construindo o Futuro e Cidadania no Semi-Árido, (2010), no Brasil, a convivência com o semi-árido é uma tarefa que vem sendo construída ao longo da década de 90 e faz parte de um processo de reorganização dos movimentos sociais articulados nacionalmente em um projeto político comum para o semiárido, que foi a grande força no momento para a criação da ASA Brasil.

A ASA surge em 1999, no Fórum Paralelo da Sociedade Civil, durante a COP 3 - III Conferência das Partes de Combate à Desertificação e a Seca (ASA, Uma Caminhada de Sustentabilidade e Convivência no semi-árido, 2010).

Atuando nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, a proposta da ASA parte do pressuposto de que é possível uma convivência com o semi-árido utilizando tecnologias alternativas às obras hidráulicas, como açudes e reservatórios de grande porte que, além de muito caros, não evitam a evaporação, que é o maior problema do acondicionamento da água em regiões semiáridas.

A tecnologia das cisternas, todavia, evita a evaporação da água acondicionada e armazena 16 mil litros de água das chuvas para o abastecimento de uma família de cinco pessoas durante um período de oito meses de seca.

Ao mesmo tempo, busca materializar uma política voltada para a descentralização do acesso á água e para o desenvolvimento de ações que levem ao convívio na região semiárida, portando, provocando um espaço para a discussão sobre a concentração fundiária no país.

(5)

A criação do P1MC se deu em 2003 e, a partir de então, beneficiou quase 1,5 milhões de pessoas com a construção de quase 300 mil cisternas até a atualidade. A organização social e a mobilização política não fizeram apenas parte do processo de formação da ASA, mas se tornaram um campo norteador para a política de implantação de cisternas e para a estruturação organizativa desta entidade.

O P1MC representa um meio para se pensar e construir a perspectiva de convivência no semi-árido, mediada pela construção de cisternas que, segundo Miranda (2006), são capazes de fornecer água em quantidade e qualidade, de reduzir doenças, de liberar o tempo de busca da água para o laser e o trabalho produtivo, de diminuir a dependência do sertanejo com relação aos políticos locais, que ainda comandam a distribuição da água com caminhões-pipa em tempos de seca.

Com isso, essa região carece de acesso, manejo e controle de seus recursos produtivos, além de um gerenciamento adequado de seus recursos hídricos. A água, juntamente com a terra, são bens cujo acesso não pode ser privado de uso, mas sim remanejada de forma independente.

A conquista ao acesso á água por meio das cisternas implantadas pelo P1MC abre canais de diálogo para o desenvolvimento de ações de convivência com o semiárido e para a permanência na terra.

Considerações Finais

A história de formação e ocupação do semiárido nordestino, associada a um modelo de desenvolvimento econômico implantado com o objetivo de favorecer o latifúndio, tem sido responsável pela construção de um imaginário simbólico negativo associado a essa região, refletido a partir de uma imagem sem vida, de terra rachada, de sol escaldante, da vegetação seca e retorcida e de baixos índices de desenvolvimento humano, assim como possibilitou também a centralização da água e da terra, que reforçam as precárias condições de vida do homem do campo.

Visando atuar sobre essa realidade, a ASA, Carta de Princípios (2010), busca contribuir para a implantação de ações integradas para o semi-árido, baseadas nos interesses e potencialidades locais, na conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais, assim como para a quebra do monopólio de acesso a terra, água e outros meios de produção.

(6)

Dissociar uma imagem histórica de um semi-árido impróprio para a sobrevivência e, ao mesmo tempo, discutir formas alternativas ao modelo agrícola tradicional é um trabalho que tem sido realizado por muitos pesquisadores e pelos movimentos sociais nas últimas décadas, tendo como base, segundo Leff (2009), o potencial ambiental de cada região, a autonomia comunitária dos recursos, o desenvolvimento de tecnologias apropriadas, o respeito pelos valores culturais e pela diversidade étnica, assim como pela recuperação e enriquecimento científico das práticas tradicionais de uso dos recursos.

Contudo, o P1MC tem conseguido dialogar com a descentralização ao acesso à água e com a organização de ações integradas para o semi-árido que levem a convivência com este e a uma permanência na terra.

É nesse sentido que o paradigma da “Convivência com o Semiárido” associado às ações movidas pela construção de cisternas por meio do P1MC tem contribuído para a necessidade de ocupação, controle, uso e poder sobre a terra e sobre a água do semiárido nordestino, como vetores da gestão socialmente justa, autônoma e coletiva dos recursos naturais, de práticas sustentáveis e de transformações do espaço social, de modo a produzir e desenvolver riquezas.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO FILHO, João Ambrósio de. O Bioma Caatinga. In: SOBRINHO, José Falcão; FALCÃO, Cleire Lima da Costa (Orgs.). Semi-Árido: diversidades, fragilidades e potencialidades. Sobral: Sobral Gráfica, 2006.

ASA - ARTICULAÇÃO DO SEMI-ÁRIDO. Carta de Princípios. Recife: 2010.

ASA - ARTICULAÇÃO DO SEMI-ÁRIDO. Construindo o Futuro e Cidadania no Semi-Árido. Recife: 2010.

ASA - ARTICULAÇÃO DO SEMI-ÁRIDO. Uma Caminhada de Sustentabilidade e Convivência no Semi-Árido. Recife: 2010.

CAMARGO, Ana Luiza de Brasil. Desenvolvimento Sustentável: dimensões e desafios. Campinas, São Paulo: Papirus, 2003.

LEFF, Enrique. Saber Ambiental: Sustentabilidade, Racionalidade, Complexidade, Poder. Editora Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro: 2001.

(7)

LEROY, Jean Pierre. Territórios do futuro: educação, meio ambiente e ação coletiva. Rio de Janeiro: Lamparina, 2010.

MALVEZZI, Roberto. Semi-Árido: uma visão holística. Brasília: Confea, 2009. MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A Geografia física do semi-árido. In: SOUZA FILHO, Francisco de Assis. MOURA, Antônio Divino (Orgs.). Memórias do Seminário Natureza e Sociedade nos Semi-àridos. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil; Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, 2006.

Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: Um Milhão de Cisternas Rurais – P1MC. Anexo II do Acordo de Cooperação Técnica e Financeira celebrado entre FEBRABAN e AP1MC em 31/05/2003. FB – 101/2003.

SOUZA FILHO, Francisco de Assis. Natureza e desenvolvimento nos semi-áridos. In: SOUZA FILHO, Francisco de Assis. MOURA, Antônio Divino (Orgs.). Memórias do Seminário Natureza e Sociedade nos Semi-àridos. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil; Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, 2006.

ZARRILI, Adrian Gustavo. Natureza e desenvolvimento. In: SOUZA FILHO, Francisco de Assis de; MOURA, Antônio Divino (Orgs.). Memórias do Seminário Natureza e Sociedade nos Semi-áridos. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil; Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, 2006.

Referências

Documentos relacionados

Para que essa apresentação seja feita, o texto está organizado como segue: o capítulo 2 conta um pouco da história da criptografia e discorre sobre os tipos de

próprias, mas “desconectadas” do Espaço de Fluxos (ou território da mobilidade) da cidade, conforme observado no corredor em questão. Em resumo, apresentando um nível de

instrumentos técnicos mais adequados e para decidir das estratégias concretas a pôr em prática". O Relatório de Estágio apresenta-se então como um documento

Nesse contexto, a análise numérica via MEF de vibrações sísmicas induzidas por detonações se mostra como uma metodologia que pode contribuir significativamente

163 “Consequently, the envisaged agreement, by conferring on an international court which is outside the institutional and judicial framework of the European Union an

Realizar a manipulação, o armazenamento e o processamento dessa massa enorme de dados utilizando os bancos de dados relacionais se mostrou ineficiente, pois o

Conclui-se ainda que cada vez mais os compositores apostam, para além da escrita convencional, em técnicas possíveis em cada instrumento para o qual compõem,

trabalho. Aos técnicos João Petrúcio, Aparecida do Carmo e Alcides, pelo auxílio na realização de inúmeras tarefas. Hiran de Carvalho, responsável pelas fotos no