O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS PERCURSOS DOS EGRESSOS DA FAOP
Isabelle Cristina Reis Machado
MARIANA – MG 2020
ISABELLE CRISTINA REIS MACHADO
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS PERCURSOS DOS EGRESSOS DA FAOP
Monografia apresentada ao Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Ouro Preto como requisito para obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas.
Orientador: Prof. Dr. José Artur dos Santos Ferreira
MARIANA – MG 2020
Machado, Isabelle Cristina Reis.
MacO restauro de bens móveis e a formação de restauradores
[manuscrito]: análise introdutória dos percursos dos egressos da FAOP. / Isabelle Cristina Reis Machado. - 2020.
Mac77 f.: il.: color., gráf., tab..
MacOrientador: Prof. Dr. José Artur dos Santos Ferreira.
MacMonografia (Bacharelado). Universidade Federal de Ouro Preto. Instituto de Ciências Sociais Aplicadas. Graduação em Ciências Econômicas .
Mac1. Fundação de Arte de Ouro Preto. 2. Arte - Conservação e restauração. 3. Bens imóveis. 4. Economia - Aspectos sociológicos. 5. Educação - Aspectos sociais. I. Ferreira, José Artur dos Santos. II. Universidade Federal de Ouro Preto. III. Título.
Bibliotecário(a) Responsável: Essevalter De Sousa - Bibliotecário ICSA/UFOP - CRB6a 1407
M149o
REITORIA ESCOLA DE MINAS
DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E ECON
FOLHA DE APROVAÇÃO
Isabelle Cris na Reis Machado
O restauro de bens móveis e a formação de restauradores - análise introdutória dos percursos dos egressos da FAOP",
Monografia apresentada ao Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Ouro Preto como requisito parcial para obtenção do tulo de bacharel em Ciências Econômicas
Concedeu-se à estudante 30 minutos para apresentação do seu trabalho, procedeu-se à arguição, após a qual os membros da Banca Examinadora reuniram-se para deliberar decidindo pela aprovação do trabalho com nota de 9,8/10. Para constar, a presente ata é datada e assinada pelo Orientador da banca com o seguinte parecer final: ‘A banca considera que a monografia atende os requisitos para a apresentação de um trabalho de conclusão de curso em economia. O trabalho apresenta cuidadosa revisão bibliográfica, definição do problema e metodologia adequados e incorpora elementos novos para compreender o papel das atividades artísticas e culturais (e de conservação do patrimônio histórico) para o desenvolvimento do município de Ouro Preto.’
Aprovada em 26 de novembro de 2020
Membros da banca
Professor - José Artur dos Santos Ferreira - Orientador (Universidade Federal de Ouro Preto) Professora - Gabriela Lopes de Moura Rangel - (Fundação de Arte de Ouro Preto)
Professor - Jonas Durval Cremasco - (Universidade Federal de Ouro Preto)
José Artur dos Santos Ferreira, orientador do trabalho, aprovou a versão final e autorizou seu depósito na Biblioteca Digital de Trabalhos de Conclusão de Curso da UFOP em 02/01/2021
Documento assinado eletronicamente por Jose Artur dos Santos Ferreira, PROFESSOR DE MAGISTERIO SUPERIOR, em 02/01/2021, às 17:48, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
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Referência: Caso responda este documento, indicar expressamente o Processo nº 23109.000001/2021-84 SEI nº 0120048
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AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente pelo dom da vida.
Agradeço aos meus pais por tanto amor e paciência. Obrigada por sempre acreditarem em mim!
Agradeço aos meus tios Dayse e Fernando e minha prima e afilhada Michelle por se fazerem sempre presentes e me apoiarem.
Agradeço ao meu orientador José Artur que foi luz no meu caminho. Obrigada pela paciência e troca de aprendizados!
Agradeço a Raquel e a Laura pelo companheirismo e força desde o meu primeiro dia no curso até a reta final. Sem vocês nada disso seria possível.
Agradeço à minha República Afrodite e todas as minhas irmãs de alma. Levo cada uma de vocês no coração.
Agradeço à colaboração da FAOP e à generosidade de Júlia Mitraud, Sandra Fosque, Gabriela Rangel e César, que, além das informações prestadas,
franquearam o acesso à Fundação e seus arquivos, tornaram possível a realização deste estudo.
Agradeço às críticas e sugestões da Professora Gabriela Lopes de Moura Rangel e do Professor Jonas Durval Cremasco durante a apresentação desta monografia. Por fim, agradeço à UFOP e à Ouro Preto por todo aprendizado e por ter me proporcionado os melhores anos da minha vida.
RESUMO
A pesquisa a seguir visa compreender a necessidade de formar profissionais de restauração qualificados e como se desenvolveu o Curso de Restauração e Conservação de Bens Móveis da Fundação de Arte de Ouro Preto. Outro objetivo desta pesquisa é analisar a trajetória dos egressos e identificar redes sociais estabelecidas entre alunos, ex-alunos, professores e a Fundação, empregando conceitos da Sociologia Econômica.
Palavras-chave: Ouro Preto, FAOP, Egressos, Curso em Conservação e Restauro,
ABSTRACT
The following research aims to understand the need to train qualified restoration professionals and how the Course of Restoration and Conservation of Mobile Goods of Ouro Preto Art Foundation had developed. Another pourpose of this research is to analyze the trajectory of graduates and identify social networks established among students, former studants, teachers and the Foundation, by using elements of Economic Sociology.
Key words: Ouro Preto, FAOP, Graduates, Conservation and Restoration Course,
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1. Áreas de atuação dos egressos do Curso Técnico de Nível Médio em Conservação e Restauro da FAOP que não estão trabalhando na área de formação (2003-2018)
Gráfico 2. Áreas de atuação dos egressos do Curso Técnico de Nível Médio em Conservação e Restauro da FAOP que estão trabalhando na área de formação (2003-2018)
Gráfico 3. Número absoluto de egressos que trabalham ou não na área de formação segundo número da turma dos egressos do Curso Técnico de Nível Médio em Conservação e Restauro da FAOP (2003-2018)
Gráfico 4. Porcentagem dos egressos que trabalham ou não na área de formação segundo número da turma dos egressos do Curso Técnico de Nível Médio em Conservação e Restauro da FAOP (2003-2018)
Gráfico 5. Áreas de estudo dos egressos do Curso Técnico de Nível Médio em Conservação e Restauro da FAOP que deram continuidade à sua escolarização (2003-2018)
Gráfico 6. Continuidade dos estudos dos egressos do Curso Técnico de Nível Médio em Conservação e Restauro da FAOP que deram continuidade à sua escolarização (2003-2018)
LISTA DE QUADROS Quadro 1. Primeiro mó d u l o d o C u r s o T é c n i c o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P Quadro 2. Segundo mó d u l o d o C u r s o T é c n i c o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P Quadro 3. Terceiro mó d u l o d o C u r s o T é c n i c o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P Quadro 4. Quarto mó d u l o d o C u r s o T é c n i c o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P Quadro 5. Quinto mó d u l o d o C u r s o T é c n i c o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P
Quadro 6. Cursos de Bacharel ado em R estauro de Bens Cul turai s no Brasi l em funci ona mento – principais características
Quadro 7. Cursos Técni cos em Restauro de Bens Cul turai s no Brasi l em funci onamento – principais características
Quadro 8. Média, mediana e desvio padrão para a informação ‘trabalham na área de formação’ dos Grupos 1 e 2 de egressos do Curso Técnico em Conservação e Restauro da FAOP (2003-2018)
Sumário
AGRADECIMENTOS ... 2
INTRODUÇÃO ... 8
1 UM PRESENTE DO PASSADO: A INVENÇÃO DO PATRIMÔNIO E A VALORIZAÇÃO DO FAZER ARTÍSTICO COMO PROJETO NACIONAL A PARTIR DO OLHAR SOBRE A MINAS BARROCA ... 12
2 A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DO CURSO EM RESTAURO DA FAOP ... 23
2.1 As origens da FAOP ... 23
2.2 As origens e evolução do Curso em Conservação e Restauro da FAOP ... 27
2 . 2 . 1 A s o r i g e n s d o c u r s o e m r e s t a u r o d a F A O P ... 28
2.2.2 A e v o l u ç ã o d o C u r s o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P ... 31
2.3 As características dos cursos de restauro no país, breve comparação com o curso da FAOP ... 38
ANEXO I – AFETOS E REINVENÇÃO DE UMA IDEIA: O PROJETO CANTARIA ... 43
ANEXO II - A S L E I S D E I N C E N T I V O E A S I N O V A Ç Õ E S N O F I N A N C I A M E N T O D O R E S T A U R O D E B E N S H I S T Ó R I C O S ... 12
3 O CURSO EM CONSERVAÇÃO E RESTAURO DA EARMFA/FAOP SERIA UMA INCUBADORA DE TALENTOS, CONTRIBUINDO PARA A FORMAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO PARA RESTAURADORES NO BRASIL? ... 53
3.1 As ideias de laços sociais e de estrutura social na Sociologia Econômica ... 53
3.2 Análise do levantamento anual com os egressos do Curso Técnico em Conservação e Restauro da EARMFA realizado pela FAOP ... 56
3 . 3 O q u e d i z e m o s e g r e s s o s d a E A R M F A / F A O P s o b r e s e u s p e r c u r s o s p r o f i s s i o n a i s ? ... 62
ANEXO I - RELAÇÃO DOS EGRESSOS ENTREVISTADOS DO CURSO TÉCNIC DE NÍVEL MÉDIO EM CONSERVAÇÃO E RESTAURO ... 64
ANEXO II - QUESTIONÁRIO ENVIADO AOS EGRESSOS ENTREVISTADOS DO CURSO TÉCNICO NÍVEL MÉDIO EM CONSERVAÇÃO E RESTAURO ... 65
CONCLUSÃO ... 66
INTRODUÇÃO
A monografia tem como título “O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A
FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
PERCURSOS DOS EGRESSOS DA FAOP”. A fim de invocar a relação entre passado e futuro, no primeiro capítulo é abordada a temática do movimento modernista, que teve como marco a Semana de Arte Moderna de 1922 e que teve como foco as questões relacionadas à identidade nacional. Comentamos a viagem dos modernistas paulistas com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars – uma caravana pelas cidades históricas de Minas Gerais. A viagem tinha como objetivo visitar e explorar o passado brasileiro para que fosse possível desvendar as origens da nacionalidade e construir um país moderno. Consistia numa busca, no passado, de aspectos que seriam reinventados no presente, uma vez que o Brasil moderno estaria intimamente relacionado com o passado e, Minas, portanto, era moderna porque era tradicional.
Anos mais tarde, em 1937, a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), órgão que instituiu o tombamento como principal instrumento para organizar as ações de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, contou com o empenho do modernista Mário de Andrade. A crescente preocupação dos técnicos e da direção do SPHAN com o restauro de bens móveis permitiu a formação do restaurador Jair Afonso Inácio. O último, por sua vez, criou, em 1971, o curso de Conservação de Obras de Arte, junto à Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP).
O segundo capítulo conta a história da criação da FAOP e da posterior integração do curso fundado por Jair Inácio à instituição.
É importante ressaltar que as décadas de 60 e 70 foram marcadas por grande censura e repressão aos meios de comunicação e aos artistas por conta da Ditadura Militar que, em 1964, golpeou de uma só vez a democracia brasileira. Neste contexto de resistência política e cultural muitas vezes velada, Ouro Preto sediou, a partir de 1967, os Festivais de Inverno da UFMG e abrigou inúmeros artistas e intelectuais nos chamados anos de chumbo. Numa negociação com o então Governador de Minas Gerais, Israel Pinheiro, Vinícius de Morais, Domitila do Amaral, Rui Mourão, Affonso Ávila e Murilo Rubião foram responsáveis pela criação da FAOP. Mas, como veremos a nova Fundação tomará corpo quando incorpora duas iniciativas concomitantes, a
‘escolinha de arte de Annamélia Lopes e Nello Nuno, por um lado, e o curso de Conservação de Obras de Arte de Jair Inácio.
O capítulo ainda possui dois anexos que abordam a arte da cantaria e as leis de incentivo à cultura (inclusive ao restauro de bens históricos). Para tanto, no primeiro anexo, fez-se necessária a pesquisa sobre o projeto de extensão da UFOP no site da própria Universidade e em artigos relacionados. Já no segundo anexo, descrevemos, brevemente, como as leis de incentivo funcionam desde a década de 90, as inovações que introduziram no financiamento à cultura e as mudanças recentes que sofreram (2019).
No terceiro capítulo, com o intuito de subsidiar nossa análise sobre as relações da FAOP com seus egressos (e entre os egressos) é abordada a ideia de laços sociais e estrutura social na sociologia econômica. O autor Mark Granovetter defende um enfoque estrutural do mercado, isto é, o mercado seria estruturado através de redes interpessoais. Estas são compostas por laços e a força de um laço é resultante de uma combinação entre intensidade emocional, quantidade de tempo, intimidade e serviços recíprocos entre os envolvidos.
A fim de levantar elementos, ainda que não conclusivos, que apontem o papel da FAOP na construção de laços sociais, incialmente, analisamos um levantamento realizado pela FAOP com seus egressos. Para o êxito de nosso trabalho foi fundamental a colaboração da FAOP que, generosamente, além de contribuir com entrevistas e de franquear o acesso as suas instalações, disponibilizou um arquivo contendo aquele levantamento de informações a respeito dos egressos da primeira turma regular do novo formato do curso de restauro, que ingressou no curso em janeiro de 2002, até a trigésima nona, que ingressou em julho de 2016. Para analisar as informações, utilizamos instrumentos de estatística descritiva.
Em seguida, a partir da mesma base de dados, alguns egressos do curso de Conservação e Restauro da Instituição foram contatados. Enviamos a esses ex-alunos do curso algumas perguntas referentes a sua trajetória profissional após a sua formação como restauradores e relativas à importância que a Fundação exerceu e ainda exerce sobre suas carreiras.
No que diz respeito à metodologia, lançamos mão da revisão de literatura e da análise descritiva e qualitativa do levantamento da FAOP e de nossa própria enquete junto a alguns egressos.
Ao final da monografia, procuramos organizar algumas conclusões e questões para novos estudos.
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
1 UM PRESENTE DO PASSADO: A INVENÇÃO DO PATRIMÔNIO E A
VALORIZAÇÃO DO FAZER ARTÍSTICO COMO PROJETO NACIONAL A PARTIR DO OLHAR SOBRE A MINAS BARROCA
Os anos que antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922 foram marcados por importantes acontecimentos, entre eles destacam-se: o crescimento das cidades; a Primeira Guerra Mundial; as inovações nos campos da tecnologia, ciência, psicologia e filosofia; e o desenvolvimento da industrialização. Este cenário gerou inquietação em todos os setores da economia1. Além disso, a nova geração
de escritores, convencida que a forma de expressão literária existente até sua época era ultrapassada, propunha-se a uma reconstrução literária nacional. Assim, uma das primeiras lutas do movimento modernista foi pela implantação de uma “língua brasileira”, que permitisse o uso do verso livre, que não precisasse se preocupar quanto ao uso da métrica e da rima, nem tampouco com o uso de vocabulário e de temáticas específicos. Seria uma língua que permitisse uma maior aproximação da fala brasileira e que expressasse a diversidade de raças e culturas do país2.
Para contribuir com o movimento modernista, a Semana de Arte Moderna foi planejada para divulgar as realizações da nova geração de poetas e artistas, e mostrar a ruptura que de fato já tinha acontecido, conectando-a aos modernistas. O evento teria atingido seus objetivos. Por um lado, nomes como o de Oswald de Andrade e o de Mário de Andrade foram projetados como importantes pilares da renovação modernista, servindo como referências para seus contemporâneos. Por outro lado, após a Semana de Arte de 1922, o movimento modernista começa a ter seu foco direcionado às questões relacionadas à identidade nacional3.
Naquele sentido, vale destacar, mesmo antes da realização da Semana de Arte, ainda em 1919, Mário de Andrade já havia se aventurado pela antiga Vila Rica em busca de uma identidade nacional. Ele, que buscava encontrar a origem do gênio artístico autenticamente brasileiro, depara-se com obras legítimas e originais, impressionando-se com o trabalho de Aleijadinho. Essa viagem propiciou a Mário a publicação de um estudo intitulado “A arte religiosa no Brasil”, que escolhe os
1 DIAS (2012). 2 DIAS (2012). 3 DIAS (2012).
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conjuntos arquitetônicos carioca, baiano e, principalmente, o mineiro como representantes legítimos do que seriam os primórdios das manifestações artísticas nacionais, e que acabariam por resultar nos primeiros elementos de uma identidade nacional. Segundo Mário de Andrade nas obras de Aleijadinho, em Minas, de mestre Valentim, no Rio de Janeiro, e dos santeiros Chagas e Domingos Pereira, na Bahia, o que sobressai é um traço que “denuncia um gênio virgem (...), puro e inocente”4. E,
embora ele cite essas três referências de uma arte tipicamente brasileira, a figura de Aleijadinho se destaca e recebe um importante papel: “o arquiteto escultor”5”.
Para Mário, uma arte genuína teria se desenvolvido em Minas graças ao isolamento e a distância das cidades mineiras em relação aos centros litorâneos, pois as dificuldades de acesso, impostas pela geografia das Minas, permitiram que germinasse, naquelas terras, a “mais característica arte religiosa do Brasil.”6. Além
disso, aquele autor acredita que a decadência da atividade mineradora também contribuiu para o distanciamento do Estado de Minas das influências europeias. E, enfim, por não ter sido alvo de forte influência externa, “o barroco mineiro, seria o primeiro estilo artístico da nacionalidade tupiniquim”7 e, sendo singular, teria
conquistado seu espaço entre os estilos que marcaram a história do mundo.
E, ainda no mesmo sentido, também vale destacar, logo após a Semana de Arte Moderna, em 1923, Oswald de Andrade fez uma viagem a Paris, onde conheceu o poeta e romancista franco-suíço Blaise Cendrars. O interesse desse poeta pela estética primitivista e seu apreço pelo exotismo chamaram a atenção de Oswald, vindo ao encontro da aceitação e da valorização de elementos populares e tradicionais, considerados, até então, como atrasos de nossa cultura na visão então hegemônica entre intelectuais brasileiros. Sob esse novo olhar houve a valorização do negro, a reivindicação de uma cultura independente através do resgate da cultura indígena e uma nova forma de aceitação dos hábitos e tradições populares8.
4 ANDRADE (1993), apud NATAL (2007), p. 194.
5 “...no Aleijadinho une-se ao gênio do escultor o gênio do arquiteto...”. ANDRADE (1993), p.66, apud
NATAL (2007), p.196.
6 ANDRADE (1993), p. 78, apud NATAL (2007), p. 197. 7 NATAL (2007), p. 199.
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Nessa direção, com o intuito de enriquecer o movimento modernista, Oswald articula a vinda de Cendrars ao Brasil. No ano seguinte, 1924, o poeta e romancista chega a São Paulo, onde se hospeda na casa de Paulo Prado, um dos financiadores da Semana de Arte Moderna. Os modernistas o levam para o Rio de Janeiro para conhecer o carnaval carioca e, na Semana Santa, desembarcam em Minas Gerais para conhecerem suas cidades históricas9.
Em Minas Gerais, os modernistas paulistas, que ficaram hospedados no Grande Hotel de Belo Horizonte, são acolhidos por jovens escritores mineiros, sedentos de conhecimento e movidos pela curiosidade a respeito de novas ideias vindas de São Paulo e da Europa. Carlos Drummond de Andrade se destacou naquele grupo e se aproximou de Mário de Andrade, com o qual trocou correspondências até poucos dias antes da morte de Mário, em 194510. A
proximidade teria levado o escritor paulista a aconselhar o jovem Drummond e a introduzi-lo ao modernismo, do qual Carlos Drummond já teria algum conhecimento.
Ademais, o interesse de Drummond pelo modernismo e pelas novas tendências literárias remontaria a sua migração de Itabira para Belo Horizonte em 1919. Chegando à capital do Estado, começa a fazer novas amizades. Movido por interesses literários comuns e pela vida boêmia, encontra, entre outros, Emílio Moura, Pedro Nava, Abgar Renault, Martins de Almeida e João Alphonsus. Posteriormente, mais precisamente a partir de 1925, eles não se reuniriam mais somente por “simpatia pessoal”, mas, sobretudo, com o intuito de idealizarem o modernismo mineiro11.
A viagem para as cidades históricas de Minas Gerais foi motivada pelas inquietações de Mário de Andrade, que já as conhecia12. Para ele, o local era uma
referência da autenticidade brasileira. O grupo, composto por Cendrars, Oswald de Andrade e seu filho Nonê, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, o jornalista René Thiollier (intelectual da elite paulistana) e a fazendeira D. Olívia Guedes Penteado (amiga e incentivadora dos modernistas), acompanhada de seu genro Gofredo da
9 DIAS (2012).
10 FCRB (s/d). 11 FCRB (s/d). 12 HORTA (2014).
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Silva Telles, realizou essa viagem com o intuito de descobrir o passado colonial representado pelo barroco mineiro13.
A caravana, nomeada por Oswald como “Viagem da descoberta do Brasil”14,
tinha como objetivo visitar e explorar o passado brasileiro para que fosse possível desvendar as origens da nacionalidade e construir um país moderno. Consistia numa busca, no passado, de aspectos que seriam reinventados no presente, uma vez que o Brasil moderno estaria intimamente relacionado com o passado e, Minas, portanto, era moderna porque era tradicional15.
Os modernistas retratam suas visões e experiências dessa viagem através de crônicas, diários, cartas, poemas e pinturas16. A título de exemplo, Oswald de
Andrade descreve as cidades mineiras privilegiando não apenas sua natureza bucólica, mas também a arquitetura barroca, os ritos da Semana Santa, a arte sacra e a simplicidade das pessoas do interior17. Isto pode ser constatado em alguns de
seus poemas, que citamos a seguir.
O poema ‘Sábado de Aleluia’ de Oswald descreve a apresentação da malhação de Judas na Praça Severiano de Rezende em São João del Rey:
Sábado de aleluia
Serpentes de fogo procuram morder o céu E estouram A praça pública está cheia E a execução espera o arcebispo Sair da história colonial
Longe vai tempo soltaram a lua Como um balão de dentro da serra
13 CORTEZ (2010).
14 HORTA (2014). 15 NATAL (2007). 16 HORTA (2014).
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Judas balança caído numa árvore Do céu doirado e altíssimo
Jardins Palmeiras Negros
Oswald de Andrade18
Em outros versos, Oswald retrata a expectativa de visitar a Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto:
Vamos visitar São Francisco de Assis Igreja feita pela gente de Minas O sacristão que é vizinho da Maria Cana-Verde Abre e mostra o abandono Os púlpitos de Aleijadinho O teto de Ataíde
Oswald de Andrade19
E ainda em outros versos sobre São João del Rey:
Convite
São João del Rei A fachada do Carmo A Igreja Branca de São Francisco
[...]
Ide a São João del Rei De trem Como os paulistas foram A pé de ferro
Oswald de Andrade20
18 Apud CORTEZ (2010), p.24. 19 Apud CORTEZ (2010), p.32. 20 Apud SILVA & GOMES (2017).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
Posteriormente, Mário de Andrade realiza ainda duas viagens para Belo Horizonte em 1939 e 1944, estreitando laços com a nova geração de escritores locais, entre os quais estariam, ainda, Murilo Rubião, Henriqueta Lisboa, Otto Lara Resende e Fernando Sabino. Durante todo o período, os ‘mineiros’ teriam intermediado cartas trocadas por Mário com todo o Brasil, tornando possível a comunicação com os novos escritores brasileiros a respeito do modernismo e da tradição.
Paralelamente, Mário de Andrade também se empenhou para concretizar a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), que, com os projetos de recuperação da memória nacional, alterou a forma de enxergar a paisagem colonial brasileira21.
Ainda em 1936, Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, que tinha Carlos Drummond de Andrade como Chefe de Gabinete, aprovou o projeto de Mário de Andrade, que propôs a criação do SPHAN. Mário, que até então dirigia o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, indicou o mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade para a direção do novo órgão, que começa a funcionar em caráter experimental. Já no ano seguinte (1937), o SPHAN passa a funcionar em caráter definitivo e é publicado o Decreto-lei nº 25, que instituiu o tombamento como principal instrumento para organizar as ações de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional22.
Interessante observar como os caminhos de Mário e Carlos Drummond de Andrade novamente se encontrariam23. Drummond, que havia trabalhado como
escritor em Belo Horizonte entre 1919 e 1929, conciliaria, a partir do fim dos anos 20, sua atividade literária com uma carreira burocrática nos órgãos públicos de Minas Gerais. Inicialmente na Imprensa Oficial do Estado, onde permaneceu por um ano (1929-1930), foi, em seguida, sucessivamente, nomeado auxiliar de gabinete e oficial de gabinete da Secretaria do Interior de Minas Gerais. Mas, não demoraria a se mudar para o Rio de Janeiro na companhia de sua esposa Dolores Dutra de Moraes e sua filha Maria Julieta. Assim, já em 1934, o ministro da Educação e
21 HORTA (2014). 22 CHUVA (2012).
23 Como veremos no próximo capítulo, anos mais tarde, na criação da FAOP, os caminhos daquela
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
Saúde, Gustavo Capanema, havia nomeado seu amigo desde a adolescência, Carlos Drummond de Andrade, como seu chefe de gabinete24. No novo cargo,
Drummond, de modo privilegiado, acompanhou ativamente o processo de construção (1937-1943) de importante edifício modernista, que a partir da década de 40 seria a sede do MEC25. Esta obra (hoje o edifício Gustavo Capanema) era vista
como um marco da modernização do Brasil e, como não se tratava de uma obra qualquer, necessitava de uma arquitetura modernista. Como se sabe, participaram da equipe que projetou o edifício, comandada por Lúcio Costa e sob a orientação de Le Corbusier, então jovens arquitetos como Oscar Niemeyer.
A obra do Palácio Capanema não foi uma coincidência. Lúcio Costa foi outro nome importante neste cenário de conexão entre modernismo e restauração no Brasil, tendo atuado no SPHAN de 1937 até a década de 70. Como analisou Guilherme Wisnik (2007), Lucio Costa converteu-se ao modernismo e se tornou o principal intelectual a formular um programa conceitual que conectava a arquitetura moderna internacional e a arquitetura tradicional luso-brasileira. Lúcio Costa não teria dissociado o debate sobre as tendências da arquitetura contemporânea e o problema do restauro de bens históricos, lembrando que as obras arquitetônicas deveriam estar em sintonia com as técnicas e as tecnologias do seu próprio tempo26.
Já no SPHAN, dividido entre área central e uma seção técnica, Rodrigo Melo Franco de Andrade e Lúcio Costa teriam trabalhado em estreita relação. O jovem arquiteto, por indicação de Melo Franco de Andrade, dirigia, desde 1930, a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde já havia aberto espaço para um grupo de arquitetos modernistas ainda mais jovens, entre os quais Niemeyer, e onde buscou uma aproximação com nomes como Le Corbusier27.
Nas primeiras décadas do século XX, no Brasil, não existiam técnicas apuradas na área de restauração e nem oficinas apropriadas para este tipo de serviço. Assim, os arquitetos do SPHAN obtinham algum conhecimento europeu na área advindo da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM), como o de 1933, dos quais Lúcio
24 FCRB (s/d). 25 FCRB (s/d). 26 CHUVA (2012). 27 CHUVA (2003).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
Costa participou28. Naqueles eventos internacionais, em 1931, foi elaborada a Carta
de Atenas (apelidada Carta de Restauro) que visava “a salvaguarda das obras primas nas quais a civilização se tenha expressado em seu nível mais alto e que se apresentem ameaçadas”29. Uma das recomendações da Carta era de que houvesse
a mínima intervenção no monumento durante as obras de restauração, além de reversibilidade e das intervenções, que deveriam poder ser identificadas. Assim, deveria haver uma documentação precisa a respeito do acompanhamento do processo de restauro, destacando as condições da obra antes, durante e depois da intervenção, além de conter as justificativas para as ações executadas30.
O SPHAN baseava-se quase sempre na já citada Carta de Atenas, mas nos casos em que havia ausência de critérios ou princípios de ação claramente estabelecidos nela, o órgão atuava fortemente baseado nas convicções e conceitos de Lúcio Costa (mesmo depois da sua aposentadoria)31.
Neste sentido a conservação deveria ser prioritária à restauração, quando, até então, na gestão do patrimônio histórico, predominava a restauração, em detrimento da conservação32. A restauração do patrimônio tombado tinha como
finalidade a recuperação simbólica e física das origens da nação, promovendo, assim, uma reconstituição de um patrimônio autêntico. O grupo de arquitetos que se identificava com o movimento modernista, defendia que o ingresso do Brasil no mundo civilizado dependia de um laço com o passado e o tradicional33. Como já
mencionamos anteriormente, a invenção de um país, de uma nação, passava pela invenção da tradição.
Do ponto de vista técnico, a observação visual do monumento era o principal método para a restauração, tornando possível a identificação das características originais dos imóveis. Com a análise física era possível identificar os materiais utilizados e os processos aos quais os imóveis já haviam sido submetidos. Mas, ao contrário do que muitos acreditam, a obra sozinha não é capaz de dizer qual o 28 CHUVA (2012). 29 IPHAN (s/d). 30 CUNHA (2010). 31 CUNHA (2010). 32 CHUVA (2012). 33 CHUVA (2012).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
método mais adequado a se seguir para um melhor resultado na sua conservação. Cabe ao autor do projeto decidir qual caminho trilhar e quando maior for seu conhecimento a respeito da obra em sua materialidade e historicidade, mais adequadas serão suas escolhas. Vale ressaltar que no campo da restauração não há soluções únicas para um determinado projeto, e, por isso, a forma de resolvê-lo será decidida pela equipe de restauradores responsável por tal serviço34.
A fotografia também teve papel importante, pois era através dela que os arquitetos do Rio de Janeiro conseguiam acompanhar a avaliar o projeto concluído. Como se tratava de trabalho profissional, vários fotógrafos prestaram serviço para o SPHAN35.
As condições de deslocamento na década de 30 e 40 eram bem precárias – uma viagem entre Ouro Preto e Belo Horizonte poderia durar cerca de sete horas36. Ainda assim, as viagens aos sítios históricos também tiveram papel
relevante para as atividades de conservação e restauro, seja no que diz respeito à avaliação (e escolha) das técnicas empregadas, seja no que diz respeito à fiscalização dos trabalhos nos bens tombados. Ainda assim, Ouro Preto teve destaque neste aspecto, pois, tinha uma infraestrutura superior à das demais cidades do interior que recebiam visitas do SPHAN. Também contribuíram para os trabalhos na terra dos Inconfidentes, o reconhecimento prévio que a cidade recebeu como cidade Monumento Nacional em 1933, o que possibilitou, a partir de 1934, restaurações na cidade graças a investimentos públicos. Juntamente com isso, a população ouro-pretana dava suporte aos técnicos do SPHAN e dava conta do andamento das obras na cidade. Assim, podemos dizer que redes começavam a ser tecidas em prol da proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional.
Outro fator importante das restaurações é que elas desempenharam papel econômico relevante na articulação de diversos grupos regionais de trabalhadores e artesãos locais, visto que, como esses dispunham de conhecimento sobre o manuseio de materiais antigos e de técnicas antigas de construção, prestavam seus serviços às obras de restauração em troca de remunerações periódicas. De certa
34 CUNHA (2010).
35 CHUVA (2012).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
forma, reinventavam-se, também, ofícios muitas vezes perdidos, num processo que até hoje ocorre37.
No entanto, todos aqueles esforços não teriam sido suficientes para um bom resultado nas obras de restauro levados a cabo pelo SPHAN. Um dos principais contratempos enfrentados foram os materiais que já não eram mais fabricados. Como solução, em alguns casos, teria sido empregado o concreto armado (uma inovação bem posterior), que foi o marco tecnológico da arquitetura moderna ao permitir grande salto qualitativo em termos construtivos. Esse critério teria se adequado às determinações da Carta de Atenas, no que se referia aos materiais de restauração, que aprovava o emprego adequado de todos os recursos da técnica moderna e, especialmente, do concreto armado38. Ademais, princípios estéticos
orientaram a escolha dos bens a serem tombados, assim como a escolha da técnica a ser empregada quando eles fossem restaurados.
Durante as décadas de trabalho do SPHAN, posteriormente denominado IPHAN (ver box abaixo – ‘De SPHAN à IPHAN’), foi crescendo também a preocupação com o restauro de bens móveis a ponto de, no início da década de 70, ter sido perceptível a grande necessidade de se formar profissionais na área de conservação e restauração de obras de arte. Foi naquele contexto que, em 1971, Jair Afonso Inácio, criou o curso de Restauração de Obras de Arte, que veio a se juntar à FAOP39. Esse curso é considerado um dos mais tradicionais do Brasil,
sendo a primeira escola de formação profissional regular de restauradores no país40.
Como veremos posteriormente, atualmente, o curso oferece ao futuro profissional a base teórica e a qualificação necessária para intervenções de restauro conscientes e adequadas em acervos de papel, escultura policromada e pintura de cavalete41.
No próximo capítulo será abordada a origem dos cursos de restauro de bens móveis no Brasil, situando, neste contexto, a origem da FAOP e de seu curso de restauro.
37 CHUVA (2012). Mais adiante neste trabalho, nos anexos do segundo capítulo, comentaremos o
‘Projeto Cantaria’ desenvolvido por um grupo de professores e pesquisadores da UFOP sob a coordenação do Prof. Carlos Alberto Pereira (RODRIGUES et alli, 2004).
38 IPHAN (s/d). 39 NÓBREGA (1997). 40 FAOP. (s/d). 41 FAOP. (s/d).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS “De SPHAN à IPHAN”
O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) foi criado em 1937. Alguns anos depois, mais precisamente em 1946, ocorreu uma mudança em seu nome e passou a se chamar Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN). Até 1953 a Diretoria estava subordinada ao Ministério da Educação e Saúde (MES). Posteriormente houve a criação do Ministério da Saúde, e o MES se transforma em MEC (Ministério da Educação e Cultura).
Nos anos de 1960 houve uma reforma administrativa que gerou a reorganização de ministérios. Já em 1970, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN) foi transformada em Instituto (IPHAN), passando a se vincular ao Departamento de Assuntos Culturais (DAC), que era um órgão superior, ao qual as instituições culturais alocadas no MEC eram vinculadas. Mesmo com esta mudança, somente em 1976 a Instituição teve seu novo regimento interno publicado, que tornou a sua organização mais complexa.
Em 1979 houve uma fusão entre o IPHAN, o Programa de Cidades Históricas (PCH) e o Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC), além da criação da Fundação Nacional Pró-Memória. Estes fatores contribuíram para que o Instituto fosse transformado em Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), tornando-se um órgão superior do MEC.
No início da década de 90 ocorreu a dissolução do Ministério da Cultura e de fundações culturais, como a Pró-Memória e a Funarte. Neste contexto, a Secretaria foi transformada em Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC). Houve diversas manifestações contrárias à adoção do novo nome e, em 1994, por meio de medida provisória, a Instituição volta a ser denominada de IPHAN, nome que mantém até os dias atuais. Fontes: http://portal.iphan.gov.br/dicionarioPatrimonioCultural/detalhes/55/instituto-do-patrimonio-historico-e-artistico-nacional-iphan-1970-1979-e-1994 http://portal.iphan.gov.br/dicionarioPatrimonioCultural/detalhes/52/diretoria-do-patrimonio-historico-e-artistico-nacional-dphan-1946-1970
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS
2 A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DO CURSO EM RESTAURO DA FAOP
Neste capítulo, inicialmente, resgataremos um pouco da história sobre as origens da Fundação de Arte de Ouro Preto, tema que já foi tratado com detalhes por PINTO (2018). Em seguida, falaremos sobre as origens e a evolução do Curso em Conservação e Restauro da Fundação, destacando o papel que aí teve Jair Afonso Inácio. Finalmente, procuraremos situar a formação oferecida pela FAOP no âmbito dos cursos de restauração e conservação de bens móveis no Brasil.
Ao final, acrescentamos dois anexos. O primeiro anexo descreve o Projeto Cantaria da UFOP, que, há vários anos, procura resgatar um ofício central (Mestre Canteiro) para a conservação de bens culturais imóveis em Ouro Preto e região. O projeto, de certa forma, dá continuidade a um esforço que remonta à restauração da Casa dos Contos de Ouro Preto e ao mesmo período de criação e vida da FAOP, e de seu curso em restauro. O segundo anexo enumera dispositivos legais e programas de fomento relacionados à preservação do patrimônio histórico no Brasil.
2 . 1 A s o r i g e n s d a F A O P N o B r a s i l , a s d é c a d a s d e 6 0 e 7 0 f i c a r a m ma r c a d a s p o r m u d a n ç a s . E m m a r ç o d e 1 9 6 4 , q u a n d o o s m i l i t a r e s g o l p e a r a m d e u ma v e z s ó a d e m o c r a c i a b r a s i l e i r a , c o me ç o u e n t ã o a D i t a d u r a M i l i t a r q u e t i n h a c o mo p r i n c i p a i s c a r a c t e r í s t i c a s a c a s s a ç ã o d e d i r e i t o s p o l í t i c o s d e o p o s i t o r e s , a r e p r e s s ã o a o s mo v i m e n t o s s o c i a i s e à s ma n i f e s t a ç õ e s d e o p o s i ç ã o , e a c e n s u r a a o s m e i o s d e c o mu n i c a ç ã o e a o s a r t i s t a s . N o s p r i me i r o s a n o s d a D i t a d u r a , o s m o v i me n t o s d e v a n g u a r d a c o n q u i s t a m m a i s e s p a ç o e a i n s a t i s f a ç ã o s o c i a l e p o l í t i c a c o m e ç a a s e r e x p r e s s a a t r a v é s d a s a r t e s p l á s t i c a s , d a p o e s i a e d a m ú s i c a - a a r t e s e t o r n a u m a f o r ma d e r e s i s t ê n c i a e p r o t e s t o . D i a n t e d a s m a n i f e s t a ç õ e s e s t u d a n t i s c o n t r a à D i t a d u r a , o g o v e r n o d e c r e t o u o A t o I n s t i t u c i o n a l N º . 5 ( A I - 5 ) e m d e z e m b r o d e 1 9 6 8 e d e s e n c a d e o u v i o l e n t a r e p r e s s ã o . O G o v e r n o c i v i l - mi l i t a r e s t a v a d e t e r mi n a d o a e l i mi n a r p o r c o mp l e t o q u a l q u e r
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS c o n s e q u ê n c i a o u h e r a n ç a d a p r á t i c a c u l t u r a l q u e a n t e c e d e u a i n s t i t u i ç ã o d o A I - 5 . P o d e m o s c o n s t a t a r i s t o e m s u a s a ç õ e s , q u e t i n h a m a c e n s u r a c o m o p r i n c i p a l m é t o d o . R e p r i mi u t o d o t i p o d e o b r a o u c r i o u e mp e c i l h o s p a r a a s u a c i r c u l a ç ã o e d i s t r i b u i ç ã o ; a f r o n t o u a p r o d u ç ã o c u l t u r a l u n i v e r s i t á r i a , o q u e , p o r c o n s e q u ê n c i a , a f e t o u g r a v e m e n t e a s u a q u a l i d a d e e s e u d e s t i n o ; p e r s e g u i u a l g u n s p r o d u t o r e s c u l t u r a i s ; d e mi t i u p r o f e s s o r e s e a i mp r e n s a s o f r e u c o m c e n s u r a d i á r i a , v e n d o - s e c o m p e l i d a a r e s i s t i r à p r o i b i ç ã o d e d e n u n c i a r e i n f o r ma r t a l a t o d e v i o l ê n c i a42. N o â mb i t o o u r o - p r e t a n o , e m 1 9 6 0 , f o i c r i a d o u m N ú c l e o d a S o c i e d a d e B r a s i l e i r a d e D e f e s a d a T r a d i ç ã o , F a mí l i a e P r o p r i e d a d e ( T F P ) , q u e t i n h a c o m o i n t u i t o c o mb a t e r q u a l q u e r s u p o s t a s u s p e i t a d e s o c i a l i s mo n a c i d a d e . A p a r t i r d i s t o , e r a c o mu m s e r a c u s a d o d e c o m u n i s t a o u d e l i n q u e n t e e s e r p u n i d o p o r t a l f a t o43. H o u v e d i v e r s a s i n v a s õ e s d o mi c i l i a r e s , e s p e c i a l me n t e e m r e p ú b l i c a s e s t u d a n t i s , q u e v i s a v a m a b u s c a d e ma t e r i a l c h a ma d o d e s u b v e r s i v o e d e s u p o s t o s c o mu n i s t a s . M u i t o s f o r a m p r e s o s e l e v a d o s a o D e p a r t a me n t o d e O r d e m P o l í t i c a e S o c i a l ( D O P S ) , e n q u a n t o o u t r o s c o n s e g u i r a m f u g i r . Q u a n d o a s p e r s e g u i ç õ e s s e i n i c i a r a m, o f o c o p r i n c i p a l r e c a i u s o b r e p o l í t i c o s , p r o f e s s o r e s , t r a b a l h a d o r e s e e s t u d a n t e s , q u e j á e r a m c o n h e c i d o s n a c i d a d e p o r s e u p o s i c i o n a me n t o f o r t e e m b u s c a d e t r a n s f o r m a ç õ e s44. T a mb é m n a q u e l e p e r í o d o , a r t i s t a s e p r o f e s s o r e s l i g a d o s à E s c o l a d e B e l a s A r t e s d a U F M G e à F u n d a ç ã o d e E d u c a ç ã o A r t í s t i c a d e B e l o H o r i z o n t e t i n h a m p l a n o s d e p r o mo v e r c u r s o s d e f o r ma ç ã o a r t í s t i c a d u r a n t e o p e r í o d o d e f é r i a s e s c o l a r e s p a r a o s e s t u d a n t e s e v i a m O u r o P r e t o c o m o u m l u g a r p r o p í c i o p a r a s u a r e a l i z a ç ã o . A s s i m, n a s c i a o F e s t i v a l d e I n v e r n o , q u e t e v e s u a p r i me i r a e d i ç ã o e m 1 9 6 7 , a c o n t e c e a t é o s d i a s d e h o j e n o m ê s d e 42 FRANCO (1994/1995). 43 PINTO (2018).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS j u l h o e p o d e s e r c o n s i d e r a d o c o m o i n t e g r a n t e d o q u a d r o d a r e s i s t ê n c i a c u l t u r a l45. O F e s t i v a l d e I n v e r n o c o n s t i t u í a - s e c o m o u m e s p a ç o d e l i b e r d a d e , d e e x p e r i me n t a l i s mo e s t é t i c o e d i d á t i c o . N u m p e r í o d o q u e a e x p e r i ê n c i a h i s t ó r i c a é ma r c a d a p e l a me t á f o r a d o s u f o c o , o F e s t i v a l d e I n v e r n o f o i , p a r a a l g u n s , u m l o c a l n o q u a l s e p o d i a r e s p i r a r , a o me n o s p o r u m m ê s46. E m p a r a l e l o à p r o g r a m a ç ã o o f i c i a l d o e v e n t o , h a v i a a q u e f o i d e n o mi n a d a d e “ f e s t i v a l d o i n f e r n o ” p e l o s mo r a d o r e s l o c a i s , o n d e a j u v e n t u d e , q u e v i v i a a c o n t r a c u l t u r a e o d e s b u n d e , a p r o p r i a v a - s e d e e s p a ç o s d a c i d a d e . F a t o q u e c o n t r a r i a v a o s c o s t u m e s e v a l o r e s t r a d i c i o n a i s q u e b o a p a r t e d o s o u r o - p r e t a n o s e o s ó r g ã o s d e r e p r e s s ã o d o E s t a d o d e f e n d i a m. L o g o , a b o e m i a e o c o n s u m o d e d r o g a s c o m e ç a r a m a s e r r e p r i mi d o s n a c i d a d e47. D u r a n t e a r e a l i z a ç ã o d o F e s t i v a l , a P o l í c i a M i l i t a r j u n t a m e n t e c o m o D O P S e a s d e l e g a c i a s d e V a d i a g e m, F u r t o s e O r d e m E c o n ô mi c a f o r ma v a m u m a p a r a t o d e s e g u r a n ç a e m O u r o P r e t o . S e u s p r i n c i p a i s a l v o s e r a m o s u p o s t o u s o d e t ó x i c o s e o “ c o mp o r t a me n t o i n d e s e ja d o d o s h i p p i e s ” , p a r a s e “ e v i t a r a t e n t a d o s a o s c o s t u m e s , e v i ta n d o e s c â n d a l o s e i n v a s õ e s ”48. O c o n s u m o d e d r o g a s , a l i b e r d a d e s e x u a l e a s u b v e r s ã o d e c o s t u m e s , n o d i s c u r s o p a r a n o i c o d o s ó r g ã o s d e r e p r e s s ã o , c e n s u r a e d e i n f o r m a ç ã o , e r a m c o n s i d e r a d o s c o m o a r m a s c o mu n i s t a s p a r a d e s e s t r u t u r a r a f a m í l i a t r a d i c i o n a l e a s o c i e d a d e , a l é m d e e n f r a q u e c e r a j u v e n t u d e . I s t o e r a v i s t o c o m o f a c i l i t a d o r p a r a q u e o s s u p o s t o s s o v i é t i c o s t o ma s s e m o p o d e r , p o r t a n t o , d e v e r i a s e r c o mb a t i d o49.
45SILVEIRA, MAIA, PEREIRA e SILVA (2017), p.235 46 KAMINSKI (2012), p.333-334
47 KAMINSKI (2012).
48 SILVEIRA, MAIA, PEREIRA e SILVA (2017), p.240 49 KAMINSKI (2012).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS N e s t e c o n t e x t o , V i n í c i u s d e M o r a e s , f u g i n d o d a r e p r e s s ã o d o G o v e r n o C o s t a e S i l v a , h o s p e d a - s e e m O u r o P r e t o n a c a s a d o m é d i c o e e mp r e s á r i o E l o y H e r a l d o L i ma , q u e p a r t i l h a v a c o m V i n í c i u s a a mi z a d e d e v á r i o s i n t e l e c t u a i s r a d i c a d o s n o R i o d e J a n e i r o ( H é l i o P e l e g r i n o , P a u l o M e n d e s C a m p o s , F e r n a n d o S a b i n o , O t t o L a r a R e z e n d e e o m é d i c o I v o P i t a n g u y )50. O p o e t a f o i i n c u mb i d o p e l o e n t ã o g o v e r n a d o r d e M i n a s G e r a i s , I s r a e l P i n h e i r o , d e r e a l i z a r u m p r o j e t o n a c i d a d e d e O u r o P r e t o c o m o p r o p ó s i t o d e c o n s e r v a r e v a l o r i z a r a c i d a d e . A s s o c i a - s e , e n t ã o , à a t r i z D o m i t i l a d o A m a r a l , f a z e m u m p r o j e t o p a r a a c r i a ç ã o d e u ma f u n d a ç ã o d e a r t e n a c i d a d e e a d u p l a d e s i g n a M u r i l o R u b i ã o p a r a mi s s ã o d e e s t r u t u r á - l o . C o m o a u x í l i o d e R u i M o u r ã o e d o h i s t o r i a d o r A f f o n s o Á v i l a , f o r a m f o r m u l a d o s o s e s t a t u t o s e o p r o j e t o d e l e i n º 5 0 3 8 d e 2 5 d e n o v e m b r o d e 1 9 6 8 ( s u b s t i t u í d o p o s t e r i o r me n t e p e l o D e c r e t o n º 1 1 6 5 6 d e 1 1 d e f e v e r e i r o d e 1 9 6 9 ) . A s s i m, n a s c i a a F u n d a ç ã o d e A r t e d e O u r o P r e t o51. L o g o n o a n o s e g u i n t e à s u a f u n d a ç ã o , a ‘ E s c o l i n h a d e A r t e ’ c r i a d a p o r N e l l o N u n o e A n n a m é l i a L o p e s52 p a s s a a i n t e g r a r a I n s t i t u i ç ã o , t r a z e n d o c o n s i g o v á r i o s c u r s o s d e a r t e e p a s s a n d o a s e r c h a m a d a d e E s c o l a d e A r t e R o d r i g o M e l o F r a n c o d e A n d r a d e – E A R M F A53. S o m a n d o - s e à E A R M F A54, o r e s t a u r a d o r J a i r A f o n s o I n á c i o f u n d a n o i n í c i o d a d é c a d a d e 7 0 o c u r s o d e “ R e s t a u r a ç ã o d e O b r a s d e A r t e ” d a F A O P , d e s t i n a d o à f o r ma ç ã o d e C o n s e r v a d o r e s e R e s t a u r a d o r e s n o B r a s i l , a t é h o j e c o n s i d e r a d a a p r i me i r a e x p e r i ê n c i a e s t r u t u r a d a d e f o r ma r e g u l a r p a r a a f o r m a ç ã o d e p r o f i s s i o n a i s d a á r e a n o p a í s55.
50 PINTO (2018), HYGINO (2012), PENIDO (s/d) e depoimento do Prof. Luiz Antônio de Matos
Macedo em 2018.
51 FAOP (s/d).
52 Nome de batismo: Anna Amélia Lopes.
53 Depoimento de Gabriela Rangel na defesa de TCC de Raquel Pinto, Mariana 18/12/2018. 54 Como veremos na próxima seção.
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS F o n t e : F A O P ( s / d ) F o n t e : F A O P ( e l a b o r a ç ã o p r ó p r i a ) . * N ú c l e o d e A r t e e O f í c i o s – a l t e r a ç ã o n o E s t a t u t o d a F A O P – D e c r e t o N º 4 7 . 9 2 2 , d e 2 3 d e a b r i l d e 2 0 2 0 2 . 2 A s o r i g e n s e a e v o l u ç ã o d o C u r s o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P P o d e - s e d i z e r q u e a F u n d a ç ã o d e A r t e d e O u r o P r e t o s e e n q u a d r a e m u m n o v o c e n á r i o e d u c a c i o n a l , e m q u e o c o n h e c i me n t o é o m e c a n i s m o - c h a v e p a r a o d e s e n v o l v i me n t o , u s u a l me n t e c h a m a d o d e c a p i t a l i n t e l e c t u a l .
Segundo observações que fizemos junto a própria FAOP, pode-se dizer que a Fundação de Arte de Ouro Preto também é marcada pelo laço social, uma vez que estreita as relações entre a arte e o espírito ouro-pretano. Ela produz e preserva manifestações de genialidade de seu povo, as quais servem de referência para novas propostas de trabalho, sem perder sua marca criadora, sua identidade e sua
A E S C O L A D E A R T E R O D R I G O M E L O F R A N C O D E A N D R A D E A E A R M F A f o i i n t e g r a d a à F A O P u m a n o a p ó s a c r i a ç ã o d a F u n d a ç ã o . E l a é f o r ma d a p e l o N ú c l e o d e A r t e e O f í c i o s * e p e l o N ú c l e o d e C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r a ç ã o . A E s c o l a d e f e n d e a a r t e c o mo c o n h e c i me n t o e p r e z a p e l a v i v ê n c i a d a c u l t u r a e s u a s p r á t i c a s e d u c a t i v a s , a l é m d e v a l o r i z a r o s s a b e r e s d e f o r m a g l o b a l e i n c l u s i v a . O r e s p e i t o à i d e n t i d a d e c u l t u r a l d o i n d i v í d u o é a f o r ma a t r a v é s d a q u a l e l a ma n t é m s u a e s s ê n c i a , o q u e p o d e s e r c o n s t a t a d o p e l o s a n o s d e t r a b a l h o r e a l i z a d o v i s a n d o f o r t a l e c e r a a r t e n o â m b i t o d a l i n g u a g e m, c u l t u r a e d i v e r s i d a d e ; a l é m d a c o n t í n u a r e f l e x ã o s o b r e s u a s p r á t i c a s p e d a g ó g i c a s . A E s c o l a t e m c o m o p r o p o s t a u n i r e d u c a ç ã o e c u l t u r a p a r a p r o p o r c i o n a r u ma f o r m a ç ã o a m p l a , i n c l u s i v a e h u ma n í s t i c a a o s s e u s a l u n o s , p r o mo v e n d o , a s s i m , u ma e f e t i v a i n t e g r a ç ã o d a F u n d a ç ã o c o m a c o m u n i d a d e . O d e s e n v o l v i m e n t o h u m a n o é s u a b a s e , i n c e n t i v a n d o p o t e n c i a l i d a d e s i n d i v i d u a i s e c o l e t i v a s a f i m d e d e s e n v o l v e r a a u t o n o m i a e a c r i a t i v i d a d e d e s e u s a l u n o s .
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visão crítica da sociedade. Desde seus primórdios, tem papel extremamente importante na construção de uma rede de relações entre artesãos, artistas, intelectuais e população local; operando como um polo agregador e difusor do fazer artístico, alé m d e c o n t r i b u i r p a r a a f o r m a ç ã o d e u m m e r c a d o d e t r a b a l h o l o c a l e r e g i o n a l n a mú s i c a , n a s a r t e s p l á s t i c a s , n o r e s t a u r o d e b e n s c u l t u r a i s e n o s o f í c i o s a r t e s a n a i s56. A d e m a i s , o c a s o d a F A O P n ã o é e s t r a n h o a o c o n c e i t o d e u ma c o m u n i d a d e d e p r á t i c a ( C d P )57 e p o d e mo s d i z e r q u e e s t á a s s o c i a d o a o m o d o c o m o a F u n d a ç ã o f o i s e n d o c o n s t r u í d a a p a r t i r d o s a n o s 6 0 . C o m o v i mo s , n e s t a é p o c a , n o a m b i e n t e d o F e s t i v a l d e I n v e r n o d e O u r o P r e t o , u m g r u p o d e a r t i s t a s f o r m a d o p o r J a i r I n á c i o , A m í l c a r d e C a s t r o , A n n a m é l i a L o p e s , N e l l o N u n o e a l g u n s o u t r o s s e u n i u c o m o i n t u i t o d e p r o p o r c i o n a r u ma e x p e r i ê n c i a n o v a a s e u s d i s c e n t e s , e n s i n a n d o - l h e s s e u s c o n h e c i me n t o s d e f o r m a l i v r e . N e s t e s e n t i d o , c o m o v e r e m o s , u m e x e m p l o d a C d P é o c u r s o d e r e s t a u r o , e s t r u t u r a d o , i n i c i a l me n t e , a p a r t i r d e u m a r e l a ç ã o m e s t r e - a p r e n d i z , m u i t o v o l t a d o p a r a o me r c a d o d e t r a b a l h o e q u e p r o p o r c i o n a a c o n s t r u ç ã o d e l a ç o s e n t r e s e u s a l u n o s e e x - a l u n o s , c o mo p r e t e n d e m o s e x p l o r a r n o t e r c e i r o c a p í t u l o58. 2 . 2 . 1 A s o r i g e n s d o C u r s o e m R e s t a u r o d a F A O P C o mo j á m e n c i o n a d o , n o i n í c i o d o s a n o s 1 9 7 0 , N e l l o N u n o e s u a e s p o s a A n n a mé l i a L o p e s i d e a l i z a m a c r i a ç ã o d e u m c u r s o d e a r t e s q u e d e u o r i g e m à E A R M F A ( E s c o l a d e A r t e R o d r i g o M e l o F r a n c o d e A n d r a d e ) . A o t e r e m c o n h e c i me n t o d e q u e a r e c é m -c r i a d a F u n d a ç ã o d e A r t e d e O u r o P r e t o t i n h a a p o s s e d e u m
56 Este parágrafo apoia-se nas informações disponíveis no site da FAOP e nos depoimentos de Júlia Mitraud,
Sandra Fosque e Gabriela Lopes de Moura Rangel – visita à FAOP em 2018.
57 Pinto (2018) cita ARGYRIS. C. (1980). Inner contradictions of rigorous research. New York;
Academic Press. Aquele autor caracterizaria uma CdP como uma “comunidade justa”, que se baseia na democracia, na responsabilidade dos membros pelo bem-estar de todos, na promoção de um ambiente confiável onde profissionais de atividades comuns, dialogam e põe em prática seus conhecimentos de forma madura
58 PINTO (2018). Remetemos o leitor a este trabalho, que reúne informações biográficas essenciais
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS c a s a r ã o a b a n d o n a d o q u e e s t a v a e m r e f o r m a , p r o c u r a r a m o e n t ã o p r e s i d e n t e d a F u n d a ç ã o , M u r i l o R u b i ã o , e f o r a m a c o l h i d o s , d a n d o f ô l e g o a o p r o j e t o d a e s c o l a d e a r t e s . A n n a m é l i a l e c i o n a v a a u l a s d e g r a v u r a e d e s e n h o , N e l l o N u n o d a v a a u l a s d e p i n t u r a , J a i r A f o n s o I n á c i o d e r e s t a u r a ç ã o e O r l a n d i n o S e i t a s F e r n a n d e s , e n t ã o D i r e t o r d o M u s e u d a I n c o n f i d ê n c i a59, d e h i s t ó r i a d a a r t e . A p r i n c í p i o , o s a r t i s t a s n ã o t i n h a m a o s e u d i s p o r u m l o c a l a d e q u a d o p a r a q u e p u d e s s e m c o l o c a r e m p r á t i c a s u a s a u l a s . O e s p a ç o f o i c e d i d o a o s a r t i s t a s a t é q u e a s o b r a s d e l e f o s s e m c o n c l u í d a s . N o e n t a n t o , d a d a a g r a n d e v i s i b i l i d a d e d a e s c o l a d e a r t e , e s t a p a s s a r i a a i n t e g r a r o f i c i a l me n t e à F A O P60. D a n d o c o n t i n u i d a d e à s i n i c i a t i v a s r e l a c i o n a d a s a o c u r s o d e a r t e s , a F A O P f o i p r e c u r s o r a n a i mp l a n t a ç ã o d e u m c u r s o d e f o r ma ç ã o d e r e s t a u r a d o r e s d e b e n s c u l t u r a i s mó v e i s n o B r a s i l . O C u r s o T é c n i c o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P t e v e i n í c i o n a d é c a d a d e 7 0 c o m o r e s t a u r a d o r J a i r A f o n s o I n á c i o . P o s t e r i o r me n t e , f o i r e c o n h e c i d o p e l o M i n i s t é r i o d a E d u c a ç ã o e c o n s i d e r a d o a p r i me i r a e x p e r i ê n c i a n a f o r m a ç ã o d e p r o f i s s i o n a i s d e f o r m a r e g u l a r n o B r a s i l , t o r n a n d o - s e r e f e r ê n c i a i n t e r n a c i o n a l n o p r o c e s s o d e r e s t a u r a ç ã o d e b e n s c u l t u r a i s mó v e i s n a s á r e a s d e p i n t u r a d e c a v a l e t e e d e p a p e l , e d e e s c u l t u r a p o l i c r o ma d a . O c u r s o t e m p a p e l d e d e s t a q u e n a p r e s e r v a ç ã o d o s a c e r v o s c o mu n i t á r i o s ( r e c e b e p e ç a s c o m o m a t e r i a l d i d á t i c o c o m m í n i m o s c u s t o s p a r a a s c o m u n i d a d e s g u a r d i ã s ) e m a n t é m e q u i p e t é c n i c a q u e r e a l i z a c o n s u l t o r i a s , d i a g n ó s t i c o s e p r o j e t o s d e c o n s e r v a ç ã o e r e s t a u r a ç ã o d e b e n s m ó v e i s , a l é m d a p r e s t a ç ã o d e s e r v i ç o s61. A d i c i o n a l me n t e , p r o m o v e a ç õ e s e d u c a t i v a s j u n t o à s c o m u n i d a d e s a t e n d i d a s , d a n d o o r i e n t a ç õ e s p a r a a c o n s e r v a ç ã o d e b e n s 59 CEIB (1999). 60 PINTO (2018).
61 Em dezembro de 2019, a FAOP inaugurou o LABCOR – Laboratório de Conservação e Restauro
Jair Afonso Inácio, que presta serviços no campo da restauração de bens integrados, móveis e imóveis, além de laudos técnicos e diagnósticos, ampliando equipe, estrutura e as possibilidades da prestação de serviços
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS p a t r i mo n i a i s62. C o m i s s o , o p a p e l d a F A O P e m c r i a r l a ç o s c o m a p o p u l a ç ã o l o c a l é a l c a n ç a d o . E l a n ã o o f e r e c e a p e n a s c u r s o s , m a s t a mb é m o f e r e c e a o p o r t u n i d a d e à c o mu n i d a d e d e a c e s s o à s a r t e s , a t r a v é s d a p r o f i s s i o n a l i z a ç ã o e i n t e r a ç ã o c o m a p o p u l a ç ã o , t o r n a n d o - s e a s s i m u m a e n t i d a d e d e t r a n s f o r m a ç ã o s o c i a l . S e g u n d o a p r o f e s s o r a G a b r i e l a R a n g e l , D i r e t o r a d a E A R M F A , a F A O P s e r i a t a m b é m u m a i n c u b a d o r a a o a c o l h e r e d a r o p o r t u n i d a d e s d e i n i c i a r a a t u a ç ã o p r o f i s s i o n a l a r e s t a u r a d o r e s , p i n t o r e s , e s c u l t o r e s e m ú s i c o s , q u e , p o s t e r i o r me n t e , a p r o f u n d a m e c o n s o l i d a m , e m o u t r o s l u g a r e s e i n s t i t u i ç õ e s , a c o n t i n u i d a d e d e s u a f o r m a ç ã o , s e u f a z e r a r t í s t i c o e s u a i n s e r ç ã o p r o f i s s i o n a l63. R e t o m a r e mo s e s t a q u e s t ã o n o t e r c e i r o c a p í t u l o M a i s p r e c i s a me n t e , o c u r s o f o i f u n d a d o e m 1 9 7 1 p e l o r e s t a u r a d o r J a i r A f o n s o I n á c i o i n ti t u l a d o c o mo “ R e s t a u r a ç ã o d e O b r a s d e A r t e ”64. A a u l a i n a u g u r a l d o c u r s o o c o r r e u n o a n o d e 1 9 7 1 n a C a s a d a Ó p e r a d e O u r o P r e t o e , e m s e g u i d a , o s a l u n o s , a c o m p a n h a d o s d o p r o f e s s o r J a i r I n á c i o , r e a l i z a r a m p a s s e i o s p o r O u r o P r e t o e o u t r a s c i d a d e s d o c i c l o d o o u r o . M á r c i a V a l a d a r e s , e x - a l u n a d e J a i r I n á c i o , r e l e mb r a :
...“a gente ac hav a m arav ilhoso; Jair contando a s hi st ór i a s e aqu el es pa s sei o s pel a s i gr ej a s, p el as r ua s d e O ur o P r et o65.” J á n o a n o s e g u i n t e a s a u l a s f o r a m t r a n s f e r i d a s p a r a o e n t ã o M u s e u d e O u r o P r e t o , a t u a l M u s e u d a I n c o n f i d ê n c i a , o n d e o s d i s c e n t e s r e s t a u r a v a m a s p e ç a s . C o mo j á m e n c i o n a d o , o mu s e u e r a d i r i g i d o p o r O r l a n d i n o S e i t a s F e r n a n d e s , q u e e r a u m a m a n t e e g r a n d e e s p e c i a l i s t a d o b a r r o c o a s s i m c o m o J a i r I n á c i o . N o e n t a n t o , u m a n o m a i s t a r d e , p r e c i s a me n t e e m 0 6 / 0 9 / 1 9 7 3 , e l e f o i 62 FAOP (s/d). 63 Entrevista 1 (2018). 64 NÓBREGA (1997).
O RESTAURO DE BENS MÓVEIS E A FORMAÇÃO DE RESTAURADORES – ANÁLISE INTRODUTÓRIA DOS d e t i d o i r r e g u l a r me n t e p e l a P o l í c i a F e d e r a l e t e r i a s i d o s u b me t i d o a i n t e r r o g a t ó r i o c o m v i o l ê n c i a a f i m d e c o n f e s s a r o r o u b o d e 1 6 p e ç a s e m o u r o e p r a t a d e g r a n d e i mp o r t â n c i a h i s t ó r i c a d a I g r e j a d o P i l a r d e O u r o P r e t o , q u e o c o r r e u e m 0 2 / 0 9 / 1 9 7 3 e f o i o b j e t o d e u ma i n v e s t i g a ç ã o p o l i c i a l r o c a m b o l e s c a . À me s m a é p o c a , O r l a n d i n o S e i t a s t e r i a s i d o t r a n s f e r i d o p a r a o u t r o p o s t o d o I P H A N n a B a h i a e o M u s e u , d o q u a l f o i d i r e t o r e n t r e 1 9 5 9 e 1 9 7 3 , t e r i a p e r ma n e c i d o f e c h a d o , m o t i v a n d o a t r a n s f e r ê n c i a d a s a u l a s d o c u r s o p a r a o p r é d i o d a F A O P s i t u a d o à R u a G e t ú l i o V a r g a s , 1 8 5 . C o mo v i mo s , j á e r a m r e a l i z a d a s , e m i n s t a l a ç õ e s d a F A O P , a s a t i v i d a d e s d o s c u r s o s d e a r t e s ( ‘ E s c o l i n h a d e A r t e ’ ) c o o r d e n a d a s p o r N e l l o N u n o e A n n a m é l i a L o p e s66. 2 . 2 . 2 A e v o l u ç ã o d o C u r s o e m C o n s e r v a ç ã o e R e s t a u r o d a F A O P O C u r s o d e R e s t a u r a ç ã o d e O b r a s d e A r t e n ã o t i n h a t e m p o d e t e r mi n a d o d e d u r a ç ã o e o d i s c e n t e r e c e b i a s e u d i p l o ma q u a n d o e r a c o n s i d e r a d o “ p r o n t o ” p e l o p r o f e s s o r . J a i r f a l a s o b r e o t e mp o p a r a s e f o r m a r u m b o m r e s t a u r a d o r :
...”é indeterminado; é preci so gr ande am or ao trabalho, habi l i dade m anual e m ui t o est udo; de senv olv im ent o t éc ni c o e, so br et ud o, s en si bi l i dade; s aber a hor a c er t a em que um t r abal ho de r e st aur aç ão dev e par ar , a f im de que a obr a d e ar t e per m aneç a r e spei t ada; nã o i nt er f eri r na per so nal i dade d o aut or , ex pr es s a na obr a67. ”
J o s é E f i g ê n i o , o u t r o e x - a l u n o d e J a i r I n á c i o , c o mp l e me n t a :
“Prim eira turm a que ganhou diplom a não quer dizer prim eira t ur m a que ent r ou no c ur s o68”.
A q u e l e f o r ma t o i n i c i a l p e r ma n e c e u a t i v o d u r a n t e a p r i me i r a d é c a d a d o c u r s o e s e b a s e a v a e m a u l a s p r á t i c a s e t e ó r i c a s .
66 NÓBREGA (1997); Jornal Opinião (1973). 67 Citado por NÓBREGA (1997), p. 66. 68 Citado por NÓBREGA (1997), p. 67.