REPUBLICA DE ANGOLA TRIBUNAL CONSTITUCIONAL
2.acAMARA
ACORDA.O N.o 398 12016
PROCESSO N.
°
506-C/2016Recurso Ordincirio de Inconstitucionalidade
Em nome do Povo, acordam em Sessao da Segunda Camara do Tribunal Constitucional:
I. RELATORIO
Benedito Jeremias Dala, Rosa Lussu Conde, Manuel Baptista Chivonde Nito Alves, Nuno Alvaro Dala, Monso Mahenda Matias, Albano Evaristo Bingo Bingo, Jose Gomes Hata, Sedrick de Carvalho, Fernando Antonio Tomas, Arante Kivuvu Italiano Lopes, Inocencio Antonio de Brito, Hitler Jessy Tchikonde, Nelson Dibango Mendes dos Santos, Osvaldo Sergio Correia Carolo, Laurinda Manuel Gouveia, Henrique Luaty da Silva Beirao e Domingos Jose da Cmz, devidamente identificados nos autos, vieram interpor recurso ordinario de inconstitucionalidade do Ac6rdao do Tribunal Provincial de Luanda que os condenou pelo crime de actos preparat6rios de rebeliao, tendo, nas suas alega<;6es, apresentado os seguintes pedidos:
a) dec1ara<;ao de inconstitucionalidade da norma do n.o 1 do artigo 21.° da Lei n.o 23110, de 3 de Dezembro, Lei dos Crimes contra a Seguran<;a do Estado com base na qual foram condenados por actos preparat6rios do crime de rebe1iao;
b) dec1ara<;ao de inconstitucionalidade do Ac6rdao proferido no que tange
a
condena<;ao a 2 anos de prisao maior do Recorrente Henrique Luaty da Silva Beirao, pelo crime de falsifica<;ao de documentos, pelo qual foi tambem condenado, por viola<;ao de diversos preceitos constitucionais, nomeadamente os constantes dos artigos 6.°,32.° 34.°,e 2a parte da alinea f) do artigo 186.°, todos da eRA; ~
c) dec1ara<;ao de inconstitucionalidade do Ac6rdao proferido pelo Tribunal Provincial de Luanda por viola<;ao dos seus direitos
fundamentais decorrentes das disposi<;6es acima indicadas e, em . ~ ~
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con sequencia, a absolvi<;ao e liberta<;ao dos Recorrentes.
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ll. COMPETENCIA DO TRIBUNAL
o
Tribunal Constitucional e competente para apreciar 0 pedido dedec1arac;ao de inconstitucionalidade do noO 1 do artigo 21.° da Lei noO 23110, de 3 de Dezembro, Lei dos Crimes contra a Seguranc;a do Estado, com base no qual foi proferida a decisao condenatoriao Resulta esta competencia da aline a e) do artigo 160° da Lei noO 2/08, de 17 de Junho, Lei Organica do Tribunal Constitucional, bern como da alinea b) do noO 1 do artigo 360° da Lei noo 3/08, de 17 de Junho, Lei do Processo Constitucional.
Relativamente aos pedidos de dec1arac;ao de inconstitucionalidade da propria decisao condenatoria proferida pelo Tribunal Provincial de Luanda, a competencia do Tribunal so pode ser exercida apos esgotamento dos recursos ordinarios legalmente previstos (aline a m) do artigo 160° da Lei noO 2/08, de 17 de Junho, Lei Organica do Tribunal Constitucional e § unico do artigo 490° da Lei noO 3/08, de 17 de Junho, Lei do Processo Constitucional)0 Assim, 0 Tribunal Constitucional e, quanto a estes pedidos, incompetente em
razao da hierarquiao
ill. LEGITIMIDADE
Os Recorrentes sao partes legitimas pelo seu interesse em recorrer e por terem oportunamente suscitado a questao da inconstitucionalidade da norma perante 0 tribunal que proferiu a decisao recorrida (aline a b) do noO 1 do
artigo 370° da Lei do Processo Constitucional)0 IV. OBJECTO DO RECURSO
o
objecto do recurso e limitadoa
apreciac;ao da inconstitucionalidade da norma do noO 1 do artigo 21.° da Lei noO 23110, de 3 de Dezembro, Lei dos Crimes contra a Seguranc;a do Estado, com base na qual foi proferida a decisao condenatoriaoo
processo foi com vista ao Ministerio Publico que se pronunciou no sentido do nao provimento do recursooColhidos os vistos dos Juizes Conselheiros desta Camara cumpre, agora, apreciar e decidiro
IV. APRECIANDO
o
presente recurso ordinario, como ficou dito acima, nao tern por objecto a decisao condenatoria mas a apreciaC;ao da constitucionalidade de uma das normas em que se fundou a condenac;ao dos Recorrenteso 0 provimento do presente recurso ordinario nao poderia, assim, ter como consequencia a nulidade da decisao condenatoriao Tal nulidade so podera resultar do recursoordinario igualmente interposto para 0 Tribunal Supremo, 0 qual se encontra
a aguardar a presente decisao sobre a invocada inconstitucionalidade da norma (alinea c) do artigo 44.° da Lei do Processo Constitucional).
Feita esta observa<;ao, cumpre apreciar se a norma do n.O 1 do artigo 21.° da Lei n.O 23/10, de 3 de Dezembro, Lei dos Crimes contra a Seguran<;a do Estado, padece da alegada inconstitucionalidade.
Disp5e a referida disposi<;ao da Lei n.o 23/10 de 3 de Dezembro, sob a designa<;ao de crime de rebeli(io, que:
"Quem, por meio ilicito, executar qualquer acto tendente a, directa ou indirectamente, alterar, no todo ou em parte, a Constitui~(io da Republica de Angola e subverter as
institui~5es do Estado por ela estabelecidas, e punido com pena de pris(io de 3 a 12 anos, se pena mais grave the n(io couber porfor~a de outra disposi~(io penal".
Consideram os Recorrentes que esta norma e nul a por se achar em desconformidade com 0 disposto na Constitui<;ao, particularmente no seu
artigo 65.° n.o 2, segundo 0 qual "Ninguem po de ser condenado por crime sen(io
em virtude de lei anterior que declare punivel a ac~(io ou omiss(io, nem sofrer medida de seguran~a cujos pressupostos n(io estejam fixados por lei anterior' .
Como este Tribunal Constitucional definiu no seu Ac6rdao n.o 123/2010, de 16 de Dezembro, "Nao pode haver crime, nem pena que nao resultem de uma lei previa, escrita, estrita e certa." (II Vol. da Colectanea de Ac6rdaos do Tribunal Constitucional, pag. 291). Seguindo 0 mesmo aresto, "0 preceito
em analise (artigo 65.° da CRA) contem 0 essencial do regime constitucional
da lei criminal, isto e, da lei que declare criminalmente punivel uma ac<;ao ou uma omissao, definindo urn determinado crime e prevendo a respectiva pena. No fundo 0 que se verifica nesse enunciado e 0 reiterar dos grandes
principios e sub-principios acima ilustrados, em materia penal; como 0
principio da legalidade e tipicidade dos crimes e das penas, 0 da nao
retroactividade da lei penal, etc.".
Esse Ac6rdao do Tribunal Constitucional teve como objecto de aprecia<;ao a inconstitucionalidade do antigo artigo 26.° da versao original da Lei dos Crimes Contra a Seguran<;a do Estado (a Lei n.o 7/78, de 26 de Maio) que sobrevivera na Lei n.
°
22-C/92, de 9 de Setembro, e viria a ser removida do nosso ordenamento juridico pela actual Lei n.O 23/10. Dispunha esse preceito, sob a vaga epigrafe de "outros actos", que" Todo e qualquer acto, n(io previsto na lei, que ponha ou possa por em perigo a seguran~a do Estado sera punidocom a pena do n. 05, do artigo 55. 0do C6digo Penal" .
Mostrou-se evidente ao Tribunal Constitucional, como igualmente se revelou
it Assembleia N acional, que a referida disposi<;ao escapara ao escrutinio do
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objectivo expresso no preambulo da Lei de 1978, de ser "da maioraimportancia que as condutas que atentam contra a seguran<;a do Estado
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sejam definidas com a maior precisao na lei penaL .. "~->~
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vPosto isto, e legitima a interrogac;:ao sobre se as razoes invocadas contra 0
antigo artigo 26.° sao igualmente oponiveis
a
norma do n.O 1 do artigo 21.° da Lei dos Crimes contra a Seguranc;:a do Estado. Podera dizer-se em relac;:ao a esta ultima disposic;:ao 0 mesmo que no Ac6rdao n.o 123/2010 se coneluiaa respeito do antigo artigo 26.°, caracterizando-o como uma norma penal
incerta e, por isso, desajustada do actual contexto juridico-constitucional?
Voltando ao Ac6rdao n.o 123/2010, ai se explica a razao de ser da inconstitucionalidade do referido e j a revogado artigo 26.°:
1. Porque,
a
luz daquela disposic;:ao constitucional (artigo 65.° da CRA), o normativo em causa nao descrevia 0 comportamento proibido;2. Porque tambem nao fIxava a norma os pressupostos da acc;:ao ou da omissao puniveis, muito menos descrevia quais eram os elementos essenciais constitutivos do crime de "outros actos".
Em suma, a norma incriminadora nao descrevia, nem objectiva nem subjectivamente, as acc;:oes ou omissoes que a deveriam preencher, pelo que o Tribunal Constitucional considerou aquela norma desconforme
a
Constituic;:ao.o
que dizer, porem, da conformidade com a Constituic;:ao do artigo 21.°, para alem da semelhanc;:a que resulta de tambem a norma sub judice confIgurar urn crime contra a Seguranc;:a do Estado?A presente questao constitucional e, por conseguinte, a de saber se 0 artigo
21.° n.o 1, da Lei n.o 23/10 passara no mesmo teste a que foi submetido 0
artigo 26.° da anterior versao daquela lei, quer quanto
a
descric;:ao de urn comportamento punivel quer relativamentea
identifIcac;:ao dos elementos essenciais constitutivos do crime de rebeliao.Basta comparar 0 artigo 21. ° n. ° 1 com 0 antigo artigo 26. ° para se verifIcar
que, no caso do artigo 21.° n.o 1, nao e punivel "urn qualquer acto ainda que nao previsto na lei", mesmo que potencial ou realmente perigoso para a seguranc;:a do Estado mas, antes, urn acto ilicito cuja execuc;:ao, de forma directa ou indirecta, seja id6nea
a
produc;:ao do resultado tipico defInido na norma incriminadora como a subversao das instituic;:oes estabelecidas na Constituic;:ao.Com efeito resulta elaro que 0 legislador, contrariamente ao revogado art. 26.°, definiu com precisao os elementos constitutivos do crime de rebeliao, que sao a ilicitude do acto, 0 dolo ou intenc;:ao de 0 praticar e a causalidade
entre 0 acto ilicito e 0 prop6sito de subverter as instituic;:oes do Estado. Sao, ~
alias, elementos constitutivos a que a Constituic;:ao nao poe qualquer limite.
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que a Constituic;:ao nao permite e a imputac;:ao de urn crime a que nao6iit
caiba uma pr~existente descric;:ao do ili~ito e a garantia de uma. adequac;:ao /
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entre a acc;:ao Imputada e os resultados vlsados pela conduta penahzada. ~ ~~~
Ora, relativamente
a
necessidade de uma preVIa descri<;:ao do ilicito suficientemente reflectida na lei para que nao haja urn risco de se cair no arbitrio, convira notar que, ao contrario do que acontecia com 0 expurgadoartigo 26.°, 0 artigo agora em aprecia<;:ao tern uma designa<;:ao concreta
crime de rebeliao.
A rebeliao, como resulta da sua defini<;:ao e e perceptivel para 0 comum dos
interpretes e destinatarios da lei, e urn acto de insurrei<;:ao, rebeldia e subleva<;:ao contra os poderes publicos constituidos, com vista
a
sua destitui<;:ao.Essa insurrei<;:ao, com ou sem uso de violencia armada, constitui 0 "acto ilicito" a que se refere 0 artigo 21.° em aprecia<;:ao.
Alias, e a pr6pria Constitui<;:ao que criminaliza este tipo de condutas no n. ° 2 do seu artigo 4.° ao estatuir que "Sao ilegitimos e criminalmente puniveis a tomada e 0 exercicio do poder politico com base em meios violentos ou por outras
formas nao previstas nem conformes com a Constitui~ao".
A criminaliza<;:ao pelo legislador constitucional destas condutas contrarias
a
ordem constitucional e ao modo legitimo de acesso ao poder, deriva do disposto no n.o I do mesmo artigo 4.° da Constitui<;:ao: "0 poder politico e exercido por quem obtenha legitimidade mediante processo eleitorallivre e democraticamente exercido, nos termos da Constitui<;:ao e da lei". A Constitui<;:ao esta c1aramente a dizer como 0 poder deve ser alcan<;:ado eexercido e a dec1arar a ilicitude de qualquer acto que se destine a conquistar o poder que nao seja por via de elei<;:6es livres e democraticas.
Tambem a Lei dos Crimes contra a Seguran<;:a do Estado tern implicito 0
conhecimento de conceitos como 0 de trai<;:ao
a
patria, espionagem ou rebeliao, conceitos que s6 por si concorrem para a limita<;:ao dos actos ilicitos que conduzema
sua realiza<;:ao. A lei vai ate ao ponto de, relativamente a certos crimes, punir os actos preparat6rios deste tipo de crimes, focalizando uma cadeia de actos sucessivos conducentes ao resultado proibido.E,
assim, de conc1uir que 0 artigo 21.° da Lei n.O 23/10 corresponde a urntipo criminal com pressupostos determinados que, por isso mesmo, nao contraria 0 disposto no artigo 65.° da Constitui<;:ao, na medida em que qualquer cidadao pode saber, a partir desta disposi<;:ao, quais os actos que determinam a responsabilidade criminal.
Com efeito, e perceptivel a qualquer cidadao e, a final ao julgador saber, a
partir do texto da norma, quais as condutas passiveis de constituirem crime ~
de rebeliao e pelas quais os seus autores poderao ser criminalmente i f responsabilizados, com respeito absoluto pelos diversos principios que
enformam a nossa legisla<;:ao penal, nomeadamente os principios da ~
tipicidade e da legalidade, que aqui os Recorrentes alegam, ter a lei violado.
~
Diferente, naturalmente, e a questao dos factos que 0 Tribunal de como
provados e enquadrados nesse tipo criminal corresponderem ou nao aos referidos pressupostos de ilicitude, intenc;:ao criminosa e causalidade, para lesar a realizac;:ao do Estado constitucional, materia que, por definic;:ao, escapa inteiramente ao ambito deste recurso ordinario de inconstitucionalidade.
Ademais, alegam os recorrentes que a norma em causa violaria 0 principio
do Estado democratico de direito previsto no artigo 2.°, assim como 0
principio da supremacia da Constituic;:ao (artigo 6.° da CRA), 0 ambito e
regime aberto dos direitos fundamentais de liberdade de expressao, de associac;:ao, de informac;:ao, de propriedade intelectual, liberdade de reuniao e de manifestac;:ao, de participac;:ao na vida publica (artigos 40.°, 42.° 47.°,48.° e 52.° da CRA). Ora, todos estes principios e direitos estao limitados pela ponderac;:ao de outros bens juridicos que cabe igualmente ao Estado de dire ito defender e proteger.
E
6bvio que as liberdades e direitos constitucionalmente consagrados nao podem ser exercidos contra outros bens igualmente protegidos pela mesma Constituic;:ao. Tal ponderac;:ao teria, alias, a ver com a conduta dos Recorrentes mas nada tern a ver com a constitucionalidade da norma em apreciac;:ao.o
artigo 21.° da Lei n.o 23/10 em nada obstaculiza que os cidadaos possam livre mente exprimir, divulgar e compartilhar os seus pensamentos, as suas ideias e opini6es, pe1a palavra, imagem ou qualquer outro meio. 0 que a referida norma proibe"e
a execuc;:ao por qualquer meio ilicito, qualquer acto tendente a, directa ou indirectamente, alterar no todo em parte a Constituic;:ao da Republica de Angola".Mais uma vez, porem, se sublinha que a qualificac;:ao criminal dos actos praticados pelos Recorrentes nao resulta da incerteza quanto it abrangencia concreta dos actos ilicitos que tipificam a norma incriminadora mas da demonstrac;:ao de que esses actos, para alem de ilicitos, sejam comprovadamente id6neos para contrariar 0 imperativo constitucional
inscrito no n.o 2 do artigo 4.° da Constituic;:ao. Esta porem e uma materia que sera apreciada em recurso penal e que absolutamente excede 0 ambito do presente recurso ordinario de inconstitucionalidade.
Do exposto resulta que nao se considera que a norma do n.
° 1 do artigo 21.
°
da Lei n.o 23/10 esteja eivada de alguma inconstitucionalidade.DECIDINDO
N estes termos
Tudo visto e ponderado, acordam em Sessao os Juizes Conselheiros da~ _l/l~
Segunda Camara do Tribunal Constitucional em:
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-Sem custas, nos termos do regime geral de custas (C6digo das Custas Judiciais e artigo 15.° da Lei n.o 3/08 de 17 de Junho).
Notifique.
Tribunal Constitucional, em Luanda, aos 30 de Junho de 2016
OS ruizES CONSELHEmOS
Dr. Ant6nio Carlos Pinto Caetano de Sousa (P Dr. Carlos Magalhaes _ _----"=--_ _ _ _ _
Dr. Onofre Martins dos Santos
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Dr. Simao Victor ~____A""__-:>.L" --=-~::...:--=--:....!....:.-~ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
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