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Repercussões na qualidade de vida de trabalhadores vivendo processo de (des)construção no seu mundo do trabalho: o caso do Besc

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CAPÍTULO I

INTRODUÇÃO

1.1 O TEMA PROPOSTO: MUNDO DO TRABALHO NO COTIDIANO DO SER HUMANO

O tema a ser tratado neste estudo é elucidado a partir do processo de transformação do mundo do trabalho, onde as reflexões apontam um conjunto de mudanças no âmbito da produção e no mercado internacional do trabalho. A época atual condiciona a emergência de novas percepções e compreensão sobre o tempo, o corpo, o trabalho e o lazer como pressupostos, ainda que amplos e complexos, a serem desvendados, pouco a pouco, por meio do movimento pela qualidade de vida do trabalhador.

Pesquisadores e cientistas interessados em compreender as mudanças ocorridas no mundo do trabalho, sobretudo nos últimos três séculos, afirmam que as grandes indústrias modernas, surgidas na Inglaterra, não substituíram efetivamente a forma arcaica de trabalho, se comparada à Idade Média, haja vista que o sistema moderno produziu uma relação social de conflitos, que se contrapõe à sobrevivência e à liberdade dos indivíduos.

Esta relação de conflitos estabeleceu as desigualdades, não apenas pela divisão do trabalho, mas também, por métodos organizacionais que afetam os indivíduos em suas relações produtivas, ao excluir trabalhadores (os velhos sem agilidade, os jovens mal

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preparados etc.) que não estão aptos a desempenhar atividades produtivas com disciplina, abnegação e sacrifícios individuais e coletivos, em nome da exclusão econômica. Tais questões estão intrinsecamente ligadas à questão da globalização da economia e a outros fatores relacionados ao desenvolvimento científico e tecnológico, como a separação do sentido pessoal do trabalho em relação ao seu significado social.

Para Dejours, a nova realidade do trabalho gera elementos de insatisfação, medo, receio, angústia, dor, sofrimento, infelicidade e precarização das condições de trabalho; colocados “como componentes das imposições da organização do trabalho, quando este impõe rigidez de horários, de ritmo, de formação, de informação, de aprendizagem, de nível de instrução e de diploma, de experiência, de rapidez de aquisição de conhecimentos teóricos e práticos, de adaptação da cultura ou à ideologia da empresa”. (DEJOURS, 1999, p.28).

Recordando Lopes (2000), o ideário de inovações tecnológicas, apesar da promessa de felicidade, não representou a transformação do trabalho do homem, em função de sua liberdade, nem a manutenção do espaço social da espécie humana.

Na mesma perspectiva, há que se considerar, conforme Basso (1994), que o trabalho vai além da necessidade de sobrevivência; ele será alienado quando o seu sentido não corresponder ao seu significado, dado pelo conteúdo efetivo dessa atividade prevista socialmente, isto é, quando o sentido pessoal do trabalho separar-se da sua significação. Se o sentido do trabalho do operário for apenas o de garantir sua sobrevivência logo não haverá significado social do trabalho.

Com isso, surge a idéia de que o homem está impossibilitado de pensar sobre sua própria condição de trabalhador, tendo em vista que as máquinas são componentes tecnológicos que contribuem, também, para a regulação do direito do emprego e a banalização do estado do desemprego.

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A escassez de mão de obra e a necessidade de trabalhadores produtivos levaram à adoção, tanto na Idade Média como na era Moderna, de novos modelos produtivos que elevassem a capacidade produtiva em menor prazo de entrega, de forma que a força física do homem fosse substituída por máquinas, em prol de melhores condições de vida.

Portanto, para De Masi (1999, p.39), “[...] o cerne de toda questão continua sendo o eterno desejo humano de uma melhor qualidade de vida conquistada sempre com menos trabalho [...].”

Gaspar (2001), faz lembrar que qualidade de vida de trabalhadores refere-se à interação cotidiana deste ser em todos os seus níveis de “inclusão e participação”.

Assim, é preciso deixar claro que o sentido social do trabalho na sociedade contemporânea sem trabalho, não constitui sua regulação pela vontade dos indivíduos, mas, sobretudo pela vontade do Estado em implementar políticas públicas, que garantam, pelo menos, as “funções essenciais” de plenitude dos seres humanos, suprindo as necessidades de sua sobrevivência, tais como: educação, saúde, justiça e segurança, moradia, alimentação, enquanto motor para o desenvolvimento econômico e conseqüente ordenamento dos meios produtivos de toda textura social.

Pode-se admitir que a insuficiência das políticas públicas transforma-se em elementos concretos da realidade, num contexto em que o desenvolvimento técnico científico e a ameaça ao estado físico e mental dos indivíduos são intrínsecos à crise da estruturação do trabalho.

Admite-se ainda, que o mundo do trabalho na sociedade contemporânea tem passado por profundas transformações que colocam desafios aos trabalhadores diante da centralidade do trabalho. A diminuição da força de trabalho é reflexo da política neoliberal, em que, entre tantas causas, a privatização, e conseqüentemente as demissões, aumentam a falta de emprego.

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Segundo Rampinelli (2001, p.23), “[...] as privatizações das empresas estatais e dos recursos naturais em toda a América Latina fazem parte da estratégia do Consenso de Washington1 e simplesmente visam à transferência do patrimônio público para mãos privadas, de modo geral as multinacionais [...].” Logo, suas conseqüências refletem no cotidiano das pessoas, já que uma vez vendida determinada empresa, ela perde seu caráter político e social, dispensando seres humanos trabalhadores.

O ser humano2 trabalhador é elemento concreto no processo produtivo, por isso, ele deve produzir, mas como tal, não pode ter sua condição humana ignorada, sendo apenas controlado e avaliado, razão pela qual ele (des)constrói o seu mundo do trabalho ao se ver ameaçado.

A (des)construção do mundo do trabalho do ser humano é constituída de elementos de inconformação entre está empregado ou desdempregado. A conformação estabelece a subordinação de um sobre o outro, as diferenças são ambivalentes, pois a inclusão do padrão de vida resulta da lógica e da racionalidade da produção, a qual é discutida pela teoria da complexidade, que é relatada por Wigley (1996), como aquilo no qual se está dentro. Ele refere-se à desconstrução a partir da metáfora arquitetônica, tendo como foco central a casa como espaço ocupado. Por isso, argumenta que a “desconstrução não se ocupa do novo, mas do velho, do familiar”. É um repensar do cotidiano – tão familiar que se torna quase invisível. Este sentido do não-familiar é, certamente, o sentido do

1 Segundo SIMIONATTO & NOGUEIRA (2001, p.145-146), “[...] os países capitalistas hegemônicos,

na segunda metade dos anos 80, articularam uma resposta à crise por meio de um conjunto de propostas monitoradas pelo Banco Mundial, que enfatizava a necessidade de desregulamentação e privatização dos mercados e do Estado. Tais propostas, que passaram a ser conhecidas como Consenso de Washington, delegam ao mercado a definição das regras para a solução dos problemas econômicos e sociais. A adesão ao Consenso de Washington representou uma ampla e profunda revisão das funções e papéis do aparelho estatal, cujas medidas podem ser sintetizadas em três grandes blocos: de cunho administrativo, econômico e ideológico.”

2 “Ser Humano” entendido, de acordo com a concepção holístico-ecológica utilizada por Patrício (1998,

p.37), como um todo que interage na diversidade dos ambientes, bem como “em sua perspectiva mais ampla sobre cidadania”. Patrício (1999), “afirma que o ser humano constitui-se de direitos e deveres nas diversas esferas que estabelece com o universo, como forma de superação de suas necessidades de sobrevivência.”

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“[...] inquietantemente estranho, o sentido de que dentro do espaço familiar, do caseiro, da casa, emerge algo perturbador. A desconstrução assim entendida não significa afastar-se do velho modelo conceitual de Kuhn [...].” (WIGLEY, 1996, p.156). Ela não é um novo paradigma.

Essas primeiras reflexões sobre o saber teórico acerca do tema permitem situar a questão do mundo do trabalho, enquanto parte do cotidiano do ser humano. Afinal, só nos prepararam para o trabalho (o grifo é nosso). Num tempo em que a dignidade do homem era valorizada pelo estado de ocupação formal, como elemento da representação do seu status quo, o trabalho representando o estado digno da condição de existência humana.

Ao elaborar outras possibilidades de compreensão acerca do trabalho, pode-se perceber que a geração de riquezas, reflexo do modelo econômico de concentração do capital, não implica necessariamente em distribuição paritária entre produtor e reprodutor, mas em estabelecer as diferenciações a partir do processo de exclusão entre homens trabalhadores e homens desempregados.

A vida acadêmica fez o pesquisador despertar para outras possibilidades de reflexão, então insuficientes. A inserção nos movimentos sociais da década de 80, já iniciada em 1979 com a Novembrada3, permitiu uma opção pela continuidade na luta pela construção coletiva de outras formas de “ser saudável”4. Reacendia assim um projeto pessoal e ideológico articulado à própria sobrevivência, assimilando teoria e práxis5

3 Assim ficou conhecido o ato público movido pela organização dos estudantes e sociedade civil na

Capital do Estado de Santa Catarina em Novembro de 1979, ocasionando um embate entre o povo e o então Presidente da República João Figueiredo e a Polícia Militar do Estado, cujo resultado transformou a Praça XV de Novembro, no centro da cidade, em campo de batalha.

4 “Ser saudável”, significa, considerando os aspectos dos avanços tecnológicos, conceber o paradigma

holístico-ecológico que o entende como um “todo humanizado”, cujo sentido é aquele tratado por Patrício (1999, p.47), “ser saudável, ter saúde é um conceito subjetivo, particular, concebido – elaborado – pelo indivíduo, ou grupo, a partir de suas representações sociais e movimento da vida.”

5 Para uma melhor compreensão sobre práxis, CHAUI, Marilena. Práxis e Revolução. In: _________:

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num exercício inacabado de ação, reflexão e transformação, num movimento que ora

entrava na mata, ora olhava a mata.

A apropriação do conhecimento era insuficiente por se perceber que num universo tão grande de excluídos, ainda eram poucos os que se aventuravam a assumir uma

práxis da transformação. A trajetória profissional e a inserção nos movimentos sociais

aguçavam ainda mais o inconformismo com a injustiça e exclusão, razão pela qual se extraía a idéia de mudança pela transformação.

As necessidades de sobrevivência e a busca de outras reflexões acadêmicas evidenciavam duas situações conflituosas de um lado, o embate profissional constituído de elementos de precarização do trabalho, e de outro, a busca incessante pela avidez de outras explicações concretas no mundo da materialidade do trabalho.

Assim, a precarização e a concretude da materialidade do trabalho na atualidade, provenientes do binônimo desenvolvimento tecnológico/transformação do capitalismo industrial e financeiro, apesar da pseudo-redefinição da modernização produtiva como mecanismo para o desenvolvimento, são elementos de transformação no mundo do trabalho.

Ocorre que tais transformações refletem no processo produtivo à medida que o trabalhador perde o controle desse processo, gerado pelo capital e manipulado pelas normas da organização.

É assim que se percebe uma concepção do trabalhador em que se deve considerar que o seu pensar e agir refletem no seu cotidiano, pois ele faz parte de um processo de transformação relacionado à organização do trabalho. Nesse momento, a abordagem ergonômica passa a ser utilizada, de acordo com Fialho e Santos (1987), ao desempenho de determinado sistema homem-tarefa.

As explicações concretas sobre a questão do trabalho incorporam a ênfase ergonômica, juntamente com outras elaborações teóricas.

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Foi assim, desvelando passo a passo esse trajeto, que esta tese começou a tomar forma, onde a preocupação com a qualidade de vida do trabalhador no mundo do trabalho, ao começar a ser gestada na sociedade contemporânea, pode revelar um período difícil expresso no processo de desemprego e suas conseqüências.

Segundo Rampinelli (2001, p.23) “[...] as privatizações na América Latina não são uma decisão econômica isolada, muito menos uma ‘racionalidade do mercado’, mas sim um padrão antigo de política que atua através da coerção dos aparelhos locais.”

As leituras em livros, artigos, dissertações, teses, etc, permitem pressupor que ainda não foram definidos, até o momento, estudos, análises e reflexões a respeito do tema aqui proposto.

Nesse contexto, diante da dificuldade daqueles que vivem da sua força de trabalho, o estudo tem como preocupação central compreender as repercussões na qualidade de vida de trabalhadores que estão vivendo processo de (des)construção do seu mundo do trabalho, através de estudo de caso do Banco do Estado de Santa Catarina – Besc.

1.2 PROBLEMATIZAÇÃO DO ESTUDO

A construção do pensamento social acerca do que representa, na atualidade, o pensar e o agir dos trabalhadores diante do seu próprio trabalho, contribuiu para a separação do sentido pessoal do trabalho com relação ao seu significado.

O processo de desenvolvimento mundial, relacionado a outros fatores estruturais, como a transnacionalização e a internacionalização da economia, impulsionou

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mudanças no contexto do trabalho, razão pela qual as últimas revoluções tecnológicas elevaram o estado de precarização física e mental dos trabalhadores que estão submetidos ao trabalho, e, ao mesmo tempo a diminuição de sua consciência e participação no mundo do trabalho.

Portanto, todas as mudanças e os questionamentos resultantes dos embates relativos ao mundo do trabalho, ainda não conseguiram transformar os trabalhadores em sujeitos que aspiram a transformação desse mesmo mundo do trabalho. Pelo contrário, ainda que tais mudanças representem um pacto entre capital e classe trabalhadora, não superaram o conflito nas relações produtivas do sistema capitalista. É este sistema que impõe a política de privatização, abertura da economia, internacionalização dos setores produtivos, acirramento da competitividade, produtividade e o intenso processo de reestruturação da organização do trabalho, trazendo reflexos em nível mundial, nacional, estadual e municipal. A privatização é um dos componentes da estruturação do capitalismo, que, ao ampliar a destruição das forças produtivas, diminui as possibilidades de manutenção da qualidade de vida do trabalhador.

A desestabilização da economia é elemento conflitante nas relações produtivas. A base do neoliberalismo assume estratégias no mundo do trabalho que se compõem, de imediato, na flexibilização, informalização e precarização das relações de trabalho, dos investimentos em novas tecnologias, da reorganização do trabalho, contratos temporários, do treinamento e gerenciamento de funcionários, da descentralização da produção e, sobretudo, da exigência de trabalhadores polivalentes (embora a polivalênçia seja uma vertente da organização do trabalho, como elemento positivo na plenitude do trabalho, já que a polivalência não é um mal em si, mas um atributo de novas experiências positivas; pode-se dizer ainda que diferentemente da polivalência existe a especialização que na sua essência torna-se chata.) – destituídos do controle do

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trabalho no conjunto de suas tarefas, e flexíveis, diante da mudança de temporalidade de sua própria atividade.

Esse ambiente configura-se com a perda do significado do trabalho, que ao mesmo tempo em que é (des)construído é reconstruído a partir da necessidade de sobrevivência dos trabalhadores.

Nesse sentido, esta concretude do trabalho acaba sendo gestada, não só pelo grande “desenvolvimento tecnológico gerado a partir do século XIX, mas (também por) condicionantes políticos, econômicos e sociais que possibilitaram [...]” (LOPES, 2000, p.14) a transformação do modo de produção com a divisão do trabalho, e sua perpetuação no controle dos meios produtivos.

Em outras palavras, é entre o trabalho e a vida dos trabalhadores que há várias formas de organização do trabalho, que remetem à construção do conhecimento humano e que buscam aproximar condições de trabalho para a sobrevivência do homem na sociedade.

Por outro lado, de acordo com Lopes (2000) fica claro que esses aspectos geralmente não são percebidos pelos trabalhadores, de modo que suas frustrações e desmotivações no trabalho acabam sendo refletidas em situações orgânicas e fisiológicas.

O trabalhador no mundo do trabalho começa a ser observado, segundo Casali (1997, p.67), “[...] como parte de uma ‘realidade complexa’”. Essa complexidade insere-se num contexto em que o trabalhador não é um exemplar construído em série, mas componente de um sistema que interage dialeticamente com as relações sociais. Por isso, ele é produto e produtor de suas próprias relações, capaz de agir e interagir socialmente no momento de concretização de suas atividades, mesmo que ele perca o sentido social do seu trabalho ao sentir-se ameaçado pela exclusão produtiva.

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É nesta perspectiva que o trabalhador acaba (des)construindo suas elaborações no mundo do trabalho que, segundo Wigley (1996), é aquilo no qual se está dentro, quando usa a metáfora do espaço arquitetônico ao desmantelar o espaço, desconstruindo idéias, criações, tradições como a (des)construção complexa que interage com as partes, mas que não é a mesma coisa que desconstruir o espaço edificado arquitetonicamente (a fábrica), ou seja, constroem-se idéias, criações, tradições, mas não se desconstrói a arquitetura.

Por isso, o espaço do trabalho acaba sendo um espaço social no qual se pode estar com outras pessoas, que por si próprio já é um espaço, e que, embora seja familiar acaba sendo estranho. Estranho, porque mesmo vivendo o processo de trabalho no espaço da organização, o mundo do trabalho “possibilita”, através da organização do trabalho, a “amplitude” da desconstrução da sobrevivência humana. Estranho no sentido de “não-familiar dentro do “não-familiar e que emerge como algo pertubardor, não por aquilo que é desconhecido, mas pela percepção que este desconhecido”, apesar de necessário, é realmente atemorizante (WIGLEY, 1996, p.156).

Assim, o trabalho humano na concepção de espaço, metaforizado na arquitetura de Wigley (op. cit.), é remetido ao mundo do trabalho como necessário às pessoas, ainda que seu sentido na atualidade, deixe de ser o fio condutor da sobrevivência dos homens, e passa a ser o ponto da sua principal conexão com a realidade:

é nele [no trabalho] que se desenvolve o significado de pertencimento nas pessoas. O mundo do trabalho é o mundo onde nos organizamos, planejamos o nosso presente e o nosso futuro, adquirimos experiência prática e nos reafirmamos socialmente [...] o sentido de ser está intimamente ligado ao sentido de ter. A menor incompatibilidade entre esses dois sentidos gera o estresse, a desmotivação, o desinteresse, a insatisfação consigo mesmo, a loucura. (CRUZ, 1999, p.177).

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Nesse aspecto, o significado de pertencimento estabelece o sentido de “ser”, que acaba elevando o sentido de não “ter” emprego, ou seja, estar empregado significa, sob a lógica do capital, pertencer à produção e ao consumo e usufruí-los.

Isto significa, de acordo com Cruz (1999, p.177), que “a urgência em ser alguém na sociedade tem produzido uma cisão entre o indivíduo e a sua própria expressão social (ele tem que mostrar aquilo que ele representa na sociedade), o que podemos definir como um processo de despersonalização.”

Com efeito, os trabalhadores de organizações que se encontram em processo de privatização vivem no seu dia-a-dia o drama e as tensões manifestadas no modo operatório de suas atividades, com a certeza de que a qualquer momento podem não ser mais necessários no processo produtivo, ao serem dispensados de suas atividades. Nesse contexto, o trabalhador percebe, assim, que está diante de um processo de redefinição de seus projetos pessoais e profissionais, uma vez que o seu trabalho lhe pode ser subtraído (pelo via do desemprego) a qualquer momento.

O trabalho é ainda uma importante esfera emancipadora da sociabilidade do indivíduo, e que o ser humano se constitui pelo trabalho, no qual conserva status e sentido na sua vida, este passa a ser entendido como “um ato consciente e não uma necessidade biológica.” (ANTUNES,1992, p.178).

Assim, é o trabalho que dá sentido a vida, mas quando ele não aliena. Pois buscar reconhecer as concepções e manifestações planejadas pela hegemonia do capital significa perceber as transformações do caráter e do papel do Estado para a sociedade, num período em que inclusive o Estado de bem-estar-social adotou o padrão de acumulação próprio da industrialização, ao qual também se associa a sua crise.

Nesse contexto, o Estado brasileiro, pressionado pelos interesses do capital internacional, propicia uma taxa acentuada de excluídos nas relações de produção, ao invés de desenvolver políticas voltadas à implementação e ao aquecimento da

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economia. Abre-se espaço para a indústria do desemprego, criando como alternativa a economia informal.

Por isso, atualmente a situação do emprego no Brasil não é mais aquela dos anos sessenta, derivada do acelerado desenvolvimento econômico apoiado pela Aliança para o Progresso. O Brasil se insere perante a organização mundial do capital, num contexto em que as alterações no mercado de trabalho constituem-se por forças de trabalho excedentes, tendo em vista a falta de oferta de emprego.

Deve-se levar em conta que a quantificação de índices crescentes da população economicamente ativa no setor produtivo informal, a partir da crise econômica dos anos 80, é provocada, sobretudo pelo choque dos altos preços do petróleo.

No Brasil, a década de oitenta apresentou definitivamente o coroamento da perda do emprego, haja vista uma grande evasão de postos de trabalho. O desemprego, em decorrência do processo de reestruturação do capital, atingiu todas as categorias profissionais.

Sua vulnerabilidade atingiu também a década de noventa, onde a recessão do mercado interno, decorrente de políticas monetárias rígidas e de taxas de juros elevadas, adicionada ao processo de concentração de renda, se constitue no elemento que provocou a retração do nível de atividade, o aumento de falências, as concordatas, o desemprego e, conseqüentemente, a redução de salários.

Pode-se assim dizer, genericamente, que estas seriam algumas das grandes razões da precariedade do mundo do trabalho no Brasil, ao orientar sua política econômica na implantação do Programa de Estatização Fiscal, cujo objetivo era focalizar a redução do papel do Estado em cumprimento às orientações do Fundo Monetário Internacional -FMI.

O coroamento desse processo culmina com o efeito cascata das privatizações de setores produtivos de energia, abastecimento de água, saneamento e de gás, bem como,

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a reforma do sistema financeiro em nível nacional. No Brasil, o programa de privatização surge através do Conselho Interministerial de Privatização, criado em 28/11/85, com o objetivo de transferir empresas estatais para o setor privado.

Como primeira etapa, essa medida já se fazia representar na agenda nacional, a partir de 1981. Assim iniciou o processo de privatização no âmbito federal quando este detinha empresas procedentes de insucessos empresariais. Posteriormente, o plano atingiu as estatais.

Apesar da diminuição da participação do Estado remontar a 1974, e concretizar a liquidação de 38 empresas públicas no período de 1981-1983, somente na década de 90 é que o processo de privatização representou significantemente a operacionalização da política neoliberal. (PINHEIRO, 2000).

Ainda na década de noventa, caracterizada como a segunda etapa do processo de privatização de 1991-1993, 34 empresas, consideradas estratégicas no modelo estratégico desenvolvimentista da década de 70, foram privatizadas.

Durante o impeachment de Collor de Melo e a posse de Itamar Franco na condição de vice-presidente, desenvolveu-se a terceira etapa do processo de privatização.

A quarta etapa do processo de privatização corresponde à política econômica traçada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, dentro dos mesmos objetivos dos governos anteriores.

O Plano Real protagoniza uma nova fase como instrumento ideal para a hegemonia econômica neoliberal. Ele é elemento fundamental na queda da inflação. (PINHEIRO, 2000). Assim o Real, lastreado à moeda norte americana, tornou-se base elementar na composição do “progresso econômico de FHC”.

Esta situação levou o Brasil à formulação de um programa de ajuda financeira do FMI. Para concessão desta ajuda, o FMI estabelecia, entre outras exigências, uma

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economia orçamentária em torno de 3,4% do PIB, além de reformas estruturais em setores da economia, como elemento disciplinador orçamentário.

A realização do acordo implantou o Plano de Estabilização Fiscal, bem como a redução do papel do Estado, o que “[...] representou uma ampla e profunda revisão das funções e papéis do aparelho estatal, cujas medidas [ ]”, foram administrativas, econômicas e ideológicas”. (SIMIONATTO, 2001, p.146). Nesse contexto, as respectivas funções e papéis do Estado implantado pelo governo FHC, acelerou os mecanismos que reduzissem despesas e aumentassem receitas.

Esta situação trouxe entre tantas conseqüências, a desaceleração da participação do rendimento do trabalho na renda nacional e a precarização nas condições de sobrevivência de grande parte da população.

A diminuição desse processo elevou a rapidez de medidas na intervenção da economia, como justificativa de redução da dívida externa. Com esse argumento o governo Fernando Henrique Cardoso implementa o processo de destatização, desconsiderando o crescimento do trabalho informal, advindo também do processo de privatização. Nesse contexto elevou-se ao máximo a “doação” do patrimônio público, utilizando-se do arranjo da entrada de dólares para financiar os compradores.

A venda das estatais brasileiras estabeleceu a perda do controle de setores estratégicos da economia, tais como, energia, água, saneamento, comunicação, petroquímica, siderurgia, setor financeiro, etc.

No caso do sistema financeiro estadual, o programa de privatização, privatizou o BANESPA (SP), BANERJ (RJ), CREDIREAL e BEMGE (MG), MERIDIONAL (RS), BANDEPE (PE), BANEB (BA), BANESTADO (PR) e federalizou - em vias de privatização, BEG, BEC, BEP, BEA, BESC e BEM. (JINKNGIS, 2001, p.189).

Em Santa Catarina, o processo de privatização decretou a liquidação parcial da empresa de energia Eletrosul e total da Telesc (comunicação), estando em processo de

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desregulamentação a Celesc (geração e distribuição) e a Casan (água e saneamento), e, o Banco do Estado de Santa Catarina – Besc - S/A, em processo de privatização.

Assim, as idéias de privatização no Estado de Santa Catarina são aquelas argumentadas pela esfera federal, em obediência, por sua vez, às normas estabelecidas pelos instrumentos legais de hegemonia do capital internacional, como garantia dos empréstimos e seu efetivo pagamento.

No que concerne à privatização do Besc, observa-se que este processo comparado ao contexto nacional, não foi diferente, ou seja, ele é parte da eliminação das instituições financeiras estaduais, em pauta no final de 1998, atendendo os interesses de grupos financeiros com o objetivo da sua consolidação no mercado.

Este processo, apesar da nova configuração política com a eleição de um governo democrático e popular, reacendendo um momento de mudança e esperança, ainda expressa, no campo da privatização, a crise econômica e social herdada de governos anteriores, privilegiando o capital especulativo em detrimento do social.

O ambiente no cenário político nacional em 2003, ainda que politicamente seja contrário à continuidade do desmonte do setor público, permanece bastante desfavorável à medida que é inegável o compromisso da política econômica com os agentes multilaterais do capital internacional.

Apesar desse contexto, ainda hoje, alimentam-se ilusões de que o Besc não seja privatizado.

Paralelo a isso, o aprofundamento da crise econômica interna da instituição nos últimos governos deslocou a possibilidade de reestruturação do BESC, do fórum político e econômico, para um amplo debate junto à sociedade, através de organizações populares, sindicatos, entidades de classe, etc, como manifestação pela não privatização. Apesar destas manifestações, convém lembrar que a indefinição do quadro de privatização do Besc, ainda que haja revisão do processo no Governo Lula, por sua

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proposta política diferente, tem representado ameaças aos trabalhadores quanto às condições de trabalho. Essa situação tem apresentado, como conseqüência, no campo da saúde do trabalhador, a ocorrência de doenças derivadas da psicossomatização do trabalho, destacando-se as cardiovasculares e distúrbios mentais.

De acordo com Jinkings (2001, p.201) estas condições afetam não somente os trabalhadores que “[...] perderam seu emprego, mas, também, o daqueles trabalhadores que, mantendo seus vínculos empregatícios sob a constante ameaça de demissão, sujeitam-se a formas brutais de exploração do trabalho e vivem relações cotidianas tensas e competitivas nos seus ambientes laborais [...].”

A redução dos trabalhadores no quadro funcional, incentivada pelo PDI, trouxe como conseqüência o aumento da carga das tarefas bancárias demandadas pelo “sobre-trabalho” nos postos de serviços.

Pode-se considerar que a adoção das orientações do Fundo Monetário Internacional, entre outras conseqüências, eleva o aumento da dependência econômica e o agravamento das questões sociais, ao incidir diretamente nas relações de trabalho, em níveis nos quais o trabalhador percebe que sua qualidade de vida é (des)construída à medida que o sentido do seu trabalho6 é precarizado, sobretudo, com a reestruturação do capital, que implica na descentralização da produção, ou seja, maior controle de mão-de-obra barata e acúmulo de poder na estrutura da empresa, gerando, para o capital, o efetivo controle e manipulação.

Recordando Foucault (1986), a questão do poder envolve as relações cotidianas, por isso a análise social a partir das estruturas é dicotômica, pois esta questão eleva a precariedade do trabalho, à medida que o controle do trabalho é exercido com poder.

6 A idéia de sentido no trabalho aqui inclui além da garantia do emprego, as garantias das vantagens

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Para Foucault, o “sujeito” pensa e é capaz de transformar o seu cotidiano. Isto remete à preocupação ergonômica no processo produtivo, onde o enfoque de análise busca equacionar e/ou minimizar os efeitos da produção em detrimento da satisfação do trabalhador no próprio trabalho.

Observa-se ainda o que preconiza Montmollin (1990) ao afirmar que o trabalhador é sujeito nas relações de trabalho, portanto, deve ser considerado integralmente na organização do trabalho. Assim a concepção ergonômica, tratada por Wisner (1987, p.12-26), “se baseia em conhecimentos no campo das ciências do homem (antropometria, antropocêntrica, fisiologia, psicologia, economia, sociologia).”

Segundo Fialho e Santos (1987), a prática ergonômica consiste em emitir juízo de valor sobre o desempenho de determinado sistema homem-tarefa por ser complexo e envolver inúmeras expectativas.

Nesse sentido, a ergonomia onde quer que exista setor produtivo no qual o homem esteja inserido, permite intervenção, a fim de modificar a situação de trabalho. A ergonomia pode ser utilizada como instrumental do conhecimento sobre o trabalho humano, tanto na concepção de uma máquina, como também na análise da atividade dos operadores, cujo objetivo é modificar determinadas concepções da organização do trabalho.

A relação homem-tarefa estabelece um conjunto de conhecimentos relativos ao desempenho do homem em suas atividades, ao manipular máquinas e sistemas de produção, ele é parte dessa relação complexa. Assim, submete-se à análise ergonômica antropotecnológica como preocupação das relações homem e máquina, haja vista que esta utilizar-se-á da análise do trabalho diante das inovações tecnológicas. Segundo Proença (1996, p.49), “a adaptação da tecnologia ao país importador deve considerar a influência de fatores geográficos, demográficos, econômicos, sociológicos e antropológicos.”

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Desse modo, a fusão entre ergonomia e antropotecnologia, apesar de suas especificidades de atuação e análise, permeia a relação homem-trabalho e não sobre coisas separadas, pois os seus objetivos giram em torno da modificação das situações de trabalho.

As perspectivas teóricas metodológicas sobre as inovações tecnológicas são fatores importantes para a análise das situações de trabalho, de modo que o cenário brasileiro, considerando suas particularidades de país em desenvolvimento, é um dos exemplos de análise para a abordagem antropotecnológica.

As novas tecnologias, segundo Proença (1996), “implicam na recomposição de postos de trabalho bastante repetitivos”, o que, de acordo com Curado (1993, p.45), acaba sendo colocado em prática segundo as velhas receitas de administração do homem.

Portanto, a introdução de novas tecnologias no Brasil é incorporada pelas empresas de forma seletiva, fragmentada e desacompanhada das modificações na organização do trabalho, razão pela qual elas interferem nas relações capital trabalho, contribuindo definitivamente para a nova ordem capitalista.

Esta contextualização, no plano da reordenação do capital, estabelece a elevação do conhecimento científico e tecnológico, aliado às estratégias de regulação da economia internacional, cuja idéia de ajustamento e estabilização econômica substitui o patrimônio público pelo privado. Tal estratégia tem como mecanismo as privatizações no sentido de conter os gastos estatais em resposta ao projeto neoliberal.

Assim, no contexto da privatização, os sujeitos deste estudo serão trabalhadores bancários de uma instituição financeira no Estado de Santa Catarina, em processo de privatização – o BESC.

Diante do propósito desse estudo, o problema de pesquisa intenciona a busca de respostas junto aos trabalhadores que estão vivenciando processo de privatização acerca

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das repercussões na sua qualidade de vida em decorrência desse processo, incluindo a própria (des)construção e reconstrução do seu mundo de trabalho.

O estudo não tem como preocupação focar a problemática levantada sob o ponto de vista do espaço organizacional. A organização servirá como elemento no contexto da análise da organização do trabalho, no processo de privatização, no qual se inserem os sujeitos da pesquisa.

O estudo em questão tem como problema de pesquisa: Quais as repercussões na qualidade de vida do trabalhador que vivencia a situação de (des)construção do seu mundo do trabalho, em função da ameaça de desemprego derivada do processo de privatização da sua empresa?

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo geral

Compreender as repercussões na qualidade de vida de trabalhadores que vivenciam situações de (des)construção do seu mundo do trabalho derivada do processo de privatização da empresa na qual são empregados.

1.3.2 Objetivos específicos

1) Descrever a trajetória do processo de federalização com vistas à privatização do Banco do Estado de Santa Catarina-Besc.

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2) Identificar as situações de (des)construção do mundo do trabalho de trabalhadores em processo de privatização;

3) Caracterizar o processo de privatização como elemento desestabilizador e fundamental na (des)construção do mundo dos trabalhadores que vivenciam este processo;

4) Analisar as repercussões na qualidade de vida dos trabalhadores que vivem o processo de (des)construção do seu mundo do trabalho.

1.4 PRESSUPOSTOS DO ESTUDO

Conceber e organizar este estudo significa estabelecer respostas ao problema de pesquisa, admitido como parte do processo de transformação do mundo do trabalho, num momento em que o “ser humano”7 trabalhador é elemento intrínseco do contexto estudado.

Nesse sentido, entende-se como formulação dos pressupostos, aquilo que é preconizado por Minayo (1994, p.41), enquanto “afirmações provisórias a respeito de determinado problema em estudo”.

Assim nesta pesquisa, o estudo em questão tem como trajetória fundamental o seguinte pressuposto básico:

A (des)construção do mundo do trabalho derivada da privatização diminui as possibilidades de qualidade de vida do trabalhador.

7 Ser humano por constitui-se de intuição e imaginação, capaz de interagir dialeticamente, como

produto e produtor do seu próprio processo nas interações cotidianas, em que a observação, o registro e as reflexões identificam as condições de vida dos nossos semelhantes.

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Destacam-se ainda, os demais pressupostos que serviram de indagações e que foram submetidos à investigação, ou seja:

• A privatização é um dos componentes da estruturação do capitalismo, atuando como elemento desestabilizador do mundo do trabalho dos trabalhadores que vivenciam o processo de privatização.

• As vivências do trabalhador frente à ameaça da privatização, seus impasses e suas perspectivas remetem a um misto de mudanças radicais no seu cotidiano do trabalho, na sua relação com a família, nas mudanças pessoais exigidas pelas modificações organizacionais, e, sobretudo, no seu esforço diante de um futuro incerto.

• Considera-se a precarização das atividades semi-técnica a diminuição de postos de trabalho, o aumento da polivalência técnica, a redução de salário e o crescimento da terceirização do trabalho como repercussões limitantes da qualidade de vida de trabalhadores que vivem o processo de privatização.

• As elaborações dos trabalhadores sobre as ações da privatização, seus impasses e suas perspectivas, na (des)construção do seu mundo de trabalho têm como reflexo o sofrimento e suas conseqüências.

• O mundo do trabalho dos sujeitos que vivenciam o processo de privatização está “contaminado” pelas questões que advêm dessa situação, e interferem na qualidade de vida destes sujeitos.

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1.5 JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA DO ESTUDO

As mudanças do mundo do trabalho são transmutadas pelas formas revitalizantes do capital, Antunes (1999), afirma que a sofisticação do trabalho universaliza o trabalho precarizado – parcial, o tempo livre e domiciliar, porque reduzem o proletariado estável, herdeiro da indústria verticalizada, com a reestruturação produtiva do capital.

As ambigüidades inquietantes do domínio do capital revelam, nas últimas descobertas tecnológicas, que as relações homem e processo de trabalho acabam perdendo de vista os efeitos sociais, políticos, ambientais, éticos e psicológicos do ser humano.

Esses efeitos das descobertas tecnológicas sobre as relações homem e processo de trabalho, de certa forma, têm sido marcados, inúmeras vezes, por dois aspectos: de um lado pela virtude do suposto desenvolvimento técnico científico e de outro pela ameaça à sobrevivência física e moral dos indivíduos.

Reconhecer este processo significa entender que o trabalho não é apenas um processo de emancipação, liberdade e humanização do ser social, segundo a concepção marxista, mas a conversão deste em seu meio de subsistência. Na concepção deste autor, “[...] a força de trabalho torna-se, como tudo, uma mercadoria, cuja finalidade vem a ser a produção de mercadorias. O que deveria ser a forma humana de realização do indivíduo reduz-se à única possibilidade de subsistência do despossuído”. (ANTUNES, 1992, p.181).

É desta forma que o trabalho deixa de ser uma atividade emancipadora e vital para se tornar uma imposição ao trabalhador, onde os modernos e sofisticados meios de produção acabam alargando a reprodução do capital. Uma parte do trabalho formal é

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deslocada para terceirização, precarização, não remuneração, “[...] o trabalho não mais suscita problema científico, ele tornou-se inteligível, reproduzível, pois diz respeito tão somente à execução.” (DEJOURS, 1999, p.42).

É evidente que o desenvolvimento do capitalismo e suas relações sociais traz consigo um conjunto de reformas desestruturantes, entre as quais a privatização, que altera o mundo do trabalho pelo desemprego.

O desemprego, no que se relaciona aos seus efeitos no mundo do trabalho, carrega consigo um caráter objetivo e um caráter subjetivo, os quais determinam sua própria ambivalência – trabalhadores informais que objetivamente são considerados empregados porque recebem rendimentos, e que subjetivamente, não são empregados.

O desemprego, aonde quer que ocorra, apresenta problemas de exclusão. Ela é parte da concretização dos mecanismos de “dominação: o econômico, o político, o social ideológico e o militar.” (RAMPINELLI, 2001, p.23). Dentre as suas várias conseqüências, impõe-se o desemprego, refletindo um sentimento de impotência do próprio trabalhador, até porque, esta possibilidade se reflete no seu padrão de vida.

Desta forma, garantir a manutenção e a qualidade de sobrevivência dos trabalhadores, sem salário, significa não suprir suas necessidades. Afinal, o trabalho é um componente vital que dá “sentido à vida” do trabalhador. De acordo com Oliveira (1996, p.177), “[...] se o homem, hoje, perde seu trabalho, numa sociedade como a moderna, que faz do trabalho a motivação fundamental da ação humana, ele perde o sentido de sua vida. O trabalho ainda foi, até agora, o símbolo de autonomia, de integração social e o caminho de ascensão social”.

Nessa perspectiva, é um equívoco desconsiderar a precedência da necessidade do trabalho como condição de sobrevivência e conseqüentemente de acesso à qualidade de vida. Portanto, qualidade de vida do trabalhador neste estudo será entendida também, de acordo com Patrício (1999, p.50),

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como produto e processo, [o que] diz respeito aos atributos e às propriedades que qualificam essa vida, e ao sentido que tem para cada ser humano. Diz respeito às ‘características do fenômeno da vida’, ao ‘como esta se apresenta’, ao ‘como se constrói’ e ‘como o indivíduo sente’ o constante movimento de tecer o processo de viver nas interações humanas.

Considerando que a qualidade de vida do trabalhador é um componente do processo dialético, intrínseco ao homem, pois ele é produto e produtor do seu próprio mundo, a idéia aqui, não é refutar as bases conceituais teóricas acerca do que é preconizado por qualidade de vida no trabalho, mas utilizar parte dos pressupostos da concepção holístico-ecológica8, como elemento intrínseco nos vários processos de interação do ser humano.

Em vista do objetivo central do estudo, em compreender as repercussões na qualidade vida de trabalhadores, que vivenciam situações de (des)construção do seu mundo do trabalho derivada do processo de privatização da empresa da qual são empregados, a tarefa de realizar a pesquisa implica responder ao problema formulado, logo, o seu resultado indicará a relevância na produção do conhecimento científico, fornecendo subsídios a outros pesquisadores, e servindo de fonte de informação acerca da problemática levantada.

Por não existir estudos relacionados a vivências de processo de privatização e qualidade de vida de trabalhadores, esta pesquisa possibilitará a constituição de conhecimentos acerca do tema proposto, em que a compreensão da qualidade de vida de trabalhadores no seu mundo do trabalho tem como elemento fundamental os atributos e as propriedades que qualificam o sentir de suas vidas como elemento da sobrevivência humana.

8 De acordo com Patrício et. all (1999, p.37), “A abordagem holístico-ecológica parte do pressuposto de

que é possível integrar várias áreas do conhecimento num fio condutor que busca entender e agir nos microcosmos – micromundos – tendo consciência do contexto global. Busca o sentido de humanidade, tendo a clareza de que, mesmo assim – nessa amplitude de abordagem – não é possível dar conta de compreender toda a complexidade da vida e de seus fenômenos particulares, mas, em síntese, busca compreender o máximo possível de uma dado fenômeno, através do conhecimento das múltiplas dimensões e conexões que expressam essa situação.”

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O resultado final da pesquisa poderá possibilitar a compreensão das repercussões na qualidade de vida de trabalhadores que vivenciam processo de privatização. Ao mesmo tempo, pretende investigar os elementos de (des)construção do seu mundo do trabalho diante do processo de privatização, criando expectativas que evidenciem o reconhecimento de novas “escolhas” em suas relações cotidianas.

1.6 ESTRUTURA DO ESTUDO

O Estudo em questão compõe-se de sete capítulos. O primeiro capítulo, a introdução, apresenta o tema proposto, a problematização do estudo, os objetivos e a justificativa.

O segundo capítulo apresenta a fundamentação teórica tratando da questão do trabalho, o mundo do trabalho, a privatização e a ergonomia, como nexo conceitual cuja literatura permeia o viés teórico da teoria histórico cultural em contraposição ao sistema neoliberal na contemporâneidade.

Este capítulo apresenta a construção teórica com referência ao tema proposto no estudo. A fundamentação teórica definida nos deu as categorias utilizadas a partir dos enfoques sociológico e ergonômico na abordagem sócio-cultural e de outras literaturas relativas à questão proposta. Fez-se uma revisão sobre o pensamento relativo às repercussões na qualidade de vida de trabalhadores desconstruindo o seu mundo do trabalho. Onde trabalho, qualidade de vida, tecnologia, (des)construção e repercussão no processo de privatização proporcionaram a contextualização e a inserção do sujeito pesquisado.

O terceiro capítulo, a metodologia, apresenta os pressupostos do estudo, o método da pesquisa, o tipo de pesquisa, os procedimentos da pesquisa, a coleta e análise

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dos dados, a construção dos dados e os aspectos éticos. O capítulo em questão tem a finalidade de descrever os procedimentos metodológicos adotados na utilização do estudo, define os pressupostos, os caminhos percorridos, o tipo de pesquisa, o procedimento da pesquisa, a aproximação empírica, a coleta e análise de dados, a construção dos dados, e os aspectos éticos.

Os capítulos quarto e quinto apresentam análise qualitativa dos dados, proveniente do trabalho de campo onde é mediado pelas afirmativas teóricas já delineadas anteriormente no estudo. O quarto capítulo apresenta a análise das repercussões na qualidade de vida de trabalhadores, e a contextualização da análise dos dados coletados. A validação dos pressupostos estabeleceu a relevância científica da pesquisa diante dos resultados apresentados. O quinto capítulo, a partir do referencial teórico descrito no início do estudo e corroborado empiricamente com os resultados da pesquisa, é efetuada a análise dos dados a partir dos pressupostos definidos.

O capítulo cinco apresenta a conclusão final do estudo em questão, onde as sínteses, as limitações e as recomendações são elementos importantes na conclusão do trabalho. Finalmente, o último capítulo tráz as referências, bem como os apêndices e os anexos.

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CAPÍTULO II

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 TRABALHO: UM OLHAR NA HISTÓRIA

Pensando na trajetória do trabalho do homem diante das várias formas de organização, observa-se que o extraordinário desenvolvimento tecnológico na sociedade moderna cria rupturas entre o passado e o presente, em que a maioria dos debates aponta

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mais que um estado de coisas pendentes, principalmente aquelas que indicam um deslocamento de um sistema baseado na manufatura dos bens materiais para outro, centrado na microeletrônica – a informação.

Por isso, a noção de trabalho remete a vários significados. O seu conceito pertence à esfera da reflexão cotidiana e teórica, num jogo de significados, onde o seu sentido trafega em uma via de mão-dupla, que, ao mesmo tempo em que diverge, converge como expressão da atividade que transforma o ser humano e a realidade.

Assim, sendo o trabalho uma forma de atividade desenvolvida pelo ser humano, ele é parte dele mesmo. Na opinião de Bravermann (1997, p.49) o trabalho “é uma atividade que altera o estado natural dos materiais para melhorar sua utilidade [ ]”, ou seja, atua sobre a natureza a fim de transformá-la para melhor satisfazer suas necessidades; portanto, o trabalho como atividade, tanto humaniza como naturaliza o homem.

Desta forma, ao transformar os bens materiais, o ser humano se modifica a si mesmo e aos outros. O conceito de trabalho, ao constituir-se pela ação do ser humano trabalhador, contribuiu para esta mudança sem perceber a separação do trabalho em toda sociedade.

Isto equivale dizer que, nesta relação, o ser humano se apropria da cultura estabelecida entre si, elaborando, criando e recriando o mundo do trabalho.

Estas elaborações remetem à origem do conceito do trabalho expressado na esfera social, como elemento organizador da vida social na era da modernidade, já que na Antiguidade, trabalho, expressava a perda da liberdade, ou seja, a “submissão do homem a outro homem ou a uma profissão.” (MENEGASSO,1998, p.74).

De acordo com Ferreira (1975, p.1393) a palavra trabalho é definida como “[...] atividade coordenada, de caráter físico e/ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa”, cujo significado provém do latim trabalho – “tripalium”: instrumento

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de tortura e “tripaliari”: torturar. Os gregos utilizavam um sentido diferente de trabalho - ponos - esforço e penalidade, e ergon – criação, obra de arte.”

Etimologicamente, o trabalho traz uma conotação negativa, cujo conteúdo e organização, além de suplantar a idéia de maldição e punição, compõe-se de um comportamento que pressupõe a sujeição do corpo por um processo mudo, invisível e que é alienante.

A rejeição da atividade manual, por si só, estabelece a diferença da liberdade como ato único “do fazer”, como eventual inspiração produtiva, mas sem adotar o “ofício” como fonte de sobrevivência pelo trabalho.

Esse significado transpôs a história da civilização, num momento em que a contradição do “trabalho – ponos” e “trabalho-ergon” continua [sendo a centralidade] na concepção moderna de trabalho.” (MENEGASSO, 1998, p.75).

A autora comenta a importância da designação do significado da palavra “trabalho – ponos”, que faz referência ao esforço e à penalidade, e ergon, que designa criar, obra de arte, estabelecendo a diferença de trabalho no sentido de pensar e no sentido de penar. (MENEGASSO, 1998, p.75).

Estes significados permitiram reconhecer que as concepções de trabalho não correspondem necessariamente, aos mecanismos reguladores da vida social através da sobrevivência. Pelo contrário, a concepção grega de trabalho, no mundo ocidental, é que trouxe a noção de trabalho como produtor de valores de uso, o trabalho elaborado para a sua consecução e satisfação de necessidades.

Por sua vez, este trabalho é denominado de criador de valor e de troca, à medida que deixou, ainda na Idade Média, de ser valor de uso. Essa percepção de valor é introduzida pelo capital, quando esse homogeneizou e universalizou o seu próprio valor. Por isso, a cristalização da concepção de trabalho na modernidade é desvinculada da antiguidade, quando o trabalho é gerido como meio e não como fim;

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nele a sociedade situa-se pela transformação da natureza pelo homem. Esta relação requer a distinção entre homens livres, desprovidos da obrigação do trabalho, e o homem escravo, incluso na relação de trabalho.

Isto é revelado nas palavras de Codo:

o trabalho é mágico porque é duplo, carrega em si a maldição da mercadoria, a fantasmagoria do dinheiro: de um lado aparece como valor de uso, realizador de produtos capazes de atender necessidades humanas; de outro, como valor de troca, pago por salário, criador de mercadoria, e ele mesmo é uma mercadoria. (CODO, 1993, p.97).

Ainda, a partir do século XVII, o trabalho conotava concepção divergente da Antiguidade. Estas concepções embaladas pela tradição cristã estabeleceram dois parâmetros de mediação; era vislumbrado por um lado, sob a ótica da reforma protestante como instrumento de salvação e sua realização um apelo da vontade divina e por outro, o calvinismo sendo visto como instrumento de riqueza.

Dessa forma, revela-se assim o produtor e o produto homogeneizado na figura do ser trabalhador, cujo sentido significa o conjunto do seu ato de transformar natureza pelo trabalho.

Percebe-se, então, que o trabalho se constituiu, na vida moderna, como trabalho assalariado composto tanto pelo seu valor de uso como pelo valor de troca. Agora, como uma atividade necessária à reprodução da vida, configurado na sociedade contemporânea como divisão social do trabalho na condição de emprego.

Essa reinvenção do trabalho pelo emprego é tratada por Menegasso (1998, p.78), como [...] uma atividade compulsiva e incessante, [ ] a aceitação voluntária de um sofrimento sem outro sentido senão ele próprio.”

Nesse contexto, a atividade laboral foi se organizando e se transformando numa escala crescente, numa sociedade caracterizada pela valoração que o capital deposita em

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certas formas de trabalho, numa relação onde já não se cumpre o trabalho fora do capital.

Essas novas condições de reorganização das estruturas do capital condicionaram a verticalização das novas necessidades dos trabalhadores, decorrentes das transformações do mundo do trabalho, impactando o contexto sócio - político – econômico do mundo do homem que vive do trabalho.

2.1.1 Mundo do trabalho na perspectiva do desemprego

As últimas transformações no mundo do trabalho apontam para um conjunto de mutações no âmbito da produção e no mercado internacional do trabalho. Olhar estes acontecimentos históricos significa entender que na esfera do capitalismo contemporâneo, as profundas mudanças no mercado de trabalho elevaram o nível de participação das máquinas em detrimento da força de trabalho humano.

Por isso, essa reflexão sobre o trabalho na sociedade contemporânea conserva uma posição chave, tendo como pedra-de-toque, segundo Marx (1984), o mecanismo necessário e natural da vida social. Nossa época condiciona a emergência de novas percepções e compreensões sobre o tempo, o corpo, o trabalho e o lazer como pressupostos, ainda que amplos e complexos na concretude do trabalho.

Assim o trabalho faz parte do contexto vital do ser humano, o qual segundo Menegasso (1998, p.76), “[...] é um processo de transformação da natureza para responder àquilo que é um desejo do ser humano [...]. Esta concepção é contrária àquilo que representa o trabalho em nossa contemporaneidade, quando sua conotação significativa é remetida à ‘ocupação’, cujo caráter explicativo é elaborado pela autora,

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como resultado do avanço e da aplicação da ciência [...]” ao processo de produção, ou seja, o trabalho nesta ”era” nada mais é senão ‘ocupação’ (MENEGASSO, 1998, p.79), haja vista que nas sociedades modernas a ocupação é o resultado da recriação do trabalho diante do processo de mudança.

Além desses aspectos, convém lembrar que o mundo do trabalho revela outras facetas que extrapolam a plenitude da sobrevivência, quando se toma conhecimento, por exemplo, sobre o que é apresentado por De Masi (1999, p.6), “como trabalhadores, como desempregados, ou como pais de desempregados, de uma maneira ou de outra, estamos ‘dentro’ do problema da falta de trabalho”.

Esta percepção amplia a visão acerca das transformações do mundo do trabalho, à medida que o processo de transformação tecnológica definiu de vez as novas formas de produção. A este respeito, Aued (Julho, 2001, informação verbal)9 relata:

ontem aboliram o trabalho artesanal do homem, consideraram o trabalho têxtil das mulheres obsoleto, depois, dos homens ferreiros, dos homens mineiros, dos homens metaleitos, dos homens carvoeiros, dos homens torneiros mecânicos, dos homens alfaiates, todos sumiram ‘magicamente’ dos seus postos de trabalho. Antes, tudo era concebido à base da experiência, com a ajuda de técnicos – físicos, matemáticos, engenheiros, desenhistas, etc.

Atualmente, tudo é idealizado e efetuado através da informação de um software em laboratório. A fundição de peças em metais distanciou o torneiro mecânico dos meios produtivos; este trabalhador não sabe mais manipular o torno manualmente; em substituição, surgiram as máquinas comandadas pelos softwares. Observa-se que a atividade não é mais uma habilidade manual, muito menos mecânica, mas uma equação com linguagem microeletrônica.

9 Exposição em sala de aula pela docente da disciplina Trajetórias Profissionais, Bernadete Aued, do

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Observa-se no contexto atual que a recente ofensiva do capital se redimensiona com inovações gerenciais, incorporando eficiência, flexibilidade e produtividade, num caráter exclusivamente de competitividade. Estas combinações determinam a idealização da transformação do trabalho como necessidade da adequação do homem no processo que cada vez mais exclui o “produto do processo”, assim considerado o homem no trabalho.

Estas mudanças determinam a reestruturação dos meios produtivos a partir das inovações tecnológicas articuladas às novas estratégias organizacionais da produção, cujo interesse é garantir produtividade. A sofisticação do trabalho universaliza o trabalho precarizado, reduz o proletariado estável.

Esse proletário estável é o novo subproletariado, isto é, os terceirizados, subcontratados, parciais, temporários, domiciliares, não são sujeitos cuja identidade de trabalhador foi construída recentemente; pelo contrário, são sujeitos remanescentes da era da especialização taylorista/fordista, aonde as atividades vêm desaparecendo. Esta é uma situação global, que atinge tanto os trabalhadores dos países centrais como também os dos países periféricos.

Em vista disso, o que ocorre são as várias formas de adequação e normatização para a operacionalização do trabalho freneticamente constante e ininterrupto, mesmo que haja redução da força humana.

Esse movimento impulsionado pelo capital, por expansão, transmuda sua forma de inserção no mercado de trabalho, de modo a garantir sua manutenção, exigindo níveis cada vez mais elevados de instrução, adestramento e esforço mental em geral dos não incluídos.

Por tudo isso, este novo mundo do trabalho, se relaciona com a perda das forças produtivas, o que significa esbarrar na questão do emprego, ao perceber que dentre as novas formas de trabalho, o trabalho informal resume-se em: “bicos”, tais como:

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muambeiros, coletores de reciclagem, vendedores ambulantes, sacoleiros e bóias frias. As incertezas geradas por estas atividades têm como conseqüências, para muitos trabalhadores, outras estratégias de sobrevivência que recorrem ao mundo do alcoolismo, da droga e do sexo, como meio de subsistência.

Na mesma perspectiva, a noção de empregabilidade surge com a difusão de um novo paradigma na produção, ou um novo modelo de especialização flexível com o objetivo de repensar a divisão do trabalho. Por outro lado, envolve também a análise dos conceitos de competência e emprego, correspondente à ótica do mercado de trabalho no sistema capitalista, em que a qualificação do trabalhador se torna uma perspectiva atraente para o mundo do capital – empregador.

As questões acima produzem o reconhecimento no universo de transformações no mundo do trabalho, não só pela visão utilitarista da produtividade, mas, sobretudo como condição necessária à sobrevivência do trabalhador. Esta dimensão requer o envolvimento dos trabalhadores como requisito prioritário para a vida no contexto societário. Por isso, na atualidade, a questão do emprego é remetida à empregabilidade que pode ser definida de acordo com Hirata (1997), como a capacidade de se obter um emprego.

Nesse raciocínio, a literatura ilustra uma série de alternativas teóricas que buscam explicar o empregado a partir de variáveis, tais como, crescimento econômico, salário, desenvolvimento tecnológico, investimentos econômicos, lucro, baixas despesas com pessoal.

D’Ambrosio (1997, p.96) entende que a empregabilidade pode ser entendida como a “qualidade de ser empregável, que, por sua vez pode ser interpretada como a capacidade de prestar serviços de caráter não-eventual”.

No entanto, o resgate desse paradigma, não recupera a valorização do ser humano diante do desemprego, pelo contrário. Curado (1993), afirma que o mercado de

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trabalho está totalmente alterado diante de novas exigências quanto ao ‘perfil generalista dos trabalhadores’; pois a grande massa de trabalhadores sem saúde, sem educação e cada vez mais sem poder aquisitivo, tornam-se trabalhadores que, após serem o triunfo dessas empresas, passam a ser o estorvo e a negação na produção, não tendo para onde ir.

De acordo com Portnoff (1989, p.6), “vivemos numa sociedade de engarrafamentos, nela não importa produzir mais conhecimento, mas recuperar a capacidade de organizar o já existente”.

Por outro lado, lembramos que, diante da instabilidade econômica e da recessão, a estratégia de modernização, sobretudo no caso das empresas brasileiras, tem sido defensiva, visando à sobrevivência frente à crise e à competição externa.

Esse processo é de natureza profunda, vai da organização do trabalho à apropriação da tecnologia pelos detentores do poder econômico, que levam a construção do trabalho dos operários a tarefas repetitivas, parcializadas e sob controle restrito, numa perspectiva de reprofissionalização do trabalho diante do perfil generalista da força de trabalho parcial e temporária.

Com isso, temos que admitir as ambigüidades inquietantes no domínio do capital em sua forma dissipadora, na qual as últimas descobertas tecnológicas, diante da relação homem e processo de trabalho objetivado10, acabam perdendo de vista os efeitos sociais, políticos, ambientais, éticos e psicológicos do ser humano, num movimento de exclusão, no qual o ser humano é elemento mercadológico da economia competitiva.

Essas discussões, de certa forma, têm sido marcadas, inúmeras vezes, por dois aspectos, quais sejam, de um lado a virtude do suposto desenvolvimento técnico científico, e de outro, a ameaça constante à sobrevivência física e moral dos indivíduos. Pensar na sobrevivência e na integridade dos indivíduos significa não perder de vista a

10 Trabalho objetivado, para MARX (1984), é a materialização do objeto racionalmente pensado e

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crise da estruturação do trabalho, muito embora este mantenha seu caráter de repetitividade e de pouco espaço para a criatividade.

Assim, a precariedade do trabalho acaba sendo intensificada pelas forças conservadoras em manter o capital como única forma de manutenção do status quo e ampliando a inclusão da “classe-que-vive-do-trabalho, isto é, daqueles que vendem sua força de trabalho em troca de salário.” (ANTUNES, 2000, p.103).

Para o autor, a classe-que-vive do trabalho inclui hoje a totalidade daqueles que vendem sua força de trabalho, tendo como núcleo central os trabalhadores produtivos (no sentido dado por Marx), ou seja:

engloba o trabalho manual direto, incorpora a totalidade do trabalho social e o trabalho coletivo assalariado, ou seja, o trabalhador produtivo, que reproduz mais valia. Engloba ainda [...] os trabalhadores improdutivos, cujas formas de trabalho são utilizadas como serviços. O trabalho é consumido como valor de uso e não como trabalho que cria valor de troca. (ANTUNES, 1999, p.102).

Essa dimensão da “classe-que-vive-do-trabalho inclui, em sua totalidade, os que vendem sua força de trabalho e exclue os gestores do capital (empresários, industriais, banqueiros, etc); perpetuando a força física do trabalhador, não como valor de uso, mas como criação do valor de troca”. (ANTUNES, 1999, p.103).

Nessa ótica, assalariados não são somente aqueles inseridos no mercado informal do trabalho, mas também os formais, que estão inseridos em setores produtivos, cuja força de trabalho não cria valor, e que necessariamente não precisam ser estáveis, mas apenas criadores de valores de troca.

É essa lógica que permite a nova ordem econômica a partir dos meios produtivos, que ao mesmo tempo diversifica, heterogeniza e aumenta a complexidade da identidade da classe trabalhadora. Há uma metamorfose no mundo do trabalho, com várias implicações que determinam que pouca diferença faz ser ou não mão-de-obra

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qualificada para o ingresso no mercado de trabalho manual, já que a diferença está na ampliação do trabalho com dimensões intelectuais.

No arcabouço de sustentação das forças produtivas do capital, há uma rendição, ainda que seja breve, daqueles que ocupam os espaços na produção. De outra forma, não se deve ignorar que a conformação produtiva do capital desafia o mundo do trabalho com suas conexões internacionais. Não há interesse do capital em manter o trabalho estável e regulável; ao contrário, é nesse momento que “ele”, o capital, reduz o trabalho vivo e amplia o trabalho morto.11

O capital, de acordo com Antunes (2000, p.119), “[...] não pode eliminar o trabalho vivo do processo de criação de valores, ele deve aumentar a utilização e a produtividade do trabalho, de modo a intensificar as formas de extração do sobre-trabalho em tempo cada vez mais reduzido”.

Para Antunes (1999), a diminuição do tempo físico do trabalho, bem como a redução do trabalho manual direto, relacionado à diminuição do trabalho intelectual, confirmam a tendência de que o capital não tem mais interesse em explorar trabalho abstrato, levando à redução do trabalho vivo e ampliando o trabalho morto.

Para o mesmo autor, esta tendência faz com que o capital recorra às formas precarizadas de exploração do trabalho, pois uma coisa é reduzir a dimensão variável do capital e a expansão de sua parte constante; outra coisa é imaginar que, eliminado o trabalho vivo, o capital possa continuar se reproduzindo. Antunes (1999), admite que seria impossível produzir capital sem integrar o ciclo reprodutivo por meio de consumo, já que consumo e assalariados se completam nesta relação. Assim, a articulação entre trabalho vivo e trabalho morto é condição necessária para que o sistema produtivo do capital se mantenha.

11 Segundo MARX (1984) é apropriação pela mais valia do trabalho (morto); trabalho vivo produção

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