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A prática da eutanásia com base no princípio da dignidade da pessoa humana e na autonomia da vontade

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DUANE ARIELI VIANA

A PRÁTICA DA EUTANÁSIA COM BASE NO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E NA AUTONOMIA DA VONTADE

Santa Rosa (RS) 2018

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DUANE ARIELI VIANA

A PRÁTICA DA EUTANÁSIA COM BASE NO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E NA AUTONOMIA DA VONTADE

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso - TCC. UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientadora: Dra. Anna Paula Bagetti Zeifert

Santa Rosa (RS) 2018

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Dedico este trabalho à minha mãe, pelo apoio recebido no decorrer de todas as fases da minha vida.

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AGRADECIMENTOS

À minha mãe, que sempre esteve presente me dando todo o apoio, me incentivando a superar meus desafios, o que proporcionou a minha evolução e desenvolvimento.

À minha namorada Sarah Gomes, por toda a compreensão, apoio, ajuda e incentivo durante o desenvolvimento deste trabalho.

À minha orientadora Anna Paula Bagetti Zeifert, com quem eu tive o privilégio de conviver, pela disponibilidade, auxílio e compartilhamento de conhecimentos, o que proporcionou o desenvolvimento do presente trabalho.

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“Ninguém é dono de sua vida, se não tiver o direito de renunciar a ela. ” Ramón Sampedro

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RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso faz uma análise sobre as diferentes concepções de eutanásia, abordando os aspectos históricos e conceituais, a fim de propiciar um maior entendimento sobre tal instituto, bem como demonstrar que essa prática existe desde a antiguidade. Posteriormente, são apresentadas as classificações sobre a eutanásia, definindo que o melhor entendimento quanto às modalidades desta gira em torno da eutanásia passiva, ativa ou em duplo efeito, bem como da voluntária, involuntária e não-voluntária. Em prosseguimento, aborda-se a eutanásia como sendo, também, um direito à vida, já que a morte é uma fase desta, trazendo a argumentação de que, com base nos princípios da dignidade da pessoa humana e na autonomia da vontade, é possível notar a existência do direito à morte digna de forma implícita no ordenamento jurídico. Por fim, se faz um levantamento dos países que autorizam ou toleram tal prática, encerrando com o entendimento jurídico do Brasil sobre a eutanásia.

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ABSTRACT

The present completion of course work makes an analysis on the different euthanasia conceptions, addressing the historical and conceptual aspects, in order to provide a better understanding of this institute, as well as demonstrate that this practice exist since antiquity. Posteriorly, the classifications of euthanasia are presented, defining that the best understanding regarding the modalities of this, tour around the passive, active or double effect euthanasia, as well as voluntary, involuntary and non-voluntary. In continuation, euthanasia is also addressed as a right to life, since the death is a phase of it, providing an argumentation that, based on the dignity principles of human person and on autonomy of will, is possible to note the existence of the right of a dignity death at implicit form on the juridical ordering. Finally, a research is made of the countries that authorize or tolerate such practice, closing with the legal understanding of Brazil on euthanasia.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DA EUTANÁSIA ... 11

1.1 A origem da eutanásia ... 11

1.2 Conceito de eutanásia ... 15

1.3 Modalidades: a distanásia, mistanásia e a ortotanásia ... 19

1.4 Princípios da autonomia da vontade e dignidade da pessoa humana ... 22

2 EUTANÁSIA: MORTE DIGNA OU SUICÍDIO? ... 27

2.1 O direito à vida x o direito humano à morte ... 27

2.2 A prática da eutanásia e a aplicabilidade da autonomia da vontade e dignidade da pessoa humana ... 30

2.3 A eutanásia no direito pátrio e no direito comparado... 35

CONCLUSÃO ... 39

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta um estudo acerca das principais formulações sobre o entendimento do que é eutanásia, e se essa pode ser vista como uma forma de abreviar o sofrimento e promover uma morte digna ao ser humano. O debate em torno da legalização de tal procedimento ocorre em diversos países do mundo, devido ao fato de confrontar o direito à vida, mas em contraposição existe a percepção de dignidade humana e autonomia da vontade.

A principal análise feita nessa pesquisa é se a prática da eutanásia viola o direito humano à vida e se a mesma pode ser considerada uma espécie de direito à morte com dignidade humana e autonomia de vontade. Dessa forma, apresenta o contexto histórico da eutanásia, verifica quais são os principais conceitos dessa prática. Além disso, mostra que as concepções acerca da possibilidade da eutanásia proporcionar a morte digna do indivíduo, e por fim, demonstra que a prática já ocorre em alguns países do mundo.

Inicialmente, no primeiro capítulo, foi feita uma abordagem dos aspectos históricos e conceituais, bem como as definições dos princípios relevantes a prática da eutanásia. Foi demonstrado que essa prática é muito antiga e que ao passar dos anos o seu conceito não teve mudanças significativas, mantendo a sua base conceitual até os tempos atuais. Ao que se refere a apresentação das classificações e diferenciações pontuais sobre o assunto, denota-se que existem diversas modalidades de eutanásia e que há alguns institutos que estão diretamente relacionados a ela. Ainda, quanto aos princípios, verifica-se que as definições da autonomia da vontade e a dignidade da pessoa humana são de extrema relevância a esta prática.

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No segundo capítulo é analisada mais profundamente a prática da eutanásia, demonstrando a esse instituto traz uma possibilidade de promover a morte ao ser humano com a mesma dignidade que este teve sua vida. Dessa forma, pela perspectiva baseada na aplicabilidade dos princípios da autonomia de vontade e da dignidade da pessoa humana, a eutanásia se torna uma forma de abreviar o sofrimento do ser humano que não pretende continuar vivendo nas condições em que se encontra. Ao final, é feito um levantamento dos países que autorizam ou toleram tal prática, incluindo um levantamento das propostas que já foram feitas pela bancada legislativa brasileira acerca da eutanásia.

Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas do tipo exploratórias, ou seja, se utilizando de coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores. A fim de demonstrar que o tema é um assunto muito discutido, desde a antiguidade até os tempos atuais, porém ainda não se apresenta como uma matéria pacificada.

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1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DA EUTANÁSIA

A prática da eutanásia é um assunto muito discutido desde a antiguidade até os tempos atuais, porém, ainda não se apresenta como uma matéria pacificada. O debate em torno da utilização de tal procedimento ocorre em diversos países do mundo, devido ao fato de confrontar o direito à vida, mas em contraposição existe a percepção de dignidade humana e autonomia da vontade.

Nesse contexto, o presente estudo pretende verificar as principais formulações acerca do entendimento do que é eutanásia, abordando os aspectos históricos e conceituais, apresentando classificações e diferenciações pontuais sobre o assunto, bem como as definições dos princípios relevantes a esta prática.

1.1 A origem da eutanásia

O termo eutanásia, etimologicamente teve origem na Grécia, a partir da junção de duas palavras, “eu” (boa) mais “thanatos” (morte), podendo ser traduzido como “boa morte” ou “morte sem dor”.

A palavra eutanásia foi utilizada pela primeira vez no século II d. C, pelo historiador latino Suetônio (2002), ao descrever a morte do imperador Augusto: “A morte que o destino lhe concedeu foi suave, tal qual sempre desejara: pois todas as vezes que ouvia dizer que alguém morrera rápido e sem dor, desejava para si e para os seus igual eutanásia. ”

No contexto histórico, práticas semelhantes a eutanásia já ocorriam habitualmente nos povos primitivos. Os denominados, na época, “sacrifícios humanos” eram praticados em função de cultos religiosos, um exemplo a ser citado é a cultura do povo batak, etnia que se concentra na região central do Norte da Sumatra (ilha pertencente ao país da Indonésia) onde os anciãos “depois de terem convidado os filhos a lhe comerem a carne, deixa-se cair de uma árvore, como um fruto maduro, depois do que os parentes o matam e comem sua carne” (SGRECCIA, 2002).

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Na Grécia antiga, em Esparta, a eutanásia era chamada de morte utilitária. A utilização dessa prática era defendida pelo filósofo Platão, em sua concepção, com uma visão ampla, apoiava a utilização de tal prática nos recém-nascidos que apresentassem alguma anomalia ou má-formação e nos adultos “[...] que estivessem gravemente feridos ou em sinistro estágio de doença” (CARVALHO, 2004).

Nessa mesma linha de pensamento, se posiciona o filósofo Aristóteles, porém restringindo a prática apenas aos recém-nascidos com deformidades. Aristóteles dizia que “era de fundamental importância ao Estado que a sua população não fosse impedida de crescer por causa dos prejuízos causados pelo sustento de um ser inútil” (CARVALHO, 2004).

Como frisa o autor Leo Pessini (2004, p. 103) a eutanásia já existia em alguns países da Europa na Antiguidade:

A eutanásia já existia na Grécia e em Roma. Platão e Aristóteles admitiam a prática da eutanásia ou o abandono à própria sorte dos recém-nascidos com anomalias ou más-formações, sancionando a prática existente em Esparta de jogar tais crianças nas rochas. Em muitas culturas, a prática da eutanásia tem uma forte vigência.

Verifica-se que nesse período a eutanásia não tinha como foco apenas o abreviamento da vida no caso de doença terminal ou o alívio do sofrimento humano, mas também tinha o objetivo de eliminar os indivíduos que não eram considerados “perfeitos”, possíveis incômodos para a família e o Estado.

Com o advento do Cristianismo a cultura ocidental mudou. A partir deste momento histórico, a eutanásia passou a ser considerada usurpação do direito à vida, já que esta ganhou conceito de bem precioso advindo de Deus. Dessa forma, segundo o fator religioso, o ser humano não tem o direito de tirar a vida, sendo a morte é função atribuída a Deus, evidenciando o fato de que nesse contexto o ser humano é essencial em sua igualdade.

Nesse sentido, assevera a doutrina que,

Em menor ou maior grau, na filosofia cristã, a humanidade ocidental passou a buscar, como expressão de respeito à sua dignidade, a igualdade entre os

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seres humanos. O ser humano passa a ser considerado, não obstante as múltiplas diferenças, em sua igualdade essencial. (MARTINS, 2003, p. 22).

Ainda, importante lembrar que através do advento do Cristianismo, o conceito de dignidade humana se expandiu. Nesse conceito fica claramente demonstrada a posição contrária à prática da eutanásia. Quanto a isso, Pessini (2004, p. 105) sustenta que,

A Bíblia não conhece a prática ou o conceito de eutanásia. Tanto o Antigo como o Novo testamento mostram um grande respeito pelo ancião, uma atitude de solidariedade para com quem sofre. A ética cristã não se centra no “belo e são”, mas considera o enfermo uma pessoa cujo cuidado deve ser privilegiado. O judaísmo marginaliza os leprosos, porém nunca analisa a possibilidade de tirar a vida miserável. A difusão do cristianismo significa a desqualificação da eutanásia.

Entretanto, ocorreram manifestações religiosas a favor da prática da eutanásia, em 1954, através de seu livro “Morals e Medicine”, o teólogo episcopal Joseph Fletcher publicou um capítulo com o título "Euthanasia: our rigth to die" demonstrando seu posicionamento favorável a eutanásia. Posteriormente, em 1957, o Papa Pio XII, aceitou a possibilidade de encurtamento da vida, desde que tivesse como objetivo diminuir o sofrimento de pacientes com dores insuportáveis, assim, utilizando o princípio do duplo efeito, onde a intenção é extinguir a dor podendo ter como efeito a morte (GOLDIM, 2017).

Imprescindível ressaltar, que nas passagens bíblicas tem-se relatado um dos primeiros casos de eutanásia. No Antigo Testamento, mais especificamente no texto de Segundo Livro de Samuel, I, onde conta a história da morte do Rei Saul ferido em batalha contra os Filisteus, um caso evidente de tentativa de suicídio seguido da utilização de eutanásia:

[...] “Eu estava casualmente no monte Gelboé e vi Saul apoiado em sua própria lança, enquanto os carros e cavaleiros se aproximavam. Saul virou-se, me viu e me chamou. Eu disse: ‘Estou aqui’. “Saul me perguntou: ‘Quem é você?’ Eu respondi: ‘Sou um amalecita’. Então Saul me disse: ‘Aproxime-se e mete-me, pois estou agonizando e não acabo de morrer’. Então eu me aproximei dele e o matei, porque eu sabia que ele não iria mesmo sobreviver depois de caído.” (BÍBLIA, 2004, p. 335).

Em 1939, no período nazista na Alemanha, foi instituído o programa nazista de eutanásia, que foi regulamentado no Código "Aktion T4". O principal objetivo

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deste programa era o extermínio de pessoas que, segundo os ideais nazistas, teriam uma “vida que não mereciam ser vividas”. A eutanásia ao ser institucionalizada, pelos nazistas, solidificou a proposta de pureza racial e trouxe a finalidade econômica de diminuir despesas médicas (GOLDIM, 2017).

O instituto da eutanásia na sua origem tinha um enfoque diferente dos moldes utilizados atualmente. O termo toma sua forma atual somente em 1623, quando é proposto pelo filósofo inglês Francis Bacon em sua renomada obra História da vida e da morte (Historia vitae et mortis), como sendo o “tratamento adequado às doenças incuráveis”. Sobre as afirmações de autor renascentista, Leo Pessini (2004, p. 105) destaca que:

Bacon afirma que o médico deve aplicar sua ciência não somente para curar, mas também para minorar as dores de uma enfermidade mortal. Com ele, o termo eutanásia adquire seu significado atual. Não está claro se ele admite a ação médica que põe fim positivamente à vida do enfermo; antes parece afirmar que o médico tem uma missão muito importante para cumprir nesse “estar junto do paciente quando ele está morrendo”. A partir de Francis Bacon, a palavra “eutanásia” adquire uma tonalidade nova: já não se relaciona somente ao sentido etimológico grego, mas possui também o sentido de “prestar atenção em como o moribundo pode deixar a vida mais fácil e silenciosamente”.

Assim, percebe-se que a palavra eutanásia no significado atual que é discutida, foi proposta pelo filósofo Francis Bacon, no ano de 1623. Dessa forma, fica evidente que o assunto já é discutido na sociedade há muito tempo. Porém, mesmo depois de passados tantos anos verifica-se que na atualidade ainda não se ter um entendimento pacífico sobre a prática da eutanásia.

Portanto, embora, hoje em dia, a eutanásia seja um assunto muito polêmico, verifica-se que a sua prática é muito comum na história da humanidade, tendo muita oscilação quanto a sua aceitação no transcorrer dos períodos históricos.

Feito o breve histórico sobre o tema em questão, verifica-se a necessidade de apresentar o conceito referente à eutanásia e estabelecer as distinções pertinentes a outros institutos que tem como objetivo a intervenção humana no momento da morte.

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1.2 Conceito de eutanásia

Nos termos da medicina, eutanásia é apresentada como ação de provocar morte (indolor) a um paciente atingido por uma doença sem cura que causa sofrimento e/ou dor insuportáveis. Em questão jurídica, o conceito segue a mesma linha de raciocínio, sendo o direito de causar a morte em alguém ou de morrer por esse propósito.

Historicamente, o termo eutanásia tomou diversas definições, o espanhol Ricardo Royo-Villanova, em 1928, apresentou uma proposta de classificação para a eutanásia, dividindo-a em:

Eutanásia súbita: morte repentina;

Eutanásia natural: morte natural ou senil, resultante do processo natural e progressivo do envelhecimento;

Eutanásia teológica: morte em estado de graça;

Eutanásia estóica: morte obtida com a exaltação das virtudes do estoicismo; Eutanásia terapêutica: faculdade dada aos médicos para propiciar um morte suave aos enfermos incuráveis e com dor;

Eutanásia eugênica e econômica: supressão de todos os seres degenerados ou inúteis (sic);

Eutanásia legal: aqueles procedimentos regulamentados ou consentidos pela lei. (FRANCISCONI; GOLDIM, 2017).

No Brasil, Ruy Santos, no ano de 1928, abordou a conceituação de eutanásia considerando a forma como ela é executada, classificando-a em dois tipos:

Eutanásia-homicídio: quando alguém realiza um procedimento para terminar

com a vida de um paciente.

Eutanásia-homicídio realizada por médico; Eutanásia-homicídio realizada por familiar;

Eutanásia-suicídio: quando o próprio paciente é o executante. Esta talvez

seja a idéia precursora do Suicídio Assistido. (FRANCISCONI; GOLDIM, 2017, grifos do autor).

Por sua vez, em 1942, Jiménez de Asúa, trouxe outra classificação quanto ao termo, fixando significado a eutanásia em três tipos:

Eutanásia libertadora, que é aquela realizada por solicitação de um paciente

portador de doença incurável, submetido a um grande sofrimento;

Eutanásia eliminadora, quando realizada em pessoas, que mesmo não

estando em condições próximas da morte, são portadoras de distúrbios mentais. Justifica pela "carga pesada que são para suas famílias e para a sociedade";

Eutanásia econômica, seria a realizada em pessoas que, por motivos de

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sofrerem em função da sua doença. (FRANCISCONI; GOLDIM, 2017, grifos do autor).

Doutrinariamente vários são os autores que apresentam conceitos sobre o instituto, não havendo muita diferenciação entre um e outro, mostrando que o conceito do termo eutanásia é algo pacificado.

Dentre esses autores, encontra-se José Roberto Goldim (2017) para ele “de maneira geral, entende-se por eutanásia quando uma pessoa causa deliberadamente a morte de outra que está mais fraca, debilitada ou em sofrimento. ”

Outro autor que apresenta um conceito de eutanásia é José Afonso da Silva (2014, p. 204), que cita em sua obra:

[...] De eutanásia se fala quando se quer referir à morte que alguém provoca em outra pessoa em estado agônico ou pré-agônico, com o fim de liberá-la de gravíssimo sofrimento, em consequência de doença tida como incurável, ou muito penosa, ou tormentosa. [...]

Nesse sentido, Leo Pessini (2007, p. 379) destaca que:

A partir de Tomás Morus e Roger Bacon, no século XVII, no termo eutanásia adquire o significado que faz referência ao ato de pôr fim à vida de uma pessoa enferma. O debate sobre a eutanásia não se centra na legitimidade de dispor da vida de qualquer pessoa, mas de a pessoa enferma, para a qual não existem esperanças de vida em condições que possam ser qualificadas como humanas, pedir e obter a eutanásia.

Portanto, verifica-se que de forma genérica eutanásia significa morte sem sofrimento, sua prática é uma forma de aliviar a dor, tanto física quanto psicológica, do ser humano em situação terminal que já não tem mais expectativa de vida.

De modo geral, a prática da eutanásia refere-se a diversas formas de interrupção da vida de um ser humano, este que por motivos próprios, geralmente ligados a doenças terminais incuráveis, não pretende continuar vivendo nas condições que se encontra. Esta pode ser praticada por qualquer pessoa, porém, de regra, é realizada por um profissional de saúde.

Posto isso, frisasse que existem várias formas diferentes de eutanásia e cada uma apresenta suas questões específicas. Quanto ao tipo de ação exercida ela

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pode ser classificada como ativa, passiva ou de duplo efeito e quanto ao consentimento do indivíduo, a eutanásia se categoriza como voluntária, involuntária e não-voluntária.

Os autores Carlos Fernando Francisconi e José Roberto Goldim (2017) apresentam uma conceituação quanto aos três tipos de ações da prática da eutanásia:

[...] Eutanásia ativa: ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins misericordiosos. Eutanásia passiva ou indireta: a morte do paciente que ocorre dentro de uma situação de terminalidade, ou porque não se inicia uma ação médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária, com o objetivo de minorar o sofrimento. Eutanásia de duplo efeito: quando a morte é acelerada como uma consequência indireta das ações médicas que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal.

Nessa mesma linha, Gisele Mendes de Carvalho (2001, p. 32) diz que a definição da eutanásia depende das suas formas de classificação. Dessa maneira, a eutanásia deve ser classificada em ativa, quando, por conduta comissiva, o agente provoca a morte, e em passiva, quando, por conduta deliberada, o agente provoca sua morte por não realizar atos que a evitem.

Para a referida autora, a eutanásia ativa pode ser dividida em direta, quando a provocação da morte visa aliviar as dores e sofrimento do doente e indireta, quando o tratamento da dor por medicamentos provoca de forma consciente ou pelo menos consentida a morte do doente. Já a eutanásia passiva se aproxima do conceito de ortotanásia, não podendo ocorrer confusão entre os institutos, se esclarece que, na eutanásia passiva todos os procedimentos considerados inúteis, para o caso indivíduo em questão, não são utilizados, e na ortotanásia, não ocorre a interrupção dos procedimentos indispensáveis para garantir a manutenção do indivíduo.

Quanto a classificação das possíveis formas de consentimento do indivíduo, Peter Singer (2009, p. 186) traz em sua obra “Ética Prática” a definição dos três tipos. A eutanásia voluntária, defendida pela maior parte dos grupos atualmente, é vista como “a eutanásia feita a pedido da pessoa que pretende ser morta” (SINGER, 2009, p. 186).

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A eutanásia involuntária o autor apresenta como a que ocorre

[...] quando a pessoa morta tem condições de consentir com a própria morte, mas não o faz, tanto porque não lhe perguntam se quer morrer quanto porque perguntam, e ela opta por continuar vivendo. (SINGER, 2002, p. 189).

Sobre essa modalidade o autor ainda destaca que os casos de eutanásia involuntária são muito raros, pelo fato de que: “Matar alguém que não consentiu em ser morto só pode ser apropriadamente visto como eutanásia quando o motivo da morte é o desejo de impedir um sofrimento intolerável da pessoa morta.” (SINGER, 2009, p. 189).

Por esse motivo que os casos de eutanásia involuntária são muito raros, pois em uma pessoa que não tem mais condições de consentir é difícil identificar se ela está sofrendo.

Por fim, a eutanásia não-voluntária, o autor aponta que essa forma é uma definição que surge das duas anteriores, porque

Se um ser humano não é capaz de compreender a escolha entre a vida e a morte, a eutanásia não seria nem voluntária, nem involuntária, mas não-voluntária. Dentre os incapazes de dar o seu consentimento estariam incluídos os bebês que sofrem de doenças incuráveis ou com graves deficiências e as pessoas que, por motivo de acidente, doença ou velhice, já perderam para sempre a capacidade de compreender o problema em questão, sem que tenham previamente solicitado ou recusado a eutanásia nessas circunstâncias. (SINGER, 2009, p. 189).

Outra forma classificatória que pode ser utilizada é a feita por Fernando Monge (2017), que desdobra a eutanásia em seis tipos diferentes:

Sem pretensão de fazer um elenco completo, podem distinguir-se as seguintes modalidades de eutanásia:

a) eutanásia agónica: consiste em provocar a morte sem sofrimento num doente já desenganado;

b) eutanásia lenitiva: é o emprego de certos fármacos, para aliviar a dor física causada por uma doença mortal, e que secundariamente podem trazer consigo um certo encurtamento da vida. Propriamente, não se lhe deveria chamar eutanásia, pois a utilização desses fármacos pode ser moralmente lícita;

c) eutanásia suicida: é o próprio paciente quem recorre ao uso de meios letais para abreviar ou suprimir a vida; neste tipo de eutanásia podem concorrer também com a sua actuação outras pessoas que contribuam para o desenlace mortal, sem serem elas próprias os autores principais;

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d) eutanásia homicida: podem considerar-se aqui dois aspectos: 1) o homicídio piedoso, ou abreviação da vida de uma pessoa, para a libertar do peso de uma doença terrível, ou de uma deformação física ou de uma velhice angustiosa; 2) eutanásia de tipo económico ou social, cujo objectivo é eliminar vidas humanas que se consideram uma carga para a sociedade (“vidas sem valor vital”);

e) eutanásia negativa: apresenta também dois tipos: 1) ortotanásia (“morte normal”), ou omissão de qualquer tipo de ajuda médica ao doente; 2) distanásia, ou omissão dos meios considerados extraordinários para prolongar artificialmente a vida de um doente padecendo de um processo patológico irreversível - esta modalidade não corresponde propriamente à eutanásia, por não existir a intenção de que morra o doente e por possibilitar uma vida natural;

f (sic)) eutanásia positiva: consiste em provocar a morte por meio de uma intervenção adequada, geralmente pela administração de um fármaco. Como se vê, estes tipos de eutanásia estão relacionados e, num caso concreto, podem ter lugar várias formas, segundo o ponto de vista que se considere.

No entanto, as classificações mais utilizadas são as apresentadas por Francisconi, Goldim e Singer (2017), por serem conceitos mais amplos. Concluída a conceituação e classificação da eutanásia, cabe diferenciá-la de outros termos que estão diretamente relacionados, porém possuem significados distintos.

1.3 Modalidades: a distanásia, mistanásia e a ortotanásia

Concluída a conceituação e classificação da eutanásia, cabe diferenciá-la de outros termos que estão diretamente relacionados, porém possuem significados distintos.

Primeiramente, temos a distanásia, que vem do grego “dis” que significa afastamento e “thanatos” que significa morte, ou seja, etimologicamente distanásia pode ser definida como o afastamento da morte. Nesse sentido, Pessini (2004, p. 137) traz uma definição mais aprofundada para o termo, definindo o instituto como sendo o “tratamento fútil e inútil que simplesmente prolonga a agonia, o sofrimento e adia a morte.”

Tendo em vista as conceituações apresentadas, verifica-se que essa prática utiliza todos os métodos possíveis existentes para que se prolongue o processo de morrer, sendo esses proporcionais ou não, é apenas uma forma de adiar a morte de um indivíduo que já está em estado terminal.

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A distanásia é um instituto pouco utilizado pelo fato de não ser muito conhecido, mas mesmo assim, existem discussões sobre tal procedimento. As ideias divergentes sobre a utilização desse método nas pessoas, giram em torno de duas teses, o discurso parenético e o discurso científico.

O discurso parenético tem como base a ética da sacralidade da vida. Pessini (2017, p. 4) trata desse discurso como sendo aquele em que

A vida é considerada como propriedade de Deus, dada ao homem para administrá-la. É um valor absoluto que só a Deus pertence. O ser humano não tem nenhum direito sobre a vida própria e alheia. As exceções no respeito à vida são concessões de Deus. O princípio fundamental é a inviolabilidade da vida.

Já o discurso científico traz uma abordagem distinta, tendo como foco a qualidade de vida. Sobre esse discurso, o referido autor dispõe que é aquele em que a vida é tratada como “[...] um dom recebido, mas que fica à disposição daquele que o recebe, com a tarefa de valorizá-lo qualitativamente. O ser humano é protagonista e o princípio fundamental é o valor qualitativo da vida.” (PESSINI, 2017, p. 5).

Nesse sentido, nota-se que os debates sobre a distanásia ficam divididos em dois extremos, os que defendem a sacralidade da vida (pró-vida) e os que são em prol da qualidade de vida (pró-liberdade de escolha).

Com todo o exposto fica evidente que a distanásia tem um conceito totalmente contrário a eutanásia. A primeira tem como objetivo a continuidade da vida a todo custo, ou seja, prolongar a vida do indivíduo pelo maior tempo possível, sem levar em conta a qualidade de vida deste, já a segunda vem com a finalidade de abreviar o sofrimento que compromete a qualidade de vida do indivíduo.

Outra modalidade que vale apresentar é a mistanásia, esta pode ser conceituada como a prática que vida a morte por falta de atendimento médico, seja pela pobreza de uma sociedade, seja falta de condições econômicas da própria pessoa. Por esse fato, que essa modalidade é conhecida como morte fora ou antes do tempo que seria a normal expectativa prevista para o indivíduo.

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Segundo o entendimento de Elisa Villas-Bôas (2005, p. 75),

O termo tem origem algo obscura; para uns, provém do grego mis (que significa "infeliz”), para outros, do radical também grego mys (“rato”). Em qualquer das duas opções, a expressão tem aplicabilidade perfeita ao seu sentido, que remete a uma morte miserável.

Esse instituto, ocorre somente em países subdesenvolvidos. Enquanto nos países desenvolvidos a morte se consuma pela velhice ou fatos supervenientes a sua vontade, nos países subdesenvolvidos, a consumação da morte ocorre, muitas vezes, pelo descaso do Estado com a qualidade da saúde pública, tendo em vista o atendimento precário a população.

Desse modo, pode-se dizer que a mistanásia é uma espécie de eutanásia social, pelo fato de que as mortes acontecem por erro médico, ou até por não serem encaminhadas ao tratamento médico adequado, causando assim sua morte.

Na maioria dos casos de incidência da mistanásia, o indivíduo não chega a ter o tratamento hospitalar que necessita. Desta forma, sendo enfatizado o descaso do Estado com a qualidade dos serviços de saúde que são prestados à população.

Outro termo que é indispensável estar presente para diferenciação é a ortotanásia. Para esse instituto, Pessini (2004, p. 139) traz a definição de que é uma

[...] síntese ética entre o morrer com dignidade e o respeito à vida humana, que se caracteriza pela negação da eutanásia (abreviação da vida) e da distanásia (prolongamento da agonia e do processo de morrer). A ortotanásia permite, ao doente que se encontra diante da morte iminente e inevitável, bem como àqueles que estão ao seu redor - sejam familiares, sejam amigos, sejam profissionais da saúde -, enfrentar com naturalidade a realidade dos fatos, encarando o fim da vida não como uma doença para qual se deva achar a cura a todo custo, mas sim como condição que faz parte do nosso ciclo natural.

A ortotanásia é uma prática mais aceita na sociedade atual, é apresentada como um direito garantido em vários países como Estados Unidos, Canadá, Japão, França, Inglaterra, entre outros.

No Brasil, no ano de 2006, o Conselho Federal de Medicina aprovou a Resolução nº 1.805 (2017) que dispõe em seu art. 1º que

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[...] é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal.

Essa Resolução trouxe aos médicos brasileiros a permissão para limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que possibilitem o prolongamento da vida de um paciente que se encontra com uma patologia incurável. Assim, o médico deixa com que o paciente desfrute de sua morte da forma mais natural possível.

Os parágrafos do art. 1º da Resolução trazem um rol de requisitos taxativos para que esse método possa ser utilizado, quais sejam,

Art. 1º § 1º O médico tem a obrigação de esclarecer ao doente ou a seu representante legal as modalidades terapêuticas adequadas para cada situação.

§ 2º A decisão referida no caput deve ser fundamentada e registrada no prontuário.

§ 3º É assegurado ao doente ou a seu representante legal o direito de solicitar uma segunda opinião médica. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Por fim, a redação da Resolução inclui, também, uma garantia ao paciente. Seu parágrafo 2º dispõe que

Art. 2º O doente continuará a receber todos os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o conforto físico, psíquico, social e espiritual, inclusive assegurando-lhe o direito da alta hospitalar. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, 2017).

Dessa forma, verifica-se que a ortotanásia se diferencia dos demais métodos pelo fato de que a morte é tratada como um fim inevitável, não sendo esta adiantada, como na eutanásia, e nem prolongada, como na distanásia, mas encarada de forma natural. Tendo em vista isso, num parâmetro geral, é notável que essa prática tem uma melhor aceitação pela sociedade, por ser um equilíbrio da eutanásia e distanásia.

1.4 Princípios da autonomia da vontade e dignidade da pessoa humana

Quando se fala em Eutanásia o primeiro ponto relevante que se encaixa nos debates é a autonomia de vontade e para que se compreenda o princípio,

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primeiramente, é necessário esclarecer o significado de autonomia. Segundo Beauchamp & Childress (2002, p. 137),

A palavra autonomia, deriva do grego autos (próprio) e nomos (regra, governo ou lei), foi primeiramente empregada com referência à autogestão ou ao autogoverno das cidades-estados independentes gregas. A partir de então o termo autonomia estendeu-se aos indivíduos e adquiriu sentidos muito diversos, tais como os de autogoverno, direito de liberdade, privacidade, escolha individual, liberdade da vontade, ser o motor do próprio comportamento e pertencer a si mesmo.

Dessa forma, percebe-se que a autonomia pode ser definida como a capacidade do indivíduo fazer suas escolhas de forma livre, assumindo a responsabilidade pelas consequências das decisões tomadas.

Nesse sentido, Durand (2007, p. 176) destaca que

[...] a autonomia ou a autodeterminação é considerada um direito (um direito de ser informado, um direito de decidir etc.) possuído por toda a pessoa adulta ponderada ou por seus representantes, no caso da própria pessoa ser legal, ou psiquicamente incapacitada. Esforçando-se para precisar em que consiste essa aptidão em consentir, diversos autores (juristas ou não) destacam três elementos essenciais: - Capacidade de uma pessoa de compreender as explicações fornecidas e as implicações do ato. - Capacidade de deliberar sobre as escolhas possíveis em função de seus valores e das metas que persegue; - Capacidade de expressar claramente sua escolha.

Dessa forma, o princípio da autonomia de vontade nada mais é do que uma garantia do ser humano decorrente de sua personalidade jurídica. Para Paulo Lobo (1986, p. 14), o princípio da autonomia da vontade é um princípio político, que “descansa sobre uma concepção individualista ou liberal da vida”.

Com a tecnologia existente no mundo atual, a medicina tem condições de manter um indivíduo biologicamente vivo, por muitas vezes utilizando-se de tratamento fúteis para o prolongamento de uma vida. Esses meios que adiam o processo de morrer acarretam o sofrimento do indivíduo e de sua família (PESSINI & BARCHIFONTAINE, 2007, p. 372).

Nesse contexto, Genival Franca afirma (2017)

Desse modo, disfarçada, enfraquecida e desumanizada pelos rigores da moderna tecnologia médica, a morte vai mudando sua face ao longo do

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tempo. A cada dia que passa maior é a cobrança de que é possível uma morte digna e as famílias já admitem o direito de decidir sobre o destino de seus enfermos insalváveis e torturados pelo sofrimento físico, para os quais os meios terapêuticos disponíveis não conseguem atenuar. O médico vai sendo influenciado a seguir os passos dos moribundos e a agir com mais "sprit de finesse", orientado por uma nova ética fundada em princípios sentimentais e preocupada em entender as dificuldades do final da vida humana; uma ética necessária para suprir uma tecnologia dispensável. Neste instante, é possível que a medicina venha rever seu ideário e suas possibilidades, tendo a “humildade” de não tentar “vencer o invencível”.

Por fim, verifica-se que o princípio da autonomia de vontade, faz com o indivíduo e sua família consiga se desvencilhar do prolongamento biológico da vida. Tal princípio, reconhece o ser humano como indivíduo autônomo e independente, que, com discernimento, possui o livre arbítrio para definir questões relevante a sua existência ou de familiar em estado terminal.

Definida a autonomia, outro princípio que é indispensável quando se trata do tema apresentado é o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. A compreensão do princípio citado é de extrema importância pelo fato de que em qualquer situação da vida deve ser observada e garantida a conservação da dignidade do indivíduo.

Nessa linha, a autora Maria de Fátima Freire de Sá (2005, p. 33) aponta que

A liberdade e a dignidade são valores intrínsecos à vida, de modo que essa última não deve, necessariamente, ser considerada bem supremo e absoluto, acima dos dois primeiros valores, sob pena do amor natural pela vida se transformar em idolatria. E a consequência do culto à idólatra à vida é a luta, a todo custo, contra a morte.

A dignidade da pessoa humana é declarada e reconhecida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, de 1969, em seu artigo 11, §1º dispõe que “toda pessoa tem direito ao respeito e ao reconhecimento de sua dignidade.” (COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 2017).

Quanto a definição conceitual precisa sobre dignidade da pessoa humana, nota-se certa dificuldade na sua obtenção, pois há a existência de circunstâncias que tornam o conceito um pouco vago. Porém, quando ocorre violação desta há possibilidade de fácil percepção. O autor Ingo Sarlet (2006 p. 30) apresenta uma conceituação jurídica de dignidade da pessoa humana, segundo ele

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[...] temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva reconhecida em cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.

A Constituição Federal Brasileira de 1988, traz em seu texto a inclusão da dignidade da pessoa humana como princípio fundamental, o artigo 1º, inciso III, dispõe que

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

III - a dignidade da pessoa humana; (BRASIL, 2017).

Desse modo, fica reconhecida em legislação a dignidade da pessoa humana como uma prerrogativa de que todo ser humano deve ser respeitado como pessoa, de modo que não prejudique sua existência e fruição de sua vida, corpo e saúde.

O autor, Alexandre de Moraes (2002, p. 128) classifica a dignidade como sendo,

[...] um valor espiritual e moral inerente à pessoa, que se manifesta singularmente na autodeterminação consciente e responsável da própria vida e que traz consigo a pretensão ao respeito por parte das demais pessoas, constituindo-se em um mínimo invulnerável que todo estatuto jurídico deve assegurar, de modo que, somente excepcionalmente, possam ser feitas limitações ao exercício dos direitos fundamentais, mas sempre sem menosprezar a necessária estima que merecem todas as pessoas enquanto seres humanos.

O princípio da dignidade da pessoa humana deve ser visto como uma regra a ser seguida em todas as normas, sendo considerada como uma base para todo o ordenamento jurídico. O autor Anderson Rohë (2004, p. 36) diz que “a dignidade da pessoa humana vem sendo encarada como o valor que orienta todo o ordenamento jurídico e lhe empresta unidade e coerência." No caso da eutanásia, este princípio se vincula à liberdade de escolha e proteção à vida.

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Sendo assim, quando se trata da prática da eutanásia fica evidente que os princípios da dignidade da pessoa humana e da autonomia estão interligados. O primeiro tem como proposta a garantia do indivíduo de ter as mínimas condições essenciais de vida, e o segundo tem como objetivo promover a liberdade de expor sua vontade.

Com base nesses princípios, se enfatiza a possibilidade do ser humano de se posicionar quanto a sua situação de vida, decidindo se é pertinente continuar vivendo ou não, de acordo com as suas prioridades. Assim, evitando com que a medicina mantenha os processos de tratamento, em indivíduos que não apresentam mais perspectivas de recuperação, diminuindo as possibilidades de prolongamento da dor, sofrimento e luta contra a morte natural.

Portanto, apresentadas as definições pertinentes ao assunto e através de todos os conceitos expostos, é notório que a prática da eutanásia tem como base princípios já consagrados no entendimento atual e busca proporcionar uma melhor qualidade de vida ao ser humano, dando a este o direito de renunciá-la.

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2 EUTANÁSIA: MORTE DIGNA OU SUICÍDIO?

A eutanásia, para os seus defensores, é um meio para se buscar uma morte com dignidade, já para os críticos desta prática, ela é vista como uma espécie de suicídio.

No entanto, o que realmente se busca com esse instituto, é proporcionar as pessoas a possibilidade de fazerem suas próprias escolhas sobre sua vida, podendo optar por continuar vivendo o máximo de tempo possível ou então optando por uma morte com a mesma qualidade que teve sua vida.

Nota-se que a morte, propriamente dita, é algo inevitável, não sendo um direito assim como a vida. Entretanto, a morte com dignidade pode ser um direito adquirido pelo ser humano, e esse direito se torna viável através da prática da eutanásia.

2.1 O direito à vida x direito humano à morte

Quando se fala em eutanásia, automaticamente, verifica-se um conflito entre alguns princípios fundamentais, os quais embasam a possibilidade de uma morte digna, e o direito à vida.

Nesse sentido, primeiramente, é necessário definir o que é vida e quando de fato essa começa. Desse modo, verifica-se que essas definições podem ser feita pela ótica de diferentes áreas, como biologia, medicina, religião, entre outras, mas a visão de vida que importa neste momento é a do direito.

Desta forma, Tavares (2012, p. 575) traz o direito constitucional à vida como sendo “o mais básico de todos os direitos, no sentido de que surge como verdadeiro pré-requisito da existência dos demais direitos consagrados constitucionalmente. É, por isto, o direito humano mais sagrado.”

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O direito à vida é declarado e reconhecido pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, de 1969, em seu artigo 4º, §1º dispõe que “Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.” (COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 2017).

Esse direito, também, está disposto na Constituição Federal Brasileira de 1988, em seu no artigo 5º, caput, tem-se expressamente disposto o direito à vida a todos os brasileiros e estrangeiros que aqui no Brasil residem, o texto constitucional diz que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.” (BRASIL, 2018).

Verifica-se, pela forma estrutural do referido artigo, que a inviolabilidade do direito à vida é vista como uma premissa as garantias e direitos que estão elencados nos incisos do mesmo. Além do mais, é o primeiro direito disposto no artigo, sendo assim, presume-se que é o mais importante dos arrolados.

O Código Civil de 2002, também dispõe sobre o direito à vida e, inclusive, determina um marco inicial para esta, o artigo 2º consagra que “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.” (BRASIL, 2018).

No mesmo sentido, o Código Penal Brasileiro traz no seu texto a tutela sobre a vida, punindo severamente o agente que pratica crimes contra a vida, que estão dispostos na Parte Especial deste Código, mais precisamente, no Título I – Dos Crimes Contra a Pessoa, Capítulo I – Dos Crimes Contra a Vida.

Portanto, pela visão jurídica, a vida pode ser conceituada como um bem jurídico, já que é consagrada pelo ordenamento pátrio brasileiro, e seu direito é assegurado e protegido pela Constituição Federal Brasileira e legislação infraconstitucional, como o Código Civil, Código Penal, dentre outros que não foram citados.

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O direito humano à morte vem com proposta de dar a possibilidade ao ser humano de optar, no momento em que decide pôr fim a sua vida, por uma morte com a mesma dignidade que teve em sua vida, não tendo a obrigatoriedade de continuar vivendo em condições de extremo sofrimento, se assim desejar.

O autor Ronald Dworkin (2009, p. 251) cita que esse desejo de morte digna, provem do próprio ser humano, segundo ele

Todos os dias, no mundo todo, pessoas racionais pedem que lhes seja permitido morrer. Às vezes, pedem que outras as matem. Algumas delas já estão morrendo, muitas em meio a grandes sofrimentos [...]

[...] algumas pessoas querem morrer porque não querem continuar vivas da única maneira que lhes resta [...].

Ou então, quando o indivíduo já não tem mais condições de declarar sua vontade, os próprios parentes deste demonstram o desejo em questão, como assevera o autor: “[...] às vezes, os parentes pedem permissão para pôr fim à vida de algum membro da família, pois o paciente em questão já se encontra em estado vegetativo irreversível. ” (DWORKIN, 2009, p. 252).

Semelhantemente, o autor Peter Singer (2002, p. 202), discorre sobre o mesmo tema, demonstrando que, por muitas vezes, o motivo das pessoas continuarem vivas é em virtude das imposições estatais que são feitas por meio da legislação. Ademais, o autor frisa que quando as situações são extremas, os indivíduos, mesmo sabendo da possibilidade de punição, pedem para pôr fim em suas vidas:

Devido às leis em vigor em muitos países, as pessoas que suportam dores ou sofrimentos irreversíveis devido a alguma doença incurável fazem com que os seus médicos corram o risco de uma acusação por assassinato sempre que lhes pedem para pôr fim às suas vidas.

[...] a lei é muito clara: nem o pedido, nem o grau de sofrimento, nem a condição incurável da pessoa morta configuram uma defesa diante da acusação de assassinato.

Desse modo, fica claro que as sanções previstas pela maioria das legislações fazem com que seja impossibilitada a prática da eutanásia como forma de promover uma morte digna aos seres humanos, mesmo que seja solicitada pelas próprias pessoas que a desejam.

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Além das barreiras impostas pela legislação, Dworkin (2009, p. 252) ressalta que a vida, em estado terminal, pode se tornar um instrumento da ciência visto que

Os médicos dispõem de um aparato tecnológico capaz de manter vivas – às vezes por semanas, em outros casos por anos – pessoas que já estão à beira da morte ou terrivelmente incapacitadas, entubadas, desconfiguradas por operações experimentais, com dores ou no limiar da inconsciência de tão sedadas, ligadas a dúzias de aparelhos sem os quais perderiam a maior parte de suas funções vitais, exploradas por dezenas de médicos que não são capazes de reconhecer e para os quais já deixaram de ser pacientes para tornar-se verdadeiros campos de batalha. Situações desse tipo aterrorizam a todos.

Com isso, se questiona, até que ponto o avanço da medicina é benéfico ao ser humano. As tentativas intermináveis de prolongamento da vida e prorrogação da morte a todo custo, são métodos que afastam a dignidade da vida dos indivíduos. O simples fato de estar vivo não é sinônimo de qualidade.

Nesse sentido, Léo Pessini (2004) cita que a partir do momento que a vida é declarada como bem maior e pleno, superior à liberdade e à dignidade, o apreço pela vida, torna-se veneração. O direito à vida deve ser vinculado a outros direitos de primeira dimensão, sendo um direito fundamental, mas não absoluto. Desta forma, que o direito humano à morte, vinculado a autonomia da vontade e a dignidade da pessoa humana, ganha o mesmo espaço que o direito à vida.

2.2 A prática da eutanásia e a aplicabilidade da autonomia da vontade e dignidade da pessoa humana

A prática da eutanásia está diretamente ligada a visão de que a morte digna pode ser constituída como um direito do ser humano. Porém, não se tem um consenso sobre este assunto, em virtude da sua complexidade e pela não aceitação do vasto público que considera a vida como algo sagrado, que deve ser conservado a todo custo. Contudo, qual é o sentido de manter uma vida de dor, sofrimento e angústia?

Esse instituto, propriamente dito, consiste em uma ação para possibilitar o término da dor e sofrimento insanáveis do ser humano. Tem como única finalidade a realização de atos que oportunizem uma “boa morte” ao indivíduo, encurtando o

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processo vital do agente, que já está sentenciado a morte, por meio de solicitação do mesmo.

O autor Ronald Dworkin (2009, p. 295) faz uma análise acerca das concepções de vida e morte que circundam as pessoas. Segundo ele existem dois pontos de vista, o primeiro é

[...] às vezes, as pessoas querem continuar vivendo, ainda que em meio a sofrimentos ou terrivelmente incapacitadas, a fim de fazerem algo que consideram importante ter feito. Querem concluir um trabalho, por exemplo, ou aprender coisa que sempre desejavam aprender.

Já o segundo ponto de vista que o autor descreve é o que

[...] as pessoas frequentemente pensam que têm razões igualmente fortes para não permanecerem vivas. Uma dela é a crueldade das experiências que vêm pela frente: dores atrozes ou náuseas constantes, o horror da entubação ou as confusões da sedação. [...] muitos, como afirmei, consideram indigno, ou cruel de alguma forma, viver sob determinadas condições, seja qual for o grau de sensibilidade que conservam, se é que algum. Muitas pessoas não querem ser lembradas nessas circunstâncias; outras consideram degradante ficar totalmente dependentes ou tornar-se objeto de uma interminável angústia. (DWORKIN, 2009, p. 296).

Em resumo, o autor sustenta que

[...] algumas preferem morrer a continuar existindo, permanentemente sedados ou incompetentes; [...] outros preferem “lutar até o fim”, mesmo quando em meio a sofrimentos terríveis ou quando já perderam a consciência e não têm como saborear a luta; [...] (DWORKIN, 2009, p. 281).

Com base nesses dois pontos de vista apresentados, é que se evidencia a existência de dois grupos com pensamentos, totalmente, distintos sobre a morte. Em função disso, verifica-se que é necessário entender a concepção de cada pessoa para estabelecer suas convicções para a morte, como assevera o autor:

[...] as concepções das pessoas a respeito de como viver dão cor a suas convicções sobre quando morrer, e o impacto se torna mais forte quando está em jogo o segundo sentido no qual se pensa que a morte é importante. Não há dúvidas de que a maioria das pessoas atribui ao modo de morrer uma importância especial e simbólica: na medida do possível, querem que sua morte expresse e, ao fazê-lo, confirme vigorosamente os valores que acreditam ser os mais importantes para suas vidas. (DWORKIN, 2009, p. 298).

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Dessa forma, para que se compreenda a aplicabilidade da eutanásia é necessário ter o conhecimento das concepções de vida da pessoa que a solicita. O próprio autor aborda que ao tratar de eutanásia “Exploramos a complexa ideia dos interesses críticos porque não podemos pensar na morte como algo de interesse fundamental para alguém a menos que compreendamos essa dimensão dos interesses que as pessoas têm.” (DWORKIN, 2009, p. 294).

É nesse sentido que, o autor Peter Singer (2002 p. 185) diz que a eutanásia, para o indivíduo nada mais é do que “[...] uma ação praticada em seu benefício e tem por finalidade poupar-lhes a continuidade da dor e do sofrimento.” Desse modo, os métodos utilizados pela eutanásia visam, unicamente, pôr fim a uma vida que está baseada em um sofrimento contínuo e insuportável.

Para ficar claro, quanto a utilização desta prática, esclarece-se que esta é usada apenas se solicitada, inclusive, Dworkin (2009, p. 257) discorre que “as pessoas devem decidir sobre sua própria morte, ou sobre dos outros, em três tipos principais de situação”, que seriam Consciente e competente, Inconsciente e Consciente mas incompetente. (grifo do autor)

A situação em que melhor se aplica a prática da eutanásia é a consciente e competente, Dworkin (2009, p. 258) diz que “as pessoas em pleno controle de suas faculdades mentais podem recusar um tratamento médico mesmo que tal recusa implique a sua morte.”

Por estes motivos que a prática da eutanásia se enquadra na aplicabilidade de alguns princípios fundamentais, quais sejam, autonomia da vontade e dignidade da pessoa humana. Esse instituto com base nos princípios constitucionais acaba por criar um novo direito que está implícito na legislação, o direito à morte digna.

Em análise ao viés constitucional, em um primeiro momento, com um estudo superficial, os princípios supramencionados teriam aplicabilidade apenas ao que tange à vida do indivíduo. No entanto, com a definição dos conceitos de autonomia da vontade e dignidade da pessoa humana, que já formam feitos anteriormente no

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presente trabalho, nota-se que a redação deixa margem para que se possa aplicá-los, também, em relação à morte do ser humano.

De acordo com Ingo W. Sarlet (2006, p. 72-73), a dignidade da pessoa humana se apresenta como uma qualidade intrínseca do indivíduo, sendo que este, através desse princípio, este tem a garantia de ser respeitado pelo Estado e pela sociedade. O princípio em questão busca assegurar as mínimas condições para uma vida digna, considerando, inclusive, a integridade e liberdade do ser humano.

Dessa forma, verifica-se que o prolongamento da vida do ser humano, por meio de tratamentos intermináveis, por muitas vezes dolorosos, que só trazem sofrimento ao indivíduo, não oportunizam uma vida digna. Desse modo, em uma análise mais abrangente sobre a dignidade da pessoa humana se chega a conclusão de que é imprescindível refletir sobre a possibilidade e o direito da pessoa escolher o momento da sua morte, com isso, mantendo sua dignidade e evitando seu sofrimento.

Evidencia-se que cada ser humano tem um valor íntimo sobre a dignidade de sua vida e que o processo de encerramento vital se inclui como parte desta. Tendo em vista isso, assim como a pessoa tem direito a uma vida digna, isso se aplica também a sua morte, considerando que esta é fase inerente da vida.

Nesse sentido, é notório que o princípio da dignidade da pessoa humana afigura-se a possibilidade de promover uma morte digna, sendo o próprio indivíduo protagonista da escolha sobre a forma mais digna de encerrar a vida, podendo ser por meio da prática da eutanásia.

Quanto ao princípio da autonomia da vontade, como já visto anteriormente, diz respeito, basicamente, a liberdade de escolha. A autonomia está diretamente ligada ao exercício de manifestação da vontade humana. Diante disso, se percebe que este princípio, assim como a dignidade da pessoa humana, também tem aplicabilidade a prática da eutanásia.

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Quanto a autonomia, Dworkin (2009, p. 268) traz a concepção de alguns indivíduos e determina que

[...] é crucial, para o direito das pessoas, que elas possam tomar, por si próprias, decisões fundamentais que lhes permitam pôr fim a suas vidas quando quiserem fazê-lo, ao menos nos casos em que sua decisão não for claramente irracional.

Ainda, o referido autor (2009, p. 268) assevera que

“[...] alguns adversários da eutanásia também invocam a autonomia: preocupam-se com a possibilidade de que, se a eutanásia for legalizada, pessoas que na verdade preferem continuar vivas poderiam ser mortas.”

Entretanto, Dworkin (2009, p. 315) entende que a primeira concepção é mais razoável. Desse modo, o mesmo fixa que a autonomia tem como finalidade proporcionar as pessoas a capacidade de agir de acordo com os seus interesses individuais. O autor supramencionado (2009, p. 315) diz que “há um consenso geral de que os cidadãos adultos dotados de competência normal têm direito à autonomia, isto é, direito a tomar, por si próprios, decisões importantes para a definição de suas vidas.”

Nesse sentido, quanto ao modo de encerramento da vida de uma pessoa, Dworkin (2009, p. 307) diz que “levar alguém a morrer de uma maneira que outros aprovam, mas que para ele representa uma terrível contradição de sua própria vida, é uma devastadora e odiosa forma de tirania.” Desta maneira, para propiciar uma morte digna ao indivíduo, é necessário levar consideração as convicções deste, dando a ele a oportunidade de encerrar sua vida da forma como deseja.

Portanto, entende-se que a melhor forma de se efetivar o princípio da autonomia da vontade, na eutanásia, é respeitando o direito de escolha do ser humano, permitindo com que este tome suas próprias decisões sobre a sua vida e, consequentemente, sobre sua morte, do modo que achar mais conveniente. Esse princípio propicia a não intervenção de pessoas diversas na vida do indivíduo, fazendo com que este tenha a possibilidade de optar pelo que mais se amolda aos seus interesses.

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Por fim, apesar de o direito à morte não ser, expressamente, disposto no texto constitucional, com base nas informações apresentadas sobre os princípios da dignidade da pessoa humana e da autonomia da vontade nota-se que este direito está implicitamente observado.

Diante do exposto, verifica-se que a prática da eutanásia ganha espaço no ordenamento, por analogia ao direito à morte, já que esta é uma forma de proporcionar ao indivíduo o encerramento vital com a devida dignidade e exercendo a autonomia da vontade.

2.3 A eutanásia no direito pátrio e no direito comparado

No âmbito jurídico, quando se faz um levantamento sobre os países do mundo buscando saber quanto a prática a eutanásia, se verifica que a execução desse instituto é autorizada, ou tolerada, em alguns países. Nessa linha, o autor Goldim (2017) faz as disposições históricas de alguns dos principais países que abordam a legalização da prática da eutanásia.

Segundo Goldim (2017), o Código Penal Uruguaio de 1934 prevê a possibilidade de isenção de pena para quem prática eutanásia, o chamado homicídio piedoso, conforme dispõe seu artigo 37:

Articulo 37:. Del homicidio piadoso: Los Jueces tiene la facultad de exonerar de castigo al sujeto de antecedentes honorables, autor de un homicidio, efectuado por móviles de piedad, mediante súplicas reiteradas de la víctima. (URUGUAY, 2017).

Dessa maneira, verifica-se que a eutanásia não foi expressamente legalizada, o país apenas tolera a sua prática, dependendo da análise do caso concreto, dando ao juiz a opção de aplicar a impunidade isentando a pena ou não ao indivíduo que cometeu o ato.

A situação na Colômbia é um tanto controvertida, pois apesar da Corte Constitucional Colombiana, em 1997, ter decidido pela isenção de responsabilidade penal aquele que praticasse o chamado homicídio piedoso, se equiparando ao

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sistema Uruguaio, o Código Penal do país prevê como crime tal ato. Por este fato, que a prática clandestina da eutanásia é muito comum no país (GOLDIM, 2017).

Nos Estados Unidos da América, como sendo uma Federação, a decisão de permissão ou não da eutanásia fica a critério de cada Estado. No entanto, é importante ressaltar que a prática da eutanásia não é admitida em nenhum Estado da Federação. Porém, a prática de suicídio assistido é autorizada em alguns Estados, como Estado do Oregon, desde 1997 e o Estado de Washington, a partir de 2008, entre outros (GOLDIM, 2017).

No mesmo sentido de suicídio assistido, a Suíça se enquadra. A matéria publicada no site de notícias da Suíça SWISSINFO (2017) esclarece que mesmo não havendo regulamentação sobre o assunto, a Corte Federal, órgão judicial máximo do país, traz uma interpretação abrangente da lei local. Dessa forma, é reconhecido o direito de morrer das pessoas, de forma rápida e indolor, sendo o país muito famoso pela prática desse procedimento, em razão de duas associações renomadas, a Dignitas e a Exit.

Em termos de legalização, a Holanda foi o primeiro país do mundo a regulamentar a prática. As discussões sobre a eutanásia no país começaram a ocorrer em 1973, em virtude do caso Postma. O caso gerou muita repercussão no país, pelo fato de ter havido condenação pela prática da eutanásia. Com a repercussão o país foi se moldando sobre o assunto de uma forma diferente, e em 10 de abril de 2001 foi aprovada a legalização da eutanásia, esta entrou em vigor em abril de 2002 com a alteração de alguns artigos da Lei Criminal da Holanda. Em conjunto com a legalização alguns critérios para a realização da eutanásia foram fixados. O autor Goldim (2017) cita as regras que foram estabelecidas para a autorização de execução do procedimento:

1. Quando o paciente tiver uma doença incurável e estiver com dores insuportáveis.

2. O paciente deve ter pedido, voluntariamente, para morrer.

3. Depois que um segundo médico tiver emitido sua opinião sobre o caso.

Na Bélgica, assim como na Holanda a prática da eutanásia é legalizada, e em 2002 o Comitê Consultivo Nacional de Bioética do país se manifestou

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favoravelmente a prática de tal instituto. Contudo, a lei belga é mais restrita que a holandesa, segundo Goldim (2017) “uma diferença fundamental é a garantia do anonimato.” Com requisitos rígidos, a prática da eutanásia, é permitida apenas aos pacientes que se encontram em estado terminal com um sofrimento constante e insuportável, físico ou mental. Portanto, na Bélgica a eutanásia se restringe as pessoas que possuem uma doença incurável.

No Brasil, diferentemente dos outros países apresentados, a eutanásia é um instituto vedado. Conforme o ordenamento jurídico vigente, a prática desta pode ser equiparada ao crime de homicídio doloso que é previsto no artigo 121, do Código Penal e tem como pena cominada de seis a vinte anos, de reclusão. (BRASIL, 2018).

Em 1996, o Senador Gilvam Borges propôs o projeto de lei nº 125, que tentou estabelecer algumas especificidades para que a legislação brasileira possibilitasse a prática da eutanásia no país. O texto do projeto sustentava a “morte sem dor”, prevendo uma autorização para que fossem realizados procedimentos que possibilitassem as pessoas que estavam sofrendo, de forma física ou psíquica, a escolha da própria morte (GOLDIM, 2018).

Segundo Goldim (2018), para que fosse expedida essa autorização era necessária uma avaliação rigorosa quanto ao caso, sendo que esta seria dada “por uma junta médica, composta por 5 membros, sendo dois especialistas no problema do solicitante. Caso o paciente esteja impossibilitado de expressar a sua vontade, um familiar ou amigo poderá solicitar à Justiça tal autorização”. Este projeto foi arquivado no ano de 1999 ao final da legislatura, sem sequer ter sido colocado em votação.

No entanto, o projeto de lei nº 236 de 2012 do Senado Federal que está em tramitação, visa a alteração de alguns dispositivos do Código Penal Brasileiro. Esse projeto faz menção a diversas modificações aos dispositivos do Código vigente, e dentre elas está a tipificação de crime para a prática da eutanásia. A disposição da eutanásia consta na alteração quanto ao artigo 122 do Código, que diz

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Art. 122. Matar, por piedade ou compaixão, paciente em estado terminal, imputável e maior, a seu pedido, para abreviar-lhe sofrimento físico insuportável em razão de doença grave:

Pena – prisão, de dois a quatro anos.

§ 1º O juiz deixará de aplicar a pena avaliando as circunstâncias do caso, bem como a relação de parentesco ou estreitos laços de afeição do agente com a vítima. (BRASIL, 2018).

Ainda, com a alteração desse dispositivo, o parágrafo 2º traz em sua redação a possibilidade de uma excludente de ilicitude, quanto a manutenção do ser humano por meios artificiais:

§ 2º Não há crime quando o agente deixa de fazer uso de meios artificiais para manter a vida do paciente em caso de doença grave irreversível, e desde que essa circunstância esteja previamente atestada por dois médicos e haja consentimento do paciente, ou, na sua impossibilidade, de ascendente, descendente, cônjuge, companheiro ou irmão. (BRASIL, 2018).

Portanto, verifica-se que se este projeto for aprovado a eutanásia deixa de ser considerada como homicídio doloso, tendo um dispositivo próprio para ser enquadrada. A alteração que faz a tipificação da eutanásia, não traz a sua prática a total isenção de pena, como o que ocorre nos outros países do mundo, mas conta com uma pena expressivamente menor do que a imputada ao crime de homicídio simples, o que já é uma grande inovação para a legislação brasileira. Quanto a excludente de ilicitude, esta seria aplicada somente quando o agente deixa de fazer a manutenção da vida do ser humano que só continua vivendo em virtude dos meios artificiais que o sustentam.

Referências

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