Como Se Insere a Psicologia Num Programa de Treinamento Total

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COMO SE INSERE A PSCOLOGIA NUM PROGRAMA DE TREINAMENTO TOTAL?

Athaide Ribeiro da Silva Insere-se de modo amplo, teórico, prático, e no mesmo status e posição que qualquer outra .disciplina.

Em nossos dias já não é mais possível um trabalho no campo humano sem a cooperação de tôdas as ciências, de todos os especialistas: médicos, psicólogos, sociólogos, antropólogos etc. A sociedade sente necessidade de elevar o nível da atividade desportiva. Os que trabalham no desenvolvi-mento físico do homem não podem decepcionar a opinião pública: têm que fazer trabalho científico, criador e refletido.

Nos últimos anos, a ciência acumulou grande quantidade de conhe-cimentos. A educação física, em sentido amplo, vem conquistando a base teórica necessária a uma concepção geral mais perfeita. O desporto que tem no fenômeno da agonística a diferenciação específica, a caracterização de que não é apenas educação física, não deixa, todavia, de ser parte dela,

quando tomamos a palavra em sentido amplo. , Resolver com sucesso problemas complexos exige a colaboração dos

diversos ramos científicos. Como se trata, sempre, do homem na educação física, ou no desporto, a Psicologia ocupa, aqui, lugar de primeira linha entre as ciências principais. A elaboração de bases científicas da Psicologia geral tornou-se possível graças ao desenvolvimento, nos últimos anos, de conhecimentos específicos. Foi possível estabelecer, então, os diversos ra-mos psicológicos, e, entre eles, a psicologia desportiva.

No exame psicológico do atleta procura-se, sobretudo, o nível de qua-lidades de que o desportista mais necessita para praticar, com sucesso, de-terminado desporto; mormente os traços de personalidade.

Certamente algumas questões de âmbito da psicologia ainda são objeto de especulação no campo desportivo. A inteligência, por exemplo, se en-quadra no campo da dúvida. Começa que a noçãc de inteligência varia de psicólogo para psicólogo e, pergunta-se, até que ponto ela coincide com o rendimento desportivo? A maioria dos psicólogos que se bcupam da relação entre as capacidades intelectuais e físicas admitem coincidência positiva somente entre os indivíduos medianamente dotados.

Há mesmo quem fale em correlação entre sucesso desportivo e ins-trução. Outros chegam a pensar em alta inteligência para o êxito

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despor-tivo. Ao contrário, sabe-se de desportistas eminentes cuja inteligência é apenas média ou medíocre. O melhor é não generalizar relacionamento a tal assunto e admitir uma inteligência particular para a atividade des-portiva.

Se fosse verdade qjie um atleta para toer sucesso precisa alta inteli-gência, tal idéia significaria que apenas o indivíduo de alto quociente intelectual pode tornar-se desportista coroado de êxito. Esta não é a rea-lidade. Muitas vêzes admiramos o atleta por cuja inteligência não temos muito reconhecimento, e vice-versa.

O problema, pois, não consiste em encontrar a inteligência geral, mas uma inteligência especial, "inteligência desportiva" — análoga, por exem-plo, à inteligência técnica, que é a condição de um capital desportivo, ou de um conjunto de habilidades.

O componente inteligência desportiva é naturalmente certo nível de inteligência geral que condiciona outros componentes, sobretudo a menta-lidade tática, o espírito de invenção, a aptidão para utilizar todas as forças físicas e mentais, as características da personalidade etc. A noção de inte-ligência desportiva ainda é desconhecida, principalmente se tratar-se de medi-la e defini-la; ela ainda exige estudo teórico aprofundado e controle prático.

Importante, outrossim, é verificar a atitude do atleta em relação à competição, ao oponente, ao público, ao psicólogo.

A competição pode ser saudada por atletas como a alegria da vida, uma festa, uma distração envolvente; nesse caso, muitos sentir-se-ão fortes como Hércules. Mas, a maioria tem que vencer uma maior ou menor febre de competição, dinamizante, para uns, atormentante e arruinante, para outros. ' .

A febre de competição, muitasvêzes, cessa no início da luta, repenti-namente, e dá lugar ao auto-esquecimento e à concentração. O auto-esque-cimento pode ser tão grande que todas as ações são feitas automaticamen-te e a atitude crítica torna-se impossível.

A febre competitiva pode ser vencida por diferentes meios. As vêzes auxilia muito a idéia de que o adversário não é melhor, de que o desporto é maravilhosa matéria de importância secundária; procura-se distração, para distensão geral, recorrendo à conversa, leitura, baralho; há quem pense na pessoa amada, outros conseguem ignorar o- público, tal como o ator, no teatro, criou a 4.a parede.

A situação ideal ocorre quando o competidor, o oponente e o público se constituem numa unidade, e, então, criam a pré-suposição para a atuação bem sucedida.

Se muitos atletas são capazes de esquecer de si mesmos durante a competição, para outros ela pode constituir-sc numa dura luta, repleta de tormentos, de desencorajamentos, até imaginações fóbicas, estafante luta com o adversário e consigo mesmo. O sentimento de solidão pode dominá-lo e levá-lo ao limite do abatimento e do desespêro. O oponente pode ser o estímulo desportivo, pode ser a fonte de ansiedade, de efeito paralisante, pode ser o inimigo impressionante que precisa ser destruído, a fim de melhorar a atuação com o auxílio da agressão.

A Psicologia é, hoje, a terceira ciência a serviço do desporto, ao lado da Fisiologia e da Ortopedia. Seu emprêgo no desporto é universal Europa

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e Estados Unidos, mormente para as Olimpíadas, contam com equipes de psicólogos atuando durante todo o tempo de preparo, de treinamento dos atletas, sem descurar, é óbvio, o intenso trabalho durante as competições. Do amadorismo ao profissionalismo, principalmente o futebol, as exigên-cias em relação à Psicologia são contínuas.

Em tôdas as atividades desportivas, não só o atleta são como o patoló-gico (o ansioso, o intimidado, o inseguro étc.) estão reclamando sempre a assistência do psicólogo.

A posição do Brasil no cenário internacional é das melhores; a coin-cidência da utilização do psicólogo para os jogadores, na ocasião em que nos tornamos campeões e bícampeões mundiais, deu relevo especial à visão que, no exterior, se construiu de nossa preocupação com o emprego da Psicologia Desportiva. A atenção que psicólogos de vários países europeus deram a nosso país, durante a realização do I Congresso Internacional do Desporto (Roma, 1965) foi verdadeiramente surpreendente.

O espírito crítico, todavia, não nos pode nem deve abandonar. Não estamos tão adiantados. Por òra, a Psicologia está sendo aplicada exclusi-vamente ao futebol (Rio, São Paulo, Belo Horizonte," Pôrto Alegre, ao que sabemos). Além de limitada ao futebol, o que se faz é apenas o exame dos atletas, através de testes. A continuidade de atuação, a assistência psicológica, através do counselling, sangue e nervo do trabalho do psicólogo na equipe desportiva, qualquer que seja a modalidade do desporto, é pro-grama ainda não seguido pelos nossos clientes e organizações. Todavia, a Psicologia está sendo ensinada nas Escolas de Árbitros (curso de formação), e também as Escolas de Educação Física têm a Psicologia como disciplina permanente •em seus currículos.

Quais os objetivos da Psicologia Desportiva?

Evidentemente que sob vários ângulos pode o assunto ser encarado e focalizado. ' ,

Do ponto de vista do escopo, talvez pudéssemos falar ern dois escopos fundamentais; um, prático, que poderia ser descrito como psicologia para o desporto, que o ajuda, isto é, a psicologia prática para auxiliar o rendi-mento no desporto, situação em que a Psicologia tem a mesma posição da Medicina desportiva. Um outro ponto de finalidade da Psicologia, êste de interesse até para o Sociólogo, é aquele em que ela estuda o fenômeno desportivo na sociedade; aí seriam verificadas as conseqüências do fenômeno desportivo individual e do fenômeno desportivo social.

Poderemos situar o objetivo da Psicologia do desporto em cutra equa-ção; a relação entre a teoria psicológica e a prática psicológica desportiva. O modo atual de aproveitar a Psicologia aplicada ao desporto, acentuado e enfatizado no mundo inteiro, constitui o reflexo das necessidades atuais de um gênero de vida lúdica que ultrapassa de muito nossas estimativas de 20 anos atrás.

Essas necessidades resultam de experiências indicadoras de que o des-portista que não estiver bem preparado, também psicologicamente, pode ser surpreendido com o insucesso.

Se conseguirmos alcançar em nosso tempo êste interesse atual pela psicologia desportiva, teremos criado um sistema de ciências para a educa-ção física, imprescindível para o desporto do século XX.

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Esta segunda metade de nossa centúria é a da elevação da eletrônica no domínio das ciências físicas e da psicologia nas ciências humanas. O desporto, atividade superior ao cinema, em consumo de público, não poderá ignorar a ciência que se torna o centro de gravidade de explicação da di-nâmica pessoal.

Podemos formular algumas suposições.

A primeira suposição seria um sistema determinado que nos permita transferir as noções analíticas da psicologia do desporto (acumuladas há mais ou menos 40 anos) para a teoria e prática do treinamento desportivo.

Êste sistema de traspasso, que podemos denominar o sistema da pre-paração psicológica do desportista, deve ser:

a) bem fundado teoricamente;

b) bastante compatível com o sistema dè treinamento desportivo. A segunda suposição, destinada a fundamentar as noções científicas da psicologia do desporto na teoria e na prática, é aquela a que concernem tôdas as questões relativas à educação psicológica dos treinadores, à psico-logia dos desportistas e da publicidade desportiva, à cooperação do psicólogo com os treinadores e sua parte ativa no treinamento dos desportistas. A terceira e última suposição, que enseja a possibilidade de fazer valer as noções científicas da psicologia desportiva na teoria e na prática, é seu conhecimento por todos os cientistas que prestam serviços ao desporto. . Ainda podemos sistematizar outros objetivos, dizendo que a Psicologia desportista pode cogitar de três pontos principais, de três grupos de pro-blemas. O primeiro grupo é o daqueles problemas que se referem à psicologia da atividade atlética, isto é, a pesquisa dos processos psíquicos conexos com à atividade motora, isto é, os traços característicos da percepção, da sensação, da mobilidade que sejam típicos de alguma competição atlética. O segundo grupo de problemas compreende os do treinamento atlé-tico. Aí estão implícitos a formação da habilidade motora e a qualidade desiderativa do atleta.

Finalmente, o terceiro grupo de problemas compreende aqueles que se referem à psicologia do atleta, isto é, a personalidade do atleta e a in-fluência de seus traços característicos sobre a atividade desportiva.

A psicologia desportiva não é ciência nova ou independente. É tão-sò-mente a Psicologia aplicada à população desportiva. Seus instrumentos (testes;' entrevistas) são os mesmos para qualquer ser humano (são ou doente).

Não há diferença na forma de avaliar o atleta e o não-atleta.

A Psicologia Desportiva é ramo da Psicologia e não uma nova ciência. Baseando-se no conceito de agonística (mais adiante explicado), é que a Psicologia serve ao desporto (tanto mais que onde não houver agonística não haverá desporto; mas sim educação física, como já foi dito, o que não impede a conclusão de que servindo ao desporto a Psicologia também serve à Educação Física). O desporto implica a idéia de atividade que requer vigor e habilidade. Essas atividades desportivas ou competições atléticas provocam ver-dadeiros cerimoniais de força, destreza e resistência, tudo estruturado co-mo formas sublimadas de combate.

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Êsses combates podem apresentar diferentes limites (ou términos) e diferentes formas de vitórias. Os fatores de limite para vencer são: o tem-po, ou a distância, ou o escore, ou a supremacia. O futebol e o basquete são limitados pelo tempo: o maior escore vence. Corridas são limitadas pela distância e o tempo menor vence. O boxe e a luta são limitados pela supremacia (nocaute, pontos) e avaliados numericamente em termos do tempo para consegui-la. Todos êsses fatores' de limite para vencer afetam á estratégia e a tática; portanto, todos têm importância psicológica básica.

Certos desportos (mormente os chamados jogos) envolvem interação bu ação de intercâmbio com o oponente. No tênis os adversários intercam-biam a ação indireta e alternadamente; no futebol, râguibi, basquete e hóquei disputam a posse da bola e marcam gols. Os desportos de interação com o adversário envolvem a tática de disfarçar o ataque com movimen-tos ambíguos, forçar o oponente a cometer erros, e mesmo a treiná-lo a errar através de mobilidade negativa. A proeza física é essencial nesses des-portos, mas o problema perceptivo de determinar o que o oponente está tentando fazer deve ser resolvido antes de as soluções motoras apropriadas serem escolhidas e iniciadas. Assim, vencer depende tanto da perícia de percepção como da proeza física.

A propósito, uma pequena digressão: não se deve confundir habilidade perceptiva com ação reflexa, pois esta é automática e estereotipadá. Ação estereotipada é previsível; ação previsível elimina o problema de selecio-nar contramedidas efetivas. A perícia em receber e avaliar as manobras, em calcular e iniciar soluções motoras desejáveis, dentro do limite de tempo possível, e em mudar as táticas para tirar proveito de circunstâncias favoráveis é essencial. Atletas que respondem automaticamente, como ga-tos de cerebelos arrancados, são geralmente derrotados.

A Psicologia do desporto estará necessariamente interessada em apren-dizagem, motivação, personalidade, e outros aspectos de comportamento. Também os aspectos primariamente motores, que deverão tornar-se, pau-latinamente, atuações de alta habilidade e qualidade, devem merecer a atenção dò psicólogo desportivo.

Em conclusão, a Psicologia Desportiva é ramo nôvo da Psicologia Apli-cada. Progressivamente vai sendo usada em todo o mundo e em todos os desportos: amadores ou profissionais; individuais ou de grupo.

As pesquisas, as investigações, os estudos teóricos apenas começaram. Todos devemos estar atentos ao que vai pela Europa e pelos Estados Uni-dos. Muita coisa tem vindo e continuará vindo daqueles dois centros de estudos.

CONCEITUAÇAO DE AGONÍSTICA .

Noção fundamental no desporto é o conhecimento das razões psicológi-cas profundas que levam o homem a lutar, a competir. Só há desporto quando ocorrem três fatores: jôgo, movimento e ago-nística. Para os objetivos de nosso curso só nos estenderemos no conceito de agonística, de vez que constitui a essência mesma da intervenção da Psicologia na atividade desportiva. É o fator insubstituível no desporto.

O têrmo agonística parece-nos mais apropriado e mais expressivo que as palavras luta ou competição. O que se quer e se procura com agonística

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é definir todo o impulso psicológico de lutar, tôda a agressividade compe-titiva inconsciente.

Com a palavra agonística definimos o sentido catártico, a pugnação psicológica de uma tensão, através do embate com o adversário. É o acervo ou montante, quase se pode dizer um síndrome psicológico que, criando a necessidade de lutar, só encontra satisfação na porfia atlética. Sublima-ção de impulsos primitivos, evasão de componentes arcaicos, canalizaSublima-ção da agressividade são outros sinônimos, outros modos de dizer a mesma coisa; ou melhor, todos juntos constituem, em síntese, a agonística.

É na Grécia que vamos encontrar a origem da expressão, onde Agon quer dizer luta.

Agones eram os jogos públicos (havia os agones capitolinos, instituídos por DIOCLECIANO, de Hadrien, celebrados em Atenas, os agones isolás-ticos, com entrada solene do vencedor por uma brecha nos muros de sua cidade; os agones actiáticos, festas instituídas por AUGUSTO, em memória da batalha de Actium). Agon era, entre os antigos gregos, o gênio protetor dos jogos públicos.

Agonista (do grego agonistes, combatente) era o nome dado pelos hele-nos àquele que participasse de concursos, fòsse atleta, combatente, advo-gado, ou ator de teatro. Evidentemente, que na mesma etimologia temos agoniá, antagonismo, protagonista etc.

Desde a mais tenra idade começa o confronto do ser humano com seu semelhante. Estas experiências competitivas fazem-se com tal tenacidade e provocam tal prazer no vitorioso que não seria exagero atribuir-lhe o sentido de exigência natural.

Diz o Professor Feruccio Antonelli, em Psicologia e Psicopatologia dello Atleta: "Nesta espontânea necessidade de medir-se com o próximo se identifica o espírito agonístico, típico elemento da personalidade huma-n. Na base do comportamento agonístico há um sentimento de insuficiência vital, isto é, o sentimento de não estar à altura da situação e de sentir-se incapaz de dominar o ambiente."

Fica bem claro, pois, na conceituação de agonística, a idéia do meca-nismo de compensação, a procura de um atestado de valor; é o afã de vitória e de luta emanado de camadas profundas da personalidade; eviden-temente, a luta, mesmo sem vitória, será gratificante, desde que o elã da vitória seja o impulso inicial. Implícita está a idéia dè que sem contenda não existe desporto.

,. A agonística, destarte, tem função catártica, e êste aspecto também é fundamental para conceituá-la; e por esta razão é que a palavra ago-nística define, melhor que competição, a atividade desportiva. É a expressão justa e certa para definir, ou conceituar, a descarga de energia numa de-monstração de excelência.

Agonística não é luta apenas, é amor à luta, é a sadia liberação de uma sobrecarga agressiva; portanto, é mais que luta ou competição, porque essas duas palavras não encerram o componente psicológico, e como tal não têm implicação catártica.

E a catarse contamina o espectador.

Os elementos da agonística

Já vimos que o desporto compreende três fatores: jogo, movimento e agonística. Salientamos como esta última constitui a célula viva da

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com-petição desportiva, o elemento dominante e insubstituível na conceituação e caracterização do desporto. Agressividade

Forças conscientes e não-conscientes influem poderosamente na com-petição desportiva.

Poucas atividades envolvem tanto a totalidade do ego como a do atleta.

Segundo os biólogos, a agressividade é a propensão a atacar a outro da mesma espécie ou diferente. Está ligada ao instinto de conservação e da corporificação, à chamada luta do mais forte; é comportamento cotidiano dos animais, em sua luta por espaço e outras necessidades. A agressão é nata ou adquirida. Dependida enervação, da irritabili-dade de glândulas, do ritmo com que o cérebro produz os circuitos elé-tricos, mas pode ser condicionada, diminuída, precipitada e aumentada pelos fatores sociais: a impunibilidade generalizada, a atmosfera social do momento, as práticas e usos de uma comunidade ou de uma sociedade.

Até o calor pode exercer sua influência.

Todos trazemos nossa carga agressiva; para vivermos em sociedade nós nos controlamos, permanecendo o potencial como brasa sob cinzas. A um estímulo desencadeante os impulsos agressivos podem funcionar; fatores ocasionais provocam tal transmutação em indivíduos, que êles se tornam, muitas vêzes, irreconhecíveis. São conhecidos, abundantes, nume-rosos as observações, os estudos de rebelião de grupos, de multidões, em que cidadãos pacatos acompanham o frenesi de uma turba furiosa e des-' truidora. Certos desportos, em que a disputa se faz por equipes e não indi-vidualmente, ensejam, se o árbitro não reprime as primeiras manifesta-ções, conflitos sérios, agressões (não esqueçamos nunca que a situação desportiva é uma "situação de reciprocidade agressiva") as mais diversas podem surgir, mormente em indivíduos de temperamento irritado ou aque-les em cuja formação dominou ou existiu a revolta e a rebeldia.

Sob o ponto de vista de civilizações (pois que umas são mais agres-sivas, conforme a fase histórica), a agressividade oferece observações curio-sas: basta comparar-se a civilização romana; com a hebraica, aó tempo do nascimento de Jesus Cristo. Os estudos de Margaret Mead, na Polinésia, são clássicos — ia dizer definitivos. E se nos puséssemos a falai

- de nações

e povos do século XX! Ou mesmo o caso de delinqüentes que se tornaram sscritores (Jean Jenet, Chessmann e outros).

E que dizer do que poderíamos chamar a agressividade sublime e magnífica: lealdade a um valor, a um ideal, a üm nome/à:pátria, a uma equipe, a um clube, à necessidade de eliminar os tiranos e tirania.

A agressão caracteriza-se como um dos fatores de conflito em nossa sociedade e em nossa tradição. Gerou-se uma ambivalência em relação a ela: a sociedade a admirar, estimula-a, principalmente quando ela se disfarça em iniciativa criadora, mas também a condena e a repudia.

Espécie de subelemento da agressividade é a auto-agressão, outro ele-mento importante e presente na dinâmica da agonística. Inúmeros desportos não deixam dúvidas sobre a existência de tal componente, mesmo ao leigo, se êle meditar por um momento: o boxe, a tourada, o futebol.

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Dificilmente o impulso agressivo deixa de ser ambivalente, isto é, traz sempre dentro de si uma carta heterodirigida e outra autodirigida, seja a agressividade interior. E como dificilmente existe autopunição sem sentimento de culpa, temos que admitir também êste elemento como com-ponente da dinâmica agonística.

> A energia auto-agressiva, portanto, é inerente a todo atleta, espécie de variação da agressividade, e como tal deve ser levada em conta peio psicó-logo no estudo da personalidade do desportista c no lance agonal. Tensão

Sendo o atleta um ser extremamente sensível, quando não inseguro, facilmente se inquieta e se emociona; quem diz carga emocional diz carga muscular, ou tônus vital elevado. Não surpreende, pois, a facilidade com que o atleta vive em estado de tensão, ou à beira de situação conflitiva.

Assim, a necessidade e urgência de descarregar a tensão é fator esti-mulante e propuhionador da atividade desportiva, cabendo ao psicólogo, ao avaliar o atleta, dar o justo valor às possíveis causas de preocupação, capazes de provocar o acúmulo tensional.

Tensão, venha de onde vier, é elemento dinâmico; encerra em si mesma a tendência à distensão. Feito determinado esforço, alguma coisa deve ser produzida.

Êsse elemento encontra-se em todas as manifestações do jôgo e da luta; tanto numa competição desportiva de pequeno porte, em que se pro-cura uma vitória indecisa, até o jôgo de azar, dependente todo êle do acaso, ou sorte, se quiserem; até na solução de uma paciência ou de um quebra-cabeças percebe-se essa emoção da incógnita a resolver, a incer-teza entre o resultado feliz ou o desafortunado. Ta! emoção promana da tensão, isto é, da tendência a conseguir-se alguma coisa — uma disten-são — baseada em probabilidade ou improbabilidade, feita em forma de esforço, que pode ser de espécies muitíssimo variadas.

Supercompensação

A atividade desportiva é meio de afirmação social e de prestígio pes-soal, significa uma realização, pois, em muitos casos, essa afirmação des-tina-se a compensar uma deficiência, um sentimento de inferioridade. Não é sem razão que a mais importante atividade desportiva brasileira — o futebol — seja procurada, de preferência, por rapazes oriundos de meios pobres e socialmente humildes. É sim mecanismo psicológico de caráter reparador, pela compensação material e pela elevação do status social.

0 professor Michel Bonet estabeleceu três acepções de supercompen-sação no desporto: 1 — A supercompensação complemento de atividade, isto é, aquela em que o desporto fornece, de algum modo, contrapesos e antídotos aos efei-tos de uma civilização marcada pela divisão do trabalho, pela industria-lização, pelo excesso de imagens e de palavras; talvez a palavra compen-sação seja a mais adequada, pois compensar, nesta primeira perspectiva, significa simplesmente equilibrar.

2 — A supercompensação por superação, específica dos casos de de-ficiência de ordem corporal ou psíquica.

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3 — A supercompensação substituição, que * pode ser explicada mais ou menos assim: o indivíduo,' em determinada atividade, fica privado de satisfação ou de êxito; então, encaminha-se para o desporto, a fim de encon-trar nêle uma gratificação substitutiva. Ocorre, portanto, uma fuga em relação ao objetivo primitivamente visado. A atividade vicariante deve ser entendida em cada caso particular, segundo a história do indivíduo. Todavia, uma das características das condições gerais da sociedade indus-trial é a afirmação pessoal em atividades laterais de compensação.

Exemplo de um caso de compensação físico-an atômico que produz supercompensação psicológica (de tipo substitutivo): um rapaz queria ser marinheiro; teve um olho vazado, o que condenou sua carreira. A prática do iatismo proporcionou-lhe gratificação, substituindo o desejo frustrado.

Esta classificação de três tipos de supercompensação é mais ou menos didática, pois elas se entrelaçam de tal modo que, a não fazer tal obser-vação, correríamos o risco de contestação e crítica. Realmente, a super-compensação (ou super-compensação) complemento funciona, freqüentemente, como substitutivo da atividade completa.

Ainda se pode dizer que, ao mesmo tempo que o indivíduo procura substituir a satisfação que não conseguiu obter, êle luta contra o senti-mento de inferioridade que o atingiu. Ora, tôda compensação de equilí-brio participa de um movimento cuja finalidade é superar a inferioriza-ção que resultaria de uma vida incompleta.

Motivação

Em sentido amplo, podemos dizer que a motivação para o desporto é a soma de todos os elementos da agonística; porém, em sentido restrito, vários subitens podem ser levados em consideração.

Num momento em que o estudo da motivação e das necessidades avulta dentro da Psicologia, a ponto de os mais ousados, como Maslow, chegarem a pôr em dúvida a teoria dos instintos, ou, pelo menos, a dar outro sentido a essa palavra, não se pode omitir tal aspecto para a com-preensão da psicodinâmica da agonística.

Podemos destacar como motivação do desportista:

a) A necessidade de sensações, ou seja, o prazer que a atividade lúdica provoca no ser humano, espécie de residual comportamento infantil, que permanece no ser humano por tôda a vida; tem base emocional, mas é, sobretudo, uma forma de satisfação da emoção básica, denominada hedo-nística; é a busca de prazer, de diversão, regozijo pela capacidade de imaginar e realizar, em suma, é a capacidade de criatividade motora, que proporciona a sensação de prazer, mesmo que ela não atinja o grau de excelência; pode estar num pingue-pongue de adolescente, num final de copa do mundo, numa pelada de praia.

-A propósito, é de se lembrar as considerações de Johan Huizinga (homo ludens), em que classifica tôda a atividade humana, inclusive a sagrada, o Direito, a Filosofia, como fenômeno de jôgo; numa palavra, para Johan Huizinga o homem seria o eterno menino, a desempenhar todos os trabalhos, todos os cometimentos, todas as tarefas, sempre numa busca infinda de satisfações lúdicas.

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b) O interesse de competir, isto é, a manifestação ostensiva da ne-cessidade de afirmação, para obter estima e reconhecimento. É a prova consigo mesmo que o atleta sente como que, compulsivãmente, necessi-dade de realizar." É o modo de êle verificar a atualização de seu poten-cial; encerrar uma variação da atitude de oposição, de embate > contra obstáculos.

c) A necessidade de afiliação, de incorporar-se ao meio social, atra-vés da demonstração de fôrça ou de habilidade motora; encerra atitude cooperativa, não a oposicionista, como acontece no interesse de competir. Numa mesma necessidade básica (a de estima, respeito ou apreço) encon-tram-se, na atividade desportiva, dois vetores diametralmente opostos: o de afiliação e o de oposicionismo, êste último forma disfarçada de agressão.

d) Dificuldade de afirmação em nível superior: praticamente é assun-to já estudado quando tratamos de supercompensação; aí podem ser englo-bados como causa de motivação para o desporto tôda uma série de busca de sucedâneos para insatisfações, frustrações e insucessos na vida.

e) Necessidade de evasão nos desportos como forma de exploração e integração na natureza ampla; a atividade desportiva, sempre desempe-, nhada ao ar livre (com a pequena exceção de estádios fechados:

basque-tebol, futebol de salão etc), encerra algo de identificação com as forças naturais, atendendo a remanescentes arcaicos e regressão à vida infantil. f) O papel do corpo como situação motivante, isto é, a atividade despor-tiva constitui eficiente meio de esclarecimento da função do corpo e da noção de sua imagem; êsse é outro aspecto relevante dentro da Psicolo-gia, a que americanos e europeus — principalmente os americanos — se consagram com fervor e que tanto valorizam; na questão do esquema corporal, o desporto pode desempenhar atuação benéfica, construtiva, e até terapêutica, como nos casos de inferioridade física

g) A independência econômica, possível em desporto altamente pro-fissionalizados, como o futebol, o boxe, o beisebol etc.

As motivações, pois, são de natureza e origem diversas, atendem a multíphces vetores na personalidade e satisfazem a complexas experiên-cias, desde o campo social até o individual; merecem destaque especial, neste último aspecto, as cargas afetivas e os mecanismos motores.

No estudo da motivação do fíomo Sporttuüs não podemos desprezar acontecimentos da infância, nem fatores caracterológicos. Também o con-texto sócio-econômico e o mundo de experiências individuais encerram elementos de ponderação.

Exibicionismo

Constitui o exibicionismo outro componente muito importante da di-nâmica agonal. Todo indivíduo, cuja atividade consiste em mostrar-se ao público, traz em si ou adquire, com as sucessivas demonstrações, uma permanente necessidade exibicionística. Subjacente ao exibicionismo está, obviamente, o narcisismo, eis que cada elemento é pressuposto do outro.

Essa estrutura binaria de exibicionismo-narcisismo aproxima o atleta daquele profissional que é seu primo-irmão: o ator. E cada um, guarda-das as deviguarda-das proporções, é um criador e um esteta.

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Ator e atleta são profundamente sensíveis, emotivos, sugestionáveis; ambos valorizam ao extremo a influência do pensamento mágico. O teatro e o desporto estão cheios de superstições. No futebol as proporções de cren-dices, cismas, manias e maneiras, superstições as mais diversas assumem caráter anedotário; não seria demais falar em tradição de condutas em certas equipes.

Com base nos parâmetros arcaicos do" exibicionismo, WHliam Reich formulou a teoria do caráter fálico, em que enquadrou, entre outras ca-tegorias profissionais, o político, o ator (êste, a nosso ver, com exagero, embora não inverossímel), estabelecendo as seguintes características:

— exibicionismo; — narcisismo; — superambição; — tendência paranóide; — agressividade;

— exagerada ostentação de confiança em si mesmo; — imaturidade;

— sugestionabilidade : emoções superficiais e instáveis.

No atleta, tais características seriam a deformação, a "supermáscara", a senda patológica.

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Referências

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