Jornalistas adventistas e suas
relações com a imprensa secular
ruben dargã Holdorf1
resumo: Este artigo desponta de uma pesquisa desenvolvida para o VII Simpósio da Memó-ria Adventista em 2004, cujos resultados são muito mais amplos. Para tanto, o autor levantou dados e apurou os fatos relacionados à história dos pioneiros jornalistas da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Brasil e seus vínculos com a mídia impressa secular. Além do papel desem-penhado pelos líderes eclesiásticos e comunicadores na igreja, sublinhou-se a relevância de se conhecer como os raros profissionais adventistas de imprensa se relacionaram com a mí-dia secular, que dificuldades enfrentaram mí-diante da crescente secularização da sociedade, de que forma a Igreja reagiu à presença desses profissionais e como eles analisam a comunica-ção na Igreja hoje. Ademais, este artigo se trata de um resumo do livro publicado em versão eletrônica numa parceria com o Centro de Pesquisas Ellen G.White do Brasil.
palavras-chave: Jornalistas; História; Adventistas; Roberto Azevedo; Elon Garcia
adventist Jornalists and tHeir relation witH a secular press
abstract: This article emerges from a survey developed for the VII Symposium of Adventist Memory in 2004, whose results are much broader. To this end, the author collected data and found the facts related to the history of the pioneers of journalists of the Seventh-day Ad-ventist Church in Brazil and its links with the secular print media. Besides the role played by church leaders and communicators in the church, it was emphasized the importance of kno-wing how the rare Adventist media professionals were related to the secular media, which difficulties they have faced in the face of growing secularization of society, how the Church reacted the presence of these professionals and how they analyze the communication in the Church today. Furthermore, this article is a summary of the book published in electronic version in partnership with the Research Center Ellen G. White in Brazil.Keywords: Newspapermen; history; adventists; Roberto Azevedo; Elon Garcia
A história dos pioneiros jornalistas adventistas se mescla com um período de trans-formações sociais, políticas e econômicas da própria nação. Os relatos deste artigo se ba-seiam, em geral, na história oral e dependem da lembrança de cada entrevistado, às vezes im-precisa, ou contraditória. Exemplo disso é o pastor Roberto Doehnert (informação verbal)2, que descreve o dia em que sua família virou notícia em um jornal paulistano. Todavia, nem ele nem sua mulher lembram o nome do jornal e a data da publicação. Mas outros fatos eles
1 Doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Tem dois mestrados, um em Comunicação, Educação
e Administração (Unimarco) e outro em Educação (Unasp). Professor do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). E-mail: [email protected]
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conseguem decodificar dos arquivos da memória. Doehnert se entusiasma ao citar os artigos de Arthur Valle publicados aos domingos na Gazeta do Povo de Curitiba quando este
respon-dia pelo Departamento de Relações Públicas da antiga sede paranaense da Igreja Adventista. Este trabalho resulta de um esforço muito mais de jornalismo investigativo do que de uma pesquisa científica, apesar dos complementos teóricos presentes ao longo do texto. Para tanto, foram entrevistadas 40 pessoas, in loco, por telefone ou e-mail. A história
comple-ta foi publicada no e-book História da comunicação adventista no Brasil (HOLDORF, 2009), no
qual se acrescentaram outros nomes de pioneiros e dados complementares aos deste texto. Dentre todos os nomes pesquisados, três deles se tornaram unanimidades no conceito da maioria dos comunicadores e jornalistas: Roberto Azevedo, como o pioneiro desbravador das redações na mídia secular; Arthur Valle, o primeiro adventista diplomado em Comunica-ção Social/Jornalismo; e Elon Garcia, o mais experiente profissional ainda em atividade, com 59 anos de trânsito nas redações, em agências de publicidade e de colaboração com a Igreja.
pressupostos históricos
Não há como comparar a mídia impressa brasileira atual com aquilo que se entende como imprensa durante a fase final da colônia, o período imperial e a primeira metade do século passado. Apesar do vantajoso privilégio desfrutado pela mídia brasileira de liberdade de consciência e expressão quando comparada a outros países vizinhos, a pressão contra os profissionais do jornalismo aqui parece crescer a cada ano. A Lei de Imprensa e a obri-gatoriedade do diploma para o exercício profissional viraram pó sob a alegação de serem normas elaboradas pelo regime militar. Todavia, ninguém questiona que outras profissões e leis ainda vigentes também tiveram origem e regulamentação durante o período ditatorial.
Analisando a história brasileira e as tendências legislativas no Congresso Nacional, surge o alerta de que esse estado de aparente liberdade corre o risco de ser passageiro. De acordo com Sodré (1999), a cultura das forças políticas dominantes atuais sente dificuldade de se desenlaçar das raízes da opressão originadas durante o regime colonial. Em meados do século XVIII, o marquês de Pombal criou a Real Mesa Censória, proibindo a publicação e a leitura de livros, jornais e a comercialização de papel, cuja prática se dava somente com autorização do Santo Ofício da Inquisição, da Cúria romana e dos desembargadores. O ato era estendido ao Brasil e demais colônias lusitanas na África e Ásia. Até mesmo a existência de bibliotecas nas casas poderia levar alguém ao tribunal e suas consequências: prisão, multas pesadas, degredo, humilhação e morte. Livros eram privilégio de clérigos.
Devido a essa situação de ignorância social, Braga rotula o Brasil de “desgraçado país, marasmado pela imbecilidade” (apud SODRÉ, 1999 p. 266). Pelo fato de a Igreja
Católica considerar a imprensa, em particular, um sacrilégio, o estabelecimento de outras instituições também se viu prejudicado, motivo que se somaria ao atraso no desenvolvi-mento do País, mesmo independente.3 O Estado brasileiro, cuja elite tomava a Europa
3 A doutora em História Social pela Universidade de Sorbonne (Paris IV), Márcia Graff, ex-professora da UFPR, relata
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como referencial, se fundamentava no seguinte tripé: positivismo de Augusto Comte, darwinismo social de Herbert Spencer e predomínio cultural-religioso do catolicismo. “O ideal positivista de ordem e progresso se converteu no artigo de fé das novas classes dominantes”, explicam Pakkasvirta e Teivainen (1997, p. 12-13, tradução livre), enquan-to o darwinismo estimulava “o direienquan-to do mais forte e a existência de raças superiores e inferiores”, deixando à Igreja Católica o monopólio espiritual, educacional e moral. Essa configuração do pensamento nativo quanto ao papel da imprensa se enraizará no precon-ceito contra aqueles que se identificavam com o exercício jornalístico.
Preocupada com a vertiginosa ascensão de correntes positivistas, dos movimentos anarquistas, do sindicalismo, da filosofia marxista e do proselitismo protestante, a partir da segunda década do século passado a Igreja Católica começa a tecer estratégias em duas frentes: na educação e na comunicação. Na educação, os concílios planejam a criação das universidades (futuras PUCs). Na comunicação, os católicos estimulam um reavivamento religioso e condenam os protestantes. Analisando a propaganda religiosa na imprensa, Barreto (apud SODRÉ, p. 338) critica
o culto à brasilidade que ela (Igreja Católica) prega e seu apego à herança do passado, de respeito não só à religião, mas também à riqueza e às regras sociais vigentes, daí a aliança da jovem fortuna, representada pelos improvisados ricaços de Petrópolis, com a Igreja Católica. Mas tal culto tende a excomungar as ideias estrangeiras (dos
imigrantes protestantes) de reivindicações sociais. O jeca deve continuar jeca.4
E, de acordo com Jorge (2008, p. 28):
O ódio e a fúria dos mandões contra a imprensa brasileira, desde a época do império até os dias atuais, quase sempre assumiram o aspecto de violências do Estado aristoplutocrático. Violências algo idênticas a uma orquestração ampla do poder, do establishment, contra a liberdade de opinião, de crítica, da expressão de pensamento, embora certas definições exijam muita cautela […] pois são termos aplicados às tendências políticas de um país consoante se declarem, respectivamente, extremistas ou moderados em relação às posições existentes num determinado momento histórico.
Mas os golpes contra os impressos não vieram somente da Igreja Católica. Na República, o catolicismo perdeu força para o laicismo. Os reveses sofridos pela imprensa escrita tiveram origem nas novas mídias. O próprio Sodré (1999) despreza a força dos impressos ao afirmar que jornais e revistas não são de massa no contexto brasileiro, face o analfabetismo literal e funcional, e o baixo poder aquisitivo da população.
A luta iniciada pela Igreja Católica no primeiro quarto do século XX pelo predomínio nas comunicações continua mais viva do que muitos podem imaginar. Pessinatti (1998, p.
4 Em 23/4/1921, Lima Barreto critica o posicionamento tendencioso dos jornalistas Alcebíades da Gama, em O
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311) sinaliza que “a Nova Ordem Mundial de Informação e Comunicação gerou e alimen-tou o grande debate sobre a democratização da comunicação. A descentralização e a rever-são do monopólio da comunicação é uma luta mais do que atual e necessária”. Apesar de a Igreja Católica se preocupar há mais de oitenta anos em discutir os destinos da comunicação, os pioneiros no evangelismo via mídia são os adventistas do sétimo dia. Só a partir da déca-da de 1960 os católicos justificam sua apologia aos meios massivos como instrumentos de desenvolvimento; a partir de 1970, eles valorizam os meios não massivos na evangelização e estruturam a Pastoral da Comunicação; hoje eles entendem a comunicação como comunhão e reconhecem a importância de qualificação profissional (PESSINATTI,1998).
pioneirismo na mídia secular
Sem uma política de comunicação definida, sem profissionais qualificados, mas contando apenas com a vontade de pioneiros e personagens de talento, a Igreja Adventista iniciou de forma amadora sua aventura de relacionamento junto à mídia impressa secular. A vontade de superar a falta de critérios, adicionada à indiferença quanto ao preconceito contra elementos ligados à comunicação, transformou figuras como os pastores Roberto Rodrigues de Azevedo, Arthur de Souza Valle, Kiyotaka Shirai, Alcides Campolongo, Anísio Chagas e Assad Bechara, e os jornalistas Elon Garcia, Ivan Schmidt e Odailson Spada em referenciais da comunicação. Ao mergulhar nas redações, eles se abasteceram do conhecimento e das técnicas, abrindo caminho e desbravando novas fronteiras.
Outra constatação desta pesquisa faz alusão ao preconceito contra os jornalistas. Lo-pes (1989) explica que, antes da criação dos primeiros cursos de Jornalismo no país, já ha-via muita resistência contra a formação superior de profissionais para a imprensa, pois era grande o medo da qualificação e valorização destes pela sociedade. O ex-presidente da Igreja Adventista para a América do Sul, pastor João Wolff, (informação verbal)5 recorda que o preconceito não se direcionava apenas aos jornalistas, mas contra os universitários em geral.
A natureza do preconceito contra os profissionais da imprensa também é justifi-cada por McLuhan (1964, p. 234): “Aqueles que deploram a frivolidade da imprensa e sua forma natural de exibição grupal e ‘lavagem de roupa’ comunitária, simplesmente ignoram a natureza desse meio.” Mencionando Max Weber, Kunczik (2001, p. 59) realça o jorna-lista pertencendo “a uma espécie de casta de párias que na ‘sociedade’ sempre é julgada com base nos seus representantes eticamente inferiores. É por isso que existem, sobre os jornalistas e seu trabalho, ideias estranhas e amplamente difundidas”. Visualizando esse período de transformações, Knight (2000) comenta as dificuldades de os professores das faculdades adventistas obterem titulação mais avançada devido à resistência da igreja.
Ao avaliar as mudanças mundiais decorrentes das duas grandes guerras, Knight (2000) alerta para o perigo de uma cultura rumando em direção da secularização. Este é um risco evidente na formação acadêmica de jornalistas em instituições não adventistas. Kovach e Rosenstiel (2003, p. 33) evidenciam que “cada geração cria seu próprio jornalismo”.
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Patriarca das comunicações
Um patrulhense abriu passagem nas redações de jornais e revistas mostrando a Igreja Adventista e sua missão evangelizadora ao país. Roberto Rodrigues de Azevedo nasceu em 3/3/1916, em Santo Antônio da Patrulha. Graduado em Teologia na turma de 1940, no Colégio Adventista Brasileiro, hoje Unasp, Campus São Paulo, Azevedo assumiu o pastorado em Pelotas. Seu filho, Paulo Azevedo ratifica o gosto do pai pela comunicação desde o início de seu trabalho no Sudeste gaúcho. Erlo Köhler confirma que o primeiro contato de Azevedo com a mídia impressa ocorreu em 22/12/1942, no jornal O Rio Grande, da cidade do mesmo nome. Nele, Azevedo escreveu um artigo de cunho religioso.
O pastor Azevedo não teve formação jornalística, mas aproveitou uma oportuni-dade para cursar um intensivo oferecido pela Faculoportuni-dade de Comunicação Cásper Líbero, na segunda metade da década de 1950, em São Paulo. No início da década seguinte, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo aprovou o registro profissional de Azevedo.
Ele assimilava e dominava as técnicas jornalísticas. Azevedo distribuía releases6 de visitas de
presidentes mundiais da Igreja para a imprensa e fazia os ganchos, transformando os fatos em notícia. Fotógrafo e cinegrafista, ele selecionava as melhores imagens para inseri-las na mídia ou apresentá-las nos eventos da Igreja. “A adoção de técnicas inovadoras nas áreas da comunicação e dos transportes também facilitou a expansão do adventismo” (KNIGHT, 2000, p. 135).
Köhler sintetiza que o princípio de Azevedo era mostrar a Igreja Adventista. Ele conduzia os jornalistas para os pontos altos da Igreja. “Estrategista eficaz e atualizado, ele dava ênfase a assuntos que interessavam ao grande público”, acrescenta Köhler (informa-ção verbal)7. Temas como assistência social, lanchas na Amazônia e índios do Araguaia tinham espaço garantido nos jornais. Desse modo, ele alimentava os contatos com autori-dades e com a imprensa a fim de falar sobre quem eram, o que faziam e o que pensavam os adventistas. “Amizades e relacionamentos eram fundamentais na sua atividade”, corro-bora seu filho Paulo (informação verbal)8. Na sequência, ele apresentava o material usado na campanha de donativos. Um mês antes da campanha, Azevedo abordava as atividades de interesse da comunidade. Depois divulgava as instituições da igreja.
Sua experiência o motivou a criar o departamento de relações públicas da igreja em São Paulo, local em que nasceria uma grande amizade com o pastor Kiyotaka Shirai, seu parceiro no Estado. Ao ocupar o mesmo setor na sede para São Paulo e o Sul do Brasil, na capital bandeirante, ele passou a se relacionar com outro expoente das comu-nicações, Arthur Valle. Azevedo revelava dificuldades para escrever. Ele gostava mesmo de registrar imagens. Quando conheceu Valle, estava preparado o caminho para a pri-meira dupla de repórteres da Igreja Adventista. Os textos eram de Valle e as fotos de Azevedo. Em São Paulo, ele trocava, deixando as fotos para Shirai. E, no Rio, os textos ficavam sob a responsabilidade de Anísio Chagas.
6 Ou press-releases, notícias distribuídas à imprensa pelas assessorias.
7 Erlo Köhler em entrevista a Ruben Holdorf, por telefone, em 13 e 14 de setembro de 2004. 8 Paulo César de Azevedo em entrevista a Ruben Holdorf, no Unasp, em 14 de dezembro de 2003.
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Outro método usado por Azevedo para cevar amizades na mídia impressa era a entrega de presentes, principalmente produtos da Superbom. “Ele mandava brindes da Superbom para as redações. A Superbom abria caminho. Ele mandava pacotes da Superbom em fim de ano, datas especiais e aniversários. Ele mantinha contato”, relembra Wolff (informação verbal).9
Uma deficiência cardíaca o levou à morte em 10/5/1980, no Hospital Benefi-cência Portuguesa, de São Paulo, conforme relato de seu filho mais velho, Julio César de Azevedo (Informação verbal)10. “Silencia o incansável divulgador da obra
adven-tista” foi o título da Revista Adventista anunciando seu falecimento.
Flosi (1999, p. 60) orienta que “o jornalista que leva a sério a sua profissão tem que estar permanentemente de plantão, disposto a interromper o dia de folga ou o mês de férias”. Durante o sepultamento de Azevedo, Shirai defendeu o amigo, citando que ele não exigia salas especiais com secretárias ou máquinas de escrever para exercitar suas funções, cujas atividades nem sempre eram reconhecidas de modo devido. Ele fez muitos sacrifícios para contar sempre com o melhor equipamento. Um dos oradores, não mencionado pela Revista Adventista, o chamou de “patriarca
das comunicações da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Brasil”. Wolff (informação verbal)11 o chama de “pai na América do Sul do assunto de comunicação”. Chagas o rotula de “apóstolo do jornalismo no Brasil” (informação verbal).12 Doehnert consi-dera Azevedo um sertanista, um “Villas-Bôas adventista”. Uma reportagem publicada
no Diário do Paraná de 23/7/67, chamava Azevedo de “sertanista”.
Primeiro diplomado
Torna-se uma tarefa muito difícil analisar a vida de Azevedo isolada da companhia de Arthur de Souza Valle. Graduado em Teologia na mesma turma de Wolff, em 1955, aos 28 anos de idade, Valle iniciou seu trabalho na sede paulista, permanecendo aí até 1961, quando o transferiram para Florianópolis. Na capital catarinense, mal começou a trabalhar e recebeu novas funções à frente do Departamento de Relações Públicas, Temperança e Rádio e TV da sede paranaense, onde permaneceu até 1968.
Neste intermédio, Valle aproveitou a oportunidade e cursou Comunicação Social na Universidade Católica do Paraná, habilitando-se em Jornalismo na turma de 1966. Portanto, o primeiro adventista graduado em Comunicação no Brasil. Pela mesma trilha ainda passa-riam os pastores Enéas Simon e Assad Bechara, Irlan da Costa e Silva e Patrícia Reichert.13
9 João Wolff em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 9 de agosto de 2004. 10 Julio César de Azevedo em entrevista a Ruben Holdorf, em 9 de junho de 2010. 11 João Wolff em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 9 de agosto de 2004.
12 Anísio Rocha Chagas em entrevista a Ruben Holdorf, em São José (SC), em 10 de agosto de 2004. O
pas-tor E. W. Thoman iniciou o trabalho com comunicação na Argentina em 1933, mas não obteve a abrangência e repercussão da obra de Roberto R. Azevedo.
13 Bechara concluiu o curso no Rio de Janeiro; Costa e Silva cursou apenas o primeiro ano na PUC-PR e se
trans-feriu para Nova York, onde faleceu num acidente de motocicleta; e Patrícia se graduou em 2003 entre os melhores alunos, chegando a estagiar na Gazeta do Povo.
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De 1968 a 1974, Valle assumiu o Departamento de Comunicação da sede sul-brasileira, passando em seguida para o mesmo setor na sede sul-americana, onde se empenhou até sua morte abrupta em 25/1/1983, aos 56 anos, num acidente automobilístico próximo a Curitiba.
A Revista Adventista de março de 1983 concedeu pequeno espaço para noticiar seu falecimento,
sob o título “Divisão perde líder de comunicação”. Encerrava-se aqui um longo período de pioneirismo da Igreja Adventista se relacionando com a mídia impressa secular. As mortes de Azevedo e Valle criaram um vazio na área de comunicação. A igreja voltava olhares para as mí-dias eletrônicas. Wolff (informação verbal)14 alega que essa postura diferente da igreja impediu que se continuasse crescendo nisso que eles lançaram. Pelo contrário, houve um declínio nesse aspecto. Ivan Schmidt (informação verbal)15 frisa que o grande iniciador desse trabalho de relações públicas e contatos com a imprensa foi Roberto Azevedo. Schmidt acha que as ações desenvolvidas naquele tempo por Azevedo, sozinho, nunca mais a Igreja Adventista fez com todo mundo que por um acaso estivesse trabalhando na área de relações públicas.
Nem todos os exemplos desta pesquisa são exclusivos de uma cidade, Estado ou região do Brasil. As matérias eram publicadas quase ao mesmo tempo nos principais jornais do País. Em 1966, Valle e Azevedo fizeram uma série de reportagens sobre as riquezas da Amazônia. O terceiro caderno do Diário do Paraná de 4/9/1966 apresentava
o título “Guaraná: riqueza da amazônia”; e na edição de 18/9 saía a manchete “Vitória régia: presente de Deus à selva amazônica”. O crédito a Arthur de Souza Valle indica que ele cursava Jornalismo na Universidade Católica.
Desbravando as redações
Antes de citar os profissionais que atuaram na imprensa secular, seria inconvenien-te desprezar o papel do núcleo de jornalistas de Curitiba, caso único no País, onde nove jornalistas16 conseguiram penetrar nas redações num espaço de 59 anos. E foi na capital do Paraná que os pastores conectados ao setor se graduaram e transformaram a região num autêntico laboratório de comunicação. Transitaram por lá dois líderes de comunica-ção (Arthur Valle e Assad Bechara), dois futuros presidentes para a igreja na América do Sul (Enoch de Oliveira e João Wolff) e dois gerentes da Casa Publicadora Brasileira (CPB), Emílio Doehnert e Bernardo Schünemann. Todos aprenderam a valorizar, estimular e oportunizar meios para o desenvolvimento da comunicação.
“Eu sei que a coisa começou aqui. Eu acho que o núcleo de comunicação ad-ventista de Curitiba foi muito forte e influenciou bastante”, acredita Spada (informação verbal)17. Spada tenta encontrar uma explicação para o fato, mas ele não tem certeza se foi por uma coincidência ou a liderança da igreja estava preparada para assimilar essa
realida-14 João Wolff em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 9 de agosto de 2004. 15 Ivan Schmidt em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 7 de agosto de 2004.
16 Elon Garcia (desde 1952), Ivan Schmidt (desde 1972), Pirajá Ferreira (desde 1969-?), Odailson Spada (desde
1973), Marcos Garcia Tosi (desde 1989), Ruben Holdorf (desde 1990), Chiarello (desde 1994-?), Sara Viana (desde 2000), Patrícia Reichert e Eduardo Teixeira (desde 2003), Guilherme Oro (desde 2004) e Edson Calixto Jr.
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de. Curitiba apresentava duas características fora da igreja que talvez influenciaram muito. Primeiro: Na época era o grande centro da educação superior no Brasil. O Colégio Esta-dual do Paraná era modelo para o Brasil de escola pública. Não é mais. Havia também o Cefet, hoje a única universidade tecnológica do país. Segundo: a comunicação, se bem que não tenha sido de ponta no Brasil, tornou Curitiba um celeiro de jornalistas para o país inteiro. Talvez isso também fomentasse o interesse, inclusive da Igreja. A primeira uni-versidade brasileira surgiu em Curitiba, em 1912, a Uniuni-versidade do Paraná, futura UFPR. O governo da República Velha não admitia a capital federal em segundo plano diante de uma cidade com características provincianas e se negou a reconhecer a existência de uma instituição de ensino superior em Curitiba. Descrevendo a Curitiba do início da República, Stein Jr. (apud VIEIRA, 1995, p. 149) narra que ela “já era naquele tempo o que
pode-mos chamar quase uma cidade universitária, com grandes colégios”. Schmidt (informação verbal)18, 43 anos de profissão, tem outra opinião a respeito do núcleo curitibano e sugere:
De fato, nós temos um bom grupo de profissionais atuantes e até fazendo um trabalho que é reconhecido. Mas eu diria que, provavelmente, o que influenciou foi a qualidade dos profissionais. Se não tivessem sido bons profissionais, não teriam se colocado no mercado. Se o profissional não tem qualidade, não importa se ele é dessa crença ou de outra, ele não tem chance, não tem oportunidade.
Comunicador convicto
Ao ser instigado a indicar o grande nome adventista no jornalismo, Spada se re-fere a Elon Garcia como o líder da comunicação. Garcia se mostrava frio e competente, como publicitário e como radialista, e com uma visão bastante apurada e convicta do que é comunicação. “Talvez seja uma pessoa que não tenha tido um curso de Jornalis-mo, mas ele soube aproveitar a sua experiência e traduzir isso num excelente nível de comunicação”, confirma Spada (informação verbal)19.
Elon da Silva Garcia nasceu em 26/2/1935. Sua voz grave abriu portas e provocou sua ascensão profissional. No início dos anos de 1950 havia muito preconceito contra ra-dialistas. Garcia (informação verbal)20 acredita que isso resultava da falta de compreensão de alguns membros e líderes da igreja. Em 1952, a Rádio Guairacá, de propriedade do gover-nador Moysés Lupion, lançou um concurso para radialista e Garcia encarou o desafio. Ele participou do teste, por curiosidade, para sentir como era o rádio. Venceu o teste e quase morreu de medo, por causa da reação da Igreja e da família. Chefiava a mesa examinadora o jornalista José Wanderley Dias. Concorreram 66 candidatos, muitos já profissionais. Garcia ostentava seu amadorismo. Ele só sabia falar na igreja e no colégio. A seleção aconteceu
18 Em entrevista no dia 7 de agosto de 2004. Autor dos livros “A ilusão das drogas”, “José Amador dos Reis” e
“Edgar Allan Poe – nunca estive realmente louco”, e tradutor de “História da redenção”, de Ellen G. White.
19 Odailson Elmar Spada em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 6 de agosto de 2004. 20 Elon da Silva Garcia em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 11 de agosto de 2004.
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numa quinta-feira à tarde. Primeiramente fizeram um teste de locução de voz, depois cha-maram todos numa sala e deram a relação dos 15 classificados. Seu nome estava incluído.
A respeito desse dia, Garcia relembra que a segunda etapa seria sábado, às dez ho-ras da manhã. Ele levantou a mão e disse ao Wanderley que sábado não iria porque tinha compromisso, agradecendo e pedindo o declínio do seu nome. O jornalista saiu com ele ao corredor e perguntou: “Por que você não pode vir sábado?” “Eu sou adventista e sábado eu não trabalho”, respondeu Garcia. Ele voltou à sala e disse: “O teste ficou transferido para terça-feira, às 21 horas.” Os testes eram divididos em conhecimentos gerais, de línguas e depois, o último, um teste de improviso, no qual o candidato recebia um assunto e falava cinco minutos ininterruptos para ver se apresentava condições de enfrentar o microfone. Foram dois à final e Garcia venceu. O assunto foi sobre o café. Em 1953 seria o Ano Internacional do Café. Curitiba era o grande celeiro exportador. Havia muitas exposições e matérias em todos os jornais. Ele ganhou por isso.
Da Guairacá, Garcia se transferiu para a Rádio Clube Paranaense. Depois recebeu convite para fundar e se tornar diretor comercial da Rádio Independência do Paraná. Sua única ingerência na mídia impressa ocorreu entre 1958 e 1959 no Correio do Paraná, no qual
manteve uma coluna de marketing, rádio e televisão, fazendo com que entrasse para a histó-ria como a primeira imagem e voz da TV Paranaense. Nagib Chede, primeiro empresário de televisão no Paraná, confirmou este fato em entrevista ao jornalista João Féder, em sua co-luna no jornal O Estado do Paraná. Na sala de reuniões da agência de publicidade que Garcia
preside, há uma placa com a seguinte inscrição: “20/10/1960 – Pioneiro da TV no Paraná”. Na recepção da agência de Garcia há outro quadro, no qual se lê: “Elon Garcia Pu-blicidade representa confiança e prosperidade”. Ele demonstra em todos os instantes ple-na convicção ple-nas tarefas que realiza, ple-nas funções que desempenha e ple-na fé que testemunha. E a sociedade percebeu isso e lhe prestou homenagem. Por iniciativa do vereador Celso Torquato, a Câmara Municipal lhe concedeu o título de Vulto Emérito de Curitiba em 27/3/2000. Na moção registrada nos anais da casa legislativa, lê-se que Garcia é “criativo, pensador e idealizador. Religioso efetivo, atua como membro efetivo da Igreja Adventista do Sétimo Dia”. Além das “Reflexões ao Entardecer” nas tardes de sexta-feira e sábado, na Rádio Novo Tempo de Curitiba, Garcia continua escrevendo, a pedido, uma pequena meditação para a revista dos Alcoólicos Anônimos.
Assessor no palácio
Notado e admirado pelas pessoas que o rodeavam, Ivan Schmidt transitou em re-dações e assessorias de governo. Desde a adolescência Schmidt almejava publicar notícias
na Revista Adventista. No final dos anos 1950, saíram três pequenas notícias da Igreja
cata-rinense, enviadas por ele. O inusitado ficou por conta de um artigo na revista O Atalaia,
editada por Carlos Trezza. Seu namoro com a CPB era antigo. Graduado em Teologia na turma de 1966, Schmidt carregava na bagagem a experiência de ser editor do Colegial e de O Seminarista. Após dois anos exercendo o pastorado, ele recebeu um convite da CPB para
substituir Rafael de Azambuja Butler, recém-falecido, em 1968, quando assumiu como editor do Nosso Amiguinho até sua saída da CPB em 1972.
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Ainda na CPB, Schmidt (informação verbal) conseguiu o registro profissional de jor-nalista. Paralelamente, era editor do jornal O Evangélico, de Wilson Rossi. Tentou entrar na Folha de S.Paulo, mas Perseu Abramo, irmão de Cláudio, barrou sua admissão por motivos
religiosos. Como a família de sua mulher era de Curitiba, eles resolveram mudar de domicí-lio. Em O Estado do Paraná, ele permaneceu menos de um ano. Atuou como repórter, editor
e substituiu nas férias os secretários de redação de O Estado e da Tribuna do Paraná.
Foi um bom aprendizado porque, na época, o diretor de redação, Mussa José Assis, me convidou para assumir a chefia de reportagem do jornal O Estado do Paraná. E as coisas estavam bem-encaminhadas. Realmente, eu seria o chefe de reportagem, quando o próprio Mussa me disse: “Olha, houve uma reformulação aí nos planos da casa e você vai ser o chefe de reportagem do Canal 4, TV Iguaçu.” Então eu mudei de redação. Fui trabalhar na redação do Departamento de Notícias da TV Iguaçu. Fiquei lá de 1973 a 1975, onde eu pude fazer um trabalho muito bom. Na época, a TV Iguaçu tinha um contrato com a Rede Globo para retransmissão da programação.
Antes de o presidente Ernesto Geisel retirar o direito de retransmissão da programa-ção da Globo, Schmidt aceitou nova proposta de trabalho e se transferiu para a Assessoria de Imprensa da Secretaria da Agricultura do Estado, na qual desenvolveu o restante da carreira.
Na fase derradeira do jornal Correio de Notícias, Schmidt chegou a ser colunista. Sua
passagem pelas assessorias do governo Álvaro Dias, de 1986 a 1989, e Secretarias da Agri-cultura e do Planejamento, qualificaram-no para a dura tarefa diária. No governo de Ro-berto Requião, entre 1990 e 1993, Schmidt exerceu a chefia da Assessoria de Imprensa do Palácio Iguaçu. Ele sempre foi um observador da política, espectador de lances políticos do Paraná, porque teve o privilégio e a oportunidade de estar ao lado dos governadores em momentos importantes. Schmidt ia se abastecendo de informações, de todos os fatos e muito disso, claro, ele abordou em sua coluna.
A respeito dessas oportunidades abertas pela imprensa, Schmidt21 lamenta que a
Igreja nunca teve uma política agressiva de comunicação. Ele acha que a Igreja perdeu oportunidades extraordinárias de se mostrar à coletividade, de ser notícia (no jargão jor-nalístico) e contar até hoje com um respeito muito maior da população. No início de 2005, Assis convidou Schmidt para assumir a redação dos editoriais de O Estado do Paraná,
atuando menos de um ano como articulista, quando se aposentou.
Vencendo preconceitos
Ao chegar à Igreja Central de Curitiba, o acadêmico da UFPR, Odailson Elmar Spada, recebeu de um dos líderes da congregação uma proposta em dinheiro para montar um escritório de contabilidade e abandonar o curso de Jornalismo. “Isso não é profissão para adventista”, fuzilou o administrador daquela congregação. Em 1969, ainda estavam
21 Em entrevista no dia 7 de agosto de 2004. Autor dos livros “A ilusão das drogas”, “José Amador dos Reis” e
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bem frescos os resultados de manifestações estudantis no País e no exterior, principal-mente na França. O preconceito contra o jornalismo transformava o curso no vilão do ensino superior. “Existia muito aquela ideia de que certas profissões não eram compatí-veis com a norma do cristão”, exprime Spada, com certa mágoa. A aprovação do pastor da igreja, Assad Bechara, no vestibular do curso de Comunicação Social da Universidade Católica silenciou os críticos e ninguém mais abordou o assunto.
Graduado na turma de 1973, no ano seguinte Spada iniciou como repórter poli-cial da Tribuna do Paraná, jornal do mesmo grupo de O Estado do Paraná e TV Iguaçu. Em
1978, ele foi contratado pelo Correio de Notícias na mesma editoria e, em 1979, aportou
na redação do Indústria & Comércio, de propriedade de Odone Fortes. Aqui, Spada se
identificou com a área de economia. A comunidade acadêmica conhecia o jornal de Fortes como a segunda universidade, face à qualidade do material impresso e a eficaz orientação e garimpagem de talentos conduzida por Aroldo Murá Haygert, diretor de redação. Por outro lado, admitia muitos estudantes a fim de evitar contratar profissio-nais, cujos salários atrasavam frequentemente.
Atendendo à necessidade da sede paranaense de projetar a igreja na mídia, Spada concordou em ser assessor de imprensa do Departamento de Comunicação, auxiliando o pastor Arlindo Rossi. Com a transferência de Rossi, a direção desativou o setor. Assim, Spada voltou em 1983 ao Indústria & Comércio, onde permaneceu até 1987,
mudando--se para a Assessoria de Imprensa da Secretaria da Agricultura do Estado. Dois anos depois, deslocou-se para Guarapuava, dirigindo o jornalismo da Fundação Pioneira de Radiodifusão do Paraná e editando o jornal da Cooperativa Agrária de Entre Rios. Nestes locais, desenvolveu matérias sobre bolsa de valores, agronegócios e pecuária, nas quais se especializou. Meia década se passou e Spada retorna a Curitiba, onde atuou no Colégio Curitibano Adventista como conselheiro de divulgação e professor de Editoração Eletrô-nica, de 1994 a 2005. Paralelamente às atividades nesta instituição, Spada não abandonou o ofício jornalístico e continuou assumindo trabalhos de free lance22 para políticos.
Inquirido sobre as matérias lançadas na imprensa, Spada recorda que enviou
mui-tos releases à imprensa e alguns destes se transformaram em pautas23 e matérias nos jornais.
A mais viva lembrança de Spada se reporta à primeira greve mundial contra o tabagismo. No primeiro semestre de 1980, a Agência de Publicidade P.A.Z., de Curitiba, e a Secretaria Estadual da Saúde resolveram estreitar parceria numa campanha contra o vício do fumo. Porém, eles não tinham o know-how para trabalhar com a questão. Então, alguém do
se-tor de criação da agência aludiu que havia “um pessoal experiente na Igreja da Carlos de Carvalho, que fazia milagres, orientando os viciados a deixarem de fumar em cinco dias”. Diante disso, a Igreja Adventista aceitou o convite para coordenar a campanha, chamada de “Greve do Fumo”, com data agendada para 29/8/1980.
22 Free lance: jornalista autônomo, sem vínculo empregatício, contratado para a produção de reportagens, artigos,
fotos, revisão, edição, diagramação, etc. Também conhecido como “frila”.
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Cartazes, camisetas com inscrições contra o cigarro, Clube de Desbravadores, Jo-vens Adventistas, Escolas Adventistas, universitários, todos unidos e mobilizados com mais 38 entidades da sociedade paranaense se prepararam para a campanha e anunciaram na mídia o “Manifesto grevista”:
Povo de Curitiba!
Os fabricantes de cigarros têm interesses óbvios em induzir a juventude ao vício. Mas é nossa obrigação defender a saúde de nossos filhos. Fumar não é um hábito normal ou elegante como sugere a propaganda. Ao contrário, é um vício antissocial e anti-higiênico. Fumar só faz bem aos que lucram com a venda de cigarros. Está na hora, portanto, de dar uma resposta aos que pensam que a população será eternamente passiva. Está na hora de fazer um protesto coletivo contra o fumo. Faça a greve do fumo!
Paraná, um estado de alerta contra o fumo.
Com certeza, esta foi a primeira, única e, talvez, última vez na história, que a Igreja Adven-tista promoveu uma greve. As redações relutaram em ceder espaço aos grevistas. Na manhã de 29/8, o jornal O Estado do Paraná noticiava a campanha nacional contra o fumo, extravasando o
projeto para além das divisas estaduais. A matéria “Pobres são os que mais fumam” encorajava as pessoas a não fumarem das 10 as 11 horas daquela manhã de sexta-feira. Vinte anos antes, uma campanha semelhante, mas não tão abrangente, havia se desenvolvido no Rio Grande do Sul.
Comunicação e comunhão
Apontando os cânones de Jornalismo da Sociedade Norte-Americana dos Redato-res de Jornais, Kunczik (2001, p. 109) define que
A principal função dos jornais é comunicar à raça humana o que seus membros fazem, sentem e pensam. Por isso o jornalismo exige de todos os profissionais o âmbito mais amplo de inteligência, conhecimento e experiência, assim como poderes de observação inatos e adquiridos.
Nos últimos anos, a igreja multiplicou sua ação em todas as mídias. Mesmo assim, os profissionais não concordam que houve aperfeiçoamento da qualidade na comunicação. “De um modo geral, a inserção da igreja na mídia é muito pobre. E hoje eu diria que ela nem existe mais. Praticamente não se vê mais nada da igreja como instituição nos espaços da no-tícia. A igreja é muito fechada”, avalia Schmidt (informação verbal)24. Ele é favorável à Igreja
ocupar os espaços na mídia como qualquer organização, não necessariamente religiosa. O âncora da CBN Curitiba, Marcos Garcia Tosi (informação verbal), 25 acrescenta não haver percebido uma melhora no nível da comunicação. Segundo Tosi, “a comu-24 Em entrevista no dia 7 de agosto de 2004. Autor dos livros “A ilusão das drogas”, “José Amador dos Reis” e
“Edgar Allan Poe – nunca estive realmente louco”, e tradutor de “História da redenção”, de Ellen G. White.
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nicação ainda parece muito oficialesca, da instituição, muitas vezes contagiada por um certo ufanismo”. Ele explica que as informações são subjetivas, pautadas num clima de constante celebração, quando deveriam ser mais objetivas. Com autoridade, Tosi descon-sidera jornalista aquele que apenas tem um diploma. Ele prioriza a vivência, a experiência, e “se você tirar um diploma só para justificar um cargo sem passar pelos meandros da vida dessa profissão, não vai acabar contribuindo muito para elevar o nível do veículo de comunicação que você vai gerenciar”. Erbolato (1991, p. 18) entende.
que, embora teórica e praticamente haja muito a aprender, nas faculdades e escolas de Jornalismo, o universitário deve, ainda, ter vocação e fazer estágio em qualquer matutino ou vespertino. Sem sentir o cheiro da tinta, ouvir o ruído das impressoras e o tilintar dos telefones nas redações, ninguém pode ter a vaidade de considerar-se jornalista.
Fallows (1997, p. 13-14) aponta o estrelismo daqueles que trabalham com a mídia como um elemento dissonante no processo de comunicação:
O problema é que esse novo sucesso pessoal envolve um terrível compromisso. Quanto mais importante se torna uma estrela jornalística, mais ela é forçada a abrir mão da essência do verdadeiro jornalismo, que se resume na busca da informação a serviço do interesse público.
O segundo defeito dos profissionais da imprensa indicado por Fallows debate a tendência de a mídia tratar a vida como um espetáculo, destacando apenas aspectos nega-tivos: “Cada vez mais, a imprensa apresenta sobretudo a vida política atual como um espe-táculo deprimente, em vez de apresentá-lo como uma atividade vital, na qual os cidadãos poderiam e deveriam estar engajados.” Borges (informação verbal)26 detecta uma afinação maior dos novos jornalistas com a mídia secular e salienta:
Algumas matérias publicadas no passado, por adventistas, jamais o seriam hoje. A mídia está muito mais seletiva e preconceituosa quando o assunto é Bíblia e religião. Os jornalistas têm percebido essa dificuldade e sido mais prudentes em suas abordagens, aproveitando melhor as oportunidades de inserção nos diversos meios de comunicação.
Mais pessimista, Schmidt compara a Igreja aos movimentos do coração: “A história da comunicação da Igreja no Brasil tem sístoles e diástoles, aberturas e fechamentos, que dependeram sempre das pessoas indicadas para fazer aquele tipo de trabalho.” Transpa-rente na crítica, Schmidt (informação verbal)27 frisa que
26 Michelson Borges em entrevista a Ruben Holdorf, por e-mail, em 28 de novembro de 2003. 27 Ivan Schmidt em entrevista a Ruben Holdorf, em Curitiba, em 7 de agosto de 2004.
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estamos num período de fechamento total. Eu acho que nós estamos vivendo atualmente (me desculpe a expressão, ela pode ser chocante, meio escandalosa) a idade escura da comunicação adventista no Brasil, porque não se comunica nada.
considerações finais
A comunicação cresceu para o comércio, para a indústria, para a política, para as artes e a igreja foi recuando. Todo mundo usava a comunicação e a Igreja utilizava o mínimo. Apesar das críticas ao sistema de comunicação contidas neste artigo, não se pode olvidar as mudanças ocorridas na última década. Seis fenômenos contribuíram decisivamente para uma nova perspectiva da política de comunicação da Igreja Adventista no Brasil: 1) Criação das graduações em Jornalismo e Publicidade e Propaganda, e da Especialização em Comuni-cação Corporativa no Unasp; 2) Batismo de profissionais com experiência na mídia secular; 3) Desenvolvimento da rede Novo Tempo e da mídia online; 4) Estabelecimento das
assesso-rias de comunicação em diversas instituições da Igreja, principalmente na sede sul-americana em Brasília; 5) Eleição de um brasileiro para dirigir a comunicação na sede mundial da Igreja; 6) Aperfeiçoamento e titulação de profissionais e professores da área, fator que os insere no campo da pesquisa científica, avaliando os efeitos da comunicação na sociedade e como desenvolver os recursos midiáticos para o cumprimento da missão eclesiástica. Para analisar os efeitos destes itens na comunicação adventista brasileira, será necessário mais um artigo.
Por outro lado, a queda da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exer-cício profissional causa preocupação, pois alguns setores se aproveitam da situação para contratar pessoas não qualificadas para a área. Isso denigre até mesmo o fato de a igreja conservar uma escola superior de Jornalismo. Não se trata de aproveitar a inexistência de lei regulamentadora, mas se trata a partir de agora de uma questão de natureza moral e ética, cuja essência deve continuar sendo a bandeira de um jornalista adventista. Nada de radicalismo, intolerância ou preconceito. O jornalismo existe para responder perguntas, para servir e defender as liberdades, entre elas as de expressão e de consciência.
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