UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
NATÁLIA SEBASTIANY
ADOÇÃO INTERNACIONAL E SERVIÇO SOCIAL
Ijuí – RS 2011
NATÁLIA SEBASTIANY
ADOÇÃO INTERNACIONAL E SERVIÇO SOCIAL
Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Serviço Social promovido pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Serviço Social.
Orientador: Jocenir de Oliveira Silva
Ijuí – RS 2011
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
Elaborado por:
NATÁLIA SEBASTIANY
Como requisito para obenção do título
BACHAREL EM SERVIÇO SOCAL
COMISSÃO EXAMINADORA:
______________________________________________ Jocenir de Oliveira Silva (Orientador)
______________________________________________ Lislei Teresinha Preuss
“Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados”. Provérbios 31.8
“Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo”. Provérbios 3.27
“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”. Paulo Freire
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente, acima de todos e de tudo a Deus, autor da vida e consumador da minha fé;
Agradeço a minha família, em especial meus pais, Maria Dolores e Edemir Sebastiany, que com muito trabalho me propiciaram essa graduação e estudos; ainda a minha irmã Lara;
Agradeço ao meu amado noivo João Gustavo Brendler, por seu carinho e dedicação;
Ao meu orientador e professor Jocenir de Oliveira Silva por sua valorosa orientação e incentivo;
Agradeço ainda a minha supervisora de estágio Maria da Graça Nunes, por sua supervisão e ensinamentos, exemplo de profissional;
Aos professores Jorge Alexandre da Silva, Jaina Raqueli Pedersen, Viviane Knnor, Fátima Tsukita, Sonia Fengler, Solange Mix e em especial a professora Lislei T. Preuss por seu empenho e ética profissional.
Ao Pr. Edilson Dransfeld, que primeiro percebeu em mim a potencialidade de ser uma Assistente Social;
E a todos os amigos, familiares, colegas de curso e aqueles, que de uma forma ou outra, me incentivaram e acreditaram em mim, auxiliando não somente na elaboração deste trabalho, mas durante todo o processo de graduação. Muito obrigada!
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho a Deus, que através de sua Palavra, me ensinou a amar o próximo, perceber o outro e pelo exemplo de Jesus que me desafiou a colocar em prática esses ensinamentos, por me conceder a bênção da existência e sabedoria para a conclusão deste curso.
A minha família, especialmente aos meus pais Lola e Edemir e ao meu futuro marido João, pelo investimento, amor e paciência.
RESUMO
ADOÇÃO INTERNACIONAL E SERVIÇO SOCIAL
O trabalho de pesquisa apresentado tem como objetivos abordar a Adoção Internacional como uma alternativa para colocação de crianças e adolescentes em família substituta e aprofundar o conhecimento do papel do profissional Assistente Social neste processo. Neste trabalho é feito um resgate histórico do instituto da adoção assim como de seus procedimentos legais. É também abordada a dialética contemporânea do perfil de preferência pelos adotantes brasileiros e a realidade encontrada nas instituições de acolhimento, assim como as mudanças advindas das novas diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) referentes à adoção. A partir dessas mudanças, aprofunda-se a pesquisa acerca da Adoção Internacional, abordando seus aspectos positivos e negativos e como se dá o seu processo, para se compreender a viabilidade desta ser uma boa alternativa ou não, para a garantia do direito à convivência familiar e comunitária de crianças a adolescentes em situação de acolhimento institucional. Procura-se enfocar o Social neste instituto, em toda a sua variedade de manifestação e complexidade, compreendendo o fundamental trabalho de um profissional capacitado para atender a essas demandas: o Assistente Social, seu papel, competências, instrumentos e desafios com relação à Adoção Internacional.
ABSTRACT
INTERNATIONAL ADOPTION AND SOCIAL WORK
The research presented aims to address the international adoption as an alternative to putting children and adolescents in a foster family and to deep knowledge of the role of professional social worker in this process. In this study will be done a historical rescue of the institute of adoption and its legal procedures. It also is researched the contemporary dialectic of preference profile of the brazilian adopters and the reality found in the sheltering institutions, as well as changes resulting from new directives of the Child and Adolescent Statute (ECA) relating to adoption. From these changes, it develops greater research about international adoption, addressing its positive and negative aspects and how is its process, to understand the viability of this to be a good alternative or not, garantee the right to family and community convivence to children and adolescents in sheltering institution. We tried to focus the Social on this institution in all its variety and complexity of expression, including the fundamental work of a skilled professional to deal with these demands: the Social Worker, the one`s role, skills, instruments and challenges regarding to International Adoption
LISTA DE ABREVIATURAS
AI – Adoção Internacional
ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social CEJA – Comissão Estadual Judiciária de Adoção
CEJAI – Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional CNA – Cadastro Nacional de Adoção
CNJ – Conselho Nacional de Justiça CPF – Cadastro de Pessoa Física
CREAS – Centro de Referência Especializada em Assistência Social CRESS – Conselho Regional de Serviço Social
EaD – Educação a Distância
ECA – Estatuto da Criança e Adolescente EUA – Estados Unidos da América ONG – Organização não-governamental ONU – Organização das Nações Unidas SSI – Serviço Social Internacional
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...11
I – A ADOÇÃO: SEU PROCESSO HISTÓRICO E LEGAL...13
1.1 A adoção. Um breve histórico ...13
1.2 Um Rápido Olhar Sobre a Adoção no Brasil ...15
1.3 Perfil da Adoção no Brasil: filas opostas ...21
1.4 Mudanças com as Novas Diretrizes da Adoção ...25
1.4.1 Gestantes ...26
1.4.2 Abrigos ...27
1.4.3 Família Extensa ...27
1.4.4 Adoção de Irmãos ...28
1.4.5 Adolescentes acima de 12 anos ...29
1.4.6 Perfil dos Pais ...29
1.4.7 Estágio de Convivência ...30
1.4.8 Preparação para Adoção ...31
1.4.9 Cadastro Nacional ...31
1.4.10 Adoção Direta ...32
II – A ADOÇÃO INTERNACIONAL...33
2.1 Mudanças com as Novas Diretrizes da Adoção ...34
2.2 Aspectos Negativos ...36
2.3 Aspectos Positivos ...42
III – O PAPEL DO ASSISTENTE SOCIAL NO PROCESSO DE ADOÇÃO INTERNACIONAL...49
3.1 Um Pouco Sobre o Serviço Social ...49
3.2 O Processo de Adoção Internacional ...53
3.3 Responsabilidade e Instrumentos atribuídos à Assistente social no Processo de Adoção Internacional ...59
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...67
BIBLIOGRAFIA ...70
INTRODUÇÃO
A escolha da questão da Adoção Internacional (AI) e o Serviço Social, enquanto referência para a realização deste trabalho de conclusão de curso se deve a diversos fatores. Entende-se que o Serviço Social tem se expandido dentro de suas áreas de atuação, sendo as demandas referentes a questões internacionais parte delas, devido principalmente a indicativos como a globalização, acordos intergovernamentais, expansão do Brasil no cenário político internacional, desastres naturais, etc, que acarretam demandas na área social, exigindo preparo e conhecimento específico do profissional.
Outro fator originou-se a partir da experiência de estágio supervisionado no Centro de Referênica Especializada em Assistência Social (CREAS), junto às famílias com filhos em acolhimento institucional. O grupo tinha como objetivo a restauração dos vínculos familiares para um futuro retorno da criança/adolescente ao convívio familiar. No entanto, durante esse processo foi observado que algumas famílias não se interessavam pelo retorno do filho, ou o Juiz competente, com base nos pareceres técnicos, vendo não haver possibilidade de restauração dos vínculos, deferia a destituição do poder familiar.
Iniciava-se então, a procura por familiares extensivos desejosos e capazes de obter a guarda de seu parente. Não sendo possível essa concretização, o mesmo era então habilitado para a adoção nacional. Conforme também é abordado nessa pesquisa, percebeu-se, durante o estágio, haver no Brasil certo padrão de exigências físicas das crianças, que não contempla a realidade encontrada nas instituições de acolhimento. Com as mudanças ocorridas em algumas diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), originou-se a indagação, do que ocorreria com as crianças/adolescentes que não se “encaixavam” nesse padrão, questão norteadora desta pesquisa, levando em conta o direito a convivência familiar e comunitária também previsto pelo ECA.
Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo aprofundar a pesquisa sobre a AI, como uma alternativa viável ou não para colocação em família substituta, observando todos os seus prós e contras, visando o bem-estar da criança e do adolescente usuário. Dentro dessa questão, tem-se como objetivos secundários, obter o conhecimento a respeito do papel do Assistente Social e seus instrumentos técnicos operativos utilizados nesse processo, assim como a sua importância para o sucesso do instituto da adoção.
Pretende-se também, contribuir sobre o assunto para a profissão, estimulando a discussão sobre o tema, chamando a atenção dos profissionais da área para essa possibilidade de garantia de direitos e expandir os horizontes da categoria para uma área de atuação que vai além das fronteiras brasileiras e requer capacitação profissional.
Entende-se a importância da pesquisa, especialmente como contribuição para a categoria, já que há limitações nas publicações sobre o tema com relação ao Serviço Social. Dessa forma, pretende-se instigar o debate e discussão sobre o assunto, e a AI passar a ser cogitada como alternativa para a garantia de direitos das crianças/adolescentes institucionalizadas, destacando a intervenção do profissional Assistente Social.
O presente trabalho se estrutura dentro de três capítulos. O primeiro aborda a adoção em geral, seu processo histórico e legal. O segundo capítulo aprofunda a pesquisa sobre a AI, destacando também seu embasamento legal, assim como seus aspectos positivos e negativos. A atuação do profissional Assistente Social, suas competências e instrumentos técnicos operativos utilizados dentro de sua intervenção em uma AI, é vista no capítulo três.
A opção metodológica escolhida para a realização detre trabalho foi o método crítico dialético, sendo desenvolvido através da pesquisa bibliográfica e enriquecido com entrevistas, estudo de documentação, embasamento legal e utilização dos meios de comunicação.
I – A ADOÇÃO: SUA CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA E LEGAL
Neste primeiro capítulo são analisados alguns pontos quanto ao instituto da adoção, de uma forma breve será disposto seu histórico na sociedade em geral e no Brasil. Da mesma forma, são discorridas as questões legais sobre o assunto, assim como as inovações advindas da Lei 12.010/09, também conhecida como As Novas Diretrizes da Adoção.
1.1 A Adoção. Um breve histórico
Segundo Liberati (2003, p. 17) “a palavra adoção deriva do latim adoptio, que significa dar seu próprio nome a, pôr um nome em; tendo, como linguagem mais popular, o sentido de acolher alguém”.
A adoção é uma modalidade artificial de filiação que não resulta de uma relação biológica, mas pura expressão de vontade ou sentença judicial. Essa filiação não possui vínculos sanguíneos, mas afetivos. Ela é um ato jurídico, que cria relações de pais e filhos, permitindo ao adotado gozar de todos os direitos e deveres de filho legítimo, inclusive sucessórios, desligando-o de qualquer vínculo com sua família biológica. (VICENTE, 2003).
No entanto, esta definição é bem atual. Apesar da adoção já ser contemplada pelos antigos Códigos de Manu1 e Hamurabi2, em diversos povos da antiguidade, muitas crianças nascidas nessa época com deficiência, doença ou má formação eram sacrificadas ou jogadas de penhascos, sem direito à proteção, pois não passavam de um peso para a sociedade (FERREIRA, 2009, p. 12).
1
O Código de Manu foi escrito entre 200 a.C. e 200 d.C. Ele foi redigido de forma poética. Frisa salientar, que são o total de 12 livros, sendo que trata dos seguintes aspectos: normas processuais e organização da própria justiça. (CONSTANZE, 2008).
2 O Código de Hamurabi é um conjunto de leis criadas na Mesopotâmia, por volta do século XVIII a.C, pelo rei Hamurabi da primeira dinastia babilônica. O código é baseado na lei de talião, “olho por olho, dente por dente”. As 281 leis foram talhadas numa rocha de diorito de cor escura. Escrita em caracteres cuneiformes, as leis dispõem sobre regras e punições para eventos da vida cotidiana. Tinha como objetivo principal unificar o reino através de um código de leis comuns. Para isso, Hamurabi mandou espalhar cópias deste código em várias regiões do reino. Disponível em: <http://www.suapesquisa.com/mesopotamia/codigo_hamurabi.htm>.
Somente muito mais tarde alguns povos tomaram a iniciativa de resguardar os direitos das crianças e adolescentes. De acordo com Picolin (2007) “o processo de adoção teve início na antiguidade, tendo-se conhecimento do seu uso nos povos orientais e gregos para perpetuar o culto doméstico”. Porém, esse processo era mais voltado aos casais que eram impossibilitados de ter filhos, privilegiando no direito sucessório apenas o primogênito e os filhos consangüíneos, caso houvesse, com uma função estritamente religiosa e de garantir a continuação do nome da família e sua responsabilidade perante as divindades.
A Bíblia também aborda a prática da adoção. Este tema fica evidente quando fala do povo hebreu, como nos casos de Moisés, que foi adotado pela filha do Faraó do Egito, Ester que foi adotada pelo seu próprio tio após a morte de seus pais e traz uma definição ainda mais linda quanto à questão, ao afirmar que o próprio Deus nos adotou como filhos através de Jesus.3
Com o cristianismo, se propagou o direito à dignidade para todos, incluindo os pequenos, chegando a se entender, durante o Império Bizantino, que a adoção era uma forma de imitar a natureza, por isso o filho adotado era tratado e tinha os mesmos direitos do legitimo. (SANTOS, 2009, p. 13).
Porém, na Idade Média, essa prática caiu em desuso com Canônico, que entendia pertencer à família, apenas aqueles oriundos do sacramento do matrimônio, buscando combater frutos de adultério ou incesto, o que afrontava os princípios da Igreja da época, ficando evidente que apenas os filhos gerados dentro do casamento tinham direitos, os outros eram tratados como indignos. (AMIM, 2006, apud CARNEIRO, 2006).
Durante a Revolução Francesa, a adoção voltou à pauta sendo incluída no Código de Napoleão de 1804, esse acontecimento se pressupõe pelo fato do próprio Napoleão, cuja esposa era estéril, ter adotado filhos e desejou garantir direitos sucessórios a eles.
Foi, no entanto, entre os romanos que a adoção foi legalizada judicialmente, conferindo ao adotado o sobrenome da pessoa que o adotou e seus bens após a sua morte, modelo absorvido pelo direito civil contemporâneo em diversos países.
Após a 1ª e 2ª Guerra Mundial, com um número tão elevado de órfãos4 devido aos combates, Santos (2009, p.17) diz:
a adoção atinge sentido social, voltando-se ao interesse da criança, a afeição e o gesto humanitário. Ou seja, no início do Século XX, a adoção passou a ser vista como uma solução para aqueles que perderam os seus pais, e não mais como uma solução para aqueles que não poderiam ter descendentes.
Com essa mudança de perspectiva, tanto a criança e o adolescente começaram a ser vistos como sujeitos de direitos, chegando a ONU (Organização das Nações Unidas), em 1959, aprovar a Declaração dos Direitos da Criança e do Adolescente, e em 1979, no ano conhecido como Ano Internacional da Criança, foi estabelecido a Comissão de Direitos Humanos.
Um longo caminho se percorreu, e ainda é percorrido, para se ter entendimento dos direitos e deveres das crianças e adolescentes como seres humanos, respeitando suas limitações. Muito já se conquistou através de declarações e leis, porém algo escrito no papel não tem o poder de resolver as questões e problemas que envolvem a sociedade. A própria história mostra que o maior problema é o abandono e não as questões legais.
1.2 Um Rápido Olhar Sobre a Adoção no Brasil
No Brasil, o abandono de crianças e adolescentes é um problema antigo. Conforme Cápua (2009, p. 75), o abandono de crianças foi inserido no Brasil pelos brancos europeus, já que os índios não tinham esse costume. Mesmo com a instauração de leis medievais trazidas pelos portugueses quanto a essa questão, além de abranger outras sociais, várias crianças legítimas ou ilegítimas eram abandonadas nos mais diversos lugares. Para dar conta dessa situação foi copiado o modelo europeu da “Roda dos Expostos” ou “Roda dos Enjeitados” como descreve Gallindo (2006) (ANEXO 1):
O nome roda se refere a um artefato de madeira fixado ao muro ou janela do hospital, no qual era depositada a criança, sendo que ao girar o artefato a criança
4 “Que perdeu os pais ou um deles; Desamparado, desvalido; privado; que perdeu um protetor ou uma pessoa muito cara; Aquele que ficou órfão”. Dicionário Aurélio.
era conduzida para dentro das dependências do mesmo, sem que a identidade de quem ali colocasse o bebê fosse revelada. A roda dos expostos, que teve origem na Itália durante a Idade Média, aparece a partir do trabalho de uma Irmandade de Caridade e da preocupação com o grande número de bebês encontrados mortos. Tal Irmandade organizou em um hospital em Roma um sistema de proteção à criança exposta ou abandonada.
As primeiras “Rodas” foram instaladas nas Santas Casas de Misericórdia, em princípio, em três capitais: Salvador (1726), Rio de Janeiro (1738), Recife (1789) e ainda em São Paulo (1825), já no início do Império. Outras rodas menores foram surgindo em outras cidades após este período. Sobre esse período, Orlandi (apud CAPUÁ, 2009, p. 75) explica:
Entre 1861 e 1874 deram entrada na “Roda” 8.086 crianças das quais 3.545 morreram. Nem todas as crianças entregues à Roda dos Expostos permaneciam internadas, pois muitas eram criadas por “famílias criadeiras” ou “negras de aluguel”.
A história legal da adoção no Brasil começa em 1916 com a introdução do Código Civil, onde só estava apto a adotar aqueles maiores de 50 anos, com uma diferença de idade de 18 anos entre adotado e adotante, casados e que não eram capazes de gerar filhos legítimos. Em 1927 foi criado o Código de Menores, também conhecido como Código Mello Mattos, o primeiro da América Latina a trazer a definição de abandono físico e moral, mas que não trouxe nenhuma contribuição para o instituto da adoção.
Em 1941 a adoção foi oficializada no Brasil. A primeira Agência de Colocação Familiar foi implantada pelo médico Álvaro Bahia, na Bahia e servindo de modelo a outras agências estaduais. Com o passar do tempo, o conceito de proteção a criança abandonada foi desvirtuada e a Lei “fechou seus olhos” para o que vinha ocorrendo: a colocação legal de crianças em famílias com fins de trabalho serviçal. Na década de 50, a procura por crianças em orfanatos aumentou por famílias com o desejo de retirar uma criança e levá-la para casa (CAPUÁ, 2009, p. 77).
Somente em 1957 houve algumas modificações pertinentes quanto à adoção. A idade dos adotantes caiu para 30 anos e a diferença de idade entre eles passa a ser agora de 16 anos e não era mais necessária a condição de não possuir filhos. A adoção só poderia acontecer com o consentimento do adotado ou de seu representante legal, porém ainda o direito sucessório privilegiava somente os filhos legítimos. Com esse decreto, um número
maior de casais foi habilitado a adotarem, mas ela ainda estava longe de ser uma “lei perfeita”.
Em 1965 foi editada a Lei 4.655, que ainda era insatisfatória, porém colocava o adotado sob os mesmos direitos e deveres do filho legítimo, salvo no caso de sucessão. Somente em 1979 com o novo Código de Menores que se pode sentir um maior progresso quanto à questão, pois previa dois tipos de adoção: a simples (que regularizava a situação do menor, mantendo os vínculos com a família de origem) e a plena, que ainda seguia os padrões da última lei, isto é, apenas casais maiores de 30 anos com diferença de idade para com o adotado de 16 anos, independente de já terem filhos ou não. Porém esse código previa um estágio de convivência de 01 ano, salvo os recém nascidos e ainda não incluía solteiros, viúvos ou estrangeiros para a habilitação.
As transformações no cenário político mundial dos anos 80, culminaram na elaboração da Constituição Federal em 1988 assim como do ECA em 1990, considerada uma das leis mais avançadas do mundo. Ambas proíbem qualquer designação discriminatória relativas ao filho adotivo, colocando-o em pé de igualdade com o filho consangüíneo e, após completo o processo de adoção, os vínculos com a família de origem são rompidos. A idade para a habilitação do adotante passou a ser de 21 anos pelo ECA, que foi reduzido para 18 em 2002 pelo Novo Código Civil.
Enfim, de acordo com o Código Civil Brasileiro de 2002 (Artigos 1.618 – 1.622), o processo de adoção para habilitação deve seguir alguns requisitos, dos quais os principais são:
- Idade mínima de 18 anos para o adotante, independente do estado civil; - Diferença de 16 anos entre adotante de e adotado;
- Para adoção conjunta, os adotantes devem ser casados civilmente ou comprovar união estável; caso estejam separados e desejem adotar conjuntamente, devem acordar quanto à guarda;
- Consentimento dos pais ou representantes legais do adotando; - Concordância deste, se contar com mais de 12 anos;
- Processo judicial;
A adoção, assim como a tutela e guarda, é uma medida de colocação em família substituta. Essa medida depende de todo um processo, que envolve passos como os citados por Simões (2009, p.230):
O procedimento de adoção depende de uma verificação prévia dos requisitos formais e materiais do pretendente à adoção. Este deve requerer previamente sua habilitação, na Vara da Infância e Juventude competente, seguida de entrevista com psicólogo e o assistente social e visitas domiciliares, os quais emitem um laudo sobre o habilitante e o perfil do adotante desejado, seguido de um parecer do Ministério Público. Segue-se a decisão do juiz, concedendo ou não a habilitação, cuja formalização é a entrega do Certificado de Habilitação.
Infelizmente, apesar de todo esse percurso histórico brasileiro, a adoção ainda é um tema desconhecido para a maioria dos brasileiros. De acordo com a pesquisa realizada em 2008, entitulada “Percepção da População Brasileira sobre a Adoção” extraída do site da Associação dos Magistrados Brasileiros, a maior parte da população brasileira não sabe quais são os passos para a adoção. Os números espantam: cerca de 37% deles procurariam crianças em maternidades e 28% em abrigos. Apenas um terço recorreria ao local certo, as Varas da Infância e Juventude espalhadas pelo país.
Atualmente no Brasil, os passos para quem deseja adotar e se enquadra nos requisitos acima listados, divulgados pelas Varas responsáveis, são (MIRANDA, 2009):
1. Procurar o Juizado da Infância e Juventude mais próximo para dar entrada no CNA (Cadastro Nacional de Adoção). O CNA de acordo com Pachá e Neto (2008), foi:
Criado pela Resolução nº. 54, do Conselho Nacional de Justiça, em abril de 2008, o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) é capaz de informar quantidade de pretendentes a uma adoção e as crianças aptas a serem adotadas. O sistema visa acabar com a burocracia que envolve os processos de adoção e unificar os dados dos candidatos a pais de todo o país.
A implantação do Cadastro Nacional de Adoção pelo Conselho Nacional de Justiça jogou luz sobre uma questão pouco conhecida no país. Utilizando a estrutura da rede mundial de computadores (internet), nesse cadastro foram inseridos os dados dos pretendentes à adoção e suas preferências em relação às características das crianças que pretendem adotar, o mesmo ocorrendo com as crianças e adolescentes em condições de serem adotadas em nosso país.
Com essa medida, o Brasil dá um significativo passo para eliminar a burocracia do processo que envolve a adoção. Agora, com uma única habilitação, o pretendente poderá ser consultado para adotar em todo o país, tornando desnecessária a reprodução do processo e sua distribuição para outras cidades a fim de aumentar as possibilidades de ter seu nome consultado.
Em relação às crianças e adolescentes em condições de adoção, aumentam-se as possibilidades de encontro de famílias substitutas, pois, se antes a pesquisa era realizada apenas entre os pretendentes habilitados na mesma comarca de sua residência, agora a consulta poderá ser ampliada para cerca de 3 mil varas da infância e juventude do país.
2. Indicar o perfil da criança desejada (o cadastro permite escolher sexo, idade, tipo físico e condições de saúde);
3. Será agendada uma entrevista com uma psicóloga designada pelo Juizado para conhecer melhor os candidatos, assim como seu estilo de vida e estado psico/emocional. Também será realizado uma visita domiciliar por uma Assistente Social para avaliar as condições de moradia, do grupo familiar e econômicas. O poder aquisitivo influencia, mas não é decisório;
4. A partir das informações do cadastro e do laudo final dos técnicos, o juiz dará seu parecer. Após a aprovação da ficha, o candidato ganhará o Certificado de Habilitação para Adotar, válido por dois anos em território nacional;
5. Caso a ficha não for aprovada por qualquer motivo, o candidato tem o direito de saber as razões e caso queira continuar no pleito pela adoção, deve-se fazer as mudanças necessárias e recomeçar o processo;
6. Com o certificado em mãos, a entrada na fila de adoção é automática, sendo necessária apenas a espera pela criança que combine com os dados característicos exigidos pelos pais, processo esse de pesquisa e combinação de dados desenvolvido pelo Serviço Social, não sendo preciso o tempo de espera, pois varia de caso para caso. Também é possível com o certificado adotar uma criança já conhecida anteriormente, mas para isso, será necessário um advogado e dar entrada com o pedido no Juizado;
7. O candidato é chamado para conhecer a criança e se quiser já pode levá-la para casa. Para crianças maiores de 01 ano, existe um “estágio de convivência” determinado pelo juiz e acompanhado por uma equipe psicossocial;
8. Após ser dada a guarda definitiva (a guarda provisória dura 01 ano), o Juizado emitirá uma nova certidão de nascimento para a criança, já com o novo sobrenome.
Todo esse processo envolve a busca por diversos documentos. Segundo a Corregedoria Geral de Justiça de Santa Catarina, os documentos necessários para dar entrada ao processo de adoção, são:
• Identidade
• CPF (Cadastro de Pessoa Física) • Requerimento conforme modelo;
• Estudo Social elaborado por técnico do Juizado da Infância e da Juventude do
local de residência dos pretendentes;
• Certidão de antecedentes criminais; • Certidão negativa de distribuição cível; • Atestado de sanidade física e mental; • Comprovante de residência;
• Comprovante de rendimentos;
• Certidão de casamento (ou declaração relativo ao período de união estável) ou
nascimento (se solteiros);
• Fotos dos requerentes (opcional);
• Demais documentos que a autoridade judiciária entender ser pertinente.
O instituto da adoção no Brasil passou por um longo e histórico processo, apresentando diversas transformações, não diferente dos outros países, chegando às legislações atuais, que, como já dito anteriormente, é considerada uma das leis mais avançadas do mundo.
Numa das linhas fundamentais da Constituição e do ECA, está a priorização da reinserção familiar, mesmo que em família substituta, como garantia do direito da criança e do adolescente à convivência familiar e comunitária (ECA, Artigo 4º). Ao contrário de concepções anteriores, esses novos regimentos fazem prevalecer o interesse da criança, servindo a adoção para lhe dar uma família, mas somente quando considerada definitiva a ruptura com sua família natural. (SIMÕES, 2009, p. 235).
1.3 Perfil da Adoção no Brasil: filas opostas
Após duas décadas da promulgação do ECA, a adoção no Brasil ainda é vista com muito preconceito e desinformação. Segundo artigo publicado na Revista Veja em Abril de 2009, existem 80.000 crianças e adolescentes acolhidas em aproximadamente 600 instituições de acolhimento no Brasil, mas somente 8.000 delas estão em condições de ser adotadas, (FRANÇA, 2008).
De acordo com dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça, 2010), para cada uma dessas 8.000 crianças, existem em média 6 brasileiros querendo adotar. O que dificulta o processo de adoção, permitindo que essas crianças e adolescentes continuem institucionalizadas, além da burocracia, são as preferências dos brasileiros no perfil da criança pretendida, em contraste com a realidade daqueles que estão na fila para serem adotados.
Especialistas afirmam que o perfil idealizado pelos interessados em adotar um filho está na contramão do que se encontra nas instituições de acolhimento do país. Como Pachá e Neto (2008) mostram a partir dos primeiros resultados do CNA: “80,7% exigem crianças com no máximo três anos; o sistema mostra que apenas 7% das disponíveis para adoção possuem esta idade”. Segundo Weber (2001, apud JAEGGER, 2008) "o limite de idade é maior que a preferência pela cor da pele", observa.
Essa oposição também é vista quanto à cor da pele das crianças, quando 70% apenas aceitam brancas, sendo que 63,6% das crianças e adolescentes institucionalizadas são afro-descendentes. A preferência pelo sexo feminino também desponta a preferência dos brasileiros, pesquisa revela que 90,7% dos candidatos a pais adotivos preferem meninas, brancas e com menos de 2 anos, (CHRISTIANO; COSTA, 2010).
Conforme o CNJ (2010), a colocação de crianças em uma família substituta que possuem irmãos também em situação de acolhimento é ainda mais difícil. Essas somam 26,36% dos cadastrados na fila de adoção, porém apenas 14,57% dos pretendentes aceitariam adotar 2 crianças e 0,88% três ou mais.
Dessa forma, crianças que não se encaixam no perfil desejado pela maioria dos brasileiros, acabam ficando nas instituições, sem perspectiva de futuro. “A maioria das crianças colocadas para adoção tem mais de 5 anos, são meninos, negros, tem irmãos ou defeitos físicos. E em abrigos há ainda muitos outros, com perfil idêntico, aguardando a
verificação de destituição do poder dos pais”, diz o desembargador Antônio Carlos Malheiros, coordenador das varas de infância e juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo. (CHRISTIANO; apud COSTA, 2010)
Outra exigência frequente, segundo o desembargador, é não aceitar criança que sofreu algum tipo de violência, principalmente sexual. “Muitos acham que isso poderá trazer problemas futuros, como se tivéssemos uma chave de controle para impedir que acontecesse algo semelhante a um filho biológico”, (CHRISTIANO; COSTA, 2010) .
As estatísticas brasileiras não são diferentes das da região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Segundo dados da Justiça da Infância e Juventude do Rio Grande do Sul (2010), provenientes da Comarca de Santo Ângelo, entre os anos 2008 e 2010, 404 pretendentes passaram pela fila de adoção, dentre estes, 92,08% esperam por crianças abaixo de 01 ano de idade e apenas 0,74% aceitariam adolescentes entre 11 e 14 anos; a preferência é maior por meninas e 89,60% desejariam crianças de cor branca, mostrando assim um padrão de preferência, como apresentado no quadro abaixo, mais detalhadamente:
Perfil dos pretendente à adoção da Comarca Regional de Santo Ângelo Preferências dos pretendentes
Por idade Menos de um anos: 372 ( 92.08%) 1 ano: 231 ( 57.18%) 2 anos: 176 ( 43.56%) 3 anos: 107 ( 26.49%) 4 anos: 59 ( 14.60%) 5 anos: 43 ( 10.64%) 6 anos: 23 ( 5.69%) 7 anos: 16 ( 3.96%) 8 anos: 13 ( 3.22%) 9 anos: 10 ( 2.48%) 10 anos: 8 ( 1.98%) Entre 11 e 14 anos: 3 ( 0.74%) Entre 15 e 18 anos: 2 ( 0.50%) Por sexo Masculino: 267 ( 66.09%) Feminino: 358 ( 88.61%)
Por cor da cútis
Branca: 362 ( 89.60%)
Negra: 96 ( 23.76%)
Morena escura: 127 ( 31.44%)
Amarela: 138 ( 34.16%)
Já as características das crianças/adolescentes acolhidos institucionalmente e que compõem a lista de adoção nesse mesmo período, sob responsabilidade dessa comarca, vai em sentido oposto ao desejo dos pretendentes à adoção, principalmente quando diz respeito à idade, como visto anteriormente, assim como dispõe o quadro a seguir:
Em Ijuí, existem 04 instituições de acolhimento, onde atualmente estão institucionalizadas aproximadamente 115 crianças/adolescentes. Dessas, apenas 16 estiveram na lista esperando para serem adotadas entre os anos 2008 e 2010. De acordo com a Justiça da Infância e Juventude (2010), o perfil desses 16 pequenos são de acordo com o quadro a seguir:
Comarca Regional de Santo Ângelo - 2010 Número de crianças: 74 Por idade Menos de um anos: 2 ( 2.70%) 1 ano: 1 ( 1.35%) 2 anos: 0 ( 0.00%) 3 anos: 1 ( 1.35%) 4 anos: 0 ( 0.00%) 5 anos: 0 ( 0.00%) 6 anos: 3 ( 4.05%) 7 anos: 3 ( 4.05%) 8 anos: 3 ( 4.05%) 9 anos: 9 ( 12.16%) 10 anos: 7 ( 9.46%) Entre 11 e 14 anos: 18 ( 24.32%) Entre 15 e 18 anos: 22 ( 29.73%) Por sexo Masculino: 38 ( 51.35%) Feminino: 36 ( 48.65%)
Por cor da cútis
Negra: 1 ( 1.35%)
Branca: 43 ( 58.11%)
Morena clara: 29 ( 39.19%)
Morena escura: 1 ( 1.35%) Amarela: 0 ( 0.00%)
Comarca: Ijuí – 2010 Número de crianças: 16 Por idade Menos de um anos: 2 ( 12.50%) 1 ano: 1 ( 6.25%) 2 anos: 0 ( 0.00%) 3 anos: 0 ( 0.00%) 4 anos: 0 ( 0.00%) 5 anos: 0 ( 0.00%) 6 anos: 3 ( 18.75%) 7 anos: 1 ( 6.25%) 8 anos: 1 ( 6.25%) 9 anos: 2 ( 12.50%) 10 anos: 0 ( 0.00%) Entre 11 e 14 anos: 5 ( 31.25%) Entre 15 e 18 anos: 1 ( 6.25%) Por sexo Masculino: 12 ( 75.00%) Feminino: 4 ( 25.00%)
Por cor da cútis
Negra: 0 ( 0.00%)
Branca: 11 ( 68.75%)
Morena clara: 5 ( 31.25%)
Morena escura: 0 ( 0.00%) Amarela: 0 ( 0.00%)
O perfil dos pretendentes à adoção dessa Comarca mostra um padrão de preferência que novamente revela uma contradição com a realidade dos que esperam por uma família, em especial no que diz respeito à idade, como no quadro abaixo:
Perfil dos pretendente à adoção da Comarca Ijuí Preferências dos pretendentes
Por idade Menos de um anos: 28 ( 87.50%) 1 ano: 21 ( 65.63%) 2 anos: 15 ( 46.88%) 3 anos: 12 ( 37.50%) 4 anos: 8 ( 25.00%) 5 anos: 6 ( 18.75%) 6 anos: 4 ( 12.50%) 7 anos: 4 ( 12.50%) 8 anos: 4 ( 12.50%) 9 anos: 3 ( 9.38%)
10 anos: 2 ( 6.25%) Entre 11 e 14 anos: 0 ( 0.00%) Entre 15 e 18 anos: 0 ( 0.00%) Por sexo Masculino: 24 ( 75.00%) Feminino: 28 ( 87.50%)
Por cor da cútis
Branca: 30 ( 93.75%)
Negra: 8 ( 25.00%)
Morena clara: 20 ( 62.50%)
Morena escura: 10 ( 31.25%)
Amarela: 13 ( 40.63%)
Os dados mostram que o fato de não ocorrerem mais adoções no Brasil, ou que estes processos não sejam melhor agilizados, não depende exclusivamente da morosidade da justiça ou da burocracia, mas principalmente da mentalidade dos brasileiros que preferem adotar crianças com um mesmo perfil. Com a criação do Cadastro Nacional de Adoção a situação melhorou, mas ainda está longe de ser ideal.
Ainda hoje, no Distrito Federal, por exemplo, um casal que deseja adotar uma criança de até dois anos, pode ficar até 05 anos na fila, já os que desejariam adotar uma criança de 08 anos podem ficar na espera por apenas dois meses, podendo se reduzir ainda mais esse tempo para os que aceitam adotar irmãos ou crianças com deficiência, (TERRA, 2010).
Uma das estratégias para a colocação das crianças/adolescentes em família substituta, é a busca pela adoção internacional. Esta estratégia é seguida para os casos em que os sujeitos que estão acolhidos institucionalmente não se encaixam no perfil dos adotantes brasileiros. Assim é dada a possibilidade no contexto internacional de convivência em uma família substituta, respeitando seu direito ao convívio familiar e comunitário. Outro ponto que abriu possibilidade para a adoção internacional é a tentativa de cumprir com a determinação legal de que as crianças/adolescentes não permaneçam mais que 02 anos institucionalizadas. Essa questão da adoção internacional é aprofundada nos capítulos seguintes.
Segundo Rizzini (2007), no Brasil existe uma forte tradição de acolhimento institucional de crianças, pois persiste o mito de que elas estariam protegidas e em melhores condições longe de suas famílias, consideradas “desestruturadas”. Ainda segundo a mesma autora (2004), até o final da década de 80 (pré-ECA), por exemplo, crianças nascidas em situação de pobreza e/ou em famílias com dificuldades de criarem seus filhos tinham um destino quase certo quando buscavam apoio do Estado: o de serem encaminhadas para instituições como se fossem órfãs ou abandonadas, embora as crianças, em sua quase totalidade, tivessem famílias.
Por isso, a Lei 12.010 de 03 de Agosto de 2009, também conhecida como as Novas Diretrizes da Adoção, trouxe diversas mudanças no que diz respeito ao instituto da adoção e acolhimento de crianças. Foram mudanças significativas em muitos aspectos, em especial quanto à permanência de crianças nas instituições de acolhimento por muitos anos, sem perspectiva de retorno ao convívio familiar ou colocação em família substituta.
Abaixo, são descritos os aspectos que mudaram com as novas diretrizes, e o que foi complementado legalmente no processo de adoção, segundo Pachá (2009); Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude e da Pessoa com Deficiência de Presidente Prudente/SP (2009) e Ministério Público do Estado do Espírito Santo (2009):
1.4.1 Gestantes
A nova lei estabelece que o poder público deve dar assistência psicológica e social a todas as gestantes, mesmo aquelas que queiram entregar seus filhos para adoção. A mãe que tem interesse em fazê-lo, deve ser encaminhada ao Juizado da Infância.
Algumas varas da infância e juventude já adotavam esta prática, fundamental para evitar que mães desesperadas deixem essas crianças em locais inadequados, colocando em risco a própria vida e a dos recém-nascidos. É uma decisão difícil de ser tomada e, nesse momento, o que a genitora precisa é de acolhimento e orientação.
Esses processos de acolhimento e orientação fazem parte dos deveres do Assistente Social, como disposto no Código de Ética profissional Artigo 5º:
garantir a plena informação e discussão sobre as possibilidades e conseqüências das situações apresentadas, respeitando democraticamente as decisões dos usuários, mesmo que sejam contrárias aos valores e às crenças individuais dos profissionais resguardados os princípios deste Código.
Em um momento de acolhimento à mulher que queira entregar seu filho à adoção, esse dever deve ser observado, garantindo-lhe todas as opções e informações possíveis, colocando qualquer tipo de preconceito à parte e respeitando seja qual for a decisão da usuária.
1.4.2 Abrigos
Rizzini (2007, p. 89), afirma em sua obra que “a função da instituição de acolhimento é de ser um suporte de caráter excepcional e provisório, com o firme propósito de reinserção familiar”. Esse atendimento, no entanto, mesmo quando necessário, por diversas vezes extrapola sua função inicial e mantém o acolhimento por tempo demasiadamente longo, desrespeitando assim os direitos da criança e adolescente.
Antes, o Juiz só justificava e fundamentava a entrada e a saída da criança do abrigo. Agora, com a nova regulamentação, as autoridades judiciárias juntamente com uma equipe multidisciplinar deverão rever o caso de cada criança acolhida cada 6 meses, não podendo ficar a mesma acolhida na instituição por mais de 2 anos. Entretanto, as novas diretrizes ainda não explicam o que acontece com as crianças que ultrapassarem esse tempo. O termo “abrigo” foi também substituído por “instituição de acolhimento”.
1.4.3 Família extensa
Segundo o ECA Artigo 25, parágrafo único:
Entende-se por família extensa ou ampliada aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade. Trata-se de espécie de família natural, em distinção à família substituta.
Constata-se de forma nítida que mesmo com a classificação feita pelo ECA, ainda assim este não conseguia englobar várias situações, bastante comuns, como por exemplo, os netos que são criados pelos avós. Para corrigir essas falhas, a classificação para família extensa foi complementada (ROSSATO e LÉPORE apud FERREIRA, 2009, p. 44): “Família extensa é formada também pelos parentes próximos com os quais a criança ou adolescente convivem e mantém vínculo de afinidade e afetividade. Poderá evoluir para a família substituta, com algumas ressalvas”.
Esse entendimento da família extensa como substituta, já vinha sendo colocado em prática por alguns juízes, porém agora regulamentado, a prioridade para adoção, após as opções com a família biológica terem sido esgotadas, é da família extensa, isto é, familiares como avós, tios, primos, irmãos, etc.
1.4.4 Adoção de Irmãos
Assim como muitos juízes já adotavam, a lei prevê a necessidade de manter os irmãos unidos quando institucionalizados, assim como quando adotados por uma mesma família. Essa decisão é resultado de muita luta que envolve também a classe dos Assistentes Sociais, assim como de psicólogos, promotores, etc.
É também conseqüência de experiências vividas dentro das instituições por crianças que já vinham de um processo de rompimento de vínculos com sua família biológica e reviviam esse sofrimento quando seus irmãos eram adotados e a família se separava novamente, ficando um sentimento de novo abandono e falta de perspectiva de futuro. Conforme publicado em artigo do Projeto Acolher [2009]:
Segundo psicólogos que trabalham com esses casos, essa separação pode ser algo doloroso e traumático. Poucos casais com intenção de adotar uma criança pensam nesse aspecto e muitas crianças acabam sofrendo com a situação. Nesses casos, precisam de um acompanhamento psicológico e, às vezes, até de medicamentos durante um bom tempo, pois além de se sentirem sozinhas, sentem-se rejeitadas pelo fato do irmão ter sido adotado e ela permanecer no abrigo.
Essa questão ainda é polêmica e muito discutida, visto que a maioria dos casais habilitados à adoção não tem condições ou não desejam adotar mais que uma criança. Estabelece-se a indagação sobre o que é mais doloroso: permanecer na instituição de acolhimento por ter vários irmãos na mesma situação e dessa forma permanecerem juntos, ou passarem pelo trauma da separação para poderem desfrutar do direito a uma família. Muitos juízes são guiados pelo seu senso pessoal nos casos em que irmãos já têm os vínculos rompidos entre si ou casais parentes ou até mesmo amigos que desejam adotar irmãos de uma mesma família, comprometendo-se a manter os vínculos e contatos entre eles.
1.4.5 Adolescentes acima de 12 anos
Segundo a teoria do desenvolvimento humano de Piaget (TERRA, 2002), a partir dos 12 anos a criança, ampliando suas capacidades, já consegue raciocinar sobre hipóteses na medida em que ela é capaz de formar esquemas conceituais abstratos e através deles executar operações mentais dentro de princípios da lógica formal. Com isso, a criança adquire a capacidade de criticar os sistemas sociais e propor novos códigos de conduta: discute valores morais de seus pais e constrói os seus próprios.
O ECA (Artigo 2º) considera criança aquelas com idade de até 12 anos incompletos, acima dessa idade até os 18 anos, o sujeito é considerado adolescente, com maiores capacidades intelectuais e de escolha do que a criança. Por tanto, a partir das novas diretrizes de 2009, todos os adolescentes acima de 12 anos de idade são obrigatoriamente ouvidas pelo juiz quando no processo de adoção e sua opinião deve ser levada em conta.
1.4.6 Perfil dos pais
Os adotantes devem ser maiores de 18 anos e terem pelo menos 16 anos de diferença do adotado. Casais só podem adotar se casados ou se provarem união estável.
Casais divorciados podem adotar conjuntamente desde que acordem sobre os termos de guarda. Solteiros e viúvos também são aptos a adotarem
Conforme exposto neste capítulo, a adoção no Brasil passou por uma evolução histórica em diversas áreas, em especial ao que diz respeito ao perfil dos pais. Antigamente, as leis preocupavam-se mais com os adotantes, com o passar do tempo, o legislador brasileiro percebeu a importância que a adoção poderia ter para proteção da criança e do adolescente, então os perfis foram se modificando e abrangendo, chegando a essa nova e recente mudança, (ALVIM, 2005)
1.4.7 Estágio de convivência
A adoção será precedida de estágio de convivência com a criança ou o adolescente, pelo prazo que a autoridade judiciária fixar, observadas as peculiaridades do caso. Este estágio poderá ser dispensado se o adotando tiver menos de 1 ano de idade ou se, qualquer que seja a sua idade, o adotando já estiver sob a tutela ou guarda legal do adotante durante tempo suficiente para se poder avaliar a conveniência da constituição do vínculo. A simples guarda de fato não autoriza, por si só, a dispensa da realização do estágio de convivência. Segundo Pachá (2009, p. 13):
A antiga redação previa que o estágio de convivência poderia ser dispensado se o adotando fosse menor de um ano de idade ou se, qualquer que fosse a sua idade, já estivesse na companhia do adotante durante tempo suficiente para permitir a avaliação da conveniência e da constituição do vínculo. O novo regramento exige a tutela ou a guarda legal, não bastando, portanto a “simples guarda” da criança ou adolescente para que a autoridade judiciária dispensasse o estágio de convivência.
O estágio de convivência será acompanhado pela equipe interprofissional a serviço da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política de garantia do direito à convivência familiar, que apresentarão relatório minucioso acerca da conveniência do deferimento da medida.
Maria Josefina Becker (2008), Assistente Social e professora universitária – membro da Equipe de Estudos e Pesquisas do Juizado da Infância e Juventude de Porto Alegre, RS - diz que o estágio de convivência é o período necessário para que seja avaliada
a adaptação da criança ou adolescente à sua nova família. É conveniente que as equipes técnicas que lidam com a adoção sejam bem preparadas, pois do seu trabalho dependerá, em muito, o sucesso da medida. Não é demais lembrar que essas crianças e adolescentes já vivenciaram rejeições e rupturas e foram, inclusive, muitas vezes, alvo de maus tratos e abusos. Aqui, mais uma vez, é de inestimável valor a presença da equipe técnica, para acompanhar o processo de adaptação e oferecer o apoio e os esclarecimentos necessários tanto aos pais adotivos quanto às crianças ou adolescentes.
1.4.8 Preparação para adoção
Os candidatos são obrigados a passarem por uma preparação psicossocial e jurídica. De acordo com Bernardi (2009) essa preparação deve ser desenvolvida por uma equipe interprofissional que é composta por no mínimo um Assistente Social e um psicólogo, podendo incluir pedagogos, em caso de processo de adoção de uma criança indígena, é obrigatório a presença na equipe de um antropólogo.
Essa equipe fornecerá subsídios por escrito, mediante laudos ou verbalmente em audiências, desenvolvendo trabalhos de: aconselhamento, orientação, encaminhamento, prevenção, etc.
1.4.9 Cadastro nacional
Como já explanado anteriormente, todos os que desejarem adotar, após completo o período de preparação, devem integrar o Cadastro Nacional de Adoção, constando suas preferências pela futura criança/adolescente adotada. As novas regras criam ainda um cadastro de crianças e adolescentes aptas para a adoção. Agora com uma única habilitação, o candidato fica habilitado a adotar em todo o Brasil, facilitando o processo devido à internet.
1.4.10 Adoção direta
Apenas em casos excepcionais, os candidatos não terão que passar pelo Cadastro Nacional de Adoção, como por exemplo, quando for pedida por parente com o qual a criança tenha afinidade ou quando o pedido for de família que já detém tutela.
Essas novas diretrizes evoluíram o processo de adoção, garantiram o direito dessas crianças institucionalizadas a conviverem em uma família, dando preferência a sua própria e permitiram aos casais desejosos por adotarem, uma melhora no processo graças ao Cadastro Nacional de Adoção. No entanto, assim como todo novo processo possui falhas e precisa estar sob constante avaliação. As novas diretrizes, segundo Favero (2010), excluíram as adoções conhecidas como consensuais, onde pais biológicos e adotivos entram em acordo antes de procurarem a justiça, prática essa que é histórica e muito comum no Brasil, sendo também conhecida popularmente como adoção “à brasileira”, e que prejudica o andamento da fila de adoção.
O CNA, da mesma forma, apenas permite ter conhecimento de crianças aptas para a adoção de acordo com as preferências dispostas pelos interessados em adotar. É relevante citar o caso de um casal gaúcho (FONSECA, 2010), que teve conhecimento de um grupo de irmãos aptos à adoção pela Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, e não pelo Cadastro, pois não correspondiam com as especificidades descritas pelo casal neste. Aconteceu que após uma aproximação com essas crianças, mesmo não sendo conforme as suas preferências anteriores, decidiram adotar os três. Por isso, percebe-se que falta esse trabalho de aproximação, porque uma pessoa que deseja adotar pode conhecer crianças com um perfil diferente do que esperava, e ainda assim desejar adotá-la.
E, como já citado anteriormente, as novas diretrizes não dão conta do que acontece com as crianças que estão fora do perfil de preferência para adoção dos brasileiros e ultrapassam os dois anos dentro de uma instituição. Para tanto, propõe-se, como objetivo deste trabalho, explanar nos próximos capítulos sobre uma alternativa para esses casos: a Adoção Internacional.
II – A ADOÇÃO INTERNACIONAL
No capítulo I, foi dada maior visibilidade à adoção em âmbito nacional. Nesse capítulo, é analisada a Adoção Internacional, suas vantagens e desvantagens, assim como suas questões legais após a aprovação das novas diretrizes da adoção em 2009.
De acordo com Simões (2009, p. 233) “a adoção internacional é aquela em que o adotante é um estrangeiro, residente e domiciliado fora do Brasil”. Dentro de seu processo histórico, Fernandes (2006, p. 13) descreve que a mesma foi apenas regulamentada como prática em nível internacional logo após a 2ª Guerra Mundial, pois com o seu fim, crianças da Alemanha, Grécia, Japão, China, Vietnã e outros países castigados por combates, foram adotadas por casais europeus e norte-americanos principalmente.
Devido ao crescente número de adoções entre países, sem controle ou documentação alguma, a ONU a partir de 1953 passou a se preocupar com a situação. É extremamente relevante citar o importante papel do Serviço Social nesse processo, que através do SSI (Serviço Social Internacional) estabeleceu princípios fundamentais do Serviço de Adoção Internacional e levou à Conferência de Direito Internacional de Haia em 1965, a qual foi ratificada pelo Brasil no âmbito da AI, nessa mesma Conferência em 1993.
No nosso país, até o Código de Menores, promulgado em 1979, qualquer advogado podia organizar uma adoção por escritura para um casal estrangeiro, a mãe trocava o seu consentimento por alguma ajuda material, e passava a escritura adiante para o casal. Este, com a certidão de nascimento de seu filho adotivo estabelecida legalmente no seu nome, conseguia um passaporte e levava a criança embora sem cometer qualquer crime e sem qualquer fiscalização posterior à adoção, (OLIVEIRA e RIBEIRO, 2002).
A matéria foi omissa na legislação brasileira precedente, a adoção por pais estrangeiros é admitida na Constituição Brasileira em seu artigo 227, §5º, havendo, ainda, sendo emitida no Código Civil artigo 1.629. Contudo, é o Estatuto da Criança e do Adolescente (Artigos 31; 51; 52; 46 § 2º; 33 § 1º; 198 VI e 239), que traz mais disposições sobre tal tema, sem fazer, maiores aprofundamentos. Com caráter de excepcionalidade, isto é, somente admissível na modalidade de adoção concedida após o estágio de convivência, não é possível a aquisição de guarda ou tutela nesses casos.
Ela também é compreendida como “último recurso” de colocação em família substituta. Como já discorrido anteriormente, a lei brasileira contempla o processo de reinserção da criança em sua família de origem, não sendo possível o retorno, é efetivada a destituição do poder familiar e são feitos os contatos para aproximação da mesma com sua família extensiva. Apenas depois de todas as alternativas terem sido esgotadas, é que a criança é inserida no processo de adoção.
A criança fica disponível primeiramente para a adoção nacional, pois segundo Cápua (2009, p. 109):
entende-se, através de estudos, que é na sociedade em que nasceu que esta encontrará mais facilidade em ser inserida em uma família substituta, bem como quando se considera a complexidade que envolve os conflitos de leis na adoção internacional.
Entretanto, as necessidades das crianças são prementes, não se deve esperar que as dificuldades brasileiras sejam superadas, ou que o perfil das crianças/adolescentes desejados pelos adotantes brasileiros mude, existe uma realidade atual nas instituições de acolhimento do Brasil e direitos sendo violados, onde uma resposta é ansiada e deve ser manifestada. Não se pode ignorar o fato de que a adoção por estrangeiro constitui uma pequena solução para o problema do abandono, tendo sempre como norte, primar pelo melhor interesse e benefício da criança/adolescente.
2.1 Mudanças com as Novas Diretrizes da Adoção
Além das mudanças com as novas diretrizes da adoção já vistas, houve uma alteração no que diz respeito à AI, mais especificadamente quanto ao estágio de convivência no país.
Sabe-se que independente do adotante ser brasileiro ou estrangeiro, existe um período de tempo que permite uma melhor adaptação entre a família e o adotado assim como a oportunidade de se fazer os “ajustes” necessários. Esse período é chamado de estágio de convivência e é acompanhado por uma equipe interprofissional que apresentará
relatório minucioso acerca da convivência e deferimento da medida à autoridade judiciária competente.
No caso de adoção dentro de território nacional, o prazo de convivência é flexível, podendo mudar de acordo com a flexibilidade do caso ou até ser dispensado no caso de bebês. Já quanto ao estágio de convivência dentro da AI, a Assistente Social Maria Josefina Becker (2008), diz:
Nesses casos, o estágio de convivência não é dispensável e deve ser cumprido no território nacional. Trata-se de um cuidado especial em relação à medida excepcional de confiar à estrangeiros uma criança brasileira. A exigência do período de convivência em território nacional impede a interferência de intermediários no trato com a criança e permite uma observação do modo como se estabelece o vínculo com os pais adotivos. O contato com a realidade social e cultural do país de origem é útil para os futuros pais, a quem caberá, no futuro, conversar com a criança sobre suas origens: não se estará falando de uma pessoa misteriosa, miraculosamente aparecida, mas de uma criança concreta.
A antiga regra no ECA, Aritgo 46 §2º, previa:
Em caso de adoção por estrangeiro residente ou domiciliado fora do País, o estágio de convivência, cumprido no território nacional, será de no mínimo quinze dias para crianças de até dois anos de idade, e de no mínimo trinta dias quando se tratar de adotando acima de dois anos de idade.
Após as mudanças com a Lei 12.010/09, a questão do estágio de convivência por adotantes estrangeiros passa a ser disciplinada no §3º, e rege: “Em caso de adoção por pessoa ou casal residente ou domiciliado fora do País, o estágio de convivência, cumprido no território nacional, será de no mínimo 30 (trinta) dias”.
A novidade é que independentemente da idade da criança ou adolescente pretendida à adoção, o prazo mínimo de estágio foi unificado para trinta dias. As regras para permitir que crianças brasileiras sejam adotadas por estrangeiros ficaram mais rígidas, visando evitar irregularidades no processo.
Outra mudança interessante, está no Artigo 51 §2º do ECA, e diz: “Os brasileiros residentes no exterior terão preferência aos estrangeiros, nos casos de adoção internacional de criança ou adolescente brasileiro”.
Mesmo esse artigo se tratando de adoção por brasileiros, como envolve leis de outros países, pois estes não residem no Brasil, ele é tratado dentro do artigo que rege a AI. Antes, essa modalidade de adoção era aquela formulada por estrangeiro residente fora do País, o que não alcançava os brasileiros residentes fora do mesmo. Com a nova redação, essa modalidade de adoção passa expressamente a incluir os brasileiros residentes no exterior, mantida a preferência dos nacionais.
2.2 Aspectos Negativos
A adoção por estrangeiros, ao passo que permite uma criança ou adolescente integrar uma família em um país diferente do qual nasceu, apresenta seus aspectos negativos e positivos, os quais são abordados nesse e no subtítulo a seguir.
Dentro dos indicativos negativos da adoção transnacional, percebe-se uma retratação da desigualdade estrutural entre países ricos e pobres. No momento em que um país apenas “exporta” crianças/adolescentes, não havendo significativa movimentação contrária, mostra que o próprio país não está dando conta de suas questões internas, no caso do abandono e especialmente a desigualdade econômica/social entre as famílias do país em questão.
O Brasil, por exemplo, durante os anos 80 ocupava a 4ª colocação na lista dos principais países fornecedores de crianças à AI, perdendo apenas para a Coréia, Índia e Colômbia. Durante esse período, foram 7.500 crianças enviadas para fora do país, especialmente destinadas à França, Itália e Estados Unidos. No início da década de 90, até o ano de 1994, as saídas do Brasil mantiveram crescimento, chegando ao número de 8.000 crianças/adolescentes, em apenas 4 anos, (FONSECA, 2006).
Vale relembrar que esse período histórico brasileiro foi marcado pelo fim da ditadura militar e o início de um sistema capitalista neoliberal, processo que deixou marcas no que diz respeito à falta de políticas públicas que atingisse a classe econômica mais desfavorecida, pelo contrário, favorecia os já então ricos, aumentando o abismo entre as classes sociais. Os números tão alarmantes de abandono e crianças sendo disponibilizadas para a AI, já que suas famílias e Estado não davam conta da questão referente a esse
período, é apenas uma das conseqüências de um sistema econômico/político que marginalizava ainda mais os já excluídos pela sociedade.
A partir de 1994, o número de crianças e adolescentes disponibilizadas pelo Brasil para a AI manteve queda significativa, como pode ser conferido no gráfico abaixo (Gráfico 1, FONSECA, 2006). Essa queda se deve principalmente a dois fatores: a entrada em vigor do Estatuto da Criança e Adolescente em 1990 e a adesão do Brasil à Convenção de Haia em 1993.
Em 13.10.1992, de acordo com Cápua (2009, p. 92), o deputado Frances Leon Schwarzemberg no Parlamentou Europeu, denunciou que “na Itália, entre 1988 e 1992 apenas 1.000 de um total de 4.000 crianças brasileiras adotadas irregularmente permaneciam vivas”. Essa informação alarmou a sociedade, mídia e governo brasileiro, fazendo com que os mesmos tomassem uma providência, somando forças para a adesão do Brasil à Convenção de Haia em 1993. Esse relato também nos remete a uma triste, porém concreta realidade, que de uma certa forma envolve a AI: o tráfico de crianças.
É importante ter compreensão da distinção entre adoção, adoção à brasileira e tráfico de crianças, apesar desses temas terem relação. A adoção é um trâmite legal, pois está assegurada por Lei. A adoção à brasileira, como já citada, se dá quando a criança é
registrada no nome de outra pessoa, sem passar pelos trâmites do processo de adoção, sendo uma ação ilegal e constitui crime de falsidade ideológica.
A realidade revela que na maioria dos casos, as pessoas vêm ao país com boas intenções e desejo em adotar, respeitando e aguardando o processo até seu desfecho. Nem todas, porém, respeitam os procedimentos, importando-se apenas com a obtenção da criança. Muitas vezes esses casais contam com a ajuda de instituições clandestinas e pessoas de má fé naquele país, que cobram muitos dólares pelo processo ilegal.
O tráfico de pessoas, em especial de mulheres, crianças e adolescentes, tem crescido muito nas últimas décadas. Segundo o filme “Tráfico Humano” (ALPHA FILMS, 2005), o tráfico de seres humanos é o terceiro na lista dos trâmites internacionais ilícitos mais lucrativos, perdendo apenas para o tráfico de armas e drogas. Entretanto, esse tipo de tráfico é diferente e pode ser mais lucrativo a longo prazo, pois diferentemente de mercadorias, pessoas podem ser vendidas e revendidas repedidas vezes.
O tráfico de crianças e adolescentes é realizado principalmente por organizações criminosas que buscam estes para serem utilizados em pedofilia, mão-de-obra barata, como futuros soldados, fornecedoras de órgãos humanos para transplante, trabalhos forçados, produções pornográficas, exploração sexual, roubo e “mulas”. Dentro dessas características, os traficantes buscam a população infanto-juvenil por serem presas fáceis para esses criminosos, elas geralmente se apresentam pobres, indefesas e oriundas de famílias “desestruturadas”, (LIBERATI, 2003, p. 216).
Por causa de fatos como estes é que a AI foi “protegida” por leis rígidas e um processo minucioso, o objetivo não é burocratizar ainda mais os procedimentos, mas proteger, sobretudo a criança/adolescente envolvida. Mesmo assim, algumas famílias não desejam enfrentar o trâmite processual da adoção, outros ainda têm objetivos inescrupulosos, como alguns citados acima, e contratam uma figura conhecida como “mediador”. Essa pessoa se apresenta no país como o adotante, geralmente é alguém com a ficha limpa e bom grau de instrução, não havendo motivos para as autoridades desconfiarem, ela corre todos os riscos e segue os procedimentos legais. Quando consegue a criança, volta ao seu país de origem e entrega a criança/adolescente aos reais interessados, sendo recompensada pela ação. (LIBERATI, 2003).