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REGIÃO CE TRAL DO BRASIL: DO CERRADO AO AGROBUSI ESS

Juliana Corrêa Zaguini

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – [email protected]

Filipe Rafael Gracioli

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”- [email protected]

Resumo: É com o argumento da mutabilidade espacial que propomos, com este trabalho, identificar alguns aspectos das transformações históricas e geográficas que têm ocorrido na porção central do território brasileiro, a partir dos anos 70 do século XX, tomando como ponto de partida a introdução do cultivo da soja em ampla escala na região neste momento, responsável por imprimir no respectivo território uma vida de relações nunca antes aí observadas e impulsionadoras de um crescimento econômico regional sem igual.

Palavras-chave: Território, soja, meio técnico-científico informacional, agrobusiness.

Abstract: It is the argument of mutability space that we propose, with this work, identify some aspects of historical and geographical changes that have occurred in the central portion of Brazil, from 70 years of the twentieth century, taking as its starting point the introduction of soybean cultivation on a large scale in the region currently, responsible for printing in their territory a lifetime of relationships never before observed there and driving a regional economic growth without equal.

Keywords: Territory, soybean, the technical-scientific informational middle, agribusiness.

Introdução

Em nossa época, especialmente marcada pela insistência da técnica como transformadora da vida de relações das sociedades de todo o mundo, o conceito vigente de território já não é mais capaz, por si só, de explicar as profundas marcas deixadas pela aceleração do tempo no espaço geográfico, reforçadas pelas mudanças do pensamento e da ação humana.

Se o território era entendido apenas como o espaço circunscrito da nação, identificado pelos símbolos e pelo pensamento hegemônico nacional (a psicoesfera), na modernidade atual, nascida em fins da década de 90 do último século, este mesmo território passa a se relacionar mais intensamente com o conceito de meio geográfico, este entendido como um “conjunto de sistemas de objetos artificiais e naturais indissociados dos sistemas de ações” (SANTOS, 2008 - adaptado). Segundo SANTOS, o que deveria sustentar o conceito atual de território e mesmo o conceito de espaço

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geográfico é a ideia do meio técnico-científico informacional, sendo este meio também geográfico, “(...) onde o território inclui obrigatoriamente ciência, tecnologia e informação” (1994, p.20).

Conforme PEREIRA, o território definido como o espaço socialmente usado, é o locus onde são produzidas as ações dos homens, das empresas, dos Estados e demais instituições sociais; daí a sua sinergia com o espaço geográfico, resultante das práticas de todos os agentes, que envolve todas as ações e todos os interesses sociais (SANTOS et. al. 2000, apud. PEREIRA, 2006).

Se tomarmos como exemplo a porção central do território brasileiro, teremos aí justamente o que nos diz Milton Santos. Nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 70 do século XX, este subespaço veio sofrendo profundas transformações em sua vida de relações, notadamente no que diz respeito à relação entre trabalho e terra e entre terra e capital.

Este artigo irá falar um pouco sobre as transformações ocorridas na porção central do Brasil nas últimas décadas, levando em consideração a importância do agronegócio nessas mudanças e na formação de novas territorialidades. Além disso, o presente trabalho busca apontar e analisar os problemas existentes nesta região e entender como eles se desenvolveram e como a região foi se modificando ao longo dos anos.

Brasil Central: a agricultura como fundadora de territorialidades

É de conhecimento amplo que o Brasil Central, mormente identificado pela região administrativa do Centro-Oeste, esteve à mercê do tempo da natureza por praticamente quatro séculos e meio, cujo povoamento foi dado mediante “uma contribuição relativamente pequena de recursos da técnica, sendo as respostas às solicitações da ação humana oferecidas pela própria natureza (...)” (KAHIL, 2008).

Ao longo do século XIX, cujas inovações da técnica permitiram às porções de territórios em todo o mundo desenvolverem-se economicamente e em parte socialmente, e de certo modo reconsiderarem as concepções de tempo e de espaço vigentes, o Brasil também se permitiu inserir neste processo de inovação, adotando a lógica da reorganização do espaço a partir da introdução de técnicas e de tecnologias que deram o impulso inicial para a afirmação da vocação industrial que seria alcançada no século XX, estabelecendo a primazia de algumas porções do território brasileiro frente a outras.

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E é a partir deste evento que o subespaço central do Brasil tem a sua característica delineada.

Se na primeira metade do século XX a porção central do território brasileiro apresentava-se intimamente relacionada ao tempo da natureza, a partir dos anos 50, a relação espaço geográfico-tempo passa a ser identificada pelo processo de urbanização (a construção da cidade de Brasília, por exemplo) e também pela acumulação de técnicas e de funções no território regional. As heranças deixadas por um processo de povoamento e de ocupação territorial dado pela agricultura de subsistência e pela pecuária extensiva passam, com a urbanização do território e das ações político-econômicas regionais, a ser entendidas como obstáculos ao desenvolvimento econômico regional, sendo pensadas como passíveis de substituição pela modernização trazida pelo capital, neste momento, o agroindustrial de exportação.

De início, este capital agroindustrial esteve fortemente vinculado às ideias de ocupação e de aproveitamento econômico do território propostas pelas instâncias de governo nacionais, decorrente, inclusive, da criação de instrumentos de desenvolvimento econômico, como o PRODECER (Programa de Cooperação Nipo - Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados) e o POLOCENTRO (Programa de Desenvolvimento dos Cerrados) de 1974 e 1975, respectivamente, que “prepararam o terreno regional para o capital agrícola”, conforme nos diz BERNARDES (1996):

“No início dos anos 70, com o objetivo de abastecer os centros urbanos e de incentivar a exportação de produtos não tradicionais, o governo brasileiro coloca em ação programas que se constituíram no sustentáculo do desenvolvimento que se iniciava no Brasil Central, desencadeando uma política que visava o aumento da produção e da produtividade em atividades agropecuárias e que se vinculava ao Programa de Corredores de Exportação” (p.327).

Estes instrumentos de desenvolvimento econômico serviram para criar no pensamento nacional e, sobretudo, no internacional, a ideia de um Brasil comportado como o “celeiro mundial” do cultivo e da produção de alimentos, reforçando a divisão espacial, interna e externa ao território brasileiro, do trabalho e da produção, conforme comenta SANCHEZ (1995, apud. BERNARDES, 1996). As ações consonantes a criação destes instrumentos permitiram a intensificação de um processo de organização do subespaço central brasileiro especialmente pelo capital agroindustrial, caracterizado por permitir que as inovações técnicas alcançassem um lugar anteriormente não dotado de modernização pelo critério urbano.

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Nos anos 70 do último século, como propósito de levar adiante a bandeira do desenvolvimento econômico do país, e em especial do Brasil Central, a soja chega à região, suplantando pouco a pouco os outros cultivos aí existentes; a migração interna, incentivada pelas linhas de crédito a compra de terras pela população brasileira, disponibilizadas pelo governo federal para estimular a ocupação de espaços vazios nas áreas de fronteira agrícola, deu início ao evento da concentração fundiária e da ocupação das terras regionais.

Segundo GRAZIANO DA SILVA (1980) e CASTRO (1982) (apud. SOUZA e LIMA, 2003), a respeito da concentração fundiária e da tendência de latifundização da terra na região, os autores apontam que

“(...) em virtude dos avanços das transformações capitalistas na agricultura, e em resultado de políticas governamentais favorecendo as propriedades de grande porte e acarretando atraso nos pequenos estabelecimentos, a propriedade da terra tem-se tornado cada vez mais concentrada” (p.144).

Ao atentarmos para a História, veremos que é neste período da década de 70 que se estabelece a fixação, no subespaço central do território brasileiro, dos núcleos das atuais corporações líderes da produção e comercialização de soja no Brasil e no mundo enquanto commoditie, como as nacionais Amaggi e Caramuru e as tradings americanas Cargill, Bunge, Coinbra e ADM (SILVA, 2007), levando-nos a entender que a relação entre a corporificação da agricultura e a concentração de terras na porção central do território nacional é bastante estreita.

Além de intensificar a ocupação da terra nesta região do país, a produção e a comercialização da soja, estimuladas pela política econômica nacional, principalmente a partir dos anos 1980, transformaram a vida de relações da região, sobretudo no aspecto comercial. Como aponta BERNARDES (1996), para o caso do estado do Mato Grosso, por exemplo, “nos anos 80 o esteio da economia (...) era a soja, transformando outras atividades, seduzindo os tradicionais pecuaristas da região, arrastando-os para as inovações da agricultura” (p.331).

Transformando as atividades de produção, transformam-se também os processos produtivos regionais, cujos sistemas de movimento a eles relacionados passam a requerer uma fluidez maior do território para dinamizar as relações agora essencialmente comerciais.

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A necessidade da atualização e da busca por novas fontes de energia, a flexibilização da produção e a redução da força-de-trabalho, com a miniaturização dos espaços agrícolas produtivos, tornam-se imperativos desta nova organização do espaço central brasileiro, que reza agora por uma redução da área de produção e por um aumento da arena produtiva. O caso do estado do Mato Grosso, por exemplo, nos mostra esta relação; aí, segundo BERNARDES (1996), “entre 1985 e 1995, a produção (da soja) registrou um crescimento de 264%, contra 177% da área” (p.333 - adaptado).

Se até a década de 1970 a produção agrícola do Brasil Central era dada por uma lógica fundada nos Circuitos Espaciais de Produção, tal como na cultura do arroz de sequeiro, no momento atual, anos 1990-2000, a produção agrícola passa a identificar-se por uma organização do tipo Círculo Espacial de Cooperação, ou seja, a produção não está mais apenas no lugar, mas é estritamente dependente de outros espaços na sua coordenação. Além disso, com o propósito de potencializar e acelerar a obtenção de excedentes a partir da maior produtividade, formam-se os Complexos Produtivos, que representam a reunião de funções afins em uma mesma área produtiva, de modo a garantir a flexibilização da produção.

É neste momento, em fins do século XX, que a técnica melhor se alia à ciência e à informação para formar novas territorialidades no campo do Brasil Central, redefinindo os espaços - geográficos - tradicionalmente utilizados nos processos produtivos, fundados pelos Complexos da Soja por meio, inclusive, do agrobusiness, ou capital agro comercial. Segundo BERNARDES (1996), estes complexos despontam como novos palcos de realização do “processo produtivo, onde novos fixos são implantados e as articulações espaciais com a grande corporação setorial são garantidas via implantação das novas redes de comunicações, introduzindo maior velocidade nas transações comerciais e financeiras, aumentando a rapidez e o volume dos fluxos” (p.335).

Para a consolidação da política agrícola do território central brasileiro como agroexportadora ao longo dos anos 1970-2000, o desenvolvimento e o uso de recursos genéticos na produção dos cultivos deram-se como um impulso fundamental, já que os enfrentamentos impostos pelo meio natural foram, em grande medida, superados pelo aprimoramento técnico e científico. Conforme nos diz SANTOS (1994), “foi o período técnico-científico da humanidade, isto é, o progresso da biotecnologia, que permitiu, no espaço de duas gerações, que o que parecia um deserto, como o cerrado na região

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Centro-Oeste e na Bahia, se transformasse num vergel formado por um caleidoscópio de produções, a começar pela soja” (p.72).

A utilização da biotecnologia, a implementação de produtos químicos, o uso intensivo de máquinas agrícolas, entre outros, além de mudar a composição técnica e orgânica da terra (SANTOS, 1994, apud. ELIAS, 2003), também fizeram expandir no mundo rural do Brasil Central o meio técnico-científico informacional, o que explica em parte a interiorização do processo de urbanização do território brasileiro, pois além do fenômeno da fábrica moderna dispersa dá-se também o fenômeno da fazenda moderna dispersa (SANTOS, 1994, apud. ELIAS, 2003).

Sendo assim, na porção de território identificada como o Brasil Central, para o período pós-anos 1990, temos uma dinâmica do processo de globalização que submete velhas formas a novas funções, ou seja, “não apaga os restos do passado, mas modifica seu significado e acrescenta outros significados” (KAHIL, 2008).

Para a situação geográfica do território central brasileiro, o que vemos é que o capital comercial agrícola, especificamente o agrobusiness sojífero, participa da criação de territorialidades e de novas relações no espaço geográfico regional, especialmente as relações econômicas, dadas, sobretudo, pela ação dos complexos produtivos. Tal como nos fala BERNARDES (1996), “através do complexo, a soja provoca intensas transformações no espaço, através da diversificação de atividades e expansão do sistema técnico; à medida que este se desenvolve, a gestão de sua utilização se faz de maneira mais concertada, implicando em reestruturação das relações sociais” (p.363).

Brasil Central: do Cerrado ao Agrobusiness

A Região Central do Brasil possui uma formação sócio-econômica bastante recente se comparada com as outras regiões do país. Durante a história do nascimento do Brasil, ela teve pouca participação, principalmente devido a sua localização afastada dos grandes centros econômicos da época, que dependiam basicamente do litoral para escoar suas produções. Durante os primeiros séculos a partir do “descobrimento” do Brasil, a região central ficou apagada na história.

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O povoamento e as produções ocorriam nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste. Os ciclos da cana-de-açúcar, do ouro e do café levaram o desenvolvimento a estas regiões, cada um em sua época. No Norte também foi possível evidenciar algum desenvolvimento durante o ciclo da borracha. Porém, a região central do país não participou significativamente de nenhuma dessas etapas de evolução, aparecendo como uma região despovoada e que oferecia poucas vantagens aos futuros investidores, muito devido ao Cerrado.

Foi apenas no início do século XX que a região começou a ser vista com outros olhos pelo Governo, onde ocorreu a instalação de colônias agrícolas. Em uma época em que o Estado buscava ampliar o desenvolvimento do país, diminuindo as desigualdades entre as regiões, a região central aparecia como um fragmento do território que necessitava de incentivos. O Estado entrava com uma política de intervenção de pólos de desenvolvimento e nos anos 50 lançou projetos políticos e econômicos na região com relativo sucesso.

Esses projetos buscavam a ocupação nacional, emergindo a região central como uma região moderna. O Estado buscava ocupar os espaços vazios do país integrando-o melhor. Um dos fatores que contribuiu para essa ocupação foi a mudança da capital nacional do Rio de Janeiro para o planalto central. Havia nessa época a preocupação do Governo com a segurança do território nacional, além de unificar e levar o progresso a todo o Brasil.

A localização de Brasília deu, então, maior segurança ao centro político e levou infra-estrutura para toda a região. Além disso, levou também o estilo de vida urbana para uma região praticamente rural e impulsionou uma evolução nos sistemas de telecomunicações.

Foi a partir das décadas de 1960 e 1970 que grandes transformações ocorreram na região. Com as novas políticas de desenvolvimento, a região central passou a ocupar uma nova posição na Divisão Internacional do Trabalho. Para isso, o papel do desenvolvimento tecnológico foi fundamental, ele é que viabilizou a agroindústria na região.

O governo federal preparou, assim, a região para que o capital pudesse nela se instalar. A região, antes vazia, passou a ser vista como um celeiro de alimentos que abasteceria o Brasil e o mundo. Foram vários os fatores que contribuíram para a expansão da agricultura brasileira por sobre as áreas dos cerrados, dentre eles devem ser considerados a escassez de terras próprias para desenvolvimento de cultivos em maiores

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escalas nas regiões Sul e Sudeste do país, a criação de programas especiais para a agricultura nas áreas dos cerrados, a internacionalização do pacote tecnológico – a Revolução Verde, o crescimento do parque industrial brasileiro, entre outros.

Assim, segundo GALINDO e SANTOS (1995):

“No período de 1970-90, o setor público, através de suas diferentes esferas, exerceu papel relevante na economia centroestina por meio de estímulos financeiros e fiscais à atividade produtiva, principalmente no setor primário, bem como pelos investimentos realizados diretamente pelas entidades públicas em infra-estrutura econômica, como é o caso dos transportes e armazenagem” (p.161).

Essa preparação incluiria tanto a criação de linhas de créditos a empresários rurais, quanto a infra-estrutura cedida pelo Governo e o fornecimento de tecnologia (EMBRAPA), que tornariam os cerrados uma região funcional e eficiente, no aspecto econômico-produtivo. Nesse contexto, os solos dos cerrados, que vinham sendo utilizados exclusivamente pela criação da pecuária extensiva, passam a dar lugar a um novo tipo de uso e ocupação, o da agricultura moderna, centrada basicamente na produção de commodities, em especial a soja.

Logo, o período exigiu uma forte tecnificação, informacionalização e cientifização do espaço. Formam-se os fronts agrícolas, com alto grau de capitalização e tecnologia, articulados à nova rede de produção global. São várias áreas de pólo de desenvolvimento agrícola como grandes centros produtores de grãos. São poucos e pequenos os trechos em que a paisagem é representada por outro tipo de atividade, como a criação de gado e as áreas de reserva ambiental.

Por sobre estas regiões predominam imensas propriedades ocupadas de “ponta a ponta” pelo que há de mais moderno nos sistemas de cultivos agrícolas no país. São atividades comandadas por interesses particulares dos grandes grupos empresariais, que de forma quase perfeita conjugam máquinas, sementes e insumos com os extensos platôs de áreas planas, fazendo as mesmas produzirem durante todo o ano.

É uma região, então, que já nasce na globalização; é modernizada e é comandada pela economia internacional. A urbanização ocorreu, assim, através das cidades do campo, cidades do agronegócio, ou seja, os centros urbanos foram formados a partir ou em função do campo moderno. Todas as funções urbanas atuam em cooperação ao campo, o comércio passa a ser definido pelo campo. Dessa forma, a dicotomia entre o rural e o urbano não existe na região central do país.

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Os planos de desenvolvimento local foram, de certa forma, bem sucedidos na região, devido à inexistência ou presença enfraquecida das rugosidades espaciais (SANTOS, 2002a apud. SILVA, 2007) e às estruturas de poder local, onde a densidade histórica não exerceu resistência alguma. Estas estruturas de poder se adaptaram ao meio de vida da época na região e assim, não houve disputas entre, por exemplo, os coroneis rurais e a elite urbana.

O aumento da produtividade das áreas tradicionais que se modernizaram com investimentos em máquinas, equipamentos e recursos técnicos de fertilização e correção de solos é um dos diversos fatores que contribuíram para que a agricultura da região central do Brasil aumentasse rapidamente sua participação no total da produção brasileira. Outro fator é a incorporação de novos espaços que até bem pouco tempo, ou eram dedicados a uma lavoura rudimentar de subsistência, ou eram áreas não aproveitadas economicamente, mas que agora, com a chegada das frentes pioneiras, vão sendo integrados a uma economia mais dinâmica.

O fato dos agricultores, que neste contexto apresentam mentalidade de empresários, poderem contar com a introdução de novas variedades de formas de cultivos que se adaptaram às áreas dos cerrados, é um fator importante para a produção agrícola do país perante o mercado competitivo internacional. Alta produtividade dos novos cultivos, associada às máquinas que plantam, colhem, embalam etc, resulta na redução dos custos dos produtos, permitindo maior rentabilidade e melhores condições de competição com outros mercados. Porém, nota-se que o modelo é extremamente concentrador (de renda e de terras) e excludente.

Assim, a produção de soja insere-se na região central do Brasil como parte de uma lógica externa, pois quem comanda a produção dessa commoditie são as grandes empresas nacionais e internacionais formadoras do complexo da soja (SILVA, 2007).

Outra característica importante da região é a mão-de-obra. Os empregos na agroindústria necessitam de conhecimento técnico para operar as máquinas e lidar com as mais novas tecnologias. Dessa forma, o trabalhador rural sem essas qualificações é excluído e a mão-de-obra técnica necessita ser importada do Sul e Sudeste do país.

Mas, apesar de todo o desenvolvimento econômico, a região central do país enfrenta graves problemas sociais. Toda a evolução gerou um aumento da concentração de terras, principalmente devido aos grandes latifúndios, o que tornou a região a segunda maior em concentração de terras do país. Além disso, houve um agravamento das desigualdades sociais e territoriais históricas do local, ampliando-se, cada vez mais,

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a produção do espaço agrícola fragmentado. Juntamente com os problemas sociais, tem-se a questão ambiental, ou tem-seja, ocorreu a aniquilação do bioma cerrado para dar lugar às plantações do agrobusiness.

Considerações Finais

A região central do Brasil é hoje altamente desenvolvida no aspecto econômico, com as mais avançadas tecnologias sendo investidas na agroindústria. Ela está profundamente inserida na Divisão Internacional do Trabalho, tendo sua produção voltada para o mercado externo e seguindo as exigências do capital. Além disso, seu território foi normatizado e, portanto, encontra-se mais rígido e com poder mais centralizado, respeitando a lógica de mercado internacional.

Somente nas últimas décadas do século XX é que a economia agropecuarista passou a servir aos grandes mercados mundiais, tornando a região uma grande fornecedora de grãos. Novos feixes de relações entre os lugares e o centro econômico do país foram criados, deixando essa rede de ligações entre os lugares cada vez mais densa. A região, assim, não se faz sozinha, ela está sempre ligada às outras localidades. Os corredores que interligam as regiões produtoras dos novos fronts aos portos de exportação, caracterizados como eixos de integração, integram as regiões produtoras de commodities aos mercados internacionais.

Dessa forma, sem a intervenção de rugosidades e com total envolvimento do Estado, a região central do país conseguiu desenvolver-se rapidamente e de maneira muito eficaz. Nela, o agricultor não é apenas um homem do campo, rural, mas sim um empresário que busca lucrar com sua produção e que está inserido intensamente no modelo capitalista produtivo e no mundo globalizado.

Por outro lado, encontra-se na região uma enorme disparidade social, ou seja, a porção central do Brasil passou a ser espacialmente seletiva, mas socialmente excludente, com uma grave situação de concentração econômica.

Assim, pode-se dizer que em pouco mais de 30 anos se tem a execução de uma região. Através de grandes transformações, a região central do país foi concebida engenhosamente por políticas regionais e pelo capital dos complexos agroindustriais, modificando suas relações com o Brasil e com o mundo, e dando um novo significado ao conceito de território.

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REFERÊ CIAS BIBLIOGRÁFICAS

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