Gabinete do Presidente
Intervenção de S. Ex.ª o Presidente do Parlamento
Nacional,
Adérito Hugo da Costa
por ocasião da Sessão de Abertura do colóquio
promovido pelo Parlamento Nacional com o tema
“Língua Portuguesa – Um mar de culturas”
9 de junho de 2016
Exmo. Senhor Primeiro-Ministro,
Exmos. Senhores Ministros e distintos membros do Governo, Exmas Senhoras e Senhores Deputados,
Exmos. Senhores Oradores e convidados Minhas Senhoras e meus Senhores,
É com muita honra e satisfação que dou início aos trabalhos do Colóquio promovido pelo Parlamento Nacional com o tema “Língua Portuguesa – Um Mar de Culturas”, e estendo o meu mais caloroso cumprimento a todos os participantes.
O tema da língua portuguesa assume para mim uma importância especial. Não só pela relevância que tem para Timor-Leste, mas sobretudo, porque esta política me afetoudireta e pessoalmente. Fiz
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Leste aprova a Constituição com uma língua oficial que a minha geração não dominava.
No entanto, eu próprio, bem como a grande maioria dos timorenses, preferimos olhar para esta escolha como um elemento fundamental e essencial para a nossa diferenciação e inserção no mundo. Escolhemos a língua portuguesa,porque nos garante o acesso generalizado ao conhecimento universal e, ao mesmo tempo, atua como um instrumento essencial para a consolidação do tétum, contribuindo ambas as línguas como meio privilegiado para a coesão e unidade nacionais, fomentando uma comunicação harmoniosa entre os timorenses.
Timor-Leste é um país que se caracteriza pela diversidade linguística e cultural. No entanto, e se olharmos para as cicatrizes deixadas pela ocupação que se seguiu à Proclamação da Independência, fica claro que a política da língua é um fator estratégico e determinante para a construção da identidade nacional, para a consolidação do Estado de Direito e para a afirmação de Timor-Leste na região e no mundo. É pela diferença e originalidade que Timor-Leste se afirmará na região onde se encontra.
Importa sublinhar que Timor-Leste não foi o único país na história a tomar esta ação. Muitos Estados tiveram de dar prioridade à promoção da unidade linguística, de modo a garantir a sua própria coesão e identidade nacionais.
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No seguimento dos grandes conflitos mundiais e das guerras coloniais do último século, muitos Estados nasceram com populações oriundas de diferentes tradições linguísticas e religiosas. E, em muitos casos, sobretudo com receio de criar clivagens e divisões, que poderiam culminar em novos conflitos, adoptaram línguas oficiais neutras, que não beneficiassem um dos grupos, prejudicando outros. São exemplos próximos desta política a Austrália e Singapura, que optaram pela língua inglesa, sozinha ou a par com outras línguas maternas, ou mesmo a Indonésia, que optou pela criação de uma nova variante do malaio, para garantir a união de todo o seu vasto território sob uma só língua.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Quando em 1975, Timor-Leste começou a transitar para uma vida independente, não precisou de procurar uma identidade nacional. Apesar das suas várias línguas locais, o país estava unificado pelo uso de duas línguas irmãs e complementares, o tétum e o português. Recordo que, logo em 1975, foi unânime o reconhecimento da necessidade de valorizar a língua portuguesa como elemento unificador integrado na cultura nacional de Timor-Leste. Mesmo os partidos minoritários, que defendiam a integração na Indonésia, defendiam a continuação do português como língua de ensino e de administração. Conscientes desta força interna, os ocupantes do país,
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portuguesa, mas sem sucesso, pois estava enraizada na vida coletiva do país.
Neste sentido, o desafio consagrado constitucionalmente em 2002 de adoptar o tétum e o português, que entretanto estava reduzido a 5% da população, não foi mais do que o corolário da consolidação da identidade cultural e política de Timor-Leste, que foi inicialmente pensada em 1975 e que pressupõe a existência e complementaridade do tétum e do português. Por isso, é fundamental garantir que não haja qualquer rupturanessa relação de complementaridade, de modo a permitir que o tétum possa continuar a importar vocábulos de uma língua íntima e desinteressada, à medida que se adapta às necessidades da administração do Estado de Direito soberano e à evolução da sociedade.
Sem a língua portuguesa, o tétum, virando-se para as línguas oficiais dos países vizinhos, tornar-se-ia historicamente irreconhecível e, se tomarmos em consideração a dimensão e força das economias da Austrália e Indonésia, a identidade cultural nacional acabaria por ser absorvida e a unidade interna e o Estado de Direito enfraquecidos e,a prazo, as liberdades políticas neutralizadas.
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Minhas Senhoras e meu Senhores,
Para a preservação, aprofundamento e projeção, no espaço e no tempo, da relação desinteressada e complementar entre as duas línguas oficiais, é fundamental acalentar um sistema de educação eficiente e forte em todo o país, garantindo-se assim a unidade, cultura e coesão nacionais. Por essa razão, o aumento do desempenho do sistema educativo deve ser ativamente promovido, mas sem prejuízo dos pressupostos da consolidação do Estado, interna e externamente.
É urgente garantir este esforço de consolidação, através da intensificação do esforço de formação inicial e contínua de professores, duplicando ou triplicando se necessário o número de formadores oriundos dos nossos parceiros estruturantes, reabilitando e equipando todas as escolas existentes, construindo as que faltam e generalizando a merenda escolar, os manuais escolares, as bibliotecas escolares, o desporto e os cuidados básicos de saúde pública.
Lembro-me bem de que, quando a Indonésia decidiu que todos os timorenses tinham que falar indonésio, foram enviados milhares e milhares de professores para, em poucos anos, toda a gente
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em 2002 também pensámos que esse esforço era possível. Poder contar com milhares de professores oriundos de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Infelizmente isso não foi possível, apesar de reconhecer uma enorme evolução na disseminação da língua portuguesa desde 2002. De 5% em 1999, passamos para valores na ordem dos 30% a 40% de falantes da língua portuguesa, de acordo com os Censos. Além disso, ao contrário de 1999, em que eram apenas os mais velhos a falar português, hoje, por ação da escola, temos já muitas crianças e jovens que dominam razoavelmente esta língua, o que é garantia de que estamos no bom caminho.
Destaco o processo de introdução progressiva da língua portuguesa no sistema de ensino timorense, nomeadamente ao nível universitário. Ano após ano e num sistema progressivo a língua indonésia saiu do sistema de ensino. Os mais novos já não falam Bahasa indonésio, pois já receberam formação em língua portuguesa e hoje em dia deixou por completo o sistema de ensino universitário oficial.
No entanto, o desafio ainda não está ganho, e é preciso afirmar um compromisso nacional na promoção da língua portuguesa. Criar um verdadeiro movimento nacional consistente com os interesses estratégicos de Timor-Leste.
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O Fundo de Desenvolvimento de Capital Humano através de um extenso programa de bolsas de estudo tem promovido bastante a formação de professores de português, mas é determinante insistir nesta política e alargá-la através de promoção de cursos intensivos de língua portuguesa por todo o país. A estrutura administrativa municipal pode e deve ter um papel relevante na promoção desta política. É fundamental atribuir um conteúdo local a esta política e aproximá-la da população em geral.
É também importante construir interesses, para que se torne cativante aprender português. Temos de compreender que ninguém vai aprender português só para ler Camões, Fernando Pessoa, Saramago, Jorge Amado ou mesmo Luís Cardoso, ainda que só por isso valha a pena. É bom lembrar, perante tão ilustre e lusófona plateia, que a maioria da literatura que pode chamar-se timorense está escrita em língua portuguesa, com destaque natural para Luís Cardoso, Fernando Sylvan, Borja da Costa ou mesmo Xanana Gusmão, mas não deixando de fora o senhor embaixador Domingos de Sousa, ou o Dr. Crisódio, oradores desta mesa.
Ainda assim, o cidadão comum tem de ver interesse e vantagem na aprendizagem da língua portuguesa. Tem de ser interessante porque
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país lusófono, porque permite progredir na administração pública. A aprendizagem da língua tem de ter um significado material na melhoria da vida do cidadão comum. É fundamental tornar apetecível aprender português.
Há que incentivar também o setor privado a disseminar a língua portuguesa por todo o país. Promover protocolos e criar condições para que o sector privado invista na disseminação da língua portuguesa. Com os novos municípios e futura administração municipal começamos a ter estruturas locais que podem contribuir enormemente para este objetivo. Com base nessa rede, o desenvolvimento de estruturas como Bibliotecas Municipais ou itinerantes deve ser estimulado e apoiado.
É também determinante proibir publicidade em língua estrangeira e programas de rádio ou de televisão que não tenham tradução para as línguas oficiais. O mesmo deve acontecer no cinema. Devem estimular-se, apoiar-se iniciativas que visem aumentar e melhorar a produção audiovisual em língua portuguesa, bem como a importação de conteúdos audiovisuais dos nossos irmãos da CPLP. Portugal e o Brasil, principalmente, têm programas de televisão para crianças e jovens que poderiam facilmente cativar a nossa população, que hoje vê televisão quase só em indonésio e em ingles.
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Estamos numa fase de cativação e aproximação aos cidadãos e, como tal, não devem ser permitidas iniciativas que prejudiquem os objetivos nacionais, que na realidade, e como já referi, são verdadeiros objetivos estratégicos e de afirmação nacional.
Aproveito por fim, para desejar o maior sucesso para este Colóquio e que sirva para incentivar mais pessoas a abraçarem a causa da língua portuguesa, que na verdade é também a continuação da causa da independência de Timor-Leste.