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El traductor lazarillo

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Academic year: 2021

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Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira Universidade Federal da Bahia (UFBA) Resumo

No ano de 1554 surgem simultaneamente três edições desta que é considerada como uma das maiores e mais importantes criações artísticas das letras espanholas: La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades. O livro teria rapidamente se tornado muito popular, sendo reimpresso muitas outras vezes. Tamanha popularidade fez com que o mesmo também fosse traduzido para outros idiomas, entre eles, para o francês, italiano, inglês e para o alemão. A partir de então o vocábulo lazarillo deixaria as páginas dos livros e passaria a fazer parte dos dicionários de nomes comuns, trazendo entre outras, as seguintes acepções: pessoa que guia e conduz a um cego; pessoa que guia ou acompanha a outra que necessita de ajuda. Neste trabalho, parte da dissertação de mestrado, explicar-se-á a associação feita entre o termo lazarillo e o tradutor de textos, como sugere o título do mesmo - para tanto, será necessário fazer uma contextualização da obra em questão -. Em lugar das conhecidas expressões italianas e francesas “Traduttore Tradittore” (o tradutor é um traidor) e “Les Belles Infidèles” (traduções belíssimas, mas infiéis ao original) que desqualificam o tradutor e o trabalho por ele realizado, será utilizada durante a realização deste trabalho a expressão “Traductor Lazarillo” (tradutor, guia de cegos), restituindo a este o seu valor e dando-lhe a sua merecida importância, ao mesmo tempo em que valoriza também a difícil tarefa por ele realizada, a de traduzir.

Palavras-chave: tradução – tradutor - lazarillo.

Abstract

In 1554, three simultaneous editions of La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades, one of the most important literary works in Spanish came out. The book became popular quickly, being reprinted many times. Such popularity allowed it to be translated to other languages, such as French, Italian, English and German. From then on the word lazarillo would leave the book pages and become part of dictionary entries, bringing among others, the following meanings: a person who guides and leads a blind man; a person who guides or follows another one who needs help. The article builds up an association between the term lazarillo and the translator, as suggested in its title. Instead of the familiar Italian and French expressions "traduttore tradittore" and "les belles infidèles" which disqualify the translator and the work he/she performs, the expression to be used in the course of the article will be "traductor lazarillo" (translator, as a guide for the linguistically blind), thus restoring the worth of the task of the translator, attaching to the expression the deserved importance of translation.

Key-words: translation – translator - lazarillo.

Introdução

O presente trabalho, que pretende configurar-se como parte da dissertação de mestrado cujo título é “Lazarillos del Lazarillo de Tormes: uma análise descritivo-comparativa de duas traduções da obra” (dentro da linha de pesquisa dos estudos tradutológicos), tem por objetivo fazer uma contextualização do clássico romance espanhol “La vida de Lazarillo de Tormes, y de sus fortunas y adversidades”, objeto principal da pesquisa, juntamente com duas traduções desta obra para o português

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realizadas por Alex Cojorian e Heloísa Costa Milton e Antonio R. Esteves, da mesma forma em que se pretende explicar a associação feita entre os dois termos, traductor e lazarillo, título do presente trabalho.

Quadro Teórico

Foi a partir da década de 50 que começaram a se configurar as primeiras teorias acerca da tradução. Na década de 60 e 70 surgem, entre outros, Vinay e Dalbernet (1964 – estruturalismo), Nida e Taber (1969 – gerativismo) e Vásquez-Ayora (1977, também com o gerativismo). No entanto, neste período a tradução era tida como uma recodificação verbal, melhor, uma mera busca de equivalentes formais. Esta etapa foi marcada pela subordinação teórica e metodológica à lingüística. Mas a lingüística não conseguia explicar alguns dos fenômenos da tradução, uma vez que ignorava a dimensão comunicativa intercultural na qual a mesma se situava. Nos anos 70, com o nascimento da lingüística de textos, tem-se uma ampliação do alcance da análise lingüística, estendendo-se até o nível do texto e não mais somente ao nível das palavras ou orações. Esse desenvolvimento favoreceu a incorporação de fatores extralingüísticos nas análises lingüísticas e, conseqüentemente, um grande progresso na reflexão sobre a tradução.

Ainda nesta década, vários fenômenos complexos da tradução puderam ser explicados desde um enfoque comunicativo, tais como, relação entre o significado e o sentido do texto, aceitabilidade do texto na cultura de destino. Tudo isso graças ao desenvolvimento de outras ciências que estudam o comportamento verbal e não-verbal, tais como, a teoria da comunicação, a pragmática, a psicologia cognitiva, e outras. Na década de 80, a tradução passa a situar-se entre as ciências da comunicação verbal e a ser considerada como uma disciplina independente, que hoje tem o nome de Estudos de Tradução ou Traductologia, que, no entanto, ainda segue vinculada à lingüística.

Nos dias atuais,a tradução é tida como uma “ponte necessária” entre os textos e os povos. Para José Paulo Paes (1990), partindo da sua teoria da tradução como transparência, é a lente tradutória que faculta, à miopia do monolíngüe, enxergar o mundo que se estende para além das suas limitações lingüísticas. No entanto, a tradução não é uma atividade bem vista por todos. Muitas são as críticas que a mesma recebe quanto à sua funcionalidade e até mesmo importância. Alguns estudiosos do tema chegam a afirmar que a tradução é uma tarefa impossível e apontam alguns dos principais problemas que, segundo eles, facultam essa impossibilidade, tais como, a

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questão da fidelidade, da correção, da unidade da língua, do estilo e do tom, das palavras próprias de cada língua como o signo duplo, entre outros. Georges Mounin (1994) afirma que todas as teorias sobre a impossibilidade da tradução foram transmitidas por épocas em que a cultura era reservada a uma pequena parte privilegiada que podiam adquirir e ler os originais. Esta mesma visão tradicionalista encontra base em uma outra teoria, a do mito de Babel onde o texto original é sagrado, inatingível e inalcançável.

Para muitos autores, a maioria desses problemas de tradução pode ser facilmente solucionado, e que isso depende exclusivamente da competência fraseológica e tradutológica do tradutor, já que, como afirmou Jakobson (1969), todo experiência cognitiva pode expressar-se em qualquer idioma existente. Vinay e Dalbernet apontam sete procedimentos técnicos aos quais o tradutor pode recorrer, entre eles, o empréstimo, o calco, a transposição e a equivalência. Sendo este último o mais usado e o mais indicado por alguns autores para traduzir provérbios, idiotismos e locuções.

Teorias e discussões à parte, o que não se pode negar é que a tradução é uma prática constante, e como já dito e justificado anteriormente, de grande importância. Segundo Mounin (1994), o tradutor não deve querer provar que a tradução é fácil, e sim, deve, na verdade, combater uma doença que os paralisa: a convicção secular de que ele executa uma tarefa teoricamente impossível.

Desenvolvimento A obra

No ano de 1554 surgem três edições simultâneas (Burgos, Amberes y Alcalá de Henares) do romance La vida de Lazarillo de Tormes, y de sus fortunas y adversidades. A edição de Alcalá apresenta correções e acréscimos em relação às outras duas. No entanto, comenta-se que nenhuma das três edições procede de manuscritos, e sim de outras edições perdidas. Acredita-se também que existiu uma edição anterior a esta, a de 1553, mas que não teria restado nenhum exemplar da mesma.

O livro teria rapidamente se tornado muito popular, sendo reimpresso muitas outras vezes. Tamanha popularidade fez com que o mesmo também fosse traduzido para outros idiomas, entre eles, para o francês (La vie de Lazarillo de Tormès), inglês (The life of Lazarillo de Tormes ou ainda, The life of Lazarillo de Tormes and his fortunes and adversities), holandês (Het leven van Lazarillo de Tormes en zijn

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voorspoed en tegenslagen), alemão (Das Leben des Lazarillo von Tormes, seine Freuden und Leiden) e para o italiano (La vita di Lazarillo de Tormes).

Proibido pelo estado espanhol e catalogado pela inquisição dentro do índice do Purgatório por nele estar presente um alto teor de crítica social dos costumes e malandragens do baixo clero, de uma sátira agudíssima dos privilégios e hipocrisias da época, só por volta do ano de 1573 teria a sua publicação sido autorizada, mas com a omissão dos capítulos quatro e cinco, bem como de alguns parágrafos censurados pela Santa Inquisição. Do que se faz constar nos livros de historia da literatura espanhola, foi somente no século XIX que os espanhóis passaram a conhecer a obra completa.

Até hoje não se sabe a data exata em que este livro foi escrito e seu verdadeiro autor. Muitos nomes já foram cogitados, entre eles, o do monge Juan de Ortega, o do escritor dramático Sebastián de Orozco e o nome do humanista Diego Hurtado de Mendoza. Escrito em primeira pessoa, o que atribui à obra um caráter autobiográfico, e faz com que algumas pessoas erradamente atribuam ao próprio Lázaro a autoria do texto, não fazendo a devida distinção entre a verdadeira pessoa que escreveu o romance com o personagem de ficção que a conta.

O romance narra de maneira divertida e por vezes comovente as aventuras e desventuras do garoto Lázaro (Lazarillo é seu diminutivo) de

Tormes (por ter nascido às margens do rio que leva

este mesmo nome, em Salamanca) e sua difícil luta pela sobrevivência. O mesmo está composto de um prólogo e de mais sete tratados, onde cada tratado retrata a vida pobre de Lázaro e da sua convivência (nem sempre amigável) com seus muitos amos.

O tema picaresco (notadamente nas personagens do cego e de Lázaro), a mesquinhez e a avareza (visíveis nos atos e atitudes do clero), a falsa religiosidade e a corrupção do clero (pode ser visto claramente nas personagens do buleiro e do aguazil que o acompanhava), a falsa aparência, a orfandade (outro tema que recai em Lázaro, pois ele vive sua infância sem pai e logo é entregue por sua mãe a um amo para que cuidasse dele), o tema do vagabundo (recaindo outra vez sobre Lázaro e o cego, que ensina àquele que mendigar e vagabundear são formas magníficas de ganhar a vida) e, sobretudo, a fome (tudo gira em torno da fome, todo o problema da novela ocorre por

O c ego y L az ar o às m ar ge ns do R io T or m es , O c eg o y L az ar o às m ar ge ns d o R io T or m es , S al am an ca

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causa da fome de Lázaro), por ser este um dos temas mais importante do romance e o motivo que faz com que o protagonista tenha muitos amos, são alguns dos temas representados pelos personagens do romance, entre eles, um cego miserável, alguns sacerdotes nada exemplares, um falso buleiro1 e um escudeiro pobre.

O vocábulo lazarillo e sua dicionarização

Não existem dúvidas de que o vocábulo lazarillo (diminutivo de Lázaro) ganhou vida a partir desta obra. Como guia de cego, este foi o primeiro emprego do adolescente Lázaro, e a descrição dessa tarefa é uma das partes mais marcantes do livro. Assim como outros personagens literários que saíram dos livros e perderam a letra maiúscula para entrar nos dicionários de nomes comuns, Lazarillo, narrador da La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades, deixou seu nome de batismo para fazer parte dos dicionários lingüísticos e designar ao guia de cego e por extensão a toda pessoa ou animal que guia ou acompanha a outra que necessita de ajuda.

Por exemplo, o dicionário da Real Academia Espanhola traz para este vocábulo as seguintes acepções: do diminutivo de Lázaro, protagonista do romance Lazarillo de Tormes, que quando adolescente servia de guia a um cego; 1. garoto que guia e conduz um cego; 2. pessoa ou animal que acompanha outra que necessita de ajuda. Outro dicionário, também de língua espanhola, o Señas, apresenta para o mesmo termo a seguinte definição: pessoa que acompanha a outra para oferecer-lhe ajuda.

A associação entre os dois termos (tradutor, o mesmo que lazarillo), ponto chave deste trabalho, parte do seguinte pressuposto: acreditando que o leitor, quando se encontra diante do texto escrito em uma língua que ele desconhece, sente-se como um “cego”, definindo tal termo (cego), figurativamente, como aquele que não é capaz de dar-se conta de uma coisa ou compreendê-la; é nesse momento que entra a figura do tradutor, da pessoa que através de seu trabalho estará guiando o leitor, ajudando-o a ler e a entender o texto em si; daí ser o tradutor uma espécie de lazarillo, um guia.

É importante mencionar que o termo lazarillo, assim usado no diminutivo, aparece apenas uma vez na obra em estudo. O chama assim o cego, quando morde o nabo, acreditando que era na verdade uma lingüiça. Nesse momento (de raiva, de ira) a palavra assume um valor depreciativo:

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- Fui pelo vinho, com o qual não tardei em despachar a lingüiça, e quando vim achei o pecador do cego que tinha apertado entre duas fatias de pão o nabo, a que ainda não reconhecera por não havê-lo tateado com a mão. Como pegasse as fatias e as mordesse, pensando levar parte da lingüiça, ficou frio como o frio nabo; alterou-se e disse:

- Que é isto Lazarillo?

No entanto, a forma diminutiva do termo empregado no título da obra adquiri um sentido diferente do descrito anteriormente. Mais parece querer acentuar a agudeza satírica da obra e/ou até mesmo tornar um personagem mais humano e real.

Conclusão

E certo que a tarefa de traduzir não é uma das mais fáceis, e que desperta opiniões das mais diversas e contrárias. Alguns teóricos acreditam que um texto, uma obra é intraduzível. Outros afirmam que, na prática, tudo aquilo que tenha sido claramente pensado pode ser claramente traduzido. Existem ainda os que atestam que o resultado do trabalho feito é sempre inferior ao ‘original’. Opostamente, os defensores de que numa tradução pode haver perda sim, mas que também pode haver compensação e até lucro. E em meio a tudo isso está o desvalorizado, o desprestigiado tradutor.

Filósofos, lingüistas, teóricos à parte, o fato é que a tradução é uma realidade, e mais, uma necessidade já que é praticamente impossível que o ser humano domine todas as línguas existentes no mundo. E então, como ter acesso ao que é escrito em outros países, ter acesso a outras culturas se não for através da tradução? Aí se justifica a importância e o valor do(s) tradutor(es), do lazarillo, do guia de “cegos” que somos nós, leitores, que não conseguimos ler um texto escrito em um língua que não dominamos ou não conhecemos.

Referências

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PAES, José Paulo. Tradução: a ponte necessária. Aspectos e problemas da arte de traduzir. São Paulo: Ática, 1990.

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Fontes

La vida de Lazarillo de Tormes, y de sus fortunas y adversidades. Anônimo. Edición y prólogo de Francisco Abad Nebot.

A vida de Lazarilho de Tormes e de suas fortunas e adversidades. Anônimo. Tradução Alex Cojorian. Brasília: Circulo de Estudos Clássicos, 2003.

A vida de Lazarilho de Tormes e de suas fortunas e adversidades. Anônimo. Tradução Heloísa Costa Milton e Antonio R. Esteves. São Paulo: Editora 34, 2005.

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