LOCALIZAÇÃO DE PASSEIOS ALEATÓRIOS
S. FRIEDLI
Esse texto apresenta o uso de uma técnica desenvolvida durante um trabalho sobre passeios aleatórios feito durante a minha visita no Te-chnion (Haifa, Israel) nos meses de março e abril de 2010, junto com Dmitry Ioe e Nick Crawford 1.
Seja (Xn)n≥1 o passeio aleatório simples simétrico em Zd: X0 := 0, e
para qualquer um dos 2d vizinhos de x,
P (Xn+1= y|Xn= x) = 2d1 .
Esperança com respeito a P será denotada por E[·]. Considere o tempo local na origem, denido por
L0N := ]{0 ≤ k < N : Xk = 0} ≡ N −1 X k=0 1{Xk=0}. Como E[L0 N] = PN −1 k=0 P (Xk = 0), P (Xk = 0) = 0 se k é ímpar,
P (Xk = 0) ∼ 1/kd/2 se k é par, temos que
E[L0N] ∼ √ N em d = 1, log N em d = 2, constante em d ≥ 3.
Logo, em dimensões 1 e 2, apesar do passeio ser recorrente, ele é delo-calizado: L0
N = o(N ).
1. Localização na origem
Neste trabalho consideramos primeiro o problema de localizar o passeio na origem, modicando a sua distribuição de modo a favorecer visitas na origem. Modicamos a distribuição do passeio até o tempo N da
1O título em inglês seria Pinning of random walks, mas não conheço a tradução
usada em português da palavra pinning. O verbo to pin é traduzido por xar, segurar, prender, prender com alnetes.
Z
X
0 N
N
Figura 1. Em d = 1, o passeio aleatório simples é de-localizado (nesta imagem, N = 30, L0
N = 4).
seguinte maneira. Considere a medida de probabilidade P0
N, denida
nas trajetorias simples por
(1) dPN0 dP := (Z 0 N) −1 exp βL0N , em que Z0
N := E[exp(βL0N)]é um fator de normalização, e β > 0 é um
parâmetro pequeno.
O comportamento do passeio sob P0
N depende de dois fatores, um
ener-gético o outro entrópico. Primeiro, o passeio tende a car mais perto da origem pois ele ganha um bônus eβ (i.é. ele ganha em energia) a
cada visita na origem. Por outro lado, car perto da origem diminue o número de trajetórias possíveis (i.é. ele perde em entropia).
Para estudar o comportamento do tempo local sob P0
N, em função de β, introduzimos (2) f (β) := lim N →∞ 1 N log Z 0 N.
Segue de um argumento geral (ver por exemplo [1]) que esse limite existe, e que existe um valor crítico βc(d) ∈ [0, ∞) tal que
(
f (β) = 0 se β < βc(d) ,
f (β) > 0 se β > βc(d) .
A fase β < βc(d) chama-se delocalizada, e signica que (sob PN0) o
passeio passa pouco tempo na origem: L0
N = o(N ). A fase β > βc(d)
chama-se localizada; nela, o passeio passa um tempo macroscópico na origem: L0
N cresce linearmente com N. Para ver que valores acima de
tal que f(β) > 0. Seja ρ > 0 tal que γ := βρ − f(β)/2 < 0. Para N grande o suciente temos Z0
N ≥ ef (β)N/2, logo PN0(L0N ≤ ρN ) = Z {L0 N≤ρN } eβL0 N Z0 N dP ≤ e βρN ef (β)N/2 ≡ e −γ(β)N → 0 .
É bem conhecido [1] que em dimensões d ≥ 3, βc(d) > 0, mas que em
dimensões baixas, o passeio é sempre localizado: βc(1) = βc(2) = 0.
Aqui mostraremos que βc(1) = 0usando uma técnica diferente daquela
usada em [1], e que se extende facilmente à situação mais geral que nos interessará na próxima seção.
A prova é baseada na seguinte identidade variacional: (3) log EP[ef] = sup
Q
{EQ[f ] − H(Q|P )} ,
em que H(Q|P ) é a entropia relativa 2 de Q com respeito a P . No
nosso caso, (3) se escreve log ZN0 = sup
Q
{βEQ[L0N] − H(Q|PN)} ,
em que o supremo é sobre distribuições Q nas trajetórias do passeio simples até o tempo N, e PN é a marginal de P nessas trajetórias.
Para obter uma cota inferior sobre log Z0
N que diverge linearmente com
N, escolheremos uma medida Q que favorece um tempo local L0 N mas
cuja entropia relativa com respeito a PN é pequena. Nos restringiremos
às medidas Q que, como PN, são Markovianas.
Chamaremos de deriva3qualquer coleção ε = {ε
k(x)}k≥0,x∈Z, com −1 <
εk(x) < +1, e para uma dada deriva ε deniremos as probabilidades
de transição
(4) Qε(Xk+1 = x ± 1|Xk= x) :=
1 ± εk(x)
2 .
Esperança com respeito a Qε será denotada por Eε.
Lema 1.1. Para toda deriva ε,
(5) H(Qε|PN) =
N −1
X
k=0
Eε[h(εk(Xk))] ,
2Se Q e P são duas distribuições de probabilidade num conjunto nito Ω = {ω1, . . . , ωn}, então H(Q|P ) := P n j=1Q(ωj) log Q(ωj) P (ωj). 3Em inglês: drift
em que h(s) := −1+s 2 log 1+s 2 − 1−s 2 log 1−s 2 . Em particular, se |εk(x)| ≤ ε∗, então H(Qε|PN) ≤ 12ε2∗N. Demonstração. Seja Qε(x1, . . . , xN) := Qε(X1 = x1, . . . , XN = xN), e
P (x1, . . . , xN) := 21N. Pela denição da entropia relativa,
H(Qε|PN) = X (x1,...,xN) Qε(x1, . . . , xN) log Qε(x1, . . . , xN) P (x1, . . . , xN) = X (x1,...,xN) Qε(x1, . . . , xN) N −1 X k=0 log ( 1 + εk(xk) se xk+1 > xk, 1 − εk(xk) se xk+1 < xk. = N −1 X k=0 Eε log(1 + εk(Xk))1{Xk+1>Xk}+ log(1 − εk(Xk))1{Xk+1<Xk} Para todo k, condicionando com respeito a Xk e usando (4) dá
Eε log(1 + εk(Xk))1{Xk+1>Xk} = Eε log(1 + εk(Xk))
1+εk(Xk)
2 .
Fazendo a mesma coisa com o segundo termo mostra (5). A segunda armação segue da desigualdade h(s) ≤ 1
2s 2.
Consideremos agora uma deriva constante, apontando para a origem:
(6) εk(x) := +ε∗ se x < 0 , 0 se x = 0 , −ε∗ se x > 0 .
Para simplicar a notação, denotaremos a distribuição associada por Qε∗. Mostraremos que para um β > 0 qualquer, ε∗ pode ser tomado
sucientemente pequeno para que βEε∗[L
0
N] − H(Qε∗|PN) divirja
line-armente em N. Pela cota inferior obtida no lema anterior, é necessário mostrar que βEε∗[L
0
N] cresce mais rápido que 1 2ε 2 ∗N. Lema 1.2. (7) Eε∗[L 0 N] ≥ ε∗ 1 + ε∗ N . Demonstração. Dena sgn(s) := +1 se s > 0, −1 se s < 0, e 0 se s = 0. Dena também δk+1X := Xk+1 − Xk. A Fórmula de Tanaka Discreta
diz que (8) |XN| = N −1 X k=0 sgn(Xk)δk+1X + L0N.
Esta fórmula se torna elementar na sua forma local: |Xk+1| − |Xk| = sgn(Xk)δk+1X + 1{Xk=0}.
X Z
0 N
N
Figura 2. Com uma deriva constante, apontando para a origem, o tempo local é da ordem de N (Lema 1.2). Integrando (8) com respeito a Qε∗,
(9) 0 ≤ Eε∗[|XN|] = N −1 X k=0 Eε∗[sgn(Xk)δk+1X] + Eε∗[L 0 N] .
Mas, pela denição da deriva, Eε∗[δk+1X|Xk] = −ε∗sgn(Xk), portanto
Eε∗[sgn(Xk)δk+1X] = Eε∗sgn(Xk)Eε∗[δk+1X|Xk] = −ε∗Eε∗[sgn(Xk) 2 ] = −ε∗Eε∗[1{Xk6=0}] = −ε∗+ ε∗Eε∗[1{Xk=0}] . Portanto, 0 ≤ −ε∗N + (1 + ε∗)Eε∗[L 0 N].
Fixe agora β > 0. Usando a medida Qε∗ na identidade variacional,
assim como os dois lemas acima, log ZN0 ≥ βEε∗[L 0 N] − H(Qε∗|PN) ≥ β ε∗ 1+ε∗N − 1 2ε 2 ∗N
Tomando ε∗ := β/2, obtemos log ZN0 ≥ β2
8 N, o que dá f(β) ≥ β2
8 > 0.
Portanto, βc(1) = 0.
2. Localização em torno de um outro passeio aleatório Agora consideremos o problema de localizar X ao longo de uma es-trutura aleatória. Para simplicar continuaremos considerando o caso d = 1.
Seja ϕ = (ϕn)n≥0 uma sequência ϕn ∈ Z chamada de ambiente. Fixe
β > 0 e para todo N ≥ 1 dena a medida PNϕ por
(10) dPNϕ dP := (Z ϕ N) −1 exp βLϕN , em que Zϕ N := E[exp(βL ϕ N)], e onde LϕN := N −1 X k=0 1{Xk=ϕk} é o tempo local em ϕ. Z 0 N N ϕ X
Figura 3. O pinning de um passeio simples X ao longo de uma estrutura aleatória ϕ.
O caso em que o ambiente é determinístico e plano, ϕ ≡ 0, foi tratado na seção anterior. Aqui suporemos que ϕ é um ambiente aleatório com distribuição P. O resultado principal é o seguinte:
Teorema 2.1. (d = 1) Se ϕ é um passeio aleatório simples simétrico, então para todo β > 0,
(11) lim inf
N →∞
1 N log Z
ϕ
N ≥ c(β) > 0 , para P-quase todo ϕ.
Esse resultado já tinha sido obtido por Ioe e Louidor em um trabalho não publicado [2], usando o Teorema Ergódico Subaditivo. A prova que apresentaremos aqui é baseada na mesma identidade variacional usada na seção anterior, que aqui se escreve
log ZNϕ = sup
Q
O resto da prova se adapta, considerando uma deriva que aponta para o ambiente ϕ: (12) εk(x) := +ε∗ se x < ϕk, 0 se x = ϕk, −ε∗ se x > ϕk. Z 0 N
Figura 4. Uma deriva em direção ao ambiente ϕ.
Pode ser mostrado, via uma generalização da Fórmula de Tanaka, que o tempo local em ϕ satisfaz (compare com (7))
(13) Eε∗[L ϕ N] ≥ 1 3(ε∗N − M ϕ N) , em que MN = MNϕ := N −1 X k=0 δk+1ϕEε∗[sgn(Xk− ϕk)]
é um martingal com respeito à ltração FN = σ(ϕ1, . . . , ϕN), cujos
incrementos são limitados. Pela desigualdade de Hoeding e o Lema de Borel-Cantelli, MN = o(N ) P-quase certamente.
Referências
[1] Giambattista Giacomin. Random polymer models. Imperial College Press, Lon-don, 2007.
[2] D. Ioe and O. Louidor. Pinning phenomena and models of directed polymers. unpublished, 2007.