O QUE MUDA E O QUE PERMANECE NO MOVIMENTO FEMINISTA
Acadêmica Gecira Di Fiori1 Prof. Dr Júlio Ricardo Quevedo dos Santos2 RESUMO
A concepção de movimento social, bem como a concepção de Estado e a síntese dessa relação dialética numa perspectiva de totalidade, compõe as categorias de análise sobre o que muda e o que permanece no movimento feminista e nos Estados Latino-Americanos a partir da década de 90.
O movimento feminista, suas práticas, formas de organização e bases sociais, (as ondas), as mudanças nos paradigmas (mulher e gênero), as mudanças na estrutura econômica e nas políticas estatais (neoliberalismo e globalização) desencadearam numa nova forma de sociabilidade, interpretação, organização e prática desse movimento.
Ao analisar as fases do movimento e as conseqüências atuais, através da categoria “Luta Social” em substituição e o abandono teórico do paradigma de “Luta de Classes”, são elaborados estudos e pesquisas que apontam para o movimento feminista como um movimento cultural, voltado para dentro da própria sociedade. A idéia de confronto foi substituída pela colaboração com o Estado. Retomar os paradigmas marxistas, que são insuperáveis para nos fornecer elementos explicativos sobre o capitalismo, diz respeito à necessidade de um resgate ao questionamento do modelo econômico que retifica as relações e transforma quase tudo, até os movimentos, em mercadoria.
Novas roupagens, continuam sustentando a propriedade privada, a extração da mais valia e a especulação financeira, o Estado apresenta novas características ao mesmo tempo mantêm as velhas práticas a favor da classe burguesa e os movimentos sociais, enquanto a desigualdade social permanece, buscam a afirmação da diferença.
O presente estudo propõe, superar as limitações teórico-práticas para a compreensão das mudanças dos movimentos sociais, à luz da dinâmica hegemônica, em escala planetária do sistema capitalista e as alterações das relações entre sociedade e Estado.
Aponta a necessidade de uma retomada do conceito de luta de classes, o que poderá contribuir para a análise da dimensão objetiva do movimento, e conjuntamente com a noção de lutas sociais contribuir para ampliar a análise, abrangendo os aspectos culturais e sociais que enfatizam a dimensão subjetiva que envolve a identidade e a cultura dos movimentos.
A capacidade de reunir essas dimensões, apresenta-se como desafio necessário às análises da atual fase do movimento feminista.
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Aluna do Curso de Mestrado em Integração Latino Americana/CCSH/UFSM. Assistente Social técnica-administrativa da UFSM e Prof. Especialista do Curso de Serviço Social da UNICRUZ
Filiação Institucional: UFSM/Mestrado Integração Latino Americana Email:[email protected].
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INTRODUÇÃO
A atualidade do movimento feminista na América Latina apresenta características semelhantes aos demais movimentos sociais que fazem parte do cenário político contemporâneo.
A partir dos anos 90, os chamados movimentos de massa que marcaram história na década de 80, são substituídos por outras formas de organizações populares. As causas dessas mudanças estão relacionadas à implementação do projeto neoliberal que alterou a relação dos movimentos sociais. Se não há mais o confronto contra um regime político, no caso dos anos 60 e 70, o regime militar, aonde os movimentos iam às ruas na luta por liberdades democráticas e eleições diretas, em que se pautam atualmente?
Com as exigências de ajustes estruturais, emanadas dos acordos multilaterais, os movimentos deparam-se com o enxugamento da máquina estatal, reduzindo gastos com as políticas públicas de seguridade social que ameaçam antigas conquistas e causam retrocessos na pauta de reivindicações.
Tendo como foco o movimento feminista, os elementos e as categorias de análise, com base nas agendas e nas práticas desse movimento, busca-se compreender o distanciamento ou a inexistência de relação da luta social do movimento feminista com a luta de classes, bem como, as conseqüências para o próprio movimento.
O QUE MUDA E O QUE PERMANECE
A utilização de paradigmas conforme nos propõe Gohn (2000), numa concepção ampliada, utiliza o paradigma europeu de identidade coletiva para os movimentos das camadas médias da sociedade como o movimento de mulheres. As suas fases, metas, valores, utopias que se concretizam na condução de lideranças de demandas e reivindicações, a partir de mobilizações, organização, estratégias e práticas.No agrupamento das dimensões subjetivas e objetivas do movimento, Gohn (2000) rejeita a divisão entre velhos e novos movimentos sociais tentando classificá-los de forma independente do tempo. Sem abrir mão do paradigma de classes
sociais introduz a noção de atores sociais, na tentativa de responder as pluralidades do movimento social contemporâneo.
A proposta de análise dos movimentos sociais formulada por Ghon, utiliza a categoria de experiência e recupera a noção de classe social, partindo dos trabalhos de Thompson (1981, apud GHON, 2000, p. 265) “essa categoria foi retrabalhada no sentido de lhe ser retirado o caráter pragmático utilitarista e contextualizando-a em termos culturais de consciência de classe”. O conceito de “experiência” possui uma visão particularista Costa (2001) discute as novas tendências na história para a análise da classe trabalhadora “enquanto que no passado os historiadores falavam de” estrutura” agora falam de “experiência” Costa (2001. pág 21).
Os conceitos de direitos e cidadania para diferenciar do ideário liberal na análise crítica, GHON (2000) vincula à conotação de transformação social. Por último, aponta a exclusão social, como a mais atual categoria de análise adotada nos anos 90, relacionando a exclusão com a resistência enquanto códigos culturais dos movimentos sociais.
Os elementos conjunturais, o cenário sócio político no qual está inserido o movimento, reúne novos elementos para a análise da correlação de forças, das oportunidades políticas que se engendram na relação entre Estado-movimento. Com o aprofundamento do receituário neoliberal, o mercado altera significativamente a pauta e as agendas dos movimentos sociais.
O retraimento do Estado, as exigências do mercado.influenciam, em grande proporção, as identidades, projetos e táticas.O adversário também se dilui e embaça a visão daqueles que não se referenciam pela necessidade de superação do modo de produção vigente.
A dispersão e enfraquecimento, enquanto conseqüências da dimensão subjetivas fazem perder de vista a dimensão objetiva. É na objetividade que se ganha materialidade, a urgente e necessária luta global, para o enfrentamento ao imperialismo. A definição dos opositores e dos inimigos, até então apontados no âmbito cultural e identitário, ressalta o preconceito e a discriminação, como tal o movimento define seu campo de ação, no interior da própria sociedade deixando de lado a organização e a agenda política anticapitalista.
Os discursos, as práticas e os projetos de cunho universalizante, como igualdade, paz, direitos humanos, pode enfraquecer o cunho revolucionário do movimento que se arrisca e tende a compartilhar do quadro ideológico liberal e individualizante, colaborando para a dispersão e a busca de solução individuais, refletindo diretamente na fragilidade da construção de uma identidade de classe.
Aí se coloca um outro dilema: identidade coletiva ou classe social? qual é a identidade do movimento feminista. Segundo Gohn (2000, p. 251):
A identidade dos movimentos decorre de seus projetos. Diferentemente do paradigma dos Novos movimentos sociais, não consideramos a identidade apenas como fruto das representações que o movimento gera ou constrói, para si mesmo ou para os outros. A identidade é uma somatória de práticas a partir de um referencial contido nos projetos. Ela não existe apenas no plano ideacional, não se trata de uma categoria simbólica ou exclusivamente cultural. A identidade se firma no processo interativo, nas articulações. Ela confere o caráter progressista ou conservador aos movimentos.
É justamente esse ponto que nos deparamos e fica o impasse, o caráter do movimento feminista, atualmente, é progressista ou conservador? Diante da sua dispersão como identificar esse movimento? Qual a representação criada para a unidade do movimento?
A solidariedade, por exemplo, enquanto elemento aglutinador, pode ter seu êxito nas lutas em defesa da mulher vítima de violência, porém a descriminalização do aborto e outras reivindicações, divide o movimento,.
As organizações feministas que pautam seu projeto na determinação externa e se mobiliza pela luta anti-capitalista e permanece na perspectiva classista, parece sofrer o impacto das mudanças estruturais, além de atrair menos militantes, incorporam no seu plano de lutas determinações internas, muito mais voltadas à cultura.
Neste cenário a proposta de análise de Gohn (2000, p. 256), nos fornece algumas pistas quanto demandas, repertórios de ação coletiva, utopias, composição, cultura política construída na experiência que se expressa na sua prática social alimentada pela ideologia e representação, a força social diante da influencia neoliberal que estabelece o mercado como regulador das relações sociais,
a densidade que aumenta perante a sua focalização e proximidade com o cotidiano das mulheres, ao mesmo tempo se multiplicando e se fragmentando nas múltiplas ações na tentativa de combinar elementos de desigualdade e diferença, através de seus princípios articulatórios internos e externos.
O principio articulatório interno (GOHN, 2000) do movimento feminista sofre profundas alterações principalmente pelo fato de muitas lideranças ocuparem cargos de governo, contando com a implementação de coordenadorias e ou secretaria especial de mulheres, bem como se altera a assessoria institucional muito mais compatibilizada com a estrutura estatal do que ligada às bases do movimento.
Diante da dispersão ideológica e da fragmentação em boa medida patrocinada pelas inúmeras ONGs feministas, ressalta-se o principio articulatório externo do movimento, onde se denota sua organização em redes.
Partimos da hipótese de que a mudança mais significativa do movimento feminista está na substituição estratégica de enfrentamento para a de colaboração relacionada ao efeito neoliberal no desempenho estatal.
Diante da consolidação do projeto neoliberal alguns afirmam que o Estado perde a sua centralidade, passando uma idéia de sujeição deste diante do mercado globalizado. Essa idéia, pode estar sendo introjetada pelos movimentos, que mudam de foco e buscam outras formas de mobilização, não mais para enfrentar um Estado hegemonizado por uma elite, como faziam os movimentos da década de 60. A impressão que temos é a de que há uma descentralidade na relação do movimento feminista com o Estado, desencadeando a sua dispersão e sua prática contratualista e cooperativa com um Estado minimizado.
O movimento feminista surge com raízes no movimento liberal e na defesa da igualdade no campo na civilidade, pautando sua demanda ou carência, utilizando a terminologia adotada por Gohn (2000), no direito ao voto, o que na época distinguia homens e mulheres. A luta pela igualdade nos direitos civis, demarca a primeira geração do movimento ou a primeira onda.
O movimento sufragista (que se estruturou na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos e na Espanha) teve fundamental importância nesta fase de surgimento do feminismo.O objetivo do movimento feminista, nesta época, era a luta contra a discriminação das mulheres e a garantia de direitos, inclusive do direito ao voto. Inscreve-se nesta primeira fase a denúncia
da opressão feminina imposta pelo patriarcado (NARVAZ, 2005, p.58).
A Segunda onda do movimento feminista é demarcada pela ênfase na diferença, influencia do pensamento de Michel Foucault, a produção da subjetividade, as experiências cotidianas distinguem-se, portanto, o movimento feminista americano e do francês, ao mesmo tempo que unem-se na incorporação da noção de gênero e na relação com o Estado, na busca de implementação das políticas afirmativas nessa perspectiva.O Estado por sua vez não tardou a incorporar essas demandas, implementando políticas específicas na área da saúde, na área da habitação e proteção social que privilegia o atendimento a mulheres, principalmente à chefes de família.
O caráter cíclico do movimento feminista e suas características pode ser evidenciado nos movimentos pela igualdade que perde espaço para os movimentos pela diferença, relacionando-se com a dimensão subjetiva e afastando-se da dimensão objetiva voltada à critica estrutural do sistema capitalista
A segunda fase do feminismo (segunda geração ou segunda onda), ressurge nas décadas de 60 e 70, em especial nos Estados Unidos e na França. As feministas americanas enfatizavam a denúncia da opressão masculina e a busca da igualdade, enquanto as francesas postulavam a necessidade de serem valorizadas as diferenças entre homens e mulheres, dando visibilidade, principalmente, à especificidade da experiência feminina, geralmente negligenciada. As feministas francesas foram influenciadas pelo pensamento pós-estruturalista que predominava na França, especialmente pelo pensamento de Michel Foucault e Jacques Derrida (ver Pereira, 2004). Nos anos 80, a crítica pós-modernista da ciência ocidental introduz o paradigma da incerteza no campo do conhecimento. Nesse contexto, o movimento feminista passa a enfatizar a questão da diferença, da subjetividade e da singularidade das experiências, concebendo que as subjetividades são construídas pelos discursos, em um campo que é sempre dialógico e intersubjetivo (NARVAZ, 2005, p. 59).
O quase abandono do questionamento às condições objetivas, associadas à condição da mulher na produção e no mundo do trabalho, a ênfase para as
condições subjetivas de ser mulher, amplia a relação homem/mulher para a relação feminino/masculino, aglutina elementos culturais sociais e não somente econômicos. Surge, assim, a terceira fase do feminismo (terceira geração ou terceira onda) cuja proposta concentra-se na análise das diferenças e da alteridade. Com isso, desloca-se o campo do estudo sobre as mulheres e sobre os sexos para o estudo das relações de gênero. O desafio nesta fase do feminismo é pensar, simultaneamente, a igualdade e a diferença. As propostas feministas que enfatizam a igualdade são conhecidas como ‘o feminismo da igualdade’, enquanto as propostas feministas que destacam as diferenças e a alteridade são conhecidas como ‘o feminismo da diferença’. Esta terceira fase do movimento feminista é fruto da intersecção entre o movimento político de luta das mulheres e a academia (NARVAZ, 2005, p. 59).
Nessa fase do movimento feminista, fica evidente o abandono da referencia de luta de classes, assumindo um caráter policlassista e não mais presente na sua pauta o enfrentamento ao Estado, visando a construção de um outro projeto societário.
As três gerações do feminismo, tanto em seus aspectos políticos quanto teórico-epistemológicos, não podem ser entendidas desde uma perspectiva histórica linear. As diferentes propostas características de cada uma das fases do feminismo sempre coexistiram, e ainda coexistem, na contemporaneidade. A fase surgida mais recentemente, a terceira geração do feminismo, tem grande influência sobre os estudos de gênero contemporâneos (Louro, 1999). As questões introduzidas pela terceira geração do feminismo revisaram algumas categorias de análise consideradas fundamentais, mas instáveis (Harding, 1993; Scott, 1986; Louro, 1995) aos estudos de gênero. Estas categorias estão articuladas entre si, que são: o conceito de gênero; a política identitária das mulheres; o conceito de patriarcado e as formas da produção do conhecimento (NARVAZ, 2005, p. 59).
Acrescentamos a essas características da terceira onda do movimento feminista, a sua caracterização enquanto luta social e ao adotar a essa categoria, para a análise do movimento feminista na contemporaneidade, encontra-se um movimento com mudanças nas ações coletivas e a mudança de concepção.
O movimento feminista, ao afirmar a diferença e ao enfatizar as dimensões subjetivas, tenta resgatar um ideal de igualdade, porém com respeito à diferença, tanto no âmbito público como no âmbito privado na sua luta cotidiana. Se por um lado o movimento nessa perspectiva se aproxima à vida concreta das mulheres, principalmente àquelas que ocupam postos de trabalho ou cargos na política, antigos redutos masculinos, por outro se afasta do questionamento crítico do modelo econômico vigente, tendo como conseqüência a dispersão e a negação dos antigos referenciais da luta feminista.
O projeto geral do movimento dos anos 60 e 70, portanto, depara-se atualmente com sérios conflitos ideológicos e se articula em vários projetos específicos, sem expressa conotação ideológica. As organizações de mulheres que se mobilizam contra a violência, logo recebem a atenção estatal que institucionaliza a sua demanda ou carência na criação e implementam serviços, programas ou patrocinam campanhas de conscientização. Logo é instituído um dia no calendário nacional ou internacional para chamar a atenção (10 de outubro - Dia nacional de luta contra a violência à mulher), mesmo assim os índices não param de aumentar, até porque a situação de desigualdade econômica é uma variável que influencia nos índices de violência.
Os projetos pontuais do movimento feminista demonstram capacidade de aglutinação, mobilização e resposta concreta e imediata do Estado, o seu principio articulatório, projeto e discurso são explícitos, principalmente quando a pauta coloca os discursos universalizante liberal de paz e igualdade. Os pressupostos e propostas nem de longe perpassam a discussão ou a denuncia das desigualdades econômicas e da necessidade de distribuição de renda.
A violência por ser um problema de gênero que atinge a todas as mulheres, independente da classe social a que ela pertence, está descolada de qualquer questionamento do capitalismo, como se a violência contra as mulheres não atingisse com maior incidência as mulheres da classe trabalhadora e como se não fossem essas mulheres as que mais necessitam recorrer aos serviços públicos, nas casas de acolhimento ou nas emergências públicas. É reproduzida a falácia liberal de igualdade, parece que todas as mulheres vítimas de violência são iguais!
As mudanças de projetos influenciam diretamente na amplitude do movimento feminista. Projetos mais focalizados são mais próximos com maior densidade. Projetos mais amplos e distantes apresentam-se com menor densidade, dificultando a sua visibilidade.
A luta pela igualdade entre homens e mulheres compõe o conteúdo intrínseco ao movimento feminista, a sua atuação foi se modificando de acordo com a conjuntura social, a nitidez das suas propostas, seus pressupostos, suas reivindicações foram influenciados por mudanças de paradigmas. O movimento deixou de vincular-se apenas no paradigma da diferença biológica – homem/mulher-e passou a rhomem/mulher-efhomem/mulher-erhomem/mulher-enciar-shomem/mulher-e no paradigma dhomem/mulher-e gênhomem/mulher-ero – fhomem/mulher-eminino/masculino- feminino/masculino-incorporando no seu cotidiano, muito mais as questões culturais construídas historicamente. A cultura machista x a cultura feminista e as relações sociais que dela desencadeiam, sem a vinculação econômica e política que denuncia a verdadeira desigualdade, perde nitidez sob o manto da nebulosa igualdade apregoada pela ideologia liberal. Desta forma o movimento incorpora ao seu discurso e a sua prática as ações afirmativas, no estabelecimento de cotas e exigindo a igualdade jurídica, para nivelar a desigualdade
O movimento feminista, voltado para mudanças culturais e com a abertura democrática ocorrida nas últimas décadas, ao se distanciar da luta de classes encontra meios de colaborar com o Estado e volta seu enfrentamento para o interior da sociedade civil, enquanto campo fértil para a luta cultural e política.
É aí que o movimento feminista se depara com o preconceito, a discriminação e outros elementos não democráticos de inclusão.
O movimento feminista atualmente, nas diversas organizações em que se desdobra, dificulta a análise de suas práticas, ações diretas e discursos e supera as propostas teórico-metodológicas que tentam captar os seus níveis interno e externo, porém a sua dispersão e fragmentação é caracterizada pela formação de ONGs e pela desideologização do movimento, aproximando-o a um reformismo cada vez mais pontual e focalizado.
Alvarez (2000) quando descreve os movimentos sociais e a revitalização da sociedade civil, inclui num rol de preocupações a fragmentação do movimento feminista e a possibilidade de seu enfraquecimento para promover mudanças
radicais: analisa questões de representatividade, legitimidade e responsabilidade que infestam amiúde as ONGs feministas e, junto com Schild, chama atenção para as maneiras em que as ONGs parecem às vezes agir como organizações “para” em vez de “não” governamentais.
A alternativa, na atual fase do feminismo, volta-se para formas de organização por demandas específicas, originando várias formas de feminismo como o anarca-feminismo, ecofeminismo, feminismo desconstrutivista, feminismo de gênero, feminismo espiritual, feminino francês, feminismo pop, feminismo liberal, feminismo libertário ou individualista, feminismo mágico, feminismo materialista, feminismo marxista, feminismo radical, feminismo de libertação sexual, feminismo separatista, feminismo terceiro-mundista, transfeminismo (Wikipedia).
As divisões internas do próprio movimento a demanda por lutas específicas reforçam a dispersão e a fragmentação do movimento cada vez mais distanciado da luta política.
Lins ribeiro destaca que as ONGs podem ser de fato um sujeito efetivo fragmentado, descentrado em um mundo pós-moderno, mas o custo da flexibilidade, do pragmatismo e da fragmentação pode ser muito bem o reformismo-sua capacidade de promover mudanças radicais pode enfraquecer (Alvarez.p.39)
Sabemos da contribuição dos movimentos sociais para a constituição de 88, que ao incorporar antigas demandas dos movimentos, como democracia direta e participação na deliberação de políticas públicas, os coloca na legalidade e na institucionalização estatal.
Distingui-se, nitidamente a mudança, de uma prática reivindicatória, de enfrentamento para uma prática de colaboração e parceria na relação dos movimentos com o Estado. Os motivos e as causas podem estar relacionados com a extinção da União Soviética, a abertura democrática do Brasil, as exigências de participação da sociedade civil baseado no principio político administrativo de descentralização previsto na Constituição Federal de 88.
Na década de 90, os movimentos necessitam alterar, sua forma de organização social, até para corresponder às solicitações de participação em
instancias institucionais, como conselhos de políticas e de defesa de direitos. Os mecanismos de participação e organização, tais como fóruns, encontros, plenárias nacionais, estaduais, regionais e municipais absorvem o cotidiano dos movimentos diante da agenda estatal que exige a participação. Essa mudança no cenário político e nessa nova forma de relação com o Estado traz consigo, a necessidade dos movimentos se ampliar e se constituir em organizações não governamentais (ONGs) e em redes.
As mudanças no movimento feministas não estão distantes das mudanças ocorridas nos movimentos sociais na década de 90. Conforme Gohn (2003, p. 24):
Ocorreram, entretanto, alterações profundas no cotidiano da dinâmica dos movimentos populares. De um lado eles perderam visibilidade (porque, ao longo dos anos 90, os movimentos populares urbanos diminuíram as formas de protestos nas ruas e diminuíram sua visibilidade na mídia), e houve um deslocamento dessa visibilidade para as ONGs.as identidades coletivas dos movimentos populares deixaram alguns elementos de lado, tais como freqüentes contestações às políticas públicas, mas como eles incorporaram outros elementos, isso possibilitou-lhes sair do nível apenas reivindicatório para um nível mais operacional, propositivo... não se tratava mais de se ficar de costas para o Estado, mas de participar das políticas, das parcerias etc. Eles ajudaram a construir outros canais de participação, principalmente os fóruns; e contribuíram para a institucionalização de espaços públicos importantes, tais como os diferentes conselhos criados nas esferas municipais, estaduais e nacional.
Nesse sentido, os elementos que até então constituíam o movimento feminista, sofre uma profunda alteração no seu campo de forças, sendo construído um novo projeto político, principalmente no que tange a sua relação do Estado, que exige avanços para além das carências sócio econômicas e demandas específicas. A base política do movimento ganha contornos policlassista e incorporam o conceito mais amplo de gênero.
O movimento feminista tem como componente os interesses comuns, constitui-se enquanto coletivo social pelos atributos inerentes ao gênero e o objetivo comum que norteia sua ação.
Ser mulher e defender a igualdade entre os sexos, não é suficiente para caracterizar a chamada terceira onda do movimento feminista, atualmente relaciona-se o gênero, masculino e feminino, enquanto definição que considera processos históricos e culturais e busca-se enquanto ação coletiva a afirmação da diferença.
O termo “gênero” surge para diferenciar os conceitos formados pela condição biológica homem/mulher. O conceito amplia a conotação das relações de poder, social e historicamente construídas, traz à tona a condição social da mulher, enquanto processo dinâmico em constante mutação dadas as condições históricas, retirando o enfoque biológico, como único fator, para discorrer sobre as diferenças entre homens e mulheres. Há muita polemica na utilização desse paradigma nos estudos sobre movimento feminista que se distinguem pelas variáveis psicológicas e culturais.
Não temos a pretensão no presente estudo de aprofundar esse debate, porém é importante relacionarmos ao paradigma de gênero a cultura do movimento feminista.
Segundo Alvarez (2000, p. 22) ”todos os movimentos sociais põe em prática uma política cultural”.
Podemos considerar, que a mudança para o paradigma de gênero, patrocinada pelos estudos acadêmicos e introjetada pelo movimento feminista, define uma nova fase onde o movimento e o distancia da luta política, dando mais ênfase à luta cultural para a implementação de uma nova concepção, muito mais pautada na diferença subjetiva do que na desigualdade social e econômica.
A diferenciação teórica reflete as alterações que ocorreram nos movimentos sociais, principalmente na década de 90. A substituição do paradigma de ‘lutas de classes “por “luta sociais”, reflete uma mudança radical ocorrida nos movimentos, nas suas práticas, na sua organização e no seu projeto político.
A teoria dos movimentos sociais, substitui o paradigma e a categoria de análise sem abdicar do conceito de luta de classes, porém para dar conta da dinâmica dos movimentos sociais adota a concepção de lutas sociais. Gohn (2000) justifica a utilização dessa categoria:
Destaca-se ainda que nossa concepção de luta social não implica nenhum tipo de determinação ou sobredeterminação, do tipo
utilizado por Althusser (1970), em que toda luta social é sempre uma luta contra o capitalismo, dado a determinação econômica em última instância. A luta das mulheres no movimento feminista é um bom exemplo para elucidar o campo de ação dos movimentos, não subjugado a nenhuma ordem ou escala de “luta principal ou luta secundária”. ( Gohn. 2000, p. 248)
A defesa da utilização da categoria é fundamentada por Gohn (2000) onde justifica a necessidade da utilização do conceito de movimento social para além das evidencias empíricas.
O primeiro elemento é a categoria de luta social. Ela é uma noção-chave, mais abrangente. Observe-se que me refiro á luta social e não à luta de classe... portanto luta social é um conceito mais abrangente e as classes sociais são uma das formas, e não a única, de agrupar as a dos homens na história. Classe se refere ás ações dos indivíduos enquanto agentes produtores e reprodutores socioeconômicos, mas não dá conta de explicar todas as dimensões e fenômenos da vida social. Por isso desenvolveu-se a categoria de atores sociais. (Gohn 2000, p. 268)
Concordamos com Gohn quando afirma o pertencimento dos atores sociais a uma classe social, porém a sua tentativa de desvincular sua análise desse conceito nos leva a refletir a sua intencionalidade de superar o conceito de classe com a vinculação deste como conceito de atores sociais:
Todo ator pertence a uma classe social. Mas os atores muitas vezes se envolvem em frentes de luta que não dizem respeito, prioritariamente, à problemáticas da classe social, como as questões de gênero,étnicas, ecológicas etc.ou seja, grande parte dos eixos temáticos básicos dos movimentos sociais contemporâneos não diz respeito ao conflito de classe mas a conflitos entre atores da sociedade (GOHN, 2000, p. 249). Há um dilema teórico colocado para a análise dos movimentos sociais, porque não dizer que na maioria das produções que tivemos acesso, encontramos
um mix de paradigmas que ora resgatam elementos marxistas e ora evidenciam
elementos da teoria funcionalista e sistêmica de Parsons. A influencia do pensamento de Foucault no que se refere a produção de subjetividades é mais utilizado para a identificação de categorias de análise voltada aos Novos
Movimentos Sociais, que possuem uma característica de luta identitária independente aparentemente de classe social.
O chamado universalismo euricentrico é criticado, na reivindicação pela autonomia dos movimentos e pela redução de análise provocada a priorização das relações de produção:
As categorias de “classe trabalhadora”, “pequeno-burguês”,etc, adquirem um significado cada vez mais reduzido como forma de entendimento da identidade global dos agentes sociais. O conceito de “luta de classes”, por exemplo, não é correto nem incorreto-ele é simplesmente, totalmente insuficiente para descrever os conflitos sociais contemporâneos (LACAU, 1980,p.42)
As criticas com relação ao conceito de luta de classes dão conta de uma preocupação analítica que abarque as dimensões objetivas e subjetivas dos agentes sociais ou atores sociais, a multiplicidade de espaços políticos, a pluralidade que caracteriza os novos movimentos sociais, afastam definitivamente as categorias de analise que implique numa denuncia do sistema econômico.
O conceito de luta de classes e os movimentos analisados nesta perspectiva tratam da superação do capitalismo vinculado a superação desse modelo de Estado. A noção de lutas sociais parece nos fornecer elementos que favorecem a armadilha de analisar os movimentos num cenário de convivência pacifica e conciliadora com o sistema econômico e estatal.
Mais uma vez Gohn nos coloca as referencias teóricas, que sem abrir mão dos paradigmas marxistas auxiliam nessa trajetória.
Manuel Castells, Jean Lojkine, Claus Offe, Laclau e a corrente dos historiadores liderada por Hobsbawm E.P. Thompson e G. Rudé e outros, constituíram a corrente contemporânea de estudo sobre os movimentos sociais na Europa também denominado neomarxista. Tratam-se de estudos que significaram uma releitura do marxismo ortodoxo. A abordagem dos fatores políticos tem centralidade e a política passou a ser enfocada do ponto de vista de uma cultura política, resultante das inovações democráticas, relacionadas com as experiências dos movimentos sociais, e tem um papel
tão relevante quanto a economia, no desenvolvimento dos processos sociais históricos (GOHN, 2000)
A história contada pelo povo, as contradições internas da classe operária, que inspira a grande maioria desses historiadores, a forma de incorporar as teorias neomarxistas pode ser distorcida, pela intencional focalização conservadora em desprezar as determinações da economia nas relações sociais, abre-se diante dessa possibilidade, boa margem para um futuro incerto dos movimentos sociais que oscilam entre a cooptação liberal e o receio de um discurso dito como ultrapassado. É nessa encruzilhada teórica que tentamos desvendar a cultura política e o desprezo pelas determinações da economia na análise do movimento feminista.
Na década de 90 com as profundas alterações na conjuntura política e econômica, os movimentos sociais que anteriormente mobilizavam massas e ganhavam visibilidade nas ruas, demonstram um certo retraimento. As causas do declínio dos movimentos sociais nesse período são inúmeras, que segundo alguns autores estudiosos no assunto, associam ao fato da inexistência de um alvo ou inimigo principal, diferentemente da década de 60, onde o alvo das manifestações dos movimentos era o regime ditatorial, onde se reivindicava as liberdades democráticas.
O atual momento do capitalismo, dificulta análises mais profundas, bem como sua atualização devido a sua dinâmica. Boron (2002) destaca a fase atual de dominação e a fragilidade de possíveis resistências:
“A globalização, em suma, consolidou a dominação imperialista e aprofundou a submissão dos capitalismos periféricos, cada vez mais incapazes de exercer um mínimo de controle sobre seus processos econômicos domésticos”. Boron (2002 p.47)
Qualquer análise dos movimentos sociais, na era imperialista, corre o risco de reducionismo, fica evidente a limitação para a sua compreensão. Optar por análises internas, desconsiderar ou minimizar a influência do sistema econômico
monopolista, também consiste numa tarefa bastante arriscada, podendo pender para o anarquismo ou para o liberalismo .
A expansão do capitalismo, que avança geograficamente, modificando a organização das sociedades e nos seus modos de produção, enaltecendo a figura do mercado, coisificando as relações sociais, não pode passar despercebida. Boron (2001, p. 40) mais uma vez nos chama a atenção sobre esse aspecto:
Não deixa de ser paradoxal que seja precisamente este o momento, quando o mundo se tornou muito mais “capitalista” do que antes, que proliferem as teorizações pós-modernas e neoliberais que falam de uma suposta transição para uma economia de mercado supostamente pós-capitalista e que adquiriu a formalidade da geometria da vida animal.devido a isto, a discussão sobre o capitalismo desapareceu da agenda pública. Ela é considerada, e este é o maior triunfo ideológico do neoliberalismo, como um fenômeno natural, como a cristalização de tendências inatas aquisitivas e possessivas da espécie humana e não como uma criação histórica de classes e agentes sociais concretos movidos por seus interesses fundamentais. Ao naturaliza-lo, o capitalismo se torna invisível e, como não é possível vê-lo, não se pode discuti-lo.
As dimensões subjetivas do movimento como valores, sentimentos de solidariedade, ampliam-se e a dimensão objetiva, extrapola as desigualdades econômicas, incluindo pautas da conjuntura global, como a ecologia e a globalização. As conquistas parecem ser de longuíssimo prazo no cenário sócio político, o movimento passa a incorporar a necessidade da institucionalidade em ONGs para sobreviver.
O movimento feminista amplia-se pelo paradigma de gênero e pelas “novas” relações com o Estado, não mais pautadas pela herança do populismo e sim sob o manto do neoliberalismo, redefinindo seu rumo e suas novas noções.
Conforme Alvarez (2000, p.29 ):
É significativo que os movimentos sociais que surgiram da sociedade civil na América latina ao longo das duas últimas décadas - tanto em países sob o regime autoritário como em nações formalmente democráticas – tenham desenvolvido noções plurais de uma cultura política que vão muito além do
(re)estabelecimento da democracia formal liberal. Assim as redefinições emergentes de conceitos como democracia e cidadania apontam para direções que confrontam a cultura autoritária por meio da atribuição de novo significado às noções de direitos, espaços públicos e privados, formas de sociabilidade, ética, igualdade e diferença e assim por diante.esses processos múltiplos de re-significação revelam claramente definições alternativas do que conta como político.
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Após o período repressivo e de suposta democratização do Estado os movimentos sociais constroem outras referencias, os chamados Novos Movimentos Sociais - NMS.
Após um período de relativo imobilismo da sociedade civil, resultante do poder de opressão estatal, começam a surgir movimentos com características distintas daquelas do passado e que, conforme nomenclatura internacional, foram denominada por muitos de “novos movimentos”... Esses NMS (Novo sindicalismo urbano e rural, Movimento de Bairro, Movimento Ecológico, Movimento Feminista, Movimento sem-Terra e outros) tem sido objeto de estudos de muitos cientistas social, os quais tem indicado que, de diferentes maneiras tais movimentos compartilham da ideologia do antiautoritarismo e são pela descentralização do poder. Pergunta-se qual a efetiva contribuição que estes movimentos poderiam trazer para a corrosão do autoritarismo (expresso no Estado, nos partidos e nas relações da sociedade civil) para a democratização da sociedade, em termos de democracia política e democracia social. (Scherer-Warren. 1996, p. 51):
É preciso chamar a atenção e analisar uma série de fatores que configuram o pano de fundo dos NMS. Encontramos alguns marcos desse ultimo período, mais precisamente após a década de 80 que coincidem com ao surgimento dos NMS.
Esse “imobilismo” ou novas formas de mobilização, também se relaciona com implementação do neoliberalismo, à influencia da filosofia francesa no pensamento revolucionário, concomitante ao afastamento teórico das categorias marxistas e a intenção norte americana de democratização, com o objetivo de afirmação da sua hegemonia mundial.
Neste sentido Boron (2001) na sua crítica aos autores do livro Império é enfático ao afirmar que:
A leitura dos intelectuais orgânicos da direita é sempre estimulante, porque enquanto alguns da esquerda exibem uma inclinação a se esquecerem da luta de classes e do imperialismo por medo de serem considerados extravagantes ou ridículos dinossauros do parque jurássico decimonônico, os primeiros se encarregam de recordar sua vigência. (Boron. 2001, p. 64)
Scherer-Warren (1996, p. 54) por sua vez, aponta para as características dos NMS, ressaltando a sua fragmentação relacionada ao respeito pelo pluralismo cultural inerente à natureza ideológica e ao ideal básico desses movimentos na “criação de um novo sujeito social” o que redefine o espaço da cidadania, alertando para a “tripla exclusão relativa - econômica, política e cultural”.
A mesma autora, na referida obra classifica o Movimento Feminista como um dos mais importantes movimentos culturais das últimas décadas e expressa seu interesse em discutir a ideologia desse movimento e coloca: “em geral, o pensamento feminista faz uso de conceitos de utopias libertárias tradicionais, tais como: opressão, liberdade, igualdade, justiça, emancipação, solidariedade, poder e dominação”. Ao incluir a noção de utopia, a autora reflete a sua intenção de relacionar o movimento feminista com seu potencial transformador das relações humanas e tipifica as teorias de libertação das mulheres com três posições ideológicas principais:
“ Feminismo socialista. Feminismo radical e feminismo dos direitos das mulheres” (Scherer-Warren 1996, p. 30)
Na trajetória histórica do movimento feminista, são inúmeros os exemplos de avanços e retrocessos perpassados por conjunturas políticas e econômicas. A elaboração de políticas públicas e suas implementações podem ser consideradas desdobramentos da relação do Estado com esse movimento. Os direitos políticos como o direito ao voto, como os direitos sociais dão os contornos da sua potencialidade. As políticas de ajustes estruturais geradas pelos acordos multilaterais com agencias financeiras multinacionais atinge em cheio as conquistas históricas das mulheres. A reestruturação financeira, a especulação do capital
globalizado, as novas formas de sociabilidade, entre outros, são elementos que compõe o cenário contemporâneo, associado a miniminização do Estado que recai sobre os ombros, já tão sobrecarregados das mulheres. A ausência de políticas públicas, por um lado, como a proteção com crianças, idosos, a precarização das relações de trabalho, a chamada dupla jornada, encontra com um movimento social fragmentado e pulverizado nas lutas por direitos sociais, por outro,por creches, por atendimento á saúde da mulher, direitos reprodutivos, pela descriminalização do aborto, pela união contratual das mulheres homossexuais, pelo combate à violência, enfim uma pauta de reivindicações cada vez maior.
Após a chamada primeira onda do movimento feminista o direito ao voto, a provável segunda onda definida por lutas para conquistas no que se refere a direitos sociais, nem bem conquistadas, já adiantam alguns a dita terceira onda, que mais aponta para uma despolitização do movimento o colocando de forma desvinculada de qualquer referencia ideológica que questione o sistema econômico enaltecendo a mulher moderna, como mais uma peça do mercado e satisfeita com isso. O feminismo é um só, historicamente luta e denuncia a desigualdade promovida pela concentração do capital que é a mesma e se sustenta na antiga, para alguns, exploração. As ações afirmativas, as legislações atuais que protegem a mulher não são suficientes para fenômenos novos como a feminilização da pobreza.
Abre-se um enorme campo de estudos e pesquisas que confirmem ou não, na atualidade, características reformistas nos movimentos historicamente tidos como revolucionários, principalmente no movimento feminista. As “lutas sociais” com fortes elementos culturais, pautados numa prática de colaboração com o Estado, denunciam as “inovações democráticas” que pouco avança na sua ação, para o interior da sociedade civil, na superação do preconceito e da discriminação. O afastamento de uma ação transformadora que questione o próprio sistema precisa ser melhor investigado. A atual dinâmica do sistema econômico, contribui para ofuscar a visão dos menos atentos.O abandono, em grande parte dos paradigmas marxistas, pode muito mais colaborar para a configuração de um cenário de dispersão e a fragmentação dos movimentos sociais, despontencializando-os para uma trajetória revolucionária.
Está lançado portanto o desafio de superar as limitações teórico-práticas para compreender a dinâmica dos movimentos sociais, à luz da característica cambiante do sistema capitalista e da manutenção de seus requisitos básicos como a exploração e a alienação, sua hegemonia em escala planetária e as relações entre sociedade e Estado.
Pode-se afirmar, com uma certa cautela, enquanto o conceito de luta de classes contribui para a análise da dimensão objetiva do movimento a noção de lutas sociais contribui para ampliar a análise abrangendo os aspectos culturais e sociais que enfatizam a dimensão subjetiva que envolve a identidade e a cultura politica dos movimentos. A tarefa mais urgente, portanto constitui em reunir essas dimensões, para dar conta de uma análise profunda e que sirva de referência à conjuntura atual.
REFERÊNCIAS
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BORON. Atílio. A nova ordem mundial e como desmonta-la. In SEONE. José; TADDEI, Emílio. (orgs). Resistências mundiais. Petrópolis. RJ. Vozes, 2001.
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SCHERER-WARREN. Ilse. Redes de Movimentos Sociais. Coleção Estudos Brasileiros -1. 2ª edição. SP. Loyola.1996.