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Análise da presença das sombras homéricas nas obras
“Hamlet” e “Um Drink no Inferno”
Raíssa Maria Ribeiro Prado Pós-graduação em andamento em Língua Portuguesa - Literatura e Linguagem no Centro Universitário Teresa D'Ávila - UNIFATEA. Jamilli Máximo Bechaire Graduada em Letras pelo Centro Universitário Teresa D'Ávila - UNIFATEA. João Francisco Pereira Nunes Junqueira Doutorando em Estudos Literários na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP/Araraquara (Bolsista CAPES). Professor do Centro Universitário Teresa D'Ávila - UNIFATEA Vagner Matias da Silva Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Taubaté. Professor do Centro Universitário Teresa D'Ávila - UNIFATEA
Resumo
A morte e o medo do desconhecido são temáticas recorrentes na Literatura ao longo dos tempos. Quando se analisa obras clássicas da Literatura como Ilíada e Odisseia, do escritor grego Homero, percebe-se que diversos elementos podem ser vistos em obras contemporâneas, o que é nomeado como tradição literária. O objetivo deste trabalho é analisar a obra literária “Hamlet”, de William Shakespeare e a produção cinematográfica “Um drink no inferno”, escrita por Quentin Tarantino e dirigida por Robert Rodriguez, à luz desta tradição e da “sombra” que estabelecem. Fundamenta-se esta pesquisa nos estudos de Pietro Boitani (2005) acerca das “sombras” presentes desde as obras clássicas até a produção contemporânea, culminando com os “Cantos” de Ezra Pound (1948) e estudos do filósofo Sigmund Freud (1976).
Palavras-chave
Análise literária; Medo do desconhecido; Morte; Tradição literária.
Abstract
Death and fear of the unknown are recurrent themes in Literature over time. When we analyze classic works of Literature like Iliad and Odyssey by the Greek writer Homer, we realize that several elements can be seen in contemporary works, which is named as literary tradition. The aim of this work is to analyze the literary work "Hamlet" by William Shakespeare and the cinematographic production "From Dusk Till Dawn", written by Quentin Tarantino and directed by Robert Rodriguez, in the light of this tradition and the "shadow" that they establish. This research is based on Pietro Boitani's (2005) studies of the "shadows", present from classical works to contemporary production, culminating with the Songs of Ezra Pound (1948) and studies by the philosopher Sigmund Freud (1976).
Key words
Literary analysis; Fear of unknown; Death; Literary tradition.
Introdução
A temática da morte sempre teve destaque entre os autores da Literatura. Isso pode ser evidenciado nas obras do período clássico, em que as tragédias giravam, muitas vezes, em torno do fim eminente que tal temática traria em uma cultura politeísta, a qual destinavam os
mortos para a paz dos Campos Elísios ou sofrimento no Tártaro ou Hades; No período do romance gótico que lançou mão do pessimismo para acentuar as características do momento literário, a fim de estabelecer a descrença na possibilidade do amor em vida, instigando o sabor pelo exótico e desconhecido, os quais podem propiciar ainda o terror por meio de suas histórias (MELO, 2007); E em obras modernas, cujo tema corrobora a apreensão que o ser humano, particularmente da cultura ocidental, sempre teve, por se tratar de uma concepção dogmática e ainda desconhecida – o que há após a morte?.
Segundo Sigmund Freud, em seu artigo “O Estranho” (1976), no qual analisa a figura do estranho perturbador (unheimlich) utilizando exemplos literários, não existe outro assunto sobre o qual a ideia da humanidade tenha mudado tão pouco como em relação à morte, e o autor afirma que esse primitivo medo da morte é ainda muito intenso devido à falta de conhecimento científico que se tem dela.
Assim, a Morte e o Desconhecido, como temas frequentes em diferentes momentos históricos, continuam presentes em textos modernos e são responsáveis por outro aspecto existente na Literatura: o medo (SOUZA, 2016).
A figura do personagem Ulisses, pertencente à obra de Homero, constitui, desde o início de sua existência mítico-literária, um modelo, uma forma “multiforme” (polytropos) de vida humana cheia de potencialidades. Tendo as obras Ilíada e Odisseia como base para a análise de diferentes gêneros, literário e cinematográfico, pode-se perceber quão recorrentes são os eventos que causam esse medo na personagem, e por consequência no leitor/telespectador. Por este motivo, a variação dos gêneros é importante, de forma a auxiliarem a comprovação desses episódios. Para tal objetivo, foram escolhidas as obras Hamlet de William Shakespeare e “Um drink no inferno” (“From Dusk till Down” – EUA, 1996. Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Quentin Tarantino) para justificar tais afirmações.
Na peça Hamlet, a morte e o desconhecido são dois temas geradores do conflito que levam à concretização da tragédia, uma vez que são um dos pilares para os dois conflitos antagonistas: interno e externo (BRADLEY, 1904/2009). Como objeto de estudo da obra Hamlet, selecionamos o solilóquio principal, o qual encontra- se no Ato III, Cena I. Segundo Silva (2005), é neste momento que o herói shakespeariano manifesta seu desejo pelo suicídio, pois para a personagem seria a solução para todos os problemas. No entanto, uma dúvida o aflige, e a toda a humanidade: o que virá depois?
Em relação ao filme “Um drink no inferno”, existem questões como o conflito interno dos personagens relacionados à fé, e sua possível perda, fato gerador da presença do medo e do medo do desconhecido.
Fundamenta-se esta pesquisa nos estudos de Piero Boitani (2005) acerca das “sombras” presentes desde as obras homéricas até a produção contemporânea, cujo ápice poderia ser tomado com os Cantos de Ezra Pound (1948), despertando a importância das experiências da leitura dos clássicos e o que estas suscitam no leitor.
Este artigo, de cunho analítico, traz uma articulação entre elementos presentes nas obras clássicas de Homero que, por estarem presentes ainda na produção contemporânea, foram analisados à luz da tradição literária e da “sombra” que estabelecem.
Fundamentação teórica
A LITERATURA E A CONSTRUÇÃO DA TRADIÇÃO LITERÁRIA
“Tradição literária e além-mundo, poesia e morte se sobrepõe, se cruzam, revelam-se uma a face extrema da outra” (BOITANI, 2005, p.1).
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O crítico literário italiano Piero Boitani em seu artigo “Sombras: Figuralismo e Profecias” (2005) apresenta duas sombras presentes na tradição da Literatura: a sombra da viagem de Ulisses ao reino de Hades e outra que vem diretamente do mito, a reencarnação de Ulisses no herói, em uma nova história, em um novo contexto, mas marcada por relações formais às figuras surgidas inicialmente na poesia de Homero. Para ele, estas sombras, presença constante desde os clássicos até os dias de hoje, “são sinais de que ela traz em si o nosso destino de homens”. (BOITANI, 2005, p. 1). Isso corrobora o fato de que o tema da Morte é atemporal, pois faz cada ser humano refletir em todas as épocas, por ser uma verdade imortal.
No canto XI da Odisséia, o herói parte para os “confins do domínio cósmico da vida e da morte” e na Ilíada (canto XIV, p.201), Odisseu veleja sobre o Oceano, para “o princípio do cosmos, para o confim entre o ser ou não ser” (BOITANI, 2005, p.2).
Nas epopeias homéricas, a Nékuia (evocação dos mortos) acontece com diversos tons. Ilíada e Odisseia dialogam, segundo Trajano Vieira (2001), a partir desse diferente tratamento da morte.
Na Ilíada, a morte é vista como glória, uma vez que Aquiles nem cogita a possibilidade de retornar ao mundo dos vivos, pois assim perderia a glória eterna (Ilíada 9, 412-16). Já na Odisseia, Homero utiliza o próprio Aquiles, para dar outro sentido à morte. No encontro de Ulisses com Aquiles no Hades, vemos a morte como uma condição tola, em que os vagantes somente sofrem as angústias e ressentimentos dos vivos, e o herói da Ilíada deseja retornar do Hades (VIEIRA, 2001).
A Ilíada é, portanto, no que concerne ao tratamento da morte, a poesia do Kléos (glória) e a Odisseia a poesia do nostos (retorno).
Partindo do conceito das “sombras” como tradição literária, analisa-se que a mítica de Homero paira permanentemente como uma sombra tanto na arte literária quanto na arte cinematográfica, permitindo assim a progressão das obras desde o passado até o presente. Deste modo, um paralelo pode ser traçado com obras posteriores à obra de Homero e a verificação de como essas “sombras” se perpetuam pode ser realizada.
O medo do desconhecido apresenta-se como uma das manifestações mais poderosas que mexem com a emoção do ser humano. Em virtude disso, este trabalho tem como objetivo analisar a tradição literária que estabelece parâmetros que doravante serão elencados na análise das obras literária e cinematográfica com base nas passagens dos clássicos. Com isso, espera-se explorar as questões que influenciam a presença do medo nas obras, tais como o conflito religioso, a perda e a morte.
A tragédia de Hamlet trabalha bastante os conceitos de sombra, como a morte e aparição do fantasma do pai, segredos políticos do Rei, decepções com a mãe e a própria melancolia de Hamlet. O historiador Leandro Karnal (2015), diz que Hamlet não é feliz e não faz questão de parecer feliz, ele é melancólico, pois tem uma consciência brutal de sua vida. Com base em tudo isso, pode-se concluir que esta sombra se faz presente em sua vida melancólica e em suas perguntas, que nascem das trevas homéricas e reflete-se em suas questões sobre o existir ou não existir, partir ou não para o desconhecido.
Em seu solilóquio desesperado, todas as sombras de sua vida o esmagam e o brilho absoluto da libertação mistura-se com a escuridão do suicídio, a destruição de si próprio, a qual todas as leis são contrárias. Hamlet sente medo, sobretudo, por não saber o que o espera após o sono da morte. É amedrontado pelo umbral ontológico que ninguém pode transpor e retornar. Segundo Boitani (2005), esse umbral é como o limite das duas árvores proibidas para a humanidade no jardim do Éden, o conhecimento e a vida.
A produção cinematográfica “Um drink no inferno”, cujo título original em inglês é “From dusk till dawn” (“Do anoitecer ao amanhecer”, numa possível tradução), remete a um cenário desconhecido, obscuro e excitante, tal qual a viagem de Ulisses ao mundo dos mortos, “ultrapassando o limite atribuído ao homem, na direção de uma treva sobrenatural” (BOITANI, 2005, p.3).
“Um drink no inferno” foi realizado em 1996 e conta a história realista de dois irmãos criminosos fugitivos norte-americanos, Seth e Richard. Na fuga a um assalto eles sequestram um ex-pastor e seu casal de filhos para atravessar a fronteira e chegar ao México. Após esta viagem cercada pela atmosfera do medo e da insegurança, eles se dirigem a uma casa noturna frequentada por caminhoneiros e motoqueiros, um lugar que é uma mistura de cabaré e prostíbulo. Porém, todos eles se deparam com algo totalmente sobrenatural.
O cenário caótico de um bar no meio do deserto, habitado por homens e mulheres que representam a obscuridade da face extrema do mal, nos leva ao mundo sombrio dos mortos, onde quem entra embarca numa viagem sem volta. A sedução, através da luxúria e da beleza, torna-se uma armadilha para os personagens dessa ficção. Para Cornelli (2001), a ligação entre o mundo dos mortos e o nosso mundo, feita pelas figuras antigas, dá-se pela Katábasis. O autor usa como exemplo Apolônio de Tiana, que desce e entra na caverna do oráculo e depois de sete dias reaparece, como nenhum homem antes fizera, segurando um livro que respondia a pergunta que ele tinha sobre a filosofia (CORNELLI, 2001).
Essa descida ao mundo dos mortos acontece de maneira diferente nas duas obras analisadas. Em Hamlet a Katábasis ocorre dentro da própria mente do jovem príncipe durante seu solilóquio principal, no qual se questiona sobre o “ser ou não ser”, imergido em questões filosóficas sobre a vida e o desconhecido. Em “Um drink no Inferno”, os personagens descem ao mundo dos mortos no momento em que entram pela porta do bar.
Segundo Freud (1976), um escritor pode conduzir seu leitor por um mundo real ou puramente fantástico. Pode inseri-lo a uma realidade povoada de espíritos e fantasmas, e o leitor deve curvar-se à sua decisão e aceitar o cenário como sendo real, pelo tempo em que se mantiver em suas mãos. É isso o que ocorre nas duas obras analisadas: No Hamlet, o leitor se depara com o fantasma do pai que dialoga com Hamlet e pede vingança contra seu irmão; Em “Um drink no Inferno”, é apresentada inicialmente uma história próxima à realidade, e de repente o telespectador é introduzido a uma realidade de vampiros e monstros infernais.
Análise do corpus
1- HAMLET
O sentimento que se sobressai no solilóquio em que Hamlet manifesta seu desejo pela morte é o medo, ou seja, a insegurança do que virá após ela. Pode-se observar que o herói está cansado, é atormentado em sua melancolia com todos os problemas e dúvidas de sua vida: a morte do pai, o aparecimento de seu fantasma que pede vingança, as atitudes da mãe, a posse de seu tio ao trono que deveria ser seu, a insensibilidade de todos ao esquecer tão rapidamente o rei morto, o amor por Ofélia.
Em razão disso, Hamlet vê sua saída na morte: “Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se”. (SHAKESPEARE, 2000, pág.81).
No entanto, o herói é amedrontado pelo mundo desconhecido, ao qual ninguém jamais retornou. Como já foi observado por Boitani (2005), esse é o umbral ontológico do ser, o limite do conhecimento e da vida, aqueles proibidos à humanidade no jardim do Éden. Hamlet, consciente de sua insciência a respeito desse mundo desconhecido, lamenta e entende
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que é isso o que faz com que tantos continuem a viver: “O não sabermos que sonhos poderão trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa!” (SHAKESPEARE, 2000, pág.82).
Neste trecho de seu solilóquio, Hamlet confronta-se com as diferentes possibilidades do mundo dos mortos. Este mundo desconhecido que se revelou o como local da “Kléos” (glória) na Ilíada, em que Aquiles nem considera a hipótese de deixar o Hades (mundo dos mortos), pois assim perderia sua glória e na Odisseia, um ambiente onde vagavam almas angustiadas, sendo a poesia do “nostos” (retorno), em que Odisseu deseja retornar desse Hades. Estas várias faces possíveis da morte é o que amedronta o príncipe Hamlet.
Hamlet vê-se como covarde, que opta por aceitar os males dessa vida, com medo dos possíveis males presentes no sono da morte, e afirma que, dessa maneira, o frescor da possibilidade de alívio das dores da vida é cortado pelo peso dessas reflexões: “terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou- que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência” (SHAKESPEARE, 2000, pág. 82). Porém, o herói não deve ser visto como covarde, mas um indivíduo reflexivo que toma a decisão de enfrentar esses males de sua vida, após a meditação sobre o mundo desconhecido.
“Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?” (SHAKESPEARE, 2000, pág. 81).
Segundo Cornelli (2001), podemos identificar em Pitágoras, Empédocles e Parmênides três viajantes do Hades, havendo, assim, o encontro entre a Katábasis e a filosofia.
A literatura filosófica antiga demonstra compreender o exercício místico da Katábasis como um momento fundamental do itinerário intelectual de formação do homem sábio. Todas as descidas, todas as Katábasis culminam, num momento fundamental, num lócus narrativo de importância crucial para o pensamento ocidental: no diálogo “República”, de Platão (CORNELLI, 2001, p.97).
A utilização da figura da Katábasis em textos filosóficos, fazendo referência às tradições antigas de sabedoria ligadas às práticas de descidas além-mundo, acontece devido ao filósofo ser colocado como um “iniciado”, como alguém que busca o conhecimento, mas busca como um Kóuros, um homem excepcional. (CORNELLI, 2007). O autor completa, citando a construção da República, de Platão:
O caminho para baixo até o Hades/Pireu, como lugar de verdade, onde a deusa pode revelá-la, parece ser a construção dramática de Platão. Platão parece desenhar aqui ao mesmo tempo uma alegoria do caminho da sabedoria individual e um bildungsroman de Sócrates (CORNELLI, 2001, P.99).
A formação do homem sábio tem, segundo a literatura filosófica antiga, como acontecimento crucial a Katábasis, que pode acontecer não somente após a morte, mas dentro da própria personagem (CORNELLI, 2001).
imergido dentro de sua própria mente, quando questiona-se sobre o que é mais nobre para a alma, busca a resposta dentro de si próprio. O herói retira-se desse mundo e encontra-se em seu Pireu, de maneira excepcional, e não humana, na busca pelo conhecimento.
Ao refletir “Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte(...)”, Hamlet busca a sabedoria individual como fez Platão, citado por Cornelli (2001).
2- UM DRINK NO INFERNO
Lançado em 1996, Um drink no inferno (“From Dusk Till Dawn”) é dirigido por Robert Rodriguez e tem um roteiro escrito por Quentin Tarantino e Robert Kurtzman. Se existe uma característica que este filme não pode ser acusado, é de ser um filme previsível. Este pode ser considerado um "clássico trash". O trabalho em si parece ser elaborado por base da construção e da ruptura da própria narrativa; assim que abre, temos um belo exemplar desse elemento na cena do mercado. Quando se fala dessa produção, é possível dizer que ela esta dividida em duas partes, ou filmes, com um pouco mais de 50 minutos cada.
A primeira parte possui um bom andamento e um roteiro que funciona como uma narrativa policial. O temor frente ao desconhecido e o espanto produzido pela resolução de um enigma são traços das narrativas policiais pertinentes, portanto, à própria psicologia humana, conforme atesta o fato, já por muitos apontado, de que essa configuração narrativa está, em germe, em todas as investigações racionalmente conduzidas.
O romance policial, em sua origem, está intimamente relacionado ao romance de aventuras, como afirma Paulo de Medeiros e Albuquerque (1979, p.2), principal estudioso do gênero no Brasil. Nesta primeira parte somos apresentados aos protagonistas, os irmãos criminosos Seth (George Clooney) e Richie Gecko (Quentin Tarantino). Após assaltarem um banco nos Estados Unidos, os dois precisam achar uma forma de passar pela fronteira e chegar ao México, onde poderão aproveitar o dinheiro que conseguiram sem se preocupar com as autoridades.
A química entre os dois atores é um dos pontos altos da produção, que, em sua primeira parte, segue o ritmo mais “convencional” dos filmes policiais de perseguição, com a dupla se apresentando como anti-heróis caçados por uma polícia bem determinada em encontrá-los. Assim, o roteiro vai seguindo cheio de roubos, estupros e tiroteios, se tornando um clássico filme de ladrões e policias.
No caminho dos irmãos criminosos de fuga para o México, Seth e Richie Gecko, surge uma família disfuncional, que é feita de refém (o que não deixa de ser um velho clichê do gênero): um pastor que perdeu a fé após a morte da esposa, e seus dois filhos. Harvey Keitel faz o papel do pai de família, o pastor Jacob, enquanto Juliette Lewis é a filha que vira objeto de desejo do lunático Richard e também encontramos Ernest Liu que faz o papel do filho Scott Fuller.
Neste ponto do filme, podemos notar um pouco da filosofia Tarantinesca, um pastor que questiona sua fé, vendo-se a mercê de psicopatas que acabaram de matar a antiga refém que não tinha nada a ver com nada, mas estava no lugar errado e na hora errada. Tudo isso assusta o telespectador, mas esta casualidade que encontramos presente, em nossos jornais e em nossas TVs com frequência, enfim encontramos tal contexto inserido no nosso dia-a-dia.
Os irmãos Gecko, aproveitam o trailer da família para seguirem até uma boate no meio do nada, onde precisarão esperar por um indivíduo que, ao amanhecer, levará os criminosos em segurança para longe da polícia. A tal boate é uma espécie de clube de strip-tease frequentado por motoqueiros e todo o tipo de gente mal encarada — o que rende bons momentos e diálogos típicos de Tarantino, com o pastor e a família ambientando-se ao lugar e
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tentando, sem sucesso, resistir ao carisma dos dois assaltantes. Neste momento os personagens que foram sequestrados, vivenciam o medo do desconhecido, pois não sabem o que lhes vai acontecer e se de fato vão sobreviver a este sequestro.
Encontramos nesta primeira parte do filme algo que também é fundamental para Edgar Allan Poe, a objetividade do “medo”. No tocante ao gênero policial, além da técnica de elaborar a conclusão no início da narrativa, Edgar Allan Poe destaca que é fundamental que se faça uma consideração prévia acerca do efeito que o escritor deseja extrair do romance em questão. Geralmente ele deseja extrair o medo.
Por meio da palavra, o medo se torna uma tortura da imaginação e estabelece uma relação poética entre o leitor e o narrador; o mundo com seu caráter ainda selvagem e ameaçador (por mais contraditoriamente urbano e racionalizado que possa parecer) é, dessa feita, uma fonte fundamental de inspiração literária.
O romance policial é permeado por esses vários elementos advindos do contato do homem com o outro e com o desconhecido – medo, mistério, investigação, curiosidade, assombro, inquietação, que são dosados de acordo com os autores e as épocas.
Já a segunda parte do filme consegue ligar-se à primeira de forma coesa. Aqui somos apresentados ao bar mexicano “Titty Twister” um típico ponto de encontro de beira de estrada para motoqueiros e caminhoneiros, com suas vestimentas de couro e tatuagens de mulheres nuas, aliás, as mulheres são o maior atrativo do lugar.
O barman é o frequente colaborador de Robert Rodriguez, Danny Trejo e a atração principal outra velha conhecida dele, Salma Hayek, que sensualiza para os irmãos Gecko e incita ciúmes na jovem Kate – Juliette Lewis ainda possuía traços de adolescente. Após presenciarem um show da stripper Santanico Pandemonium (Salma Hayek), no fim da dança a grande reviravolta acontece. O bar é na verdade dominado por vampiros monstruosos, o que acaba gerando um banho de sangue e faz com que os personagens precisem lutar juntos com bizarros coadjuvantes para derrotar as criaturas.
Nesse ponto do filme, em que acontece a grande reviravolta, o telespectador é tomado pelo sentimento de estranheza perturbadora (o unheimlich freudiano). Segundo Freud, este sentimento acontece quando é rompida a distinção entre imaginação e realidade, “como quando algo que até então considerávamos imaginário surge diante de nós na realidade” (FREUD, 1976, p. 304).
Encontramos também nesta segunda parte do filme, o misticismo religioso e o misticismo do abismo presente nas narrativas policiais. O misticismo religioso é a busca da comunhão com uma verdade espiritual, que é realizada por meio de experiências diretas ou intuitivas. Esta é a marca para definir um sistema religioso que possui Deus como transcendente. Assim, o misticismo marca uma relação direta e íntima com Deus ou com a espiritualidade, resultando em uma religião em seu estado mais apurado. A presença do pastor nesta obra destaca tal contexto de misticismo. Este misticismo é o objeto material ligado à religião em questão ou, ainda, fonte do desmascaramento do sujeito ou dogma instituído como verdade universal. O outro misticismo que encontramos, é o misticismo do abismo, aqui a tenebrosidade é mais do que um mero jogo de sombras. É uma janela para o próprio abismo, esse grande e terrível desconhecido que jaz no centro de todas as coisas. O Abismo é o coração do submundo pulsando a cada dúvida de uma questão não respondida. Faz-se presente na ausência de luz a espreita em todas as sombras.
No filme Um drink no inferno o misticismo religioso e o misticismo do abismo se encontram em uma horrenda luta, os humanos que em meio às suas fragilidades buscam no seu interior a coragem obtida pela fé, em especial na pessoa do pastor, se colocam em ordem de batalha contra aos vampiros.
Nesta segunda parte os personagens se deparam com a fantasia, pois em meio a um diálogo eles relatam não acreditarem em vampiros, mas acreditam naquilo que viram e de fato viram os vampiros. E uma vez que todos concordam que estão lidando com vampiros, procuram buscar em seus conhecimentos popular aquilo que sabem ou já ouviram falar a respeito de vampiros, que é a representação da cruz, estacas de madeiras para enfiar no coração, alho, luz do sol e água benta. Mas neste momento do filme, chegam a seguinte conclusão, que a maior arma é o pastor, pois acreditam que este é um escolhido de Deus. Neste momento é questionada a fé do pastor, pois o mesmo se encontrava em meio a uma decepção com Deus, com a sua fé, uma vez que sua esposa morreu e o deixou com os seus dois filhos.
É revelado neste momento que um pastor sem fé não significa nada, pois um servo de Deus pode abençoar a água, enfiar a cruz nos vampiros, e reforçar aqui o misticismo religioso. Uma das colocações mais marcantes neste contexto é quando Seth fala para o pastor que sempre desejou estar distante de Deus, mas que tinha mudado de idéia a uns 30 minutos atrás, pois se os vampiros representavam o abismo (o mau que vem direto do inferno) é por que deveria existir um céu que representasse o bem maior. O interessante é que quando o pastor assume que é um servo de Deus é que eles saem para lutar contra os vampiros.
Ao analisarmos esta segunda parte do filme à sombra da tradição literária, podemos destacar a primeira grande sombra na viagem de Ulisses de volta a Ítaca, percurso este que levou cerca de 10 anos a cumprir. A chegada dele ao mundo mítico e o encontro com o Hades traz à tona a essência do homem que não está livre da morte. Acredita-se que este seja um momento de reflexão, pois quando um limite estabelecido ao homem é ultrapassado ele se encontra em uma “treva sobrenatural”. Neste ponto estabelece-se a relação com o medo, que desperta um desejo ávido por encontrar formas de sair deste lugar desconhecido.
Quando se trata da obra cinematográfica Um drink no inferno pode-se estabelecer uma analogia com personagens da Ilíada e Odisséia. O ex-pastor pode ser comparado a Ulisses que tem seu limite determinado pela fronteira náutica e mesmo assim o ultrapassa. “O sol se pôs e todos os caminhos escureceram: e a nau chegou aos limites do oceano profundo” (BOITANI, p.1). Ulisses representa nada menos que um signo. Um signo que traz consigo a sua transferência de herói. Passa de Ulisses ao ex-pastor, personagem este que se vê forçado a ultrapassar seus limites para salvar sua família.
Quando tratamos da Ilíada, que tem como principal objetivo a conquista da glória, podemos comparar Ulisses (aqui visto como um homem inteligente e astuto) ao criminoso do filme (personagem vivido por George Clooney, Seth). Estes têm diferentes compreensões do medo, pois ao mesmo tempo em que desejam muito o poder, deixam-se levar por acontecimentos, neste caso as perdas. Quando nos referimos ao bandido Seth que ao mesmo tempo quer ser vitorioso, mas vivencia a morte do irmão, vê-se que a atemporalidade encontra-se justamente nesta transferência de herói que traz consigo esse destino de homens. Há também a atualização histórica: ao mesmo tempo em que Ulisses faz uma viagem de volta, na Odisséia, os personagens do filme viajam até um bar que se localiza no deserto, e toda a ambientação deste bar ajuda a criar o clima do medo do desconhecido. Desde a porta do bar, que tem uma arquitetura sombria, até mesmo o espaço interno que tem a estrutura de caverna, parecendo ser de pedras e bem escuro.
Quando Ulisses tem de descer ao Hades para falar com Tirésias (aquele que profetizou como seria a volta dele a Ítaca, sua terra natal), ele tem que ir até o mundo dos mortos e oferecer um sacrifício para que tenha revelada sua profecia. O mesmo acontece no filme: os irmãos criminosos e a família sequestrada devem ir até o bar, que tem uma aparência extremamente misteriosa, e é freqüentado apenas por caminhoneiros, além de somente funcionar no período da noite. Uma nova relação de obscuridade é estabelecida quando as dançarinas e os funcionários do bar se transformam em vampiros. Neste caso, o mesmo que
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acontece com Ulisses, no caso do sacrifício, é visto no filme quando os vampiros necessitam do sangue para viver. O sangue representa a vida nessas duas faces das obras. Tirésias, por ser um homem morto, somente consegue profetizar quando recebe a oferta de sangue, assim como os vampiros, que precisam do sangue para sobreviver.
O destino dos homens existente na Odisseia encontra a sua correspondência nesta passagem do filme. Homens são apenas homens e por este motivo estão sujeitos à morte. Estabelece-se então a segunda grande sombra.
“Tradição literária e além-mundo, poesia e morte se sobrepõem, se cruzam, revelam-se uma a face extrema da outra”. (BOITANI, p.1). Ulisses ao sair do mundo dos mortos tem um novo encontro com algo encantador e que impede a sua volta, como um “sopro de morte” (BOITANI, p.4). Depara-se agora com um novo obstáculo: as sereias que impossibilitam o retorno com seu “límpido canto” (BOITANI, p.4) equivalente ao evento dos personagens que desejam sair do bar.
Da mesma forma que as sereias possuem uma máscara, que é o canto, para disfarçar o verdadeiro propósito que é a morte dos navegantes, as dançarinas do bar mexicano assemelham-se às sereias. As dançarinas têm a sedução como principal característica e arma, é a poesia e a morte se sobrepondo quando tratamos da tradição literária e das “sombras”.
A cena final do filme Um drink no inferno coloca em evidência o termo katábasis, que significa descida ou declínio. Segundo Gabriele Cornelli (2001) “figuras antigas que religam o mundo dos mortos com o nosso mundo são centrais para isso”. Portanto, a questão da katábasis está diretamente ligada com o enredo do filme e com as epopeias de Homero.
Como conclusão deste filme, temos a vitória contra os vampiros, mesmo restando apenas dois sobreviventes da batalha, o bem vence o mau, através da luz que dissipa toda a treva, representando assim a vitória do religioso contra o misticismo do abismo. Como sobreviventes temos Seth, que obteve a sua fuga sem seu irmão, e a filha do pastor, que teve que prosseguir a sua vida agora sem mãe, pai e irmão.
Considerações finais
A Morte e o Desconhecido são temas que estão presentes em toda Literatura Universal, como em Homero, obras do Romantismo e até em obras atuais, e assim, são pertinentes as análises da existência desses símbolos como Hades, Nékuia, Katábasis, que se perpetuam tradicionalmente pela Literatura, em diferentes obras.
A mortalidade e o além-mundo por serem verdades inegáveis de todo ser humano, confirmam-se como grande tema em muitas obras, causando outro aspecto importante nesses textos: o Medo.
Perante as constatações descritas no presente artigo, podemos entender os diversos registros encontrados da antiguidade até os dias atuais. Seguindo essa linha de raciocínio, torna-se desafiador estabelecer esses conceitos nos estudos embasados na tradição literária do “medo” e das “sombras”. Uma vez que é necessária a compreensão e o aperfeiçoamento do conhecimento que nos permita expandir as possibilidades de desvendar aquilo que nos mostra desconhecido. O que podemos entender é que o medo surgiu à medida que surgiu a vida na terra. O que tratamos neste artigo tem a intenção de nos tornar aptos a uma leitura mais crítica, compreensiva e reflexiva. Tornar-nos melhores leitores.
Referências
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CORNELLI, Gabriele. Filósofos, Profetas ou Magos? Equivocidade na recepção das
figuras de TheioiAndres na Literatura helenística: a magia incômoda de Apolônio de Tiana e Jesus de Nazaré. Teses de Doutorado, s.l., UMESP. 2001. Pag. 3.
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