LUCIANO PAES
DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS
Araranguá 2020
DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Direito.
Orientador: MS. Laércio Machado Junior
Araranguá 2020
DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS
Este trabalho de conclusão de curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Araranguá, 07 de julho de 2020.
_______________________________________ Professor e orientador: MS. Laércio Machado Junior
Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL
_______________________________________ Prof. Esp. José Adilson Cândido
Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL
_______________________________________ Prof. Esp. Renan Cioff de Sant’Ana
Dedico este trabalho ao meu pai, Jucemar Paes (in memoriam), que mesmo com sua curta trajetória nessa vida, deixou ensinamentos por suas ações que marcaram muitas vidas e sempre me encorajaram diante das adversidades da vida.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por me manter firme e perseverante, direcionando meus passos durante toda caminhada da vida.
À minha mãe Claudete, pelo apoio, incentivo e exemplo, que sempre foram as bases para que eu conseguisse realizar meus projetos.
À minha irmã Jucilene, por toda atenção dedicada quando sempre precisei. À minha querida esposa Lislaine, pelo seu amor incondicional e compreensão em mais essa fase de nossas vidas.
Ao meu professor orientador MS. Laércio Machado Júnior, com quem tive o privilégio de conviver fora do ambiente acadêmico, e que foi um grande incentivador, sempre com valiosas contribuições durante todo o processo acadêmico, em especial, na elaboração desse trabalho de conclusão de curso.
A todos os amigos que fiz no curso de graduação, com quem pude compartilhar tantos desafios enfrentados nessa trajetória, e que me auxiliaram a desenvolver o espírito colaborativo.
Também quero agradecer à UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina, seu corpo docente que demonstrou estar comprometido com a qualidade e excelência do ensino, e todos os demais colaboradores que completam a esrutura da universidade.
“As pessoas costumam dizer que a motivação não dura sempre. Bem, nem o efeito do banho, por isso recomenda-se diariamente.” (Zig Ziglar)
LISTA DE ABREVIATURAS
CF Constituição Federal; CPC Código de Processo Civil; EC Emenda Constitucional;
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Números de IRDRs nos tribunais brasileiros ... 44 Figura 2: Solicitantes ... 45 Figura 3: Resultado por suscitante ... 45 Figura 4: Números de IRDRs nos cinco tribunais brasileiros com maior número de solicitações ... 46 Figura 5: Números de IRDRs nos tribunais da Região Sul ... 47
RESUMO
O Direito Processual Civil direciona-se ao processo, definindo os procedimentos envolvidos com cada caso para sua organização e respeito dos dispositivos legais. Por muitos anos, o processo não era visto como parte essencial do direito, sendo somente há algumas décadas reconhecido como fundamental e, assim, passando a ser regulado por códigos específicos para essa finalidade. O Código de Processo Civil é a lei que encampa todas as definições envolvidas com o tema, atualmente vigorando um CPC promulgado em 2015, atualizado depois de mais de 40 anos de um CPC que já não se adequava as demandas sociais e processuais no país. Dentre as inovações apresentadas, destaca-se o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas – IRDR, instituto que estabelece que demandas repetitivas serão resolvidas gerando precedentes para a aplicação sobre as demais que versam sobre a mesma questão de direito, carregando entre si extrema semelhança. Este estudo tem o objetivo de avaliar o incidente de resolução de demandas repetitivas – IRDR, de acordo com a doutrina brasileira. Os dados foram coletados a partir de revisão da literatura nacional sobre o tema. O novo CPC trouxe importantes inovações visando a desoneração dos tribunais brasileiro e a garantia de acesso à justiça e resposta aos conflitos. O IRDR permite que sejam definidos precedentes, situações semelhantes que podem ser resolvidas a partir das mesmas medidas e, com isso, vários processos podem ser agrupados, resolvidos em um mesmo esforço. Formam-se precedentes que passam a permitir uma aplicação ampla diante de cenários repetitivos, evitando-se que cada caso figure como um processo aguardando avaliação e resolução dos tribunais. Com isso, não apenas reduz-se a demora por resoluções, como é possível tornar o judiciário mais ágil para que outras questões sejam julgadas e resolvidas, quando não há o sistema de precedentes a serem aplicados sobre elas.
Palavras-Chaves: Novo CPC. Incidente de resolução de demandas repetitivas. Conflitos. Resolução.
Civil Procedural Law addresses the process, defining the procedures involved with each case for its organization and respect for legal provisions. For many years, the process was not seen as an essential part of the law, it was only recognized for some decades as fundamental and, thus, being regulated by specific codes for this purpose. The Civil Procedure Code is the law that covers all the definitions involved with the theme, currently in force in force a CPC enacted in 2015, updated after more than 40 years of a CPC that is no longer adequate to the social and procedural demands in the country. Among the innovations presented, the Incident of Resolution of Repetitive Demands - IRDR stands out, an institute that establishes that repetitive demands will be solved, generating precedents for the application over the others that deal with the same question of law, bearing among themselves extreme similarity. This study aims to assess the incident of resolution of repetitive demands - IRDR, according to Brazilian doctrine. Data were collected from a review of the national literature on the topic. The new CPC brought important innovations aimed at the exemption of Brazilian courts and the guarantee of access to justice and response to conflicts. IRDR allows the setting of precedents, similar situations that can be resolved from the same measures and, with this, several processes can be grouped, resolved in the same effort. Precedents are established that allow a broad application in the face of repetitive scenarios, avoiding that each case appears as a process awaiting evaluation and resolution by the courts. With this, not only is the delay in resolutions reduced, but it is possible to make the judiciary more agile so that other issues are judged and resolved, when there is no precedent system to be applied on them.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
2 DIREITO PROCESSUAL CIVIL ... 14
2.1 DIREITO PROCESSUAL CIVIL: CONCEITOS GERAIS ... 14
2.1.1 Dos princípios constitucionais que regem o direito processual civil no Brasil.. ... 16
2.2 O NOVO CPC – CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL ... 20
3 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS: VISÃO GERAL 25 3.1 EVOLUÇÃO do IRDR: DO CPC ANTERIOR AO ATUAL ... 25
3.1.1 O IRDR no direito comparado ... 26
3.1.2 Contribuições do novo CPC quanto ao IRDR ... 28
3.2 PRINCÍPIOS DA ISONOMIA E SEGURANÇA JURÍDICA ... 30
3.3 CELERIDADE PROCESSUAL E RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO ... 32
4 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS: O SISTEMA DE PRECEDENTES JUDICIAIS ... 35
4.1 LEGITIMIDADE E COMPETÊNCIA ... 37
4.1.1 Requisitos ... 39
4.2 PROCEDIMENTOS ... 40
4.2.1 Afetação recursal ... 42
4.3 RESULTADOS ALCANÇADOS ATÉ O MOMENTO ... 43
5 CONCLUSÃO ... 49
1 INTRODUÇÃO
O Direito Processual Civil tem foco direto no processo, visando estabelecer como deve ser conduzido para que produza os efeitos esperados no que tange a resolução de conflitos. Na vida em sociedade, os conflitos se fazem comuns, considerando-se que as pessoas diferem entre si e, assim, algumas condutas podem afetar negativamente uma das partes. Todo processo deve ser organizado, respeitar os ritos legalmente estabelecidos para seu andamento para que, assim, se concretize a justiça e isonomia entre as partes (DIDIER JÚNIOR, 2017, p. 29-30).
Ao longo do desenvolvimento histórico das sociedades, o processo alterou-se, recebeu influências das ocorrências em seu entorno, das alterações sociais e dos resultados decorrentes da interação entre os indivíduos e os conflitos decorrentes dessas interações (SANTOS, 2014, p. 1).
Em 2015 foi promulgado o novo CPC brasileiro, considerando-se que o anteriormente em vigor havia sido promulgado em 1973 e, assim, encontrava-se distante da realidade social e suas alterações no perpassar dos anos (DIDIER JÚNIOR, 2017, p. 32).
Várias foram as inovações trazidas, dentre as quais destaca-se o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas – IRDR, instituto por meio da qual demandas repetitivas serão resolvidas de forma que os resultados se apliquem às demais que aguardam o mesmo tipo de resposta. Originou-se no direito internacional, porém, o caso brasileiro apoia-se de forma mais específica no direito alemão (MENDES, 2017, p. 27).
Borges (2018, p. 2) ressalta que o novo CPC, de fato, trouxe uma série de inovações, todas de grande valor, considerando-se uma importante característica de direcionar seus esforços para que os processos se tornem mais rápidos, de modo a reduzir a sobrecarga dos tribunais e garantir que os litigantes tenham acesso real à justiça, sem que isso se torne uma longa espera apor uma solução. O IRDR enquadra-se como um desenquadra-ses esforços para a redução do montante de processos que aguardam solução atualmente nos tribunais brasileiros.
O fato é que em função das alterações sociais ocorridas ao longo dos anos, os processos também mudaram, de modo que muitos casos representam litígios que se repetem, que atingem mais de uma pessoa ou se assemelham em situações diferentes. Quando as demandas são comuns, é possível julgar a questão de forma
geral e, assim, possibilitar a oferta de solução para um número maior de partes sem que seja necessário esperar por muito tempo.
Constitui-se como cerne do IRDR o fato de que inúmeros casos são idênticos, não pode haver leve semelhança, eles devem compartilhar todas as características no que tange a questão de direito a ser apreciada, além de fato de que não bastam alguns poucos casos, deve existir um número elevado, capaz de realmente causar impactos ao sistema judiciário caso sejam julgados isoladamente, mesmo sendo tão semelhantes entre si (MARINONI, 2015, p. 82-83).
Em face de tal realidade, este estudo tem o objetivo de avaliar o incidente de resolução de demandas repetitivas – IRDR, de acordo com a doutrina brasileira.
Os objetivos específicos foram definidos como: destacar o direito processual civil e as alterações no novo CPC; citar uma conceituação geral do IRDR e apresentar especificidades quanto ao desenvolvimento histórico até as características atuais de legitimidade, competência e procedimentos.
Buscou-se responder ao seguinte questionamento: o que é e como se comporta o IRDR no atual cenário jurídico, a partir da leitura da doutrina e dos dados oficiais sobre o instituto em estudo?
O estudo foi construído a partir de capítulos que permitem uma apreciação detalhada dos diferentes temas que compõem o cerne do estudo. Inicia-se com um capítulo, de número 2, abordando o direito processual civil, os princípios constitucionais incidentes e dados gerais sobre o novo CPC.
No capítulo de número 3 destaca-se uma visão geral do IRDR, um comparativo entre o CPC anterior e atual, suas especificidades no direito comparado, contribuições do novo CPC para seu desenvolvimento, isonomia, segurança jurídica, celeridade processual e razoável duração do processo como princípios que integram seus objetivos.
O capítulo de número 4 aborda o sistema de precedentes judiciais, legitimidade e competência, requisitos, procedimentos, afetação recursal, bem como os resultados que estudos apontam como tendo sido alcançados no período de 2 anos após sua instituição.
Por fim são apresentadas as conclusões alcançadas em todo o estudo e as referências que foram consultadas para obter um maior esclarecimento sobre o tema.
Todos os dados foram coletados a partir de revisão da literatura nacional sobre o tema. Os dados foram coletados a partir do método dedutivo, procedendo-se
da leitura dos dados e, assim, chegando-se a uma conclusão sobre seu significado dentro do tema da pesquisa. Releva destacar que a análise de dados se deu sob a metodologia qualitativa, na qual os números representam menor importância do que as tendências que permeiam o tema (MARCONI; LAKATOS, 2010).
Por ser o IRDR um instituto relativamente recente nos moldes aplicáveis no presente, acredita-se ser de grande importância aos profissionais de direito compreenderem suas especificidades, seu desenvolvimento histórico e os processos pelos quais o referido instituto passou até alcançar as características atuais. Nesse sentido, espera-se que a leitura do presente estudo possa lançar uma luz sobre dúvidas e conduzir à aplicação precisa do IRDR.
2 DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Como este estudo tem foco no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR), uma questão que não era prevista no CPC anterior, considera-se necessário destacar o Direito Processual Civil em linhas gerais, bem como as alterações trazidas pelo novo CPC, que trouxe como uma importante inovação no sentido de agrupar as normas que regem as demandas repetitivas a partir de sua entrada em vigor. Anteriormente havia somente leis esparsas que contemplavam algumas questões relacionadas às demandas repetitivas.
2.1 DIREITO PROCESSUAL CIVIL: CONCEITOS GERAIS
Ao abordar o Direito Processual Civil, aduz-se que este direciona-se especificamente ao processo, destaca seu andamento, quais as fases envolvidas, os ritos que fazem parte dessas fases, bem como os quesitos para que o andamento seja adequado à resolução das questões envolvidas.
Didier Júnior (2017, p. 29) enfatiza que o processo existe para que conflitos sejam resolvidos, sendo que tais conflitos podem existir em qualquer área do direito (civil, penal, trabalhista, etc.). Nesse sentido, cada uma dessas áreas deverá seguir uma organização processual para que a resolução de conflitos ocorra de forma organizada, efetiva e dentro de prazos considerados adequados. O direito processual civil existe para que as normas que regem o processo civil sejam agrupadas, compreendidas e respeitadas, tornando mais eficiente o andamento processual no país.
Nas palavras de Carlos Alberto Álvaro de Oliveira:
[...] o processo não se encontra in res natura, é produto do homem e, assim, inevitavelmente, da sua cultura. Ora, falar em cultura é falar em valores, pois estes não caem do céu, nem são a-históricos, visto que constituem frutos da experiência, da própria cultura humana, em suma. [...]. Por isso mesmo mostra-se totalmente inadequado conceber o processo, apesar do seu caráter formal, como mero ordenamento de atividades dotado de cunho exclusivamente técnico, integrado por regras externas, estabelecidas pelo legislador de modo totalmente arbitrário (2010, p. 94).
Neste sentido, Eduardo Arruda Alvim (2013, p. 22), apresenta o direito processual civil como uma forma jurisdicional de agrupar e organizar os princípios e leis vigentes no país cujo foco é encontrar soluções para conflitos que são levados a
juízo, de modo que o magistrado possa definir uma solução definida com base em cada situação específica que se apresenta, sempre respeitando as leis e os ritos aplicáveis. Os processos apresentam características diversas entre si e, assim, o direito processual civil preocupa-se não apenas como compreender e respeitar essas especificidades, como também encontrar formas de solucionar as questões efetiva e organizadamente.
De acordo com Santos (2014, p. 1), é preciso compreender que o processo passou por diferentes momentos históricos, ao longo dos quais evoluiu e construiu as características que atualmente envolvem tal instituto. A autonomia do processo até o século XVIII era nula, a ação era vista como parte do direito do proponente e, assim, em busca do cumprimento de seus direitos e da resolução de conflitos o litigante dava início a uma ação, que deveria agrupar formas e práticas antes de serem enviadas para a apreciação do juiz.
A autonomia do direito processual surge no século XIX, quando:
[...] após a eclosão da lide, surgia entre a parte e o Estado uma nova relação jurídica nascida justamente da violação do direito subjetivo material e do direito de obter um provimento do órgão judicial contra a tal violação. Assim, a relação material era travada entre as partes diretamente e pertencia ao direito privado; e a relação processual era travada entre a parte e o Estado e, portanto, estava ligado ao direito público, sendo assim, a partir deste momento histórico o direito processual adquire autonomia (SANTOS, 2014, p. 1).
Compreende-se, desta feita, que a autonomia do direito processual decorreu da percepção de que o processo não era somente uma formalidade a ser conduzida pelas partes, mas uma atividade essencial para o correto andamento do direito e a melhor apreciação das lides. O fato é que a evolução do direito processual se deu como uma reposta aos anseios sociais (não diferente de todos os outros processos evolutivos no direito), em busca da possibilidade de não apenas acessar à justiça, mas também como forma de assegurar que tal acesso seria mais efetivo, organizado e preciso (SANTOS, 2014, p. 1).
Importantes as palavras de Boaventura Souza Santos (1999 apud SANTOS, 2014, p. 1), ao esclarecer que:
Depois de um século de extensos estudos sobre os conceitos e as categorias fundamentais do Direito Processual Civil, os juristas atentaram para um fato muito singelo e muito significativo: a sociedade como um todo continuava ansiosa por uma prestação jurisdicional mais efetiva. Aspirava-se, cada vez mais, a uma tutela que fosse pronta e adequada com uma justa e célere realização ou preservação dos direitos subjetivos violados ou ameaçados; por uma Justiça que fosse amoldável a todos os tipos de conflito jurídico e que
estivesse ao alcance de todas as camadas sociais e de todos os titulares de interesses legítimos e relevantes; por uma Justiça, enfim, que assumisse, de maneira concreta e satisfatória, a função de realmente implementar a vontade da lei material, com o menor custo e a maior brevidade possíveis, tudo através de órgãos adequadamente preparados, do ponto de vista técnico, e amplamente confiáveis, do ponto de vista ético.
Para Nader (2010), o convívio social envolve um vasto número de pessoas diferentes entre si e que, assim, podem acabar por ofender a outrem a partir de suas condutas. Nesses casos, a solução dos conflitos pode ser simples ou demandar da atividade do Estado para que medidas justas sejam definidas, de modo que ambas as partes sejam avaliadas, respeitadas em seus direitos, porém, cobradas em seus deveres. O processo é a forma de levar à apreciação legal os conflitos existentes como busca para que a justiça se concretize amplamente.
Na sequência são destacados os princípios constitucionais que regem o processo.
2.1.1 Dos princípios constitucionais que regem o direito processual civil no Brasil
Para que se possa abordar os princípios constitucionais aplicáveis ao direito processual civil, inicialmente se faz necessário conceituar os princípios constitucionais de uma forma ampla e geral, compreendendo seu valor tanto para o direito quanto para a sociedade.
A palavra princípio denota a ideia de início, algo que atua como ponto de partida, como momento inicial, de modo que os princípios constitucionais podem ser compreendidos como as verdades iniciais, aquelas que dão base e partida para as leis e normas que regem a nação. A Constituição Federal apoia-se em princípios que representam o ponto de partida para todos os seus artigos, sempre com foco na justiça e na garantia de direitos aos cidadãos e, assim, os princípios não podem ser ignorados em nenhuma outra lei desenvolvida na nação (BONAVIDES, 2019, p. 228).
Não se pode configurar os princípios constitucionais como conceitos secundários, como se apenas sugerissem o caminho a ser trilhado pelas leis. Muito mais do que isso, os princípios são o próprio caminho, ou seja, todo texto legal somente deverá ser validado se apoiar-se integralmente sobre os princípios constitucionais (BONAVIDES, 2019, p. 229).
De acordo com Silva (2014, p. 447), os princípios constitucionais devem ser compreendidos da seguinte forma:
No sentido jurídico, notadamente no plural, quer significar as normas elementares ou os requisitos primordiais instituídos como base, como alicerce de alguma coisa. E, assim, princípios revelam o conjunto de regras ou preceitos, que se fixaram para servir de norma a toda espécie de ação jurídica, traçando, assim, a conduta a ser tida em qualquer operação jurídica. Todos os ramos do direito devem respeitar os princípios constitucionais, bem como outros princípios que se destinam de forma específica à sua atuação. Assim como ocorre com os demais ramos do direito, o direito processual penal deve seguir alguns princípios essenciais para sua condução regrada e eficiente.
É essencial reconhecer que cabe ao Estado o papel de julgar conflitos que a ele são apresentados, de fato, apenas em algumas hipóteses o exercício privado das razões pode ser aplicado. Nesse sentido:
Considerando que é através do processo que o Estado, após assumir para si a força da prestação jurisdicional, proibindo o exercício privado das próprias razões, excetuadas as hipóteses legalmente previstas, atende aos seus objetivos maiores de garantidor da paz social e das relações jurídicas, resulta inequívoco ser o processo o depositário de um sem número de princípios, ou pressupostos lógicos ou normas, buscando cumprir seus compromissos com a moral e a ética, valendo como algo anterior e externo ao sistema processual e, sobretudo, como bússola na aplicação das regras processuais em busca dos objetivos sociais e políticos do próprio sistema jurídico (MAGALHÃES, 1999, p. 151).
Compreende-se, assim, que os princípios constitucionais que regem o processo civil existem com o objetivo primário de orientar a forma como as regras processuais são formuladas e aplicadas, visando o atendimento de um objetivo social mais amplo, o da justiça para todos os cidadãos.
Destinando-se atenção específica ao direito processual civil, o primeiro princípio aqui apresentado refere-se ao devido processo legal. O referido princípio define que os cidadãos, quaisquer que sejam suas singularidades, têm direito assegurado de acesso a um processo justo para todas as partes, respeitando-se os direitos e deveres envolvidos, além de manter atenção integral às leis da nação (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
Rege o direito processual, também, o princípio da igualdade, que também pode ser designado como princípio da igualdade de tratamento ou paridade, por meio do qual fica definido todos os cidadãos devem receber as mesmas condições, acesso aos direitos e exigência dos mesmos deveres. Todos os cidadãos são iguais, de modo
que o tratamento recebido pela seara jurídica deve ser igualitário (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
Regem o referido ramo do direito, ainda, o princípio do contraditório, bem como o princípio da ampla defesa, cuja base legal encontra-se claramente definida art. 5º da CF, cujo texto define:
Art. 5º [...]
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes; (BRASIL, CF, 2020).
Os referidos princípios são citados de forma conjunta, todavia, não significam a mesma situação. O contraditório refere-se ao fato de que todas as partes de uma ação poderão reagir ao conflito, enquanto a ampla defesa define que cada parte poderá defender-se no devido momento em que a causa é avaliada em juízo (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
Sobre o princípio da publicidade dos atos processuais, este define que os atos processuais devem ser de amplo conhecimento das partes envolvidas, o que permite, ainda, que a própria sociedade seja capaz de verificar a atuação do judiciário, exceto em conflitos nos quais é essencial o segredo de justiça (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
A inafastabilidade do judiciário, também chamada de direito de ação, define que o Estado deve agir sempre que solicitado, com o dever de atuar em busca de apropriada resolução do conflito, impossibilitado de abster-se de apreciar um conflito e dar a ele solução (NUCCI, 2012, p. 43).
A inadmissão da prova Ilícita ou proibição da prova ilícita é a definição de que em todas as lides direcionadas ao poder judiciário, é indispensável avaliar cuidadosamente a veracidade das provas apresentadas, como forma de excluir provas que firam as leis vigentes (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
De acordo com o texto constitucional, in verbis:
Art. 5º [...]
LVI - são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos (BRASIL, CF, 2020).
O princípio chamado de duplo grau de jurisdição (recorribilidade) não está expresso claramente na Constituição Federal, porém, define-se como “a possibilidade de revisão, mediante o recurso cabível, das causas já julgadas pelo juiz de primeiro
grau (ou primeira instância). Dessa forma, esse princípio nos garante a possibilidade de revisão por uma instância superior” (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
O princípio do juiz natural, por sua vez, estabelece como Juiz Natural aquele legalmente definido como sendo competente para a avaliação e julgamento de um conflito, mantendo-se sempre imparcial e independente.
[...] o conteúdo jurídico do principio pode ser resumido na inarredável necessidade de predeterminação do juízo competente quer para o processo quer para o julgamento, proibindo-se qualquer forma de designação de tribunais para casos determinados (LENZA, 2013, p. 1.108).
A motivação das decisões judiciais ou fundamentação das decisões judiciais encontra-se estabelecido no art. 93 da Constituição Federal e seu texto ressalta:
Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, disporá sobre o Estatuto da Magistratura, observados os seguintes princípios: [...]
IX - todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei, se o interesse público o exigir, limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes (BRASIL, CF, 2020). Vilas-Boas (2011, p. 1), quanto ao princípio da segurança jurídica, enfatiza que:
No âmbito processual a ideia de segurança jurídica encontra-se assente na coisa julgada. Essa exteriorização da segurança jurídica como a coisa julgada merece ressalva posto que conforme a situação, apesar da decisão final ter ocorrido não queremos manter uma mentira e sim a verdade. Dessa forma se ficar comprovado que a coisa julgada formada refere-se a uma situação falsa essa pode ser revista, dentro dos critérios existentes para que isso ocorra, como por exemplo, a possibilidade da utilização da Ação Rescisória.
A celeridade define que as partes recorrem ao Judiciário em busca de uma solução para seus conflitos e, assim, devem alcançar os resultados esperados de modo célere, sem atrasos desnecessários. Koeller (2013, p. 86) afirma que não há uma única definição de prazo para os processos, deve-se compreender que diferentes demandas podem exigir tempos variados para sua solução, porém, sempre deve-se prezar pelo mínimo de tempo possível para que os resultados sejam alcançados sem atrapalhar sua eficiência.
O princípio da eficiência foi definido através da Emenda Constitucional nº 19/98, ligando-se diretamente ao respeito e cidadania, pois à administração pública
cabe o dever de seguir todas as leis, primando pela eficiência esperada pelos cidadãos (VILAS-BOAS, 2011, p. 1).
Na sequência procede-se de uma sumarizada avaliação do novo CPC – Código de Processo Civil.
2.2 O NOVO CPC – CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
O CPC em vigor no Brasil datava de 1973, até a promulgação no novo CPC em 2015. Para Didier Júnior (2017, p. 31-33), tal atualização era essencial, considerando-se que a pessoas e a sociedade se modificaram ao longo dos anos e, assim, o processo não poderia ser regido por normas ultrapassadas. Leis somente são válidas, contribuem para o desenvolvimento e a justiça social, quando acompanham suas evoluções, quando levam em consideração que quando as pessoas mudam, as relações sociais se alteram e, assim, situações conflitantes em uma época podem não ser consideradas da mesma forma anos depois.
Em um primeiro momento, vale recordar as principais tendências do novo código: priorização do mérito, cooperação real entre as partes e o juiz da causa, fortalecimento do dever de fundamentação, amplo contraditório, busca efetiva pela conciliação entre as partes litigantes, respeito aos precedentes judiciais, e, por fim, a valorização da vontade das partes em relação aos atos do processo (DOTTI; ANDREASSA JÚNIOR, 2016, p. 1).
Compreende-se, assim, que o novo CPC é inovador, adequa-se à sociedade atual, fortalece os direitos das partes, a igualdade entre elas, sua capacidade de conciliação em situações nas quais isso é possível, sempre como forma de evitar que o processo se torne uma situação de morosidade, lentidão e ineficiência (DIDIER JÚNIOR, 2017, p. 345-346).
Visando obter esclarecimento mais preciso quanto às alterações geradas pelo Novo CPC, apresenta-se o quadro 1, que segue.
Quadro 1 - Alterações trazidas pelo novo CPC
CPC 1973 CPC 2015
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 1º, 5º e 8º: Definição específica do dever de respeitar valores e normas fundamentais da Constituição Federal (boa-fé, fins sociais do Estado, dignidade da pessoa humana, proporcionalidade, etc.)1.
Art. 20. Art. 85. Estabelecimento de parâmetros
específicos aplicáveis para a fixação de honorários advocatícios incidentes sobre o processo
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 133. Traz o incidente da desconsideração da personalidade jurídica e suas regras
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 138. Apresenta a possibilidade de Amicus Curiae, bem como as regras de procedimento
Art. 188. Estabelece prazo em dobro para recurso. Para contestação prazo em quádruplo
Art. 183. Define que o prazo em quádruplo para contestação é extinto, de modo que os prazos são uniformizados em dobro Art. 191. Prazo em dobro no caso de
haver litisconsortes
Art. 229. Prazo em dobro para procurados distintos, diferentes escritórios (processo físico, não em caso de processo eletrônico)
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 3º. Priorização da solução consensual de conflitos, mesmo com processo em curso
Art. 172 e 178. Prazo contínuo, não interrompido por feriados. Petições protocoladas até o fim do prazo
Art. 212. Prazos em dias úteis quando não houver definição específica
Art. 192. 24 horas quando a lei não assinala prazo para conhecimento
Art. 218. Prazo de 48 horas quando não assinalado prazo para conhecimento SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 218. Recursos protocolados antes da
publicação são tempestivos (Súmula 418 do STJ)
Art. 179. Previsão genérica sem datas de suspensão do curso do prazo nas férias forenses
Art. 220. Suspensão de prazos de 20 dez. a 20 jan., exceto para serviços internos de juízes, Ministério Público, defensoria pública, auxiliares de justiça
Art. 182. Sem prorrogação de prazos peremptórios. Calamidade e comarcas de difícil acesso possível prorrogação de prazos pelo juiz
Art. 222. Juiz pode reduzir prazos peremptórios mediante concordância das partes
Art. 285/331/449. Procedimentos para audiência sem citação específica de realização por meio eletrônico
Art. 334. Possibilidade de realização (meio eletrônico) de conciliação. O juiz deve conciliar
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 926. Tribunais devem primar pela uniformização da jurisprudência
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 927. Possibilidade de audiências
públicas para alterar o entendimento
de recursos repetitivos2
Art. 557. Art. 932. Permite que o relator decida
(monocrático) um recurso com tema de
demandas repetitivas2.
Art. 554/565. Pode ocorrer sustentação oral sem tipos processuais específicos. Possível alteração de ordem (pedido do advogado)
Art. 937. Possível sustentação oral em caso de agravo interno com extinção monocrática e ação originária no tribunal
Art. 556. Parcial Art. 941. Define que voto vencido integra o voto (conforme a súmula 32º do STJ)
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 947. Estabelece o incidente de assunção de competência
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 976. Incidente de Resolução de
Demandas Repetitivas2
Art. 506/508/242 Art. 1003. Uniformização de prazos, (15 dias úteis, exceto embargos de declaração - 5 dias)
Art. 265/507. Suspensão do processo e procedimentos no início da audiência. Restituição do prazo diante de força maior, falecimento da parte ou advogado
Art. 1004. Caso uma das partes faleça os prazos são interrompidos
Art. 538. Art. 1026. Dois embargos de declaração anteriores vistos como protelatórios não se admite terceiro.
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 1029. STJ e STF podem
desconsiderar vício formal de recurso (sem gravidade).
SEM CORRESPONDÊNCIA Art. 1032/1033. Recurso especial sobre tema constitucional pode ser enviado ao STF pelo relator do recurso no STJ ou vice-versa
Art. 543-B, 543-C. Art. 1.036. Possível pedido de exclusão
de recurso intempestivo quando
especial aguarda julgamento
repetitivo2
Art. 546. Apenas acórdãos de mérito podem ser objeto de divergência
Art. 1043. Cabe embargos de divergência sobre técnica de análise de juízo de admissibilidade
Fonte: Adaptado da Lei nº 13.105 (BRASIL, 2015).
O novo CPC apresentou inúmeras inovações, atualizando-se com a realidade social corrente e, assim, fazendo com que o processo passe a ser conduzido a partir de normas que se equilibram com as demandas atuais. Há um amplo esforço
para que o acesso à justiça se torne mais amplo, além de uma busca para que haja maior celeridade processual. O CPC atual poderia apresentar evoluções ainda mais significativas, todavia, as ocorridas não podem ser consideradas como irrelevantes (DIDIER JÚNIOR, 2017, p. 344-347).
É importante esclarecer que o CPC em vigor anteriormente era voltado para atender às demandas jurídicas de uma sociedade com foco em cada situação e, assim, todas as questões eram abordadas sob a perspectiva individual. Ocorre que as pessoas e as sociedades se alteraram, passaram a reconhecer a questão coletiva como presente e importante em sua realidade e, com isso, as demandas coletivas também se tornaram comuns. Em face dessa realidade, o novo CPC adequou-se a essa perspectiva modificada e mais ampla (FOGAÇA; CAMBI, 2015, p. 2-3).
3 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS: VISÃO GERAL
Esta etapa do estudo visa prestar esclarecimentos gerais a respeito da resolução de demandas repetitivas no Brasil, citando conceitos, desenvolvimento histórico, raízes no direito comparado, seu papel na celeridade processual e a busca pela razoável duração do processo.
3.1 EVOLUÇÃO DO IRDR: DO CPC ANTERIOR AO ATUAL
O direito brasileiro, de forma geral, sempre definiu que as demandas existentes sejam julgadas de forma individual. Para cada processo deveria haver uma apreciação de suas especificidades e, assim, as sentenças serão específicas ao pedido em uma apreciação única. O Código de Processo Civil anterior pautava-se no ideal de que um julgamento individual teria a característica de ofertar iguais direitos e proteção às partes e, nesse sentido, somente admitia que uma demanda fosse apreciada por si só (CUNHA, 2009, p. 236).
No entanto, no perpassar dos anos, surge a percepção de que as ações coletivas deveriam ser normatizadas, deveriam ter instrumentos jurídicos que fossem desenvolvidos com foco em suas especificidades, respeitando o fato de que nem todo processo deveria ou poderia ser apreciado de forma individual e com um julgamento singular. Em 1965, a Lei nº 4.717 regulamentou a ação popular, em 1985 a Lei nº 7.347 regulamentou a ação civil pública, e em 1992 a Lei nº 8.429 definiu-se a ação de improbidade administrativa. Assim, as ações coletivas foram regidas, por muitos anos, com base em um subsistema próprio (CUNHA, 2009, p. 237).
O Novo CPC, em vigor a partir de março de 2016, buscou reconhecer a importância das demandas coletivas e da existência de demandas repetitivas, trazendo importantes inovações nessa seara. De forma geral, sua competência recai sobre os tribunais de justiça, além dos tribunais regionais federais (OLIVEIRA, 2016, p. 66).
Em face das especificidades que envolvem o IRDR, considera-se essencial buscar suas raízes no direito comparado, verificando-se como outras nações aplicam o referido instituto e quais foram as características que foram incorporadas a ele no direito brasileiro.
3.1.1 O IRDR no direito comparado
Ao abordar o IRDR, deve-se ressaltar que tal instituto não teve origem no Direito brasileiro, de fato, foram trazidos de outros países os conceitos que aqui foram adaptados para atender às demandas nacionais. Mendes (2017, p. 27) enfatiza que uma análise doutrinária deixa evidente o posicionamento de autores ressaltando que o IRDR brasileiro apoiou-se nas chamadas “test-claims” existentes na América do Norte e na Inglaterra, no “musterverfahren” da Alemanha, na “Group Litigtion Order” praticada na Inglaterra e País de Gales, bem como o chamado “Pilot-judgement procedure”, verificado na Corte Europeia de Direitos Humanos.
Deve-se ressaltar, nesse sentido, que diferentes experiências foram avaliadas e, a partir delas, foram desenvolvidos mecanismos visando a resolução de demandas repetitivas de acordo com a realidade brasileira, nenhuma delas foi copiada e trazida integralmente para o ordenamento jurídico nacional, mas serviram como fonte de inspiração para que o tema fosse melhor compreendido e pudesse gerar benefícios também no Brasil (MENDES, 2017, p. 27-28).
O IRDR baseia-se no Direito Alemão, em lei editada em 2005, visando atender, inicialmente, litigantes do mercado de capitais que recorriam ao ordenamento jurídico pleiteando soluções para uma mesma ocorrência, de realização de uma mesma empresa. O intuito inicial era a duração de 5 anos desse instituto, porém, diante da percepção de que ações de grandes empresas tinham potencial de lesar milhares de pessoas, tornou-se um instituto amplamente reconhecido e praticado, visando encontrar formas de acelerar os processos e atender a esse número elevado de litígios (OLIVEIRA, 2016, p. 65).
Mendes (2017, p. 30) leciona que entre 1960 e 1980 a Alemanha viu crescer de forma exacerbada em seus tribunais o número de demandas repetitivas, especialmente envolvendo usinas nucleares que funcionavam no país. Com esse aumento considerável no número de demandas, o sistema judiciário do país passou a apresentar maior morosidade e, assim, surgem esforços para evitar que essa situação se mantivesse por mais tempo. Passaram a ocorrer esforços por parte de estudiosos na área no sentido de encontrar regras que pudessem reger com efetividade a situação das demandas repetitivas, ofertar solução a elas sem que isso fizesse dos tribunais espaços com dezenas de processos semelhantes aguardando uma solução.
Em 1979, em face de milhares de processos voltados a uma mesma questão, o Tribunal Administrativo de Munique selecionou 40 processos administrativos entre os mais de 5 mil que se encontravam no aguardo de uma solução, deveriam seguir os ritos normais e serem julgados, enquanto os demais aguardariam essas decisões, permanecendo suspensos, para que se criasse um modelo aplicável a eles. Ao avaliar a questão, a Corte Constitucional alemã verificou que se tratava de um esforço para que a prestação jurisdicional ocorresse dentro de um período considerado razoável e, assim, seriam assegurados os direitos dos reclamantes, ao invés de terem que aguardar por longos períodos por uma resolução (MENDES, 2017, p. 31-32).
Os mais de 5 mil processos no Tribunal Administrativo de Munique haviam sido encerrados em 1991, os recursos em 2ª instância haviam sido julgados, assim como em instância superior. A economia decorrente dessa avaliação de processos repetitivos e suspensão dos demais foi de 89 milhões de marcos alemães (MENDES, 2017, p. 33).
Todavia, o fato de aproximar-se mais do direito alemão do que de outras fontes de direito não significa que o instituto no Brasil seja igual a tal nação. O fato é que a experiência alemã foi amplamente avaliada em todo o mundo e vários países apoiaram-se nela para desenvolver suas próprias especificidades e, assim, o direito brasileiro seguiu os mesmos passos, baseando-se em diversas fontes, porém, selecionando aquela sobre a qual havia um número maior de debates e esclarecimentos que poderiam ser aproveitados visando o desenvolvimento de normas específicas (MENDES, 2017, p. 27-28).
Deve-se ressaltar, porém, que o modelo alemão tão somente “[...] se restringe a causas de acionistas do mercado de ações, sendo essencial a propositura de dez causas idênticas sobre questões jurídicas ou de fato, com base nas quais se instaura o regime e se desloca o processo para um tribunal” (OLIVEIRA, 2016, p. 65).
No ordenamento jurídico brasileiro as especificidades são diferenciadas, “em suma, apesar de ter inspirado a Comissão do novo CPC, o modelo alemão trouxe poucos elementos como contribuição para o nosso Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas” (OLIVEIRA, 2016, p. 65), conforme será detalhado no Capítulo 4 do presente estudo.
Na sequência, procede-se de uma análise quanto às contribuições do novo CPC para a instituição do IRDR.
3.1.2 Contribuições do novo CPC quanto ao IRDR
O fato é que o Código de Processo Civil anterior, de 1973, foi desenvolvido em outra sociedade, com características totalmente diferentes das atuais, uma sociedade “[...] individualista, patrimonialista e liberal, com dinâmica bastante diversa da contemporânea, caracterizada pela massificação dos conflitos e da globalização” (FOGAÇA; CAMBI, 2015, p. 2-3).
O CPC anterior já havia passado por diversas reformas, inclusive no intuito de adequá-lo ao que definia a Constituição Federal – CF, posteriormente, em 1988. A sociedade capitalista tem uma característica mais individualista, porém, o passar dos anos fez com que essa característica já não fosse mais satisfatória para os indivíduos, em face da compreensão de que as sociedades são grupos de pessoas, não pessoas isoladas (FOGAÇA; CAMBI, 2015, p. 2-3). Posteriormente, no tópico 3.3, será demonstrado que a celeridade processual também pode ser alcançada por meio desse instituto.
Temer (2018, p. 31) ressalta que:
Os meios processuais destinados à resolução de casos repetitivos evidenciam a preocupação com uma problemática contemporânea, de massificação e homogeneização das relações jurídicas, dos vínculos sociais e dos conflitos. A concentração demográfica nos centros urbanos, a globalização, a distribuição seriada de produtos, a universalização do acesso a serviços e sua precarização, a virtualização das relações jurídicas, entre inúmeros outros fatores, vêm gerando o crescimento e a repetição dos vínculos jurídicos e, por consequência, dos conflitos levados ao Judiciário. Na verdade, o que é preciso compreender, é que as pessoas vivenciam situações similares, para as quais a solução também pode ser parecida e, assim, ignorar as demandas repetitivas era ignorar o crescimento social e populacional, que trouxe consigo mais similaridades entre a vida dos cidadãos do que diferenças entre elas (TEMER, 2018, p. 31).
Martins (2017, p. 1) ressalta que uma das principais motivações para o desenvolvimento do IRDR foi a busca pela redução do número de processos, pela celeridade processual e pelo atendimento dos cidadãos que necessitam de uma solução, mas poderiam não a encontrar de forma individualizada, pelo menos não dentro de um período de tempo reduzido. De fato, a construção do novo CPC se deu com esse importante intuito, o de reduzir a morosidade processual tão considerável o Brasil.
Não se pode dizer, porém, que somente vantagens e pontos positivos são vistos quando se aprecia a questão do IRDR. Marinoni (2015, p. 400), ao avaliar o tema, refere que:
O Código de Processo Civil de 2015, ao instituir o incidente de resolução de demandas repetitivas e o sistema de recursos extraordinário e especial repetitivos, buscou otimizar a resolução de “casos idênticos”, mas, com isso, restringiu a possibilidade de participação dos litigantes na discussão das questões submetidas aos tribunais e às Cortes Supremas.
Nesse sentido, o autor acredita que se obteve uma evolução no sentido de resolver de forma efetiva demandas que se repetem no judiciário em busca de uma solução, porém, também se estabeleceu uma limitação no que tange a possibilidade dos litigantes debaterem os fatos.
Por outro lado, deve-se compreender que:
O incidente de resolução é uma técnica processual destinada a criar uma solução para a questão replicada nas múltiplas ações pendentes. Bem por isso, como é obvio, a decisão proferida no incidente de resolução de demandas repetitivas apenas resolve casos idênticos. Essa a distinção básica entre o sistema de precedentes das Cortes Supremas e o incidente destinado a dar solução a uma questão litigiosa de que podem provir múltiplos casos (MARINONI, 2015, p. 401).
Compreende-se, assim, que o IRDR se apoia na existência de diversas pendências sobre uma mesma questão, carregando em si um litígio comum a todos os solicitantes. Ao invés de julgar cada caso, eles são julgados pela perspectiva de que se assemelham na busca de um mesmo resultado.
De acordo com Souza (2015, p. 99-100), a sociedade atual é uma sociedade em massa, o número de cidadãos é elevado e muitos deles buscam pela via judicial a solução de conflitos. Com isso, milhares de processos extremamente semelhantes são levados à apreciação da justiça todos os anos. Isso exige tempo, recursos financeiros, materiais e pessoais para que soluções sejam encontradas. É dizer que processos iguais são julgados separadamente, causando morosidade e custos, quando poderiam ser resolvidos sob uma mesma ótica, a das demandas repetitivas.
Temer (2018, p. 39) leciona, sobre o intuito central do IRDR, que sua busca principal recai sobre:
[...] à prolação de uma decisão única que fixe tese jurídica sobre uma determinada controvérsia de direito que se repita em numerosos processos. O instituto encontra sustentação em alguns direitos fundamentais, que o
legitimam enquanto técnica processual diferenciada, à luz da Constituição da República.
Para Souza (2017, p. 3), o IRDR pode ser visto como um dos instrumentos mais relevantes do novo CPC, voltado à simplificação e aceleração de demandas múltiplas, aquelas que se assemelham e se repetem inúmeras vezes, que precisam ser analisadas para que ocorra uma decisão quanto a elas, sempre envolvendo uma mesma questão de direito. De fato, o novo CPC é importante na atualização de diversas questões relacionadas ao processo civil e que precisavam ser revistas, trazidas para um contexto mais atual, porém, o IRDR era uma necessidade que já havia sido atendida em outros países, mas que no Brasil ainda caminhava a passos muito lentos.
Na sequência são elencados os princípios que incidem sobre o IRDR e devem ser resguardados pelo referido instituto, a isonomia e a segurança jurídica.
3.2 PRINCÍPIOS DA ISONOMIA E SEGURANÇA JURÍDICA
A isonomia e a segurança jurídica são os pilares do IRDR, eles não apenas norteiam sua aplicação como servem de justificativa para seu desenvolvimento. Se os processos versam sobre uma mesma questão, então devem ser abordados de forma isonômica, permitindo-se que haja igualdade de decisão para eles. Quando há disparidade de resoluções para casos que se assemelham, então a isonomia não apenas é colocada em risco, como é amplamente desrespeitada, o que o ordenamento jurídico de um país jamais deveria aceitar (TEMER, 2018, p. 39-40).
“A isonomia não é um prius existencial ao direito. Embora sem ela não se possa cogitar de ordem; essa mesma ordem‚ (deve ser) construída pelo direito” (BALERA, 2008, p. 1).
Pensando-se na isonomia e sua ligação com a segurança jurídica, Temer (2018, p. 40) esclarece que:
A isonomia, por sua vez, está intimamente ligada com a previsibilidade e com a estabilidade da prestação jurisdicional, que concretizam a segurança jurídica. Ao fixar uma tese jurídica aplicável às mesmas questões, o Judiciário consolida seu entendimento e possibilita o estabelecimento de padrões de conduta confiáveis aos jurisdicionados. Do mesmo modo, o IRDR tem potencial para consagrar o direito à razoável duração do processo, por permitir a redução do tempo de duração dos processos judiciais, sob duas perspectivas distintas e complementares. De um lado, o incidente de resolução de demandas repetitivas tem potencial de reduzir o tempo de tramitação dos processos em que há a questão comum, pela adoção da tese
fixada, limitando a rediscussão do tema, que muitas vezes ocorre no seio de recursos protelatórios. Tais técnicas permitem que o órgão julgador se dedique de forma mais aprofundada para resolver concentradamente uma questão jurídica, o que possibilita um acréscimo qualitativo da decisão proferida acerca do tema. Evita que o Judiciário analise incontáveis vezes a mesma questão.
Fogaça e Cambi (2015, p. 5) destacam, porém, que o foco na isonomia e segurança jurídica não pode conduzir o juiz a atuar tão somente como um repetidor de precedentes, “isto conduziria a um positivismo jurisprudencial judicial, sem que o precedente fosse aplicado com a devida análise e comparação entre o leading case e o caso concreto em julgamento”. Nesse sentido, os precedentes de tribunais superiores devem ser aplicados aos processos em massa, aqueles que se reproduzem inúmeras vezes, porém, isso somente poderá ocorrer de forma adequada se houver uma compreensão detalhada das situações em que foram geradas e, assim, se mantém também a racionalidade e a eficiência da prestação jurisdicional.
Martins (2017, p. 1) ressalta que “a massificação de processos, propositura de ações em larga escala resultante de atividades reiteradas na iniciativa privada ou no setor público, tratando do mesmo direito, por si só, já representa um perigo à segurança jurídica e à isonomia”.
Oliveira (2016, p. 66) destaca que causas idênticas julgadas sob uma apreciação diversa podem ferir a isonomia dos reclamantes e isso contraria completamente o que deve ocorrer quando o cidadão busca apoio legal para a resolução de seus conflitos.
No entanto, há que se compreender que o IRDR não fere a isonomia das partes, todas buscam solução para uma questão muito semelhante e, assim, os resultados também se assemelham. Não obstante, para que todos possam ter acesso à justiça e alcançar soluções para seus litígios, a análise de demandas repetitivas configura-se como uma garantia desse direito que não pode ser ignorada. “O incidente visa buscar a garantia da isonomia e segurança jurídica e, para tanto, será viável sua utilização quando houver efetivo ou potencial risco de ocorrência de demandas repetitivas acerca de pretensões isomórficas” (SOUZA, 2017, p. 4).
Compreende-se, assim, que isonomia e segurança jurídica são princípios valorizados e assegurados pelo IRDR, partindo-se para a análise da questão da celeridade processual e razoável duração do processo como medidas essenciais para que os tribunais brasileiros possam prestar tutela jurisdicional adequada, dentro de limites temporais considerados próprios e cabíveis.
3.3 CELERIDADE PROCESSUAL E RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO
Quando os cidadãos buscam a resolução de seus litígios, porém encontram tribunais sobrecarregados, nos quais impera morosidade e espera longa, surge um sentimento de desrespeito, de injustiça e impossibilidade de contar com o sistema judiciário para colocar fim a um litígio considerado como um problema para as partes. Nesse sentido, todas as medidas que puderem alterar essa realidade devem ser adotadas pelo benefício dos cidadãos e do próprio sistema (MARTINS, 2017, p. 1).
Em espaços sociais cada vez mais amplos, ou seja, com um número cada vez maior de pessoas, o número de demandas judiciais cresce e, com isso, o sistema já não consegue atender a todos os litígios de forma eficiente e célere. Muitas vezes, pedidos de diferentes pessoas acabam por tomar características semelhantes (TEMER, 2018, p. 32).
O ideal atual refere-se à ampliação do acesso à justiça, todos os cidadãos que se veem diante de um litígio e para sua resolução precisam buscar respaldo judicial devem conseguir uma resposta de forma célere, para que até a resolução do processo o resultado já não tenha mais valia para as partes (FOGAÇA; CAMBI, 2015, p. 2-3).
Coelho (2019, p. 6) traz alguns dados a respeito da onerosidade percebida nos tribunais brasileiros:
Com cerca de 39 mil ações em tramitação no Supremo, as sessões de julgamento não têm logrado absorver todas as discussões com repercussão geral reconhecida. Levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Justiça revela que nos últimos seis anos, mais do que dobrou o número de ações paralisadas no Judiciário aguardando o desfecho no Supremo do julgamento de temas afetados por repercussão geral. Segundo dados do STF, em fevereiro de 2019 havia 425 mil processos sobrestados, aguardando decisão final em temas de repercussão geral (COELHO, 2019, p. 6).
Compreende-se, assim, que apesar da importância da prestação jurisdicional, no Brasil ela ainda não ocorre dentro de moldes satisfatórios de celeridade, muitas vezes em decorrência do sistema judiciário brasileiro, que poderia reduzir a morosidade quando processos extremamente semelhantes fossem apreciados a partir do IRDR (TEMER, 2018, p. 32-33).
Souza (2017, p. 4) afirma que os órgãos jurisdicionais brasileiros, no presente, estão com mais processos do que conseguem julgar, o que faz com que as partes não recebam a tutela jurisdicional que seria de seu direito e isso tem ampla
relação com o fato de que existe uma “[...] massificação de litígios, fenômeno esse que retrata o grande volume de demandas repetitivas pendentes de apreciação e julgamento pelo Judiciário”.
O fato é que o novo CPC, dentre vários objetivos, busca assegurar a celeridade processual, ou seja, garantir que as partes possam rapidamente resolver seus conflitos com igualdade de apreciação e mantendo-se a segurança jurídica.
A instituição de um novo Código de Processo Civil, que prevê um microssistema específico para casos repetitivos, e, por isso, reconhece a magnitude de seus impactos jurídicos, políticos e sociais, pode ser o momento para repensar a estruturação de tais mecanismos e revisitar sua natureza e sua dogmática, para tentar apresentar uma sistematização que lhe seja adequada34. A efetividade do sistema processual, mediante a adequação aos conflitos a que se destina tutelar, é que deve nortear o desenvolvimento e refinamento da técnica (TEMER, 2018, p. 38).
Pensando-se na razoável duração do processo, ressalta-se que tal esforço consolidou-se no Brasil no ano de 2004, por conta da Emenda Constitucional nº 45. Seu texto acrescentou o inciso LXXVIII (78) ao art. 5º da Constituição Federal visando assegurar expressamente a todos os cidadãos que necessitem de atuação judicial e administrativa uma razoável duração do processo (KOELLER, 2013, p. 86).
O texto da referida EC define:
"Art. 5º... ...
LXXVIII a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação (BRASIL, EMENDA CONSTITUCIONAL nº 45, 2004).
Compreende-se, assim, que todos os processos em tramitação no país devem seguir tal princípio, no sentido de serem céleres, mantendo-se o respeito aos prazos e ritos, porém, sem que isso faça com que se tornem onerosos, lentos e não contribuam para as partes na busca pela resolução de seus litígios.
Porém, o tema ainda precisa de maiores esclarecimentos, considerando-se que não existe um único prazo a considerando-ser citado como razoável, cada processo apresenta especificidades que precisam ser reconhecidas e respeitadas.
[...] impossível fixar priori um regra específica, determinante das violações ao direito à tutela jurisdicional dentro de um prazo razoável e que a razoabilidade em tela carece de limites preciosos. No entanto como visto, esse prazo varia de caso a caso, dependendo dentre outros fatores, das provas que deverão ser produzidas, da complexidade da questão a ser decidida, da atuação das partes, dos órgãos estatais e de todos os que colaborem em um processo judicial (como perito ou um tradutor) (TUCCI, apud KOELLER, 2013, p. 86).
Uma apreciação do sistema processual brasileiro permite ressaltar que para verificar qual seria o tempo ideal do processo, é preciso somar os prazos do Código de Processo Civil que envolvem os atos constitutivos do procedimento e o tempo de trânsito em julgado dos processos, recordando-se que a tutela jurisdicional que ultrapasse a soma desses fatores deve ser considerada intempestiva (KOELLER, 2013, p. 82).
[...] o direito à razoável duração do processo, do modo como foi assegurado na convenção Americana de Direitos Humanos, não se choca com qualquer dispositivo constitucional – muito pelo contrário, se coaduna perfeitamente com a CF, e não tem divergência direta com a legislação complementar ou ordinária que lhe seja posterior. Assim, qualquer que seja a posição adotada na questão adrede exposta, como não há de deixar de se considerar a duração razoável como direito fundamental no ordenamento jurídico brasileiro – e agora indiscutivelmente alçado a nível constitucional pela E.C 45/2004 (KOEHLER, 2013, p. 46).
Cada processo possui especificidades que não podem ser ignoradas, sob o risco de conduzir a uma solução insatisfatória e, assim, deixar de cumprir seu papel social. Moreira (2001 apud SOUZA, 2017, p. 5) afirma que:
Se uma justiça lenta demais é decerto uma justiça má, daí não se segue que uma justiça muita rápida seja necessariamente uma justiça boa. O que todos devemos querer é que a prestação jurisdicional venha a ser melhor do que é. Se para torná-la melhor é preciso acelerála, muito bem: não, contudo, a qualquer preço.
Compreende-se, assim, que a celeridade processual e a razoável duração do processo não são esforços para abreviar o andamento da justiça, apenas configuram-se como um esforço para evitar que os cidadãos tenham que esperar por anos até verem seus litígios apreciados e diante de uma solução. Todavia, isso não pode vir a atuar como um fator que reduza a qualidade dos serviços jurisdicionais prestados, o que comprometeria outros direitos, como isonomia e segurança jurídica, dos quais não se pode abrir mão para alcançar um ordenamento jurídico realmente efetivo (SOUZA, 2017, p. 5-6).
Assim sendo, a celeridade processual e a razoável duração do processo não são apenas possibilidades aplicáveis ao sistema judicial brasileiro, de fato, são medidas necessárias pensando-se nos direitos dos cidadãos e no respeito por questões que podem fazer grande diferença em suas vidas.
4 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS: O SISTEMA DE PRECEDENTES JUDICIAIS
O número de causas nos tribunais brasileiros é elevado, na maioria das vezes superior à capacidade desses tribunais de apreciar e julgar cada lide. Não obstante, ressalta-se que muitas dessas causas se repetem, não significa que poderão se repetir, mas de fato repetem-se com elevada incidência.
Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015, p. 566) ressaltam que essa é uma questão essencial a se compreender quanto às demandas repetitivas, não se pode levar em consideração o potencial que se repitam no futuro, deve-se avaliar se, no momento, essa repetição está ocorrendo.
Todavia, Câmara (2015, p. 479) afirma que, avaliando a doutrina, é possível perceber que existem posicionamentos doutrinários que ressaltam que quando uma matéria gerará, sem dúvidas, uma série de processos, isso já configura possibilidade de instauração do incidente de resolução de demanda repetitiva - IRDR.
No entanto, o ideal é avaliar se a mesma demanda já foi realizada repetidas vezes, se de fato diferentes pessoas buscaram resolução para uma mesma situação e, assim, esta vem se repetindo e tornando maior o número de processos nos tribunais. Ressalta-se que em nenhum momento a legislação define um número mínimo indispensável de processos para que se estabeleça o IRDR, porém, somente alguns processos, considerados como número irrisório, não podem ser usados para justificar esse incidente (MARINONI; ARENHART; MITIDIERO, 2015, p. 566-567).
O julgado do TRT-4, de 2017, deixa evidente que:
INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS (IRDR). ADMISSIBILIDADE. Considerando o disposto no artigo 976 do CPC, o
qual estabelece que o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas é cabível quando, concomitantemente, houver efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre a mesma questão de direito (inciso I) e risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica (inciso II), entende-se que na hipótese não estão contemplados tais
requisitos a fim de autorizar a admissão do presente Incidente (RIO GRANDE DO SUL, TRT-4, 2017, grifo nosso).
O julgado supracitado deixa claro que o IRDR somente poderá ser instaurado diante da real repetição de processos sobre o mesmo tema de direito, causando riscos à isonomia e segurança jurídica diante da possível demora para sua resolução, o que atinge as partes que buscam solução para seus litígios.
Caso haja um considerável número de processos sobre o mesmo tema e ser resolução, isso poderia indicar a aplicabilidade do IRDR, no sentido de evitar que essas demandas se estendam e que outras venham a ser iniciadas, todas sem resolução por um período de tempo prolongado, o que afeta a agilidade dos tribunais, bem como o direito dos cidadãos de ter acesso à justiça e solução para seus conflitos (NEVES, 2016, p. 1.400).
O processo, concebido como instrumento da tutela de direitos individuais, passou por mudanças decorrentes de esforços visando tornar o sistema judiciário do país mais efetivo e, assim, representando então uma tutela de direitos coletivos (ZANFERDINI; SANTOS, 2016, p. 524).
O incidente de resolução de demandas repetitivas previsto no novo Código de Processo Civil pode ser compreendido como um instituto que reforça a tutela coletiva de direitos mediante a utilização das técnicas processuais modernas que valorizam a jurisprudência dos tribunais – nesse caso específico inclusive e especialmente a de segunda instância – por meio dos denominados procedimentos representativos (ZANFERDINI; SANTOS, 2016, p. 527).
Quanto ao IRDR, não se trata de aplicar as regras aplicáveis aos processos de ações coletivas, elas devem seguir características específicas, que diferem de demandas coletivas e de demandas individuais, o que faz com que sejam classificadas como pseudoindividuais por alguns doutrinadores e operadores de direito. Devem seguir a dogmática específica na qual é preciso avaliar e selecionar as ações que representam sua realidade. Sendo proferida a decisão no processo de demandas repetitivas, as demais terão a mesma tese aplicada, sempre com foco na manutenção da “[...] isonomia, certeza do direito, segurança, previsibilidade e estabilidade da ordem jurídica” (ZANFERDINI; SANTOS, 2016, p. 528).
São formados precedentes judiciais a partir de demandas individuais, assumindo poder vinculante, o que difere essas ações da tutela coletiva, de modo que:
Cuida-se de dar ao Judiciário mecanismo que permita agilização processual e organização da litigância de massa, racionalizando a prestação jurisdicional dos processos que se repitam aos milhares, versando sobre uma mesma tese jurídica (ZANFERDINI; SANTOS, 2016, p. 528).
O intuito é evitar que uma mesma tese jurídica tenha que ser aplicada a inúmeros processos individuais, o que faria com que os tribunais, que já estão
sobrecarregados, tenham ainda mais dificuldades em lidar com as demandas dos cidadãos que têm direito de acesso à justiça.
Na sequência aborda-se a questão de legitimidade e competência para a instauração do IRDR.
4.1 LEGITIMIDADE E COMPETÊNCIA
As especificidades que envolvem o IRDR devem ser esclarecidas de acordo com o que define o novo CPC, iniciando-se com a questão relacionada à legitimidade. Sobre a legitimidade, o novo CPC destaca:
Art. 977. O pedido de instauração do incidente será dirigido ao presidente de tribunal:
I - pelo juiz ou relator, por ofício; II - pelas partes, por petição;
III - pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública, por petição.
Parágrafo único. O ofício ou a petição será instruído com os documentos necessários à demonstração do preenchimento dos pressupostos para a instauração do incidente (BRASIL, CPC, 2020).
Assim, cabe ao juiz, relator por ofício, as partes (através de petição), Ministério Público ou Defensoria Pública a legitimidade para sua proposição. O julgamento da questão do IRDR deverá gerar uniformização da jurisprudência no órgão indicado (art. 978), a divulgação deve ser ampla e específica, por meio dos canais eletrônicos disponíveis (art. 979), com prazo para julgamento de um ano, tendo preferência sobre os demais feitos, exceto em casos nos quais o réu esteja preso, além dos pedidos de habeas corpus. Após esse prazo a suspensão dos processos estará cessada, exceto se houver decisão fundamentada do relator que indique necessidade de manter essa suspensão (art. 980).
Ressalta-se decisão sobre a competência, que define:
A competência para processar e julgar o incidente de resolução de demandas repetitiva é do tribunal de segundo grau, e não do Supremo Tribunal Federal. A decisão é do ministro Dias Toffoli, presidente do STF, ao confirmar que o Supremo não detém competência originária para processar e julgar IRDR. Na fundamentação da decisão, o presidente cita a Petição (PET) 1.738, de relatoria do ministro Celso de Mello, indicando que o regime de direito estrito tem levado o STF a afastar, do âmbito de suas atribuições jurisdicionais originárias, o processo e o julgamento de causas de natureza civil que não estão no texto constitucional, como ações populares, ações civis públicas, ações cautelares, ações ordinárias, ações declaratórias e medidas cautelares (CONJUR, 2019, p. 1).