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CELERIDADE PROCESSUAL E RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO

Quando os cidadãos buscam a resolução de seus litígios, porém encontram tribunais sobrecarregados, nos quais impera morosidade e espera longa, surge um sentimento de desrespeito, de injustiça e impossibilidade de contar com o sistema judiciário para colocar fim a um litígio considerado como um problema para as partes. Nesse sentido, todas as medidas que puderem alterar essa realidade devem ser adotadas pelo benefício dos cidadãos e do próprio sistema (MARTINS, 2017, p. 1).

Em espaços sociais cada vez mais amplos, ou seja, com um número cada vez maior de pessoas, o número de demandas judiciais cresce e, com isso, o sistema já não consegue atender a todos os litígios de forma eficiente e célere. Muitas vezes, pedidos de diferentes pessoas acabam por tomar características semelhantes (TEMER, 2018, p. 32).

O ideal atual refere-se à ampliação do acesso à justiça, todos os cidadãos que se veem diante de um litígio e para sua resolução precisam buscar respaldo judicial devem conseguir uma resposta de forma célere, para que até a resolução do processo o resultado já não tenha mais valia para as partes (FOGAÇA; CAMBI, 2015, p. 2-3).

Coelho (2019, p. 6) traz alguns dados a respeito da onerosidade percebida nos tribunais brasileiros:

Com cerca de 39 mil ações em tramitação no Supremo, as sessões de julgamento não têm logrado absorver todas as discussões com repercussão geral reconhecida. Levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Justiça revela que nos últimos seis anos, mais do que dobrou o número de ações paralisadas no Judiciário aguardando o desfecho no Supremo do julgamento de temas afetados por repercussão geral. Segundo dados do STF, em fevereiro de 2019 havia 425 mil processos sobrestados, aguardando decisão final em temas de repercussão geral (COELHO, 2019, p. 6).

Compreende-se, assim, que apesar da importância da prestação jurisdicional, no Brasil ela ainda não ocorre dentro de moldes satisfatórios de celeridade, muitas vezes em decorrência do sistema judiciário brasileiro, que poderia reduzir a morosidade quando processos extremamente semelhantes fossem apreciados a partir do IRDR (TEMER, 2018, p. 32-33).

Souza (2017, p. 4) afirma que os órgãos jurisdicionais brasileiros, no presente, estão com mais processos do que conseguem julgar, o que faz com que as partes não recebam a tutela jurisdicional que seria de seu direito e isso tem ampla

relação com o fato de que existe uma “[...] massificação de litígios, fenômeno esse que retrata o grande volume de demandas repetitivas pendentes de apreciação e julgamento pelo Judiciário”.

O fato é que o novo CPC, dentre vários objetivos, busca assegurar a celeridade processual, ou seja, garantir que as partes possam rapidamente resolver seus conflitos com igualdade de apreciação e mantendo-se a segurança jurídica.

A instituição de um novo Código de Processo Civil, que prevê um microssistema específico para casos repetitivos, e, por isso, reconhece a magnitude de seus impactos jurídicos, políticos e sociais, pode ser o momento para repensar a estruturação de tais mecanismos e revisitar sua natureza e sua dogmática, para tentar apresentar uma sistematização que lhe seja adequada34. A efetividade do sistema processual, mediante a adequação aos conflitos a que se destina tutelar, é que deve nortear o desenvolvimento e refinamento da técnica (TEMER, 2018, p. 38).

Pensando-se na razoável duração do processo, ressalta-se que tal esforço consolidou-se no Brasil no ano de 2004, por conta da Emenda Constitucional nº 45. Seu texto acrescentou o inciso LXXVIII (78) ao art. 5º da Constituição Federal visando assegurar expressamente a todos os cidadãos que necessitem de atuação judicial e administrativa uma razoável duração do processo (KOELLER, 2013, p. 86).

O texto da referida EC define:

"Art. 5º... ...

LXXVIII a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação (BRASIL, EMENDA CONSTITUCIONAL nº 45, 2004).

Compreende-se, assim, que todos os processos em tramitação no país devem seguir tal princípio, no sentido de serem céleres, mantendo-se o respeito aos prazos e ritos, porém, sem que isso faça com que se tornem onerosos, lentos e não contribuam para as partes na busca pela resolução de seus litígios.

Porém, o tema ainda precisa de maiores esclarecimentos, considerando- se que não existe um único prazo a ser citado como razoável, cada processo apresenta especificidades que precisam ser reconhecidas e respeitadas.

[...] impossível fixar priori um regra específica, determinante das violações ao direito à tutela jurisdicional dentro de um prazo razoável e que a razoabilidade em tela carece de limites preciosos. No entanto como visto, esse prazo varia de caso a caso, dependendo dentre outros fatores, das provas que deverão ser produzidas, da complexidade da questão a ser decidida, da atuação das partes, dos órgãos estatais e de todos os que colaborem em um processo judicial (como perito ou um tradutor) (TUCCI, apud KOELLER, 2013, p. 86).

Uma apreciação do sistema processual brasileiro permite ressaltar que para verificar qual seria o tempo ideal do processo, é preciso somar os prazos do Código de Processo Civil que envolvem os atos constitutivos do procedimento e o tempo de trânsito em julgado dos processos, recordando-se que a tutela jurisdicional que ultrapasse a soma desses fatores deve ser considerada intempestiva (KOELLER, 2013, p. 82).

[...] o direito à razoável duração do processo, do modo como foi assegurado na convenção Americana de Direitos Humanos, não se choca com qualquer dispositivo constitucional – muito pelo contrário, se coaduna perfeitamente com a CF, e não tem divergência direta com a legislação complementar ou ordinária que lhe seja posterior. Assim, qualquer que seja a posição adotada na questão adrede exposta, como não há de deixar de se considerar a duração razoável como direito fundamental no ordenamento jurídico brasileiro – e agora indiscutivelmente alçado a nível constitucional pela E.C 45/2004 (KOEHLER, 2013, p. 46).

Cada processo possui especificidades que não podem ser ignoradas, sob o risco de conduzir a uma solução insatisfatória e, assim, deixar de cumprir seu papel social. Moreira (2001 apud SOUZA, 2017, p. 5) afirma que:

Se uma justiça lenta demais é decerto uma justiça má, daí não se segue que uma justiça muita rápida seja necessariamente uma justiça boa. O que todos devemos querer é que a prestação jurisdicional venha a ser melhor do que é. Se para torná-la melhor é preciso acelerála, muito bem: não, contudo, a qualquer preço.

Compreende-se, assim, que a celeridade processual e a razoável duração do processo não são esforços para abreviar o andamento da justiça, apenas configuram-se como um esforço para evitar que os cidadãos tenham que esperar por anos até verem seus litígios apreciados e diante de uma solução. Todavia, isso não pode vir a atuar como um fator que reduza a qualidade dos serviços jurisdicionais prestados, o que comprometeria outros direitos, como isonomia e segurança jurídica, dos quais não se pode abrir mão para alcançar um ordenamento jurídico realmente efetivo (SOUZA, 2017, p. 5-6).

Assim sendo, a celeridade processual e a razoável duração do processo não são apenas possibilidades aplicáveis ao sistema judicial brasileiro, de fato, são medidas necessárias pensando-se nos direitos dos cidadãos e no respeito por questões que podem fazer grande diferença em suas vidas.

4 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS: O SISTEMA

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