Gestão da logística reversa de produtos eletroeletrônicos em uma loja de
varejo
RODRIGUES, Jordy Alves; VASCONCELOS, Cleiton Rodrigues* Departamento de Engenharia de Produção, Universidade Federal de Sergipe – UFS;
* Autor de correspondência. E-mail: [email protected] R E S U M O
Os programas de Logística Reversa no varejo veem sendo cada vez mais ampliado tendo em vista a necessidade de diferenciação no mercado, um bom relacionamento com os clientes e a responsabilidade social das organizações no cumprimento das legislações ambientais. Deste modo, este trabalho tem por objetivo analisar os fluxos de gerenciamento venda e pós-consumo em uma empresa varejista de eletroeletrônicos e propor melhorias no processo de gerenciamento reverso da logística por meio da aplicação de ferramentas da abordagem Lean, Gestão à Vista, benchmarking e brainstorming. Tendo em vista que nos dois meses analisados as mercadorias acumulavam um capital de R$ 39.452,89. Para isso a classificação dos estoques pelo método ABC, priorizou a classe A, constatando pelo ROI (Retorno sobre o Investimento) que 74,37% das mercadorias em questão, tendem a gerar maior retorno caso estejam disponíveis para a venda, contribuindo também para a diminuição dos custos de estoque.
Palavras-chave: Comércio Varejista; Logística Reversa; Gestão de Custos; Lean.
Reverse Logistics management of electro-electronic products in a retail
store
A B S T R A C T
The retail Reverse Logistics programs are increasingly being expanded in view of the need for differentiation in the market, a good relationship with customers and the social responsibility of organizations in complying with environmental laws. Thus, this paper aims to analyze the after-sales and post-consumer management flows in an propose improvements in the reverse logistics management process through the application of Lean and Green approach tools. View, benchmarking and brainstorming. Given that in the two months analyzes the goods accumulated a capital of $ 9.477,02 dollars. For this, the classification of inventories by the ABC method, prioritized the class A, noting by ROI (Return on Investment) that 74.37% of the goods in question, tend to generate higher return if available for sale, also contributing to the decrease in inventory costs.
1 Introdução
A logística reversa até a definição atual passou por diversas concepções até a visão do ganho de valor proporcionado aos produtos provenientes do pós-consumo ou pós-venda, por meio da reintegração deles e de seus componentes ou materiais constituintes ao ciclo produtivo de negócios.
A promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) (Lei nº 12.305/2010, regulamentada pelo Decreto nº 7.404) foi sem dúvidas um marco para a logística reversa no Brasil, já que a preocupação com os impactos ambientais e o potencial reaproveitamento dos produtos no final do seu ciclo de vida demandam um gerenciamento especializado. Segundo Valle e Souza (2014), um país que cresce e se consolida no cenário mundial como uma economia emergente precisa de uma logística reversa à altura da relevância que a sustentabilidade e a economia verde adquiriram nos âmbitos político, econômico, social e legal, tal como ilustrado na Conferência Rio + 20.
A PNRS relaciona diretamente resíduos de algumas classes para ser objeto de sistemas de logística reversa, que deverão ser implementados por fabricantes, importadores, comerciantes e distribuidores, sendo estes: agrotóxicos, seus resíduos e embalagens, assim como outros produtos cujas embalagens após o uso constitua resíduos perigosos; pilhas e baterias; pneus; óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens; lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; produtos eletroeletrônicos e seus componentes.
O varejo faz parte de uma cadeia que envolve fabricantes, atacadistas, varejistas e consumidores e juntos tem parcela representativa no fluxo de produtos proveniente do pós-venda e pós-consumo, sendo assim, o objetivo deste estudo consistiu em analisar o fluxo de produtos em uma loja varejista no segmento de materiais elétricos, focando nos produtos eletroeletrônicos para em seguida propor melhorias no gerenciamento e tratamento dos produtos que demandam de descarte diferenciado.
Portanto, o objetivo deste trabalho foi analisar os fluxos de gerenciamento pós-venda e pós-consumo em uma empresa varejista e propor melhorias no processo de gerenciamento reverso da logística desses grupos de produtos.
Para o desenvolvimento da pesquisa foi escolhida uma loja de materiais elétricos situado em Aracaju/SE que atende todo o estado e possui uma grande demanda de clientes que vão desde consumidores menores a grandes empresas. A análise dos produtos que necessitam de um descarte especial ocorreu em conjunto com o gestor responsável pela área de devolução,
de setembro/2017 a outubro/2017, 5,86% demandam de um gerenciamento pós-venda, o que financeiramente representam um capital de R$ 39.453,00 que poderia ser direcionado para a compra de outros produtos ou reinvestido em outros ativos da empresa, apresentando um Retorno Sobre o Investimento (ROI) médio elevado de 74,37%, requerendo um melhor gerenciamento.
O uso de ferramentas como o bechmarking, brainstorming, 5S, Gestão à Vista e Lean contribuíram para a proposição de melhorias nos processos de gestão dos estoques para a logística reversa da empresa.
2 Revisão da Literatura
2.1 Logística Reversa: definições e classificação
Durante a busca por uma definição atual e contemporânea da logística reversa é preciso que antes se entenda o funcionamento da logística empresarial direta e reversa, ou seja, os Canais de Distribuição Diretos (CDDs) e Canais de Distribuição Reversos (CDRs), respectivamente, fluxos diretos e reversos.
Segundo o Conselho de Gestão da Logística (Council of Logistics Management, in ROGERS; TIBBEN-LEMBKE, 1999), a logística empresarial direta (ou CDDs) pode ser definida como o processo de planejamento, implementação e controle eficiente do fluxo e custo-efetivo de materiais virgens, inventários intraprocessos, bens acabados e informações relacionadas, do ponto de origem para o ponto de consumo com a finalidade de atender ao máximo os requisitos dos clientes.
Os canais de distribuição reversos (ou CDRs)são aqueles que partem do mercado consumidor ou de algum ponto ao longo do canal de distribuição em direção à origem com a finalidade de retorno; reuso, por meio da revenda imediata ou reutilização do produto em um mercado secundário; recuperação do produto tanto por canibalização (reaproveitamento de alguns componentes dos produtos retornáveis) quanto por reciclagem; upgrade do produto por meio de reforma, reparação, remanufatura e reempacotamento; reciclagem de produtos e materiais para fazer parte de outros produtos; e incineração e/ou descarte em aterros seguros, controlados, que não provocam poluição e nem impactos maiores sobre o meio ambiente etc. (VALLE; SOUZA, 2014).
Portanto, a logística reversa, por meio de sistemas operacionais diferentes em cada categoria de fluxos reversos, objetiva tornar possível o retorno dos bens ou de seus materiais constituintes ao ciclo produtivo ou de negócios. Agrega valor econômico, ecológico, legal e de
localização ao planejar as redes de pós-consumo ou de pós-venda, por meio dos processamentos logísticos de consolidação, separação e seleção, até a reintegração ao ciclo (LEITE, 2008).
No âmbito do varejo quatro fatores influenciam positivamente o desempenho da logística reversa: bom controle das entradas, baixo tempo de resposta, sistemas de informação e a fundamental relação entre fornecedores e o varejista.
São comuns as divergências e pequenos conflitos relacionados à perspectiva da responsabilidade sobre os danos causados aos produtos nas circunstâncias dos fluxos reversos entre varejo e indústria, relacionados ao nível de confiança entre as partes. Segundo Carvalho e Xavier (2014) os varejistas tendem a acreditar que problemas no transporte ou defeitos de fabricação são os causadores dos defeitos dos produtos. O fornecedor tende a suspeitar que há um mal planejamento por parte do varejista que acaba tentando cometer abuso. Em algumas situações, isso pode gerar distúrbios como a recusa de devolução de mercadoria, atraso para creditar as devoluções, por exemplo. Isso deixa claro que para que práticas mais eficazes de logística reversa possam ser desenvolvidas e implementadas nas organizações, é necessário que haja uma relação colaborativa entre as partes.
Leite (2008) divide a atuação da logística reversa em duas grandes áreas: a dos bens de pós-venda e a dos bens de pós-consumo, além de um grupo de resíduos industriais (Figura 1), sendo a primeira responsável pelo equacionamento e operacionalização do fluxo físico e das informações logísticas correspondentes de bens de pós-venda, sem uso ou pouco uso, os quais, por diferentes motivos, retornam aos diferentes elos da cadeia de distribuição direta, que se constituem de uma parte dos canais reversos pelos quais fluem esses produtos, e tem como objetivo agregar valor a um produto logístico que é devolvido por razões comerciais, erros no processamento dos pedidos, garantia dada pelo fabricante, defeitos ou falhas de funcionamento, entre outros motivos (LEITE, 2008).
Logística reversa de pós-consumo é a área que equaciona e operacionaliza igualmente o fluxo físico e as informações correspondentes de bens de pós-consumo descartados pela sociedade em geral que retornam ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo por meio dos canais de distribuição reversos específicos. Constituem bens de pós-consumo os produtos em fim de vida útil ou usados com possibilidade de reutilização e os resíduos industriais em geral. Seu objetivo é agregar valor a um produto logístico constituído por bens inservíveis ao proprietário original ou que ainda possuam utilização, por produtos descartados pelo fato de terem atingido o fim da vida útil e por resíduos industriais (LEITE, 2008).
Figura 1 – Foco de atuação da logística reversa
Fonte: Leite (2008)
Alguns dos resíduos industriais citados recebem tratamento e são reaproveitados dentro da própria indústria, outros são vendidos para serem utilizados no processo de fabricação de outras empresas e aquilo em que não possibilidade de ser reaproveitado é destinado aos aterros sanitários. A quantidade de resíduos gerados por cada indústria é um importante fator a ser considerado, pois se esta for muito pequena pode tornar o processo de reciclagem inviável. Nesse caso, cresce a importância das associações de empresas de determinado setor e dos arranjos produtivos locais, para dar destinação conjunta aos resíduos que são comuns a todas elas (VALLE; SOUZA, 2014).
No início do processo é necessário identificar quais produtos podem ser revendidos, produtos que podem ser recondicionados e os que a única solução possível é a reciclagem, esse processo também é conhecido como triagem e requer um profissional com conhecimento técnico das funcionalidades e necessidade de reparos (CARVALHO e XAVIER, 2014).
2.2 Equipamentos Eletroeletrônicos (EEE)
São considerados Equipamentos Eletroeletrônicos (EEE), aqueles que dependem de corrente elétrica ou campo eletromagnético para funcionar, bem como aqueles que geram, transferem ou medem correntes e campos eletromagnéticos. E os Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos (REEE) são aqueles produtos, partes ou componentes de EEE pós-consumo. As substâncias presentes ou resultantes do uso de EEE e consideradas de maior impacto à saúde
humana e ao meio ambiente são os metais pesados, gases de efeito estufa (como os CFC – CloroFluorCarbonetos), e as substâncias halogenadas, bifenilas policloradas, bromatos e o arsênio (RODRIGUES, 2007).
No Brasil, a Lei Federal n° 12.305 de 02 de agosto de 2010 e suas prerrogativas - institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; dentre os vários tipos e classes de resíduos sólidos abrangidos pela Lei, alguns foram relacionados diretamente para serem objeto de sistemas de logística reversa (Figura 2).
Figura 2 – Classes de resíduos sólidos abrangidos pela Lei
Fonte: Lei 12.305 de 02 de agosto de 2010.
Por meio da Diretiva nº 65 de 2011 (2011/65/EU) (EU, 2011), que atualiza a Diretiva sobre REEE (Directive 2002/96/EC), a Comunidade Européia sugere que os EEE sejam classificados em 11 categorias. Essa distribuição tende a facilitar a discriminação do potencial de risco de cada classe de produtos em função de especificidades como: vida útil, composição por tipo de materiais, porte do equipamento, entre outros requisitos para a categorização. Em 2012 também foi revisada a Diretiva nº 96 de 2002 e uma nova versão foi publicada (2012/19/EU) e pode ser vista no Quadro 1.
agrotóxicos
seus resíduos e embalagens, assim como outros produtos cujas embalagens após o uso constitua
resíduos perigosos; pneus óleos lubrificantes seus resíduos e embalagens pilhas e baterias lâmpadas
fluorescentes mercúrio e de luz mistade vapor de sódio e produtos
eletroeletrônic os e seus componentes
Quadro 1 – Categoria dos REE segundo a Diretiva nº 19 de 2012 da Comunidade Europeia.
Categorias Exemplos de equipamentos
Eletrodomésticos de grande porte Refrigeradores, freezers, fogões, máquinas de lavar e secar roupas, micro-ondas, máquinas de lavar louças, equipamento de ar condicionado.
Eletrodomésticos de pequeno porte
Aspirador de pó, ferro de passar roupa, torradeiras, fritadeiras, facas elétricas, relógios de parede e de pulso, secador de cabelo.
Equipamentos de TI e Comunicação
Mainframes, impressoras, minicomputadores, computadores pessoais, laptop, notebooks, celular, telefone, tablete, calculadoras, aparelho de fax. Equipamentos de consumo e
painéis fotovoltaicos
Aparatos para TV e rádio, câmera de vídeo, gravadores hi-fi, amplificadores de áudio, instrumentos musicais, painéis fotovoltaicos.
Equipamentos de iluminação Luminárias para lâmpadas, lâmpadas fluorescentes, lâmpadas de vapor de sódio, lâmpadas LED, lâmpada de halogêneo.
Ferramentas eletroeletrônicas Serras, esmeril, furadeiras, máquina de corte, parafusadeiras, ferramentas de jardinagem, máquina de solda.
Equipamentos de lazer, esporte e brinquedos
Trens e carros elétricos, vídeo game, console de videogame, computadores para o ciclismo, corrida e outros esportes.
Equipamentos médicos Equipamentos de radioterapia, cardiologia, diálise, medicina nuclear, análise de laboratório, freezers.
Instrumentos de monitoramento e controle
Detector de fumaça, regulador de aquecimento ou resfriamento, termostatos, equipamentos de monitoramento para uso doméstico ou industrial.
Caixas de autoatendimento Dispenseres (caixas de autoatendimento) de bebida, produtos sólidos, dinheiro, entre outros.
Outros Outras categorias não consideradas anteriormente. Fonte: Adaptado de Diretiva (2012/19/EU)
No presente trabalho iremos abordar a forma como a empresa realiza o gerenciamento de alguns produtos que enquadram-se em categorias como: eletrodomésticos de pequeno porte, equipamentos de TI e comunicação, equipamentos de consumo e painéis fotovoltaicos, equipamentos de iluminação, instrumentos de monitoramento e controle e outros.
2.3 Gestão de estoques e custos: ferramentas e técnicas
Em um cenário cada vez mais competitivo como o varejo, o estoque destaca-se como peça fundamental para ter um bom controle do negócio, que abrangem desde a satisfação dos clientes e funcionários, controle de capital de giro, à otimização dos lucros e principalmente facilita a logística dando suporte a toda a loja.
Bowersox (2011) comenta que a solução para um estoque bem dimensionado está associada, entre outras variáveis, à utilização de um sistema de reposição eficiente que é dado por um bom abastecimento dos produtos no salão de vendas, evitando acúmulos no estoque. A ineficiência na gestão do estoque pode provocar duas situações: estoques obsoletos, que é a definição de um estoque que não tem giro de produtos, ou seja, os produtos passam tempo demais ali presentes antes de irem ao salão de vendas, e ruptura de estoques que é causado pela falta de algum determinado produto que a loja comercializa. O problema de excessos de estoque é ocasionado principalmente por compras de oportunidade e pela quantidade de itens a controlar
que aumentam ao decorrer das reposições, isso associado a um sistema inadequado de informações e previsões de demanda subestimando ou superestimando a demanda de um determinado período.
É comprovado que gerir bem o estoque tem retorno garantido, sendo possível destacar exemplos vivenciados pela maioria dos consumidores, como questionar um funcionário sobre a existência de determinado produto no estoque da loja, o que ocasionará ao funcionário parar alguma possível atividade parar verificar o pedido do cliente trazendo ou não boas notícias.
Quanto ao gerenciamento de estoques, técnicas como o Retorno sobre o Investimento (ROI) e curva ABC são comumente utilizadas para avaliar os níveis de estoque do ponto de vista de seu valor financeiro, sendo o ROI uma ferramenta bastante consolidada que permite a avaliação do desempeno de determinado investimento, mediante a comparação entre o retorno previsto e o retorno realizado. A diferença entre esses últimos consiste na taxa de retorno ou retorno sobre o investimento (ROI). Em outras palavras, o retorno permite quantificar o valor do investimento em análise. Geralmente, esse valor é expresso em percentagem (CARVALHO; XAVIER, 2014).
O cálculo do ROI varia em função da finalidade e o enfoque que se deseja dar ao resultado. Sendo a Equação 1 considerando a relação entre a lucratividade e o giro dos estoques: 𝑅𝑂𝐼 = (𝐿𝑢𝑐𝑟𝑜 𝐿í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑉𝑒𝑛𝑑𝑎𝑠)⁄ 𝑥 (𝑉𝑒𝑛𝑑𝑎𝑠/𝑇𝑜𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑒 𝐴𝑡𝑖𝑣𝑜𝑠 (1)
A Equação 2 representando o retorno que o ativo total empregado oferece. Utilizado geralmente para determinar o retorno que uma empresa dá.
𝑅𝑂𝐼 = 𝐿𝑢𝑐𝑟𝑜 𝐿í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑇𝑜𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑒 𝐴𝑡𝑖𝑣𝑜𝑠⁄ (2) E a Equação 3 representando o retorno que determinado investimento oferece.
𝑅𝑂𝐼 = 𝐿𝑢𝑐𝑟𝑜 𝐿í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝐼𝑛𝑣𝑒𝑠𝑡𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜𝑠⁄ (3) Já a Curva ABC, consiste em classificar os produtos em classes A, B e C de acordo com os itens de maior valor de demanda. Os produtos de classe A são os de maior importância para a empresa, pois, correspondem a aproximadamente 80% do valor que se tem em estoque. Os produtos de classe B representam aproximadamente 15% do valor agregado ao estoque e importância média, já os produtos de classe C, têm baixa importância.
A curva ABC tem o objetivo de efetuar uma gestão eficiente, pois identifica os itens com maior valor investido e possibilita ações em função da reduções de custos, já que altos níveis de estoque sem rotatividade pode implicar em baixa eficiência gerencial (DAYCHOUM, 2012).
Schier (2005) enfatiza alguns conceitos financeiros sobre estoques, que se interpretados de forma equivocada podem comprometer a análise do gerenciamento de estoques (Quadro 2).
Quadro 2 – Definições de custos para a gestão de estoques
Gasto Está relacionado com a compra de um produto ou serviço no qual produz um sacrifício
financeiro.
Perda Reporta-se à forma anormal e involuntária, sendo bem ou serviço utilizado. A perda pode
ter ocorrido por inundações, prazo de validade, obsoletismo, etc.
Desperdício Representa gasto que pelo fato de não ocorrer o aproveitamento normal de todos os
recursos, ou seja, ocasiona prejuízo para a empresa.
Custo Corresponde à aquisição de um ou mais bens ou serviços empregados na produção de
outros bens ou serviços. Os custos somente ocorrem na atividade produtiva da empresa.
Custo Fixo São custos mensais que independem do nível de produção da empresa, mantendo-se
constante.
Custo Variável São custos associados ao grau de crescimento das quantidades produzidas.
Custo Total É o somatório dos custos fixos e dos custos variáveis.
Fonte: Adaptado de Schier (2005)
Outras técnicas como benchmarking (baseado na aprendizagem das melhores experiências de empresas similares), brainstorming (solução de problemas através da interação e participação de um grupo de pessoas), gestão à vista (forma de comunicação visual que pode ser acessada por todos da área de trabalho), lean (ferramentas e métodos que podem ser usados para eliminar o desperdício de processos de negócios), quando bem empregados podem contribuir para a eficácia na gestão dos estoques e no fluxo dos processos de trabalho.
3 Procedimentos metodológicos
A pesquisa classifica-se como um estudo de caso, desenvolvido em uma loja de materiais eletroeletrônicos na cidade de Aracaju/SE, onde por meio de entrevista com o gestor diretamente envolvido e responsável pela área de devolução para a logística reversa foi analisado o cenário atual, as dificuldades enfrentadas pelo gestor e pela empresa quanto ao gerenciamento desses produtos que necessitam de descarte especial. Além disso, foram realizadas observações diretas na empresa, onde foi possível analisar o tratamento dado aos produtos do estoque para a logística reversa.
Os dados coletados foram obtidos por meio da análise de relatórios extraídos do
software CISS utilizado pela empresa, que contém todas as informações sobre os produtos
comercializados. A partir daí foram priorizados os produtos que atendem aos critérios definidos para chegar-se às mercadorias do estoque para a logística reversa de pós-venda, e buscou-se dados como quantidades de itens que haviam no estoque necessitando de tratamento, seus respectivos custos e valores de revenda. Os dados gerados correspondiam aos produtos que
foram inseridos no estoque da logística reversa num intervalo de dois meses, compreendendo setembro e outubro de 2017.
A categorização pela curva ABC foi utilizada para facilitar a visualização dos custos de estoque gerados pelos principais produtos que demandam da logística reversa, com o intuito de obter uma estimativa de quanto capital havia agregado ao estoque e analisar o investimento feito nos produtos, dessa maneira os produtos classificados como classe A foram priorizados devido ao capital envolvido que representa grande parte do valor total dos produtos destinados à logística reversa da empresa, e que também representa vários tipos de mercadorias. Fez-se um agrupamento de acordo com similaridades das mercadorias, o que resultou em dezenove subgrupos, a partir daí foi calculado o ROI (conforme Equação 3).
4 Resultados e Discussão
A empresa em estudo pertence ao segmento varejista e comercializa atualmente um total de 7.780 diferentes tipos de produtos de material de construção em geral como: material elétrico, iluminação, iluminação decorativa, construção, hidráulico, utilidades para o lar, máquinas, ferramentas, jardinagem amadora, entre outros.
A etapa inicial do presente estudo deu-se através do levantamento de todos os produtos da empresa que estavam no estoque da logística reversa, estoque esse que é diferenciado do estoque de produtos aptos à venda, a área destinada a esse estoque tem aproximadamente 32 m² dos 930 m² totais da loja, e é destinada exclusivamente para esses produtos. Esse levantamento foi disponibilizado pelo gerente responsável que forneceu informações sobre os produtos que estavam dentro do estoque da logística reversa nos meses correspondentes a setembro e outubro de 2017 (bimestre tomado na amostragem).
No bimestre tomado na amostragem foi verificado um total de 456 tipos diferentes de produtos, onde na sua maioria eram das seções de iluminação e elétrica da empresa. A seção de iluminação contém: lâmpadas LED, lâmpadas eletrônicas, refletores LED e painéis LED, já a seção elétrica contém em sua maioria chuveiros e aquecedores elétricos.
O estoque total de produtos para a logística reversa da empresa, levantado nos meses de setembro a outubro/2017, correspondiam a 1.863 unidades, equivalente a um custo para a empresa de R$ 39.452,89, consistindo em 456 tipos de produtos diferentes (Figura 3).
Figura 3 – Classificação dos produtos
Fonte: Esta pesquisa
A classificação pelo método ABC, considerando os itens existentes no estoque da logística reversa (equipamentos eletroeletrônicos) referente aos meses de setembro e outubro/2017, onde a classe A, correspondeu a 1093 diferentes tipos de produtos, distribuídos em dezenove subgrupos, correspondendo a R$ 29.517,84, sendo essa classe priorizada para o estudo devido a sua representatividade econômica para a empresa (Tabela 1).
Tabela 1 – Classificação dos itens do estoque da logística reversa referente aos meses de setembro e outubro/2017 Classe Proporção de SKUs* ou tipos de produtos Quantidade de
Produtos (unid) Proporção de Valor
Valor monetário (R$)
A 24,78% 1093 74,82% 29.517,84
B 22,81% 310 15,13% 5.970,21
C 52,41% 460 10,05% 3.964,95
Fonte: Esta pesquisa
Dos itens da classe A foi calculado o ROI, sendo 63,76% desses produtos pertencentes ao setor de iluminação (lâmpadas, refletores e painéis led; luminárias, etc.) e o restante do setor elétrico da empresa (interruptores, bombas d’água, pendentes, sinalizadores, etc.), onde foi estabelecido os valores que representavam lucro obtido pela venda desses produtos caso os mesmos fossem vendidos, possibilitando assim o cálculo do ROI através da divisão do lucro líquido trazido por cada produto pelo investimento feito para sua aquisição como demonstrado pela Equação 1. Os produtos de classe A obtiveram uma taxa de retorno sobre o investimento média (ROI) de 74,37%, ou seja, são produtos nos quais é válido apostar em melhorias para o comércio, pois têm alto retorno financeiro.
Vale ressaltar que para maior exatidão dos cálculos, devem-se levar em consideração vários fatores para o cálculo dos investimentos, como custos de mão de obra, investimentos em
Eletroeletrônicos
(456 tipos diferentes de produtos = 1.863 itens = R$ 39.452,89)
Iluminação Lâmpadas de led e eletrônicas Refletores e painés Elétrica Chuveiros Aquecedores
infraestrutura, impostos, e demais custos que são necessários para que seja possível a empresa realizar o livre comércio desses produtos.
Devido à complexidade e à indisponibilidade da empresa em fornecer todos os dados sobre os investimentos, no presente estudo levou-se em consideração como sendo o investimento o valor pago pela empresa na aquisição das mercadorias.
A logística reversa tem diversas finalidades e também pode ser usada para manter os níveis de estoque reduzidos, diminuindo assim os custos com a manutenção de itens de baixo giro, pois foi percebido um montante de R$ 39.452,89 (soma dos itens das classes A, B e C) relacionado a produtos que não estão disponíveis para a venda, correspondente à todas as mercadorias que estavam no estoque para a logística reversa da empresa entre os meses de setembro e outubro de 2017, período em que foi realizado o estudo.
5 Considerações Finais
Pode-se concluir que este trabalho procurou contribuir para o estudo da logística reversa dos produtos EEE, uma vez que o comércio varejista tem se esforçado para gerar mais receita e evitar desperdícios.
A curva ABC focada especificamente nos itens destinados a logística reversa, foi possível identificar os que possuíam altos volumes de estoque (físico e monetário) e a partir daí planejar melhor seus fluxos juntos a fornecedores e ao setor responsável pelas compras, já que muitos itens pelo cálculo do retorno sobre o investimento poderiam gerar mais recursos se fossem melhor gerenciados.
Ferramentas e técnicas como gestão à vista, benchmarking, brainstorming, podem contribuir para a melhoria dos fluxos de trabalho e tornar mais claro índices da empresa no que tange ao volume de produtos com destinação reversa ao fornecedor e quebras ocorridas nas dependências da empresa.
Referências bibliográficas
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BRASIL. Decreto Federal n° 7.404, de 23 de dezembro 2010. Regulamenta a Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa. Diário Oficial da República Federativa do Brasil Brasília, 2010. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ _ato2007- 2010/2010/decreto/d7404.htm>. Acesso em: 01 de novembro de 2017.
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