CULTURA E ESPIRITUALIDADE: ASPECTOS METODOLÓGICOS PARA ARTICULAÇÕES E ESTUDOS1
Hélio de Souza Santos 2 Márcio Augusto Santos Dórea 3 Raimundo S. Leal4 Sérgio Embirussu Barreto5
Resumo:
O presente artigo, de natureza teórica, visa apontar as possibilidades de articulação entre cultura e espiritualidade. A premissa base é que a espiritualidade é um componente de natureza subjetiva presente no cotidiano das organizações e identificável a partir dos elementos de cultura e influenciadores das escolhas humanas e organizacionais. O artigo está estruturado em quatro partes, inicialmente é efetuado um resgate teórico dos termos cultura e espiritualidade separadamente, para em seguida evidenciar possíveis articulações. Há destaque para os aspectos metodológicos que podem nortear tais tipos de estudos.
Palavras-chave: Cultura; Espiritualidade; Organizações; Gestão.
1. Introdução
No âmbito dos estudos organizacionais freqüentemente tem sido enfocado a necessidade de buscar criar ou recriar os parâmetros que norteiem as pesquisas, de modo a dar conta das crises e contradições presentes entre a construção teórica e a realidade das organizações.
Isso tem sido feito, à medida que, as referências passam a considerar elementos conceituais divergentes e até então tidas como incompatíveis. Ou seja, cada vez mais os estudos organizacionais buscam integrar diferentes percepções, deixando uma visão disciplinar para considerar uma perspectiva interdisciplinar, ou mesmo transdisciplinar (HASSARD, 1990; CHANLAT, 1992; SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 1992).
Sabendo que as organizações não são entes autônomos, mas fruto e reflexo das escolhas e ações humanas, portanto, dotadas de peculiaridades, em razão desta dimensão, inerentes às construções organizacionais, cabe refletir sobre a dinâmica desse processo, em particular sobre a dimensão espiritual e cultural presente nas organizações.
1 Artigo publicado no II Encontro Baiano de Estudos em Cultura (II EBECULT). Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). 20 e 21 de agosto de 2009.
2
Doutor em Administração pela FEA/USP. Professor do Curso de Mestrado Profissional em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social da Fundação Visconde de Cairu (FVC). E-mail: [email protected]
3
Mestre Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social (FVC). Historiador (UEFS). Coordenador Pedagógico do EMITec/SEC. E-mail: [email protected]
4
Doutor em Administração pela Escola de Administração da UFBA. Professor do Curso de Mestrado Profissional em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social (FVC); Professor da Escola de Administração da UFBA. E-mail: [email protected]; [email protected]
5
Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social (FVC). Filósofo (FBB). Professor da União Metropolitana de Educação e Cultura. E-mail: [email protected]
Sob o ponto de vista da organização produtiva os estudos envolvendo a cultura podem propiciar uma melhor compreensão, em razão do contexto e local em que está inserido, com o conseqüente aperfeiçoamento dos seus métodos de gestão, além de proporcionar o aprimoramento das condições e qualidade do trabalho realizado, afinal, compreendendo - o que é, e por que é - as empresas terão possibilidades de refletir e melhor interagir, sendo que nesta reflexão e interação o quadro gerencial tem papel decisivo.
Estudos envolvendo o tema espiritualidade, enquanto dimensão humana, dimensão presente e inerente aos atos humanos, certamente contribui para melhor compreensão das escolhas humanas nas organizacionais, especialmente, aquelas que fogem a racionalidade dos fins.
A necessidade de ampliar os olhares nos estudos organizacionais decorre, inclusive, do cenário apontado por Secretan (1997, p.40) assinala:
Vivemos um paradoxo de riqueza: nunca fomos tão ricos e nunca fomos tão pobres (...) por um lado somos ricos de bens materiais que amenizam nossa existência física: dinheiro, tempo livre, férias, tecnologia e ciência. Por outro, padecemos as misérias estremas da alma: stress, desemprego, isolamento, drogas, preconceitos, crime, falta de equilíbrio e sentido na vida.
Ora, a sociedade contemporânea, em especial, o mundo ocidental, perpassa então por uma crise de valores, de sentido e significado para a ação individual e social por parte dos seus membros, afinal a visão de mundo construída pela Modernidade tem se mostrado insuficiente, gerando e sustentando o acirramento de desigualdades.
Segundo Ramos (1989, p. 23) os limites da racionalidade instrumental fica evidenciado, após 300 anos onde a racionalidade prevalecente “tem escorado o esforço das populações do Ocidente central para dominar a natureza, e aumentar a própria capacidade de produção”, mas ignorando a dimensão subjetiva do homem.
Um dos elementos que podem oportunizar a interface entre Cultura e Espiritualidade nas organizações é a variável valor. Valor ou valores enquanto elemento norteador e articulador, de modo consciente ou inconscientemente nas escolhas humanas e conseqüentemente organizacionais. O processo gerencial é norteado por valores, seja nas ações cotidianas, seja nas escolhas estratégicas, cujos limites certamente são delineados por valores. Percebe-se que estudos e pesquisas envolvendo Cultura, assim como a Espiritualidade podem ter interlocução através da noção de valores.
Os estudos organizacionais, sempre valorizaram a atividade gerencial, sob o espectro do mundo dos negócios e das empresas, pouco considerando as organizações, sobre a perspectiva humana, individual, não meramente voltado para os resultados. Considere-se
que a atividade gerencial não se encontra restrita as empresas, a atividade gerencial é intrínseca à organização das sociedades modernas, cujos traços característicos são as instituições especializadas, estando, as mesmas, presentes em todos os lugares, a exemplo das universidades, hospitais, sindicatos, associações beneficentes entre outras. A análise cultural do ambiente dos negócios e das empresas, conhecida como Cultura Organizacional pode situar a empresa no contexto das grandes mudanças que estão ocorrendo no mundo, atribuindo sentido aquilo que parece desordenado, ou ainda, suscitando a necessidade de sintonia.
Pode, também, auxiliar na identificação dos valores e dos pressupostos que estão por trás de uma organização. Pode auxiliar a compreender o significado simbólico da mudança e sua receptividade pelos diferentes atores, apontando como conseqüência às possibilidades de atuar em um ambiente com qualidade.
Considere-se ainda que a análise cultural possa contribuir no entendimento da dinâmica externa e interna da empresa, assim como da hierarquia de valores que predominam no interior da mesma, além de possibilitar a compreensão da identidade organizacional, da maneira como ela se posiciona no mercado.
O conhecimento da Cultura Organizacional é essencial para viabilizar as estratégias e o processo de mudança e o seu conceito impede que se pense em soluções ótimas ou em normas ideais, pois a abordagem cultural enfatiza a coerência das decisões tomadas e os resultados conseguidos com relação à cultura e à identidade da empresa.
A perspectiva cultural procura mostrar que existe uma singularidade própria em cada empresa que a distingue das demais. A empresa é uma unidade social e, como tal, deve ser estudada seja pela Antropologia, Psicologia, Sociologia como qualquer agrupamento social.
Já a perspectiva espiritual, tem sido deixada de lado, seja pela subjetividade intrínseca à temática, seja pela articulação sempre efetuada com a religião. Ignora-se que tal dimensão é inerente ao ser humano, portanto, as organizações não podem ignorar tal dimensão sob pena de perder a própria compreensão da dimensão cultural e organizacional.
Pretende-se com o presente artigo contribuir na reflexão sobre a importância do desenvolvimento de estudos que valorizem o desenvolvimento humano e organizacional tendo como premissa a Espiritualidade, a Cultura e a Gestão organizacional, considerando para tanto a necessária aproximação com fundamentos teóricos oriundos das Ciências Sociais, em particular da Filosofia, da Pedagogia, da Antropologia, da
Sociologia e mesmo da Psicologia, devidamente articulado com o cotidiano das organizações.
Evidenciado as possibilidades e demandas que tornam a articulação temática relevante cabe considerar pontualmente alguns dos elementos onde se busca articular tais elementos, assim a estrutura do presente artigo considerará inicialmente, um breve panorama dos estudos envolvendo a cultura organizacional, em seguida de modo breve as possibilidades e construções envolvendo a espiritualidade, seguindo-se a articulação entre cultura e espiritualidade e suas possíveis contribuições para a gestão organizacional, por fim tecem-se considerações sobre as possibilidades e perspectivas na continuidade dos estudos.
2. Cultura Organizacional
Inicialmente, é necessário considerar o sentido da palavra "cultura", afinal a mesma tem várias conotações e significados. Quem mais faz uso da palavra são os antropólogos, para eles a noção de cultura vem da tomada de consciência de que as sociedades humanas são entidades dotadas de existência e de significados. Assim, os antropólogos buscam desvendar os significados dos costumes de uma sociedade. Por sua vez, os sociólogos, que também fazem uso ativamente da palavra, tomam-na no sentido de compreender a elaboração dos símbolos (TOMEI & BRAUSTEIN, 1993).
Segundo Chauí (2004) o significado do termo cultura é cultivar, criar, tomar conta e cuidar, e que pode ser interpretado como o “cuidado dos homens com os deuses”, dada à palavra ser originária do verbo latino colere. De tal expressão derivou-se à palavra culto, que se refere justamente aos ritos e cultos religiosos. Desde o século XVIII, o termo cultura passa a significar os resultados e as conseqüências da formação ou educação dos seres humanos, expressos em feitos, obras, ações e instituições, como as técnicas e os ofícios, as artes, as ciências, a filosofia, a vida moral, a vida política e a religião. Considerando o expresso por filósofos, sociólogos, como para os antropólogos, estudar a cultura quer dizer estudar a significação social de como as "coisas", os acontecimentos e as interações adquirem significados, ou seja, é o estudo, a análise da construção do mundo social, como resultado de experiências de grupos (SMIRCICH, 1993; 1985). A cultura para tais estudiosos é uma realidade social, produto e processo ao mesmo tempo. Ela reflete o modelo de interações humanas e é o resultado da criação e recriação contínua das inter-relações. Quando nos referimos à cultura estamos nos referindo a um modelo em permanente processo de desenvolvimento.
A organização aqui é entendida como um conjunto de crenças e de valores compartilhado pelos grupos e, é um componente de um sistema social maior que se manifesta no comportamento (maneira de viver) e no produto final deste comportamento. Schein (1985) caracteriza a cultura organizacional enquanto um conjunto de pressupostos básicos que um grupo inventou, descobriu ou desenvolveu, de modo a lidar com problemas, e dessa maneira, buscando a adaptação externa e integração interna, e por resultar em sucesso, passa a ser considerado válido, e, portanto, ensinado a novos membros como forma correta de perceber, pensar e sentir, em relação a esses problemas.
Naturalmente, nos estudos organizacionais, tal caracterização não é hegemônica, afinal os pesquisadores de cultura que se afiliam a visão clássica da gestão das organizações (clássicos, abordagem das relações humanas, abordagem da tomada de decisão, abordagem sistêmica, dentre outros), vêm a cultura como um "cimento normativo", que permite à organização ter uma identidade coletiva, de fornecer a seus membros as significações que eles precisam e contribuir com o desempenho organizacional.
Por sua vez, os estudiosos que se filiam a corrente crítica, mesmo aceitando os fenômenos culturais como próprios à organização, questionam esta noção rígida da cultura por admitirem que não exista uma cultura integradora e sim numerosas clivagens socioculturais dentro da organização.
Como exemplo de pesquisadores que se filiam a tal corrente tem-se Smircich (1993) e Jaeger (1987). Consideram que a organização tem culturas que são importadas pelos seus membros, sendo formada por um conjunto de subculturas. Já outros autores que trabalham como uma perspectiva ampla de cultura considera que a organização "é", ela própria uma cultura.
Nesse caso, a cultura nacional ou regional, tem uma grande influência sobre as culturas das organizações. Por exemplo, o conceito de trabalho prevalente no Japão e as relações entre empregado e empregador são bastante diferentes daqueles do mundo ocidental. Desse modo verifica-se a influência da cultura sobre as relações de trabalho. O estudo realizado por Hosftede (1980) no qual ele utiliza quatro dimensões para diferenciar as culturas dos diversos países e mostrar sua relação com o modo de trabalho; distância do poder; tendência para evitar as incertezas; individualismo/ coletivismo e a relação homem/mulher. Para ele estas dimensões podem explicar 50% das diferenças de modo de comportamento e dos valores relacionados ao trabalho, o que vem a ser uma fonte de informação importante na gestão das organizações.
Por sua vez Schein (1981), ao considerar o estudo e identificação da cultura organizacional fizeram uso de diferentes níveis de análises, de complexidade crescente de observação, a saber: os artefatos, os valores, e as crenças fundamentais. Cabe destacar para o propósito do presente artigo os dois últimos níveis, efetuando uma breve síntese do que expressa o autor.
Percebe-se que, para os autores referenciados, a cultura organizacional é constituída de valores, normas, atitudes e comportamentos resultantes de uma experiência coletiva, e compartilhados pelos membros da empresa. Representa, portanto, o resultado da adaptação de uma empresa ao seu ambiente; valores adquiridos coletivamente são julgados relevantes para serem preservados e ensinados aos novos membros.
3. Espiritualidade
Para Saad et alii (2001) a Espiritualidade pode ser considerada como a propensão humana para encontrar um significado para a vida através de conceitos que transcendem o tangível, um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que pode ou não incluir uma participação religiosa formal.
Assim, a Espiritualidade tem como qualidade dá sentido à vida, e desse modo assume uma perspectiva mais ampla que religião, pois esta é uma possibilidade, um olhar, uma expressão da espiritualidade. Espiritualidade, acima de tudo é individual e intrínseca, expressando uma necessidade e sentimento pessoal, que propicia cuidado, preocupação, interesse pelos outros e por si, pela Natureza dando um sentido de significado da vida capaz de fazer suportar as adversidades e persistindo em busca, acima de tudo, de ordem existencial, transcendental.
Underwood-Gordon et alii (1997) busca delinear as peculiaridades dos termos Religiosidade e Espiritualidade afirmando inicialmente que mesmo próximos e comumente associados, na sua essência não devem ser considerados como sinônimos em razão do escopo decorrente do termo. O termo religiosidade está associado a um sistema de culto e doutrina que é compartilhado por um grupo, e, portanto, tem características comportamentais, sociais, doutrinárias e valorais específicas.
Já a Espiritualidade está relacionada com o transcendente, com questões existências, envolvendo valores humanos e alusivos a Natureza, em busca da ampliação da compreensão e consciência do Todo, propiciando desse modo o significado e propósito da vida, e com a concepção de que há mais na vida do que aquilo que pode ser visto ou plenamente entendido.
A palavra “espírito” no âmbito da Filosofia é herdada de Descartes, que considera o espírito como o princípio do pensamento, expressando: “Meu espírito, isto é, eu mesmo enquanto sou apenas uma coisa que pensa”, em oposição ao corpo, à matéria, a extensão, na medida em que é indivisível e totalizante, enquanto a matéria é divisível e diversificante. (JAPIASSU & MARCONDES, 1989)
Abbagnano (1999, p. 354-355) assinala cinco grandes significados filosóficos para o termo “espírito”, “alma racional ou intelecto” apontado como o significado predominante na filosofia moderna e contemporânea, bem como na linguagem comum. “Pneuma ou sopro animador” admitido pela física estóica, passando desta as várias doutrinas antigas e modernas. “Substância incorpórea”, ou seja, anjos, demônios e almas dos mortos, para John Locke. “Matéria sutil ou impalpável que é a força animadora das coisas” significado derivado do estoicismo, encontrado com freqüência nos magos do Renascimento. “Disposição ou atitude” para Blaise Pascal.
Em Hegel, o termo o espírito, absolutamente primeiro, é a verdade da natureza, é a idéia que chegou ao ser-para-si. Essa interiorização do ser-fora-de-si que é a Natureza, desenvolve-se do espírito subjetivo (alma, consciência, fatos psíquicos) ao espírito absoluto (através da arte, da religião) a fim de chegar à filosofia, que é a forma última na qual se unem a arte (representação sensível) e a religião. Remete a algo não-corpóreo, imaterial e intangível, mas que, entretanto, é inerente ao ser humano conforme expressa Japiassu e Marcondes (1989).
Abbagnano (1999, p. 357) afirma que o Espiritualismo em todas as suas formas tem em comum algumas teses fundamentais, que derivam do seu conceito da filosofia como análise da consciência e que podem ser resumidos em: negação da realidade do mundo externo, ou seja, o idealismo gnosiológico; conseqüente redução da ciência a conhecimento falso, imperfeito ou preparatório; inventário, na consciência, de dados aptos a construir o mundo da natureza e o mundo da história em seu caráter finalista ou providencial; inventário, na consciência, de dados que remontariam a Deus ou a um princípio divino em alguma de suas especificações que se ajustasse à tradição teológica do cristianismo; a defesa da tradição e das instituições em que a tradição se encarna, porquanto a tradição é interpretada como manifestação no mundo humano do mesmo princípio divino que se revela na consciência.
Verifica-se que mesmo tendo significados distintos, os termos “espírito” e “espiritualidade” são complementares e estão fortemente articulados, desdobrando a ideia de princípio causador e causa. Assim, guardadas as peculiaridades, encontra-se na
literatura como tendo um mesmo sentido, tal como nas expressões espírito no trabalho e espiritualidade no trabalho, desta maneira ao considerar espírito ou espiritualidade no trabalho, são sinônimos.
4. Espiritualidade nas Organizações
O ser humano busca o sentido e propósito da sua existência, sempre buscou; e o âmbito do trabalho, das organizações produtivas ou não, perpassa tal busca. Ao perceber essa procura humana, as organizações passam a respeitar valorizar e proporcionar sintonia entre tal busca e o contexto organizacional em que estão inseridas, de modo que, a harmonia interior do ser humano (tão necessária para a harmonia exterior presente na ação e interação entre os indivíduos no ambiente organizacional) passa a ser cada vez mais fundamental para a própria sobrevivência organizacional o equilíbrio emocional, espiritual e afetivo dos colaboradores.
A Espiritualidade nas organizações ganha destaque, uma vez que intenciona trazer para o ambiente organizacional a racionalidade substantiva apontada por Ramos (1989) colocada ao lado da razão instrumental, que ainda tem norteado e predominado as escolhas e decisões no campo administrativo, econômico e político, nos últimos dois ou três séculos. Embora ainda bastante incipiente, sobretudo no meio acadêmico, a espiritualidade nas organizações vem merecendo a atenção tanto dos profissionais de administração, como de pesquisadores, que desde o final da década de 90 do século passado, nos Estados Unidos e, nos últimos cinco anos no Brasil.
Segundo Ashmos e Duchon (2000, p. 137) a E spiritualidade no a mb i e n t e d e trabalho pode ser c o n s i d e r a d a como “o reconhecimento de que os empregados têm uma vida interior que alimenta, e é alimentada, pela realização de trabalho com significado num contexto de comunidade”.
Giacalone e Jurkiewicz (2003) apontam a Espiritualidade no trabalho como “um quadro de valores organizacionais evidenciado na cultura, que promove a experiência de transcendência dos empregados através dos processos de trabalho, facilitando o seu sentido de conexão com os outros de um modo que lhes proporciona sentimentos de plenitude e alegria.”.
Ashmos e Duchon (2000) e de Milliman; Czaplewski; Ferguson (2003) ganharam destaque pela busca de operacionalizar o estudo e pesquisa da espiritualidade de modo concreto, chegando a desenvolveram instrumentos de mensuração da dimensão espiritual no ambiente do trabalho, tornando-se referências para outros pesquisadores.
No Brasil, a temática ainda não tem gerado interesse aos pesquisadores, que consideram o assunto afeito ao campo da religião, quiçá da filosofia, portanto, não afeito ao âmbito das organizações e da gestão. Curiosamente outros campos do conhecimento a exemplo da Psicologia têm velado interesse pelo tema. Curiosamente, o interesse pelo tema aparece indiretamente, associado a questões envolvendo liderança, cultura, ética, valores que perpassam questões afeitas à espiritualidade, não se confundindo com religião ou religiões.
Há, por conseqüência, poucos estudos e pesquisas no campo das organizações e da gestão organizacional, com destaque para a pesquisadora Solange Souto da UERJ que em recente trabalho buscou verificar a relação entre espiritualidade nas organizações e o comprometimento organizacional a exemplo de Souto & Rego (2006); Rego, Souto & Cunha (2007).
Atribui-se ao crescente interesse pela Espiritualidade nas Organizações, a busca de um trabalho que tenha mais significado para quem o faz, atrelado à busca de um ambiente de trabalho que permita uma maior e melhor interação consigo mesmo e com os outros. Sobre tal interesse Ashmos e Duchon (2000, p. 134) expressa:
Existe uma crescente evidência de que uma grande mudança está ocorrendo em muitas organizações. Dentro do que é algumas vezes referido como um movimento de espiritualidade, organizações que, por muito tempo, foram vistas como sistemas racionais estão considerando dar espaço a uma dimensão espiritual; uma dimensão que tem pouco a ver com regras e ordens e mais a ver com significado, propósito e um senso de comunidade.
Ashmos & Duchon (2000) atribuem o crescente interesse pela espiritualidade nos EUA há cinco fatores principais. O primeiro desses fatores diz respeito ao resgate da dignidade humana, após os processos de reengenharia, downsizing, demissões e desigualdades salariais que marcaram a década de 90, naquele país. O segundo fator refere-se ao fato de que o ambiente de trabalho passou a ser visto como uma fonte primária de comunidade, em função do declínio da família, vizinhança, igreja e grupos civis como lugares onde era possível sentir-se conectado.
O terceiro fator está relacionado com o interesse pelas culturas e filosofias orientais. O quarto fator está atrelado ao crescente interesse pela contemplação da vida e de seu significado. O quinto fator considera que a competição global que tem levado líderes organizacionais a reconhecerem que a criatividade do empregado necessita de uma mais completa expressão, essa expressão, torna-se difícil quando o trabalho em si não tem significado.
Verifica-se que há diferentes motivações e explicações para o crescente interesse pela espiritualidade, o que deve ser visto com naturalidade, reflexo do desenvolvimento humano e sua busca incessante de compreender a sua origem, o sentido da sua existência, assim como as possibilidades para viver com plenitude e qualidade de vida.
5. Espiritualidade e Cultura Organizacional
Wagner-Marsh & Conley (1999) efetuam uma associação com o livro à Terceira Onda de Alvin Toffler, sugerindo uma “quarta onda” organizacional, que seria a organização calcada na espiritualidade. De acordo com eles, o movimento em direção à espiritualização das organizações tem aparentemente se firmado e um elevado número de empresas estão tentando, incutir, lentamente, uma cultura corporativa espiritual. Em seu artigo, Wagner-Marsh & Conley (1999) exploram atitudes e práticas básicas para o sucesso e manutenção de uma cultura corporativa espiritual. Com base em revisão de literatura, observação profissional e entrevistas pessoais profundas com líderes de empresas baseadas na espiritualidade, são discutidos ao longo do artigo e articulados com exemplos específicos de como tais conceitos são praticados em várias empresas. Para tanto, os autores selecionaram seis conceitos-chave que apontam para mensuração da espiritualidade nas organizações: honestidade consigo mesmo; articulação da filosofia corporativa com a pessoal; confiança mútua e honestidade com os outros; comprometimento com qualidade e serviço; comprometimento com empregados e seleção de pessoal de acordo com a filosofia da corporação – são, de fato, fundamentais, para a manutenção de uma cultura corporativa baseada na espiritualidade.
Porth, McCall & Bausch (1999) realizaram um estudo que buscava identificar as características presentes nas organizações de aprendizagem tendo identificado como característica comum o fato de ser presente referências ao aspecto espiritual dos colaboradores, assim como do senso de comunidade. De acordo com eles, a organização que a aprende é um modelo que permite ao espírito humano florescer, de forma que a criatividade e a inovação sejam possíveis.
Outra forma de olhar a temática da Espiritualidade no contexto do trabalho faz articulação com a cultura da organização. Dentro desta perspectiva, Biberman, Whitty & Robbins (1999) realizaram um interessante paralelo entre a história do Mágico de Oz e sua influência na cultura americana.
De acordo com Biberman, Whitty & Robbins (1999), a estória pode servir como uma metáfora a mudança organizacional em todos os níveis, ainda que ressaltem que, da
mesma forma que a transformação espiritual de uma pessoa deve ser iniciada de dentro, também as organizações devem descobrir o seu poder interior para balancear energias e transformar-se em um sistema mais humano.
Para Lewis & Geroy (2000) a mistura cultural reflete não apenas uma diversidade étnica como também uma diversidade de crenças e comportamentos que influenciam as tarefas e funções no ambiente de trabalho. Como os empregados já iniciaram a manifestação de crenças espirituais e crenças no trabalho, o que, segundo os autores, tem contribuído para um ambiente de trabalho mais diverso.
Considerando a perspectiva voltada para a Cultura Organizacional, os autores acima referenciados buscaram obter um entendimento mais claro de uma estrutura do espírito no trabalho no nível individual. Então, conduziram um estudo exploratório qualitativo que discutiu a utilidade de uma definição clara e compreensiva de espírito no trabalho, para avançar a teoria, a pesquisa e a prática.
Na perspectiva deles, o termo espírito no trabalho também serve para designar uma cultura organizacional que fomenta autonomia, confiança, coesão, apoio, reconhecimento, inovação e justiça através do processo de trabalho e da liderança.
6. Aspectos Metodológicos no Estudo da Espiritualidade nas Organizações
Pesquisar temas que envolvem aspectos de ordem subjetiva requer do pesquisador a sutil busca de estratégias e técnicas compatíveis com o seu objeto e perspectiva. Mesmo entre os pesquisadores há questionamentos quanto à validade das conclusões decorrentes de métodos quantitativos ou qualitativos. Em alguns casos, se sugere utilizar a combinação de ambos de forma complementar, discutem-se ainda, a ideia de se criar novos métodos híbridos sob uma influência transdisciplinar.
Mitroff e Denton (1999), sob a influência da filosofia transdisciplinar e das idéias integracionistas de Ken Wilber, realizaram o mais importante trabalho de pesquisa sobre a temática daquela década. Defensores de uma aproximação com a literatura sobre psicologia, filosofia, teologia, antropologia e ética para um entendimento do tema, em seu estudo eles combinaram a coleta simultânea de dados qualitativos e quantitativos.
Dean (2004) critica a forma como se tem feito pesquisas nessa área. Segundo ele, os dados não são significantes, uma vez não foram coletados simultaneamente de forma qualitativa e quantitativa.
Igualmente preocupada com as questões metodológicas da pesquisa sobre esse tema, Benefiel (2003) argumenta que os pesquisadores desse crescente novo campo da
espiritualidade nas organizações se deparam com um número significativo de questões-chave. Tais questões dizem respeito à definição da espiritualidade nas organizações, bem como aos métodos - quantitativos; qualitativos; uma combinação de ambos, ou, ainda, métodos totalmente novos mais apropriados para esse trabalho.
Benefiel (2003, p. 373) é adepta de abordagens mais filosóficas da “ciência integral” e “espiritualidade integral” de Ken Wilber e de Bernard Lonergan – a quem ela atribui a integração da ciência organizacional e da espiritualidade por ter acabado com o mito de que a espiritualidade é inerentemente subjetiva e a ciência é inerentemente objetiva. Por outro lado, merecem destaque os estudos realizados por Ashmos e Duchon (2000) que desenvolveram um instrumento de medida da espiritualidade no trabalho, o qual influenciou, um pouco mais tarde, Milliman e seus colaboradores e, mais recentemente, no Brasil, Rego, Cunha e Souto (2007). Muito citados em pesquisas nessa área, Ashmos e Duchon, da Universidade do Texas, EUA, foram os pioneiros em, além de oferecer um conceito e definição de espiritualidade no trabalho, apresentar um suporte empírico para medi-la.
Um pouco depois, outro artigo com o mesmo tipo de abordagem, porém com certo viés para o comportamento organizacional, foi conduzido por Milliman, Czaplewski e Ferguson (2003), que na tentativa de prover alguns dos primeiros suportes empíricos de que existe uma associação positiva entre espiritualidade e os resultados do empregado no trabalho, realizaram um exame empírico rigoroso dessa relação considerando cinco variáveis prevalentes de atitudes do empregado no trabalho.
É importante ressaltar que, embora os próprios pesquisadores reconheçam que seu estudo baseia-se num único instrumento auto-referenciado, os resultados indicam, de forma geral, uma relação significante entre as três dimensões de espiritualidade e as cinco variáveis de atitudes no trabalho examinadas.
7. Considerações Finais
Os estudos organizacionais, nas últimas décadas, têm enfatizado aspectos de natureza objetiva – teórico e empírico - entretanto, tais dimensões não têm sido suficientes para fazer face às constantes, dinâmicas e complexas mudanças que tem ocorrido no campo organizacional. Faz-se necessário adentrar e valorizar aspectos de natureza subjetiva, sem deixar de lado o conhecimento organizacional objetivado. Fazer a conexão desses dois aspectos tornou-se crucial e decisivo para a sobrevivência das organizações, portanto, não se trata de uma alternativa de pesquisas acadêmicas.
Compreender as inter-relações do processo organizacional continua sendo relevante às organizações, e a conexão com a subjetividade mostra-se determinante para o avanço na compreensão da dinâmica organizacional, que assim pode ser considerado, não apenas enquanto processo decorrente da racionalidade instrumental, mas também, enquanto possibilidade de concepção de algo novo.
Vislumbra-se um novo patamar de estudos organizacionais, que possa dar conta da mediação entre a objetividade predominante através da racionalidade na análise organizacional, a consideração da subjetividade foi no último tópico enfatizado a partir da dimensão estética, dimensão essa enfatizada como parte integrante da ação humana. A contribuição resultante dos estudos envolvendo a Espiritualidade e a Cultura para a gestão organizacional, ainda está por ser explorado, mas sua potencialidade pressupõe rever os próprios métodos de pesquisa e o referencial conceitual, aproximando-se de uma fundamentação filosófica enquanto ponto de partida.
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