• Nenhum resultado encontrado

DOCUMENTO PROTEGIDO PELA LEI DE DIREITO AUTORAL

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "DOCUMENTO PROTEGIDO PELA LEI DE DIREITO AUTORAL"

Copied!
53
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”

AVM FACULDADE INTEGRADA

INFÂNCIA E EDUCAÇÃO INFANTIL

Por: Joseane Guimarães Sá Izaú

Orientador Prof. Edla Trocoli

Rio de Janeiro 2013

(2)

UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU’’

AVM FACULDADE INTEGRADA

INFÂNCIA E EDUCAÇÃO INFANTIL

Apresentação de monografia à AVM Faculdade Integrada como requisito parcial para obtenção do grau de especialista em Educação Infantil

(3)

AGRADECIMENTOS

....a Deus por ter me dado mais uma oportunidade de adquirir conhecimento e por sempre estar ao meu lado nos momentos de dificuldade.

(4)

DEDICATÓRIA

...à minha família, especialmente ao meu filho João Roberto, por ser a maior fonte de estímulo na minha trajetória como pessoa e como mãe.

(5)

RESUMO

O presente trabalho tem como tema a Infância e a Educação Infantil, numa abordagem histórica, desde a Idade Média até a atualidade. O principal l objetivo foi colocar em evidência a concepção de infância e de criança que foi sendo construída histórica e socialmente através dos tempos. Com a exposição do tema pode-se observar as transformações gradativas na família e na sociedade, e de que forma esses eventos influenciaram na relação das mesmas com as instituições escolares. Destacamos, ainda, o caráter assistencialista das primeiras creches e escolas destinadas à primeira infância e a mudança ocorrida nestas, que passaram a ser mais do que locais de cuidado e proteção, tornaram-se , de fato, celeiros de desenvolvimento global da criança como sujeito de direitos, entre eles, o de ter acesso à educação de qualidade, desde a mais tenra idade.

(6)

METODOLOGIA

O trabalho foi realizado através da referência bibliográfica de autores que dissertaram sobre o tema, entre eles, Phillipe Ariés, Sônia Kramer,e Moyses Kuhlmann.

Através dessas fontes de pesquisa e da leitura da legislação específica, destacamos os pontos necessários à realização do presente trabalho monográfico.

A partir dos dados coletados, buscamos atingir os objetivos propostos de analisar a Infância e a Educação Infantil, numa perspectiva histórica e social.

(7)

SUMÁRIO

INTRODUÇÂO 08

CAPÍTULO I - A formação do conceito de infância 10

1.1- A infância e a criança 1.2- A criança como categoria social CAPÍTULO II - O lugar histórico da criança na 18

dinâmica familiar 2.1- A organização da estrutura familiar 2.2- A trajetória da criança na família CAPÍTULO III – O processo de valorização de 26

Educação Infantil 3.1- A Educação Infantil como forma de moldar o ser 3.2- A criança como investimento futuro CONCLUSÃO 35

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 36

BIBLIOGRAFIA CITADA 37

(8)

INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende estabelecer uma dialética entre a concepção de infância, após o período medieval, e a contribuição desse conceito na valorização da Educação Infantil

A partir desse referencial temático, será destaque a formação dos valores da criança e da infância, a dinâmica familiar, o lugar historicamente ocupado pelos petizes e o investimento social na Educação Infantil.

A criança como categoria social e membro representativo na família, passou a ser percebido no período final da Idade Média. Até então, a infância era visualizada de formas antagônicas, ora tida como um estágio humano no qual o ser estaria incompleto, ora como um adulto em miniatura.

Como já foi observado acima, ser criança não significa ter infância pois o período do desenvolvimento humano que caracteriza a infância, muitas vezes, é encurtado ou inexistente. O adultecimento precoce acontecia, e ainda se faz presente na atualidade ,estimulado pela própria sociedade que provocava um crescimento acelerado de meninos e meninas.

Desta forma, a participação de crianças em atividades que faziam parte do mundo adulto levavam a uma visão distorcida do contexto social pois, petizes, não possuem maturidade suficiente para compreender determinadas situações.

Nesse sentido, analisaremos as possibilidades de tempo e lugar para a infância, como um direito e também uma conquista da espécie humana, ao enfocar as relações entre adultos e crianças.

No que tange ao papel da família em relação à criança, após o século XVIII, esta começa a ser percebida como um ser que necessita de cuidados e investimentos futuros.

O papel da escola foi atender às novas demandas desencadeadas por essa crescente valorização da infância.

A escola passa a ser um meio pelo qual a sociedade deve preparar a criança para viver socialmente e futuramente, ser produtiva e útil.

(9)

Outro aspecto que será ressaltado no trabalho, será a limitação da afetividade em relação à criança, gerada pela alta taxa de mortalidade vigente nesse contexto histórico.

Após essa época, surgiu a percepção das especificidades infantis e a observação de suas características e necessidades.

Nesse sentido, a separação das crianças em espaços próprios também se deu para resguardá-las em sua pureza e inocência, evitando as experiências antecipadas da vida adulta.

Ao abordar essas questões, o trabalho se organizará em capítulos que descrevem narrativas factuais e desenvolvem observações a fim de que os objetivos sejam alcançados.

Finalizando, uma conclusão tecerá uma reflexão sobre os autores, as visões estudadas, bem como suas contribuições para a História da Educação Infantil.

(10)

CAPÍTULO I

A FORMAÇÃO DO CONCEITO DE INFÂNCIA

[

1.1 – A infância e a criança

A percepção da infância como um importante estágio do desenvolvimento humano se deu a partir do século XVI, segundo as pesquisas de Phillipe Ariès, em sua obra, História social da criança e da família.

Ainda de acordo com Ariés ,até aquele período histórico, a criança era vista como um ser substituível, que, caso atingisse a idade de sete anos, iria ser inserida na vida da família.

Nessa perspectiva, tornaria-se útil na economia familiar, estando apta a realizar tarefas e cumprir seus ofícios, imitando seus pais e colaborando com a coletividade.

Dessa forma, a criança não era tida como um ser em desenvolvimento, e sim , como um adulto em tamanho reduzido.

Nessa ordem de ideias, a família era social. De acordo com Ariés, a sociedade estava organizada de forma que a criança deveria atender a uma expectativa utilitária.

Como já foi observado acima , os petizes eram como seres em miniatura e logo que pudessem realizar algumas tarefas ,eram inseridos no mundo adulto, sem qualquer preocupação referente à sua formação enquanto ser específico ,portanto eram expostos a todo tipo de experiência.

Interessante ressaltar que nesse período havia uma inexistência de privacidade .Os assuntos ou brincadeiras sexuais envolviam adultos e crianças, ainda de acordo com Phillipe Ariès. Não existiam segredos ou assuntos proibidos aos pequenos. Eles participavam da vida como se fossem adultos, não havia uma definição do ser adulto ou ser criança

(11)

Nesse sentido, nota-se que não existia uma real clareza em relação ao período que caracterizava a infância.

Em meio as mudanças ocorridas na sociedade, o enfoque e as perspectivas em relação à criança e à infância começam a ganhar corpo, tanto no campo moral quanto no psicológico.

Através desse movimento, a criança passa do anonimato a visibilidade. Dentro desse cenário, a infância passa a ser compreendida como a concepção ou representação que os adultos fazem desse período da vida e a criança seria o sujeito que vive essa fase da vida.

A história da infância seria o reflexo que a sociedade faz da relação das crianças entre elas, com os adultos, com a cultura, com o meio em que se encontram e com a sociedade em geral.

Desse modo ,a infância seria um conceito ou um ideal que caracteriza elementos comuns a diversas crianças.

Talvez em virtude do que foi abordado acima, o significado ideológico da criança nas várias classes sociais e nos diferentes conceitos de infância , foram sendo construídos ao longo da história.

Assim, a criança passa a ser compreendida na sua condição de sujeito histórico, participante da ordem e da vida social ,de acordo com os estudos de Sonia Kramer, em sua obra, Infância:fios e desafios da pesquisa.

Na análise de Kramer, o conceito abstrato de criança, se delineava tendo por base os padrões fixos de desenvolvimento, de linguagem e de socialização. A infância seria definida pela falta, por aquilo que ainda não é, pelo que ainda está incompleto, que cabe ser moldado e se desenvolver para tornar-se alguém no dia que, adulta, deixaria de ser criança.

Desse modo , a transformação da criança em alguém que ainda não é, para a condição de cidadã de direitos , se deu a partir de inúmeras mudanças históricas nas sociedades.

No que tange a mudança da concepção de infância e de criança, o contexto de organização social, as atividades realizadas e as relações de

(12)

.

trabalho desempenharam importante papel nessa nova conscientização da condição e natureza histórico-social do ser criança.

Como não poderia deixar de ser, a compreensão da natureza social , histórica e cultural da infância e a busca pelo entendimento crítico da sua condição ao longo dos séculos ,vão sendo objeto de estudos de inúmeros teóricos.

Antes de tudo, estudar a infância exige abordagens amplas, apoiadas na história, sociologia, filosofia, economia e política, pois todas essas áreas de conhecimento influenciam na compreensão dos conceitos de infância e

criança.

Ainda de acordo com a obra de Kramer, a infância é um momento único na vida de cada indivíduo, no qual há constante construção e

permanente descoberta.

Nota- se que , é específico, pois ocorre de maneira diferente para cada pessoa. O momento histórico vivido, a cultura, a religião, os hábitos e valores sociais também serão determinantes na formação de cada criança. Em virtude disso , a criança é sujeito histórico ligado a um tempo e a um espaço, influenciando o meio onde vive e sendo influenciado por ele. Desse modo, estudar a infância e a criança significa pesquisar a própria condição humana , a própria história do homem. Conhecer a infância possibilita desvendar o ser humano como sujeito crítico da história produzida por ele.

Naturalmente , colocar as palavras infância e criança lado a lado torna-se um convite à reflexão sobre as relações entre a criança e o ambiente em que nascem e vivem, pois, desse modo, constituem-se como sujeitos e formam-se como cidadãos, a partir das influências recebidas pelo meio e pela cultura a qual pertencem.

(13)

Certamente, existem características comuns a todas as crianças, traços que indicam em qualquer época e em qualquer lugar , que identificam uma pessoa com poucos anos de vida como sendo uma criança.

Entretanto, essas características gerais não dizem muito sobre cada criança em particular, sobre aquilo que faz de cada ser, nessa etapa de vida , um indivíduo único e singular.

Como já foi observado acima, as condições econômicas, a época, os valores sociais, as crenças e práticas religiosas, as concepções de mundo e de vida humana e as relações subjetivas, tornam-se elementos formadores do ser criança.

Nota-se que, tais elementos são diferentes no tempo e no espaço, e, do mesmo modo, as crianças também são diferentes entre si, segundo a cultura, o ambiente, o tempo e a visão de mundo no qual estão inseridas.

Nessa ordem de ideias, cada espaço geográfico, histórico e cultural tem suas características próprias, que os distinguem dos outros. Desse modo, essas características marcam não só o ambiente, como o pensamento e os sentimentos das pessoas que nele vivem, sejam elas adultos ou crianças, essas, de modo especial, são marcadas de forma

contundente, pois vivem um período estruturante de formação da personalidade e do seu esquema de valores.

Ao abordar essas questões, percebe-se que o conceito de infância não se associa apenas a um período da vida com características biológicas próprias , e sim a uma representação social formada pela cultura de cada época, relacionadas histórica e geograficamente aos ambientes

socioeconômicos , aos valores e às concepções de vida de cada indivíduo.

1.2 – A criança como categoria social

Dentro do contexto analisado, a criança e a infância, cabe salientar que, apesar da inexistência de um sentimento de infância na Idade Média,

(14)

isso não significa que as crianças fossem tratadas com desprezo ou negligenciadas.

Nesse sentido, o desconhecimento da ideia de infância não era sinônimo de falta de afeto. O que de fato ocorria era que, assim que a criança mostrava-se capaz de ter alguma autonomia e discernimento, ia se incorporando à sociedade adulta.

Desse modo, até os séculos XV e XVI , a infância estava restrita ao curto período entre o nascimento e aproximadamente os sete anos de idade. Nesse estágio de vida, a criança exigia cuidados especiais e proteção.

Conforme assinalam Manuel Pinto e Manuel Jacinto Sarmento:

“ (...) crianças existiram desde sempre, desde o primeiro ser humano, e a infância como construção social(... ) existe desde os séculos XVII e XVIII.( Sarmento, 1997,p.15)

As mudanças na sociedade começaram a surgir a partir do Renascimento . O pensamento sobre a infância como categoria social, reflete o interesse que a sociedade começou a devotar às crianças e à sua educação.

Em meio ás grandes transformações sociais , culturais e científicas ocorridas, entre elas, a invenção da prensa por Gutemberg e as reformas religiosas, surgiu um novo olhar sobre a infância.

Ao abordar essas questões, Neil Postman destaca alguns fatores determinantes gerados por essas mudanças na sociedade;

‘’(...) um ambiente simbólico inteiramente novo tinha sido criado. Esse ambiente encheu o mundo de novas informações e experiências abstratas. Exigia novas habilidades, atitudes e , sobretudo, um novo tipo de consciência. Individualidade, enriquecida capacidade para o pensamento conceptual, vigor intelectual, crença na autoridade da palavra impressa, paixão por clareza, sequência e razão – tudo isso passou para o primeiro

(15)

plano , enquanto o oralismo medieval retrocedia. O que aconteceu foi que o homem letrado havia sido criado. E , ao chegar , deixou para trás as crianças (...). A partir daí a idade adulta tinha de ser conquistada. Tornou-se uma realização simbólica e não biológica. Depois da prensa tipográfica, os jovens teriam de se tornar adultos e , para isso, teriam de aprender a ler, entrar no mundo da tipografia. E para realizar isso precisariam de educação. Portanto a civilização reinventou as escolas. E ,ao fazê-lo, transformou a infância numa necessidade. (Postman, 1999, p.50).

Em meio a esse cenário, a Igreja tornou-se grande defensora da escolarização para que as crianças aprendessem formalmente os preceitos religiosos.

Como já foi observado acima, a ideia de infância sofreu influências sociais

Sonia Kramer destaca que;.

‘’ (...) a infância aparece com a sociedade capitalista urbano-industrial na medida em que mudam a inserção e o papel social da criança na comunidade. Se , na sociedade feudal , a criança exercia um papel produtivo direto (‘’ de adulto’’) , assim que ultrapassava o período de alta mortalidade, na sociedade burguesa ela passa a ser alguém que precisa ser cuidada, escolarizada e preparada para atuação futura. Esse conceito de infância é pois, determinado historicamente pelas modificações de formas de organização da sociedade. (Kramer, 1995, p. 19).

(16)

No que tange ao reconhecimento da criança como categoria social, nota-se um grande avanço, entretanto, ainda é percebida como um ser carente da maturação necessária , vinda com a idade e com a devida educação. Desta forma, a partir da Renascença, a criança passa a ser alvo de adestramento, controle e educação para o convívio social.

Surgem as normatizações de comportamento, roteiros de civilidade para orientar as ações dos familiares e dos educadores, na condução dos modos pelos quais as crianças devem interagir socialmente.

Interessante ressaltar que, na Idade Média, a criança existia como membro da linhagem, uma parte de um grande corpo comunitário e familiar. A família existia, principalmente, pela solidariedade da linhagem.

A partir do Renascentismo, a família passa a ser mais fechada em si, local de abrigo , de recolhimento e refúgio. As relações parentais se estreitam. Surge uma nova noção moral de criança; a noção da criança bem-educada. Esse conceito era praticamente inexistente até o século XVI e formou-se no século XVII.

Na análise de Phillipe Ariès:

“” A criança bem-educada seria preservada das rudezas e da imoralidade, que se tornariam traços específicos das camadas populares e dos moleques “ (Arìès, 1981, p. 185).

Em virtude disso, a Modernidade transformou as crianças em alunos e os colégios passam a tratar as crianças de acordo com os códigos de boas maneiras reconhecidos pela cultura moderna.

Talvez em virtude dessa longa trajetória desenvolvida na agremiação familiar e pelo decréscimo das taxas de mortalidade infantil, surgiu um forte apego dos adultos por suas crianças.

Como já foi observado acima, a criança passa a formar uma nova categoria social construída a partir das novas relações entre adultos e crianças.

(17)

Quanto aos efeitos da educação após o período medievo, cabe ressaltar que a criança é vista dentro de um contexto que valoriza a civilidade.

Nesse sentido, o valor desse requisito tornou-se primordial para a formação do individuo nesse período histórico.

Ao abordar essas questões, Richard Sennett analisa;

(...) cidade e civilidade têm uma raiz etimológica comum. Civilidade é tratar os outros como se fossem estranhos que forjam um laço social sobre essa distância social. A cidade é esse estabelecimento humano no qual os estranhos devem provavelmente se encontrar. A geografia pública de uma cidade é a institucionalização da civilidade. (Sennett, 1988, p. 323-4).

Antes de tudo, percebe-se que, mesmo nos dias atuais, a criança ainda é vista como um receptáculo, no qual serão inseridos valores, conhecimentos, normas e culturas.

A condição de cidadã de direitos e formadora de cultura ainda está em processo de construção.

Como não poderia deixar de ser , as crianças foram e são , seres ativos em suas relações, entre si e com os adultos ,não se tratam de sujeitos passivos dentro das estruturas sociais.

No que tange ao processo de construção da categoria social da infância, faz-se necessário dar voz às crianças para proporcionar uma produção de dados sociológicos verdadeiros e pertinentes ao mundo infantil para, de modo abrangente, expor toda a complexidade do fenômeno da infância na história da humanidade.

Certamente trazer a discussão dessas questões, demonstra de forma incisiva a importante contribuição da própria criança na formação e valorização da infância, por meio da interação do sujeito ao ambiente que o cerca.

(18)

CAPÍTULO II

O LUGAR HISTÓRICO DA CRIANÇA NA DINÂMICA

FAMILIAR

2.1 – A organização da estrutura familiar

Dentro do cenário histórico da Idade Média, a criança existia ,como já foi observado anteriormente, como membro da linhagem. Essa pertença estava intimamente ligada ao seu grupo de origem. O que definia as diversas identidades de seus membros era, basicamente, a família.

Conforme assinala Ariès;

‘’(...) a partir do século XV, as realidades e os sentimentos da família se transformaram: uma revolução profunda e lenta, mal percebida pelos historiadores e difícil de reconhecer. E, no entanto, o fato essencial é bastante evidente; a extensão da frequência escolar. (...) A escola deixou de ser reservada aos clérigos para se tornar um instrumento normal da iniciação social, da passagem do estado de infância ao do adulto” (Ariés, 1981, p. 231).

Certamente, as transformações sociais que começaram a ocorrer, especialmente na Europa, influenciaram as configurações das famílias e a forma como a infância era concebida.

Ao abordar essas questões, nota-se que a ideia de infância se relaciona com a ideia de família.

Percebe-se que, no período medievo as representações iconográficas não mostravam as crianças, no máximo, apareciam nas efígies funerárias. Os petizes, de modo geral ,não eram retratados

(19)

De acordo com Phillipe Ariés:

‘’ (...) a infância era apenas uma fase sem importância que não fazia sentido fixar lembranças.” (Ariés, 1981,p.21)

Cabe ressaltar que, nessa época, os índices de mortalidade eram elevados, bem como as práticas de infanticídio.

Desse modo, as crianças poderiam facilmente ser substituídas por outras, com ausência de sentimentalismos, inclusive com o objetivo de conseguir um melhor espécime, mais forte e saudável, que atendesse às expectativas da própria sociedade, que se estruturava em torno de uma perspectiva utilitária em relação aos seus membros.

Antes de tudo , podemos observar que a família era social e não afetiva.

Tendo como objetivo colocar em evidência a estrutura familiar da sociedade medieval, vale salientar que, todas as decisões e propostas eram direcionadas para o bem da família, para o interesse da linhagem, enfim, voltadas para o interesse do grupo, que seria uma grande família, fundada sobre o modelo de família propriamente dita.

Nesse contexto, a família tem como base um bem material precioso : a terra. Essa é a sua principal fonte de riqueza. Este bem familiar permanecia como propriedade da linhagem, os problemas e dificuldades familiares não poderiam prejudicar essa riqueza. Nenhum de seus membros poderia vende-la ou trocá-la, pois pertencia àquela linhagem.

Ao abordar essas questões, Ariès afirma;

“” A família tinha por missão a conservação dos bens, a prática comum de um ofício, a ajuda mútua cotidiana. Ela não tinha função afetiva. A transmissão dos valores e dos

(20)

conhecimentos, e, de modo geral, a socialização das crianças, não eram asseguradas nem controladas pela família. (Ariès, 1981, p.51)

Como já foi destacado anteriormente, assim que a criança superasse os índices de mortalidade, misturava-se aos adultos. As crianças sadias deveriam ser mantidas por questões de necessidade da organização familiar.

Nessa época, havia o hábito de entregar a criança para que outra família a educasse. A mesma deveria retornar para sua família de origem, aproximadamente , aos sete anos, caso viesse a sobreviver. Com essa idade estaria apta a ser inserida na vida da família e no trabalho.

Desse modo, podemos destacar a analise dessas questões na obra de Jean-Louis Flandrin:

“ (...) esses costumes se estenderam por todos os estratos sociais da sociedade. A mulher era necessária para tomar conta dos negócios do marido, quando o marido trabalhava na seda, a mulher tinha que ajudar no tear e a tecer. Se a mulher não pudesse assumir o seu papel na economia do lar, toda a empresa familiar se arriscava a soçobrar. Não tendo condições de dar atenção ao seu bebê, mandavam-no a alguma ama, que se sustentava ocupando-se em amamentar e cuidar de muitos bebês. Não era raro alguns deles morrerem em decorrência da falta de alimentação ou negligência de suas babás. No entanto, a morte desses pequeninos não parecia ser muito sentida por seus pais, uma vez que nessa sociedade o planejamento familiar era quase inexistente e essas famílias tinham muitos filhos, quase um por ano. (Flandrin,1994, p.212)

(21)

Como se pode depreender, em suas famílias ou em outras famílias, os pequenos realizavam tarefas domésticas, aprendiam ofícios e participavam da vida dos adultos sem maiores restrições. Os serviços domésticos eram uma forma de aprendizagem e essa, uma forma comum de educação.

Vale a pena salientar que , os pais nesse período histórico, possuíam uma regra que valorizava o filho mais velho, a regra de primogenitura, em detrimento aos demais filhos. De acordo com o código ético e moral vigente, o filho mais velho teria o direito de ser o único herdeiro dos bens, no caso de morte do pai.

Ressalte-se que, nesse contexto os pais tinham preferência por herdeiros do sexo masculino pois não havia vantagens em ter filhas, já que, nesse caso, haveria desvantagem financeira pelo pagamento do dote, na ocasião do casamento das mesmas.

Quanto aos efeitos das transformações que ocorreram com a formação dos Estados Nacionais europeus, o principal deles foi a mudança nas relações sociais, causando forte impacto na vida das famílias.

O modo de vida e os costumes começam a ser reformulados, de modo que a família começa a se tornar nuclear, se reduz aos pais e filhos, excluindo os criados, os agregados e os amigos.

Desse modo, a reorganização dos espaços, inclusive familiares, trouxe uma maior independência dos cômodos, dentro das casas, propiciando maior intimidade e isolamento.

Em virtude do exposto, com uma nova ordem de ideias e expectativas sociais, cada membro passa a corresponder a uma gama de possibilidades e, a própria sociedade, passa a dar maior ênfase à educação e a escola. Esta, passa a ser vista como local de potencialização das capacidades individuais, , direcionando a criança a uma nova ordem social, que exige mais do indivíduo do que de sua linhagem.

No que tange à família na modernidade, essa, passa a depositar na escola a responsabilidade pela educação de suas crianças.

Antes reservada aos clérigos, a escola passa a ser o instrumento de iniciação social da infância.

(22)

Ariés faz uma análise:

‘’(...) o grande acontecimento foi o reaparecimento no início dos tempos modernos da preocupação com a educação. Hoje, nossa sociedade depende e sabe que depende, do sucesso do seu sistema educacional. (Ariés, 1981,p. 278).

Como já foi visto anteriormente, o sentimento de infância está intrinsicamente ligado ao fortalecimento da família nuclear, que, formada por poucos membros, se torna mais forte e voltada para o cuidado, a proteção e a atenção aos pequenos.

Nessa ordem de ideias, a família conjugal está voltada para os seus poucos integrantes e não mais para a linhagem.

2.2- A trajetória da infância na família: da invisibilidade à paparicação

Como já foi destacado, a criança passa da inviabilidade histórica à

personagem de destaque na sociedade

Ressalte-se que, nesse período o sentimento de que a criança não contava deu lugar ao ato de paparicar as mesmas. Elas passaram a ser vistas como fontes de distração para os adultos. Eram tidas como inocentes e ingênuas e deveriam ser protegidas, mimadas e, principalmente, amadas. A valorização dos petizes produz modificações na concepção de educação e aprendizagem, que, nessa época, era voltada para a prática religiosa.

Sendo assim, surgiram dois sentimentos em relação à criança: o sentimento de paparicação, gerado dentro do seio das famílias, que passaram a lidar com as crianças como se elas fossem uma fonte de prazer devido à sua docilidade e o outro sentimento: o de exasperação, oriundo de

(23)

moralistas, religiosos e educadores do século XVII, que não aceitavam o mimo que passou a ser dedicado aos petizes.

De acordo com esses moralistas, as crianças deveriam ser preservadas e , principalmente, disciplinadas.

Segundo Phillipe Ariés, em sua principal obra ,o papel reservado à escola moderna foi o de disciplinar:

‘’(...) um meio de isolar cada vez mais as crianças durante um período de formação, tanto moral como intelectual, de adestrá-las graças a uma disciplina mais autoritária, e desse modo, separá-las da sociedade dos adultos.’’ (Ariès, 1981, p.165).

Inicia-se então, o processo educacional que passa a ser um dos pilares do atendimento à criança.

Com relação a esses novos sentimentos sobre a infância surgidos com a modernidade, Sonia Kramer afirma que:

‘’ O sentimento moderno de infância corresponde a duas atitudes contraditórias que caracterizam o comportamento dos adultos até hoje: uma considera a criança ingênua, inocente, graciosa e é pela ‘’paparicação’’ dos adultos, e outra surge, simultaneamente a primeira, mas se contrapõe a ela, tomando a criança como um ser imperfeito e incompleto, que necessita de ‘’moralização’’ e da educação feita pelos adultos. (Kramer, 1995, p.18).

Quanto aos efeitos dessa nova concepção em relação aos pequenos, observa-se também uma preocupação com a sua higiene e saúde física, fato que na Idade Média era irrelevante.

(24)

Do mesmo modo , a morte de uma criança passa a ser relatada com dor e sofrimento intensos.

Interessante relatar que, nesse contexto, a escolarização é fortemente apoiada pela Igreja ,a qual vê nesse processo uma forma de assegurar e garantir seguidores dos seus preceitos e , dessa forma, manter o seu poder dentro da sociedade.

Certamente, a criança e a família, dentro dessa nova ordem social, passam a fazer parte de projetos ideológicos estatais e religiosos.

Vale a pena salientar que o processo de escolarização, inicialmente, excluiu as crianças do sexo feminino pois , até o século XVII meninas de doze ou treze anos já estavam casadas e exercendo o papel social que lhes era reservado no mundo dos adultos.

Cabe ressaltar que, a educação com caráter disciplinar compreendia castigos físicos, utilizados pela família e na escola.

Dessa forma, os adultos, fossem eles educadores ou familiares, legitimavam o seu poder sobre as crianças.

Embora tenha passado a ser valorizada socialmente com um projeto futuro, os pequenos ainda eram considerados criaturas fracas, incompetentes, não produtivas economicamente ,a qual o adulto deveria cuidar e proteger, justificando e reafirmando a subordinação da criança diante do adulto.

Vale salientar que havia separação entre as classes de ricos e pobres nas escolas , historicamente, devido a essa fragmentação social, a escola popular se ergueu de forma deficiente em inúmeros aspectos.

Desse modo, foram poucas as crianças das classes menos favorecidas que tiveram acesso à escolarização ,muitas delas permaneceram no local de trabalho destinado aos adultos.

Desta forma, após a Revolução Industrial ,na Idade Moderna, a estrutura familiar se deslocou do campo , da terra, para a zona urbana, onde estavam as fábricas.

A partir dessa nova perspectiva, as crianças deveriam ser preparadas para atender à demanda da produção fabril.

(25)

Sendo assim, o processo de industrialização levou à criação das instituições de cuidado para os filhos das operárias, que vendiam a sua força de trabalho nas indústrias.

Em virtude disso ,a criança passa a ser objeto de investimentos econômicos, educacionais e afetivos, por parte da família e do Estado.

Fundamentando essa ideia, apontamos a analise de Elizabeth Badinter;

‘’No século XIX, o Estado se interessa cada vez mais pela criança, vítima, delinquente ou simplesmente carente, adquire o hábito de vigiar o pai. A cada carência paterna devidamente contatada, o Estado se propõe substituir o faltoso, criando novas instituições. (...) É verdade, não obstante, que a política de assumir e proteger a infância traduziu-se não apenas numa vigilância cada vez mais estreita da família, mas também na substituição do patriarcado familiar por um patriarcado de Estado’’ (Bandinter, 1985,p. 288-289).

Como não poderia deixar de ser , o liberalismo e o capitalismo industrial trouxeram como consequência uma nova sociedade, na qual a criança passa a ser o centro de atenção da família, numa constante e progressiva valorização.

(26)

CAPÍTULO III

O PROCESSO DE VALORIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

INFANTIL

3.1- A educação infantil como forma de moldar o ser

Tendo como objetivo assinalar o caráter da Educação na Modernidade, é necessário destacar que a Revolução Científica, que se iniciou no século XVI e se estendeu até o século XVIII, teve enorme influência na forma como o conhecimento passou a se desenvolver. Após a Revolução , as ciências naturais e o método científico tornaram-se a base do pensamento do homem moderno.

Dessa forma, o conhecimento e a educação adquiriram um papel relevante na sociedade moderna. A razão e a ciência retiraram do homem as superstições religiosas e possibilitaram o progresso e a evolução da humanidade.

Alan Touraine faz uma interessante análise da Modernidade;

‘’ A ideia de modernidade, na sua forma mais ambiciosa, foi a ideia do que ele fez e do ele faz, e que,

portanto , deve existir uma correspondência cada vez mais estreita entre a produção, tornada mais eficaz pela ciência, a tecnologia ou a administração, a organização da sociedade regulada pela vontade de se liberar de todas as opressões. Sobre o que repousa essa correspondência de uma cultura cientifíca, de uma sociedade ordenada e de indivíduos livres, senão sobre o triunfo da razão? È a razão que anima a

(27)

ciência e suas aplicações; é ela também que comanda a adaptação da vida social às necessidade individuais ou coletivas; é ela , finalmente, que substitui a arbitrariedade e a violência pelo Estado de direito e pelo mercado.

A humanidade, agindo segundo suas leis, avança

simultaneamente em direção à abundãncia e a felicidade” (Touraine, Alan, 2002,p.9).

Vê-se portanto, que a criação das escolas atende a essas novas mutações sociais, culturais e econômicas que a era moderna inspirou.

Os colégios tornaram-se instituições nas quais as crianças, agora transformadas em alunos, deveriam ser distribuídas por faixas de idade e por grau de aprendizagem.

Interessante observar que, os colégios na Idade Média não possuíam classes distintas ,sendo assim, adultos, crianças , idosos, todos poderiam ser agrupados e desenvolver as mesmas atividades. Como não havia um conceito definido de infância, separar as crianças dos adultos não era algo relevante.

Do mesmo modo, não havia um método ou proposta voltada para cada faixa etária, todos deveriam ter acesso á aprendizagem da mesma forma.

No que concerne às atividades escolares, observa-se que, a temporalidade específica para cada lição , cada exercício, os intervalos entre elas, os horários de entrada e saída, geraram uma rotina escolar. O colégio na modernidade produz um ritual que , até então, era inexistente.

Assim, os colégios passaram a ser locais de regulamentação social do tempo, nesse período.

Em consonância com o momento histórico avaliado, o tempo da modernidade é o tempo de não se perder tempo, o tempo regulamentado pelos relógios e pelo calendário.

(28)

‘’ Se a infância irá emigrar do lar à escola e se se pretende de que todas as crianças migrem deverá se administrar um sistema que garanta a simultaneidade nas ações empreendidas, o que supõe uma acertada sistematização do uso do tempo e um exaustivo controle do aproveitamento do mesmo a fim de garantir em um espaço determinado ações paralelas nos níveis respectivos, assim como uma transição ordenada de um nível a outro da massa escolarizada’’ (Narodowski, 2001,p.73).

No que concerne aos métodos de ensino, no século XVII, Comenius foi um teórico que marcou a História da Educação pois sua proposta pedagógica foi revolucionária, para época.

Devido à sua formação como religioso, trouxe a proposta de universalização do ensino. Sua pedagogia tinha como objetivo aproximar o homem de Deus e formar bons cristãos.

Interessante observar que, Comenius foi um dos primeiros teóricos a defender a escola para todos, incluindo os portadores de deficiência, os pobres e as mulheres.

Outro ponto relevante para Comenius é o ensino coletivo, substituindo o ensino individual. Nesse sentido, defendia que o educador deveria se dirigir-se a todos os alunos, indistintamente, como podemos observar em um trecho de sua obra, a Didática Magna:

‘’ (...) da cátedra (de onde poderá ser visto e ouvido por todos) espalhará como o Sol os seus raios sobre todos, de tal maneira que todos, com os olhos, os ouvidos e os espíritos voltados par ele, possam receber tudo o que foi explicado com palavras ou mostrado com as mãos ou com desenhos. Assim, com um único balde , não se lavam duas paredes, porém muitas. Será

(29)

necessário apenas ter a capacidade de estimular a atenção em em todos e em cada um, para que os alunos , acreditando serem as palavras do mestre (como de fato são) a fonte da qual brotam riachos de ciências, tão logo percebam que essa

nascente se abriu, se habituem a pôr o cântaro da atenção, para que nada se perca’’ (Comenius, 1977,p. 210-211).

r

Ainda de acordo com o autor citado, a disciplina era outro ponto primordial da aprendizagem pois, segundo ele, tinha como objetivo transformar crianças em alunos de fato, como podemos observar a seguir:

‘’ Escola sem disciplina é como um moinho sem água, Assim como o moinho pára quando lhe tiram a água, também a escola procede com lentidão se lhe for retirada a disciplina. Igualmente na lavoura que não é mondada logo nascem entre as sementes cizânias danosíssimas, e a árvore que não é podada torna-se selvagem e gera gemas inúteis. No entanto, isso não significa que a escola deva ser cheia de gritos, pancadas, cóleras, mas sim de vigilância e atenção contínua dos docentes e dos adultos. Que outra coisa é a disciplina senão um método seguro para fazer que os alunos sejam realmente alunos?

(Comenius, 1977,p.311).

No que tange ao fato das instituições escolares serem responsáveis pela formação do indivíduo, em todos os sentidos, especialmente torna-lo capaz de conviver socialmente, a escola funcionou, a partir do século XVIII, como local de disciplina dos corpos, pois a disciplinarização seria necessária para criar um estereótipo de cidadão ideal, aquele que possui um comportamento correto socialmente.

(30)

O filósofo Michel Foucault, em seus estudos históricos concluiu que as ideias pedagógicas da Idade Moderna tinham as seguintes características:

‘’(...) a ordenação por fileiras, no século XVII, começa a definir a grande repartição dos indivíduos na ordem escolar :filas de alunos nas salas, nos corredores, nos pátios; (...) determinados lugares individuais (a organização de um espaço serial) tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo e da aprendizagem. Fez funcionar o espaço como uma máquina de ensinar,mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar’’.

(Foucault, 1987,p.126).

Como já foi assinalado, na Europa, a Educação Pública passou a ser obrigatoriedade do Estado e a Revolução Francesa contribuiu para a consolidação da escola pública pois tinha como princípio revolucionário a ideia de que a educação deveria ser cívica, patriótica, laica e oferecida a todos, indistintamente,

Entretanto, apenas os filhos dos elitistas conseguiam prosseguir até a universidade.

No que concerne à transição do controle da educação, passando da Igreja para o Estado, esta mudança se deu a partir do século XVIII, com o crescente poder da sociedade burguesa.

Desse modo, a classe burguesa em ascendência, rompia com o antigo regime da sociedade feudal e tinha como proposta que a sociedade fosse vista como uma construção humana e não um produto das leis divinas. A característica marcante da Modernidade é a ideia de emancipação humana através do culto da razão e do domínio da natureza como forma de evolução.

(31)

A educação em instituições escolares se insere perfeitamente nessa nova construção humana , histórica e social.

3.2- A criança como objeto de investimento futuro

Antes de prosseguirmos, é imprescindível que façamos alguns apontamentos para que esclareçamos a problemática da educação em relação à sociedade industrial

Naturalmente , as fábricas se especializaram na divisão do trabalho e faziam da ciência e da técnica suas bases de apoio.

Desse modo ,exigia-se , cada vez mais do operário, uma maior cultura, maior versatilidade e maior conhecimento.

Fomentando essas questões, o Estado se viu forçado a criar escolas e creches para suprir essa demanda e investir nos futuros trabalhadores.

A situação da educação na sociedade, nesse contexto histórico, é paradoxal na medida que, por um lado , impulsionada pelo industrialismo, gerou um investimento maior na educação da criança, visando os futuros trabalhadores, por outro lado, tinha um caráter assistencialista que era , naturalmente, destinado aos mais pobres.

Em relação às primeiras creches urbanas, Kramer assinala:

‘’ (...) visavam afastar as crianças pobres do trabalho servil que o sistema capitalista em expansão lhes impunha, além de servirem como guardiãs de crianças órfãs e filhas de trabalhadores.” (Kramer, 1984,p.29).

Como se depreende do quadro acima, a partir da segunda metade do século XIX, as instituições destinadas às crianças pequenas eram as creches e os jardins da infância.

(32)

Observa-se que, na Europa, o jardim de infância começa a ter objetivos pedagógicos e não somente os cuidados com a higiene, a alimentação e a guarda das crianças.

No Brasil, até o século XIX, a creche tinha caráter exclusivamente assistencialista, especialmente destinada a auxiliar as mulheres pobres e as viúvas.

Cabe salientar que os asilos e orfanatos surgiram apoiados pela alta sociedade brasileira ,visando interesses de cunho moral, como assinala Gilda Rizzo:

‘ ’Numa sociedade patriarcal, a ideia era criar uma solução para os problemas dos homens, ou seja, retirar dos

mesmos a responsabilidade de assumir a paternidade. Considerando que, nessa época, não se tinha um conceito bem definido sobre as especificidades da criança, a mesma era (...) concebida como um objeto descartável, sem valor, intrínseco de ser humano’’ (Rizzo, 2003, p.37).

Todavia, antes da criação dos asilos e dos orfanatos, havia um recurso, criado não só no Brasil, mas em outros países ocidentais.

Tratava-se da Roda dos Expostos ou Roda dos Excluídos. A Roda ficava na parte frontal das casas de caridade ou de religiosas. A origem do nome provém do fato de se tratar de um dispositivo redondo ,no qual o bebê era deixado por sua mãe ou outro adulto, com o propósito de ser entregue aos cuidados de quem o recebesse na Roda. Ao girar a Roda, acionava-se uma corda que avisava que mais uma criança havia sido abandonada.

Interessante ressaltar que, esse recurso preservava a identidade do adulto que estava entregando a criança. Não havia nenhum crime em fazê-lo ao contrário, a roda tinha essa finalidade, manter em sigilo aquele adulto negligente.

(33)

Entretanto, há de se sublinhar que, a Educação Infantil alcançou facetas que foram além da preparação para o trabalho fabril e do assistencialismo.

Como já foi observado acima, nos séculos XVIII e XIX, a educação tinha como uma de suas características o assistencialismo , longe de ações que valorizassem a escola como multiplicadora de conhecimento e cultura. Acontece que, com o advento do século XX, o desenvolvimento econômico mundial transformou a escola em um espaço educacional e de formação para a cidadania.

Todos esses elementos trazidos neste ponto do nosso trabalho apontam que, a educação está intrinsicamente ligada às mudanças políticas e sociais.

A instrução em escolas começa a deixar de ser apenas um modo de preparação individual para tornar-se um meio pelo qual o discurso pedagógico explica e atribui as necessárias transformações na sociedade.

No mesmo sentido, o Estado e a família possuem um papel unificado na educação, graças ás esperanças depositadas nela, de maneira que os processos educacionais contribuem para alcançar os objetivos de se formar bons cidadãos.

Vale a pena lembrar que no processo de escolarização, especialmente na Educação Infantil, a aliança entre a família e a escola é fundamental para se estabelecer o fluxo infantil de uma instituição para a outra.

Na análise de Sonia Kramer, a família investe na criança também levando em consideração um possível retorno financeiro futuro ,como podemos ver em sua obra:

‘’ As aspirações educacionais aumentam à proporção em que ela acredita que a escolaridade poderá representar maiores ganhos, o que provoca frequentemente a inserção da criança no trabalho simultâneo à vida escolar.

(34)

(...) A educação tem um valor a médio e longo prazo e o desenvolvimento da criança contribuirá futuramente para aumentar o capital familiar’’. (Kramer, 1995.p.23)

Atualmente, no século XXI, as crianças capitalizam sobre si, não só o afeto dos adultos, mas , antes de tudo, são alvo de inúmeros projetos, direcionados exclusivamente para corresponder às suas necessidades.

Trata-se , pois, de um investimento social intenso na infância, visando , no futuro, a realização de sonhos, concretização de metas, idealizadas por uma sociedade que deposita na criança suas esperanças de futuro da humanidade.

Em suma, os investimentos em políticas publicas na infância são de caráter mundial ,pois resultam em prevenção de gastos futuros com segurança e saúde.

No Brasil, a Educação Infantil , através da Lei de Diretrizes e Bases, passou a considerar como tal, a primeira fase da Educação Básica.

Antes de tudo, há de se sublinhar que, a Educação Infantil deve possibilitar o desenvolvimento da criança em sua totalidade, levando em consideração a necessidade de assegurar o seu desenvolvimento humano e social ,ligado à promoção de uma valorização da primeira infância. Esse desenvolvimento deverá se dar em vários aspectos como o cognitivo, o físico, o social e o afetivo.

(35)

CONCLUSÃO

Ao término do presente trabalho monográfico concluímos que, o conceito de infância e de criança é recente e foi sofrendo influência do momento histórico e social através dos tempos.

Inúmeras mudanças ocorreram também nas famílias, antes extensas, e depois nucleares, com poucos membros, e entre os quais, as crianças, que passaram de seres sem a devida importância, no seio da família- linhagem, a personagens centrais na ótica familiar e motivo de investimento, cuidado, proteção e, principalmente, afeto .

A Revolução Científica promoveu uma importância crucial na aquisição de conhecimentos e a formação acadêmica tornou-se premissa para a obtenção de prestígio, ascensão social e sucesso profissional ,da Era Moderna aos dias atuais.

Em relação ao novo lugar ocupado pela criança no contexto histórico atual, o de adulto do futuro, observamos que a mesma passa a ser a depositária de todo tipo de expectativa em relação ao amanhã.

Cabe salientar que, nessa perspectiva, muitas vezes a criança fica sem tempo de ser criança, de viver a sua infância, de desenvolver-se de forma gradativa, sem acelerar esse crescimento, para , de acordo com a proposta da família e da sociedade , alcançar o objetivo maior, que é tornar-se adulto.

Dessa forma, analisamos que , corre-se o risco de ,novamente, transformar a criança num pequeno adulto, repleto de responsabilidades e compromissos, tais como aulas em diversas áreas: inglês, natação , computação, etc.

Nessa ordem de ideias, a plena formação desse futuro cidadão deve ser a mais completa possível pois, desse modo, a criança deve ser preparada e dotada do maior número de habilidades para ser , futuramente, bem sucedida no competitivo mundo dos adultos.

(36)

No que concerne aos direitos das crianças, percebemos que, muito se fala sobre eles, porém , o principal direito, o de ser criança e ter uma infância, nem sempre é efetivado .

Esse deveria ser um compromisso que caberia à sociedade assumir em relação a todas as crianças

As instituições escolares, entre elas as de Educação Infantil, passaram a ter enorme importância como instrumento de iniciação social e passagem do estado de criança ao de adulto.

Ao abordar essas questões, avaliamos que a prática pedagógica ideal é aquela que considera a criança como um sujeito social e que dá ênfase às suas manifestações espontâneas, preservando a sua identidade social e respeitando os seus direitos e as suas diferenças.

A criança adquiriu uma grande valorização social e se tornou fonte de investimento, não só por parte da família, como também do Estado, inclusive, apoiada por inúmeras leis criadas com a finalidade de garantir toda a assistência necessária ao desenvolvimento da primeira infância .

Nota-se que, a Educação Infantil sofreu inúmeras transformações ao longo da História da Educação.

Inicialmente possuía o caráter de cuidado e proteção, bem como uma visão assistencialista, visando prover o que faltava na família.

No entanto, através das mudanças na política social, por intermédio de investimentos nas áreas de saúde, assistência social e , principalmente, em educação, a Educação Infantil adquiriu um posto de suma importância na escolarização do indivíduo e um direito inalienável de toda a primeira infância.

Entretanto, ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de tornar concretos os direitos de todas as crianças, desde as mais carentes, até as mais favorecidas economicamente, porém , nem sempre assistidas em suas necessidades emocionais e afetivas.

Sendo assim, torna-se necessário levar em conta não só os aspectos relativos à construção de conhecimentos cognitivos, mas a formação integral do indivíduo, levando-se em conta todos os aspectos sociais, afetivos psicológicos e emocionais.

(37)

Nesse sentido, o papel do educador é fundamental para garantir a almejada qualidade de ensino .

O professor de Educação Infantil é o profissional que dá início ao processo de formação do futuro cidadão, para que venha a desenvolver-se como sujeito crítico ,autônomo, responsável, cooperativo e participante na sociedade.

Em suma, acreditamos que a educação possui um papel transformador em todas as esferas sociais pois constrói princípios e valores que contribuem com processos de mudança, não só de cunho individual , mas também coletivo, a partir de novas relações sociais que podem ser estabelecidas através de laços mais solidários e menos competitivos em nossa sociedade.

Finalizando, muitos são os desafios e cabe aos órgãos detentores do poder, e , principalmente, à sociedade civil, garantir a efetivação do direito a uma educação de qualidade para as crianças de 0 a 6 anos em todas as classes sociais , promovendo uma sociedade mais justa e menos desigual.

(38)

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ARIÉS, Phillipe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

KRAMER, Sonia. Infância e Educação Infantil. Campinas, São Paulo: Papirus, 1999.

KRAMER, Sonia. Infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas, São Paulo: Papirus, 1996.

MARTINS, Maria Silvia Cintra. Oralidade, escrita e papéis sociais na infância. Campinas, São Paulo: Mercado das Letras, 2008.

(39)

BIBLIOGRAFIA CITADA

1 – BADINTER, Elizabeth. Um amor coquistado: o mito do amor materno; Tradução Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

2 - .COMENIUS. Didática Magna. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

3 – FLANDRIN, Jean-Louis. Famílias: parentesco, casa e sexualidade na sociedade antiga. Lisboa: Estampa, 1994.

4 – FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

5 – KRAMER, Sonia. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. São Paulo: Cortez, 1995.

6 –KRAMER, Sonia & ABRAMOVAY, Mirian. O rei está nu: um debate sobre as funções da pré-escola. São Paulo: Cortez, 1984.

7 – NARODOWSKI, Mariano. Infância e Poder: conformação da pedagogia moderna. Bragança Paulista: Editora Universidade São Francisco, 2001.

8 – POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.

9 – RIZZO, Gilda. Creche: organização, currículo, montagem e funcionamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

10-SARMENTO ,Manuel Jacinto & PINTO, Manuel. As crianças, contextos sociais e identidades. Lisboa: Universidade do Minho, 1997.

11 – SENNETT, Richard. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo; Companhia das Letras, 1988.

(40)

ÍNDICE

FOLHA DE ROSTO 2 AGRADECIMENTO 3 DEDICATÓRIA 4 RESUMO 5 METODOLOGIA 6 SUMÁRIO 7 INTRODUÇÃO 8 CAPÍTULO I

A formação do conceito de infância

1.1 - A infância e a criança 10 1.2 – A criança como categoria social 13

CAPÍTULO II

O lugar histórico da criança na dinâmica familiar

2.1- A organização da estrutura familiar 18 2.2- A trajetória da infância na família: da invisibilidade

à paparicação 22

CAPÍTULO III

O processo de valorização da Educação Infantil

3.1- A Educação Infantil como forma de moldar o ser 26 3.2- A criança como objeto de investimento futuro 31

CONCLUSÃO 35

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 36

BIBLIOGRAFIA CITADA 37

(41)
(42)
(43)
(44)
(45)
(46)
(47)
(48)
(49)
(50)
(51)
(52)
(53)

Referências

Documentos relacionados

Proteção dos olhos: Óculos de segurança para produtos químicos e/ou protetor facial. Proteção pele e corpo: Roupas de proteção avental de PVC, sapato de segurança ou

por uma ponte salina. ELETRODO I: placa de chumbo metálico mergulhada em uma solução aquosa 1 mol/L de nitrato de chumbo. ELETRODO II: sulfato de chumbo sólido prensado contra

nião houve oportunidade de analisar o actual estado da Rede Nacional de Apoio e as questões que ainda estão pendentes relativamente ao apoio aos ex-combatentes

31 – Encerramento do período para matricula, rematrícula, renovação, solicitação de troca de turno, solicitação de troca de Unidade, reopção de curso e inclusão e

O fato de essas bactérias serem encontradas principalmente em tecidos reprodutivos não é um acaso, já que são capazes de alterar aspectos reprodutivos em seus

E mais: é possível a coexistência de mais de um estilo de época em um mesmo período de tempo, principal- mente quando há uma transição de valores, ou seja, há uma mistura de

O enfermeiro, como integrante da equipe multidisciplinar em saúde, possui respaldo ético legal e técnico cientifico para atuar junto ao paciente portador de feridas, da avaliação

Το αν αυτό είναι αποτέλεσμα περσικής χοντροκεφαλιάς και της έπαρσης του Μιθραδάτη, που επεχείρησε να το πράξει με ένα γεωγραφικό εμπόδιο (γέφυρα σε φαράγγι) πίσω