escatologia
a polêmica em torno do milênio
Escatologia : a polêmica em torno do milênio / Millard J. Erickson ; tradução Gordon Chown e Márcia Pekkala Barrios Medeiros. — São Paulo : Vida Nova, 2010.
Título original: A basic guide to eschatology: making sense of the millennium.
Bibliografia.
ISBN 978-85-275-0429-4
1. Escatologia - História das doutrinas 2. Milênio (Escatologia) 3. Tribulação (Escatologia cristã) I. Título
09-12403 CD D -236
índices para catálogo sistemático: 1. Escatologia : Teologia cristã 236
Millard J. E ric ks on
a p o l ê m i c a em t o r n o do m i l ê n i o
2.a edição revisada e am pliada
Tradução Gordon Chown
Traduzido da edição publicada pela Baker Book House Company, P.O Box 6287, Grand Rapids, MI 49516-6287, E.U.A.
1.a edição (Sob o título Opções Contemporâneas na Escatologia): 1982 Reimpressões: 1991, 1996
2.a edição revisada e ampliada: 2010 Reimpressão: 2012
Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por So c i e d a d e Re l ig io s a Ed iç õ e s Vid a No v a, Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970
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Impresso no Brasil/Printed in Brazil SUPERVISÃO EDITO RIAL
Marisa K. A. de Siqueira Lopes C O O R D E N A Ç Ã O EDITO RIAL Jonas Madureira
REVISÃO Arkhé Editorial
C O O R D EN A Ç Ã O DE PRODU ÇÃO Sérgio Siqueira Moura
REVISÃO D F. PROVAS Ubevaldo G. Sampaio DIAGRAM AÇÃO
Kelly Christine Maynarte CAPA
Prefácio... 9
Introdução ... 11
PARTE 1 | CONCEITOS ESCATOLÓGICOS CONTEMPORÂNEOS 1. Schweitzer e Dodd... 17
2. Bultmann e Moltmann... 41
PARTE 2 | CONCEITOS MILENISTAS 3. Pós-milenismo... 65
4. Amilenismo... 89
5. Pré-milenismo... 111
PARTE 3 | CONCEITOS TRIBULACIONISTAS 6. Dispensacionalismo... 133
7. Pré-tribulacionismo... 155
8. Pós-tribulacionismo... 179
Conclusão...227
Bibliografia... 229
índice geral...235
A
aproximação do final do século xx e o segundo milênio cristão têm provocado um crescente interesse em assuntos sobre escatologia. Sou grato à Baker Books e especialmente ao editor de livros acadêmicos, Jim Weaver, pelo preparo desta edição revisada. O capítulo sobre dispensacionalismo foi reescrito para refletir as mudanças desse movimento, conhecido como dispensacionalismo progressivo.O volume original foi produzido devido a um pedido dos estudantes do Bethel Theological Seminary por um curso que examinasse de forma ampla e objetiva as opções escatológicas existentes nos círculos em que um dia iriam ministrar. Ao preparar- me para o curso, percebi que a necessidade desta pesquisa vai além das paredes da nossa sala de aula.
Agradeço a todos que ajudaram na produção deste trabalho. Tenho uma dívida especial para com os estudantes que inicialmente pediram o curso. As perguntas e comentários feitos por eles ajudaram a aguçar o meu raciocínio. Minha assistente, sra. Ines E. Bowers, leu com rigor todo o manuscrito e contribuiu com inúmeras sugestões, principalmente com relação ao estilo. A digitação foi feita pela sra. Nikki Daniels e sra. Aletta Whittaker. Todas as imperfeições no manuscrito são, naturalmente, de minha exclusiva responsabilidade.
J
ames Orr, preletor do final do século X IX , observou que váriasáreas da doutrina crista receberam especial atenção e se desen volveram de forma específica em diferentes períodos da história da igreja. Assim, no século n a igreja lidou especialmente com a apo- logética e as ideias fundamentais do cristianismo; nos séculos III e IV, com a doutrina de Deus; no início do século V , com o homem e
o pecado; do século V ao vil, com a pessoa de Cristo; nos séculos XI
ao xvi, com a expiação; e no século xvi, com a aplicação da redenção (justificação etc.). Antes já havia convicções doutrinárias, implícitas ou explícitas, sobre esses assuntos, mas foi com o surgimento de crises durante esses períodos específicos que as posições foram mais precisamente articuladas.
Orr sugeriu que o interesse peculiar dos dias atuais é a escato logia, o único tópico da teologia ainda a ser desenvolvido;
E provável que eu não esteja enganado ao pensar que, além da necessária revisão do sistema teológico como um todo, a qual não poderia ser corretamente empreendida até que o desenvolvimento histórico que esbocei tivesse completado seu curso, a mente moderna tem-se dedicado com especial diligência a questões
escatológicas, talvez impulsionada pela impressão solene de que essa própria diligência indica que os tempos do fim do mundo chegaram, e que alguma grande crise na história dos assuntos humanos está se aproximando. Mesmo aqui, não antecipo que os grandes marcos da doutrina cristã passem por qualquer mudança séria.1
Para Orr, embora a doutrina da escatologia tivesse sido discutida no século xix, ela ainda precisaria receber uma atenção muito maior. As questões haviam se aprofundado durante as últimas gerações.
O século xx presenciou um estudo intensivo de várias doutrinas específicas. A primeira metade do século focou-se exclusivamente na doutrina da revelação. A doutrina da igreja, especialmente em sua relação com o movimento ecumênico, foi amplamente discutida no segundo quarto do século e gradualmente diminuindo no terceiro quarto. Logo após a doutrina da Pessoa e da obra do Espírito Santo recebeu especial atenção, tendo nesse período o interesse chegado ao seu auge. Nos anos mais recentes, parece que a escatologia avan çou para o primeiro plano. Movimentos como a teologia da espe rança deram à escatologia um domínio praticamente exclusivo. Em outros tempos uma doutrina exigia um século ou mais para uma completa delineação, mas agora, com a aceleração da discussão, da pesquisa e da comunicação, os períodos podem ter sido abreviados para um quarto de século ou menos.
A preocupação com a escatologia tem tomado formas diferentes em grupos diferentes. Nos círculos cristãos conservadores, relaciona- se com a ordem dos acontecimentos concernentes à Segunda Vinda de Cristo. Os conservadores chegaram a um consenso nos pontos
principais da escatologia por volta do início do século xx. Todos os
seres humanos (exceto os que ainda estiverem vivos na volta do Senhor) devem passar pela morte física e, nesse momento, passam para um estado intermediário apropriado à sua condição espiritual. Os que se entregaram à obra salvadora de Jesus Cristo irão para um lugar de bem-aventurança e galardão; mas os que não se entregaram irão para um lugar de castigo e tormento. Em algum tempo futuro, Cristo voltará de modo corpóreo. Então todos os mortos serão ressuscitados e entregues ao seu destino final — o céu ou o inferno. Lá permanecerão eternamente numa condição inalterável.
No entanto, nesse esquema geral, tem havido considerável variação. Primeiro, em relação à questão de haver um milênio (um reino de Jesus Cristo na terra por mil anos), e segundo em relação à posição dos que dizem “sim”, quanto à volta de Cristo acontecer no começo ou no fim do milênio. Entre os que sustentam que essa volta antecederá o milênio, alguns acreditam que a igreja passará por um período de intensa angústia chamado de “grande tribulação”; outros acreditam que a igreja será retirada do mundo ou “arrebatada” antes da tribulação. Nos anos recentes tem havido muito debate em torno dessas questões. Quer concordemos ou não com a rele vância dessas questões devemos examiná-las, pois aqueles que as discutem as consideram importantes.
O propósito fundamental deste livro é examinar de perto essas opções conservadoras. Para dar à discussão um contexto mais abran gente, os dois primeiros capítulos examinarão algumas outras alternativas comuns desenvolvidas durante os séculos xix e xx. Algu
mas destas estão fora dos limites da ortodoxia evangélica. Isso nos ajudará a compreender a disposição ou o cenário que contribui para a construção da escatologia contemporânea. Depois serão consideradas as várias posições milenistas seguidas das várias visões tribulacionistas. Como parte dessa última seção, o sistema teológico
e hermenêutico conhecido como dispensacionalismo, que figura com tamanho destaque no debate tribulacionista, será examinado minuciosamente.
A forma com que iremos tratar cada posição, milenista e tribulacionista, será a mesma: um breve panorama da posição e de sua história, um exame mais completo dos conceitos principais e dos argumentos propostos para sustentá-los e finalmente uma ava liação dos aspectos positivos e negativos.
Ao publicar este livro, a oração do autor é de que este estudo possa: estimular e encorajar o interesse do leitor por questões importantes da escatologia; aprofundar a confiança na vinda aben çoada do Senhor; despertar o interesse por “examinar as Escrituras” para verificar as coisas que são verdadeiras; aumentar o entendi mento e a apreciação das convicções daqueles que têm pontos de vista diferentes dos seus.
Conceitos escatológicos
contemporâneos
Schweitzer e Dodd
Introdução
E
m diversos aspectos, o século xix foi um período de intensa agitação teológica. A síntese ortodoxa, embora houvesse variação da luterana para a reformada e até para a católica romana, mantinha um entendimento básico da natureza da teologia, conservando-se firme por um tempo considerável. Contudo, nesse período, novos conceitos da própria natureza da religião irrompiam sobre a igreja, e produziam mais transformações radicais na natureza fundamental da teologia do que talvez já ocorrera em todos os séculos anteriores, desde o tempo do Novo Testamento. Sempre existiram segmentos radicais no cristianismo, mas em termos gerais ficavam somente à margem. Agora, essas transformações passaram a influenciar as correntes predominantes da igreja.Em boa parte, essas alterações eram resultados de novos desen volvimentos no universo de conhecimento, os quais afetaram as doutrinas tradicionais do cristianismo. Na filosofia, as críticas de Immanuel Kant levantaram a questão sobre a possibilidade de se comprovar a existência de Deus ou até sobre o fato de possuirmos
qualquer conhecimento daquilo que vai além do nosso conhecimento empírico. Na ciência natural, A origem das espécies, de Charles Darwin, desafiou a doutrina crista da criação especial do homem. A aplicação da crítica histórica e literária à Bíblia parecia minar alguns pontos de vista tradicionais acerca da data e autoria dos livros bíblicos, bem como da historicidade de grandes segmentos das narrativas.
Aqueles que aceitavam esses desenvolvimentos tinham de encontrar novas abordagens à teologia. A maioria concordava que a essência da religião em geral e do cristianismo especificamente não consiste de crenças. Um dos ramos tratava o cristianismo como juízo de valores e o tornava, em grande medida, uma questão de ética ou conduta. Outro ramo, seguindo a liderança de Friedrich Schleiermacher, concebia o cristianismo primariamente como uma questão de sentimento. Esses dois ramos concordavam que os dogmas e as crenças cristãos deveriam ser cuidadosamente exami nados, avaliados e justificados, e não simplesmente sustentados com credulidade. Isso dava um novo molde ou uma nova chave à teologia — inclusive à escatologia.
Em meio a esse mar tempestuoso de novos desenvolvimentos, os cristãos do século X IX tinham certeza de uma coisa: como cristãos,
deviam, de algum modo especial, estar relacionados e focados em Jesus, chamado o Cristo. No entanto, isso tornou ainda mais urgente a pergunta: Quem realmente é esse Jesus? A busca pelo Jesus histórico foi uma tentativa de voltar-se para Jesus a fim de compreender quem ele realmente era. Enquanto o estudioso que buscava a Jesus tateava em seu caminho de volta, envolvido por uma névoa de séculos de tradição eclesiástica e construção teológica, ele encontrava e des crevia a vida, a personalidade e os ensinos de Jesus. Aplicava-se às narrativas dos evangelhos os mesmos métodos de pesquisa histórica utilizados na investigação de quaisquer acontecimentos históricos ou materiais literários.
Em termos teóricos, essa busca primava pela objetividade, deixando de lado pressupostos dogmáticos e tradições eclesiásticas a favor de um tipo mais científico de pesquisa. Métodos utilizados por historiadores não comprometidos eram adotados, na esperança de realizar esse ideal. O alvo não era defender quaisquer crenças específicas acerca de Jesus. O fato de não ser possível sustentar, pelas evidências, as ideias sobre Jesus, tornava cada vez mais difícil a aceitação dos conceitos tradicionais. Comentaristas posteriores têm questionado o fato de esses estudiosos terem sido tão objetivos e de seu método ter sido tão livre de influências controladoras quanto declaravam e desejavam.
Aplicando suas pesquisas aos evangelhos, os que estavam nessa busca encontraram um retrato de certa forma diferente do conven cional. Embora os pormenores diferissem entre um estudioso e outro, o contorno geral era de um mestre basicamente humano que direcionava os homens mais ao Pai do que a si mesmo. Jesus chamava os homens a crer com ele, não nele.
Um dos temas dominantes no ensino de Jesus, diziam eles, é a paternidade de Deus.1 Deus criou todos os homens e continua a dar- lhes vida, cuidando deles com tanto zelo quanto um pastor vigia suas ovelhas. Conhece e protege cada um deles, do mesmo modo que nenhum pardal pode cair por terra sem o conhecimento e permissão do Pai (Mt 10.29-31). Jesus falou que o Pai sabe até o número de fios de cabelos que cobrem a cabeça de uma pessoa (Mt 10.30).
O infinito valor de uma alma humana é um corolário dessa doutrina.2 Por Deus ter a cada ser humano em tão alta estima, também deveríamos estimar nosso próximo. Isso contribuiu para a ênfase na
1 Adolf von Harnack, What is Christianity?, p. 68ss. 2 Ibid., p. 73ss.
fraternidade dos homens. Jesus reduziu toda a lei a dois mandamentos: amar ao Senhor Deus com todo o coração e amar ao próximo como a si mesmo. Se a parábola do filho pródigo é o modelo do relacio namento que o homem deveria ter com Deus, a parábola do bom samaritano é o modelo do relacionamento que o homem deveria ter com outros homens.
O ensino de Jesus a respeito do reino de Deus3 era considerado básico e central para toda a sua perspectiva e mensagem. Albrecht Ritschl, que talvez tenha tratado dessa doutrina de forma mais ampla, disse que o cristianismo não é um círculo, com um só centro, mas uma elipse, com dois focos — as doutrinas da redenção (a operação da graça divina) e do reino de Deus (a atividade ética do homem).4 Esse reino é uma comunidade ética composta de homens e distinguida pela ação recíproca, que é motivada pelo amor. O reino é estabelecido pelo homem, mas não destituídos de religiosos. Jesus fundou esse reino. Sua relevância encontra-se primariamente em sua vida, não em sua morte. Ele é o exemplo perfeito do tipo de humanidade que será unida no reino. É a revelação completa de Deus como amor.
Embora as “vidas de Jesus” propusessem ideias variáveis a respeito do reino, elas tinham um denominador comum: Deus reina aqui e agora. De acordo com Jesus, o reino chegou a ele e por ele. Não é um reino com leis externas, com dimensões possíveis de serem discernidas na sociedade em marcas visíveis, pelo contrário, é um reino de Deus dentro do coração humano, um reino que tem se tornado uma realidade para um número crescente de pessoas. Sua propagação por toda a raça humana é tanto horizontal (de um indivíduo e grupo para outro) quanto vertical (de uma classe social para outra).
3 Ibid., p. 56ss.
4 Albrecht Ritschl, The Christian doctrine o f justification and reconciliation: the positive develop-ment of the doctrine, p. 30ss.
O reino que Jesus trouxe é diferente, em sua natureza, de qualquer coisa que o tenha precedido. Nesse sentido, veio de uma vez por todas, e sua natureza não mudaria com o passar do tempo. Seu crescimento era gradual e não de tipo. A medida que o homem estendesse o reino para as diversas áreas da sociedade, progressi vamente, a sociedade se tornaria cristianizada. Essa crença e esperança foram vividamente ilustradas em 1908 quando uma nova revista religiosa foi chamada Cbristian Century [Século cristão\. Por detrás desse nome, havia a crença de que o século xx seria o século cristão. O reino de Deus estava aqui ou deveria estar em breve. Seria instaurado progressivamente através dos esforços dos cristãos, não mediante algum acontecimento cataclísmico como a segunda vinda de Cristo. A natureza do reino agora não é diferente do que será em qualquer tempo do futuro. Alguns dos que sustentavam esse conceito do reino enfatizavam o papel de Deus em sua realização; outros enfatizavam o papel de instituições e programas humanos.
As passagens escatológicas ou apocalípticas nas Escrituras eram tratadas de duas maneiras básicas: a primeira era interpretar a passagem de modo não escatológico ou não futurista; a segunda era simplesmente descartá-las ou desconsiderá-las (bem como outros segmentos da Bíblia).
Aqueles que seguiam essa última abordagem destacavam a analogia da noz e da casca. Embora seja de um período mais pos terior, a obra de Harry Emerson Fosdick (1878-1969) ilustra bem essa abordagem. Conforme Fosdick entendia, a forma tradicional da doutrina de que a justiça triunfará é a segunda vinda de Cristo.5
Segundo essa forma da doutrina, Jesus voltará à terra de modo literal, nas nuvens do céu. Não é de surpreender que as pessoas do século i aceitassem e empregassem semelhante figura. Consideravam a terra como um paralelogramo achatado, sendo então apropriado pensar em alguém que subia às nuvens e descia delas. Nem é de surpreender que essa esperança assumisse uma forma messiânica, visto que esse foi um período de intensa agitação política. A medida que uma nação sucedia à outra, crescia o conceito de que Israel seria liberto por um rei terrestre que restabeleceria o reino de Davi. Durante o período intertestamentário e nos escritos apócrifos, o panorama do presente tornou-se cada vez mais pessimista. A libertação necessariamente viria através de um acontecimento repentino e surpreendente — o dia do Senhor — envolvendo uma invasão messiânica da terra, vinda do céu.
Fosdick concluiu que hoje não podemos sustentar tal ponto de vista, por estar ligado a um conceito obsoleto da realidade. Mas, ao rejeitar essa ideia, estamos apenas tirando e descartando a casca. A noz (a vitória da justiça sobre a terra) permanece intacta, e Fosdick continuou a crer nela. Embora a casca da doutrina (a volta física de Jesus) fosse adequada para tempos passados, uma forma nova deveria ser encontrada para os nossos tempos. E Fosdick tinha uma outra sugestão. Não se baseava no fato de o homem simplesmente transformar o caráter humano e a sociedade por seu próprio esforço, mas na operação de Deus através dos cristãos para modificar a sociedade. Fosdick a expressou da seguinte forma:
Tenhamos, nós mesmos, esse espírito, e que Deus possa operar sua vitória em nós e através de nós; persuadir outros a serem transformados pela renovação de suas mentes; que possamos nos esforçar por uma melhor organização da sociedade para que o propósito divino possa ser promovido e não impedido por nossa
vida econômica e política; e então, aguardaremos pelo aconte cimento na forma e no tempo dele — essa tem sido nossa postura e pregação, as quais nos parecem cristãs.6
Escatologia consistente
Temos notado um crescente consenso entre liberais a respeito da escatologia do Novo Testamento. A despeito de muitas variações, eles concordam que o reino é ético em sua natureza. É aqui e agora, dentro da história. Não é algo que virá catastroficamente em algum tempo futuro.
Mas, nessa aparente parede sólida, fendas começaram a surgir. Escritores sugeriram que algo estava errado com a visão liberal. Alguns propuseram um acordo, unindo um conceito verdadeira mente escatológico ou futurista com a ideia do reino como uma realidade ética presente. Outros, porém, tentaram um completo rompimento. Um deles foi Johannes Weiss, que em 1892 publicou
Jesus Preaching on the Kingdom of God [A pregação de Jesus sobre o reino de Deus]. Nessa obra, Weiss abordou o ensino de Jesus de
uma perspectiva totalmente diferente. Em vez de pressupor que Jesus estava falando acerca de um reino ético, concluiu que a visão de Jesus era completamente escatológica ou até mesmo apocalíptica e futurista. Em vez de um reino ético de Deus no coração do homem, que se expandiria paulatinamente através do tempo, o reino se estabeleceria surpreendentemente no futuro. A partir daí o esquema de Weiss recebeu o nome de escatologia consistente (ou radical).
Se Weiss abriu uma fenda na parede, Albert Schweitzer (1875 1965) fez uma rachadura completa. Em dois de seus livros,
Schweitzer dirigiu-se explicitamente à questão da escatologia. O primeiro foi intitulado Das Abendmahl [A santa ceia], e a segunda metade da obra foi publicada em inglês com o título The Mystery of
the Kingdom o f God [O mistério do reino de Deus], De certa forma, o
autor definiu nessa obra sua posição de forma mais clara do que em seu livro posterior e mais conhecido, The Quest of the Historical
Jesus [A busca pelo Jesus histórico]. Schweitzer examinou
extensivamente e praticamente demoliu as “vidas de Jesus” liberais e entao propôs uma interpretação alternativa. Weiss aplicara a ideia da escatologia consistente aos ensinos de Jesus; Schweitzer, no entanto, aplicou-a ao Novo Testamento como um todo.
Schweitzer é um exemplo moderno de um gênio universal. Aos 30 anos já era organista, filósofo e estudioso do Novo Testa mento. Logo após se voltou para a medicina e se tornou missionário, exercendo a profissão de médico em Lamberene, na África. Embora Schweitzer tivesse sido treinado no liberalismo clássico dos seus dias, começou a perceber suas falhas. Não voltou, entretanto, a uma abordagem pré-crítica da Bíblia. Aceitou a validade do método liberal do estudo crítico, mas rejeitou algumas de suas conclusões. O problema brotava ou de pressuposições incorretas, ou da aplicação incompleta e inconsistente do método, ou ainda dos dois juntos. Se nos abrirmos para a possibilidade de que o Novo Testamento é genuinamente escatológico, podemos explicar os fenômenos de modo mais adequado. Mas, se aceitarmos as suposições liberais e seguirmos à risca seu método de estudo bíblico crítico, encon traremos certas incoerências.
Schweitzer, conforme notamos, adotou o mesmo método usado pelos liberais que buscavam a Jesus e utilizou as mesmas fontes. Na maioria das vezes ele, assim como Weiss, William Wrede e outros, desconsiderava o quarto evangelho por considerá-lo muito diver gente dos sinóticos para ser historicamente fidedigno. Schweitzer
também usou pouco o Evangelho de Lucas, pois sentia que nele a teologia de Paulo tinha sido “imposta” na narrativa. Lucas fazia parte do círculo de Paulo, conforme indicam as passagens em Atos com a utilização de “nós”. Visto que Lucas escreveu depois do período da influência direta de Paulo sobre ele, seu evangelho deveria provavelmente ser desconsiderado por qualquer pessoa que desejasse chegar à vida e aos ditos de Jesus. As fontes principais de Schweitzer, portanto, foram Marcos e os logia (ditos em Mateus), que consi derava como tendo sido derivados de uma fonte identificada como fonte Q (a primeira letra da palavra alemã “fonte”, Quellé). Até mesmo a construção dos fatos do evangelho feita por Mateus era considerada com considerável ceticismo. Os ditos de Jesus relatados em Mateus eram considerados bem fidedignos, mas pensava-se que a narrativa tivesse sido influenciada por acontecimentos e conceitos posteriores.
Schweitzer, portanto, praticamente repercorreu o trilho dos que buscavam o Jesus histórico. Schweitzer aplicou o método deles às fontes que aceitavam como autênticas, e a sua avaliação dos resul tados deles foi bem negativa: “Seja qual for a solução final, o Jesus histórico, de quem a crítica do futuro — tomando como ponto de partida os problemas reconhecidos e admitidos — quer traçar o retrato, nunca poderá prestar à teologia moderna os serviços que reinvindicou da parte de seu Jesus meio-histórico e meio-moderno”.7 Frequentemente pensamos que o grande problema da cristologia seja o das duas naturezas de Cristo: Deus e homem combinados em uma pessoa. Para Schweitzer, o problema de combinar um Jesus parcialmente histórico e parcialmente contemporâneo numa só pessoa é muito mais difícil. Na realidade, ele achava que os dois não tinham sido combinados de modo bem-sucedido.
7 Albert Schweitzer, The quest o f the historical Jesus-, a criticai study of its progress from Reimarus to Wrede, p. 396.
O problema é que o Jesus que emerge de tal esforço é fictício. A famosa declaração do padre George Tyrrell vem à mente: “O Cristo que Harnack vê, olhando para trás, em dezenove séculos de trevas católicas, não passa da reflexão de um rosto protestante liberal, vista no fundo de um poço profundo.”8 De modo semelhante, Schweitzer sugeriu que o Jesus de quem o pesquisador liberal falava e escrevia não tinha realidade alguma: “O Jesus de Nazaré que se apresentou como sendo o Messias, que pregava a ética do^ reino de Deus, que fundou o reino dos Céus sobre a terra e que morreu para dar à sua obra sua consagração final, nunca teve qualquer existência. E uma figura projetada pelo racionalismo, dotada de vida pelo liberalismo e vestida pela teologia moderna com vestes históricas.”9
Esse Jesus da história não é de forma alguma um produto da pesquisa histórica, mas do pensamento do século XIX e x x . Aparen
temente, a tentativa de se chegar à vida de Jesus era uma tentativa de trazê-lo para o presente, mas ele não poderia ser capturado dessa maneira.
Mas Jesus não fica; ele passa pelo nosso tempo e volta para o dele. O que surpreendeu e assombrou a teologia dos últimos quarenta anos foi que, a despeito de todas as interpretações forçadas e arbitrárias, não conseguiu mantê-lo em nosso tempo, mas teve de deixá-lo ir. Ele voltou ao seu próprio tempo, não devido à aplicação de qualquer ingenuidade histórica, mas pela mesma necessidade inevitável que faz com que o pêndulo, ao ser solto, volte à posição original.10
8 George Tyrrell, Christianity at the Cross-Roads, p. 44. lJ Albert Schweitzer, The quest o f the historical Jesus, p. 306. 10 Ibid., p. 397.
Se Jesus tem de ter relevância em nosso tempo, não será pelo de fato de ele tornar-se como nós, mas por o enxergarmos como verdadeiramente foi. A imagem de Jesus como alguém que mera mente ensinou um reino ético foi destruída — não pela crítica externa, não por pessoas que adotam uma abordagem fundamen talmente diferente da pesquisa histórica, mas pelo fracasso do método de levar em conta problemas internos significantes. Fra cassou porque tinha de ignorar dados importantes. Assim, tanto a hermenêutica não escatológica como a interpretação ética de Jesus devem ser substituídas por uma hermenêutica completa
mente escatológica.
O conceito não escatológico de Jesus falhou em desvendar o “mistério” de Jesus. Talvez outra chave hermenêutica se encai xasse melhor, explicando mais dos fenômenos da vida de Jesus e com menos distorção. Somente quando a imagem escatológica de Jesus é projetada, sua vida e ensinos passam a ter sentido. Ao enfatizar as presentes dimensões do reino, os ensinos de Jesus também passam a incluir acontecimentos vindouros — a vinda de Jesus.
A expressão “a segunda vinda de Jesus” ou sua “volta” emprega- se comumente hoje. Schweitzer não gostava dessas expressões. Não era o termo de Jesus. Do ponto de vista de onde Jesus estava, tratava- se da vinda dele, e era uma vinda futura. Tendemos a contrastar a vinda futura de Jesus com sua morte: sua morte representava o grau mais elevado, sendo às vezes referido como estado de humilhação; sua vinda é a realização plena do estado de exaltação que começou na ressurreição e se intensificou em sua ascensão. Para Schweitzer, esses estados não são antíteses. Ele não diz: “Morreu, mas virá de novo,” mas “Morre e está vindo.” O primeiro é instrumental em relação ao último. Jesus disse: “Devo sofrer, e o Filho do Homem aparecerá nas nuvens do céu”. Schweitzer considerava que Jesus
colocava sua morte numa conexão temporal-causal com a vinda escatológica do reino.11
Alguns sugeriram que a ideia escatológica fosse uma reflexão posterior de Jesus. Assim, Jesus inicialmente tentou estabelecer um reino terrestre e depois do fracasso dessa tentativa ofereceu, como substituto, um reino futuro e celestial. Schweitzer achava essa inter pretação insustentável. A noção escatológica não foi forçada sobre Jesus por circunstâncias externas; não era um plano alternativo que mudou quando sua estratégia original se revelou impraticável. Pelo contráíio, o conceito escatológico estava na base de sua pregação, já desde o início de seu primeiro ministério na Galileia.12 Schweitzer ilustrou esse fato com a missão de Jesus aos doze. Segundo a inter pretação liberal e ética do reino de Deus, os discípulos foram envia dos para apresentar o reino às pessoas, e convidá-las a entrar nele. Mas, se isso fosse verdade, Jesus deveria ter incluído na sua comissão aos doze um resumo de seus ensinos sobre a moral a ser praticada no reino — um tipo de catecismo para os novos convertidos.13
Nada desse tipo foi incluído na comissão. Aparentemente não era para existir um discipulado ou um cuidado. Em vez disso deviam advertir as pessoas de que o reino de Deus estava próximo, con clamando-as a tomar urgentemente uma decisão. Os discípulos não deveriam demorar-se numa cidade onde as pessoas não aceitavam a mensagem, mas apressar-se, a fim de passar por todas as cidades de Israel antes da volta do Filho do Homem. Havia urgência porque o reino estava vindo, e o aspecto especialmente ressaltado era o arrependimento.14
11 Albert Schweitzer, The mystery ofthe kingdom ofGod: the secret of Jesus’ messiaship and passion, p. 80.
12 Ibid., p. 87. 13 Ibid., p. 88. 14 Ibid.
Segundo Schweitzer, a preparação para a entrada no reino é a transformação moral. “Preparai-vos, arrependei-vos, limpai-vos, o julgamento está chegando” era a mensagem dos discípulos. Isso, porém, é bem diferente daquilo que Jesus teria dito se fosse correto o conceito ético do reino. Em vez de espalhar-se gradualmente, o reino está chegando repentinamente e com ele, o julgamento.15
O valor do reino é infinito. Tudo deve ser abandonado por amor a ele. Quem quiser receber o reino deve estar disposto a rom per com os demais laços, inclusive com os da família. Tendo começado, a pessoa não deve olhar para trás. O foco das parábolas de Jesus do tesouro no campo (Mt 13.44) e da pérola de grande valor (Mt 13.45-46) é que, em comparação com o reino, nada realmente tem valor.
Esse reino vindouro do qual Jesus falava seria diferente de qualquer coisa que houvesse existido antes, e, como conseqüência, ele apresentaria condições específicas para os membros. Enquanto os liberais pensavam que a ética de Jesus era o meio de produzir o reino, Schweitzer, em oposição, acreditava que o reino era determinado e vindouro e que a ética era o meio de preparar-se para a entrada nele. Aqueles que, com a vinda do reino, cumprissem as condições morais, estariam dentro do reino; os que não as cumprissem, não fariam parte dele.16 Isso pode ser verificado pelo exame dos ensinos específicos de Jesus, como as parábolas. A lição das parábolas como a das virgens sábias e néscias, e a dos servos fiéis e infiéis é: “Estai prontos!”.
Jesus dissera: “Não estás longe do reino.” Os liberais interpre tavam assim o significado: “Qualitativamente, tens a natureza correta; quantitativamente, só precisas acrescentar um pouco a ela”. Schweitzer, no entanto, entendia a referência como sendo temporal
15 Ibid., p. 94-96. 16 Ibid., p. 97-99.
e cronológica: o reino estava quase chegando. O tempo era curto. Jesus falou em realizar as obras daquele que o enviara enquanto ainda havia luz. Logo chegariam as trevas, quando os homens já não poderiam trabalhar.
Esse reino, portanto, era futuro, novo quanto à sua qualidade, repentino quanto à sua vinda e de valor infinito. No modo de Schweitzer entender os ensinos de Jesus, havia uma outra característica: era sobrenatural. De acordo com o liberalismo, os homens seriam transformados no que haveriam de ser no reino e gradualmente estenderiam o reino para mais áreas da sociedade. De acordo com Schweitezer, não era isso que Jesus ensinava. O homem deve preparar- se mediante o arrependimento para receber o caráter que seria trazido de modo sobrenatural. O caminho moderno, conforme Schweitzer o chamava, era incondicional — o reino cresceria aos poucos e se desenvolveria gradativamente. O caminho de Jesus, porém, era condicional — os homens não trabalham para poder entrar no reino; eles se preparam para ele e o recebem. Tudo depende daquilo que Deus faz. O reino é altamente moral, e quando vier através de uma catástrofe cósmica, todo o mal será completamente vencido. Os ensinos de Jesus baseiam-se na crença de uma descontinuidade entre as condições do presente e as do futuro. Logo Jesus, por exemplo, falou muito pouco acerca da moralidade sexual, pois quando o reino viesse isso não seria um problema. As pessoas então nem se casariam, nem seriam dadas em casamento, mas seriam como os anjos. Não lhes pretendia dar um modo de viver no reino. Deviam preparar-se para ele, e quando o reino viesse o novo caráter deles viria com ele.17 Essa é então a posição de Schweitzer acerca do ensino de Jesus. A vinda de Jesus seria um acontecimento surpreendente, envolvendo distúrbios cósmicos. A chegada do reino seria um clímax absoluto
— não uma passagem gradual — e transformaria radicalmente as circunstâncias e o caráter humano. Segundo Schweitzer, Jesus acreditava nisso e era isso que ensinava, — mas, é claro, Jesus estava errado! A essa altura poderia pensar-se que Schweitzer era praticamente fundamentalista. Sua descrição das crenças e dos ensinos de Jesus é muito semelhante à dos cristãos evangélicos, conservadores. A diferença está, no entanto, no posicionamento em relação aos pontos de vista de Jesus. Enquanto o fundamentalista aceita os ensinos de Jesus como normativos, Schweitzer os rejeita. A discordância entre Schweitzer e os liberais não era tanto com relação às conclusões destes — basicamente concordava com elas — mas sim com o método de imputar seus próprios pontos de vista ao ensino de Jesus.
Uma passagem eloqüente, em que Schweitzer resumiu sua visão do Jesus trágico, tornou-se, tanto pela qualidade literária quanto pela pungência da descrição do Jesus escatológico, talvez, a passagem mais familiar de seus escritos:
Há silêncio ao redor. Batista aparece e clama: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus.” Tão logo ocorre a chegada de Jesus e sabendo ser ele o Filho do Homem que virá, põe a mão na roda do mundo para colocá-la em movimento na direção daquela última revolução que trará ao fim toda a história comum. A roda recusa-se a girar, e ele se lança sobre ela. Então ela gira e o mói. Em vez de trazer as condições escatológicas, ele as destrói. A roda conti nua em movimento, e o corpo moído daquele homem incomen- suravelmente grande, forte o suficiente para pensar em si mesmo como o soberano espiritual da raça humana e para dobrar a história a seu propósito, ainda está preso a ela. Essa é sua vitória e seu reino.18
De acordo com Schweitzer, não há qualquer maneira de construir ou reconstruir um Jesus que não acreditasse dessa maneira. Ele estava enganado, mas era nisso que ele cria, e só se pode com preendê-lo a partir desse pressuposto. Qualquer outra suposição levará a uma distorção grosseira do Jesus bíblico.
Mas que relevância então Jesus tem para nós hoje? Já vimos que não é possível aceitar essas ideias, consideradas obsoletas em nosso mundo moderno. E não somente isso, mas também não foram (e não deveriam ser) sustentadas pela geração que se seguiu a Jesus, pois as expectativas dele não se realizaram. A relevância de Jesus não se encontra em nos relacionarmos de alguma forma com esse Jesus historicamente construído, mas em o conhecermos por uma expe riência sobrenatural de encontro direto. Schweitzer concluiu assim em The Quest of the Historical Jesus [A busca pelo Jesus histórico]:
Por essa razão, é bom que o verdadeiro Jesus histórico derrube o Jesus moderno, levante-se contra o espírito moderno e envie sobre a terra, não a paz, mas a espada. Ele não era um professor, não era um casuísta; era um soberano imperador. Por ser isso no mais íntimo de seu ser é que podia considerar-se o Filho do Homem. Essa era apenas a expressão temporalmente condicionada pelo fato de ele exercer um papel de autoridade. Os nomes pelos quais os homens expressavam o reconhecimento dele como tal — Messias, Filho do Homem, Filho de Deus — tornaram-se para nós parábolas históricas. Não conseguimos encontrar designação alguma que expresse aquilo que ele é para nós.
Ele chega a nós como um desconhecido, sem nome, do mesmo modo como no passado ele se encontrou, à beira do lago, com aqueles homens que não o conheciam. Ele nos fala a mesma palavra “Segue-me!” e nos aplica às tarefas que ele tem de cumprir para o nosso tempo. Ordena. E para aqueles que o obedecem,
sejam sábios ou simples, ele se revelará nos trabalhos árduos, nos conflitos, nos sofrimentos em que passarão na comunhão com ele e, como um mistério inefável, aprenderão em sua própria expe riência quem ele é.19
À medida que alguém serve e segue o Jesus que ainda vem a ele em sua experiência pessoal — como veio aos discípulos há muito tempo — , ele aprende quem esse ser inefavelmente misterioso é. Aqui, em certo sentido, há uma antecipação da neo-ortodoxia poste rior, em que não se reúne conhecimento como na pesquisa objetiva. A verdade é subjetiva e pessoal, e pode-se conhecê-la somente através de revelação, pela iniciativa do Senhor. Aqui, porém, temos um tom consideravelmente mais místico do que na maior parte da neo-orto doxia. Karl Barth enfatizou que se pode ter conhecimento nessa revelação, ao passo que Schweitzer acentuou a ideia do mistério inefável.
A força da obra de Schweitzer parece encontrar-se na sua dimensão negativa ou crítica. Com exatidão e de forma completa, desnudou as falhas e fraquezas dos conceitos liberais não escato- lògicos ou desescatologizados de Jesus e do reino. Não o fez rejei tando a metodologia básica liberal e substituindo-a por outra. Encontrou-se com esses homens no próprio terreno deles. Aplicando os próprios princípios de interpretação deles, demonstrou que o retrato de Jesus que emergiu não se encaixava nos dados, e era incon sistente com a hipótese proposta. Schweitzer demonstrou que o pregador não escatológico de um reino puramente ético nunca teve existência real. Era produto de uma imaginação liberal criativa, um ser do século X IX , não do século I.
Infelizmente, a obra crítica de Schweitzer não foi acompanhada por uma alternativa igualmente forte e construtiva. Logo a nota
conclusiva de Schweitzer é, no mínimo, muito vaga e subjetiva. Depois de um raciocínio estritamente argumentativo e analítico, volta-se para uma solução quase sobrenatural, sugerindo que Jesus vem a nós como veio aos discípulos há tanto tempo. A brevidade e a vagueza de sua declaração tornam difícil determinar exatamente o que ele afirmava ou qual era sua base para ela. Como resultado, essa parte do argumento de Schweitzer parece ser praticamente uma reflexão tardia. Assim dificilmente poderia servir como crença adequada para nós hoje. Escatologia realizada
A história da teologia cristã, como a de muitas outras coisas, frequen temente se movimenta como um pêndulo. Certo pensamento corre seu percurso, chega a um ponto de máxima aceitação e influência e então é substituído por um que se movimenta numa direção oposta, frequentemente em estreita semelhança a um conceito anterior já suplantado. No entanto, raras vezes ocorre um rompimento total de seu antecessor. Isso acontece porque dificilmente se pode evitar a influência do que se passou antes; elementos do antigo são incorpo rados no novo.
Foi o que aconteceu com a escatologia realizada, um movi mento identificado especialmente com Charles H. Dodd (1884 1973), mas sustentado por outros também. Uma característica era compartilhada com a escatologia consistente: considerava-se que o tema escatológico permeava as Escrituras, especialmente os ensinos de Jesus. Entretanto, a escatologia consistente postulava que os acon tecimentos antecipados por Jesus nunca ocorreram, ao passo que Dodd afirmava que esses acontecimentos já haviam ocorrido. Além disso, via-os ocorrendo contemporaneamente quando foram escritos ou dentro do período bíblico. Seu conceito de escatologia é o que às vezes é referido como “preterista”.
De modo geral, há quatro formas de interpretação da escato logia bíblica, que, apesar de serem aplicadas especificamente a por ções distintamente apocalípticas da Bíblia, como o livro do Apocalipse, se aplicam também a outros segmentos. A interpre tação idealista (ou simbólica) tira o elemento temporal da apo calíptica. Os símbolos ou acontecimentos descritos não ocorrerão em qualquer ponto específico da história, mas representam e apresentam “verdades eternas”, verdades acerca da natureza da realidade ou da existência humana que são continuamente presentes ou recorrem continuamente. Não se pergunta delas: “Quando?” mas, sim, “O quê?”. O futurista relaciona os elementos proféticos e apocalípticos nas Escrituras primariamente a um “tempo do fim”, quando todos os acontecimentos se sucederão. A maior parte dele ainda acontecerá no futuro para nós, como acontecia para os que viviam nos tempos bíblicos. O historicista considera que a apoca líptica pertence a acontecimentos que ainda eram futuros na ocasião em que foram descritos (o período bíblico), mas que já ocorreram e continuam a acontecer dentro da história da igreja. A abordagem
preterista considera que o cumprimento da apocalíptica ocorreu
aproximadamente no período contemporâneo ao registro bíblico dela. Sendo assim os “últimos tempos” já teriam chegado quando o escritor bíblico os descreveu.
A escatologia realizada desafiava a ideia da futuridade em conexão com os ensinos de Jesus. Ele não falava de acontecimentos totalmente futuros que ainda se cumpririam; as “coisas que haviam de vir” já haviam chegado. A Escritura continha um contraste drástico entre “esta era” e as “eras vindouras”. Nos profetas do Antigo Testamento, esse contraste focava-se no dia do Senhor, que se caracterizava por três aspectos distintos:20
1. O dia do Senhor seria sobrenatural. O oculto domínio de Deus na história seria revelado. Embora os profetas vissem Deus operar, usando até a Assíria e a Babilônia, Deus seria revelado como o soberano da história em algum tempo futuro em que se tornaria evidente que esse domínio é divino e sobrenatural.
2. O dia do Senhor envolveria a derrota dos poderes do mal, bem como o julgamento sobre o pecado dos homens. Quando o dia do Senhor viesse, haveria justiça.
3. O dia do Senhor traria nova vida àqueles em quem sua vontade se cumpre, visto que esta para o homem é a perfeição da vick na imagem de Deus e em comunhão com ele. As Escrituras afirmam isso em diversas passagens. Por exemplo: “Seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (ljo 3.2). No Antigo Testamento ocorre a mesma ideia: “Porei dentro deles um novo espírito” (Ez 11.19). No Novo Testamento o simbolismo apoca líptico do Antigo Testamento torna a ocorrer frequentemente.
De acordo com a escatologia realizada, há uma diferença crucial entre as referências do Antigo e as do Novo Testamento. Enquanto no primeiro, o dia do Senhor é futuro, no segundo esse dia já chegou. Dodd citou várias passagens do Novo Testa mento para sustentar essa colocação: “...então o reino de Deus chegou a vós” (Mt 12.28); “Mas isto é o que havia sido falado pelo profeta Joel” (At 2.16); “Mas todos nós... somos transformados de glória em glória na mesma imagem...” (2Co 3.18); “...se alguém está em Cristo, é nova criação...” (2Co 5.17); “Ele nos tirou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado” (Cl 1.13); “...ele nos salvou mediante o lavar da regeneração e da renovação realizados pelo Espírito Santo” (Tt 3-5); “experimentaram ... os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5); “Fostes regenerados não de semente perecível, mas imperecível...”
(lPe 1.23); “as trevas vão passando e já brilha a verdadeira luz... é a última hora...” (ljo 2.8,18).
De acordo com a interpretação de Dodd, a nova era está aqui; Deus estabeleceu o reino. O conceito mitológico do dia do Senhor foi transferido a um acontecimento histórico específico que já ocorreu ou, na realidade, a uma série de acontecimentos — o minis tério, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. A escatologia foi cumprida ou “realizada”. Aquilo que era futuro no tempo das profe cias do Antigo Testamento tornou-se presente. Em vez de procurar duas vindas de Cristo, deveríamos entender que há apenas uma; e em vez de procurar cumprimentos futuros das “predições” de Jesus, deveríamos interpretar essas “predições” à luz de suas declarações de que o reino de Deus está aqui — está próximo. Jesus não falava de como seria, mas de como era.
Uma crise específica, constituída pelo ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo, é interpretada em relação ao conceito do Antigo Testamento. As características do dia do Senhor são intrepidamente circunscritas nessa crise histórica. Podemos notar como esse conjunto de acontecimentos se encaixa tão bem no conceito do dia do Senhor.21
1. Trata-se de um cumprimento. Marcos disse: “O tempo está
cumprido.” Dodd comentou: “Esta é a declaração que Marcos colocou como inscrição sobre praticamente todo o registro do evangelho.” Paulo disse em Gálatas 4.4: “vindo, porém, a plenitude
iplêrõma) dos tempos...” O que mais poderia ser cumprido? Nao
havia mais nada para acontecer, ou certamente Paulo não teria usado esse termo específico. Essa é a chave aos apelos freqüentes (feitos especialmente por Mateus) à profecia. A questão é que o significado
da história já está resumido. O cumprimento da profecia significa que o dia do Senhor raiou.
2. O sobrenatural entrou na história. O braço do Senhor está revelado, como demonstram os milagres na vida de Jesus. Estes, como as profecias, têm sido usados por alguns para provar o sobrenatural. De certa forma isso é correto, mas Dodd afirmou que as histórias de milagre dos evangelhos correspondem estreitamente aos símbolos que os profetas utilizavam para retratar o caráter sobrenatural da era por vir. O poder estava ali — Jesus podia dizer ao homem: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.” Como poderia un* milênio fazer mais do que isso? O reino já viera.
3. O poder de Deus está abertamente manifesto para derrotar os
poderes do mal. Por exemplo, quando os setenta voltam e anunciam
o que foi realizado, Jesus diz: “Eu vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10.18). João registra o que Jesus disse na véspera da sua morte: “Chegou a hora do julgamento deste mundo, e o seu príncipe será expulso agora” (12.31). Paulo disse que, na cruz, Jesus triunfou sobre principados e poderes. Se o dia do Senhor inclui a destruição dos poderes do mal e se isso se realizou na cruz, então aquele dia já veio.
4. O evento Cristo também abrange o julgamento do mundo. Na
morte de Cristo, Paulo disse que Deus manifestou sua justiça e condenou, na carne, o pecado. Na realidade, Paulo deveria ser visto como quem interpreta Jesus. De certa forma Dodd tinha mais confiança em Paulo do que os “buscadores” liberais ou Schweitzer. “E o julgamento é este: A luz veio ao mundo, e os homens amaram as trevas em lugar da luz, pois suas obras eram más” (Jo 3.19). Na introdução ao quarto evangelho, a luz veio ao mundo e está resplan-
descendo, e as trevas não prevaleceram contra ela. Isso é julgamento
— não em algum sentido futurístico em que os livros são abertos — evidência atestada e veredito pronunciado por um juiz. Os homens
pronunciaram julgamento conrra si mesmos por sua resposta à luz: “amaram as trevas em lugar da luz, pois suas obras eram más”. O julgamento é autoproferido pela resposta das pessoas à verdade.
5. A vida eterna, a vida no porvir, é realizada agora em nossa experiência. “Mas, na verdade, Cristo ressuscitou dentre os mortos,
sendo ele o primeiro entre os que faleceram” (ICo 15.20), e nós somos ressuscitados com ele em novidade de vida. As vezes, a inter pretação fundamentalista da vida era, totalmente futurista: crê, e um dia terás a vida ererna; irás viver com ele para sempre no céu. Jesus disse: “...eu vim para que tenham vida, e a tenham com pleni tude” (Jo 10.10). Aquele que crê, tem a vida eterna. Não é algo para ser aguardado; é para ser experimentado.
A escatologia, portanto, é uma questão do presente. Dodd examinou as parábolas detalhadamente, interpretando-as à luz do que já havia acontecido ou do que estava acontecendo. “O futuro é agora” era um lema excelente para o ministério de Jesus, segundo o entendimento de Dodd.
Encontramos aqui alguns paralelos com o conceito liberal mais antigo que sustentava que essas coisas não são totalmente futuras. Nesse senrido, a escatologia realizada é de certa forma uma reação a Schweitzer. E é também um conceito muito mais sobrenatural do que o do liberalismo. Dodd considerava que Jesus falava, não daquilo que viria, mas daquilo que já viera. Alguns críticos sugeriram que Dodd tinha exagerado seu argumento, e aparentemente ele aceitou essa crítica. Em suas obras posteriores, começou a falar cada vez mais do reino que começara em vez de falar sobre aquele que chegara, e da iniciação em vez da realização.22 Apesar disso, segundo o ponto de vista de Dodd, não há muita coisa a ser aguardada.
22 Charles H. Dodd, Gospel and the law. the relation of faith and ethics in early Chrisuanity, p. 26-27.
A força da escatologia realizada é a sua doutrina de que boa parte da escatologia da qual Jesus falava já foi cumprida ou estava sendo cumprida no tempo dele. Em Cristo, o futuro viera ou pelo menos começara. A tendência de alguns cristãos de compreender a escatologia bíblica em termos puramente futuristas deve, portanto, ser entendida como uma visão errônea e distorcida do ensino bíblico. Essas pessoas perdem muito da relevância do texto por olharem para a frente quando deveriam olhar para trás.
Por outro lado, Dodd negligenciou alguns textos que não podem ser considerados já cumpridos. Por exemplo, o grande dis- cqfso escatológico, em que Jesus falou de sua segunda vinda, e a reflexão de Paulo sobre ela em lTessalonicenses. Esses textos clara mente se referiram a acontecimentos que ainda eram (e ainda são) futuros. Embora o reino, em certo sentido, já tenha vindo, ou pelo menos começou a vir, em outro sentido claramente ainda não foi realizado. Uma teoria escatológica plenamente adequada deve levar em consideração esses trechos das Escrituras também. Dodd falhou em fazer isso.
Bultmann e
Moltmann
Escatologia existencial
|o pensamento de Rudolf Bultmann (1884-1976), encontramos ? ^luma abordagem teológica genuína do século xx. Embora tenha combinado muitos elementos de várias abordagens anteriores, ele construiu seu pensamento sobretudo com base no existencialismo que, de muitas maneiras, tem sido a principal filosofia deste século.
Bultmann escreveu, não como teólogo sistemático, mas como estudioso do Novo Testamento. Examinando a visão de mundo do
N T , ele concluiu que grande parte dos registros é mitológica em sua
natureza. Entendia que o mito era a descrição de realidades do outro mundo em metáforas retiradas deste mundo. Os escritores do Novo Testamento concebiam a totalidade da realidade como um universo de três andares. O andar superior é o céu, habitado por Deus e pelos anjos; o do meio é a terra, habitada por seres humanos; e o inferior é o inferno, a base de operações do diabo e de seus assistentes demoníacos. Mesmo na terra, nem tudo é resultado de forças
puramente naturais. Poderes sobrenaturais intervém no fluxo “natural” dos acontecimentos. Milagres acontecem com considerável fre quência. Espíritos maus podem possuir o homem, causando doenças. Deus ou Satanás podem inspirar os pensamentos do homem e guiar suas ações. E o homem pode receber visões de origem divina.'
A escatologia é uma parte em destaque desse quadro também. O fim dos tempos está próximo e será marcado por uma grande catástrofe cósmica. O fim será inaugurado pelos “ais” dos últimos tempos. O juiz, o Senhor Jesus, virá do céu, cavalgando nas nuvens, para completar a obra da redenção. Então os homens serão ressur- retos e julgados.2 A escatologia está colocada dentro do quadro da mitologia em geral, e para entender a escatologia de Bultmann deve mos primeiramente examinar seu método geral de desmitologização. Há três maneiras de lidar com a mitologia do Novo Testamento. A primeira é simplesmente aceitá-la literalmente, e, em grande parte, é isso que o fundamentalismo faz. Mas, segundo Bultmann, isso é obviamente impossível para o homem moderno, tendo em vista o atual conceito científico da realidade. A revolução copernicana tor nou impossível a pessoas esclarecidas e reflexivas considerar o univer so como um “subir” e “descer” no espaço, ou como tendo qualquer relação com um referencial de espaço. Tais conceitos já não têm significado. De forma semelhante, a ciência médica revelou que as doenças não são causadas por possessão demoníaca, mas por bacté rias, por vírus ou por outros organismos.3 Outra razão pela qual não podemos adotar a escatologia mítica é que a parúsia de Cristo, predita no Novo Testamento, nunca ocorreu. A história não termi nou naquela geração e, como se sabe, continuará a correr seu curso.
1 Rudolf Bultmann, New Testament and Mythology, p. 1-2. 2 Ibid.
Bultmann concluiu que, se acreditamos no fim do mundo como um acontecimento circunscrito no tempo, esperamos então que o evento aconteça com uma catástrofe natural (e.g., um holocausto nuclear) e não com uma volta corpórea mítica de Jesus Cristo. Mas explicar essa parúsia em relação a alguma catástrofe natural é fazer uma crítica ao Novo Testamento, embora inconscientemente.4
A segunda maneira de tratar a mitologia do Novo Testamento é aquela do liberalismo: rejeitar os elementos míticos do Novo Testa mento. Os liberais esforçaram-se por conservar a mensagem do Novo Testamento, mas sem os elementos agora reconhecidos como insustentáveis. Bultmann chamava esse método de seleção ou subtra ção. Infelizmente, de acordo com ele, não era viável. Em muitos casos o mítico está tão estreitamente vinculado com o não mítico que são praticamente inseparáveis.5
Uma terceira maneira de tratar a mitologia do Novo Testa mento é a que Bultmann acreditava ser superior: em vez de aceitar a mitologia de modo literal ou de rejeitá-la, deveríamos interpretá- la (ou talvez mais corretamente, reinterpretá-la). Ele levava os mitos a sério, entendendo que eles realmente transmitiam uma mensagem, embora não literalmente. Esse processo é conhecido como desmito- logização, um termo que deixa a desejar pois pressupõe a eliminação do mito. Mas, na verdade, o mito está sendo reinterpretado, tendo licença para permanecer, mas recebendo um caráter diferente. Bultmann procurava entender o mito através de seu significado existencial, em vez de literal.6
Bultmann reconhecia que houve esforços anteriores no sentido da desmitologização. Na realidade, declarou que tudo quanto dissera
5 Ibid., p. 5. 5 Ibid., p. 9-10, 6 Ibid., p. 10.
de modo negativo poderia ter sido afirmado há quarenta anos, o que de fato aconteceu. Segundo ele, a necessidade de se rever tudo isso era um sinal da falência da teologia contemporânea. Em seu tempo testemunhou um movimento de afastamento da crítica e de retorno a uma aceitação ingênua da pregação da igreja primitva.7 Talvez isso tivesse acontecido porque algumas das tentativas anteriores de desmitologização usavam a crítica para praticamente
eliminar esse querigma, recaindo, assim, no segundo dos dois
métodos descritos acima.8 Adolf von Harnack, por exemplo, eliminava completamente a mitologia: “O reino de Deus vem ao chegar ao indivíduo, ao entrar em sua alma e tomar posse dela”.9 Harnack reduziu o querigma a alguns poucos princípios básicos da religião e da ética que são eternos e atemporais, independentemente da história humana dentro da qual são concretizados. Somos capazes de averiguar essas verdades em nossa própria experiência, não importa em que tempo vivamos. Visto que Harnack entendia o
querigma como nada mais do que mitologia, poderia eliminá-lo
com segurança.
Para Bultmann, devemos perguntar o que as personagens do Novo Testamento, e especialmente os autores desses livros, tentavam expressar. Embora os que primeiramente anunciaram essas ideias míticas talvez as tivessem entendido de forma literal, elas certamente têm um significado mais relevante do que esse. O significado verda deiro do que esses autores tinham experimentado e expressavam de forma mítica era existencial. Se quisermos captar o significado genuíno das ideias, devemos procurar seu significado existencial.10
7 Ibid., p. 12. 8 Ibid., p. 13.
9 Adolf von Harnack, What is Christianity? p. 56. 10 Rudolf Bultmann, New Testament and Mythology.
O método de Bultmann apoia-se numa distinção crucial que percorre o seu pensamento e é vista mais claramente em seu modo de entender a história. Ele distinguia dois significados ou tipos de história: Historie e Geschichte. Historie implica o que realmente ocorreu, a facticidade dos acontecimentos do espaço e do tempo. A pergunta simplesmente é: “Aconteceu?”. Isso poderia ser chamado de mera história, o que acontece no âmbito “histórico”. Geschichte, por outro lado, é o efeito ou impacto subjetivo que esses aconteci mentos têm sobre os participantes ou observadores. A pergunta seria: “O que significa?”. E a história significante ou as ocorrências históricas.11
Aplicando essa distinção aos evangelhos e empregando sua meto dologia da crítica da forma, Bultmann foi bastante cético quanto à
Historie. Não podemos ter a certeza de termos qualquer dito de Jesus
exatamente como declarou e, precisamente, na situação histórica original. Os evangelhos não foram escritos por observadores imparciais que simplesmente relatavam informações a pessoas, mas por cristãos comprometidos que tentavam levar outros a um comprometimento semelhante. Em outras palavras, eram mais como literatura de propa ganda, anúncios de vendas do que relatórios objetivos.
Não podemos saber ao certo se Jesus realmente foi crucificado ou ressurreto. Além disso, a ressurreição não somente é incerta do ponto de vista da evidência, mas também improvável ou, mais corre tamente, incrível. Nosso conhecimento do processo de decom posição do cadáver torna impossível o fato de alguém morto já há três dias voltar à vida.12 É pura impossibilidade física.
O que temos nos relatos dos evangelhos, portanto, é a
Geschichte. Seja qual for o fato acontecido, este teve um impacto " Ibid., p. 37.
tremendo sobre os discípulos, que tentaram expressar isso no que escreveram e fizeram. Assim, os evangelhos não são um registro dos ditos e atos de Jesus, mas uma série de expressões das experiências subjetivas dos discípulos. O mito expressa as convicções do homem acerca de algo além. A origem e o propósito deste mundo devem ser buscados não nele, mas além dele. Além disso, o homem não é seu próprio senhor. Depende deste mundo e de poderes além dele, dos quais pode ser liberto. Logo o mito é uma expressão de como o homem entende a si mesmo. Seu significado não se encontra em acontecimentos que ocorreram apenas uma vez ou que ainda ocorrerão em algum tempo no futuro. Há uma atemporalidade, que expressa a natureza da existência humana como tal.13
Bultmann trouxe para sua interepretação do Novo Tes tamento a filosofia existencialista de Martin Heidegger. Consi derava a análise de Heidegger da estrutura ontológica como sendo uma versão secularizada e filosófica do conceito neotestamentário da existência humana.14 Para Heidegger, a angústia é a característica principal da existência do homem. O homem é continuamente confrontado com a decisão entre o passado e o futuro; seja para perder-se no mundo das coisas e assim perder sua individualidade em meio à massa (existência inautêntica), seja para alcançar existência autêntica, abrindo mão de toda a segurança e entregando-se sem reservas ao futuro. Bultmann aceitava a estrutura básica desse conceito, mas insistia na existência de uma diferença crucial entre o existencialismo e a mensagem do Novo Testamento. De acordo com o primeiro, o homem consegue a existência autêntica ao libertar-se do cativeiro ao transitório e tangível através de sua própria decisão; e conforme o segundo, o
13 Ibid., p. 10-11. 14 Ibid., p. 24-25.
homem não pode libertar-se mediante seu próprio esforço — isso deve vir como uma dádiva.15
Observemos agora como Bultmann reinterpretava algumas doutrinas relevantes com base nessa abordagem. A cruz é tanto histórica quanto mitológica. A interpretação mitológica da cruz é o que Bultmann chamava de uma “mistura de analogias sacrificiais e jurídicas”; seu significado desmitologizado é outro. Como aconteci mento histórico {Historie), a cruz simplesmente representa o fato em si, a crucificação de Jesus de Nazaré; como acontecimento histó rico significante {Geschichte), no entanto, a cruz é o julgamento do mundo, o julgamento libertador do homem, “o julgamento de nós mesmos como criaturas caídas, escravas dos poderes do ‘mundo’”. Crer na cruz, portanto, é tomar a cruz sobre si mesmo, permitir ser crucificado com Cristo.16 O texto principal para uma compreensão desmitologizada da crucificação é Gálatas 2.19: “Estou crucificado com Cristo”. O verdadeiro significado da cruz não é algo que aconteceu há vários séculos; é algo que se aplica a mim aqui e agora. A pergunta não é aquilo que podemos determinar acerca dos acontecimentos na vida de Jesus há muito tempo (i.e., se foi morto). A questão realmente relevante é saber se eu mortifiquei minha concu- piscência, meu esforço próprio, meu apego ao aqúi e agora.
Necessariamente Bultmann teve de tratar a ressurreição de uma forma um tanto quanto diferente, porque, conforme notamos acima, esse relato não pode ser tratado como Historie. A importância (Geschichte) da ressurreição vem da cruz. Se a cruz é a declaração do julgamento sobre o homem, a ressurreição é a certeza da vitória. A cruz e a ressurreição são acontecimentos escatológicos, não como ocorrências passadas, mas como acontecimentos incluídos no
,s Ibid., p. 27. 16 Ibid., p. 36.
querigma. É somente na pregação que Cristo se encontra conosco
como aquele que foi crucificado e ressurreto. Os acontecimentos descritos no querigma ocorrem de novo na experiência do ouvinte. Voltamos à vida, nos enchemos de esperança, confiamos no futuro.17 Bultmann adotou esse mesmo tipo de abordagem à escatologia. Examinou a pregação e o ensinamento de Jesus acerca das últimas coisas, e ele, em comum com os escatologistas consistentes e em contraste com os autores das “vidas de Jesus” liberais e com os escatologistas realizados, descobriu que Cristo definitivamente cria num futuro reino de Deus. Segundo Bultmann, pesquisas cuida dosas demonstraram “que Jesus indubitavelmente entendia o reino de Deus como futuro e esperava a sua chegada acompanhada de julgamento e consumação escatológica no tempo próximo — se não imediatamente, ou seja, dentro do período de vida da geração presente”.18 Não se negava, assim, que Jesus via o eschaton vinculado com o presente. Na própria pessoa de Jesus, o juiz escatológico futuro, o Filho do homem, já estava presente. Jesus via um intervalo entre o presente e o futuro, relacionando-se com a expectativa de sua morte, ressurreição e, depois de algum tempo, sua parúsia. Jesus claramente ensinava uma escatologia mitológica — conceito este que não podemos aceitar porque não aconteceu como Jesus disse que aconteceria.
Como a história, a escatologia é destemporalizada. Enquanto a narrativa nos evangelhos relata de forma ostensiva acontecimentos que se passaram em algum ponto do passado, as referências escato- lógicas parecen predizer acontecimentos que se darão no futuro. No entanto, como narrativa, as referências escatológicas devem ser vistas como uma expressão do entendimento do homem a respeito
17 Ibid., p. 38.
271-de sua existência, e 271-de como ele a vivência no tempo. Diferentemente dos escatologistas realizados, para os quais o significado das refe rências escatológicas é o cumprimento no tempo em que foram pronunciadas, Bultmann encontrava o significado delas no cumpri mento que se dava na experiência presente do crente.
Alguns veem esse esforço de redefinir a escatologia como um desvio do ensino bíblico, praticamente como uma rejeição da autori dade bíblica. Bultmann alegou que esse não é o caso. A desmito- logização foi, na realidade, iniciada pelos escritores bíblicos.19 Paulo, por exemplo, não considerava a salvação como primariamente futura, a ser realizada num outro mundo, mas como uma ocorrência presente: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas velhas já passaram, e surgiram coisas novas” (2Co 5.17); “A morte foi engolida pela vitória” (ICo 15.54); “Agora é o tempo aceitável [acerca do qual Isaías falou], agora é o dia da salvação” (2Co 6.2). O que Paulo iniciou foi levado ainda mais longe por João, para quem a vinda e a partida de Jesus eram acontecimentos escatológicos. João não relacionava o julgamento a um tempo futuro; mas o circunscrevia no tempo presente: “E o julgamento é este: A luz veio ao mundo, e os homens amaram as trevas em lugar da luz, pois suas obras eram más” (Jo 3.19). As forças malignas do mundo também são julgadas no tempo presente: “Chegou a hora do julgamento deste mundo, e o seu príncipe será expulso agora” (Jo 12.31). Bultmann comentou: “Para João, a ressurreição de Jesus, o Pentecoste e a parúsia de Jesus são um e o mesmo acontecimento, e aqueles que creem já têm a vida eterna”.20 Bultmann citou numerosas passagens em João para sustentar esse argumento: “Quem nele crê não é condenado; mas quem não crê, já está condenado...” (3.18); “Quem
19 Rudolf Bultmann, Jesus Christ and Mythology, p. 31. 20 Ibid., p. 33.