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os dois capítulos anteriores, discutimos duas visões não apenas contraditórias, mas também opostas. Elas são diametralmente opostas em questões essenciais.Sendo cada uma dessas posições sustentada por considerações até certo ponto válidas e sendo os dois pontos de vista contrários, deveríamos esperar que algumas posições intermediárias também surgissem; conceitos que incorporariam aspectos relevantes tanto do pré-tribulacionismo como do pós-tribulacionismo. Tais conceitos realmente têm sido propostos, e três deles discutiremos neste capí tulo: o conceito mesotribulacionista, o conceito do arrebatamento parcial e o conceito pós-tribulacionista iminente. Uma breve exposi ção de cada um deles ajudará a orientar-nos para uma explicação mais completa desses três conceitos.
O mesotribulacionismo ensina que a igreja estará presente na terra durante uma parte da tribulação e que, portanto, a experimen tará. A diferença é que a igreja será removida antes da pior parte da tribulação. O conceito de arrebatamento parcial vê um segmento
da igreja arrebatado antes da tribulação e outro segmento que per manece na terra durante toda a tribulação. Assim, o arrebatamento é pré-tribulacional para alguns crentes e pós-tribulacional para outros. O último dos três conceitos, como o próprio nome apre senta, concebe a vinda de Cristo como um fato tanto iminente quanto pós-tribulacionista. Essas três visões, portanto, podem ser diferenciadas observando a divisão que fazem de três elementos: (1) a duração da tribulação, (2) o corpo dos crentes e (3) a ligação entre a vinda iminente e pós-tribulacionista de Cristo.
0 conceito mesotribulacionista
O mesotribulacionismo é o ponto de vista de que a igreja passará pela primeira metade daquilo que é identificado como a grande tribulação ou como os sete anos da septuagésima semana de anos de Daniel. Embora um pouco simplificada, a seguinte declaração representa a posição de modo bastante acurado. Dois intérpretes recentes de destaque dessa posição são James O. Buswell, Jr., (1895- 1976) e Norman B. Elarrison (1874-1960).
Um primeiro aspecto importante dessa teoria é que os “esco lhidos” mencionados por Jesus no grande discurso escatológico (e.g., Mt 24.22; Mc 13.20) não são judeus; são os santos no sentido usual da igreja. Buswell argumentou em prol dessa ideia, fundamen tando-se em duas bases:1
1. Os evangelhos segundo Mateus e Marcos foram escritos algum tempo depois de as epístolas de Paulo terem sido escritas e circuladas. O vocabulário de Paulo e o significado que dava às pala vras seriam, portanto, familiares aos crentes daqueles dias. E razoável
1 James O. Buswell Jr., A Systematic Theology o f the Christian Religion, 2:393-394.
esperar que, se o Senhor tivesse desejado dizer por “escolhidos” algo diferente daquilo que Paulo queria dizer com a palavra em passagens como Romanos 8.33, então Mateus e Marcos teriam dado alguma indicação do fato, para evitar confusão. Não há, porém, qualquer indicação disso nos evangelhos.
2. Fica aparente que Cristo, ao responder a perguntas que lhe foram feitas pelos apóstolos nos evangelhos citados, estava falando não somente a eles, mas à igreja inteira no decurso da era presente. Tinha o hábito de acoplar referências aos apóstolos e à igreja inteira, como na grande comissão (Mt 28.18-20), na oração sacerdotal (Jo 17, especialmente o versículo 20) e em muitas outras passagens preciosas da nossa herança cristã. Em especial, quando Jesus anun ciou, em Mateus 24.15ss., a destruição vindoura de Jerusalém, falou primeiramente na segunda pessoa (“quando, pois, virdes...”) e depois, na terceira pessoa. Referiu-se aos judeus como “eles” e não como “vós”, considerando-os como um povo separado que sofreria naquela ocasião e no decurso da era.
Além disso, a advertência de Jesus acerca da abominação da desolação (Mt 24.15) parecia a Buswell decididamente paralela à advertência de Paulo aos Tessalonicenses (2Ts 2.4). Mas os crentes tessalonicenses não eram primariamente judeus, mas gentios! 2
Buswell não se impressionou com o argumento de que Jesus forçosamente se referia a Israel por causa de a figueira ser um “tipo” de Israel na parábola (Mt 24.32-35). Não há, segundo ele, base suficiente para limitar a figueira a Israel. Na verdade, essa parábola é introduzida em Lucas com as palavras “Vede a figueira e todas as
árvores...” (21.29), comprovando que, nessa ocasião, Jesus não tinha
em mente essa aplicação estreita.3 É evidente que Buswell não
2 Ibid., p. 391, 394. ! Ibid., p. 394.
compartilhava de um dos conceitos distintivos dos pré-tribu- lacionistas e especialmente dos dispensacionalistas de que “os escolhidos” do discurso no monte das Oliveiras são os judeus ao invés da igreja.
Uma segunda doutrina principal dessa visão é uma distinção entre a tribulação e a ira. Nesse aspecto, o mesotribulacionismo assemelha-se ao pós-tribulacionismo, que vê a Igreja presente durante a tribulação e a ira de Deus, mas protegida da última. O mesotri bulacionismo relaciona as duas em ordem seqüencial. A igreja está presente durante a tribulação, mas é removida antes do derrama mento da ira de Deus.
A tribulação será muito severa, mas muito breve. Jesus exortou seus discípulos a vigiar cuidadosamente até ver aparecer no lugar santo o “abominável da desolação”, acontecimento sobre o qual Daniel falara. Conforme o registro em Mateus e em Marcos, Jesus passou, então, a indicar tanto a severidade como a brevidade da tribulação: “porque haverá uma tribulação muito grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá. E se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém seria salvo; mas por causa dos escolhidos eles serão abreviados.” (Mt 24.21-22; cf. Mc 13.19-20).4
Contudo, por mais terrível que essa tribulação venha a ser não deve ser identificada com o período da ira de Deus. Depois de descrever a tribulação, o Senhor enumerou os sinais que a segui rão. Grandes revoluções cósmicas ocorrerão: “Logo depois da tribulação daqueles dias” (Mt 24.29; cf. Mc 13.24-25; Lc 21.25-26). Buswell entendeu a referência a esses portentos vindo “em seguida à tribulação daqueles dias” no sentido de que as taças da ira de
Deus serão derramadas, não durante “a grande tribulação”, mas em um tempo subsequente a ela. A tribulação não é exclusiva aos últimos tempos. É a sorte normal da igreja em todas as eras. Embora essa tribulação seja tão severa que não possa ser igualada a nada, não será qualitativamente sem paralelo, conforme a caracterização feita por Buswell. Sendo a tribulação, de modo geral, a ira dos homens contra o povo de Deus, é o destino da igreja em todas as eras.1
Apesar disso, a ira de Deus não é para a igreja. Várias refe rências indicam que a salvação é livramento da ira de Deus. “seremos por ele salvos da ira” (Rm 5.9). A igreja deve aguardar “do céu seu [de Deus] Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura” (lTs 1.10; cf. Mt 3.7; Lc 3.7). “Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (lTs 5.9). Buswell resumiu, dizendo: “Embora essas referências à salvação da ira não declarem especificamente, por si sós, que o arrebatamento da igreja ocorrerá antes do derramemento das taças da ira, mesmo assim, estão em harmonia com esse ponto de vista”.6
Há, porém, mais provas específicas de que a Igreja será arre batada antes de as taças da ira serem derramadas. Certos detalhes chegam até o ponto central desse período de sete anos (a tribulação). A “abominação” chega “no meio dos sete”, ou seja, no meio do período de sete anos. Essa abominação é identificada com o “apare cimento”, a parúsia, do iníquo (2Ts 2.9), quando também ele será revelado (2Ts 2.3). Por sua vez, esse fato é idêntico à vinda do poder do chifre pequeno (Dn 7.24-25), que tem a permissão de continuar por 3 anos e meio (Dn 7.25b). Todos esses detalhes entendidos coletivamente ilustram quão bem o ponto de vista
5 Ibid., p. 389. 6 Ibid.
mesotribulacionista se harmoniza com a totalidade das informações da Escritura e as explica.7
Em relação a localizar o arrebatamento dentro das ocorrências mencionadas no livro de Apocalipse, os mesotribulacionistas o colocam no tocar da sétima trombeta (Ap 11.15).8 O tempo da ira para a injustiça e o tempo de galardões para os mortos justos come çam simultaneamente. A sétima trombeta anuncia tanto a ira de Deus quanto os galardões para os mortos justos.
As nações se enfureceram ; então veio a tua ira, o tem po de serem ju lgad o s os m ortos
e de dares recom pen sa a teus servos, os profetas, aos santos e aos que tem em o teu nom e, aos p equen os e grandes, e de destruíres os que destroem a terra (Ap 11.18).
Harrison também incluía a vinda de Cristo e o arrebatamento nesse momento. Até o versículo 17, Cristo é normalmente referido no Apocalipse como aquele que é, que era e que há de vir. No versículo 17, porém, o tempo futuro é omitido pela primeira vez: “Graças te damos, Senhor Deus todo-poderoso, que és e que eras...” (v. 17). Harrison comenta: “Procura dizer-nos: Ele veio!”.9 Ele vê outras evidências, também, na nuvem no capítulo 11.12. A nuvem simbolizava a presença do Senhor muitas vezes na história de Israel: quando ele os levou para fora do Egito e pelo deserto, quando falou com Moisés, quando encheu o tabernáculo e, mais tarde, o templo com sua glória. Assim também era a evidência visível da
7 Ibid., p . 390-393, 457.
8 Ibid., p. 396- 398, 450ss.