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intermediárias

No documento Escatologia - Millard J. Erickson (1) (páginas 195-200)

N

os dois capítulos anteriores, discutimos duas visões não apenas contraditórias, mas também opostas. Elas são diametralmente opostas em questões essenciais.

Sendo cada uma dessas posições sustentada por considerações até certo ponto válidas e sendo os dois pontos de vista contrários, deveríamos esperar que algumas posições intermediárias também surgissem; conceitos que incorporariam aspectos relevantes tanto do pré-tribulacionismo como do pós-tribulacionismo. Tais conceitos realmente têm sido propostos, e três deles discutiremos neste capí­ tulo: o conceito mesotribulacionista, o conceito do arrebatamento parcial e o conceito pós-tribulacionista iminente. Uma breve exposi­ ção de cada um deles ajudará a orientar-nos para uma explicação mais completa desses três conceitos.

O mesotribulacionismo ensina que a igreja estará presente na terra durante uma parte da tribulação e que, portanto, a experimen­ tará. A diferença é que a igreja será removida antes da pior parte da tribulação. O conceito de arrebatamento parcial vê um segmento

da igreja arrebatado antes da tribulação e outro segmento que per­ manece na terra durante toda a tribulação. Assim, o arrebatamento é pré-tribulacional para alguns crentes e pós-tribulacional para outros. O último dos três conceitos, como o próprio nome apre­ senta, concebe a vinda de Cristo como um fato tanto iminente quanto pós-tribulacionista. Essas três visões, portanto, podem ser diferenciadas observando a divisão que fazem de três elementos: (1) a duração da tribulação, (2) o corpo dos crentes e (3) a ligação entre a vinda iminente e pós-tribulacionista de Cristo.

0 conceito mesotribulacionista

O mesotribulacionismo é o ponto de vista de que a igreja passará pela primeira metade daquilo que é identificado como a grande tribulação ou como os sete anos da septuagésima semana de anos de Daniel. Embora um pouco simplificada, a seguinte declaração representa a posição de modo bastante acurado. Dois intérpretes recentes de destaque dessa posição são James O. Buswell, Jr., (1895- 1976) e Norman B. Elarrison (1874-1960).

Um primeiro aspecto importante dessa teoria é que os “esco­ lhidos” mencionados por Jesus no grande discurso escatológico (e.g., Mt 24.22; Mc 13.20) não são judeus; são os santos no sentido usual da igreja. Buswell argumentou em prol dessa ideia, fundamen­ tando-se em duas bases:1

1. Os evangelhos segundo Mateus e Marcos foram escritos algum tempo depois de as epístolas de Paulo terem sido escritas e circuladas. O vocabulário de Paulo e o significado que dava às pala­ vras seriam, portanto, familiares aos crentes daqueles dias. E razoável

1 James O. Buswell Jr., A Systematic Theology o f the Christian Religion, 2:393-394.

esperar que, se o Senhor tivesse desejado dizer por “escolhidos” algo diferente daquilo que Paulo queria dizer com a palavra em passagens como Romanos 8.33, então Mateus e Marcos teriam dado alguma indicação do fato, para evitar confusão. Não há, porém, qualquer indicação disso nos evangelhos.

2. Fica aparente que Cristo, ao responder a perguntas que lhe foram feitas pelos apóstolos nos evangelhos citados, estava falando não somente a eles, mas à igreja inteira no decurso da era presente. Tinha o hábito de acoplar referências aos apóstolos e à igreja inteira, como na grande comissão (Mt 28.18-20), na oração sacerdotal (Jo 17, especialmente o versículo 20) e em muitas outras passagens preciosas da nossa herança cristã. Em especial, quando Jesus anun­ ciou, em Mateus 24.15ss., a destruição vindoura de Jerusalém, falou primeiramente na segunda pessoa (“quando, pois, virdes...”) e depois, na terceira pessoa. Referiu-se aos judeus como “eles” e não como “vós”, considerando-os como um povo separado que sofreria naquela ocasião e no decurso da era.

Além disso, a advertência de Jesus acerca da abominação da desolação (Mt 24.15) parecia a Buswell decididamente paralela à advertência de Paulo aos Tessalonicenses (2Ts 2.4). Mas os crentes tessalonicenses não eram primariamente judeus, mas gentios! 2

Buswell não se impressionou com o argumento de que Jesus forçosamente se referia a Israel por causa de a figueira ser um “tipo” de Israel na parábola (Mt 24.32-35). Não há, segundo ele, base suficiente para limitar a figueira a Israel. Na verdade, essa parábola é introduzida em Lucas com as palavras “Vede a figueira e todas as

árvores...” (21.29), comprovando que, nessa ocasião, Jesus não tinha

em mente essa aplicação estreita.3 É evidente que Buswell não

2 Ibid., p. 391, 394. ! Ibid., p. 394.

compartilhava de um dos conceitos distintivos dos pré-tribu- lacionistas e especialmente dos dispensacionalistas de que “os escolhidos” do discurso no monte das Oliveiras são os judeus ao invés da igreja.

Uma segunda doutrina principal dessa visão é uma distinção entre a tribulação e a ira. Nesse aspecto, o mesotribulacionismo assemelha-se ao pós-tribulacionismo, que vê a Igreja presente durante a tribulação e a ira de Deus, mas protegida da última. O mesotri­ bulacionismo relaciona as duas em ordem seqüencial. A igreja está presente durante a tribulação, mas é removida antes do derrama­ mento da ira de Deus.

A tribulação será muito severa, mas muito breve. Jesus exortou seus discípulos a vigiar cuidadosamente até ver aparecer no lugar santo o “abominável da desolação”, acontecimento sobre o qual Daniel falara. Conforme o registro em Mateus e em Marcos, Jesus passou, então, a indicar tanto a severidade como a brevidade da tribulação: “porque haverá uma tribulação muito grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá. E se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém seria salvo; mas por causa dos escolhidos eles serão abreviados.” (Mt 24.21-22; cf. Mc 13.19-20).4

Contudo, por mais terrível que essa tribulação venha a ser não deve ser identificada com o período da ira de Deus. Depois de descrever a tribulação, o Senhor enumerou os sinais que a segui­ rão. Grandes revoluções cósmicas ocorrerão: “Logo depois da tribulação daqueles dias” (Mt 24.29; cf. Mc 13.24-25; Lc 21.25-26). Buswell entendeu a referência a esses portentos vindo “em seguida à tribulação daqueles dias” no sentido de que as taças da ira de

Deus serão derramadas, não durante “a grande tribulação”, mas em um tempo subsequente a ela. A tribulação não é exclusiva aos últimos tempos. É a sorte normal da igreja em todas as eras. Embora essa tribulação seja tão severa que não possa ser igualada a nada, não será qualitativamente sem paralelo, conforme a caracterização feita por Buswell. Sendo a tribulação, de modo geral, a ira dos homens contra o povo de Deus, é o destino da igreja em todas as eras.1

Apesar disso, a ira de Deus não é para a igreja. Várias refe­ rências indicam que a salvação é livramento da ira de Deus. “seremos por ele salvos da ira” (Rm 5.9). A igreja deve aguardar “do céu seu [de Deus] Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura” (lTs 1.10; cf. Mt 3.7; Lc 3.7). “Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (lTs 5.9). Buswell resumiu, dizendo: “Embora essas referências à salvação da ira não declarem especificamente, por si sós, que o arrebatamento da igreja ocorrerá antes do derramemento das taças da ira, mesmo assim, estão em harmonia com esse ponto de vista”.6

Há, porém, mais provas específicas de que a Igreja será arre­ batada antes de as taças da ira serem derramadas. Certos detalhes chegam até o ponto central desse período de sete anos (a tribulação). A “abominação” chega “no meio dos sete”, ou seja, no meio do período de sete anos. Essa abominação é identificada com o “apare­ cimento”, a parúsia, do iníquo (2Ts 2.9), quando também ele será revelado (2Ts 2.3). Por sua vez, esse fato é idêntico à vinda do poder do chifre pequeno (Dn 7.24-25), que tem a permissão de continuar por 3 anos e meio (Dn 7.25b). Todos esses detalhes entendidos coletivamente ilustram quão bem o ponto de vista

5 Ibid., p. 389. 6 Ibid.

mesotribulacionista se harmoniza com a totalidade das informações da Escritura e as explica.7

Em relação a localizar o arrebatamento dentro das ocorrências mencionadas no livro de Apocalipse, os mesotribulacionistas o colocam no tocar da sétima trombeta (Ap 11.15).8 O tempo da ira para a injustiça e o tempo de galardões para os mortos justos come­ çam simultaneamente. A sétima trombeta anuncia tanto a ira de Deus quanto os galardões para os mortos justos.

As nações se enfureceram ; então veio a tua ira, o tem po de serem ju lgad o s os m ortos

e de dares recom pen sa a teus servos, os profetas, aos santos e aos que tem em o teu nom e, aos p equen os e grandes, e de destruíres os que destroem a terra (Ap 11.18).

Harrison também incluía a vinda de Cristo e o arrebatamento nesse momento. Até o versículo 17, Cristo é normalmente referido no Apocalipse como aquele que é, que era e que há de vir. No versículo 17, porém, o tempo futuro é omitido pela primeira vez: “Graças te damos, Senhor Deus todo-poderoso, que és e que eras...” (v. 17). Harrison comenta: “Procura dizer-nos: Ele veio!”.9 Ele vê outras evidências, também, na nuvem no capítulo 11.12. A nuvem simbolizava a presença do Senhor muitas vezes na história de Israel: quando ele os levou para fora do Egito e pelo deserto, quando falou com Moisés, quando encheu o tabernáculo e, mais tarde, o templo com sua glória. Assim também era a evidência visível da

7 Ibid., p . 390-393, 457.

8 Ibid., p. 396- 398, 450ss.

No documento Escatologia - Millard J. Erickson (1) (páginas 195-200)

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