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NIVERSIDADE DES
ÃOP
AULOPROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO NA ÁREA DE ESTUDOS LITERÁRIOS,LINGUÍSTICOS E TRADUTÓRIOS EM FRANCÊS
Projeto para pesquisa de Mestrado
Título: Mallarmé no espaço de uma arte do tempo: a pintura, a música e as letras em duas
traduções
Autora: Caroline Pessoa Micaelia
Orientador pretendido: Álvaro Silveira Faleiros
RESUMO
Propõe-se neste projeto a tradução de ambos La Musique et les Lettres (1894) e “The Impressionists and Édouard Manet” (1876), produções importantes de Stéphane Mallarmé que não obstante seguem inéditas em língua portuguesa: aquela, um poema crítico de extrema complexidade técnica; esta, em si mesma um texto traduzido em inglês, dado que o original em francês se perdeu, conferindo ao trabalho a ser empreendido, assim, o status de retradução – área de estudos assaz relevante atualmente. Mesmo diferenciando-se de maneira não pouco discreta em estilo, assunto e datas de publicação, tais produções são pontas de lança da estética mallarmeana, pouquíssimo estudada no Brasil, e se encontram naquilo que estabelecem vínculos entre a poesia e uma outra arte, a música ou a pintura, bem como naquilo que propiciam uma interessante reflexão a respeito do que há de musical ou de plástico na escritura – e, em última instância, nas letras – em se tratando da obra do poeta, razão pela qual um estudo analítico desses textos faz-se, nesse sentido, necessário. Considerando, por fim, que as duas configuram exemplares tradutórios de grande interesse e que há, precisamente devido a isso, grande pertinência em discutir os desafios encontrados, os problemas enfrentados e os partidos tomados no processo de traduzi-las, um último intuito da pesquisa a ser realizada é, pois, a elaboração de comentários críticos a respeito das traduções que resultarão desta empreitada.
OBJETIVOS
(Re)traduzir dois textos de Mallarmé ainda inéditos em português, La Musique et les
Lettres (1894) e “The Impressionists and Édouard Manet” (1876);
Desenvolver comentário crítico a respeito de cada um dos casos tradutórios e dos desafios apresentados à tradutora, sem perder de vista a relação que esses textos possuem com a língua inglesa, mas principalmente justificando as escolhas e refletindo sobre os desafios encontrados no percurso do trabalho de (re)tradução; Apresentar estudos analíticos sobre tais textos, tendo por pano de fundo as ligações
que Mallarmé neles constrói entre a poesia e uma outra linguagem, ora a pintura, ora a música, com vistas a uma melhor compreensão dos aspectos plástico ou musical da escritura – e, no limite, das letras – na obra do poeta.
INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA
A critica de arte de Mallarmé constitui uma estética que tende a multiplicar as possibilidades de inserção de uma forma de expressão numa outra até alcançar esse “oco nada” em que som, cor e palavra afirmar-se-iam num silêncio definitivo. Aí reside, para Malarmé, essa “ideal representação”...1
Michel Draguet
É que, a música sendo para todos uma arte, a pintura uma arte, a estatuária uma arte, – e a poesia não sendo mais (com efeito, todo mundo coraria por desconhecê-la, e não sei de ninguém que comece a corar por não ser expert em arte), abandona-se música, pintura e estatuária às pessoas da área, e como abandona-se insiste em parecer
instruído, aprende-se a poesia.2 “Hérésies artistiques. L’art pour tous”, Stéphane Mallarmé
Quanto mais a linguagem é transparente, menos se tem consciência dela e, em consequência, mais se é dela joguete. Pois a linguagem é tudo menos transparente. É uma ilusão, uma ilusão construída, uma isca. Não é simplesmente um instrumento de comunicação. É o que nos permite construir sentido, capacidade de significar que é própria do humano e que permite a criação dos deuses e das almas.3
Bertrand Marchal
Seja no âmbito puramente crítico, seja no puramente poético, seja na mescla dos dois domínios, em toda sua obra Mallarmé demonstrou uma compreensão da escrita que leva às últimas consequências a inseparabilidade entre trabalho intelectual e trabalho textual, dando ênfase, por conseguinte, àquilo que implica a leitura em si mesma: um complexo produzir de significação, intenso e inacreditavelmente veloz, que se realiza tendo por ponto de partida uma unidade mínima, as letras, e por horizonte sua melhor organização, a escritura. Provas dessa clareza são seu trabalho com a sintaxe, seu hábil manuseio de recursos como a alusão e a sugestão, suas ideias e aplicações sobre o espaço da página; dispositivos que não apenas promovem um aprimoramento daquilo que se pode dizer com a linguagem escrita, mas que,
1
“La critique d’art de Mallarmé constitue une esthétique qui tend à multiplier les possibilités d’insertion d’une forme d’expression dans un autre jusqu’à atteindre ce « creux néant » où son, couleur et mot s’affirmeraient dans un silence définitif. Là réside pour Mallarmé cette « idéale représentation »...”. A partir daqui traduzo todas as citações deste projeto, salvo exceções, a serem oportunamente indicadas.
2
“C’est que, la musique étant pour tous un art, la peinture un art, la statuaire un art, – et la poésie n’en étant plus un (en effet chacun rougirait de l’ignorer, et je ne sais personne qui ait à rougir de n’être pas expert en art), on abandonne musique, peinture et statuaire aux gens du métier, et comme l’on tient à sembler instruit, on apprend la poésie.”
3
“Plus le langage est transparent, moins on en a conscience et par conséquent, plus on en est dupe. Car le langage est tout sauf transparent. C’est une illusion, une illusion construite, un leurre. Il n’est pas simplement un instrument de communication. Il est ce qui nous permet de produire du sens, capacité de signifier qui est le propre de l’humain et permet la création des dieux et des âmes.”
além disso, evidenciam o que se pode fazer com ela. É o que se vê de maneira notável, por exemplo, em alguns traços marcantes de seus poemas versificados, como a precisão da escolha vocabular e o calculado exercício do corte, ou mesmo nas inaugurações gráfica e sensível engendradas por seu “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard” (1898). Mas é sobretudo nos entremeios da prosa poético-crítica de Divagations (1897), tendo em vista o que desenvolvi em meus estudos de TGI (Trabalho de Graduação Individual) e Iniciação Científica (Processo FAPESP 2014/23689-7), intitulados O “Crise de vers” mallarmeano e
as traduções brasileiras para a crise, que esse entendimento de Mallarmé a respeito da
escrita parece ficar mais perceptível.
“Crise de vers”, poema-crítico cujas traduções em português comparou-se nas referidas pesquisas, mostra-se, nesse sentido, tanto do ponto de vista da discussão central ali mobilizada quanto no que toca à construção textual por meio da qual é conduzido o debate em questão, como expoente máximo do interesse de Mallarmé pelas crises – em ápice no final do XIX – que vinham atingindo a linguagem (poética, teatral, musical, política, plástica, social etc.). É o que fica nítido ao ser observada de perto a organização fragmentária – colagem de extratos de textos escritos ao longo de dez anos – que caracteriza o estabelecimento desse “ensaio”, fator responsável por fornecer a tal produção um arranjo estrutural que ultrapassa em dificuldade o dos demais escritos da recolha, considerando que estes últimos têm unidade temática mais acentuada. Daí um dos pilares a balizarem o trabalho que se dedicou a “Crise de vers” ter consistido numa análise textual elucidativa das maneiras como o poeta compreendia a linguagem e como reordenava a escrita de modo que esta não fosse somente um suporte para questionar e expor ideias, e sim, ao mesmo tempo, a própria manifestação de algumas das ideias que continha. Em outras palavras, as crises na linguagem comentadas numa construção textual em que a própria linguagem, em sua expressão literária – poética, nesse caso –, encontra-se em crise.
Efetivamente: o cuidado dispensado por Mallarmé ao tratamento da matéria que dá forma a suas ideias é consequência de uma intensa reflexão quanto ao mistério envolvendo a articulação entre aquilo que, num texto, concerne à ordem do legível e aquilo que, neste mesmo texto, tange à ordem do visível, como é possível ler no início de “Le Mystère dans les lettres”, texto de Divagations:
Todo escrito, exteriormente a seu tesouro, deve, por consideração àqueles de quem empresta, afinal, para um objeto outro, a linguagem, apresentar, com as palavras, um sentido mesmo indiferente: se ganha em desviar do ocioso, encantado de que nada ali lhe concirna, à primeira vista.
Saudar, exato, de parte e de outra –
Se, mesmo assim, não inquietasse não sei que espelhamento, por debaixo, pouco separável da superfície concedida à retina – traz a suspeita: os maldosos, entre o público, exigindo acabar de uma vez, opinam, com seriedade, que, claro, o teor é ininteligível.4 (2003a: 281)
O autor destaca aí duas espécies de reação divergentes em se tratando de uma determinada produção textual. A primeira delas é o encanto do leitor quando se depara com um texto cujo semblante exterior, aquilo que se vê quando se toma em mãos qualquer texto escrito, ou seja, um desenho na página em branco; em que esse semblante exterior tem sentido que não difere daquele do semblante interior, o “tesouro” do escrito. A segunda, provinda dos leitores que reclamam abreviação, é a opinião de que, em face de um texto cujo semblante exterior espelha o que há por debaixo da superfície concedida à retina, isto é, cuja exterioridade espelha a significação, o teor deste texto é simplesmente obscuro, ininteligível.
O que acontece, em resumo, é que no primeiro caso o aspecto construtivo está em tamanha sintonia com o conteúdo que o leitor se satisfaz em verificar que está desviando do ocioso, que nada naquela construção é banal, mecânico, internalizado, que há ali um funcionamento em curso, uma significação sendo produzida no momento mesmo em que ele bate os olhos na página; ao passo que no segundo, porque a construção do texto segue uma organização tão pouco familiar, o julgamento imediato de que há ali apenas um ardil hermético de palavras sem maior relevância é na realidade uma recusa diante da dificuldade de acesso apresentada quando o processo de produção do sentido parece não ser automático. Uma ilustração interessante do problema foi proposta por Bertrand Marchal (2016) num pequeno artigo online, “Apprendre à lire avec Mallarmé, le plus obscur des poètes”, no qual o especialista conceitua as ideias de legibilidade e visibilidade. Cita-se:
[...] quando lemos, desenrolamos inevitavelmente uma significação, competência que adquirimos pela instituição escolar. Mas o erro dessa leitura corrente é que quanto mais um texto é legível, menos ele é visível.
O que é a visibilidade de um texto? É a consciência que ele nos dá da escritura, aquela que temos quando, por exemplo, somos confrontados com a leitura de uma língua estrangeira que não dominamos: a escritura, são pequenos desenhos preto no branco e não é óbvio que eles produzam uma significação.
4
“Tout écrit, extérieurment à son trésor, doit, par égard envers ceux dont il emprunte, après tout, pour un objet autre, le langage, présenter, avec les mots, un sens même indifférent : on gagne de détourner l’oisif, charmé que rien ne l’y concerne, à première vue.
Salut, exact, de part et d’autre –
Si, tout de même, n’inquiétait je ne sais quel miroitement, en dessous, peu séparable de la surface concédée à la rétine – il attire le soupçon : les malins, entre le public, réclamant de couper court, opinent, avec sérieux, que, juste, la teneur est inintelligible.”
[...]
Se não se tem consciência desse mistério profundo das letras, fica-se na ideia, evidentemente falsa, de uma transparência da linguagem, que fica-se reclama – se não se compreende, protesta-se.5
Colocado de outra forma, distrai-se de um ponto explícito – por revelar-se, afinal, a primeira coisa a ser enxergada –, indispensável para que a própria leitura tenha lugar: o fato de que esses pequenos desenhos aos quais se chama “letras”, esses 24 desenhos convencionais, “puderam produzir todas as línguas que se fala (no mundo indo-europeu), e com elas, a multidão das representações, dos mitos, das construções intelectuais”6 (MARCHAL, 2016). Ora, Mallarmé escreve com o olhar inteiramente voltado para esse “mistério nas letras”, um mistério primordial para se ter em conta já que elas são, conforme ressalta Marchal, a matéria mesma de que é feita a escritura; trata-se, notadamente, da consciência elementar de que aquilo que num texto se expressa, constrói-se também, e obrigatoriamente, por meio do modo como se dá (a ver) a expressão. Ao caminhar pela trilha de tal mistério, Mallarmé torna então visível a escritura, muito embora a conferência dessa
visibilidade não se dê no nível das letras, mas no da palavra, no da frase, no do verso7, na
medida, por exemplo, em que na obra do poeta é perturbada a ordem sujeito-verbo-objeto, em que é usada ao bel prazer a figura da elipse, em que é alterada a função dos substantivos e das expressões explicativas, para ficarmos apenas com algumas das características que se sobressaem.
Contudo, a poesia e a literatura, como a música, pertencem ao rol de linguagens artísticas que se reúnem no grupo das “artes do tempo”, artes que se desenvolvem no tempo, em contraponto às “artes do espaço”, do visível – visuais, portanto –, grupo que abarca, por exemplo, a pintura e a estatuária, pensando numa outra oposição proposta por Marchal8. É
5
“... lorsque nous lisons, nous déroulons inévitablement une signification, compétence que nous avons acquise par l’institution scolaire. Mais le tort de cette lecture courante est que plus un texte est lisible, moins il est visible.
Qu’est-ce que c’est que la visibilité d’un texte ? C’est la conscience qu’il nous donne de l’écriture, celle que nous avons lorsque par exemple nous sommes confrontés à la lecture d’une langue étrangère que nous ne maîtrisons pas : l’écriture, ce sont des petits dessins noir sur blanc et il ne va pas de soi qu’ils produisent une signification.
[...]
Si l’on n’a pas conscience de ce mystère profond des lettres, on reste sur l’idée, évidemment fausse, d’une transparence du langage, que l’on réclame – si l’on ne comprend pas, on proteste.”
6
“on a pu produire toutes les langues qui se parlent (dans le monde indo-européen), et avec elles, la multitude des représentations, des mythes, des constructions intellectuelles.”
7
Sobre isto, parece interessante reparar, por exemplo, que num texto como “Le Mystère dans les lettres” não há sequer uma menção às “letras”, e sim comentários frequentes sobre “as palavras”, “as frases”, “o verso”, “a sintaxe” etc.
8
Não cito aqui um texto específico no qual o especialista discorre sobre isto, pois tais ideias foram tiradas das anotações de uma disciplina ministrada por Marchal em 2015, na Université Paris-Sorbonne (Paris IV).
dizer, em outros termos, que quando se procura apreender uma obra musical ou literária, deve-se escutá-la ou lê-la, assimilação que se dá de forma sucessiva, linear; que provém, em resumo, da análise, e não da síntese, como acontece, ao contrário, quando o que se almeja é apreender uma obra plástica, cujos aspectos podem ser assimilados de maneira global e imediata, todos de uma só vez, numa única visada. Seguindo essa lógica, o que Mallarmé faz ao tornar visível a escritura de uma obra poética é, precisamente, tensionar sua permanência no conjunto ao qual pertencem as “artes do tempo”, aproximando-a das “artes do espaço” e realocando-a, consequentemente, numa espécie de entre-lugares, posto que não mais se atravessa direto o visível das palavras sem dali se depreender nada do “mistério nas letras”. Em suma: já não é possível fruir a obra literária de maneira unicamente linear e sucessiva, ainda que, ao mesmo tempo, siga não sendo possível dar conta dela inteiramente de maneira global e imediata.
Mas o que significaria deslocar a linguagem escrita para esse intermezzo? De quais novos parâmetros de análise deveríamos dispor, frente a isso, para dar orientação ao olhar crítico em se tratando de poesia, e mesmo de literatura num sentido mais amplo? Quais dos antigos poderiam ser mantidos? Em que seria produtivo pensar o discurso literário a partir de discursos artísticos melhor assentados no grupo das “artes do espaço” e no das “artes do tempo”, como o plástico e o musical, respectivamente, os quais são também ambientes que Mallarmé, ao longo de sua trajetória, fez questão de frequentar? Seria este tensionamento do lugar em que se localiza a literatura talvez também uma tentativa de devolver-lhe certo prestígio em meio às outras artes, conforme sugerido por Mallarmé na segunda epígrafe deste projeto? São perguntas que parecem ganhar em interesse quando pensadas a partir da prosa – crítica e poético-crítica – do autor; produção que, ademais, ilumina-lhes tanto do ponto de vista exterior, para falar com o próprio Mallarmé, como do ponto de vista interior. De fato, entre esses trabalhos, dois influentes, mesmo que algo distintos em gênero, composição e época de produção, colaboram de maneira igualmente enriquecedora para pensar os questionamentos aqui propostos, sobretudo por serem textos nos quais o escritor ora coloca em contato com os problemas da escritura os da música, ora conecta àqueles os da pintura. São eles: La Musique et les Lettres (1894) e “The Impressionists and Édouard Manet” (1876).
O primeiro, propriamente um poema-crítico, mas estabelecido a partir das conferências homônimas que Mallarmé deu nas Universidades de Oxford e de Cambridge nos últimos anos de sua vida, diz respeito a um texto que poderia muito bem – ao menos quanto à
sua forma, ao assunto sobre o qual se debruça e a seu ano de publicação – ter sido inserido no volume das Divagations, mas que permaneceu separado do conjunto. Nele está em pauta, principalmente, a intersecção entre música e poesia, relação que se dá, para o poeta, no plano do verso e, mais do que isso, reconfigurada quando da ruptura sofrida pelo verso tradicional, a qual resultou no verso livre9. Tal laço não se reduziria, segundo Mallarmé, ao ponto de vista rítmico, fônico, simplesmente: é porque a música diz indiscutivelmente o que faz e faz precisamente o que diz, ou, colocado sob outro ângulo, é porque ela não é transparente, como a literatura, à qual é preciso ser provida uma visibilidade, que o poeta por ela se interessa. E isso não significa dizer evidentemente que haja uma plasticidade, uma imagética perfeitamente delineadas na arte musical, mas justo o inverso, ou seja, que a música é a arte abstrata por excelência; particularidade que lhe atribui, imediatamente, aspecto translúcido, talvez até mesmo opaco.
Para esclarecer, seria suficiente pensar que o som, matéria de que é feita a música, não apenas não tem caráter palpável ou visível, como também se dissolve no instante mesmo em que se produz, e que executado unicamente, não é mais do que um som, diferentemente da palavra, tornada ideia e permanência no próprio momento do ler; que a música, para ser tocada, embora encontre apoio na partitura – sua escritura –, independe dela para existir. Pois a literatura sem as letras, sem a organização denominada escritura, simplesmente não existe, ao menos não no mundo ocidental e em parte considerável dos demais grupos – outros mundos, por assim dizer. Em função disso, Mallarmé condensa o argumento na fórmula “a Música e as Letras são a face alternativa aqui alargadas em direção ao obscuro; cintilante lá, com certeza, de um fenômeno, o único, eu o chamava, a Ideia”10 (MALLARMÉ, 2003a: 378), o que, aproximando da discussão até o momento empreendida, remete-nos a certa alocação de cada uma dessas duas artes num dos lados da mesma moeda, pois ambas são “artes do tempo”, bem que disponham de princípios díspares; a música, conservando-se num âmbito que poderia ser pensado como o da pura arte do tempo, e a literatura, por sua vez, vinculando-se também a atributos das “artes do espaço”.
Diante disso, somos diretamente conduzidos a pensar a questão sob sua outra ótica, a espacial, mirando agora o cenário do segundo trabalho de Mallarmé a corroborar com o debate que vem sendo trazido à tona. “The Impressionists and Édouard Manet”, um dos raros
9
Não à toa um dos fragmentos de “Crise de vers” (“Les monuments, la mer, la face humaine...”, MALLARMÉ, 2003 : 255) foi retirado de “La Musique et les Lettres”.
10
“la Musique et les Lettres sont la face alternative ici élargie vers l’obscur ; scintillante là, avec certitude, d’un phénomène, le seul, je l’appelai l’Idée.”
escritos mallarmeanos sobre artes plásticas, o único ensaio de fôlego que o poeta consagra inteiramente à pintura, dá conta mais detidamente da produção impressionista e nos ajuda a refletir sobre o contrapeso visual da aventura do autor com a escrita. Trata-se de um estudo que, mesmo não sendo um texto de crítica de arte tout court11 – afinal, como relembra Marchal (2011: 333), dessa vez em “Mallarmé critique d’art ?”, o poeta nunca foi um
salonnier como foram Gautier, Baudelaire, Huysmans, Zola etc. –, também não poderia nem
de longe ser considerado, de modo geral, como próximo da prosa poética de Divagations, já que se numa mão é possível colocar que nele há uma faísca do que serão os trabalhos do poeta no fim de sua vida, na outra é certo que, grosso modo, o estilo mallarmeano nesse momento é ainda muito incipiente. Apesar disso, parece seguro afirmar que ele põe em prática, “pela primeira vez, o modelo crítico que será aquele de La Musique et les Lettres (1894), de
Divagations (1897) e, marcadamente, de ‘Crise de vers’”12 (MARCHAL, 2011: 336).
Todavia, diferentemente da maneira como é travada a discussão teórica e crítica em
La Musique et les Lettres, o que recobre a faceta externa em “The Impressionists and Édouard
Manet” é na realidade uma camada de estética da recepção13
pintada com o verniz de um panorama a respeito do movimento impressionista, no centro do qual Mallarmé insere Manet, artista a quem se ligou intensamente em mais de uma esfera de sua vida, amigo que o poeta defende em diversas ocasiões por meio de textos como “Le jury de peinture pour 1874 et M. Manet” (1874) ou de pequenas notas como as Gossips destinadas à revista inglesa The
Athenaeum (1875-1876). No estudo que nos ocupa, Mallarmé trata da pintura impressionista
sob quatro eixos de análise, 1) o ar livre; 2) a perspectiva; 3) a simplificação; 4) o “descondicionamento do olhar”14
(MARCHAL, 2011: 338), dentre os quais o último nos
11
“Resulta disso que o ato crítico não é primeiramente a expressão de uma opinião (sobre um evento literário ou artístico), mas a percepção de uma crise, e que ele deriva por isso de uma epistemologia da profundidade, aplicada a decifrar desta crise os signos ou os sintomas. O ‘crítico verdadeiro e consciente’ é aquele que vai ao fundo das coisas. Compreende-se então que Mallarmé não tenha sido um salonnier: a crítica, no sentido mallarmeano do termo, deriva de uma lógica toda outra que não a da crônica regular, dedicada à matéria bruta do evento ou ao mui bem nomeado fait divers: a crítica, em outros termos, não saberia ser de natureza jornalística, a menos que o próprio jornalismo se fizesse crítica...”, que traduzi de “Il en résulte que l’acte critique n’est pas d’abord l’expression d’une opinion (sur un événement littéraire ou artistique), mais la perception d’une crise, et qu’il relève par là d’une épistémologie de la profondeur, appliquée à déchiffrer de cette crise les signes ou les symptômes. Le « critique véritable et réfléchi » est celui qui va au fond des choses. On comprend dès lors que Mallarmé n’ait pas été un salonnier : la critique, au sens mallarméen du terme, relève d’une tout autre logique que la chronique régulière, vouée au tout-venant de l’événement ou du trop bien nommé fait divers ; la critique, en d’autres termes, ne saurait être de nature journalistique, à moins que le journalisme lui-même ne se fasse critique...” (MARCHAL, 2011: 336).
12
“pour la première fois le modèle critique qui sera celui de La Musique et les Lettres (1894), des Divagations (1897) et notamment de « Crise de vers » ”.
13
O texto foi escrito para ser publicado na Inglaterra, tendo saído na revista The Art Montly Review.
14
reenvia instantaneamente à problemática ligada à visibilidade da escritura. De acordo com Mallarmé, o que os impressionistas fazem em pintura tem correspondência, realmente, com o que foi feito ao verso pelos poetas franceses na segunda metade do XIX; é o correlato da “crise” na arte plástica, é também o que torna a legibilidade um ponto de tensão para a pintura que subsegue a produção impressionista, pois que a quebra da perspectiva, o trabalho com a luz do dia, o primitivismo que virá, exigem que o observador reaprenda a ver. Estrada de mão dupla esta que dividem literatura e pintura no “pós-crise”15, conquanto ambas continuem a responder pelo grupo das “artes do tempo” e pelo das “artes do espaço”, respectivamente: lá, a evidenciação do visível redireciona o rumo no sentido de uma nova forma de ler; aqui, a reconfiguração do legível demanda direcionamento que aponte para um novo modo de ver.
Guardadas as diferenças que apresentam entre si, três elementos comuns a esses dois textos saltam aos olhos e justificam a qualidade “objeto de pesquisa” que será deles no trabalho a ter como ponto de partida este projeto: o primeiro é que ambos associam à poesia uma outra arte, discutindo, precisamente, os aspectos plástico ou musical da escritura e, em última análise, os das letras, conforme brevemente exposto até este ponto; o segundo, é que ambos têm como palco não a França, mas a Inglaterra. E há curiosidade em pensar, a propósito disto, que o fato de terem sido, as duas produções, trabalhos destinados a um público inglês, não parece, por um lado, ser justificativa suficiente para que Mallarmé se ativesse à tradução gentilmente oferecida por seu amigo York Powel para as conferências La
Musique et les Lettres, futuro poema-crítico, que terminaram por ser dadas em francês;
enquanto que tampouco parece, por outro lado, eliminar o fato de que “The Impressionists and Édouard Manet”, tradução em inglês realizada por George T. Robinson de um texto originariamente escrito pelo poeta em francês, seja considerado hoje o original, posto que sua versão francesa se perdeu. Ainda sobre este último texto, é valioso constatar que ele adiciona ao projeto um caractere de interesse no que impõe impreterivelmente um pensamento sobre a retradução, assunto de enorme relevância para os Estudos da Tradução nos últimos tempos; indicativo explícito do valor do objeto, mesmo o viés exclusivamente associado à teoria da tradução não sendo o principal percurso a ser seguido neste trabalho.
Para todos os efeitos, os momentos de vínculo com a língua inglesa acima elencados são apenas dois entre os eventos sui generis a respeito das conjunturas de produção e publicação dos textos aqui em jogo; outros tantos aparecem de quando em quando na
15
Refiro-me aqui não a um momento posterior ao “fim” da crise, mas tão somente ao período que, para os fins desta introdução, sucede o ápice dessa crise – um período pós-dezenovista, nesse sentido. Vale lembrar que para críticos como Marcos Siscar (2010), por exemplo, a própria modernidade seria um lugar de crise e o discurso moderno, portanto, um discurso em crise permanente.
correspondência mallarmeana dos anos 1870 e na dos 1890, e merecem, também, alguma atenção, especialmente por serem detalhes que auxiliam a compreender melhor a própria constituição desses escritos. Para muito além de tais peculiaridades, contudo, uma coisa é certa: La Musique et les Lettres, ao lado de “Crise de vers”, é o texto mais importante da prosa poético-crítica de Mallarmé, fato que se comprova mediante qualquer displicente passada de olho por praticamente todos os trabalhos que se dedicaram a pensar a obra do poeta, visto que há menções, paráfrases e ligeiros comentários sobre este texto em toda parte; e “The Impressionists and Édouard Manet”, no que lhe concerne, é descrito por Marchal e por Henri Mondor como “um estudo capital”16 (MALLARMÉ, 2003b: 1703), “o estudo mais importante que Mallarmé consagrou à pintura”17
(MALLARMÉ, 1945: 1623). Não obstante – trago aqui o terceiro elemento – ambos seguem, até agora, inéditos em língua portuguesa.
Traduzir La Musique et les Lettres e “The Impressionists and Édouard Manet”, como partes de um mesmo projeto, faz-se, logo, necessário. A um só tempo para que os falantes do português tenham acesso a essa parte importante da obra de Mallarmé e para que seja mais cuidadosamente analisado o deslocamento que tal obra impele à literatura, fazendo com que esta passe a ocupar um lugar situado entre o grupo das “artes do tempo” e o das “artes do espaço”. Refletir sobre a estética mallarmeana, ainda pouquíssimo estudada no Brasil, a partir de dois textos igualmente pouco estudados; sobre as relações do próprio poeta com a Inglaterra, e mais pontualmente, com a língua inglesa, que ele dominava e que teve presença de destaque em sua vida; sobre traduzir uma escrita “intraduzível” – porque visível –, como a mallarmeana, considerando sempre a tradução como um gesto privilegiado de leitura, de crítica e, em alguma medida, de criação. Num espectro mais vasto, compreender melhor a poética de Mallarmé, este autor tido sempre, onde quer que se tenha falado nele, como de dificuldade extrema; compreender melhor, para dizer tudo, a necessidade de pensar o lugar da escritura na literatura, tendo sempre em mente a importância de a linguagem escrita ter
visibilidade, porque quanto mais ela é transparente, mais se é dela um simples joguete. Tudo
isso exercendo propriamente o traduzir. Em poucas palavras, por fim: discutir a questão do
visível na escritura, atravessando-o por meio da tradução desses dois textos – que é a melhor
forma de ler –, e trazê-los, como fim deste processo, para o português: tal é o valor do trabalho a ser colocado em prática.
16
“une étude capitale”.
17
Expostas estas razões, é mister voltar o olhar, na sequência, para o corpus crítico e teórico que terá papel de alicerce nesta pesquisa, bem como para os métodos de erguê-la do chão.
METODOLOGIA E SÍNTESE DA BIBLIOGRAFIA FUNDAMENTAL
Intencionando alcançar os três objetivos indicados no início deste projeto – realização das traduções, comentários críticos sobre as traduções efetuadas e estudos analíticos dos objetos a serem traduzidos –, pretende-se enveredar o trabalho por duas vias metodológicas diferentes, uma mais ligada a leituras e análises, a outra mais associada a tradução e escrita, muito embora grande parte dos materiais aos quais se recorrerá virão a ser úteis para tanto para esta como para aquela. É o caso, por exemplo, da bibliografia teórica especializada em tradução, que servirá tanto como orientação no processo tradutório – objetivo número um – quanto como arcabouço de ferramentas conceituais para, na elaboração dos comentários críticos associados a cada tradução – objetivo número dois –, justificar escolhas e refletir a respeito de problemas textuais. Entre as obras de referência, constarão, principalmente, as de Henri Meschonnic (destaque para Poétique du traduire, 2012, e “Traduire : écrire ou désécrire”, 2010) e de Paulo Henriques Britto (com maior frequência A
tradução literária, 2012)18. “The Impressionists and Édouard Manet”, em separado,
demandará, além disso, bibliografia teórica sobre retradução, em que se pese o fato de ser ele resultado de um evento particular, em concordância com o que foi citado anteriormente; dessa forma, serão absolutamente imprescindíveis os estudos de Berman (“La retraduction comme espace de la traduction”, 2004), de Gambier (“La retraduction: ambiguités et défis”, 2012) como ponto de inflexão relativo à teoria daquele e de Thiago Mattos & Álvaro Faleiros (“A noção de retradução nos estudos da tradução: um percurso teórico”, 2014) como norteador para a locomoção dentro desse campo de estudos em específico.
Ainda para o artigo sobre os impressionistas, de maneira exclusiva, a mui útil sistematização feita por Isabella Checcaglini, em “Mallarmé en anglais : ‘The Impressionists and Édouard Manet’” (2004), oferece o quadro da bibliografia de ordem prática a ser
18
Há, sem dúvidas, certa distância entre os dois autores aqui elegidos, especialmente pensando naquilo que cada um entende por “ritmo”, coração da teoria meschonnicana. Considerado isto, a opção por concepções de alguma maneira divergentes para dar conta das traduções a serem futuramente concretizadas fundamenta-se na medida em que enquanto Britto responde a um âmbito mais prático da atividade tradutória, Meschonnic se ocupa de um mais teórico.
manejada precisamente em meio à atividade tradutória. Na esteira da documentação empreendida por Checcaglini, terão obrigatoriedade de consulta as duas versões do texto de Mallarmé em inglês (a publicada por Carl Paul Barbier em 1968, que é idêntica à da revista
The Art Monthly Review, saída em 1876; e a editada por Marchal nas Oeuvres Complètes de
2003(b) com base nas correções em inglês deixadas por Mallarmé). As seis retraduções francesas existentes (Marylin Batheleme, 1959; Philippe Verdier, 1975; Barbara Keseljevic, 1976; Mitsou Ronat, 1976; Marchal, 2003; Checcaglini, 2006), no que lhes compete, serão de consulta eventual. O trabalho prático exigido por La Musique et les Lettres, em outro sentido, terá por material de consulta esporádica as traduções existentes – até o momento – da prosa poético-crítica de Mallarmé no Brasil (salvo por uma versão portuguesa), incluindo os textos críticos que as acompanham, quando for o caso. Marcadamente: os poemas em prosa que compõem Divagations, o que se justifica por serem contemporâneos ao objeto em questão e por terem, como previamente apontado, rigorosamente o mesmo estilo deste.
Entre as traduções do livro de “ensaios” mallarmeano, serão privilegiadas como fonte de pesquisa ocasional as cinco (re)traduções de “Crise de Vers” (Ana Alencar, 2008; Fernando Scheibe, 2010; Gilles Abes, 2010; Pedro Eiras & Rosa Maria Martelo, 2011; Álvaro Faleiros & Luís Carreira, 2007), o que se explica pois 1) foram objeto de análise e reflexão intensas ao longo da pesquisa anterior desta proponente, de modo que já existe, de antemão, algum acúmulo sobre os problemas textuais ali presentes e 2) há nessa divagation específica um parágrafo inteiro extraído de La Musique et les Lettres, o qual, na tradução a ser produzida, será fruto de um trabalho de retradução. Pretende-se, ademais, utilizar para eventual consulta dois volumes completos: a única tradução de que dispomos do Divagações em sua integridade, assinada por Scheibe, e a tradução de toda a seção de Divagations sobre crítica teatral, que leva o título de Rabiscado no teatro, por Tomaz Tadeu, publicações de 2010. Quanto às referências das demais traduções, listo-as brevemente: todos os textos da seção “Anedoctes et poèmes” (à exceção de “Conflit”), traduzidos por Dorothée de Bruchard (1995), sendo “Le phénomène futur”, “Plainte d’automne”, “Frisson d’hiver” e “Le démon de l’analogie” igualmente traduzidos por José Lino Grünewald (1990) e o último deles também por Inês Oseki-Depré (1980), ao passo que o segundo também por Fulvia M. L. Moretto (1989); e ainda “Le Livre, instrument spirituel” e “Le Mystère dans les lettres”, em tradução de Amálio Pinheiro (1991).
As transposições dos dois textos terão início já no começo da pesquisa, logo após cuidadosas releituras dos mesmos, fichadas e anotadas, logo no primeiro mês. A ideia aqui é que seja possível a produção de uma primeira versão de cada um (entregue quando do
relatório parcial e do trabalho de qualificação), a ser em seguida revisada uma ou duas vezes, dependendo da necessidade e do ritmo de trabalho, com vistas a versões definitivas ao fim dos dois anos de mestrado. Para oxigenar esse trabalho prático, mas também para fundamentar os estudos analíticos que darão conta dos textos de Mallarmé e para apoiar os recursos teóricos na produção dos comentários críticos sobre as traduções, a leitura de alguma bibliografia crítica inteira ou parcialmente dedicada a cada um dos objetos em voga será primordial. Quanto a tal bibliografia, de um lado os escritos de Larissa Drigo Agostinho, “De la page blanche à la musique: Mallarmé et l’écriture du silence” (2009) e de Lloyd James Austin, “Mallarmé and Music and Letters” (1959), proporcionarão reflexões interessantes sobre La
Musique et les Lettres, e de outro, os trabalhos de Marchal, “Mallarmé critique d’art ?”
(2011), de Jean-Nicolas Illouz, “Les Impressionistes et Stéphane Mallarmé” (2016) e o previamente referido artigo de Checcaglini colaborarão para um melhor entendimento dos meandros que compõem “The Impressionists and Édouard Manet”. É da plataforma constituída por esses recursos críticos e da releitura atenta e detalhada dos dois objetos deste projeto que decolarão os estudos analíticos sobre cada um dos textos mallarmeanos – objetivo número três – no rastro de uma compreensão mais apurada daquilo que há de plástico e de musical na escritura e, portanto, nas letras, em se tratando da poética do autor.
Para dar estabilidade e altitude ao voo desses estudos, corpo e envergadura à argumentação, parte significativa da obra de Mallarmé em si, sem mencionar sua importantíssima correspondência, acompanhada de fontes sobre a relação entre o poeta e as outras artes, resultará indispensável. Dele serão mandatórias a crítica de arte e a prosa poética, nomeadamente, Écris sur l’art (1998), organizado por Michel Draguet, Stéphane Mallarmé :
Édouard Manet (2006), organizado por Checcaglini, e Igitur ; Divagations ; Un coup de dés
(2003a), organizado por Marchal; e, de consulta constante – mesmo se mais espaçada, por contemplar uma gama de textos mais abrangente –, as Oeuvres Complètes de 1945 (organizada por Mondor e G. Jean-Aubry), de 1998 e de 2003(b) (organizadas por Marchal), assim como a pequena antologia Correspondance. Lettres sur la poésie (1995), também organizada por Marchal, e os 12 volumes da Correspondance (1959-1985), organizados por Mondor e Austin. Entre as obras que discorrem sobre as conexões entre Mallarmé e as outras artes, destacam-se, fundamentalmente: “Apprendre a lire avec Mallarmé, le plus obscur des poètes” (2016), de Marchal; Crises. Mallarmé via Manet (De «The Impressionists and
Édouard Manet» à «Crise de vers») (1998), de Pascal Durand; “L’Après-midi d’un faune et
l’interprétation des arts: Mallarmé, Manet, Debussy, Gauguin, Nijinski” (2012), de Illouz;
Dialogue par le livre (2001), de Yves Peyré; La crise chez Mallarmé et Debussy (2007), de
Alexandre Bleau; Mallarmé et la musique (1959), de S. Bernard; “Mallarmé and the Painters of His Age” (1966), de Wallace Fowlie; “Mallarmé et la peinture” (1948), de D. H. Kahnweiler; “Mallarmé and Visual Arts” (1972) e “Mallarmé critique d’art” (1974), de Austin; “Mallarmé et la Musique du Silence”, de A. Patri; e Pictorialist Poetics. Poetry and
the Visual Arts in XIXth Century France (1988), de D. Scott.
Finalmente, convém sublinhar que, em vista das bases teóricas que justificam este projeto, como também do aprofundamento reflexivo no tocante aos objetos a serem aqui traduzidos e estudados, ambos possibilitados pelas obras assinadas ou organizadas por Marchal (1995; 1998; 2003b; 2011; 2016), prevê-se, outrossim, em meados dos dois anos de mestrado, a realização de um estágio de pesquisa na Université Paris-Sorbonne (Paris IV), onde Marchal é professor titular, com o intuito de engrandecer e aprimorar o trabalho firmado no Brasil. A ocasião viabilizará, em adição a isso, o diálogo com outra referência para esta investigação: Illouz (2012; 2016), também professor parisiense, titular na Université Paris VIII. Até o período internacional, esses dois nomes terão, já, guiado a pesquisa empreendida no país, razão pela qual a oportunidade de uma interlocução mais direta, através do acompanhamento de debates, disciplinas, seminários e outros eventos dos quais façam parte os pesquisadores, mostra-se determinante para que o trabalho ora proposto seja bem-sucedido. Cabe colocar, para concluir, que há ainda em Paris o Museu Mallarmé, onde poderão ser consultadas a correspondência de Manet para Mallarmé (inédita) e a maior parte da biblioteca inglesa do poeta, material de relevância inquestionável para a jornada que tem nestes escritos seu pontapé inicial.
PLANO DE TRABALHO E CRONOGRAMA
O planejamento desta pesquisa conta com uma arquitetura desenhada em três frentes principais: a primeira abarca esboços dos trabalhos tradutórios (versão inicial dos objetos em português) e dos estudos analíticos de cada objeto, produção que demandará intensa leitura da crítica especializada, dos textos destinados a pensar as relações de Mallarmé com as outras artes e dos demais textos do poeta; a segunda segue com essas últimas leituras e engloba também as da bibliografia teórica, para a elaboração das versões finais dos objetos em português; a terceira compreende um acabamento na escrita dos estudos analíticos, a redação
completa dos comentários críticos a respeito das traduções e a organização, a revisão e a finalização da dissertação.
Vale pontuar, finalmente, que a estratégia traçada não elimina a seguramente imperiosa leitura de novos materiais que forem surgindo ao longo do cumprimento deste plano de trabalho resumido. Isto posto, a execução das atividades nas datas projetadas consta no cronograma abaixo estruturado:
2017
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Cumprimento de créditos Leituras da obra de Mallarmé Leituras sobre a relação entre Mallarmé e as outras artes Releitura dos objetos, acompanhada de fichamento e anotações Versão inicial das
traduções Leituras críticas sobre os objetos Estudo analítico dos objetos Início de redação da parte analítica da dissertação Preparação de texto para Exame
de Qualificação
2018
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Leituras da obra
Preparação de texto para Exame
de Qualificação Exame de Qualificação Relatório parcial FAPESP Estágio de pesquisa no exterior Leituras teóricas sobre tradução e retradução Versão final das
traduções Relatório Final FAPESP referente ao estágio Fim de redação da parte analítica da dissertação 2019
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Redação dos comentários críticos sobre as traduções Revisão e reestruturação da dissertação Versão final da dissertação Defesa da dissertação Relatório final FAPESP BIBLIOGRAFIA Obra de Mallarmé:
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______. Correspondance III: 1886-1889. Paris : Gallimard, 1969.
______. Correspondance IV: 1890-1891: Textes et notes. Paris : Gallimard, 1973.
______. Correspondance IV: 1890-1891: Supléments aux tomes I, II et III; Tables. Paris : Gallimard, 1973.
______. Correspondance V: 1892 et suplément aux tomes I, II, III, e IV (1862-1891). Paris : Gallimard, 1981.
______. Correspondance VI: Janvier 1893 - Juillet 1894. Paris : Gallimard, 1981. ______. Correspondance VII: Juillet 1894 - Décembre 1895. Paris : Gallimard, 1982. ______. Correspondance VIII: 1896. Paris : Gallimard, 1983.
______. Correspondance IX: Janvier - Novembre 1897. Paris : Gallimard, 1983.
______. Correspondance X: Novembre 1897 - Septembre 1898. Paris : Gallimard, 1984. ______. Correspondance XI: Supplément, errata et addenda aux tome I à X (1862-1898)
et Index Général. Paris : Gallimard, 1985.
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HUYSMANS, J. –K. À rebours. Paris : Folio Classique/Gallimard, 1977.
______. Certains : G. Moreau – Degas – Chéret – Whistler – Rops – Le Monstre – Le Fer,
etc. Paris : Librarie Plon, 1908.