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Ampelotherapia : (um ensaio sobre a uva)

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Academic year: 2021

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HERAPIA

(UM ENSAIO SOBRE A UVA)

APRESENTADA A

ESCOLA MEBïCO­Cim&ICA SO POSÏD

E DEFENDIDA

S O B A P R E S I D Ê N C I A

DO EXC.mo SNR.

ANTONIO JOAûïflM BE MORAES CALDAS

PELO ALUMNO

EDUARDO AUGUSTO DE MAGALHÃES COSTA FREIRE

■ ­^WA^J"3)(]245^W—

P O R T O

IMPRENSA POPULAR DE A, G. VIEIRA PAIVA 67 — Rua do Bomjardim — 67

1 8 8 1

(2)

DIRECTOR

O ILL."10 B EXC.m0 SNB.

CONSELHEIRO MANOEL MARIA DA COSTA LEITE

■ SECRETARIO O I U .m o B BXC.m0 SNB.

RICARDO D'ALMEIDA JORGE

CORPO CATHEDRATICO

LENTES CATHEDRATICOS

OS ILL.™0" E BXC.m M SNRS.

1.» Cadeira — Anatomia descriptiva e geral João Pereira Dias Lebre. 2,a Cadeira — Physiologia Antonio d'Azevedo Maia. 3,a Cadeira — Historia natural dos medica­

mentos. Materia Medica Dr. José Carlos Lopes. 4.1 Cadeira —Pathologia externa e tera­

pêutica externa Antonio Joaquim de Moraes Caldas. 5." Cadeira — Medicina operatória Pedro Augusto Dias.

6." Cadeira — Partos, moléstias das mulhe­

res de parto e dos recemnascidos.... Dr. Agostinho Antonio do Souto. 7.* Cadeira — Pathologia interna e thera­

peutics iûterna Antonio d'OHveira Monteiro. 8." Cadeira — Clinica medica Manoel Rodrigues da Silva Pioto. 9.a Cadeira — Clinica cirúrgica Eduardo Pereira Pimenta. 10.° Cadeira — Anatomia pathologica Manoel de Jesus Antunes Lemos. il." Cadeira — Medicina legal, hygiene pri­

varia e publica e toxicologia geral Dr. José F. Ayres de Gouvêa Osório. 12.1 Cadeira—Pathologia geral, semeiologia

e historia medica Illidio Ayres Pereira do Valle. Pharmacia Isidoro da Fonseca Moura.

LENTES JUBILADOS

c„»„»„ ™»j!»„ )D r­ J °s é Pereira Reis. Secção medica. j J o s é d'A n d r a d e Gramaxo.

!

Antonio Bernardino d'Almeida. Luiz Pereira da Fonseca.

Conselheiro Manoel M. da Costa Leite.

L E N T E S SUBSTITUTOS

C « . . Í „ ™o^;»» ) Vicente Urbino de Freitas. Secção medica j Miguel Arthur da Costa Santos. c«..»„ „;­.,.„.­„­ ) Augusto Heuriqne d'Almeida Brandão. Secção cirúrgica j m c a r d o d>Aim|i d a J o r g e.

LENTE DEMONSTRADOR

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(5)

Á MEMORIA

DO MEU DESDITOSO IEMÃO

ALFREDO AUGUSTO DE MAGALHÃES COSIA FREIRE

(6)

A MEUS PARENTES

ESPECIALMENTE

AOS ILL.m 0 B E EXC.m o s SNES.

&•

(7)

O ILL.m o E EXC.mo SNE.

RICARDO PINTO DA GOSTA

E k SUA

EXCELLENTISSIMA FAMÍLIA

\jiaxcu)eco lufamawiewbe ou ítótutcccxo

(8)

AOS ILL.mos E EXC.mos SNRS.

Á. <Smûafmftû Svmotuo dó (S/ouá)

(gduaâdo J^keâa ^/miefda

/joamcèn (Jmá? aómewdo

<Jticaído aówúmeíem $rtae

(9)

AD MEtT PRESIDENTE

O ILL.mo E EXC.mo SNR.

(10)

INTRODUCCÃO

Four beaucoup de lecteurs nous donnons ici quelque chose de bien nouveau, et pourtant c'est

quelque chose de bien ancien.

(MONOGRAPHIE — AUG. SCHDI-ZB).

O importante papel que os alimentos representam nos processos Íntimos da nutrição, como elementos indispensá-veis do movimento constante de assimilação e desassimila-ção orgânica, justifica plenamente o emprego d'uma alimen-tação racionalmente escolhida, e convenientemente dirigida com um fim exclusivamente therapeutico.

Mergulhados no seio dos fluidos nutritivos, os elementos histológicos dos nossos tecidos recebem dos alimentos, por intermédio d'esses líquidos, as partículas assimiláveis des-tinadas a manter a integridade dos processos bio-chimicos, base fundamental do dynamismo orgânico.

Cada elemento anatómico, muscular, nervoso, conjun-ctivo, glandular, dotado de propriedades especiaes, deve en-contrar no plasma sanguíneo que o rodêa os elementos da sua renovação constante ; e é por isso que a condição pri-mordial do equilíbrio orgânico consiste justamente na inte-gridade quantitativa e qualitativa da crase sanguínea, em harmonia com as funeções complexas da economia inteira. Por outro lado, é incontestável que os elementos cons-tituintes do sangue são fornecidos pela elaboração propria

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quência necessária que—qualquer modificação importante e um pouco duradoura, que se dè no regimen alimentar, ha de forçosa e fatalmente reflectir-se directamente no fluido vital, e indirectamente, por intermédio d'esté liquido, no resultado final da assimilação —.

Se por uma circumstancia qualquer desapparecerem da alimentação certas substancias especialmente affectas á nu-trição d'um certo órgão ou systema, não tardaremos a ver a funcção assimiladora d'esté órgão revelar-se manifesta-mente por uma depressão sensível do seu funccionalismo, e o desequilíbrio evidente que d'aqui resulta, variável com a importância do órgão lesado, e dependente das relações intimas que ligam entre si os différentes órgãos, arrastará comsigo as mais graves consequências, se o desvio alimen-tar não fôr de prompto sanado.

A poderosíssima influencia que o regimen alimentar pôde ter sobre a economia, imprimindo importantes modi-ficações na constituição, conformação e caracteres physi-cos do individuo, provam-na de sobejo as extraordinárias

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transformações que experimentam os animaes domésticos, submettidos intensivamente pelos creadores a uma alimen-tação convenientemente escolhida em harmonia com o fim que se propõem obter.

É assim, diz Herpin l, que do mesmo potro pôde o

creador intelligente fazer um cavallo de corridas, delga-do, esguio, leve como o vento, ou um cavallo de membros volumosos, largas ancas, etc., próprio para tiro. O trata-dor de gado tem na sua mão crear a manteiga, a gor-dura, augmentar o peso das partes mais estimadas da carne; triplicar, quintuplicar o figado de certos animaes, etc., etc. Mas ha mais. Não è somente sobre a organisação phy-sica do homem que os alimentos exercem a sua activa in-fluencia ; é também sobre o seu caracter e sobre os seus costumes. «Dize-me o que comes, refere Brillant-Savardin, dir-te-hei o que és ».

Moleschott, referindo-se ás importantes modificações que a domesticidade imprime nos animaes mais indóceis,

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os povos tornarem-se guerreiros ou pacíficos, vigorosos ou innervados, corajosos ou covardes, intelligentes ou estúpi-dos, segundo os alimentos de que se nutrem?»

Demonstrada assim a largos traços a importância da alimentação, deduz-se como consequência inevitável a sua importância therapeutica.

É hoje um ponto averiguado que a immensa maioria dos estados mórbidos, principalmente d'aquelles que affe-ctam uma marcha chronica, são o resultado immediato de desvios ou alterações nutritivas mais ou menos apreciáveis e duradouras. O desideratum da medicina n'estes casos é. como não pôde deixar de ser, a orientação dos processos bio-chimicos n'uma direcção compatível com o estado hy-gido ; ora, se n'estas circumstancias, e por uma alimenta-ção racionalmente dirigida, modificarmos a crase do san-gue, fornecendo-lhe princípios que melhor importam á nu-trição do órgão lesado, e eliminarmos pelo contrario aquel-les que possam manter ou provocar o vicio nutritivo, não conseguiremos mais por este meio, cuja influencia se renova

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a cada instante, do que pelo uso exclusivo dos medicamen-tos cuja acção, como muito bem faz notar Mialhe, é por assim dizer momentânea?

Se attendermos, diz Herpin, á immensa variedade de substancias que o reino animal e vegetal podem fornecer á alimentação do homem, todas ellas dotadas de princípios diversíssimos, mais ou menos aptas para modificar os actos nutritivos, facilmente se comprehende como o regimen ali-mentar deve ser um poderoso modificador do organismo, e como por meio d'elle o homem pode luctar com maior efflcacia contra as doenças chronicas e inveteradas.

Foi dominado por estas idéas, confirmadas diariamente na pratica, que escolhi para ponto da minha dissertação o estudo das applicações therapeuticas da uva. Muito em voga na Suissa, Allemanha, Italia e alguns pontos da França, e quasi desconhecida entre nós, a ampelotherapia constitue sem duvida uma das mais belko applicações da

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therapeu-cias entre os práticos que se tem occupado d'esta impor-tante questão; e ao passo que uns consideram este regi-men essencialregi-mente vegetal como laxante derivativo e de-bilitante, outros pelo contrario attribuem-lhe propriedades tónicas, reconstituintes e até mesmo excitantes. Estas di-vergências, porém, são apenas apparentes, e revelam bem claro o atrazo em que se encontra ainda o estudo d'esté meio therapeutico, aliás tão poderoso.

Se nos lembrarmos de que a composição chimica da uva é complexa e essencialmente variável com um sem nu-mero de circumstancias taes como—a variedade da cepa, a composição do terreno em que se desenvolve, o clima, o modo de cultura, o período de maturação, etc., etc.—, deve-remos admirar-nos de que o seu emprego metbodico possa produzir n'uns casos effeitos purgativos, e n'outros diuréti-cos, adstringentes ou estimulantes?

Mas não é tudo. Além do medicamento com as proprie-dades que lhe são privativas, temos o organismo com o infinito numero das suas modalidades physiologicas e

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pa-tliologicas, imprimindo uma feição especial nos resultados d'uma qualquer medicação.

Finalmente, no caso particular a que nos estamos refe-rindo, um outro elemento deve ser tido na devida conside-ração : a medicação pelas uvas não pôde fazer-se nos gran-des centros com tanto proveito quanto era para gran-desejar ; é em geral nas regiões vinhateiras, no ar puro do campo, que o doente procura recuperar a saúde, subtrahindo-se momentaneamente ás fadigas e impressões moraes, que en-contra a cada passo nos variadissimos encargos da sua profissão.

A tudo isto seria mister atlender; e no entanto as duas bases verdadeiramente scientificas sobre que deveria as-sentar a ampelotherapia — o estudo chimico das uvas, e a observação clinica dos seus effeitos, completamente desli-gada da dos adjuvantes hygienicos e dietéticos — estão por ora incompletamente estudadas, ainda mesmo n'aquelles paizes, em que, como na Allemanba e Suissa, se acha em

extremo vulgarisada a applicação therapeutica da uva. Taes são as dificuldades principaes com que temos de

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para lamentar* é que nos vejamos forçados a fazer obra quasi exclusivamente pelos estudos feitos nos paizes estran-geiros, porque no nosso, na região vinhateira por excellen-ce, faltam de todo as analyses das principaes castas de uvas ; e por outro lado não nos consta que o emprego sys-tematico d'esté meio therapeutico tenha sido feito em lo-calidade alguma, de maneira a poderem auferir-se dados, que nos auctorisem a conclusões seguras.

Somos tão rotineiros, que hesitamos em querer reco-nhecer a superioridade inexcedivel sob todos os pontos de vista, que alcançamos sobre os paizes estrangeiros, no to-cante á medicação de que nos propomos tratar. Muitas vezes vamos procurar n'aquellas longiquas regiões a saú-de pelo tratamento da uva, quando perto saú-de nossas casas a encontraríamos, sem tamanhas fadigas, contrariedades, despezas e perda de tempo.

Verdade é que em parte alguma do nosso Portugal ja-mais se pensou ao menos em organisar as tão afamadas estações de estio, que lá fora encontramos a cada passo.

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Os estrangeiros são mais hábeis : a sua tela, sendo medio-cre, é ornada d'um bom quadro ; a nossa que é de subido valor, nem sequer d'ella pensamos tirar proveito.

Se os portuguezes, dizia já Linneu referindo-se ás con-dições exigidas n'um solo para a boa vegetação d'uma vi-nha, reconhecessem bem todos os recursos nativos, consti-tuiriam a nação mais feliz do mundo, tendo todas as outras por suas tributarias.

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CAPITULO I

UVAS —SUA COMPOSIÇÃO E VARIEDADES

A uva, fructo da vitis vinifera, originaria da Asia e ac-climatada na Europa ha perto de dois mil annos, apresenta uma grande analogia de composição e propriedades com as aguas mineraes e o soro do leite. Duas partes solidas —a pellicula e a grainha—, e uma parte liquida — o sueco, sem duvida a mais importante —, entram na formação dos bagos.

Vejamos muito em resumo a composição chimica de cada uma d'essas partes, abstrahindo por ora das qualidades da cepa que lhe deu origem.

Pellicula. — Encontra-se na pellicula : a materia corante

dos bagos (œnocyanina), alguns óleos essenciaes odoríferos, cera e uma quantidade variável de tannino, cuja presença se revela promptamente pela ebullição em agua addicionada d'uma pequena porção de gelatina, ou d'um sal de ferro.

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Grainhas. — As analyses das grainhas previamente

in-cineradas, feitas por Berthier, com o fim de descobrir os elementos mineralisadores, accusaram a existência dos se-guintes saes : sulfato e chlorureto de potássio, carbonatos alcalinos, os de magnesia e cal, e phosphato de cal ; este ul-timo composto, existe na notável proporção de SO %. Além d'estes princípios inorgânicos, encontram-se também como princípios orgânicos, uma quantidade notável de tannino, e um óleo gordo, empregado em Breschia e outras localida-des, como agente d'illuminaçâo, e que em vinicultura repre-senta um importante papel, formando os ácidos gordos con-tidos nos ethers, que são os elementos essenciaes do

bou-quet.

Sueco. — O sueco da uva recentemente espremido, ou mosto, cuja densidade varia entre 1,060 e 1,090, tem uma reacção constantemente acida, e compõe-se d'agua contendo em dissolução ou em suspensão os seguintes principios :

1) Substancias azotadas taes como a albumina vegetal.

2) Substancias orgânicas não azotadas. As principaes são : em primeiro logar o assucar, entrando na proporção média de 15 a 25 %, a gomma, a mucilagem, a pecti-na, os óleos essenciaes, as matérias gordas, os ácidos li-vres, etc.

3) Finalmente os saes, comprehendendo não só os de

origem mineral taes como os sulfatos, phosphatos e sili-catos, etc., mas ainda aquelles que resultam da saturação dos ácidos orgânicos : malatos, citratos e racematos ; isto em consequência das transformações ultimas que estes cor-pos experimentam na economia animal, deixando, segundo

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as experiências de Woclher, como ultimo resíduo de com-bustão, carbonatos alcalinos eliminados pela ourina h

Taes são as variadíssimas substancias que entram na composição do sueco da uva, onde ao mesmo tempo se nota uma particularidade digna de menção, principalmente se estabelecermos o confronto entre o sueco, pelliculas e grai-nhas : é que, sendo n'estas ultimas tão abundante o acido tannico, não se encontram vestígios d'elle no sueco, salvo o caso de ter começado o trabalho de fermentação, ou de se deixarem por algum tempo as pelliculas em contacto com o sueco recentemente extrahido.

Tal como fica exposta, a analyse do mosto representa apenas uma média susceptível de numerosíssimas varian-tes, principalmente no que diz respeito ás proporções rela-tivas dos elementos constituintes.

Diversas influencias concorrem, como já dissemos, para modificar a qualidade das uvas : a casta, a constituição geo-lógica do terreno, a cultura, etc., etc. De nenhuma d'ellas porém nos oceuparemos, porque interessam mais de perto á viticultura. O nosso fim principal seria apenas determinar pela analyse das variadíssimas castas que possuímos, quaes aquellas que conviria aproveitar, a região vinhateira onde de preferencia se desenvolvem, e o logar por conseguinte em que se poderiam fundar estabelecimentos análogos aos das aguas mineraes. Na impossibilidade, porém, de vêr por emquanto realisado o nosso voto, pela absoluta carência de estudos feitos n'este sentido, deveríamos ao menos indicar as cepas que fornecem as uvas mais geralmente emprega-das na Allemanha e na Suissa.

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Duas palavras justificarão o nosso silencio a este res-peito. Herpin referindo-se á classificação das cepas, enu-mera e descreve as nove principaes espécies e variedades empregadas mais vulgarmente ; procura em seguida rela-cionar estas com as espécies e variedades que pela maior somma de caracteres análogos parecem corresponder-lhes em França com denominações différentes ; chegando a este ponto, porém, acrescenta : « repetimos que a maior incerte-za, isto é, a maior confusão reina ainda na synonymia da vinha, e que por conseguinte deveremos aceitar este con-fronto com a maxima reserva ».

Em face d'estas difficuldades, e sendo-nos impossivel pe-las razões já apontadas, estabelecer um parallelo ainda mes-mo imperfeito, comes-mo faz Herpin d, e por outro lado

convenci-dos de que será muito mais profícuo e duradouro o estudo directo da composição e propriedades physiologicas e the-rapeuticas das nossas uvas, feito principalmente pelos fa-cultativos das respectivas localidades, onde necessariamente

ja terreno, o clima, a cultura, etc., hão de imprimir um

cu-nho especial ás uvas portuguezas, julgamos inutil enume-rar e descrever as espécies suissas e allemãs, que aliás po-dem vêr-se minuciosamente definidas em Herpin, no capi-tulo que o auetor consagra á ampelographia therapeutica. Daremos apenas a divisão das castas feita por Curchod em

uvas fendentes e não fendentes, porque é certo que esta

classificação corresponde, como veremos, a uma divisão na-tural nas propriedades physiologicas e nos effeitos thera-peuticos.

As primeiras, similhantes aos fruetos suceulentos, tèem

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como caracteres a transparência dos bagos, e a pouca du-reza da pellicula que, sendo comprimida, se fende sem dei-xar correr sueco ; a polpa é doce, aromática, e dá um vinho generoso pela notável proporção d'assucar que ella con-tém. As segundas, pelo contrario, são dotadas de uma pel-licula mais tenaz, que se não fende pela compressão entre os dedos ; deixa n'estas condições correr o sueco pela par-te d'inserçao do pedículo, e o vinho produzido é menos al-coólico, mas mais perfumado e muito diurético.

Esta divisão feita por Curchod relativamente ás castas brancas, embora bem justificada, não satisfaz ás exigências da therapeutica; não só porque deixa de comprehender cer-tas espécies aproveitáveis, mas ainda e principalmente por-que carece de subdivisões, por-que justifipor-quem a dissimilhança de propriedades, que se encontram nas espécies e varieda-des n'ellas comprehendidas.

Para melhor se fazer uma idéa da diversidade de com-posição chimica que até certo ponto separa estas duas cas-tas d'uvas, passamos a copiar os quadros dos drs. Herber-ger e Walz :

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5 2

SOBRE 1,000 PARTES DE MOSTO DE CHASSELAS BLANC D'AUTRICHE

Agua Saccharose

Gomma e dextrina ... Resina

Principio corante extra ctivo

Tannino Matérias gordas Principio aromático Albumina e matérias azo

tadas

Bitartarato de potassa... Tartarato de cal com um

pouco de race-malo (de cal).. » de magnesia... » de alumina — » de oxydo de fer-ro Sulfato do potassa Phosphato de alumina — Chlorureto de potássio.... » de sódio Acido tarlarico » raeemico » cítrico » malico 837,610-834,381 130,985—132,172 6,910— 5,425 Vestígios 0 , 1 0 8 - 0,117 Vestígios Vestígios Vestígios 17,142- 19,850 1,208 - 1,215 0,224 — 0,239 0,049 — 0,125 0,068— 0,115 Vestígios 0,917— 1,211 0,024 - 0,028 CHASSELAS ROUX 0,847 2 , 2 1 0 0,311 -0,098 — 1,289 — 0,991 2,205 0,327 0,247 1,352 846,283-838,711 122,105 - 127,497 9,143 - 6,520 Vestígios 0,097 - 0,125 Vestígios Vestígios Vestígios 15,427- 18,547 1,34.1 — 1,356 0,226— 1,521 Vestígios ! 0,105— 0,110 Vestígios 0,845— 1,027 0,017 - 0,021 0,910— 0,923 2,207 — 2,216 0,287 - 0,299 1,007 - 1,127 1000,000 1000,000 1000,000 1000,000

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SOBRE 1,000 PARTES DE MOSTO DE

Agua Saccharose Gomma e dextrina Resina

Principio corante extra ctivo

Tannino

Principio aromático Albumina e princípios azo

tados Acido phosphorico » sulfúrico » chlorydrico Silica Oxydo de ferro Potassa Soda Cal Magnesia Alumina Acido tartarico » racemico » cítrico » malíco RIESSLING, CLAIRETTE 824,151 140,720 4,963 Vestígios 15,300 0,214 0,033 0,029 0,736 0,630 0,964 2,369 1,799 0,925 0.225 4,379 0,078 Vestígios 2,483 BOURGUIGNON NOIR OU PINEAU 822,310 152,176 4,132 0,015 0,898 11,768 0,506 0,031 0,028 0,600 0,007 1,035 0,401 0,345 0.018 0,005 2,640 0,010 2,975 1000,000 1000,000 3

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3 4

É por isso que julgamos util estabelecer um determina-do numero de grupos, caracterisadetermina-dos pelo predetermina-domínio de certos princípios, e onde venham naturalmente filiar-se as espécies e variedades, ás quaes a experimentação clinica e a analyse concedam incontestáveis virtudes therapeuti-cas.

D'esta forma teremos o mesmo agente therapeutico sa-tisfazendo a indicações variadas, antecipadamente previstas, e até certo ponto calculadas na sua intensidade pelas innu-meras gradações, quantitativas, que se encontram nos seus elementos componentes.

Admittiremos portanto seis grupos, caracterisados pelos seguintes princípios :

1) Abundância de materia gommosa e saccharina.

2) Excesso de princípios aromáticos.

3) Presença do ferro ou do seu succedaneo o

manga-nês.

4) Existência do tannino em quantidade notável.

5) Predomínio da potassa dando ao sueco propriedades alcalinas.

6') Quantidade de sulfato de potassa suficiente para provocar effeitos purgativos.

Em face d'esté quadro, e feita a distribuição das diffé-rentes espécies d'um paiz vinhateiro em harmonia com os resultados da analyse, poderemos á nossa vontade, e se-gundo as indicações que quizermos preencher, fazer a es-colha da espécie ou variedade que melhor convenha ao nosso fim. D'esté modo desapparece a maxima parte das divergências que se notam entre os auetores, o que não

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bre a elïicacia d'esté poderoso agente therapeutico ali-mentar.

CAPITULO II ACÇÃO PHYSIOLOGIC A DA UVA

Para que os effeitos physiologicos e therapeuticos d'uma substancia qualquer possam ser devidamente apreciados, é d'uma incontestável necessidade o perfeito conhecimento do principio ou princípios que a constituem, da acção isolada de cada um d'elles, e da influencia reciproca que uns sobre os outros podem ter pelo facto da sua administração si-multânea. Isto basta em geral para as substancias medica-mentosas do reino mineral ; nas do reino orgânico, porém, outro elemento vem modificar consideravelmente os resul-tados : a reunião d'um certo numero de princípios, debaixo da influencia da actividade orgânica, dá ao producto for-mado uma feição especial, que não se pôde conseguir pela associação artificial d'essas substancias, ainda mesmo n'a-quelles casos em que são bem conhecidas as propriedades isoladas de cada uma d'ellas.

Resumiremos pois em primeiro logar os dados que a sciencia possue sobre as propriedades physiologicas dos principaes elementos constituintes da uva, para em seguida nos occuparmos da acção physiologica do complexo.

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5 6

I . ,

Propriedades physiologic»» dos princípios constitutivos da u v a

I 1-°

PRINCÍPIOS ORGÂNICOS NÃO AZOTADOS

E ÁCIDOS LIVRES

Glycose. — De todos os princípios immediatos não azo-tados contidos no sueco da uva, é sem duvida este o que mais nos deve interessar, não só pela sua existência cons-tante no organismo animal, onde representa imporcons-tantes papeis, mas ainda porque é n'elle que se transformam, de-baixo da influencia de certos reagentes, as principaes varie-dades de substancias saecharinas taes como a saccharose ou assucar de canna, e a lactose ou assucar do leite. Chimica-mente idêntica ao assucar extraindo do parenchyma do fí-gado e da ourina dos diabéticos, distingue-se do assucar or-dinário sobretudo pela ausência de crystallisação, pela maior facilidade com que fermenta, e pela acção reductivel de que gosa sobre os saes de cobre, de mercúrio, prata, etc.

Deixaremos de mencionar um grande numero de pro-priedades da glycose, quer ellas lhe sejam'privativas, quer se tornem communs a todos os assucares, para nos oceu-parmos simplesmente d'aquellas que, justificando os seus

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effeitos physiologicos, têem a mais intima relação de depen-dência com o assumpto de que nos vamos occupar. Essas propriedades são as seguintes :

1) Debaixo da influencia dos fermentos levemente

áci-dos, com especialidade nos que contêem acido cítrico, ma-lico ou tartarico, a glycose experimenta a fermentação al-coólica, encontrando-se algumas vezes no producto fermen-tado os ácidos butylico, propilico ou amylico.

2) Se o fermento accusa uma reacção alcalina, a gly-cose transforma-se em acido láctico sem desenvolvimento de gazes; e este a seu turno, debaixo da influencia do mes-mo fermento, pôde dar logar á formação dos ácidos acético e butyrico com desenvolvimento de hydrogenio.

3) A glycose pode tornar-se a origem da formação

bu-tylica, formando-se n'este caso uma certa quantidade de mannite.

4) Completamente destituida de acção sobre os saes

es-táveis formados por ácidos enérgicos, a glycose desloca pelo contrario os ácidos fracos, como o carbónico on sul-phidrico, das suas combinações salinas; reage, á tempera-tura ordinária e por simples contacto, sobre o carbonato de cal, combinando-se com a base; é, como diz Longet, um excellente dissolvente do carbonato e phosphato de cal, porque ao passo que a agua pura dissolve apenas j ^ do seu peso, a agua assucarada exerce a sua acção sobre quantidades notáveis de cal.

5) A glycose não se combina directamente com o oxy-génio; mas em presença dos alcalis livres ou dos carbona-tos alcalinos absorve-o, soffreudo uma serie de decomposi-ções que dão em resultado o apparecimento de agua, acido

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carbónico e matérias ulmicas, productos das transformações flnaes das substancias saccharinas.

Vejamos agora, muito em resumo, as principaes modi-ficações que experimenta a glycose circulando na economia animal, e o importante papel que é destinada a preencher. O assuca'r que normalmente gira no sangue tem duas fontes de producção essencialmente distinctas : uma extrín-seca, accidental —a digestão das substancias feculentas, e saccharinas - ; outra intrínseca e constante — a glycogene-se hepática, e em geral os órgãos parenchymatosos —-.

a) Digestão das substancias feculentas. — A

transforma-ção da fécula em dextrina e consecutivamente em glycose opera-se no canal digestivo debaixo da influencia de dois fermentos : o salivar e o pancreatico ou glycosico ; o pri-meiro transformando pequenas porções de fécula solúvel, e o segundo operando no intestino delgado a metamorpho-se da maxima parte das substancias feculentas.

As experiências de Cl. Bernard relativas á acção do sueco gástrico sobre as féculas, levaram este eminente phy-siologista a concluir que, apesar da reacção acida do sueco gástrico e da presença n'eile do acido chloridrico, não é á custa d'esté acido que a transformação temlogar; porque, ao passo que os reagentes cupro-potassicos aceusam ape-nas quantidades insignificantíssimas de glycose nos produ-ctos da digestão estomacal, esses mesmos reagentes pelo contrario revelam enormes proporções d'aquelle principio nos productos alcalinos da digestão intestinal.

Não é pois pelos processos da chimica mineral que as substancias feculentas são convertidas em glycose no seio

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do organismo, mas sim pela acção d'um principio sui

gene-ris, d'um fermento especial, cuja acção pelo menos é tão

enérgica como a dos ácidos mineraes mais concentrados. Considerações análogas podemos fazer com relação ao assucar ordinário ou saccharose. Está hoje demonstrado que esta substancia hydro-carbonada não pôde ser utilisada, sem que previamente tenha sido transformada em glycose ; é por esta razão que, sendo injectada no tecido cellular sub-cutaneo, a vemos eliminar-se na totalidade pela ourina, onde è fácil descobril-a pela acção dos reagentes apropria-dos. A digestão da saccharose deve pois consistir na sua transformação em glycose; e é isto efectivamente o que acontece no intestino delgado debaixo da influencia do fer-mento inversivo, com a única differença de que o resultado da transformação não é a glycose simples, mas sim uma mistura em partes iguaes de glycose e lévulose.

Um phenomeno análogo se verifica, segundo as investi-gações de Berthellot e Buignet, nas modificações porque passa o assucar de canna dos fructos n'um período avançado da fructificação : aqui também é debaixo do influxo d'um fermento saccharino inversivo, e não pela acção dos ácidos mineraes, que tem logar a interversão do assucar, ou a sua transformação em glycose e lévulose. É pois incontestável que as transformações da saccharose como as da fécula, debaixo da influencia dos organismos vivos, são originadas por fermentos especiaes e não pela acção dos ácidos enér-gicos, como succède nos domínios da chimica industrial.

Formadas assim á custa da fécula e do assucar, a gly-cose e a lévulose são absorvidas á superfície do intestino, principalmente pelas radiculas da veia porta, que as leva ao fígado onde soffrem uma nova modificação,

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transfer-AO

mando-se totalmente era substancia glycogenica se a quan-tidade não fôr excessiva, ou na maior parte se pelo contra-rio ultrapassar certos limites ; o excedente entra então na corrente circulatória, d'onde é promptamente eliminado pelo rim, attenta a pequena quantidade de glycose que, n'um momento dado, pôde existir na massa total do liqui-do sanguíneo.

6) Glycogenese hepática. — Existe no parenchyma do fí-gado uma substancia especial—a glycogene—, análoga da fécula ou amido, menos estável do que esta, e transforman-do-se por conseguinte mais facilmente em glycose, debaixo

da influencia dos fermentos próprios. Esta substancia, for-mada nas cellulas hepáticas por um acto vital, pôde ter duas origens différentes:

1." A glycose e lévulose absorvidas do intestino no ca-so d'uma alimentação feculenta. Temos então uma trans-formação ascendente, um phenomeno de synthèse, cujo mecanismo é ainda difficil de comprehender, e que estabe-lece um ponto de contacto entre as funcções da planta e as do animal.

Divergem, é certo, ainda as opiniões dos physiologistas sobre se a materia glycogenica do fígado será a conse-quência d'uma metamorphose ascendente da glycose, como querem Luchsinger, Pink e Heidenhain, ou o resultado da nutrição propria do órgão, que encontra na glycose e gly-cerina um excitante normal. Gomo quer que seja, o que é incontestável é que ha uma intima correlação entre a ab-sorpção da glycose e o augmenta da materia glycogenica no fígado ; isto basta para mostrar o importante papel das substancias feculentas e saccharinas.

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2.a Os alimentos azotados no caso de abstenção dos

fe-culentos. Qualquer que seja a interpretação que se queira dar a este facto, o que é certo é que a materia glycoge-nica continua a formar-se no figado ainda n'aquelles casos em que ha uma falha completa e duradoura de qualquer substancia, onde os reagentes possam mostrar a presença de princípios feculentos ou saccharinos.

São principalmente as peptonas e a gelatina que mais concorrem para a formação da substancia glycogenica '. Esta, formada assim no parenchyma do figado, vae sendo pouco a pouco transformada em glycose, segundo as ne-cessidades do organismo, e de maneira que, n'um momen-to dado, e até cermomen-to ponmomen-to independentemente da alimenta-ção, a quantidade de glycose que circula no sangue não excede sensivelmente os limites da despeza physiologica. Lançada na torrente circulatória a glycose atravessa in-tacta os capillares do pulmão, e vae destruir-se quasi total-mente nos capillares da grande circulação ; digo quasi to-talmente, porque ao passar no parenchyma renal uma pe-quena porção é eliminada com a ourina: 0,10 a 0,15 por 1000 na ourina normal 2.

Posto que reine grande obscuridade sobre as ultimas transformações do assucar no sangue, a opinião mais se-guida parece ser a seguinte: chegando aos capillares ge-raes a glycose é rapidamente transformada em acido lácti-co e agua ; esta transformação opera-se, segundo uns, pela acção dos carbonatos alcalinos, segundo outros (Cl.

Ber-1 Cl. Bernard. Leçons sur la diabete. — Picot. Grands processus morbides. — Bouchardat. Do la glycosurie.

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4 2

nard, Robin, Verdeuil) pela acção d'um fermento, era cuja producção os glóbulos sanguíneos (Blandeau e Ford) pare-cem representar um papel importante. Apenas formado, o acido láctico passa ao estado de lactato de soda, e em se-guida finalmente ao de carbonato, eliminando d'esta forma pela ourina, depois de fornecido n'esta serie de trans-formações, o calor indispensável ás metamorphoses orgâ-nicas e principalmente ao desenvolvimento da força mus-cular que, segundo Meyer e Marvaud ', tem a sua origem na oxydação dos alimentos, em virtude do grande principio da transformação do calor em movimento.

Taes são as principaes modificações que experimentam as matérias glycosicas circulando na economia animal; mas além do importante papel que representam como agentes directos da calorificação e movimento, podem ainda consi-dérasse como elementos adipogenicos e eupépticos.

Qualquer que seja a opinião seguida para explicar a formação da gordura no organismo, quer se admitta a doutrina de Liebig, que sustenta a transformação directa dos feculentos em gordura sem negar o desdobramento dos albuminóides, quer se admitta pelo contrario a theoria de Pettenkoífer e Voit que, negando a transformação adi-posa dos feculentos, consideram estes como alimentos de poupança, permittindo a accumulação da gordura por uma verdadeira derivação das combustões orgânicas, o que é certo, e isto nos basta debaixo do ponto de vista prático em que nos collocamos, é que existe uma intima e incon-testável relação de dependência entre a alimentação lenta e a fixação da gordura no organismo, e que as

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las e os assucares devem portanto ser considerados como substancias adipogenicas.

Convém, porém, notar que a propriedade a que nos estamos referindo pertence ás doses moderadas, porque no caso contrario ha um abaixamento sensível na cifra das substancias adiposas dos tecidos '.

O assucar representa ainda um papel importante como condimento. Considerado por Jules Cyr 2, Fonssagrives 3 e

outros, como um dos typos d'esta ordem de substancias ali-mentares, tem ainda propriedades eupépticas incontestá-veis; a sua transformação parcial em acido láctico, um dos principaes agentes da digestão estomacal, justifica a ap-plicação que d'elle faz Fonssagrives 4 nas dyspepsias por

elle denominadas alcalinas, porque são principalmente de-vidas á diminuição ou desapparecimento da acidez normal do sueco gástrico.

Por uma razão opposta o abuso do assucar, dando ori-gem á formação d'uma quantidade excessiva d'acido lácti-co, pôde produzir perturbações gástricas, como pyrosis, gastralgias, etc.

Finalmente as propriedades que gosa o assucar de dis-solver os saes de cal (phosphato e carbonato) dão-lhe uma importância capital n'aquelles casos, em que. è indispensá-vel fornecer aos tecidos os elementos calcareos que os constituem. É por isso que na alimentação das crianças, mais que na do adulto, é indispensável a presença do as-sucar, que aliás o próprio instincto lhes aconselha.

' Fonssagrives. Hygiène alimentaire. ! Jules Cyr. Traité de l'alimentation. ' Fonssagrives. Op. cit.

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4 4

Cellulose. — Encontra-se nas uvas como era todos os vegetaes este principio fazendo parte dos tecidos. Abun-dante antes do periodo da maturação, durante o qual existe quasi exclusivamente com os ácidos e saes, vae pouco a pouco desapparecendo pela sua transformação em dextrina e assucar em períodos avançados da maturação.

A sua transformação final em glycose dispensa-nos quaesquer considerações relativamente ao fim que é desti-nado a preencher na economia animal: o que dissemos com relação á glycose applica-se com taes modificações á cellulose.

Conjunctamente com este principio encontram-se ainda pequenas quantidades de gomma, mucilagem e pectina ; es-tas substancias, embora não representem um papel impor-tante como alimento, pela exiguidade das suas proporções, ainda assim tèem um certo valor, porque dão ao sueco da uva a consistência gelatiniforme e o avelludado que lhe são próprios, o que se pôde aproveitar para certos estados mór-bidos.

Matérias gordas. — Duas palavras bastarão para tradu-zir a importância dos corpos gordos neutros, tão abundan-temente espalhados nos reinos animal e vegetal e que se encontram no sueco da uva em quantidade assas notável '. Gomo substancia protectora encontramos a gordura en-cerrada nas malhas do tecido cellular, formando camadas mais ou menos espessas e extensas que, regularisando as formas, protegem ao mesmo tempo as partes subjacentes contra as pressões nocivas e abaixamentos de

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ra. As substancias gordas entrain como elementos indis­ pensáveis em certas secreções : umas permanentes, como a secreção sebacea ; outras temporárias, como a secreção lá­ ctea. Finalmente como alimentos thermogenicos attingem

estes corpos uma importância capital; contendo uma quan­ tidade notável de hydrogenio, são por isso mesmo conside­ rados como os mais enérgicos agentes da caloríficação ', embora reine completa desordem sobre as metamorphoses porque passam nos capillares geraes até á sua transforma­ ção final em agua e acido carbónico. É muito provável que soffram uma combustão directa; como quer que seja, e ainda que os feculentos e albuminóides possam dar logar á sua producção no seio da economia, não é motivo suffi­ ciente para deixar de ser importantissimo o papel que re­ presentam na alimentação.

A diminuição na cifra diária d'esté importante elemen­ to traria como consequência prevista um augmento na com­ bustão dos azotados que, exagerando a despeza dos albu­ minóides, arrastaria comsigo um desequilíbrio nocivo no estado normal e promptamente funesto nos estados con­ sumptivos ligados a lesões orgânicas, como a tuberculose

e outras.

Ácidos livres. —Debaixo d'esta denominação ficam ape­ nas comprehendidos os ácidos orgânicos, porque os mine­ raes, não existindo no estado livre no plasma sanguíneo, fazem parte da constituição dos saes. Estes ácidos em nu­ mero de quatro, existindo na proporção total equivalente a 0,931 % d'acido sulfúrico concentrado ou de 3,875 de

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4 6

bicarbonato de potassa, actuam como ácidos diluídos, e dão por conseguinte ao sueco da uva novas propriedades tem-pérantes e antiphlogisticas; attenuam o erethismo circula-tório, moderam as secreções hepática e sudoral, e podem finalmente produzir, segundo as doses, effeitos diuréticos e purgativos.

1 2.°

AGUA — PRINCÍPIOS MINERAES

Exarar n'este paragrapho a importância physiologica da agua, elemento indispensável do sangue e dos tecidos, ve-hiculo de todas as secreções, base fundamental das opera-ções bio-chimicas que se passam no seio da economia, se-ria absolutamente impossível e de mais a mais supérfluo n'um trabalho d'esta ordem.

Limitar-nos-hemos tão somente a descrever as princi-paes modificações que experimenta o organismo n'aquelles casos em que a quantidade do liquido absorvido excede mais ou menos a cifra destinada a equilibrar as perdas, que diariamente tem logar pelas varias fontes d'eliminaçâo.

Rapidamente absorvida pela mucosa digestiva e incor-porada ao sangue, a agua, augmentando a massa do liquido sanguíneo, e dilatando um pouco o systema vascular, passa rapidamente pelos capillares geraes, e ahi, abaixando o grau de concentração dos fluidos nutritivos, favorece por este meio o trabalho de desassimilação. É, como muito bem faz notar Fonssagrives, uma espécie de purga intersticial, que n'um momento dado faz entrar no sangue uma maior somma de elementos resultantes da desaggregação dos

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teci-dos. É por isso que a ingestão d'uma quantidade conside-rável de liquido arrasta como consequência não só o au-gmente da parte aquosa das secreções, mas ainda dos prin-cípios excrementicios n'ellas contidos, como facilmente se pôde verificar pelo estudo das experiências de Bõker, Falk, Schiffer e outros.

D'aqui se infere que a agua, além da importância physicv lógica que todos lhe conhecem, possue, quando intencionmente administrada em quantidade sufficiente, effeitos al-térantes que podem ser aproveitados em estados mórbidos diversos. Se attendermos agora a que a agua entra na pro-porção de 80 °/o no sueco da uva, não devemos admirar-nos de que uma grande parte dos effeitos observados nas applicações ampelotherapicas sejam devidas á presença de uma quantidade notável d'esté liquido.

Saes — Bitartarato e sulfato de potassa. — É á presen-ça d'estes dois agentes da medicação évacuante que se deve uma grande parte dos effeitos purgativos da uva. O bitartarato de potassa existe em grande quantidade no sue-co, e, além da acção que exerce sobre as secreções intes-tinaes, tem propriedades tempérantes e diuréticas; segun-do Trousseau, distingue-se segun-dos outros purgantes pelas pro-priedades hemostaticas que possue, diminuindo ou suspen-dendo mesmo os fluxos hemorrhoidarios e menstruaes ex-cessivos, e satisfazendo por isso mesmo a indicações espe-ciaes. O sulfato de potassa existe em pequeníssima quan-tidade no sueco da uva, e as suas propriedades laxantes e diuréticas nada apresentam digno de especial menção. Chlorureto de sódio e potássio.—Três ordens de

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fa-4 8

ctos demonstram bem claramente a importância do chloru-reto de sódio na alimentação: em primeiro logar a extrema diffusão d'esté principio pelos mais importantes líquidos da economia ; 2) o augmente de vitalidade que experimentam os indivíduos, que fazem uso de doses moderadas d'esté sal, e as graves consequências que pelo contrario podem seguir-se á ausência d'esté principio na alimentação diária, como é fácil de vêr pelas experiências de Boussingault e de Plouviez; 3) finalmente a influencia natural que obriga o animal a procurar os alimentos que melhor convém ás necessidades do seu organismo '.

Na impossibilidade de estudar detidamente este impor-tante assumpto, apresentaremos apenas as conclusões a que parecem ter chegado os physiologistas, sobre o papel re-presentado pelo chlorureto de sódio nas principaes funcções da economia.

No apparelho digestivo, e em dose moderada, produz uma estimulação que augmenta as secreções; em doses mais elevadas transforma-a em effeitos purgativos.

Rapidamente absorvido e misturado com o sangue, con-corre poderosamente não só para conservar a densidade do sangue no grau indispensável aos phenomenos osmoticos, mas ainda e principalmente para dar a este liquido a re-acção alcalina indispensável á manutenção das combustões, exagerando a hematose, e activando por conseguinte o mo-vimento de desassimilação orgânica. Eis a razão porque, in-gerido em doses excessivas e duradouras, perde a sua acção estimulante e reconstituinte, para dar logar a uma

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sia sanguínea, análoga á que se produz pelo uso immedia-to dos alcalinos.

Segundo as experiências de Zabeline e Dorogoff, o chlo-rureto de sódio, favorecendo a absorpção dos phosphatos, e oppondo-se em seguida á sua eliminação, ajudaria indirecta-mente o trabalho da reparação nutritiva.

O chlorureto de potássio, cujas propriedades são as mesmas approximadamente que as do chlorureto de sódio, existe em pequeníssima quantidade no sueco da uva, de-vendo por similhante motivo ter uma acção insignificante ou quasi nulla.

Phosphato de cal. — É esta uma das substancias mine-raes de maior importância, e que se encontra fazendo par-te de quasi todos os sólidos e principalmenpar-te líquidos da economia.

Entrando na composição das matérias albuminóides e das aguas potáveis, é principalmente affecto á nutrição dos ossos e das cellulas nervosas, fornecendo aos primeiros os dois elementos que os constituem, e ás segundas o phos-phoro apenas.

As observações e estudos de Boussingault, Dusart, Chossat e outros põem bem em relevo a importância phy-siologica do phosphato de cal pelas graves consequências que a privação d'esté principio traz comsigo, especialmen-te no período de desenvolvimento do especialmen-tecido ósseo. Ë á au-sência d'esté sal em quantidade sufficiente que Mouries attribue o grande numero de affecções lymphaticas que dizimam as crianças domiciliadas nos grandes centros.

Completamente insolúvel na agua, o phosphato de cal acha-se em dissolução no sangue pela acção do acido

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car-5 O

bonico, dos bicarbonatos alcalinos e do assucar, que, como sabemos, é também um excellente dissolvente de carbonato de cal. É n'este estado de dissolução, e portanto de fácil absorpção, que encontramos o phosphato de cal no sueco da uva, onde por similhante motivo representa um dos mais importantes papeis.

Saes de ferro e manganês. — O ferro que se encontra nas uvas no estado de tartarato simples ou combinado com o tartarato de potassa, existe em maior quantidade nas castas tintas, e nas que se desenvolvem em terrenos ricos em saes de ferro; a importância d'esté elemento minerali-sador é tal que, segundo faz notar Carrière, ha uma re-lação constante entre a riqueza do solo em compostos de ferro e as qualidades vivificantes e reconstituintes dos vi-nhos produzidos.

Considerado justamente como um dos mais poderosos agentes da medicação tónica reconstituinte, o ferro actua de duas maneiras différentes: pela estimulação produzida já sobre a mucosa digestiva, já sobre as principaes funeções da economia; e secundariamente, fornecendo aos elemen-tos histológicos do sangue os materiaes indispensáveis para a sua existência, de modo a favorecer a transformação dos glóbulos lymphaticos em hematicos ou glóbulos rubros, prin-cipaes agentes da estimulação e combustão orgânica.

Como quer que seja, existindo o ferro no sueco da uva no estado de tartarato férrico potássico, encontra-se justa-mente nas melhores condições de actuar; porque é um fa-cto averiguado que n'este estado possue iodas as proprie-dades tónicas dos preparados marciaes, e menos adstrin-gente do que os saes ferricos dos ácidos mineraes, excita

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em menor grau as vias digestivas* conservando a liberdade do ventre, o que pôde attribuir-se ás propriedades tempé-rantes e laxantes do tartarato de potassa.

É principalmente no tratamento da chlorose que o ferro e o seu succedaneo tem uma acção mais enérgica e prom-ptamente efficaz.

§ 3.°

ALBUMINÓIDES

Reina ainda alguma obscuridade sobre a natureza dos princípios albuminóides do sueco da uva. Para uns, é a al-bumina vegetal perfeitamente análoga á alal-bumina animal; para outros é a glutina, principio do gluten; outros final-mente consideram a albumina como um conjuncto de sub-stancias variadas pertencente ao grupo dos alimentos azo-tados.

Qualquer que seja porém a opinião adoptada, o que é

#certo é que existe uma substancia albuminóide que,

embo-ra em quantidade minima de 1 \ %» a i nda assim entra

co-mo factor d'alguma importância nas propriedades nutriti-vas da uva. As analyses de Fresenius demonstraram que a quantidade de substancias azotadas contidas em 690 grammas d'uvas, equivale perfeitamente aos 5 grammas das mesmas substancias que se encontram em um ovo pe-sando 45 grammas.

Base fundamental de todos os tecidos, elemento indis-pensável das variadíssimas transformações orgânicas que se passam na economia, a albumina é considerada justa-mente como oceupando um dos primeiros logares na serie

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dos agentes nutritivos ; razão porque a presença o"esta sub-stancia no sueco da uva dá a este liquido uma importância tanto maior quanto é certo, como muito bem faz notar Cur-chod, que no soro do leite, cujos effeitos physiologicos e therapeuticos se approximam tanto dos da uva, não se en-contram senão accidentalmente vestígios de substancias azotadas.

Com relação aos principios aromáticos, e ao tannino contido nas grainhas e nas pelliculas, representam também, como veremos, um papel importante.

Além dos poderosos effeitos adstringentes de que gosa o acido tannico, modificando promptamente as secreções e exhalações exageradas, pôde ainda considerar-se como sy-nergico dos tónicos amargos e das substancias aromáticas, pela acção que exerce sobre a contractilidade dos músculos orgânicos, tonificando a fibra lisa. É por isso que a presença do tannino dá á uva uma grande parte da sua importância therapeutica, como veremos no decurso do nosso trabalho.

II

Acção pIíyNiologica do c o m p l e x o

Depois de ter percorrido rapidamente os principaes ele-mentos de que se compõe o sueco da uva, resumindo os da-dos que a sciencia possue sobre as propriedades de cada um d'elles, chegamos finalmente a uma das partes mais importantes do nosso trabalho —a acção physiologica do produeto formado tal como o encontramos, resultante, da

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Àbstrahindo das variantes dependentes da diversidade do solo e das espécies d'uvas, faremos obra simplesmente pelos resultados obtidos na generalidade dos casos pelos clínicos das localidades, em que este meio therapeutico se acha em extremo vulgarisado.

Digestão. — Nos primeiros dias predominam os effeitos purgativos ou évacuantes, sendo as dejecções abundantes e em extremo diluídas. Passado algum tempo, attenuam-se estes effeitos consideravelmente, estabelecendo-se uma per-feita regularidade do ventre; por ultimo, a acção tónica da uva sobre toda a extensão do tubo digestivo revela-se promptamente pela facilidade da digestão, pelo augmento da secreção biliar e movimentos peristalticos do intestino.

Duas circumstancias, porém, modificam consideravel-mente os effeitos purgativos da uva.

Em primeiro logar, as influencias atmosphericas que em certos annos alteram sensivelmente as condições da ve-getação, podendo, no caso especial a que nos estamos re-ferindo, dar logar a mudanças sensíveis nas propriedades pbysiologicas das uvas. Tem-se effectivamente notado que em certos annos, precisamente n'aquelles em que o vinho produzido é de melhor qualidade, a applicação das uvas é seguida de effeitos purgativos quasi nullos, e em alguns ca-sos mesmo d'uma verdadeira constipação. Posto que o as-sucar pareça representar aqui um papel importante, não se sabe ainda ao certo a que principio será devida esta di-versidade de acção.

Em segundo logar temos ainda a casta. É n'este ponto que a divisão das uvas em fendentes e não fendentes tem uma importância capital : porque5 ao passo que as

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primei-5 4

ras produzem constipação, e são d'uma digestão mais labo-riosa, as segundas pelo contrario possuem effeitos purgati-vos bem claros, e tornam-se d'uma digestão sobremaneira fácil.

Circulação.—No apparelho circulatório notam-se phe-nomenos análogos aos observados no apparelho digestivo. Nos primeiros tempos da applicação e concomitantemente com a excitação do apparelho digestivo, observa-se uma maior actividade na circulação, traduzida pela frequência e plenitude do pulso, vermelhidão das faces, e em alguns ca-sos mesmo, conforme as circumstancias individuaes, podem produzir-se epistaxis, palpitações e hemoptysis.

Estas perturbações não tardam porém a dissipar-se, fi-cando apenas uma leve excitação circulatória que, estimu-lando as principaes funcções da economia, concorre pode-rosa e efficazmente para diffundir essa sensação de bem-estar, que experimenta a maioria dos indivíduos submetti-dos á influencia do meio therapeutico de que tratamos.

Devemos porém advertir que n'esta, como na funcção precedente, os effeitos não são constantes : porque casos ha, em que a excitação inicial ó substituída por uma de-pressão sensível. Gomo quer que seja, diz Herpin, é certo que o sangue adquire em geral uma fluidez notável.

Secreções. — A maior actividade funccional que se ma-nifesta em todas as secreções, debaixo da influencia da dieta pelas uvas, accentua-se principalmente na secreção renal. A cifra da ourina augmenta sempre e proporcional-mente á quantidade d'uvas ingeridas, salvo aquelles casos em que uma diarrhea ou uma diaphorese abundante faz

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de-rivar uma parte dos líquidos, que naturalmente deviam ser eliminados pelo rim.

É assim que, segundo as experiências de Hauffmann, a ingestão de 3,060 grammas d'uvas por dia augmenta de i,020 grammas a quantidade de ourina, onde ao mesmo tempo se notam algumas modificações no tocante ás pro-porções relativas de certos princípios constituintes d'esté liquido excrementicio : ha um augmento constante de chlo-rureto de sódio, e os ácidos úrico e phosphorico conservam-se invariáveis, ou então pôde dar-conservam-se uma diminuição para o primeiro e um augmento para o segundo ; a cifra da urea não soffre alterações sensíveis.

Estas conclusões de Hauffmann devem porém ser acei-tes com grande reserva, visto ser o numero de observações sobre que assentam insufficiente para garantia da invaria-bilidade.

Systema nervoso. — A acção tónica ou levemente exci-tante que exerce a uva sobre os centros nervosos, especial-mente sobre o apparelho cerebral, pôde ter duas origens différentes : ou é devida a uma estimulação directa, produ-zida pela acção propria dos princípios aromáticos que se encontram principalmente nas castas tintas; ou resulta, como consequência necessária, das modificações que expe-rimentam as funcções digestivas, circulatórias, e principal-mente a composição do sangue. Sabe-se que o sueco da uva tem uma acção vitalisadora, incontestável e rápida, so-bre a crase do liquido sanguíneo í.

D'esté duplo mecanismo d'aeçao resultam duas ordens

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de indicações différentes ; e, segundo os casos que se nos offerecem, iremos procurar uma acção directa nos princí-pios aromáticos, ou uma acção indirecta, por intermédio das outras principaes funcções, nos restantes variadíssimos elementos, de que se compõe o sueco benéfico do frueto da videira.

Nutrição. — O modo porque actuam as uvas na nutri-ção geral deduz-se até certo ponto do conhecimento da sua influencia isolada sobre cada uma das principaes funcções que acabamos de percorrer, theoricamente justificada pelas propriedades dos elementos de que são constituídas.

De facto, se attendermos a que no sueco da uva se en-contram princípios azotados e hydrocarbonados associados aos princípios minera es que maior influencia exercem sobre os processos Íntimos da nutrição, e se nos lembrarmos de que todos estes elementos reunidos pelas forças orgânicas dão em resultado um produeto tendo a maior analogia com o leite da mulher, que por tanto tempo satisfaz ás impe-riosas necessidades da nutrição nas primeiras idades, não devemos de certo estranhar que o emprego methodico d'es-ta subsd'es-tancia alimend'es-tar traga impord'es-tantes modificações no resultado final das operações orgânicas.

A influencia reguladora sobre os processos digestivos e eliminadores, as modificações favoráveis da crase do san-gue, e finalmente a acção tónica sobre os órgãos centraes d'innervaçao, explicam perfeitamente a efficaz influencia, confirmada pela pratica, sobre os processos da assimilação nutritiva. Não queremos aqui referir-nos somente á deposi-ção em maior quantidade de principios gordurosos nas ma-lhas do tecido conjunctivo que, como referem os

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hygienis-tas, deve ser combatida pelo exercido e pelos passeios, mas sim ao desenvolvimento harmónico de todos os teci-dos, pois que a todos elles se estende a benéfica acção d'esté importante alimento.

Citaremos em abono do que deixamos escripto a obser-vação feita pelo dr. Cardona nos vinhedos da província de Toledo, observação que muito bem pôde ser confirmada pelos habitantes da nossa região vinícola do Douro : os guardas das vinhas, escolhidos nas classes ínfimas e mais desgraçadas da sociedade, tomam conta do seu cargo no primeiro período da maturação da uva, e ahi se alimentam exclusivamente de pão e do fructo cuja vigilância lhes é confiada. «É notável, diz o dr. Cardona citado por Curchod, a metamorphose que se tem operado n'estes indivíduos ao voltarem na época da vindima: é frisantissimo o contraste entre o estado anterior de depauperação orgânica evidente e as condições novas de saúde e de vigor revelando-se no aspecto e em todos os actos exteriores».

Muitos outros factos poderia ainda citar, porque a salu-tar influencia das uvas é conhecida de todos ; e no entre-tanto Payen na sua obra sobre as substancias alimentares, parece querer attenuar as vantagens d'esta alimentação, mostrando mesmo a nocividade d'ella em muitos casos, baseando-se para isso nos effeitos purgativos exagerados a que podem dar logar os fructos, principalmente n'um estado de maturação incompleta.

Deverão por ventura estas considerações de Payen le-var-nos a restringir o emprego therapeutico das uvas? Se nos lembrarmos de que os crescidos effeitos purgativos, a que se refere o auctor, dependem principalmente das con-dições variáveis do fructo, e do uso immoderado que d'elle

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possam fazer aquelles que o consideram como uma pana-cea universal, facilmente comprehenderemos o valor das asserções de Payen. Como muito bem adverte Curchod, es-sas conclusões devem chamar á nossa attenção para dois pontos principaes: em primeiro logar todo o excesso é no-civo, e, no caso especial a que nos referimos, pôde mesmo prejudicar um meio therapeutico d'um valor incontestável, ainda quando racionalmente instituído; em segundo logar, sendo a applicação das uvas um meio therapeutico, é .prin-cipalmente em estados anormaes, em que uma influencia altérante se torna indispensável, que ellas têem a sua maior importância ; e em terceiro logar finalmente acrescentare-mos nós ainda que, sendo os efeitos da dieta pelas uvas dependente de numerosas circumstancias, como tivemos oc-casião de enumerar, as conclusões de Payen deixam de ser applicaveis aquelles casos em que, pelo predomínio de certos princípios, a acção purgativa e debilitante desappa-rece quasi, para dar logar a efeitos tónicos e reconstituin-tes inconreconstituin-testáveis. Ainda aqui o estudo incompleto das dif-férentes faces do problema nos explica a diversidade de opiniões.

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CAPITULO I

APPLICAÇÕES THERAPEUTICAS DA UVA

Êles-vous cchauffè, mangez du .raisin» ; êtos-yous languissant, mangez du «raisin»; dormez-vous troji, mangez du «raisin» ; le sommeil dormez-vous fuit-il, mangez du «raisin»; êtes-vous trop mai-gre, êtes-Tons obèse, faites une débauche de chas-selas et après une quinzaine de jours de ce traite-ment dans le premier cas, vous prenez de l'embon-point et, dans le second, vous perdez l'excès de ventre qui vous gêne.

(MÉMOIRES un L'ACAUÉMIB a m. MÍDEoiim).

I

Apparelho digestivo e annexo»

É nas affecções chronicas do estômago que a ampelo-therapia tern a sua principal applicação. Abstrahindo por emquanto da ulcera simples e carcinomatosa, porque o em-prego das uvas n'estes casos tem em vista combater não a lesão principal, mas a gastrite chronica e a perturbação dyspeptica que em geral as acompanham, vejamos como po-deremos justificar theorica e praticamente o emprego d'esté meio therapeutico nas affecções de que nos vamos oceupar.

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Gastrite chronica.—AUudimos aqui principalmente ao estado mórbido produzido pela acção mais duradoura das mesmas causas que originam a forma aguda; com relação á gastrite chronica gerada pelas diversas dyscrasias, pela stase ou congestão passiva devida ás lesões do fígado, dos pulmões, ou do coração, trataremos d'ella quando nos re-ferirmos ás uvas em cada uma d'essas lesões causaes.

Percorrendo a therapeutica do catarrho chronico encon-tramos, segundo o predominio de certos symptomas e idyo-sincrasias individuaes, indicações variadas que em grande parte podem ser preenchidas pela administração methodica das uvas.

Em primeiro logar os resultados da dieta láctea preco-nisada por Jaccoud, Nyemeyer, Brinton e outros, devem encontrar-se na dieta pelas uvas, attendendo á grande ana-logia de composição existente entre estes dois alimentos. Em segundo logar, a contraindicação que muitos auctores apontam á dieta láctea, isto é, a difflculdade, na realidade grande, com que muitas vezes o estômago supporta os coá-gulos de caseína resultantes da elaboração digestiva, não pode attribuir-se ao sueco da uva; com effeito, na ausência de coágulos d'esté alimento achamos, pela extrema digesti-bilidade de que é dotado, garantias sufficientes de bom êxito.

Os importantes resultados obtidos em muitos casos pela medicação alcalina levaram os práticos, com especialidade os das escolas de Vienna e Praga, a preconisar o uso das aguas mineraes, taes como as de Carlsbad e de Vichy. Con-siderando agora que a composição do sueco da uva o ap-proxima consideravelmente d'estas aguas; lembrando-nos ainda, como faz Carrière, de que o uso d'esta medicação

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não pôde prolongar-se muito, pelos perigos a que expõe o excesso d'alcalisaçao do sangue, devendo n'estes casos subs-tituir-se pelas applicações ampelotherapicas, vê-se clara-mente que, ainda n'esta indicação, â-theona confirma o que a pratica diariamente fornece. Ha outros casos em que a permanência da pneumatose estomacal, a ausência de eru-ctações acidas e de pyrosis, e o caracter mucoso das maté-rias vomitadas, contraindica a administração dos alcalinos, que devem ser substituídos pelas bebidas levemente acidu-las. Também n'este ponto teremos preenchida a indica-ção, pela reacção acida da uva, cuja intensidade maior ou menor pôde ser convenientemente escolhida e graduada se-gundo as necessidades da occasião. Se acharmos conveniente o uso dos tónicos e mesmo dos estimulantes, encontraremos no sueco das uvas propriedades análogas ás das aguas fer-ruginosas aconselhadas por Nyemeyer e outros, addicionan-do-lhe a acção estimulante devida aos princípios aromáticos do frueto. Finalmente a constipação quasi constante no ca-tarrho chronico do estômago é combatida facilmente pelas propriedades laxantes e regularisadoras das principaes cas-tas empregadas em therapeutica.

É pois fora de duvida que os resultados obtidos pela ampelotherapia nas gastrites chronicas tèem uma justificação theorica, e que, embora algumas indicações não possam ser satisfeitas pelo emprego exclusivo d'esté meio, havendo ne-cessidade de lançar mão de medicamentos adjuvantes apro-priados, o principal tratamento acha-se cumprido não só debaixo do ponto de vista puramente therapeutico, mas ainda sob o que diz respeito á alimentação.

Attender por conseguinte ás diversas indicações que po-dem offerecer estes estados gástricos, avaliar a importância

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de cada uma d'ellas, e fundamentar racionalmente a dose e a qualidade das uvas, bem como a dos adjuvantes dietéti-cos e hygienidietéti-cos que melhor conveem ao caso que se nos apresenta, tal é o caminho que se deve seguir nas applica-ções therapeuticas dos estados mórbidos a que nos estamos referindo, e onde os effeitos podem ser verdadeiramente surprehendentes.

O uso exclusivo de certos fructos, diz Bayard ', tem si-do aconselhasi-do com bom êxito. As uvas administradas prin-cipalmente de manhã em quantidade considerável, têem por vezes produzido curas verdadeiramente maravilhosas. São igualmente tonificados pelo emprego das uvas os amolleci-mentos de estômago, cujas causas, segundo o mesmo au-ctor, podem reduzir-se praticamente a dois grupos — acção dos suecos previamente alterados sobre a mucosa sã, ou diminuição de vitalidade do mesmo tecido, em que seguida-mente podem actuar os suecos digestivos

Se a affecção é acompanhada dos symptomas da gastri-te aguda, é ao tratamento d'esta doença que devemos re-correr; mas se, como na maioria dos casos acontece, pre-dominarem os symptomas da gastrite chronica, são princi-palmente os adstringentes, os tónicos e os excitantes que mais importa empregar. « A gastrorrhêa que segue por ve-zes estes estados, diz Carrière, era combatida pelo profes-sor Cruveilhier pelo emprego exclusivo do leite e da ma-gnesia calcinada». Sendo assim, resultados mais vantajosos deverão obter-se pela administração do soro do leite, e com mais razão ainda pelo uso das uvas: motivo porque este methodo, apesar de não ter ainda uma confirmação

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ciente no campo pratico, é comtudo recommendado por to-dos os auctores que têem escripto sobre as applicações therapeuticas da uva.

Dyspepsias. — Chegando ao grupo d'esses estados mór-bidos mal definidos, em que as perturbações funccionaes não são seguidas de alterações materiaes bem sensiveis, e que os progressos da anatomia pathologica tendem a res-tringir cada vez mais l, encontramos um grupo de

modifi-cações pathologicas, caracterisadas umas por desvios na composição ou quantidade do sueco gástrico, outras pela fraqueza ou irregularidade das funeções da membrana mus-cular. As perturbações d'innervaçao, como diz Nyemeyer, podendo só influir nos processos digestivos por intermédio do elemento secretor ou do elemento muscular, ficam tam-bém comprehendidas n'estes dois casos.

Qualquer que seja a forma que affecta a dyspepsia, e abstrahindo d'alguns symptomas inconstantes que devem ser combatidos directamente, a base da medicação assenta sobre quatro ordens de indicações principaes: perturbações de circulação da mucosa, elemento quasi constante da dys-pepsia ; alterações de sensibilidade ; fraqueza ou irregulari-dade das funeções musculares; e estado mórbido das se-creções.

Pelo que diz respeito ás perturbações circulatórias, re-velando-se pelos symptomas congestivos, podem ter uma intensidade variável desde uma verdadeira exacerbação aguda, que será combatida pelos meios apropriados, até ao leve movimento de fluxão, tão frequente no decurso dos

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tados dyspepticos, principalmente debaixo da influencia de um desvio alimentar.

N'estes casos, além dos derivativos cutâneos, é sobre-tudo o género de alimentação que representa o mais im-portante papel. É principalmente ás bebidas alimentares como o leite, e mui particularmente ao leite asinino, que Bayard dá a preferencia. Nos-casos rebeldes, o uso de cer-tas aguas mineraes, além dos seus effeitos medicamentosos aproveitáveis, proporcionam um meio de distracção d'uma importância capital em doenças d'esta ordem.

Nas perturbações de sensibilidade três ordens de meios podem ser empregados com vantagem: os calmantes, os estimulantes ou antispasmodicos, e os tónicos ou corrobo-rantes. Os primeiros, diminuindo temporariamente a sensi-bilidade das fibras sensitivas e a percepção cerebral, são apenas palliativos; os segundos, como o ether, suspenden-do momentaneamente por uma excitação violenta a sensi-bilidade mórbida, são em geral seguidos d'uma reacção que exagera os phenomenos dolorosos ; os terceiros final-mente, tendo uma acção fortificante pouco immediata mas mais duradoura, são justamente os que melhor conveem, porque satisfazem ao maior numero d'indicaçôes. São ain-da os tónicos os medicamentos a que se recorre contra a fraqueza ou irregularidade das funcções da tunica muscular. O estado mórbido das secreções modifica-se favoravel-mente em muitos casos pelo simples beneficio que experi-mentam as perturbações circulatórias e sensitivas; casos ha porém em que estas alterações persistem, ou porque este-jam ligadas a uma diathese, como a escrófula por exemplo, ou porque um estado chloro-anemico as acompanha, ou fi-nalmente por uma outra causa qualquer menos frequente.

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Recommendam n'estes casos alguns pathologistas os agen-tes da digestão artificial; mas são principalmente os tóni-cos e o regimen alimentar que melhores resultados offe-recem. Ainda aqui as aguas mineraes representam um papel importante, quando têem por fim capital excitar áci-dos em excesso, cuja influencia nociva se torna indispensá-vel combater.

Tal é a base da medicação nos estados dyspepticos, prescindindo d'um grande numero de substancias medica-mentosas destinadas a combater symptomas dominantes, e de que por tal motivo não temos aqui a occupar-nos.

Percorrendo estas différentes indicações fácil é verificar que todas ellas são mais ou menos satisfeitas pelo empre-go da uva: como alimento agradável e d'uma fácil diges-tão é superior ao leite onde a caseina é muitas vezes dif-ficilmente supportada pelo estômago, e tem, por outro la-do, sobre o soro do leite a vantagem de possuir princípios azotados, e ser dotado d'uma acção levemente estimulante, aproveitável n'estes casos pelos princípios mineralisadores; satisfaz á indicação da therapeutica pelas aguas mineraes, com as quaes tem a mais completa analogia, como pôde vêr-se confrontando os quadros de Lerscb, onde ao mes-mo tempo se verifica a variabilidade de composição dos différentes mostos, o que precisamente nos permitte ade-quar a medicação ás diversas variantes do estado patholo-gico. Na acção tónica, reconstituinte e também adstrin-gente e estimulante pela presença do tannino e princípios aromáticos, encontramos importantes indicações causaes, symptomaticas e até prophylaticas d'estados mórbidos mais graves. Finalmente o repouso e distracção que se propor-cionam ao enfermo, têem uma favorável influencia sobre a

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