• Nenhum resultado encontrado

DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2019

Share "DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS"

Copied!
179
0
0

Texto

(1)

*

(2)

+,,-$. $ $ !/

0

$

+,,-! +,,-! " +,,-! +,,-! 1 2 3 / $ $/$ !3 '0 " & " $4 ! ()$ $

5 .&$ ! $. $ !/ 0 $ 6 ! !

0 $&5 "!& $ 75 %! ! 8& ! )$ .&$6 $4 $ ! ()$ $ $79

(3)
(4)
(5)
(6)

4 &<$9 ;$ ! ' ! ! !/ ! "! &#

= $/" !! )$ ! "$ $ $ /!. 7 &<$ '5 ! $ '$6 4!& ! " 3$ ! ( 9

$ &$ 6 $/" <! $ ! <$ 75 ! ! " ! $ 6 !/" ! $ /!. & $9 $ / '$ < ! $ 86 "! $ ! "! 6 $/4 $ / '$9

= / < /) "!& $&< ! <$ ! $ >$)$ "!&$ " ! ! ! ! &6 7. /! &9

$ 2 . $6 /!. :.! $ $4 <$ "!& $/" < ! ?. 9 = $ !' ! !. $ '$ "!& $ ! "$ $ $ $ &9

$ / '$ "$ ! !/ / '$ # 6 2! ! 4! !6 >. :.! 6 ' ! ! !6 . /

"! 9

= 7 '. 7 /5& # @ ! ! ! ( 6 &% $ ! ( 6 ! $ !

( ! 6 !/" ! 4$/ 0 &$ "$ "! $9

(7)

$ !()$6 !7 $/$ $ $ ?. $ ! . (C! :.! $/"C!/ $ ! 7 ! /! $ 1 % $& (C! $ ! $ ( ! $ ?$%! 6 ! $ $/$ " D/! $ $ $ !&<$

. !& ! ! . .& (C! $/ $. D 9

$ ! $ ! ./ 7&.3$ ! "$ ! ! !/ $ "!& !' ()$ ! . (C! ! ! )$ ! 6 )$ / "! $ /$% /! $ 6 ." . ! ! $&$' ! "$ ! 6 !3 / $ 7$ / (C! $4 ! ! /! $ " ! $ 1 "!&$ !/

.& ()$ $/ ! $& 6 $4 ."! % )$ ! $ ! ()$ ! ! $ $9

& ! !& % 1 $ . ! ! ." . $ "$ %$ ! ! /! $ ! !7! ! ( ! ! ?$%! 6 . / 4$ '! !/ $ $ $ ! ! ! $ $&! . "$ !&!. !6 /".& $ $ %! ' ()$ $ !' /! ! %! ! .4? ! ! 6 ! $ $ ?! 8 . $ 9 $ $. ! "$ 5%!& / "! " ! $ $&! "$ /! $ "! :. ! & ?. $ $ !& 8 $ ! $ ./! $

!& %$ ! /! $ " ! $ 9 7&.3$ ! $ $&!6 " ! ! ! $ 6 :.! / / $ $ 7& $ 6 % 4 & / $ ! $ $ $ ! & ! / !7! ! ! $ 6 ! 7 / / $ . $ $ '$%! $6 !3! / "$ ! ! ! $ $4$ / " "$& & ()$ ! ! $ ! & ' $ 1 ( ! $ ?$%! 9

!&!/! $ / :.! !/$ " " % 7 %$ ! !. $ .& (C! ! " . ! ! 0 ! /4 /6 " $. :. $. $ ' 7 $ !& %$ 1 ! ! $ & ()$ $ ! " ($ )$ ?. $ &9

(8)

! E$ F6 !7 ! ' $." $7 . $ < $ 7 $ <! % $& $ $7 <! '< $7 < & ! G$. ' "!$"&!6 F ' " /! ! <! . !& G $. & H I

$ $ E < 77! ! % $ G 4$ G9

. ! 4G <! "$E! 7 $/ <! !' $ $7 ".4& " % ! . $ 6 E! ! / ""! /$%!/! 6 ! < $&$' ! $7 "$E! ." $ 6 &G ' 7$ / $

4$. <! ! ! " $% ! $ <! $//. G6 4G $ $ E < <$$& 6 . ! ."! % $ '. ! $7 <! E <! !9

<! &G ! 4$. <! $ . ! ." . ! $7 <! !% ! $7 ! ! " $ ! $ $7 < & ! G$. ' "!$"&!6 ! "" $ <! $. <! $ ! G $7 $ $&

$. ! 4G !&!. !6 " $/$ ' %! ' $ 4$. <! !' /! $7 '. ! . <6 7$. . $ & " <E G 9 "$ 4&! $ / " <! " ! $7 $ $& < $.'< ! ! <! $ <! !"$ $ ./! !& %! $ <! ! ! " $% ! 4G <! 9 <! 7&$E $7 "$E! 6 " ! ! <! 6 E< < / '! <! $ 7& 6 " !%! <! ! $ & ! <! !7! ! $7 '< 6 ! 77 / <! $. ! $7 <! '$%! /! 6 ". /$%!/! <! "$E! .""$ <! $ $& && ! $ !& ! $

< & ! G$. ' "!$"&!9

<! ! ! $ < " " $ G !/$ G 7 %$ ! ""&! $7 <! $7 ! ! & $6 $ :. ! $ <! /! ' !& %! $ <! ! ! $ & $ $7 " ! E <$. ?. $ 9

(9)

"5 .&$ /# $% ! $&$' " $ !()$ ! $ $ $&!

!/! '0 $ $ !&<$ . !& ! JK

$&0 &! L+

4! 0 "!

K-"5 .&$ $ # )$ $&! %!&# M/ &$6 !4!& !6 % $&! $

D/ ! ! & ()$ NL

/! . )$# . " ! NK

!'. . )$# $ $&! O+

(C! !7! % # )$ M !$

O-$ ()O-$ ! '. & /! O-$ -K

()$ $. ! ()$ J,+

/$4 & ()$ ! $ 7$ $ J,N

"5 .&$ 0 # !7$ / $ ! & !

$ '! J+L

"! $ $ "! 7 &# $ !&<$ . !& JLL

! ! $ $ "P4& $ &%$ JLQ

& 7 $ $ 7&.3$ JKK

. "! JRJ

/ "$. " & % JRQ

(10)
(11)

A realização de um trabalho longo como este impõe acompanhar fluxos,

reconhecer territórios, avançar arrastando pedaços de informações, descobrindo e

fazendo digressões que conduzem ou não para algum lugar. Ao iniciar a pesquisa

percorri um longo caminho de descobertas que me arremessaram de um lado para outro.

Tomada por estratégias deleuzianas, decidi compor outro mapa, diferente daquele

apresentado no início do projeto

O interesse era apreender as práticas das escolas municipais da cidade de São

Paulo e observar o trajeto das crianças e jovens que tivessem sofrido alguma violência,

afinal é na escola que eles convivem, se relacionam e dividem espaço por um tempo

significativo com colegas, professores e funcionários. Almejava encontrar informações

sobre o procedimento adotado em relação à proteção efetiva das crianças e adolescentes,

pois a política de defesa dos direitos é diariamente difundida e veiculada pelos meios de

comunicação, principalmente levando em conta o número de violentados presentes nas

estatísticas.

Por meio de informações obtidas junto à Coordenadoria Regional de Ensino de

São Miguel Paulista, em março de 2005, constatei não haver nenhum procedimento

interno por parte das escolas exceto o de enviar, ocasionalmente, casos envolvendo

denúncia de algum episódio de violência.

Em março de 2004, iniciei a pesquisa no Conselho Tutelar de São Miguel

Paulista, zona leste de São Paulo. Fiz a leitura de parte dos processos1 instaurados

durante os anos de 2002, 2003 e 2004, coletando os dados constantes nas fichas de

atendimento. Tratava5se de um vasto arquivo, organizado em ordem alfabética pelo

(12)

nome da criança ou jovem, não havendo separação de casos em andamento ou qualquer

outra tipologia. Chegavam cerca de 50 a 60 pessoas por dia, buscando atendimento,

trazendo relatos bastante diversificados: casais discutiam fervorosamente, crianças e

jovens que apresentavam problemas mentais, reclamações sobre escola, creche,

hospitais, polícia, fóruns, pais, mães, tios e tias, madrinhas e padrinhos, comerciantes e

uma infinidade de conflitos que presenciei durante idas e vindas ao Conselho Tutelar.

De vez em quando o tom de voz ficava mais baixo e os conselheiros se aglomeravam,

pois certamente algum caso considerado mais grave se apresentava.

Foi neste espaço pequeno e pouco confortável que conduzi a pesquisa. Os

atendimentos prestados pelo CT eram compostos, em sua maioria, por

encaminhamentos e se limitavam ao preenchimento de uma folha de atendimento

constando nome, data de nascimento, sexo, endereço, paternidade e um espaço para

relato sobre a “ocorrência”.

Embora pesquisando sobre o CT, não havia desistido de obter informações a

respeito das ações da escola frente os casos de violências. Conversando com um dos

conselheiros fui informada sobre uma pasta, que ele mesmo criara, onde eram guardadas

as correspondências enviadas por escolas e creches públicas municipais e estaduais.

Escavar tesouros. Foi esta a sensação que me invadiu no decorrer da leitura e das

descobertas e, lentamente, passei a compor mapas e extrair informações. O campo de

informações por meio do qual se tornaram evidentes boa parte dos elementos desta

pesquisa estava demarcado.

A emergência dos CTs compôs a atmosfera da propagação de políticas sociais

endereçadas a promoção e defesa dos direitos das crianças e adolescentes, associadas

(13)

Passei a reconstituir os percursos metodológicos para orientar as abordagens do

que até então estava configurando5se no caminho percorrido a fim de me afastar de

noções e conceitos impregnados de significado próprio, restritos, que certamente não

dariam conta de apreender observações tão preciosas. Ao discutir a análise genealógica,

Foucault (1979) apontou a importância em demarcar os acontecimentos na sua

singularidade por meio de uma investigação minuciosa, atenta aos detalhes, aos

acontecimentos circundantes, opondo5se a uma pesquisa preocupada em buscar a

origem dos acontecimentos como forma de organizar um espaço de saberes

generalizados.

A preocupação com uma abordagem genealógica implica debruçar5se sob um

olhar minucioso e atento, recusando as concepções prontas e construídas a partir de uma

lógica histórica que preserva a origem e a ordem dos acontecimentos; voltando5se

menos para obtenção de respostas acabadas e verdadeiras, e mais para a

problematização dos casos e acasos surgidos no decorrer da pesquisa e que,

tradicionalmente, são abandonados pelo pesquisador, uma vez que não são

compreendidos como relevantes para conceituar os acontecimentos históricos, sociais,

políticos e culturais. Ou ainda, quando considerados, o são por conta das associações

que permitem relacioná5los com algum princípio fundador.

Neste sentido, é preciso levar em conta os saberes desqualificados que propiciam

ativar trajetórias descontínuas que irrompem e atravessam o que está legitimado. Como

afirma Foucault, “a genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente documentária.

Ela trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos”

(FOUCAULT, 1979: 15). A historicização para Foucault, não está aprisionada aos

conceitos pré5estabelecidos, que dispõe numa ordem os acontecimentos supostamente

(14)

Não há interesse em fundar um pensamento inovador sobre a escola, Conselho

Tutelar nem mesmo sobre a família, mas fazer soar algo silenciado, como a omissão da

escola em relação à violência doméstica e os atendimentos oferecidos pelo Conselho

Tutelar, ambos repletos de ruídos que devem transparecer, a exemplo do que Foucault

aponta como uma pesquisa de proveniência que “agita o que parecia imóvel, fragmenta

o que se pensava unido” (FOUCAULT, 1979: 171). Fazê5lo implicou mergulhar nesses

acontecimentos vividos, observados, cujas reverberações se entrelaçam com os

discursos institucionais. As escolas enviam cartas para o Conselho Tutelar que

evidencia uma fala presente na grande maioria das escolas, muito embora escape da sua

história.

Foucault advertia que embora esta abordagem esteja distante de um sistema

comum de pensamento, ela não é destituída de seriedade e objetividade. A insurreição

dos saberes dominados pode indicar a prevalência de um saber mais abrangente que

consegue dar conta da diversidade de acontecimentos políticos, sociais, culturais,

econômicos que envolvem uma análise histórica. Todavia, não se trata de mudar os

conceitos que parametram uma determinada análise e sim, distanciar5se de conceitos

previamente estabelecidos restritivos quanto às possibilidades de leitura e compreensão

das informações obtidas e das observações realizadas no decorrer da pesquisa. A

exigência colocada é a de não ignorar as irrupções de dentro e de fora dos

acontecimentos.

A genealogia compreende, portanto, uma interação recíproca entre o

conhecimento e os discursos locais, permitindo a ampliação dos saberes históricos.

Trata5se da insurreição dos saberes não tanto contra os conteúdos, os

(15)

saberes antes de tudo contra os efeitos de poder centralizadores que

estão ligados à instituição e ao funcionamento de um discurso

científico que a genealogia deve combater. (FOUCAULT, 1979: 29).

Todas as informações obtidas por meio da observação destas frestas onde os

poderes estão presentes, constituem dimensões importantes desta pesquisa na medida

em que, durante o levantamento dos dados, foi possível constatar várias irrupções nos

discursos institucionais presentes ao longo deste trabalho como material de análise,

entrelaçando o enunciado e o movimento que atravessa e arrasta para caminhos ainda

desconhecidos – o devir. Foi nesta perspectiva que conduzi a observação de uma instituição cujo caminho atravessa a escola, instalando um referencial de justiça e

punição para crianças e jovens.

De outra parte, Deleuze (1998), ao propor a análise rizomática, contribui para o

afastamento de abordagens nas quais se inscrevem as naturalizações e dialéticas das

seqüências temporais ao enfatizar a importância de um olhar capaz de apreender um

feixe de acontecimentos que envolvem as análises discursivas e não discursivas.

Segundo ele, todos os indivíduos ou grupos são feitos de linhas. Uma delas é a linha

onde se inscrevem as binaridades e polaridades que conformam os modelos

incorporados pela sociedade compostos de segmentos bem determinados: a criança deve

ir para a escola, o pai deve trabalhar, a mãe deve cuidar da prole, o homem casa5se com

uma mulher etc. Esta linha compreende máquinas binárias que definem de forma

dicotômica o que somos e como devemos nos comportar, sobre esta linha uma criança é

bem ou mal educada ou será uma outra coisa; ela sempre reproduz um padrão, reitera

um modelo e convida a constatações. Neste sentido procurei observar quais foram os

padrões estabelecidos pelos CTs utilizados no cotidiano pelos conselheiros, e investigar

(16)

fórum de decisões inscrito sobre essa linha segmentar e que prescreve

encaminhamentos, conselhos e orientações. É o que precisa ser problematizado.

Outra linha, mais flexível, atravessa e recorta em vários sentidos, é por ela que

passam os micro5devires, as micro5percepções, as pequenas transformações, o que

Deleuze (1998) chama de fluxos moleculares. Trata5se das irrupções que atravessam a

linha segmentar desarranjando5a.

A composição destas linhas em nada é alheia aos vários dispositivos de poder

que definem e fixam um código e um território exprimindo o seu funcionamento. A

territorialização é a própria materialidade das escolhas incorporadas pelas pessoas e

exercitadas sob diversas interpretações, mais ou menos democráticas. Porém, a rigidez

do arranjo resultante é atravessada por agitações desestabilizadoras surpreendendo as

territorialidades e desencadeando um processo de desterritorialização, que desloca de

um lado para outro os vários segmentos, estabelecendo movimentos de fuga, que não

são necessariamente as chamadas grandes rupturas apreendidas pela história ou pela

sociologia. Como aponta Deleuze:

As grandes rupturas, as grandes oposições são sempre

negociáveis, mas, não a pequena fissura, as rupturas

imperceptíveis, que vêm do sul. Dizemos sul sem dar muita

importância a isto. Falamos de sul, para marcar uma direção

que não é mais aquela da linha de segmentos. Mas cada um

tem seu sul. (DELEUZE, 1988: 153).

Essa terceira linha, a linha de fuga, abarca os fluxos que podem levar ao

(17)

compondo um mapa das relações de força2. Segundo Deleuze, o objeto de estudo da

rizomática, esquizoanálise ou cartografia é composto pelas linhas que atravessam as

pessoas coletiva ou individualmente, e como tais linhas são concomitantes é preciso

estar atento às diversas manifestações que atravessam, cortam, recortam e ecoam

nas práticas sociais diversas e nos indivíduos, bem como estar atento aos riscos que

cada linha implica.

Todo o rizoma compreende linhas de segmentaridade segundo

as quais ele é estratificado, territorializado, organizado,

significado, atribuído etc; mas compreende também linhas de

desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura

num rizoma cada vez que a linha de fuga faz parte do rizoma.

Estas linhas não param de se remeter umas às outras.

(DELEUZE, 1995: 18).

Esta vizinhança entre Foucault e Deleuze favorece o mapeamento de diversas

situações, sem, no entanto, ater5se às origens, mesmo porque o que pode ser apontado é

a manifestação de deslocamentos nos trajetos estabelecidos, a invenção de novos

percursos e o devir que faz do trajeto ou de uma imobilidade uma viagem; os mapas

compreendem, portanto, trajetos, percursos, afetos e efeitos.

Ao percorrer o trajeto das crianças e jovens que poderiam tornar5se objeto de

notificação ao CT pela escola 5 conforme informações levantadas junto aos professores

da rede, aos coordenadores pedagógicos e à própria Coordenadoria de Ensino 5,

verifiquei que poucos casos eram relatados e somente quando havia evidências

incontestáveis – criança com hematomas, criança que contou para o professor alguma

2

(18)

violência sofrida, ou algo semelhante 5, ocorria e ocorre o encaminhamento para o

Conselho Tutelar da região mais próxima. A posição e a justificativa das escolas foi a de

que o ECA criou os Conselhos Tutelares para defender os direitos das crianças e

adolescentes, inclusive “em situação de risco por falta, omissão ou abuso dos pais e/ou

responsáveis” conforme estabelece o Artigo 136.

Neste sentido houve um investimento não só em torno da transformação do CT

num lugar apropriado para encaminhar crianças e jovens com problemas de

comportamento, como também se formou em torno dele um campo de atuação,

restaurando a noção de pequenos tribunais populares, destinados ao enquadramento e

cumprimento da justiça social. A presença maciça dos CTs no país todo, com cobertura

de quase 90%, representa a composição de um espaço, nomeado como democrático

envolto por uma névoa de dispositivos3cada vez mais difíceis de serem compreendidos.

A compreensão do funcionamento do controle em espaço aberto, movido por

denúncias e reclamações, passa pela abordagem conceitual das sociedades de controle

visto ser cada vez menos necessário internar. Tal funcionamento supõe o

engendramento de tecnologias de poder cujos efeitos se espalham por todos os espaços,

tornando5se perceptível por meio das modulações que produz. Estas articulações são

problematizadas ao longo desta pesquisa, bem indicadas possíveis análises do ponto de

vista do funcionamento dos controles contínuos e do investimento no equacionamento

das instituições.

3

(19)

O trabalho é composto por três capítulos. No primeiro capítulo, intitulado Novas

Tecnologias da proteção e do controle, procuro mapear algumas questões evidenciadas

principalmente no decorrer dos anos 1990 e início dos anos 2000, preferencialmente

com relação à família e escola, tangenciadas pelas práticas educativas calcadas na

ameaça e punição, estas paulatinamente intermediadas pelo Conselho Tutelar.

As crianças e jovens foram apontados neste século como alvos estratégicos de

investimentos voltados para a escolarização e para a inserção no mercado de trabalho,

tanto em nível nacional como internacional. As deliberações legais passaram a penalizar

pais e mães que não matriculam seus filhos nas escolas e desenvolveu5se um processo

de vinculação entre a educação e o mercado de trabalho desde as discussões prescritas

na Constituição de 1988.

Procuro mostrar como o CT foi centralizando o atendimento em torno das

subprefeituras, no caso da cidade de São Paulo, e, ao intermediar conflitos envolvendo

crianças e adolescentes, ocorridos dentro da escola e da família, interagiu segundo as

regras da democracia representativa, com a participação dacomunidade. A inclusão da chamada sociedade civil em fóruns e instituições de decisões locais, como o CT, acabou

por redundar em novas tecnologias de poder aglutinadas em torno da participação

popular.

A gestão da comunidade sobre as forças que atravessam principalmente as periferias constituiu5se em outras autoridades que passaram a divulgar e ditar quais são

os direitos e deveres das crianças, jovens, professores, pais e assim por diante, bem

como encaminhar para serviços de saúde, educação, habitação, dentre outros. As

reflexões suscitadas levaram a reunir informações mais direcionadas aos conselheiros e

sua relação com o aparato democrático visando apreender fragmentos importantes como

(20)

No segundo capítulo 5 Cidadão intolerável: anômalo, rebelde, violento, procuro

enfocar de maneira ampla a prática de violências conjugadas ao ato de educar, presente

dentro da escola e da família, seja por meio de atitudes mais incisivas como a violência

física, seja por meio de ameaças, ou ainda por práticas inclusivas que classificam e

notificam crianças e jovens de acordo com suas manifestações mais ou menos

agressivas.

A expansão e explosão de diferentes sociabilidades, mais voltadas ao mercado e

à vida profissional, despertaram uma série de efeitos sobre a organização social e

conseqüentemente sobre o comportamento das pessoas, atingindo inclusive crianças e

jovens. Em meio à busca da satisfação de desejos inspirados pelo e para o consumo, foi

possível enfocar, do ponto de vista da sociedade de controle, o sentido da servidão e da

sujeição maquínica presentes nas relações sociais modernas. A busca do bem5estar

individual, por meio do trabalho ininterrupto, realocou o cidadão na esfera da

tecnologia, gerando novos padrões de comportamentos, entre pais e filhos, maridos e

esposas, professores e alunos, constituindo5se o novo agenciamento em relação ao

convívio social.

Ainda neste capítulo, enfoquei a discussão acerca do limite e dos direitos,

marcando um duplo sentido que de um lado associa liberdade à desobediência e de

outro aquele que pressupõe a violência como dispositivo educativo. Deste modo, a

tolerância passa a ser enfocada como benefício da democracia representativa,

demarcando um campo a ser mapeado a partir das discussões sobre democracia, fluxos

de poder e o assujeitamento.

Reformando e Deformando realidades é o titulo que abre o terceiro capítulo

desta pesquisa. Nele procuro localizar e mapear o processo de implementação dos

(21)

problematizando5os principalmente sob a ótica democrática amplamente divulgada

como elemento privilegiado na condução e resolução dos problemas econômicos,

sociais, culturais e políticos.

Faço notar ainda que a emergência do controle social,enfocada pelo CMDCA, predispõe o poder de acordo com percentuais equilibrados entre sociedade civil e

governo na sua composição deflagrando, deste modo, o questionamento em relação ao

papel da participação e da representatividade. Por fim, é analisado o processo de escolha

dos conselheiros, bem como suas considerações sobre as diversas demandas que passam

diariamente pelos CTs. Em meio a estas articulações abordo a questão do segredo de

justiça como designação de certa relação e funcionamento que envolve o fornecimento

e/ou divulgação dos dados estatísticos relativos ao número de atendimentos realizados e

ao modo de encaminhar os casos atendidos.

Diante de diagnósticos apressados, se instaura a emergência das reformas e

aperfeiçoamentos legais, por meio da inserção de deliberações que possam ajustar as

práticas consideradas inadequadas e defasadas, afinal é necessário reafirmar a

(22)
(23)

A criança que "eu" fui não quer dizer nada. Mas eu não sou apenas a criança que fui, eu fui "uma" criança entre muitas outras. Eu fui "uma criança qualquer". E foi assim que eu vi o que era interessante e não como "eu era a tal criança". "Eu vi um cavalo morrer na rua antes que surgissem os carros". Não estou falando por mim, mas por aqueles que viram. Muito bem, muito bem... Perfeito. É uma tarefa do tornar#se escritor.”

Deleuze

Prestar mais atenção nas coisas.

A década de noventa surpreendeu com suas novidades, novas leis, novos

comportamentos, novas tecnologias e novos investimentos.

A partir de uma onda de pronunciamentos democráticos, advindos tanto do

âmbito político governamental como das organizações não governamentais, em 13 de

julho de 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi aprovado sob a lei

federal de número 8.069. Considerado mais democrático e humanista do que o Código

de Menores de 1979, em vigor até então, o Estatuto contemplou as discussões

emergentes de movimentos voltados para a garantia de direitos humanos e o resgate da

cidadania, modernizando, desta forma, as práticas intervencionistas tradicionais.

(24)

Com o ECA em vigência, o desafio da década era cumprir sua premissa: “toda

criança tem direito à família, escola, educação e saúde”; tudo estava voltado para a

garantia dos direitos.

O ECA adotou princípios básicos de várias resoluções internacionais4 e assumiu

uma política de proteção e controle de crianças e adolescentes a partir de preceitos

bastante diferenciados daqueles sobre os quais se sustentava o antigo Código de

Menores de 1979, e foram instituídas medidas de proteção em substituição às ações

anteriormente centralizadas na antiga FEBEM, atual Fundação Casa, desde 2007.

As ONGs proliferaram e com elas inúmeras propostas voltadas para a

socialização, inclusão social e escolarização dos jovens e das crianças, que estavam na

mira dos discursos participativos, dos políticos democratas, dos neoliberais e dos

intelectuais voltados para o campo social. Os projetos se avolumaram, evidenciando a

criação de propostas voltadas para crianças e adolescentes, principalmente aos mais

pobres e carentes, sob rubricas empresariais e de fundações.

A extinta Secretaria do Menor5, posteriormente Secretaria da Criança, Família e

Bem5Estar Social, já se esfacelava. Fôra criada em 1987, a partir da constatação, que

tomou conta na época, do excessivo número de crianças e adolescentes que viviam pelas

ruas, principalmente na cidade de São Paulo e que estavam “fora da escola, distante da

família e a parte da sociedade” (LAZZARI, 1998: 20). Segundo a própria Secretaria eles

necessitavam de um atendimento específico, voltado para suprir deficiências

decorrentes de suas precárias condições de vida e das situações de perigo a que estavam

expostos.

4Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude 5 Regras de Beijing (1985), Convenção sobre os Direitos das Crianças (1989), Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinqüência Juvenil (1990), Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade (1990), dentre outras.

5

(25)

No final dos anos 1980, diversos trabalhos sociais se deslocam para as periferias

por meio das ações de ONGs, OSCIPs, PPPs6, conselhos, escolas, etc. Já em 1987, com

a Secretaria do Menor, surgem programas sócio5educativos na cidade de São Paulo que

atuavam na periferia, próximos às favelas e habitações populares, objetivando a

socialização de crianças e adolescentes pobres com vínculos familiares e escolares,

muito embora os programas voltados para crianças e adolescentes que viviam nas ruas

funcionassem em zonas centrais da cidade7.

A Secretaria prometia, em seus extensos relatórios anuais, retirar da

marginalidade o grande contingente de crianças e adolescentes carentes que viviam nas

ruas de São Paulo e espalhados pelo centro da cidade. Ela constituía5se como uma

resposta governamental derivada da crescente demanda de ONGs para atendimento de

crianças e adolescentes excluídos dos benefícios sociais. Ela fez frente, ainda, à falida

Política Nacional do Bem5Estar do Menor propondo um atendimento integral e integrado, descentralizado e com a participação de várias instituições e organizações. Seu programa voltava5se para o resgate da cidadania e o estabelecimento de uma

política de garantia de direitos.

O resgate significava a possibilidade de fornecer condições às crianças e aos

adolescentes de participarem de maneira diferenciada na sociedade, enquanto cidadãos

com deveres e direitos garantidos, pois o distanciamento da família e da escola fazia

6OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público criada através da lei federal 9.790/99, trata5se de uma nova qualificação para pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos destacando5se como organização sem fins lucrativos de interesse público daquelas de benefício mútuo (que atende um número limitado de associados) e de caráter comercial.

PPP – Parcerias Público/Privadas criada pelo governo federal, lei 11.079 de 30/12/04 através do Comitê Gestor de Parceria Público Privada Federal. Entende5se como parceria público5privada um contrato de prestação de serviços de médio e longo prazo (de 5 a 35 anos) firmado pela Administração Pública, cujo valor não seja inferior a vinte milhões de reais, sendo vedada a celebração de contratos que tenham por objeto único o fornecimento de mão5de5obra, equipamentos ou execução de obra pública.

(26)

com que estes jovens ficassem à parte dos padrões morais da sociedade, vivenciando a

chamada “cultura da rua” e apreendendo valores morais que não se enquadravam na

expectativa social e estatal vigente.

Durante as gestões que governaram a Secretaria do Menor, esta premissa esteve

presente nos projetos de intervenção social que, a cada ano, se avolumavam sem, no

entanto, cumprir as metas pré5estabelecidas.

Concomitantemente, durante o mandato da prefeita Luiza Erundina (198951992),

desencadeou5se o processo de municipalização na cidade de São Paulo, quando foram

criados os Conselhos de Escola em nível deliberativo e o NAE 5 Núcleo de Ação

Educativa, em substituição às antigas Delegacias de Ensino, coordenado por

subsecretários ligados diretamente ao então secretário da educação, Paulo Freire.

O convite de Erundina a Paulo Freire para se tornar secretário da Educação de

seu governo já imprimia o sentido de uma gestão descentralizadora, pelo menos do

ponto de vista administrativo, evidenciada por meio de reuniões de equipes de

professores que passaram a acontecer sistematicamente com a finalidade de discutir as

propostas educacionais da Rede Municipal de Ensino.

Entre o Conselho de Escola e nós havia alguns outros Conselhos que

iam se relacionando entre si em círculos. Na Secretaria da Educação

da cidade de São Paulo, a gente tem a cidade dividida em áreas com

50, 60 escolas; essas zonas eram chamadas de Delegacias. Nós

mudamos o nome de Delegacia para o Núcleo de Ação Educativa

(NAE); em vez de ter Delegacia 1, 2 você tinha NAE 1, 2. Esses

NAEs tinham um responsável da própria rede. Era um cargo político

(27)

alguém que fizesse parte dos conjuntos políticos, ideológicos e éticos

que defendíamos. (PASSETTI, 1998: 79).

As discussões de Freire encaminhavam para a instauração de uma pedagogia

voltada para os nomeados por ele como oprimidos, e quando assumiu cargo executivo

na prefeitura de São Paulo enfatizou que, mesmo fazendo parte da máquina estatal,

buscaria implantar fóruns de participação para que professores e alunos das escolas

públicas municipais tivessem a oportunidade de decidir os caminhos e diretrizes

juntamente com a Secretaria da Educação 5 algo que seria difícil de viabilizar com a

estrutura da educação pública brasileira hierárquica e burocratizada, fundada na

pedagogia do castigo.

No tocante a Fundação Casa (antiga FEBEM) a história acabou tomando um

outro rumo por se tratar de adolescentes infratores. A Fundação permanecia em

evidência com as propostas de descentralizar, democratizar e reformar, porém, nada

mudou de fato, ela só se transformou em órgão democrático nas páginas do ECA,

quando este define internação como uma medida5sócio5educativa e não como

penalização.

Todavia, irei me ater ao chamado futuro cidadão, aquele que não cometeu

infrações mais graves, a não ser a de permanecer pobre, desocupado e andarilho.

Depois de duas gestões do PMDB no comando da Secretaria veio a sua extinção,

por volta de 1998, em meio às práticas que criara de descentralização,

profissionalização e formação para a cidadania.

De qualquer forma a Secretaria da Criança foi um marco importante na política

voltada para adolescentes e crianças pobres, pois explicita a premissa de educar ou

(28)

menos na ampliação de qualquer liberdade, ela exercitou o seu controle. Já não

importava tanto a institucionalização pelo confinamento, como na sociedade disciplinar;

ao contrário, a maioria dos seus programas voltou5se para crianças e adolescentes de rua

que, num período do dia, eram capturados pelo trabalho sócio5educativo, por meio dos

chamados educadores de rua, e à noite retornavam à rua para “dormir”; privilegiando contatos em meio aberto próprios da sociedade de controle.

A crise generalizada de todos os meios de confinamento aponta para o

surgimento da sociedade de controle, (Deleuze:1992); e no caso de crianças e

adolescentes atendidos pelo Estado, isto já estava se confirmando, pelo menos no

Estado de São Paulo, desde o final dos anos 1980. As diversas casas de atendimento que

a Secretaria colocou a disposição dos adolescentes e das crianças dá corpo a estatística

de atendimentos oferecidos em “meio aberto”. Suas instalações não haviam ainda se

fixado nas localidades próximas às periferias; seu campo de atuação convergia para as

áreas de grande concentração de meninos e meninas de rua, portanto, para as áreas

centrais da cidade.

Nos anos 2000, houve uma mudança em busca da implementação das premissas

do ECA, corrigindo as metas da extinta Secretaria, colocando em prática uma nova

mentalidade, mais democrática e adequada aos futuros cidadãos. No lugar da Secretaria,

ONGs, muitas ONGs e pouco depois os Conselhos Tutelares.

O ECA definiu 5 como uma das diretrizes de atendimento 5 a criação dos

Conselhos de Direito das Crianças e Adolescentes em âmbito federal voltado para o

planejamento de políticas sociais relativas à criança e ao adolescente; a criação dos

Conselhos Estaduais e Municipais de Direitos, para formular e formalizar os projetos e

propostas de intervenção nos estados e municípios respectivamente, e, finalmente, a

(29)

ocorrências locais relativas à garantia dos direitos de crianças e adolescentes, adotando

as medidas de proteção e encaminhamento das demandas envolvendo escola, família e a

comunidade em geral. Cabendo5lhes ainda o atendimento das crianças que cometeram

atos infracionais, devendo, nestes casos, adotar qualquer medida prevista no art. 101 do

ECA, excetuando5se a internação8.

As medidas de proteção à criança e ao adolescente passaram a ser aplicáveis

sempre que os direitos reconhecidos pelo ECA fossem ameaçados e/ou violados. Foram

estabelecidos três níveis de ameaça e/ou violação à integridade da criança e do

adolescente: por ação ou omissão da sociedade ou Estado; por falta, omissão ou abuso

dos pais ou responsável ou, ainda, em razão de sua conduta. Sendo assim, o Conselho

Tutelar passou a buscar e fornecer as possibilidades de resolução das comunicações

trazidas pela comunidade seja encaminhando o caso para algum órgão – escola, creche,

cartório de registros, secretarias etc –, seja tomando as devidas providências no próprio

Conselho9.

O Conselho Tutelar passou a funcionar como desdobramento da voz e dos

ouvidos dos moradores das diversas regiões dos municípios. Conduzido pelos

conselheiros moradores de cada região e próximos da comunidade local, eles passam a

ouvir as solicitações e decidir sobre elas atualizando o sentido do termo comunidade.

Contemporaneamente a comunidade vem ocupando um lugar de destaque nos

8ECA 5 Art. 101 Parágrafo Único – O abrigo é medida provisória e excepcional, utilizável como forma de transição para a colocação em família substituta, não implicando privação de liberdade.

(30)

discursos de descentralização levados adiante principalmente pelo Estado, por meio de

uma atuação mais localizada e direcionada como espera a democracia participativa. Seu

funcionamento explicita5se no incessante acréscimo de diferentes grupos que se fazem

representar na composição dos setores participativos, deixando de ser entendidos como

excluídos para serem tratados comoparte da comunidade.Os excluídos se revezam por meio da proliferação de comunidades que se formam e reformam a cada instante.

Embora o termo comunidade seja bastante conhecido das humanidades, nos dias de

hoje, ele obteve um significado especial, na medida em que aproxima pela semelhança,

transforma5os em militantes locais e próximos, pessoas pelo que têm em comum e

funcionam como reaquecedores de uma nova multidão. A comunidade constitui5se

como ponto de convergência de demandas e direitos que ela agrega transformando,

deste modo, diferentes em assemelhados, submetendo a diferença – aquilo que nos

arranca de nós mesmos 5 a igualdade sob a lei. Sob a forma do Direito e dos direitos, o

jogo das inclusões e exclusões dilui, a qualquer momento, as resistências, ao investir no

aumento crescente da docilidade política como complemento da saciedade jurídica10.

O artigo 132 do ECA dispõe que é obrigação de todos os municípios criar,

instalar e ter em funcionamento, no mínimo um Conselho Tutelar enquanto órgão da

administração municipal. Cabe ao município explicitar a estrutura administrativa e

institucional necessárias ao funcionamento dos CTs. Considerado como um órgão

autônomo para desempenhar suas funções legais, o Conselho Tutelar não está

subordinado aos poderes Executivo e Legislativo do município, tampouco ao poder

Judiciário ou ao Ministério Público.

(31)

Conforme o artigo 136 do ECA11, o Conselho Tutelar, ao tomar conhecimento

de fatos que caracterizem ameaça e/ou violação dos direitos da criança e do adolescente,

deve adotar os procedimentos legais cabíveis, e, se for o caso, aplicar as medidas de

proteção previstas na legislação. Cabe a ele tomar providências em nome da sociedade,

para que então cesse a ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente.

O Conselho Nacional da Criança e do Adolescente – CONANDA – recomenda a

criação de 01 Conselho Tutelar a cada 200 mil habitantes, ou caso tenha uma população

menor, quando o município for organizado por regiões administrativas ou tenha uma

grande extensão territorial que justifique a criação de mais de um Conselho Tutelar.

Os municípios que possuem mais de um Conselho Tutelar devem organizar o

processo de escolha de cada um deles, circunscrevendo a participação da comunidade à

área de abrangência de cada Conselho, por exemplo, para a escolha do Conselho Tutelar

da região sul, votam apenas os cidadãos que residem nos bairros que pertencem à

região.

Cabe ainda ao Conselho Tutelar o assessoramento do Poder Executivo para a

elaboração de proposta orçamentária para planos e programas de atendimento dos

direitos da criança e do adolescente.

Por suas atribuições serem consideradas de extrema relevância, com dedicação

exclusiva e somadas as dificuldades encontradas no desempenho da função, a

remuneração deve atingir um patamar razoável conforme determina o CONANDA, que

atualmente é de aproximadamente cerca de um salário mínimo e meio.

Os recursos necessários para o funcionamento do Conselho Tutelar inclusive o

pagamento de salários aos conselheiros deverão estar previstos no orçamento do

(32)

município sendo que o repasse de verba pela prefeitura não estabelece qualquer vínculo

empregatício. Assim, os conselheiros não se subordinam ao município e nem integram o

quadro de funcionários da municipalidade. No entanto, embora não exista a relação de

emprego, aos conselheiros devem ser garantidos em lei os mesmos direitos conferidos

pela legislação municipal aos servidores públicos comissionados para cargos de

confiança, vinculado ao regime geral da Previdência Social. Deste modo, os

conselheiros gozam de licença remunerada 5 saúde, gestantes, etc e férias, sendo

substituídos pelos suplentes.

A comunidade, formada por familiares (pais, mães, tios, padrastos, madrastas,

avós) e por responsáveis pela educação das crianças e adolescentes, como professores e

representantes de instituições locais (igreja, escolas, hospitais, associação de bairros

etc), passou a gerir os conselhos.

01/07/03 – menina nasc. 1/07/98 – relata a avó que a neta B. mora com ela e que a mãe de B. não tem nenhuma responsabilidade com a filha, não dá nenhum auxílio.

25/11/02 – menina nasc. 03/07/87 – mãe da menor mora em MG, quer guarda da filha que mora com o pai e madrasta, tia alega que a menor anda com má companhia, eles não ligam para ela.

(33)

2002 – menino nasc .08/08/97; menina nasc. 07/07/00 avó paterna alega que as crianças foram abandonadas pelos pais e requer guarda”... (Processos instaurados no Conselho Tutelar de São Miguel Paulista,

arquivados em ordem alfabética).

Os conselheiros são escolhidos por meio de eleições diretas, secretas e

facultativas dentre os cidadãos maiores de 21 anos, com reconhecida idoneidade moral e

residência fixa no município, muito embora exista uma variedade de critérios em cada

região. Os quadros dos Conselhos são compostos por cinco conselheiros e cinco

suplentes que deverão responder pelo Conselho Tutelar, por um período de três anos.

Esse processo deve ser conduzido pelo Conselho Municipal de Direitos da Criança e do

Adolescente, sendo permitida uma recondução ao cargo, podendo assim concorrer ao

mandato subseqüente.

Depois de eleito, o conselheiro pode ter seu mandato caçado ou suspenso, caso

descumpra suas atribuições, pratique atos ilícitos ou mantenha conduta incompatível

com a comunidade. Todavia a ação ou suspensão deve ser precedida de sindicância e/ou

processo administrativo.

Dentre suas atribuições destaca5se atender às demandas de cada localidade e às

ocorrências que dizem respeito às crianças e adolescentes, junto à escola, instituições

públicas e à família.

(34)

junho/02 – menina 8 meses pai está com 18 anos vai fazer 19 e é fugitivo da FEBEM, precisa regularizar sua vida, deseja saber se o processo foi arquivado para tirar a documentação. Fugiu em 1997.

08/04/2002 5 meninas. 6 anos/16 anos/14 anos/5 anos/ 1 ano e 6 meses e 2 meninos 5 anos e outro de 10 meses. Mãe está fazendo tratamento de câncer no útero e o pai é viciado em cocaína, agride a genitora e as crianças. Genitora está fugida após espancamento. O pai ameaça fugir com a filha de 6 anos.

(Casos atendidos pelo Conselho Tutelar de São Miguel Paulista).

O ECA legitimou os Conselhos Tutelares com a função de atender a mesma

demanda anteriormente direcionada pela Secretaria; embora as crianças e jovens sejam

os beneficiários dos CTs, aqueles cujos direitos foram de alguma forma negligenciados,

seja por parte dos pais, da família, da escola, do Estado ou da sociedade como um todo.,

é a população mais carente que se torna objeto da atuação desse novo órgão.

A política descentralizadora voltada para o atendimento de crianças e

adolescentes pobres começou a tomar corpo por meio da ação dos Conselhos,

retomando a prática iniciada pela Secretaria do Menor. O que a Secretaria semeou no

final dos anos de 1980, começou a ser colhido ao longo da década de 1990 com a

institucionalização dos Conselhos Tutelares em nível municipal os quais

potencializaram sua força política a partir de campanhas junto à população.

A precariedade dos Conselhos Tutelares no decorrer de sua implementação no

início de 1990 foi sendo superada. Em 1994, considerando 389 municípios do estado de

(35)

Conselhos, formalmente criados, não tinham conselheiros eleitos. Hoje os CTs cobrem

100% da cidade de São Paulo.

A busca pela autonomia da chamada comunidade frente ao Ministério Público

era a principal plataforma política para mobilizar o apoio da população. A comunidade cuidando de si poderia resolver em parte o problema do distanciamento das autoridades

em relação aos entraves vividos numa determinada região. Partia5se da consideração de

que ela conheceria melhor o perfil dos moradores, os serviços sociais a disposição, as

carências materiais, estruturais, enfim as deficiências e queixas mais freqüentes dos

moradores locais.

O Conselho Tutelar acabou tendo um contato muito mais significativo e

constante com as famílias mais pobres habitantes de regiões da cidade de São Paulo

consideradas carentes, onde as condições básicas de habitação, saúde, educação, cultura,

trabalho, transporte e lazer encontram5se defasadas em relação a outras regiões.

Até setembro de 1996, existiam somente 20 Conselhos Tutelares na cidade

de São Paulo, atualmente existem 35 Conselhos Tutelares distribuídos pelas regiões12,

conforme tabela abaixo:

!""# 10 05 02 03 01 20

$%%& 14 10 05 05 01 35

Tabela 1: Distribuição de Conselhos Tutelares por região na cidade de São Paulo. Dados disponíveis em

www.prefeitura.gov.br

12

(36)

As regiões Leste e Sul correspondem a quase 70% dos Conselhos da cidade de

São Paulo. Considerado como um dos critérios de atendimento, dentre outros, o local de

moradia da família e/ou adolescente deve corresponder à região do Conselho, de modo

que, tomando este critério, a maior demanda de atendimentos provém destas regiões.

Enquanto a antiga Secretaria do Menor possuía uma infra5estrutura confortável

sediada num prédio de 12 andares próximo à Avenida Paulista, com biblioteca, salas de

reunião, computadores, funcionários especializados, muitos dados estatísticos

provenientes de seus programas; os Conselhos Tutelares normalmente estão instalados

num espaço agregado, junto de algum órgão público, apresentando5se carente de

recursos materiais, pouco limpo, impessoal, sem boniteza, conforto ou tecnologia.

Porém, com a implantação dos Conselhos Tutelares, tornou5se possível o atendimento

localizado nos bairros, concentrando as demandas em suas próprias localidades,

instalando5se praticamente na periferia da cidade.

Os atendimentos oferecidos às pessoas que procuram o Conselho ficam por

conta de cada conselheiro; normalmente eles dividem a clientela para dar conta da

demanda de atendimentos. Embora se trate de um colegiado, em contato com alguns

conselhos da zona sul e da zona leste, foi me indicado um conselheiro com o qual eu

deveria conversar, evidenciando haver um conselheiro ou outro que se destaca no

colegiado e responde por ele.

Desta forma, sem dispor de uma infra5estrutura como havia na Secretaria da

Criança, o CT, suficientemente arranjado, e democraticamente formado, tomou fôlego

junto à população local e fez funcionar a máquina política por meio de militantes

interessados em cargos públicos, empregos, sobrevivência e estabeleceu um novo

(37)

05/06/2003 – menino nasc. 15/03/93 e menina nasc. 05/04/2000. Genitora requer creche para a filha. A mãe diz que a menina fica em casa sozinha e o menino abusa da menina sexualmente. É viúva há 6 anos e teve o menino, depois da morte do companheiro, morou com outro rapaz e teve uma menina, começou a trabalhar e deixou a filha aos cuidados do filho. Conta que quando foi dar banho na filha ela queixou# se de dor nos órgãos genitais alegando que o irmão colocava o pênis em sua vagina. Informa que o filho vai mal na escola, é revoltado com a morte do pai devido a falta de apoio material.

(Caso atendido pelo Conselho Tutelar de São Miguel Paulista).

Dentre as instituições que fazem contatos com os Conselhos Tutelares, a escola

pode ser apontada como aquela que estabelece uma relação constante, encaminhando

demandas como faltas, mal comportamento, carência material, ausência de

documentação, falta de vagas em creches e escolas, adoção, etc.

Nestes últimos anos, talvez mais acentuadamente a partir da década de 1990,

quando foi votada a Lei de Diretrizes e Bases13, a escola passa por algumas

transformações, sobretudo na cidade de São Paulo, no período desde quando Paulo

Freire assumiu o cargo de Secretário Municipal da Educação no qual permaneceu por

dois anos, durante o governo da prefeita Luiza Erundina.

Na sua gestão como secretário, Freire revitalizou inicialmente o Conselho de

Escola composto por alunos, pais, diretores, professores e funcionários, a partir de um

13A Lei de Diretrizes e Bases foi aprovada em 20.12.1996 e está disponível para consulta em

(38)

projeto criado por Mário Covas no final de seu governo, e engavetado por Jânio

Quadros durante seu mandato na prefeitura de São Paulo até 1989.

Entre o Conselho de Escola e a Secretaria da Educação passaram a existir cinco

conselhos criados para descentralizar os poderes oriundos do secretário.

As Delegacias de Ensino representavam diversas áreas e cada uma delas

administrava cerca de 60 escolas, submetidas diretamente a Secretaria da Educação.

Estas delegacias foram transformadas em Núcleos de Ação Educativa 5 NAEs,

coordenados por sub5secretários. Cada NAE, por sua vez, tinha um conselho formado

pelo coordenador (cargo de confiança do secretário), professores e orientadores

pedagógicos. Estes conselhos ampliados dos NAEs mantinham relações diretas com o

Secretário da Educação.

Desta forma, segundo Paulo Freire, cerca de 40% do poder do secretário foi

cortado em função da capacidade deliberativa que os conselhos possuíam,

principalmente em relação aos problemas vividos no cotidiano das escolas.

Além disso, Freire realizou convênios com diversas universidades para receber

assessoria e trabalhar na formação dos professores e técnicos da rede municipal de

ensino.

No entanto, sua gestão durou apenas dois anos, pois acabou se afastando do

cargo por divergências políticas com o próprio Partido dos Trabalhadores.

Houve um grande esforço na reformulação dos fóruns de decisão, dispostos mais

próximos da comunidade escolar por meio das propostas de Paulo Freire, mas que acabaram não atingindo as práticas cotidianas educativas de fato, visto que com a sua

saída e posterior sucessão da prefeita Luiza Erundina, grande parte da estrutura

administrativa criada na gestão de Freire acabou abandonada e adaptada aos interesses

(39)

As transformações legais trazidas pela LDB/96 proporcionaram desconforto aos

educadores, porque grande parte dos professores da rede estadual e municipal de ensino

desconhecia os novos padrões pedagógicos e curriculares instituídos a partir desta lei.

Uma das questões fundamentais passou a ser o questionamento em relação à progressão

continuada, pois esta implicava na reprovação ou não do aluno.

Estabeleceu5se, a partir daí, uma relação diferenciada entre o professor e o aluno,

uma vez que as práticas educativas escolares, baseadas na ameaça e punição, perderam

pelo menos dois instrumentos relevantes para sua eficácia: a ameaça de reprovação e a

iminência da prova enquanto dispositivos para obter o chamadobom comportamento. Somado a isto convém ressaltar que a família atravessa um processo em que se

estabelecem novas relações amorosas e, portanto, novas convivências dentro de uma

mesma casa. Pai, mãe e filhos deixaram de ser formações familiares recorrentes, hoje

substituídas por uma variedade de pessoas com vínculos e graus de parentescos variados

vivendo sob o mesmo teto, reproduzindo as responsabilidades e relações estabelecidas

antes e introduzindo tantas outras, que passaram a ser exercidas pelo irmão mais velho,

pelo padrasto, ou madrasta etc. Tais redimensionamentos incorporam outros cuja

irrupção deu5se em décadas passadas, e que dizem respeito à entrada da mulher no

mercado de trabalho e a uma nova relação com sua prole. Novas práticas foram

adotadas para lidar com a ausência da mulher em casa durante seu horário de trabalho,

e, embora as soluções encontradas pelas famílias sejam diferenciadas, grande parte

delas vivenciam situações muito parecidas. Muito embora estas transformações estejam

presentes em todas as formações familiares, ainda recai sobre aquelas provenientes de

classes sociais mais baixas a condição de serem tidas como “desestruturadas” nas

avaliações dos programas sociais, bem como das instituições sociais que lidam com

(40)

Para os alunos que apresentam mal comportamento e para os filhos

insuportáveis, o Conselho Tutelar passou a ser, de certa maneira, um novo dispositivo

de ameaça e até mesmo um corretivo utilizado por pais, mães, diretores, professores e

outros mais.

15/04/03.# 6 série # Apresenta problemas disciplinares, atrapalha a aula, é disperso, grita e gosta de chamar a atenção. Colocou o pênis para fora na aula de educação física. A escola comunica que ele será transferido e a mãe está de acordo. A outra escola recusou a matrícula do aluno e encaminhou novamente para o Conselho Tutelar.

(Comunicação de uma EMEF ao Conselho Tutelar de São Miguel

Paulista).

17/04/03 # Masc. nasc. 19/03/91 – 5 série Ensino Fundamental # o garoto se comporta de maneira inadequada, responde com ares de deboche, não respeita regras internas e atrapalha a aula. Diz que ninguém gosta dele, nem os pais. A mãe se julga incapaz. Escola pede para tomar as medias previstas no Art. 22, Art. 10 inciso II/IV Art. 129 inciso III, IV e VI e Art. 36 parágrafo I e II.

(Comunicação de uma escola estadual ao Conselho Tutelar de São

Miguel Paulista)

É esta relação inusitada que se realiza a partir da existência do Conselho Tutelar.

Ele passou a ser uma instituição marcada por uma nova tecnologia de poder que

(41)

ser escola. A existência do Conselho Tutelar compôs um espaço voltado para a punição

e disciplinarização das crianças e adolescentes que infringem os limites determinados

pela escola e pela família, tornando5se comum a ameaça de encaminhar o desobediente

ao Conselho, por parte de pais e professores.

'

No percurso institucional da criança e do adolescente violentados14, deparei5me

com a presença implacável do Conselho Tutelar, afinal, é lá que vão parar os casos que

transbordam das escolas, das famílias e da comunidade.

A família, por meio do direito familiar, exerce sobre a criança e/ou adolescente

certas práticas educativas calcadas em ações mais ou menos violentas, o que de certo

modo é tolerado pelo Estado, legitimando um modelo educativo baseado na repressão,

inclusive física. Ele realiza o jogo de interesses que, de um lado, reconstrói a autoridade

no interior da família para sua própria preservação, e de outro, institui o espetáculo das

punições quando as violências praticadas especificamente por pais, mães e/ou

responsáveis transbordam para o âmbito público e aí passam a ser entendidas como

abuso de autoridade, nomeadas como maus5tratos e não como violências.

Porém, atos violentos são quaisquer uns praticados por quem quer que seja, que

venham submeter crianças e adolescentes à vontade de outrem, desconsiderando5os

como gente. Qualquer que seja a forma desta ação, pelo constrangimento, ameaça,

agressão física, psicológica ou sexual, ela denota uma violência e deve ser entendida

como tal, não para satisfazer o sistema de vingança imposto pela penalização, mas para

enfatizar o respeito à individualidade das crianças e adolescentes, e reafirmar a

(42)

importância do investimento em novas sociabilidades a partir de outras ações educativas

baseadas no respeito mútuo entre crianças e adultos.

Os encaminhamentos dos casos considerados insolúveis no plano da escola,

revelam o distanciamento da instituição em relação aos alunos, os comportamentos

insuportáveis passaram a compor a demanda dos CTs enquanto interlocutores dos

desvios e dos problemas disciplinares apresentados pelas crianças e jovens matriculados

nas escolas.

26/09/02 #Menino de 5ª série.# Encaminhamos cópias dos relatórios de comportamento e atitudes do aluno F.: mãe do aluno é ameaçada pelo aluno, não se interessa em estudar, alega vir a escola por imposição da mãe, não gosta de estudar coisa nenhuma, nem aprender nada, diz que gosta de andar pela rua, jogar pebolim, seus amigos pagam (são trouxas). Diz que é muito nervoso, relata conhecer bandidos para socorrê#lo. Tem horror a ficar preso, conta que quando era pequeno a mãe o deixava trancado em casa e ele ficava desesperado.Diz ter raiva porque alguns alunos mexem com ele na escola. Diz saber muita coisa em relação ao sexo. Afirma que jamais terá filhos, filhos é só prejuízo, só despreza as mulheres, exploram os homens pedindo pensão e não confiam em ninguém e o irmão é a única pessoa que ele gosta e afiram que seu irmão é pior do que ele.

(43)

Estava tremendo e foi falar com a coordenadora, queria ir embora. O que ele quer é não estudar é ficar na rua. Não quer aprender nada, porém vai ficar muito rico... mesmo sem trabalhar.

(Extraído do acervo de comunicações das escolas ao conselho tutelar de

São Miguel Paulista)

Investindo em direção à cartografia das descobertas feitas no decorrer desta

pesquisa, depreendi uma primeira proposição que a atravessou: a escola não toma

conhecimento da violência doméstica, pelo contrário, ignora5a, pois parece que para ela

a violência contra uma criança é um problema legal e não educacional e/ou pedagógico.

Esta visão legalista de certa forma ameniza as responsabilidades ao repassar o problema

para a autoridade competente, pois a escola almeja restabelecer a ordem calcada no

princípio da justiça, que imputa as devidas penalizações aos agressores e isto é o que

importa: os direitos assegurados e a proteção garantida, subtraindo uma

responsabilidade, que para muitos educadores, trazem transtornos e complicações

insolúveis dentro da escola.

Assim, percebe5se que o Conselho Tutelar acabou de certa maneira tornando5se

um tipo de poder distinto da escola, pois ele não deve educar, nem punir, nem

sentenciar, mas proteger no sentido mais amplo da palavra, e é esta a função emblemática que tornou a defesa das crianças e jovens uma justificativa política para

produzir um novo espaço institucional voltado muito mais para o controle do que para a

disciplina.

O Conselho Tutelar consolidou seu poder político, interagindo entre a família e a

escola, juizes e instituições públicas, alunos e professores/diretores de escola,

(44)

17/02/03 EMEF – menino 1 série ciclo II – R. apresenta problemas de relacionamento, envolve#se em confusões, é extremamente agressiva, tentou pegar um relógio de um aluno arrastando#o para o banheiro. A mãe diz não saber mais o que fazer com o filho. Diz a escola: solicitamos assistência, pois a escola está fazendo o que é possível

(Comunicação de uma EMEF ao Conselho Tutelar de São Miguel

Paulista)

10/09/03 EE – adolescente – A adolescente apresenta agressividade e ateou fogo na porta da sala de aula. A escola solicita medida sócio# educativa e acompanhamento psicológico. Requer que seja aplicada a lei 8.069 do ECA no título IV art. 12915.

(Comunicação de uma escola estadual ao Conselho Tutelar de São

Miguel Paulista)

O Conselho é atravessado pela disputa política de grupos eleitoreiros ligados aos

partidos políticos, à Igreja, comunidades de bairro e tantas outras instituições e, assim

como a Secretaria do Menor, inverteu também a relação clientela5burocracia, em que o

beneficiário passou a ser muito mais a pessoa do conselheiro do que a criança e o

jovem, que continuam expostos aos abusos e violações.

No Conselho Tutelar as práticas múltiplas acabam governando: o pai, a mãe, o

pedagogo, o psicólogo, enfim aquele que sabe governar a própria família, que faz

(45)

repercutir seus efeitos na comunidade e no indivíduo, sem burocracia, os cidadãos que

se destacam na comunidade passaram a zelar pelos seus vizinhos.

Na sociedade disciplinar predominam os espaços institucionais onde a principal

tática se instaura na prática dos confinamentos em escolas, hospitais, fábricas etc. A

passagem da sociedade disciplinar para a de controle opera a substituição do

confinamento para a prática do controle contínuo e intermitente. No entanto é preciso

compreender que ambas são complementares, seria impreciso anunciar o fim da

disciplina e o início do controle, pois há um entrelaçamento entre as duas que permite a

coexistência de ambas.

É neste sentido que o Conselho Tutelar incorpora esse novo modelo institucional

que acaba por abrir espaço a determinados fluxos de forças que advém da escola,

família, comunidade, interagindo com instituições disciplinares ao mesmo tempo em

que está plenamente adequado ao exercício do controle e da participação, devidamente

garantidos pela segurança de que estamos vivendo sob a proteção de leis mais

democráticas.

O ECA investiu e vem investindo em movimentos participativos, conclamando a

sociedade a tomar parte nas decisões e ações voltadas para as crianças e/ou

adolescentes, pois segundo o próprio Estatuto este é um problema de todos os

brasileiros.

O CT, criado em nível municipal, é um desses fóruns consagrados como espaço

destinado à participação direta da população nas questões referentes às crianças e

jovens.

Vivenciamos uma série de investimentos que são claramente voltados

não somente para a docilização dos corpos, mas também para levar cada um de nós a

(46)

aos fóruns democráticos dentro e fora do Estado. É neste sentido que Passetti (2007)

afirma que as minorias são capturadas pela democracia participativa formando5se

grupos e mais grupos, que por meio da participação direta ou indireta nos projetos

sociais, e a partir de uma infinidade de técnicas de inclusão social, acabam não se

revelando mais como resistências ativas, mas, ao contrário, tornam5se parte constitutiva

do governo do Estado e do governo da Vida.

O discurso de proteção dos anos de 1990, não investe mais na institucionalização

procedimental, mas em operações que se dão em espaços considerados democráticos,

nos quais, por meio de um mecanismo quase preciso, corrobora objetivamente a

composição do cidadão do século XXI, participativo, livre, e, paradoxalmente mais

dependente dos serviços, dos bens de consumo, das clínicas de estética, menos próximo

de si mesmo e de sua condição social e política, e sob o controle eficaz e de longo

alcance instaurado nos diversos espaços de participação. É mais do que o exercício da

disciplina e da biopolítica, que investia minuciosamente na vida de cada um e da

espécie sob a mira dos mecanismos de poder que se reproduziam a todo o momento.

O Conselho Tutelar funciona como desdobramento da política municipal

desenvolvendo uma ação política local, espelhado no princípio de cidadania e baseando5

se nos direitos instaurados coletivamente; busca respostas legais aos conflitos trazidos

diariamente, porém não reverencia a individualidade de cada criança ou adolescente. As

localidades específicas, delineadas, próximas das ocorrências materializam uma

descentralização geográfica e administrativa devidamente atreladas aos padrões de

poder impostos pelo Estado e pelas leis.

Dentre as 63 comunicações feitas por escolas estaduais e municipais ao

Conselho Tutelar de São Miguel Paulista, na cidade de São Paulo em 2004, analisadas

(47)

crianças/adolescentes. A informação foi fornecida pelas escolas a partir do

levantamento quantitativo dos alunos que excederam o número de faltas permitidas pela

Lei de Diretrizes e Bases, sem prestar quaisquer outras informações sobre quem eram

estas crianças, como viviam e por que elas deixaram de ir a escola. Nestas

comunicações das escolas ao Conselho Tutelar, elas solicitam a ciência do número

exagerado de faltas para que, legalmente, a direção e os professores possam reprovar os

alunos em questão, pois a LDB/96 preconiza que o aluno só poderá ser retido caso o

número de faltas cometidas exceda a 25% da presença, sem justificativa. Ao Conselho

Tutelar basta saber o nome da criança e a escola em que estuda, para que assim seja

cumprida a lei, que determina a observação do Conselho Tutelar para possível

reprovação do aluno faltoso.

Neste caso também, o direito se explicita como dever para garantir, mais uma

vez, o estatuto do Estado que foi privilegiado. A escola necessita da legitimação do

Conselho Tutelar não para defender os direitos da criança, mas para registrar o não

cumprimento dos deveres, legislando aí, em favor, do Estado.

A escolarização desempenha um papel histórico acerca dos diversos interesses

políticos que emanam do Estado por meio das grades curriculares, preparando os

futuros cidadãos para o mercado de trabalho e proporcionando uma “boa educação”

calcada na obediência e no bom comportamento. Proudhon (2000), ao criticar a

educação servil propiciada pelas escolas, advertiu que uma educação desigual

corresponde a uma sociedade desigual, pois se trata de uma educação servil que visa

oferecer saberes que conduzem à submissão e a obediência de acordo com os interesses

das classes dos proprietários. A escola acaba obtendo a obediência por meio da

desigualdade social e cultural dos estudantes. Na sociedade atual pode5se acrescentar ao

(48)

fazendo com que o ensino desigual seja amplamente distribuído e assegurado para todas

as crianças sob a rubrica oposta: de que a escola para todos contribui amplamente para a

formação de cada um se ajustando aos princípios democráticos. A escola obrigatória

enfatizou a obediência, no entanto, na sociedade de controle a presença dos alunos

passou a ser controlada mais do que o próprio saber, tanto é que a retenção de alguém

na mesma série cursada está condicionada somente ao excesso de faltas cometidas

enquanto que as notas são negociáveis. As escolas estatais chegam a contratar o

chamado professor substituto para trabalhar com as turmas em que o professor titular

esteja ausente, evitando desta forma a descaracterização de um dia letivo. Neste sentido

a presença é obrigatória e fundamental para alunos e professores, enfatizando os

cuidados institucionais voltados para o controle efetivo em torno da presença16.

A sociedade disciplinar, conforme mostraram os estudos de Foucault17a respeito

das instituições, investiu na determinação dos gestos, apreensão das vontades e das

mínimas manifestações, exercendo um controle descontínuo e intenso. A

institucionalização permitiu que cada indivíduo ocupasse então o seu lugar e que cada

lugar fosse vigiado, sob olhares atentos, voltados para tornar todos mais obedientes e

mais produtivos na mesma proporção. Na sociedade disciplinar o corpo era o alvo do

exercício dos poderes e foi sobre ele que grande parte desta tecnologia de poder foi

exercida.

Pode5se dizer que a instituição escolar desenvolveu uma tecnologia voltada para

disciplinar não só os alunos, mas também os professores, estabelecendo mecanismos de

exercício de poder como castigos mediante mal comportamento, advertências, expulsão,

sistema de notas, avaliações etc. Se as sociedades modernas podem ser definidas como

sociedades disciplinares, a disciplina não pode ser identificada com uma instituição nem

16A esse respeito ver Stirner (2000).

17

(49)

com um aparelho, porque ela é uma tecnologia, uma tecnologia de poder, que atravessa

mais do que aparelhos e instituições. Ela pretende perpetuar5se.

A disciplinarização institucional, embora ainda presente em nosso cotidiano,

convive com uma outra tecnologia de poder, voltada às novas práticas sociais,

educacionais e políticas. Trata5se de institucionalizações que vem sendo implantadas na

sociedade de controle de forma democrática e irreversível. O controle passou a fazer

parte na sociedade de uma rotina por meio da qual se dissemina a utilização de recursos

tecnológicos, que substituíram o panoptismo por outras vigilâncias, ampliando o campo

de ação dos poderes entrelaçando5os, identificando e capturando desvios que

ultrapassam os espaços delimitados, para executarem5se a céu aberto.

Esta foi a segunda proposição elaborada durante a pesquisa: os Conselhos

Tutelares tornaram5se espaços descentralizados, maquinarias de controle cujo exercício

de poder produz um fluxo político em relação às crianças, bem como os interrompe e

distribui valendo5se para isso, diferentemente dos internatos, não só dos atendimentos

individualizados, mas da expedição de advertências verbais ou escritas, de

encaminhamentos e intervenções nos órgãos públicos, procurando suprir a falta destes

junto à população atendida.

11/10/02 – B. nasc. 23/12/91 e M. nasc. 18/07/96 segunda via de certidão de nascimento.

Imagem

Tabela 1: Distribuição de Conselhos Tutelares por região na cidade de São Paulo. Dados disponíveis em www.prefeitura.gov.br

Referências

Documentos relacionados

A solução, inicialmente vermelha tornou-se gradativamente marrom, e o sólido marrom escuro obtido foi filtrado, lavado várias vezes com etanol, éter etílico anidro e

De modo geral, a análise comprova que há instâncias modalizadoras que perpassam os discursos oficiais dos candidatos em observação, donde se originam as promessas e

h) Promover a transferência das metodologias e tecnologias sociais, geradas no âmbito do PNQ, aos gestores do Sistema Público de Emprego. f) A integração do Plano Nacional

Não urbana 7 Área predominantemente rural 4 Tipo de jogo Raspadinha Reforço imediato Slot Machines Bingo Jogos de casino Jogos de cartas a dinheiro Jogos de dados a

Questão 4: Verificar se valor em porcentagem de álcool na gasolina está dentro dos limites especificados pela ANP (Agência Nacional de Petróleo). Vá até a

Conclui-se que devido ao mecanismo de ação e composição, os cosméticos alisantes podem causar graves danos à estrutura capilar sendo de grande importância o conhecimento

No que se refere a custos do proprietário, que englo- bam a administração geral do empreendimento, o treinamento de pessoal de operação, a construção_de vilas para o pes- soal

• The definition of the concept of the project’s area of indirect influence should consider the area affected by changes in economic, social and environmental dynamics induced