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Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo PUC – SP Maria Aparecida dos Santos

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Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo PUC – SP

Maria Aparecida dos Santos

Autoria: as injunções do jogo significante

Doutorado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem

(2)

Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo PUC – SP

Maria Aparecida dos Santos

Autoria: as injunções do jogo significante

Doutorado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem

Texto apresentado à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da

Linguagem, sob a orientação da Profa. Dra. Maria

Francisca de Andrade Ferreira Lier-Devitto.

(3)

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________

Dra. Maria Francisca de Andrade Ferreira Lier-Devitto

_____________________________________

Dra. Eliane Mara Silveira

_____________________________________

Dra. Lourdes Maria de Andrade Pereira

_____________________________________

Dra. Lúcia Maria Guimarães Arantes

_____________________________________

(4)

Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese por processos fotocopiadores ou eletrônicos.

Assinatura:_______________________________________

(5)

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus pelo conforto, acolhida e proteção.

À Professora Dra. Maria Francisca Lier-DeVitto, pela orientação

paciente e atenta e pela exigência e rigor das leituras e comentários

feitos a este trabalho.

Às Professoras Lúcia Arantes, Suzana Fonseca, Eliane Silveira

pelas leituras e direcionamentos rigorosos da pesquisa durante os

exames de qualificação.

À secretária do LAEL/PUC-SP, Maria Lúcia dos Reis, pelo

profissionalismo, solidariedade e disponibilidade.

A todos os colegas do Grupo de Pesquisa Aquisição, Patologias e

Clínica de Linguagem, pelas contribuições nas discussões no decorrer

de minha formação.

À Zélia, Albertina, Lourivaldo, Lourizelma, Anna, Miguel, Matheus

e Aurinandes, pela compreensão, incentivo, apoio e orações.

À amiga Rosiane Cristina Gonçalves Braga pelo carinho, amizade

e apoio de sempre.

À Kerly Grellmann pelo apoio e parceria no trabalho.

A Vera Pires, Julma Borelli, Sheila Maciel, Maraísa Arsénio e Ana

Vera Raposo pela amizade e apoio.

(6)

Subsiste, empero, un enigma. ¿Cómo puede el signo sostenerse unido en ausencia de toda relación interior, en ausencia de un mítico amo de las palabras, en ausencia

de todo punto fijo externo? Aquí interviene uma de las innovaciones más importantes

(7)

RESUMO

Esta tese retoma a questão da autoria, abordada no texto de Michel Foucault ([1969] 2002): “O que é um autor?”. O objetivo é (re) colocar a problemática da autoria por outro ângulo, não determinado unicamente pelo vértice do imaginário, em que o autor se encontra situado como origem de seu ato. Foucault, ainda que de outra posição, ao discutir a noção de autor, abala a identificação/ligação estreita e tradicional entre autor e indivíduo, ao propor a

função-autor para o exame das relações entre o autor e o texto. Para tanto,

considerou que na indiferença do enunciado encontra-se uma regra imanente da escrita contemporânea. Uma escrita que, segundo Foucault, não se obriga

com uma interioridade, já que é “jogo de signos comandado menos por seu

conteúdo significado do que pela própria natureza do significante” (FOUCAULT, [1969]2002). Dois motivos explorados nesta tese circunscrevem o sentido de ‘indiferença” na obra de Foucault: (1) a escrita libertou-se da ligação a uma expressão subjetiva - ela só se refere a si própria; (2) a escrita tem parentesco com a morte. Para observar o funcionamento deste jogo de signos, quando se discute autoria, parte-se da leitura da língua enquanto sistema descrito por Saussure ([1916] 2006), buscando levantar: (1) como Foucault articula a relação com a exterioridade do discurso e a língua, que só conhece sua ordem própria (as leis de referência interna da linguagem)?; (2) De que modo relaciona jogo de signos e a natureza do significante? e (3) o conceito saussuriano de a língua, definida como “sistema de valores” está presente na discussão foucaultiana sobre a autoria? As respostas a esses questionamentos foram relacionados ao referencial teórico estabelecido pelo Grupo de Pesquisa Aquisição, patologias e clínica de linguagem (LAEL-Derdic/CNPq), de que a Profa. Dra. Maria Francisca Lier-DeVitto e a Profa. Dra. Lúcia Arantes são coordenadoras. A importância ali atribuída à ordem própria da língua e ao significante permitiu uma leitura diferenciada em relação às discussões de Foucault, segunda uma visada outra do que representou o retorno a Saussure (MILNER, 2002) nos anos de 1980. A natureza do significante apontou para tensões constitutivas e para uma relação faltosa na articulação de uma obra ou texto a um sujeito – há não-coincidência do sujeito consigo mesmo, e também não-coincidência dele com sua escrita. A aposta no significante (e não no significado), em que há ênfase nas leis de referência interna da linguagem (e não na exterioridade discursiva), demandaram diferenças em relação à discussão da questão da autoria, indicando avanços e limitações em sua problematização pelo filósofo.

(8)

ABSTRACT

This thesis retakes the issue of authorship, discussed in the text of Michel Foucault ([1969] 2002), "What is an author?" The aim is to (re)put the issue of authorship from another angle, not determined only by the imaginary vertex, where the author is situated as the origin of his act. Foucault, albeit in another position, discussing the author's notion undermines the identification/strict linkage and traditional between author and individual proposing the author-function for inspecting relationship between the author and the text. For that, it considered that the statement of indifference is an immanent rule of contemporary writing. A writing that, according to Foucault, is not obliged with an interiority, since it's "set of signs headed fewer by its content meaning that by nature itself of the signifier" (Foucault, [1969] 2002). Two reasons explored in this thesis delimit the meaning of "indifference" in Foucault's work: (1) the writing has freed up to connecting to a subjective expression - it only refers to itself; (2) the writing is related to the death. To observe the operation of this set of signs, when discussing authorship, parts it from the reading language while system described by Saussure ([1916] 2006), seeking to raise: (1) "as Foucault articulates the relation with the exterior of speech and language that only knows its own order (laws of internal reference of the language)" ?; (2) How relates set of signs and the nature of the signifier? and (3) "the Saussurian concept of the language, defined as" value system "is present in Foucault's discussion of the authorship?". The answers to these questions were related to the theoretical framework established by the Research Group Acquisition, disease and clinical language (LAEL-Derdic / CNPq), that Prof. Dra. Maria Francisca Lier-DeVitto and Prof. Dra. Lucia Arantes are coordinators. The importance attributed to there to its own language and the significant allowed a differentiated reading with respect to Foucault's discussions, second a target other than represented a return to Saussure (MILNER, 2002) in the 1980s. The nature of significant pointed to constitutive tensions and to a faulty connection in the articulation of a work or a text to a subject - there is non-coincidence of the subject with himself, and also non-coincidence of him with his writing. The focus on significant (and not in the meaning), where there is an emphasis on laws of internal reference of language (and not in the discursive externality), demanded differences from the discussion of the issue of authorship, indicating advances and limitations in its questioning by the philosopher.

(9)

SUMÁRIO

1. Considerações iniciais 10

1.1. Preâmbulo 10

1.2. Um texto acadêmico: (re)colocando a problemática da

autoria

14

2. O ensaio “O que é um autor”, de Michel Foucault: algumas

anotações

24

2.1. Da descontinuidade como conceito operatório em Foucault 30

2.2. Fundação da ciência Linguística: a noção de sistema em

Saussure

38

2.3. “Que importa quem fala?” A escrita na contemporaneidade 49

2.3.1. O jogo de diferenças opositivo-negativas entre escritor,

autor e função autor: a língua enquanto sistema para

Foucault

55

2.3.2 O nome próprio e o nome do autor entre a designação e a

descrição: característica e função

63

2.4. Foucault: a paradoxal singularidade da função autor 72

3. A questão da autoria e a ordem própria da língua 82

4. Considerações finais 91

(10)

1. Considerações iniciais

1.1. Preâmbulo

Esta tese retoma e discute uma questão difícil: a circunscrição da noção de autoria. Ela é abordada num texto fulgurante de Michel Foucault: “O que é um autor?”. Ter como título uma pergunta indica que “autoria” é assunto aberto,

que pode ser trabalhado a partir de ângulos.

De fato, é autor aquele que assina um texto? É autor o estudante que

escreve um relato, que desenvolve uma narrativa? Quem escreve uma tese é

um autor? Uma criança que ganha certa autonomia na escrita é um “autor”?

Vemos que o termo se estende e, nesse movimento, sua precisão se dissolve.

Foucault enfrenta a questão e oferece uma direção que orienta este trabalho,

não para fazer eco com ela, embora reconheça a presença ímpar deste autor

no tratamento deste assunto, que admita sua consistênsia e consistência.

Adianto, com isso, que a parte 2 é dedicada à apresentação de “O que é um

autor”.

A escolha deste tema decorre, no meu caso, da minha dissertação de

mestrado. Nela, já partindo pretensamente da concepção de um sujeito cindido,

descentrado, atravessado pelo inconsciente e, considerando que no discurso

de um sujeito podiam ser observados rastros de ressonâncias de discursos

outros que nele se disseminavam, constituindo-o heterogeneamente quando de

sua produção, perguntava-me como era descrita a delimitação de fronteiras

discursivas. Se o sujeito era constituído por discurso, buscava analisar como se

poderia observar a recomposição da subjetividade se ela se esfacelava tanto,

(11)

Um dos autores que constituiu minha base teórica nesse momento foi

Michel Foucault, cuja análise dos fatos históricos por meio do conceito de

descontinuidade me chamava muito a atenção, especialmente sua fala sobre

as escansões, em que “quando se desce para bases mais profundas, as

escansões se tornam cada vez maiores”. ([1979]2000, p. 3.) – o que me levava

a questionar as fronteiras discursivas. A observação da descontinuidade em

relação aos discursos e, portanto, ao sentido, parecia contradizer a noção de

discurso e sua vinculação à posição ocupada pelo sujeito. Como falar em um

discurso, em uma posição, se o que há são descontinuidades? Dizer que,

“quando se desce para bases mais profundas, as escansões se tornam cada

vez maiores” equivale à observação de um número maior de escansões ou

junção das descontinuidades na formação de um todo? Nesse sentido, se a

busca era pelo recorte e limite – o que muito me interessava na época em

Foucault – a descontinuidade marcava a dispersão, mas também a lacuna

entre um e outro? A descontinuidade, enquanto acontecimento discursivo, era

o que se intercalava entre um e outro contínuo?

A passagem da consideração do autor enquanto origem do seu dizer

àquele que não controla seu dizer parece retomar este último posicionamento.

Do mesmo modo, a escrita portadora do sentido do sujeito e liberta de sua

expressão de interioridade – impossibilitando a amarração de um sujeito em

uma linguagem - parece também estar na mesma direção. Ou, por outro lado,

Foucault radicalizava: o que existiam eram apenas descontinuidades?

Aliados a esse conceito de Foucault, observei, incipientemente, os

termos territorializações, de Deleuze, e contra-identificação, de Pêcheux. O

pontapé inicial dessas questões foram as inquietações experimentadas durante

o curso de algumas disciplinas no mestrado, em que, para algumas, houve a

realização de trabalhos que envolviam uma descrição de relações simétricas

entre discurso e lugar ocupado pelo sujeito, analisando entrevistas feitas entre

informante e documentador para o Projeto NURC (Projeto da Norma Urbana

Culta do Estado de São Paulo), por meio da descrição de regularidades

discursivas como pertencentes a discursos de professor, de cientista, de

(12)

discurso-lugar ocupado pelo sujeito. Se o sujeito já não é a origem de seu dizer, como

ainda se podia falar de tal ou tal discurso em relação à posição ocupada?

Pensar na heterogeneidade discursiva, observando a complexa

intricação de vozes1 - termo tal como empregado por Bakhtin -, como passível

de ser percebida em um discurso, levou-me a uma reflexão sobre como era

pensado o estabelecimento de fronteiras que demarcava a diferença entre, por

exemplo, o discurso de um burguês capitalista e o de um letrado. Os dois

discursos pareciam manter uma relação de interdependência. O primeiro

dizendo da divisão entre trabalho braçal e trabalho intelectual; o segundo, de

certa forma, estabelecendo a mesma divisão por meio da escolaridade. Os dois

podiam estar tão relacionados, a ponto de, em certos trechos das entrevistas

observadas, não se poder dizer, a relação de pertença entre discurso e sujeito.

A esta altura, perguntava-me: se a heterogeneidade proporcionava ao

sujeito a possibilidade de ser constituído por uma quantidade ilimitada de

discursos, como se podia dizer que esses mesmos discursos, em algum

momento, possam ser delimitados, já que um passa a fazer parte do outro,

constituem-se como fios discursivos da trama? Assim, parecia não bastar dizer

que o sujeito se constituía heterogeneamente, mas que o próprio discurso era

já por si só uma heterogênese, termo tal como discutido por Deleuze e Guattari

(1996), não estando, portanto, imune ao movimento da constituição do sentido

e, por conseguinte, do sujeito. Restava saber como se dava esse movimento.

Essa reflexão, em se observando um discurso, estabelecia uma quase

não existência de zona fronteiriça entre os mesmos. No relacionar desse

discurso com o exterior, com a posição ocupada pelo sujeito, é que se podia

dizer da delimitação do discurso, assim como está pressuposto no referencial

teórico e metodológico da Análise do Discurso: para se encontrarem "as

regularidades da linguagem em sua produção, o analista do discurso relaciona

a linguagem à sua exterioridade" (ORLANDI, E. 1999:16.). Por que não se

consegue o intento a partir também da interioridade? Por que um polo ou

outro?

1

(13)

No desenvolvimento da discussão, observava que a delimitação interna2

dos discursos já não podia ser tão facilmente percebida e remetia à discussão

do interno e externo para o texto “A ordem do discurso”, de Foucault. A

impossibilidade de observação interna dos discursos e a vinculação do sentido

ao exterior ainda me incomodavam.

Duas considerações ainda me chamam a atenção quando fiz a análise

de dois discursos e observei a questão de fronteiras discursivas em minha

dissertação:

a. O de número 1 apresentava um grau maior de despersonalização, de

desterritorializações várias, com um grau maior de distanciamento

entre os estratos que o constituíam. As conexões pareciam ser

estabelecidas com um grau maior de resistência.

b. O de número 2 parecia poder possibilitar a observação de um grau

maior de aproximação entre as linhas que o constituíam. Existiam

linhas de fuga. No entanto, estas pareciam poder ser retomadas por

meio de uma conexão com um grau muito mais favorável em relação

ao ponto a que se conectava.

Diante destas duas situações, perguntei-me se se poderia afirmar

preliminarmente que, em se tratando da existência de linhas de fuga que mais

se distanciavam do que se aproximavam, a presença do sujeito, com sua

projeção na produção de um discurso, seria maior no primeiro do que no

segundo discurso observado.

Minha consideração precariamente fundamentada a respeito disso

direcionava a discussão para um exercício de despersonalização, no primeiro

caso, o que tornaria um discurso singular. No segundo discurso, essa atividade

de despersonalização parecia não ser tão intenso, resultando em repetibilidade

e reprodução. Talvez aqui pudesse ter visto um movimento interno e tivesse

reconsiderado a relação discurso e exterioridade na constituição do sujeito.

Aqui, utilizava o termo despersonalização e o ligava à singularidade. Dois

conceitos que pareciam não poder se relacionados.

2

(14)

Ainda no encalço destas questões, no doutorado, propus-me a discutir a

questão da autoria. No curso das disciplinas e na participação do Grupo de

Pesquisa Aquisição, patologias e clínica de linguagem (LAEL-Derdic/CNPq), encontrei-me com uma nova leitura de Saussure e da questão do signo. Para

aquém disso, Foucault discutia o que era um autor a partir de determinada

concepção de escrita em que se podia analisar o jogo do significante. Aqui foi

possibilitada uma ponte entre Saussure e Foucault para discutir as minhas

questões anteriores.

Como disse antes, não poderia discutir autoria sem fazer referência ao

ensaio “O que é um autor”, de Michel Foucault. Na leitura do texto, deparei-me

com a pergunta retomada de Beckett: Que importa quem fala? Da mesma

forma, como se pode ver retornando sempre em meu texto, fixei os olhos na

concepção de escrita de Foucault, em que no jogo dos signos, importava

menos o significado do que o jogo significante. Isso parecia se relacionar com a

questão do interior que eu perseguia antes, ao mesmo tempo em que se

voltava para o exterior, visto que quem estabelecia as discussões era Foucault,

cuja mão sobre o sentido pesava sobre esse quesito – a relação sentido e

exterior. Foi para iniciar a discussão sobre autoria que observei os textos

acadêmicos, acompanhando as discussões do grupo de pesquisa e

relacionando-as com as leituras que fazia de Saussure e de Foucault.

Delineei, como se pode ver adiante, algumas questões que poderiam ser

desenvolvidas a partir do ensaio de Foucault.

1.2. Um texto acadêmico: (re)colocando a problemática da autoria

Naobservação de textos acadêmicos universitários, espera-se deles que:

a) tenham fecho, unidade, coerência, sendo, portanto, concretos,

(15)

b) sejam bem organizados, logicamente encadeados (itens ou capítulos),

atendendo, assim, à demanda universitária de sempre explicitar conceitos,

antes de utilizá-los;

c) contenham paráfrases esclarecedoras;

d) apresentem boa estruturação da escrita, de forma que esta seja

compreensível até mesmo para não iniciados numa determinada linha teórica.

Espera-se, enfim, que tudo deva estar claro, bem desdobrado,

explicado, resumido; tentativa, a meu ver, vã de controle do jogo significante e

de seus efeitos de sentido, empenho de contornar o equívoco de forma a

deixar a impressão de que houve controle pelo escrevente sobre o objeto de

estudo e sobre texto.

Numa tese acadêmica, a insistência nessas exigências de tudo ser bem

definido, desdobrado, explicado, explicitado com clareza para sustentação do

trabalho e da linha teórica relaciona-se à sua avaliação posterior por figuras de

autoridade da banca examinadora, da instituição, do departamento a que se está vinculado, dado que o texto é apresentado para defesa. Trata-se de figuras revestidas de poder que são também constitutivas da posição de sujeito-escrevente. Estas exigências constroem o imaginário de ser possível garantir consistência para o trabalho e coincidência entre fala/escrita e sujeito.

Nesse sentido, um aspecto, que discussões voltadas para o tema da

autoria colocam, é o de que a pessoa “seja sujeito de/em sua escrita”, que

“garanta coesão e coerência”; enfim: que sustente a relação entre

responsabilidade e autoria. O autor seria, então, alguém “responsável pelo

texto?”. De fato, falamos em “responsabilidade” quando examinamos

diferenças entre intertextualidade3 e plágio; quando apreendemos os

mecanismos linguísticos de dissimulação do texto alheio ou quando

procuramos atribuir um termo ou expressão a uma pessoa, por exemplo.

Trata-se, sempre, de alguma forma, de reconhecer a “responsabilidade” por um texto.

Desse modo, discutir a questão da autoria faz emergir um dos atributos

do que constitui o imaginário do que é um autor, do que é autoria. Sim, porque

3

(16)

“responsabilidade” diz respeito à suposição de que aquele que tenta atingir

essa condição estaria situado como origem de seu ato. Um sujeito que, por

isso, seria dono do seu dizer, sujeito centrado, capaz de expressar o que o

constitui como autor.

Frente a isso, a proposta deste trabalho é (re) colocar a problemática da

autoria por outro ângulo, não determinado unicamente pelo vértice do

imaginário. Pretende-se uma reflexão sobre o gesto de escrita que relaciona

um texto a um sujeito, que pode ser dito seu autor. Importa dizer que, ao longo

da história, essa relação nem sempre foi requerida, mas se tornou

imprescindível quando foi necessário responsabilizar (e punir) juridicamente

aquele que escreveu o texto:

Os textos, os livros, os discursos começaram efetivamente a ter autores (outros que não personagens míticas ou figuras sacralizadas e sacralizantes) na medida em que o autor se tornou passível de ser punido, isto é, na medida em que os discursos se tornaram transgressores (FOUCAULT [1969] 2002, p. 47).

Segundo o autor, a consideração dos textos enquanto propriedade, produto ou bem ocorreu no fim do século XVIII e começo do século XIX. Até então, eram considerados atos, cuja caracterização situava-se entre o sagrado

e o profano, o lícito e o ilícito, e poderiam repercutir na transgressão da ordem

religiosa ou política. Nesse sentido, surgiu a necessidade de identificação dos

transgressores, cujos atos poderiam atingir a estrutura da sociedade

estabelecida, abalando seus pilares. Importa também assinalar que a prática

da escrita é criminalizada concomitantemente ao nascimento do capitalismo.

Por outro lado, Foucault observava que nem sempre foram os mesmos textos a pedir uma atribuição:

Houve um tempo em que textos que hoje chamaríamos

“literários” (narrativas, contos, epopéias, tragédias, comédias) eram recebidos, postos em circulação e valorizados sem

que se pusesse a questão da autoria. O seu anonimato não levantava dificuldades, a sua antiguidade, verdadeira ou suposta, era uma garantia suficiente. Pelo contrário, os textos,

(17)

do valor de verdade, apenas na condição de serem assinalados com o nome do autor: “Hipócrates disse”. FOUCAULT ([1969]2002, p. 48). (Ênfase minha).

Considerando o período dos séculos XVIII e XIX, em que se dá a

passagem de um momento em que a atribuição autor-texto não é requerida,

para um momento seguinte em que se torna imprescindível a atribuição de

propriedade, Foucault ([1969]2002) apresenta, na discussão da autoria, um

contexto marcado, nesse sentido, pela individuação das ideias – que impõe

necessidade deatribuição da propriedade ao autor.

Em A ordem dos livros, de CHARTIER, vemos que a questão da

propriedade literária não se relaciona somente aos direitos individuais, mas

também às garantias dos direitos da livraria. Após discutir as colocações de

Foucault em O que é um autor, Chartierobserva ser necessário reconsiderar o próprio contexto da aparição da propriedade literária: a afirmação da propriedade literária deriva diretamente da defesa da livraria, que garante um direito exclusivo sobre um título ao livreiro que o obteve (CHARTIER, 1999, p. 38).

A discussão da propriedade literária, portanto, tem origem não apenas

na aplicação particular de um direito individual, mas também no direito dos

livreiros. Um exemplo disso, dado pelo autor, é a estratégia dos livreiros

londrinos em 1709, que limitavam a duração do copyright a catorze anos, sendo concedidos mais catorze anos se o autor continuasse vivo. Para

Chartier, quando os poderes reconhecem o direito dos autores sobre suas obras, eles o fazem na lógica antiga do privilégio” (CHARTIER, 1999, p. 39). Estes privilégios expiravam quando o autor e seus legatários faleciam. Frente a

isso, este estudioso afirma que, em nenhum momento, “a propriedade literária

é, portanto, identificada às propriedades imobiliárias, imprescritíveis e

livremente transmissíveis” (Ibidem, p.39).

Por outra via, relacionar um texto a seu autor tornou-se mais

problemático desde que a questão do sujeito restar abalada pela “descoberta

do inconsciente” por Freud. Essa descoberta “desresponsabiliza” a figura do

sujeito, colocando-o em oposição ao sujeito cartesiano, centrado, fonte de seu

(18)

como uma instância única representada pelo “eu”4. Implicar esta outra visada

sobre o sujeito exige, portanto, interrogar o imaginário de autor como um

sujeito que seja senhor, proprietário e responsável único pelo texto que escreve.

Representante de um momento de individualização das ideias, a

discussão sobre autoria dificilmente poderá ser entendida de forma diferente

daquela que estabelece uma relação especial entre um texto/obra a um sujeito:

o efeito dessa relação tem como consequência “o autor”. O problema é dizer

como interpretar esta relação, tendo em vista, inclusive, a questão da

necessidade jurídica do reconhecimento de um responsável pelo escrito. Aí já

se vislumbra a imagem de um sujeito não unificado, uniforme: ela se esgarça

em sujeito jurídico, moral, responsável e aquela que emerge com a hipótese do

inconsciente.

Nesta tese, pressupõe-se esse momento histórico de individualização

das ideias, que constitui a figura do autor; momento em que se considera o laço que vincula texto a autor, ao nome do autor. Veremos que não é apenas a assinatura que responde pela “responsabilidade” da obra/texto. O nome do

autor poderia indicar o “proprietário” do texto, mas ele (o texto) é, ao mesmo

tempo, um espaço de articulações significantes que se definem no “só depois”

da constituição do texto, lugar que não é livre de conflitos enunciativos. Uma

pergunta de interesse, que se discute aqui, é a de se a assinatura garante a

autoria de um texto. Aposta-se, aqui, na ideia de que a relação entre texto e

autor pode prescindir da assinatura do nome - o que levanta uma indagação

sobre a questão da propriedade e responsabilidade. Nesse sentido, muda o

valor ou o sentido de “assinatura”.

Para atestar a responsabilidade pela obra, pode-se realizar um trabalho

de definição (função indicadora) e descrição (possibilitando a reunião de séries

equivalentes de textos), que viabilize o estabelecimento de um estilo que

permita indicar uma relação entre nome e autor: o que promoveria uma

diferença entre o nome comum e o nome de autor. Podemos observar que sob

o nome do autor reúne-se certo número de textos, que mantêm uma relação

4

(19)

entre si. Desse modo, como discute Foucault, o nome do autor é um nome

próprio com o qual não é possível estabelecer uma referência pura e simples:

O nome próprio tem outras funções que as indicadoras. Isto porque ele é equivalente a uma descrição: Quando dizemos “Aristóteles”, empregamos uma palavra que é o equivalente a uma só ou a uma série de descrições definidas, do gênero: ‘o autor dos analíticos’, ou ‘o fundador da ontologia’.(FOUCAULT [1969]2002, p. 42).

A observação dessa problemática permite que a discussão da autoria de

um texto revele tensões constitutivas que participam da possibilidade de

atribuição de um texto a um autor. De outro modo, poder-se-ia, também,

discutir a relação entre um dito ou escrito e seu autor por meio da análise da

posição-autor, observando-a num livro (o narrador, o confidente, o

memorialista...); num discurso (o filosófico, o científico, o pedagógico...); ou

num campo discursivo (disciplina, ciência...).

Toda a complexidade da relação entre autor e texto é discutida por

Foucault em seu ensaio O que é um autor, apresentado em 1969 diante dos membros da Sociedade Francesa de Filosofia, da qual faziam parte os

debatedores Jean Wahl, Jean d’Ormesson, Lucien Goldmann, Maurice de

Gandillac, Jean Ullmo e Jacques Lacan. Certamente, este texto de Foucault é

axial e indispensável num trabalho que reflita sobre autoria, especialmente se

considerarmos o avanço realizado por ele quanto à apresentação dessas

tensões problematizadas anteriormente em relação ao nome do autor e à

posição-autor, especialmente a lacuna entre texto e autor via escrita.

Interessa, ainda, para a reflexão que ora desenvolvo, lembrar que

Foucault participou das discussões teóricas mantidas, nos anos 60 e 70, sobre

o estruturalismo, movimento que foi tributário do pensamento de Saussure

([1916]2006) - este, um autor sem obra assinada e que foi feito autor retroativamente (MILNER, 2002). A palavra “significante” presente no título deste trabalho obriga considerar tal autoria, que revolucionou o pensamento

nas ciências humanas no século XX. A discussão nesse campo foi

profundamente afetada pela “visada sincrônica”, introduzida por Saussure,

(20)

mundo. Sabemos, também, que, nesse mesmo gesto, Saussure retira de cena

o sujeito psicológico, aquele que se apropria da linguagem e que, ao

internalizá-la, passa a ter posse e controle sobre ela:

Se, com relação à ideia que representa, o significante aparece como escolhido livremente, em compensação, com relação à comunidade linguística que o emprega, não é livre: é imposto (...). Esse fato, que parece encerrar uma contradição, poderia ser chamado familiarmentede “a carta forçada” (...). Diz-se à língua: “Escolhe!”; mas acrescenta-se: “O signo será este e não outro”. Um indivíduo não somente seria incapaz, se

quisesse, de modificar em qualquer ponto a escolha feita

[pela língua], como também a própria massa [falante] não

pode exercer sua soberania sobre uma única palavra: [ela] está atada à língua tal qual é. (SAUSSURE, [1916] 2002, p. 111)

Como se pode ver, Saussure suspende o “sujeito em controle” da ordem

própria da linguagem e retira, também, a língua do controle da sociedade. Para

ele, trata-se de “massa falante”. Uma língua “não é uma instituição social

semelhante às outras” (Idem, p. 41) porque abrange a todos e o tempo todo: “Esse fato capital basta para demonstrar a impossibilidade de uma revolução: de todas as instituições sociais, é a que oferece menos oportunidades às iniciativas” (ibidem, 114). Também, acrescenta ele, sendo o signo radicalmente arbitrário, o mesmo argumento se coloca para a esfera da massa

falante: “uma língua é incapaz de se defender dos fatores que deslocam,

minuto a minuto, a relação entre significante e significado. As outras

instituições - os costumes, as leis ... – estão baseadas (...) na relação natural

com as coisas (...). A língua, ao contrário, não está limitada por nada na escolha de seus meios (...)”, (Ibidem, p. 117). Em outras palavras, ela só obedece às leis de sua ordem própria. Note-se que nem o indivíduo nem a

sociedade (em sentido estrito) podem afetar os movimentos da língua (e de

uma língua) porque ambos são determinados por estes últimos.

Foucault ([1969]2002), ainda que de outra posição, ao discutir a noção

de autor, abala a identificação/ligação estreita e tradicional entre autor e

(21)

elabora, em sua perspectiva, em formações discursivas particulares. Neste sentido, Foucault afirma que, na indiferença do enunciado “que importa quem fala?”, encontra-se o princípio ético fundamental da escrita contemporânea. Tal “indiferença” seria uma espécie de regra imanente, que não marcaria a escrita como um produto, já que, segundo ele, a “indiferença” domina a escrita como prática.

Dois motivos explorados nesta tese circunscrevem o sentido de

‘indiferença” na obra de Foucault:

(1) a escrita libertou-se da ligação a uma expressão subjetiva - ela só se

refere a si própria: identifica-se com sua exterioridade (outros discursos). (2) a escrita tem parentesco com a morte.

Neste ponto, podemos afirmar uma verdade sobre a autoria ela se

relaciona com a escrita. Uma escrita que, segundo Foucault, “não se obriga

com uma interioridade, já que é “jogo de signos comandado menos por seu

conteúdo significado do que pela própria natureza do significante (FOUCAULT, [1969]2002, p. 35). Escrita é linguagem. Pois bem, esta citação de Foucault é mote para o estudo que desenvolvo, abordando criticamente “o

jogo de signos” na reflexão foucaultiana sobre autoria a partir de considerações

sobre a língua e o significante em Saussure.

A relação entre escrita e exterioridade, presente no artigo de Foucault,

está em sintonia com as discussões teóricas dos anos 60 e 70, que questiona a

confiança no eu, que interroga a interioridade como fonte do discurso. Com

isso, Foucault revoluciona: desloca a discussão sobre autoria. Convém dizer,

mais uma vez, que por outras vias, a concepção de sujeito, enquanto senhor

de si havia sido destituída, por Freud (1900). Foucault não passou incólume ao

impacto da obra freudiana. Com Freud, podemos dizer que falante e sujeito

não se coincidem – por certo, há algo disso, embora não dito, na discussão

foucaultiana sobre autoria: se o sentido era atributo da interioridade, ele migra

para a exterioridade, já que, no “jogo do signo”, o comando estaria mais do

lado da “natureza do significante” do que do significado:

(22)

vias de transgredir e de inverter a regularidade que ela aceita e com a qual se movimenta; a escrita se desenrola como um

jogo que vai infalivelmente além de suas regras, e passa assim para fora. Na escrita, não se trata da manifestação ou da exaltação do gesto de escrever; não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem; trata-se da abertura de um

espaço onde o sujeito que escreve não para de desaparecer. (FOUCAULT, [1969]2002, p. 35).

A questão é dizer se Foucault está mais do lado da língua (sua ordem própria) e do significante ou mais do lado do signo e do sentido. Para isso, algumas questões de interesse podem ser levantadas: (1) “como Foucault

articula a relação com a exterioridade do discurso e a língua, que só conhece

sua ordem própria (as leis de referência interna da linguagem)”? (2) De que

modo relaciona jogo de signos e a natureza do significante?

Para Saussure ([1916] 2000), as discussões convergem para o objeto da

Linguística: la langue. Nesse sentido, perguntamo-nos: (3) “o conceito saussuriano de a língua, definida como “sistema de valores” está presente na

discussão foucaultiana sobre a autoria?”. Considerando que a materialidade do

discurso é a língua (ORLANDI, 2001, P. 69) e considerando que a questão do

discurso interessou profundamente a Foucault, não seria de se esperar que o

cerne de sua reflexão estivesse pautada por uma interrogação sobre o

significado ou sobre o sentido (ainda que não pelo conteúdo interno de um

texto)?

Com estas questões, debruçamo-nos na leitura do ensaio “O que é um

autor”, tendo como fundo o referencial teórico estabelecido pelo Grupo de

Pesquisa Aquisição, Patologias e Clínica de Linguagem (LAEL-Derdic/CNPq), de que a Profa. Dra. Maria Francisca Lier-DeVitto e a Profa. Dra. Lúcia Arantes.

Entende-se por que o título desta tese faz menção a “injunções do jogo

significante”: um deslocamento que, sublinho, não é qualquer. O caminho

proposto aqui, para a problematização do autor parte de artigos de Lier-DeVitto

(2008) e Lier-deVitto & Fonseca (2012), que abordam a relação de

não-coincidência entre falante e sujeito, falante e fala; discussão, esta, que decorre

de um enunciado de Milner, qual seja: “a única liberdade do sujeito é que ele

(23)

A importância ali atribuída à ordem própria da língua e ao significante

permite prever uma leitura diferenciada em relação às discussões de Foucault.

A natureza do significante aponta para tensões constitutivas e para uma

relação faltosa na articulação de uma obra ou texto a um sujeito – há

não-coincidência do sujeito consigo mesmo, nem dele com sua escrita. Digamos

que a aposta no significante (e não no significado), em que a ênfase nas leis de

referência interna da linguagem (e não na exterioridade discursiva) demanda

que diferenças sejam estabelecidas.

Diferenciada é, também, a leitura deste Grupo de Pesquisa, que toma

partido daquela que representou, nos anos de 1980, um “retorno a Saussure”

(MILNER, 2002) e que recolheu a novidade saussuriana que revolucionou as

ciências humanas, mas não a Linguística, que permaneceu a uma leitura

filológica desse autor (LEMOS et alli, 2004). Dito de outro modo, ela ficou presa a um já-sabido (gramatical e/ou filológico) sobre a linguagem.

No que concerne à escrita, parte-se da recusa de que a escrita seja

representação da fala. A escrita como representação “é bem ajustada à ideia

de que a linguagem é diretamente acessível/transmissível: um objeto que pode

(...) ser naturalmente apreendido/aprendido por um indivíduo devidamente

dotado de capacidades cognitivo-perceptuais(ANDRADE, 2006, p. 349). A

concepção de escrita como representação da fala fica recuada, também neste

Grupo de Pesquisa, recuada enquanto “interioridade”, embora ligada à

“natureza do significante” e não a uma exterioridade discursiva. É com estas

(24)

2. O ensaio “O que é um autor”, de Michel Foucault: algumas anotações

[Lamento muito não ter podido trazer para o debate que agora vai se seguir nenhuma proposição positiva: no máximo, direções para um trabalho possível, caminhos de análise. Mas devo pelo menos dizer, em algumas palavras, para terminar, as razões pelas quais dou a isso uma certa importância.] (FOUCAULT[1969]2002).

Foucault traz como vantagem em seu ensaio O que é um autor o fato de

relacionar este sujeito à responsabilidade institucional e jurídica. O anonimato

em uma sociedade cujas propriedades e responsabilidades devam ser

consideradas parece insuportável. Mas Foucault já havia alertado que nem

sempre fora assim, como vimos anteriormente: as obras nem sempre

necessitaram ter a atribuição da propriedade a um autor. Isto se tornou

imprescindível após a consideração de textos transgressores, que poderiam

abalar a ordem social estabelecida; após a marcação da propriedade individual

e a marcação dos direitos dos livreiros. Todos estes fatos estão

concomitantemente relacionados ao nascimento do capitalismo.

Com a discussão da morte do autor, inevitavelmente, relações foram

estabelecidas entre a mortalidade existencial e a mortalidade institucional. Há

toda uma situação de direitos, políticas, ética, propriedades e legados autorais

a serem considerados. Nesse sentido, Buker (1998) analisa que as discussões

sobre a “morte do autor” atingiram um nível de pura incompreensibilidade,

ainda que tenha servido para sacudir as bases em que até então se encontrava

a questão da autoria, ao postular o sujeito originário e com controle do seu

dizer, pois já não se podia pensar em um sujeito estável de escrever em

qualquer contexto, seja ele transcendental ou empírico.

A impossibilidade de relacionar texto e autor a partir da escrita, “liberta

de sua expressão de interioridade” (FOUCAULT, 2002) – que retirava o sujeito

do controle e origem de seu dizer - e a continuidade de seu funcionamento

social - levou Foucault a reconsiderar a figura autoral. A lacuna gerada entre

(25)

constitui para Foucault uma descontinuidade e é encarada como um

acontecimento histórico e discursivo. Este novo posicionamento vincula-se à

consideração da função-autor, o que pressupõe a retirada do sujeito enquanto

fundamento originário do enunciado e demarca uma posição em que um sujeito

pode se colocar para enunciá-lo.

A lacuna entre autor e texto a partir da consideração da escrita parte de

uma nova visada sobre o sujeito, que é possibilitada pela ciência linguística, tal

como postulada por Saussure ([1916]2002). No entanto, Foucault, em uma

entrevista publicada em 1967, é bastante explícito ao afirmar seu

distanciamento em relação a ela:

"(...) não estou tanto interessado nas possibilidades formais oferecidas por um sistema como a língua [langue]. Pessoalmente, sou mais obcecado pela existência dos discursos, pelo fato de que palavras ocorreram: estes eventos funcionaram em relação a sua situação original, deixaram traços atrás deles, eles subsistem e exercem, naquela substância mesma no interior da história, certo número de funções manifestas ou secretas5".

Neste estudo, investigamos esse distanciamento de Foucault em relação

à Linguística, analisando as visadas diferentes ou os possíveis avanços de

Foucault em relação a ela. Observamos que no ensaio “O que é um autor” o

filósofo se propõe a “examinar unicamente a relação do texto com o autor, a

maneira com que o texto aponta para essa figura que Ihe é exterior e anterior,

pelo menos aparentemente” (FOUCAULT, [1970]2002, p. 34), ainda que, controversamente, a questão da língua seja o ponto crucial que envida o que

ele denominará de apagamento do autor e ainda que a língua constitua a

materialidade do discurso. Nesta sua fala, vemos o conceito de autoria, qual

seja, a possibilidade de articulação entre texto e autor.

O ponto de partida da discussão proposta em O que é um autor foram as imprudências que Foucault teria cometido em As Palavras e as Coisas ([1966]2002), livro em que “tentara analisar as massas verbais, espécies de

planos discursivos, que não estavam bem acentuados pelas unidades habituais

do livro, da obra e do autor” (FOUCAULT [1969]2002, p. 31), buscando observar as condições de funcionamento discursivo específico.

5

(26)

Segundo o autor, duas objeções foram bem formuladas em relação ao

seu trabalho em As palavras e as coisas ([1966]2002), mas não eram justificáveis. A primeira dizia respeito ao modo como descrevia os autores:

“você não descreve Buffon convenientemente, e o que você diz sobre Marx é

ridiculamente insuficiente em relação ao pensamento de Marx” (Idem, p. 31). A contra-argumentação de Foucault expõe uma diferença em relação ao que se

considera sujeito: a questão não era descrever Buffon ou Marx, mas “encontrar

as regras pelas quais eles tinham formado certo número de conceitos ou de

teorias que se podem encontrar nas suas obras” (Idem, p.32).

A mesma oposição pode ser lida em relação à segunda objeção, a de

ele formar famílias monstruosas, aproximando Buffon e Lineu, Cuvier e Darwin.

Respondendo, afirma não ter procurado “fazer um quadro genealógico das

individualidades espirituais, nunca pretendi constituir um daguerreótipo do

sábio ou do naturalista dos séculos XVII ou XVIII” (Ibidem, p.32).

Em Foucault, a consideração de boa formulação presente tanto na

primeira quanto na segunda objeção, embora não considere ambas

justificáveis, requer uma visão diferente de sujeito que não se relaciona com o

sujeito cartesiano. Suas colocações não deveriam se dirigir ao indivíduo – a

Marx, a Buffon nem pretendia estabelecer o quadro genealógico dessas

individualidades, reproduzindo o que disseram ou quiseram dizer, embora a

nomeação estabelecida pudesse se contrapor ao pretendido por Foucault,

como de fato objetou-se posteriormente. Segundo o autor, a proposta em As

palavras e as Coisas ([1966]2002) era observar as condições de

funcionamento de práticas discursivas específicas.

Numa terceira objeção ao seu trabalho, afirmava-se que era preciso não

utilizar nenhum nome de autor ou definir o modo como são utilizados.

Diferentemente das duas primeiras, esta objeção questiona o funcionamento

discursivo. Nesse quesito, ela se diferencia das duas anteriores e confronta

Foucault em seu terreno de estudo. Coloca-se, aqui, a questão do autor.

O estudo do que é um autor se justifica para Foucault na importância

que este tem no momento de individualização na história das ideias. A

literatura, a ciência, a filosofia constituem unidades que são sempre

(27)

fundamental, que é a do autor e da obra. A questão posta é como o texto

aponta para essa figura que lhe é anterior e exterior pelo menos em aparência.

Para iniciar a discussão, Foucault toma emprestada a Samuel Beckett a

pergunta “Que importa quem fala? Alguém diz que importa quem fala”. A

indiferença mencionada aqui se relaciona a uma noção contemporânea de

escrita e a domina como prática, por dois motivos: o primeiro deles diz respeito

ao fato de a escrita ter se libertado do tema da expressão – e nisso se pode

considerar a natureza do significante, o que coloca em questão o sujeito

enquanto fundamento originário. Por conseguinte, diz respeito ao parentesco

da mesma com a morte – o que pode ser notado no apagamento voluntário do

sujeito, no apagamento dos caracteres individuais de quem escreve.

A descrição da função-autor realizada por Foucault é delimitada a textos

e obras. Considerando os dois caracteres da escrita mencionados acima, a

análise dessa função é realizada do ponto de vista interno: a observação é

voltada para a escrita e isto especialmente em se considerando o cenário de

negação, de morte do sujeito, que se imporia a partir de certa concepção de

escrita. O fato de partir da escrita coloca em questão o sujeito originário e, por

esse motivo, não basta apenas afirmar o desaparecimento do autor.

Nesse sentido, Foucault observa que, embora haja essa indiferença, a

subsistência do autor se mantém, ainda que a noção de obra e a noção de

escrita o bloqueiem, fazendo esquecer o que devia ser evidenciado. A noção

de obra interfere na noção de autor na medida em que a palavra obra e a

unidade que ela designa são tão problemáticas como a individualidade do autor

– o que é uma obra? Uma obra não é o que escreveu aquele que se designa

por seu autor? Quanto à escrita, em sua indiferença – pela qual está fora de

cogitação o gesto de escrever, marca (sintoma ou signo) do que alguém terá

querido dizer -, deveria dispensar a referência ao autor, mas também dar

estatuto a sua ausência – o que não ocorre. A questão, aqui, é a de se esta

indiferença não transpõe para um anonimato transcendental os caracteres

empíricos do autor.

Para Foucault, pensar a escrita enquanto ausência arrisca manter os

(28)

seu desaparecimento, seguir a repartição das lacunas e das fissuras, dos

espaços, as funções livres que esse desaparecimento deixa a descoberto.

No empreendimento deste estudo, Foucault analisa os problemas

decorrentes do funcionamento do nome do autor, que não pode ser designado

como nome próprio, nem como designação, nem como descrição. Ele se situa

entre o pólo da designação e da descrição e não é apenas um elemento do

discurso. Por meio dele, exerce-se uma função classificatória dos textos,

relacionando outros textos entre si e fazendo com que o texto deva ser

recebido de determinada maneira. Da mesma forma, o nome do autor não

transita do interior de um discurso para o indivíduo real e exterior, mas bordeja

os textos, recortando-os.

Por conta desse funcionamento, temos a função-autor. Para caracterizar

um discurso portador dessa função, podem ser observadas quatro

características. Na primeira delas, os textos são objetos de apropriação – é

necessário que os textos tenham autores. Na segunda, é preciso considerar

que a função autor não se exerce da mesma forma – os textos nem sempre

requisitaram a função autor: eram portadores de verdade. O mesmo não

acontecia com os textos literários, cujo responsável deveria se apresentar

como autor. Na terceira característica, vemos que a função autor não se forma

espontaneamente. É resultado da projeção do tratamento a que submetemos

os textos. Como último ponto, vemos que a função autor não reenvia para um

indivíduo real, pois dá lugar a vários eus. Isso porque os discursos que são

providos da função autor comportam uma pluralidade de eus: o eu que fala no

prefácio de um tratado de matemática, o eu que fala numa demonstração, o eu

que fala dos resultados obtidos. Há a dispersão simultânea desses vários eus

num texto. Não há, assim, o reenvio para um indivíduo real; dá-se, sim, lugar a

várias posições-sujeitos que classes diferentes de indivíduos podem ocupar.

Pode-se, também, ter o autor de um texto, de um livro, de uma obra,

teoria, tradição, disciplina. Nestas três últimas - teoria, tradição, disciplina – o

autor ocupa uma posição transdiscursiva, o que faz com que Foucault o

nomeie de fundador de discursividade – aquele que produziu a regra de

formação de outros discursos. Na movência por heterogeneidade e diferença,

(29)

está no texto, mas, ao mesmo tempo, ao que está marcado em vazio,

ausência, lacuna. O retorno deve redescobrir uma falta. E isto pode ser

analisado a partir dos textos de Freud e Marx, em que as leituras realizadas por

outros vivificam, alargam os horizontes da disciplina, da teoria por eles

inicialmente sustentada.

Finalizando estas anotações, vemos Foucault afirmar que já se supôs

em questão o caráter absoluto e o papel fundador do sujeito, mas seria preciso

voltar a esse suspens não tanto para restaurar o tema de um sujeito originário, mas para apreender os pontos de inserção, os modos de funcionamento e as

dependências do sujeito. “Trata-se de retirar do sujeito (ou ao seu substituto) o

papel de fundamento originário e de o analisar como uma função variável e

complexa do discurso”. (FOUCAULT [1970] 2002, p. 70).

Para inicializar estas problematizações descritas, o ponto de partida de

Foucault, como já fazia anteriormente na discussão de outros temas, foi a

utilização de uma posição teórica em que a descontinuidade é um conceito

operatório. Esta posição de análise o levou à observação de que, na escrita, há

a abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não pára de desaparecer.

É a descontinuidade entre a escrita e o sujeito que escreve o que

impossibilitaria amarrar um sujeito em uma linguagem.

É com vistas a essa primeira descontinuidade, ao buscar analisar o

funcionamento e a subsistência da figura do autor, que Foucault relaciona

escrita e exterioridade, já que, como dizia, a escrita contemporânea não estava

mais obrigada à forma de interioridade. É nesse sentido que retoma o

questionamento: que importa quem fala? Isso irá repercutir no avanço e nos

limites de suas discussões sobre a autoria, em cuja problematização a

utilização que faz do conceito operatório da descontinuidade traz uma

contribuição para os avanços, ao mesmo tempo em que impõe limites à sua

problematização.

Nesse sentido, os capítulos seguintes expõem, primeiramente, uma

leitura do que sejam as descontinuidades para Foucault, considerando que

este termo é um conceito operatório a partir do qual ele analisa os

acontecimentos históricos e discursivos, como por exemplo, na análise que

(30)

Igualmente, como veremos a seguir, Foucault afirma que a Linguística

lidou muito bem com as descontinuidades, ainda que o filósofo enfatize seu

distanciamento do objeto de estudo desta ciência. Por outro lado, o autor

discute a indiferença quanto ao autor a partir da escrita – considerando a

relevância, no jogo do signo, da natureza do significante em relação ao

significado. E essa indiferença somente pode ser analisada no terreno da

língua.

Após a discussão do que sejam estas descontinuidades, propomos uma

leitura do jogo do signo em Saussure, enfatizando a ordem própria da língua e

objetivando o estudo de aproximações e distanciamentos destes dois grandes

autores e suas possíveis contribuições para a análise do que seja autoria.

2.1. Da descontinuidade como conceito operatório em Foucault

A sistematização da obra de Michel Foucault – e mesmo a discussão do

simples termo obra, tal como veremos na análise de O que é um autor – reproduz a complexidade do pensamente deste filósofo. NICOLAZZI (2001,

p.1) menciona alguns caminhos utilizados para essa sistematização: o primeiro

é o de agrupamento dos textos que coincidem com um tema comum:

Assim, classifica-se a obra da maneira costumeira: na década de 60, textos arqueológicos que têm por tema o saber; textos genealógicos nos anos 70, tematizando o poder; e, por fim, nos anos derradeiros de sua vida, textos arqueogenealógicos preocupados com a questão do sujeito6 (Op Cit p.1).

No segundo, o resumo feito pelo próprio Foucault em entrevistas do fim

dos anos 70 do seu projeto intelectual:

6

(31)

Segundo elas, todos os seus estudos têm como ponto de convergência uma preocupação com a verdade e, por conseguinte, com o sujeito: a dessubjetivação do louco, o assujeitamento nas prisões e a constituição do sujeito na Grécia Antiga (Op Cit, p.1).

E, por último, outras alternativas interessantes que rompem com as

posições anteriores, como dois livros publicados no Brasil Foucault, a filosofia e a literatura, do filósofo Roberto Machado:

[...]neste estudo, estabelece certas balizas temporais localizadas, essencialmente, na primeira metade da década de 1960. Em tal período, além dos famosos livros sobre a loucura, o nascimento da medicina moderna e das ciências humanas, Foucault escreveu continuamente sobre uma de suas grandes paixões: a literatura (Op Cit, p.1).

E o texto de Francisco Ortega, Amizade e estética da existência em Foucault:

Ortega parte de um importante deslocamento teórico do projeto foucaultiano ocorrido após a publicação do primeiro volume da história da sexualidade, em 1976, que levou o pensador francês a um estudo aprofundado dos clássicos gregos. Este deslocamento teórico centrava-se na amizade como prática política como relação de si para consigo e para com o outro, segundo preceitos éticos, tema que vem ocupando parte das discussões filosóficas da atualidade, com Blanchot e Derrida, por exemplo. (Op Cit, p.1)

Num outro posicionamento a respeito da sistematização da obra

foucaultiana, considero que o que a caracteriza é o posicionamento teórico:

são, de certa forma, uma apropriação da historiografia por parte de Michel Foucault: não são transformações dos métodos utilizados pelos historiadores, embora mantenham com eles um constante diálogo; são, antes de uma metodologia, posicionamentos teóricos diante da prática historiográfica, da pesquisa e escrita de histórias ((Op Cit, p.2).

Para empreender uma análise dos textos de Foucault, é preciso obervar

para onde ele direciona seu olhar: as problematizações do autor partem das

(32)

tema do que quer discutir em seu percurso histórico. E os temas frequentes

incluem o saber, o poder e a verdade, abordando-os enquanto acontecimentos

discursivos na constituição dos sujeitos.

A descontinuidade é objeto e instrumento de análise que constitui o

posicionamento teórico de Foucault, a partir do qual o autor realiza a

abordagem dos acontecimentos históricos. Nesse sentido, descontinuidade é

acontecimento. Um acontecimento que, para além do histórico, é também

discursivo. Por meio desse conceito, Foucault analisa os vazios, as curvas, as

rupturas, os limites dos temas que quer discutir, considerando o percurso

histórico, com, por exemplo, o saber, o poder e a verdade.

Desse modo, essa metodologia de análise das lacunas, fissuras,

espaços e funções constitui uma prática possível de ser visualizada em outros

estudos de Foucault. A prática da análise do descontínuo em Foucault

encontra-se já na sua tese de doutoramento. Nicolazzi (2001, p.4) descreve

que a palavra arqueologia – como arqueologia da alienação – aparece,

primeiro, em A História da Loucura, sua tese escrita durante a segunda metade dos anos 50. Por meio das citações desta obra de Foucault, Nicolazzi afirma:

A arqueologia da alienação é o conceito que lhe permitiu tratar do “grau zero na história da loucura”7, ou seja, não daquilo que foi pensado sobre ela, mas daquelas que foram as condições de possibilidade para um pensamento sobre a loucura.

Direcionando seu olhar a uma região de vazio, isto é, “uma região, sem dúvida, onde se trataria mais dos limites do

que da identidade de uma cultura”, Foucault quer “interrogar uma cultura sobre suas experiências limites (o que significa) questioná-la, nos confins da história, sobre um dilaceramento que é como o nascimento mesmo de sua história” 8.

As citações foucaultianas trazidas por Nicolazzi expõem um

posicionamento teórico, cuja prática de análise interroga o vazio e os limites,

por meio dos quais a observação desse dilaceramento diria mais sobre limites

do que sobre identidade. Isto também pode ser observado no livro Arqueologia

do Saber, em que Foucault ([1969] 1997, p. 3) chama a atenção para os

7

Michel Foucault. Prefácio à primeira edição de História da loucura (1961). In: Ditos e escritos I, p. 140. (Cf. Nicolazzi (2001, p.4),

8

(33)

estudos dos historiadores, que há dezenas de anos voltavam sua atenção para

longos períodos – história dos caminhos marítimos, história do trigo e das

minas de ouro... – o que se denominava de grandes continuidades do

pensamento. Segundo Foucault, mais ou menos na mesma época, a atenção

se deslocou para fenômenos de ruptura (Idem, p.4). Sob essas grandes continuidades, procura-se agora detectar a incidência das interrupções (Ibidem, p.4). A análise histórica,

em suma, a história do pensamento, dos conhecimentos, da filosofia, da literatura, parece multiplicar todas as perturbações da continuidade, enquanto que a história propriamente dita, a história pura e simplesmente, parece apagar, em benefício das estruturas fixas, a irrupção dos acontecimentos (Ibidem, p. 6).

Para Foucault (Ibidem), não devemos crer, com fé nas aparências, que duas correntes que se entrecruzavam caminharam do contínuo para o

descontínuo ou do descontínuo para as grandes unidades ininterruptas, mas

imaginemos que, “na análise das ideias e do saber, prestamos uma atenção

cada vez maior aos jogos da diferença; não acreditamos que, ainda uma vez,

essas duas grandes formas de descrição se cruzaram sem se reconhecerem”.

Ao mesmo tempo, para a história clássica, o descontínuo era o dado e o

impensável, o “que se apresentava sob a natureza dos acontecimentos

dispersos” (Foucault [1969] 1984, p. 9), devendo ser contornado, reduzido e

apagado.

Discutindo a história a partir das imagens do que considera documento

por oposição a monumento, Foucault observa que a história atual se volta para

a arqueologia, para a descrição intrínseca do monumento. Quando os

consideramos, buscamos as regras de formação, que tornaram possível a

própria existência do objeto. A análise dos acontecimentos históricos, feita

enquanto documentos ou monumentos, implica escolher entre a busca da

linearidade ou da descontinuidade, respectivamente.

A partir de sua crítica, a observação é a de que essas regras de

(34)

dispersas no nível dos enunciados9. Na crítica do documento, observa-se que

esse tipo de tratamento de dados implica organizar e recortar a massa

documental, desprendendo a pesquisa de uma empiria dada a priori e tornando a constituição do objeto uma parte importante da análise10:

[...] a história, em sua forma tradicional, se dispunha a "memorizar" os monumentos do passado, transformá-los em documentos e fazer falarem estes rastros que, por si mesmos, raramente são verbais, ou que dizem em silêncio coisa diversa do que dizem; em nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos e que desdobra, onde se decifram rastros deixados pelos homens, onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinham sido, uma massa de elementos que devem ser isolados, agrupados, tornados pertinentes, inter-relacionados, organizados em conjuntos. Havia um tempo em que a arqueologia, como disciplina dos monumentos mudos, dos rastros inertes, dos objetos sem contexto e das coisas deixadas pelo passado, se voltava para a história e só tomava sentido pelo restabelecimento de um discurso histórico; pode-se dizer, jogando um pouco com as palavras, que a história, em nossos dias, se volta para a arqueologia – para a descrição intrínseca do monumento. (FOUCAULT [1969] 2002, p. 7 – grifos do autor).

A passagem da visada de documento a monumento impõe a

constatação de processos descontínuos e dispersos que impulsionam Foucault

para o entendimento de como os campos de conhecimento como a medicina, a

gramática e a própria ciência tomaram forma e existência. Assim, a

descontinuidade entre, por exemplo, gramática geral e filologia, entre história

natural e biologia, entre análise das riquezas e economia é que tornou

possíveis as ciências humanas (Cf. NICOLAZZI, 2001).

Na descrição do funcionamento histórico, a partir da noção do

descontínuo, Foucault ([1970]1997, p. 11) considera que o tema e a possibilidade de uma história global apagando-se possibilita o esboçar do que

se pode chamar de uma história geral, em que o centro único cede espaço à

dispersão – “uma descrição global cinge significação, espírito, visão de mundo,

9

GIACOMONI, M. P. & VARGAS, A. Z. Foucault, a Arqueologia do Saber e a Formação

Discursiva. VEREDAS ON LINE – ANÁLISE DO DISCURSO – 2/2010, P. 119-129.

10

(35)

forma de conjunto; uma história geral desdobraria, ao contrário, o espaço de

uma dispersão” (Idem, p.12).

Nesse posicionamento teórico, a descontinuidade, que era o “estigma da dispersão temporal que o historiador se encarregava de suprimir da história”

(FOUCAULT, [1969]1997, p. 10), torna-se um conceito operatório: paradoxal

noção de descontinuidade: “é ao mesmo tempo, instrumento e objeto de pesquisa, delimita o campo de que é o efeito, permite individualizar os

domínios, mas só pode ser estabelecida através da comparação desses

domínios” (Idem, p. 10).

Mas a utilização desse método traz consequências. Em primeiro lugar, o

efeito de superfície: “a multiplicação das rupturas na história das ideias, a

exposição dos períodos longos na história propriamente dita” (Idem, p. 9). Depois, a importância ganhada pela noção de descontinuidade, seguida pela

observação de que o tema e a possibilidade de uma história global começam a

se apagar (Ibidem, p. 9). Como última consequência, os problemas metodológicos enfrentados, como, por exemplo, na constituição de um corpus coerente e homogêneo de documentos.

Segundo Foucault ([1969]1997, p. 13), estes problemas fazem parte do campo metodológico da história porque houve esse deslocamento, essa

libertação do que a constituía e também “porque coincide, em alguns de seus

pontos com problemas que se encontram em alguma outra parte – nos

domínios, por exemplo, da linguística, da etnologia, da economia, da análise literária, da mitologia” (Ibidem, p. 13). Na Linguística, por exemplo, a dedicação de Saussure ([1916]2000) ao terreno da língua possibilitou a discussão sobre

outro tipo de sujeito, como consequência para se pensar a ruptura entre língua

e o seu controle por um sujeito supostamente dono do seu dizer.

Para ele, essa mutação epistemológica da história está inacabada. Ela

não foi registrada nem refletida, enquanto que outras transformações, como as

da Linguística, sim:

(36)

descontinuidade, das séries, dos limites, das unidades, das ordens específicas, das autonomias e das dependências

diferenciadas. É como se aí onde estivéramos habituados a procurar as origens, a percorrer de volta, indefinidamente a linha dos antecedentes, a reconstruir tradições, a seguir curvas evolutivas, a projetar teleologias, e a recorrer continuamente às metáforas da vida, experimentássemos uma repugnância singular em pensar a diferença, em descrever os afastamentos e as dispersões, em desintegrar a forma tranquilizadora do idêntico. (...) é como se tivéssemos medo de pensar o outro no tempo do nosso próprio pensamento. (Idem, p.14)

O estabelecimento feito por Foucault dessa ligação entre o

posicionamento teórico da história geral via observação do descontínuo e a

afirmação de que a Linguística conseguiu impingir essa visão da

descontinuidade, das séries, dos limites, das unidades, problematizando o

idêntico, parecem ser expressivos para a análise de como o jogo do signo na

escrita – “em que se deve menos ao seu conteúdo significativo do que à

própria natureza do significante (FOUCAULT [1970] 2002, P.35) - é trazido para a análise da questão da autoria. A Linguística de Saussure propiciaria

uma abordagem subjetiva que contemplaria o descontínuo, as rupturas, o

vazio. Enfim, contemplaria a ruptura entre língua e seu controle por um sujeito,

o que possibilitaria outra problematização do que seja autor, objeto de nosso

estudo.

A descontinuidade entre autor e texto, por exemplo, aponta para uma

lacuna e, ao mesmo tempo, algo que continua a funcionar a despeito dessa

descontinuidade, no lugar do autor. Há a subsistência do autor, ainda que as

noções de obra e especialmente a de escrita articulem o seu desaparecimento

(FOUCAULT ([1970] 2002). Assim, o conceito de descontinuidade é relevante,

porque Foucault ([1970]1997, p. 14) afirma que a Linguística fundada por Ferdinand Saussure (1916) consegue lidar com a questão da descontinuidade,

possibilitando, principalmente, nova visada sobre o sujeito, ao expor a ruptura

entre a língua e o seu controle por um sujeito supostamente originário.

A análise desse descontínuo, desse vazio, entre essa função e o

apagar-se deste sujeito leva Foucault à observação do que se tem colocado

em seu lugar. Se não há mais o sujeito como origem de seu dizer e se mesmo

Referências

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