• Nenhum resultado encontrado

Da descontinuidade como conceito operatório em Foucault

2. O ensaio “O que é um autor”, de Michel Foucault: algumas anotações

2.1. Da descontinuidade como conceito operatório em Foucault

A sistematização da obra de Michel Foucault – e mesmo a discussão do simples termo obra, tal como veremos na análise de O que é um autor –

reproduz a complexidade do pensamente deste filósofo. NICOLAZZI (2001, p.1) menciona alguns caminhos utilizados para essa sistematização: o primeiro é o de agrupamento dos textos que coincidem com um tema comum:

Assim, classifica-se a obra da maneira costumeira: na década de 60, textos arqueológicos que têm por tema o saber; textos genealógicos nos anos 70, tematizando o poder; e, por fim, nos anos derradeiros de sua vida, textos arqueogenealógicos preocupados com a questão do sujeito6 (Op Cit p.1).

No segundo, o resumo feito pelo próprio Foucault em entrevistas do fim dos anos 70 do seu projeto intelectual:

6

Segundo Nicolazzi: As coletâneas de artigos organizadas em livros dão mostras disto. Entre outros, ver Guilherme Castelo Branco e Luiz Felipe Baêta Neves (orgs.). Michel Foucault: da arqueologia do saber à estética da existência (1998), e Guilherme Castelo Branco e Vera Portocarrero (orgs.). Retratos de Foucault (2000).

Segundo elas, todos os seus estudos têm como ponto de convergência uma preocupação com a verdade e, por conseguinte, com o sujeito: a dessubjetivação do louco, o assujeitamento nas prisões e a constituição do sujeito na Grécia Antiga (Op Cit, p.1).

E, por último, outras alternativas interessantes que rompem com as

posições anteriores, como dois livros publicados no Brasil Foucault, a filosofia e a literatura, do filósofo Roberto Machado:

[...]neste estudo, estabelece certas balizas temporais localizadas, essencialmente, na primeira metade da década de 1960. Em tal período, além dos famosos livros sobre a loucura, o nascimento da medicina moderna e das ciências humanas, Foucault escreveu continuamente sobre uma de suas grandes paixões: a literatura (Op Cit, p.1).

E o texto de Francisco Ortega, Amizade e estética da existência em Foucault:

Ortega parte de um importante deslocamento teórico do projeto foucaultiano ocorrido após a publicação do primeiro volume da história da sexualidade, em 1976, que levou o pensador francês a um estudo aprofundado dos clássicos gregos. Este

deslocamento teórico centrava-se na amizade como prática política como relação de si para consigo e para com o outro, segundo preceitos éticos, tema que vem ocupando parte das discussões filosóficas da atualidade, com Blanchot e Derrida, por exemplo. (Op Cit, p.1)

Num outro posicionamento a respeito da sistematização da obra foucaultiana, considero que o que a caracteriza é o posicionamento teórico:

são, de certa forma, uma apropriação da historiografia por parte de Michel Foucault: não são transformações dos métodos utilizados pelos historiadores, embora mantenham com eles um constante diálogo; são, antes de uma metodologia, posicionamentos teóricos diante da prática historiográfica, da pesquisa e escrita de histórias ((Op Cit, p.2).

Para empreender uma análise dos textos de Foucault, é preciso obervar para onde ele direciona seu olhar: as problematizações do autor partem das descontinuidades. Por meio delas, ele analisa o vazio, a curva e os limites do

tema do que quer discutir em seu percurso histórico. E os temas frequentes incluem o saber, o poder e a verdade, abordando-os enquanto acontecimentos discursivos na constituição dos sujeitos.

A descontinuidade é objeto e instrumento de análise que constitui o posicionamento teórico de Foucault, a partir do qual o autor realiza a abordagem dos acontecimentos históricos. Nesse sentido, descontinuidade é acontecimento. Um acontecimento que, para além do histórico, é também discursivo. Por meio desse conceito, Foucault analisa os vazios, as curvas, as rupturas, os limites dos temas que quer discutir, considerando o percurso histórico, com, por exemplo, o saber, o poder e a verdade.

Desse modo, essa metodologia de análise das lacunas, fissuras, espaços e funções constitui uma prática possível de ser visualizada em outros estudos de Foucault. A prática da análise do descontínuo em Foucault encontra-se já na sua tese de doutoramento. Nicolazzi (2001, p.4) descreve que a palavra arqueologia – como arqueologia da alienação – aparece, primeiro, em A História da Loucura, sua tese escrita durante a segunda metade

dos anos 50. Por meio das citações desta obra de Foucault, Nicolazzi afirma:

A arqueologia da alienação é o conceito que lhe permitiu tratar do “grau zero na história da loucura”7, ou seja, não daquilo que foi pensado sobre ela, mas daquelas que foram as condições de possibilidade para um pensamento sobre a loucura. Direcionando seu olhar a uma região de vazio, isto é, “uma região, sem dúvida, onde se trataria mais dos limites do que da identidade de uma cultura”, Foucault quer “interrogar uma cultura sobre suas experiências limites (o que significa) questioná-la, nos confins da história, sobre um dilaceramento que é como o nascimento mesmo de sua história” 8.

As citações foucaultianas trazidas por Nicolazzi expõem um posicionamento teórico, cuja prática de análise interroga o vazio e os limites, por meio dos quais a observação desse dilaceramento diria mais sobre limites do que sobre identidade. Isto também pode ser observado no livro Arqueologia do Saber, em que Foucault ([1969] 1997, p. 3) chama a atenção para os

7

Michel Foucault. Prefácio à primeira edição de História da loucura (1961). In: Ditos e escritos I, p. 140. (Cf. Nicolazzi (2001, p.4),

8

estudos dos historiadores, que há dezenas de anos voltavam sua atenção para longos períodos – história dos caminhos marítimos, história do trigo e das minas de ouro... – o que se denominava de grandes continuidades do pensamento. Segundo Foucault, mais ou menos na mesma época, a atenção se deslocou para fenômenos de ruptura (Idem, p.4). Sob essas grandes

continuidades, procura-se agora detectar a incidência das interrupções (Ibidem,

p.4). A análise histórica,

em suma, a história do pensamento, dos conhecimentos, da filosofia, da literatura, parece multiplicar todas as perturbações da continuidade, enquanto que a história propriamente dita, a história pura e simplesmente, parece apagar, em benefício das estruturas fixas, a irrupção dos acontecimentos (Ibidem, p. 6).

Para Foucault (Ibidem), não devemos crer, com fé nas aparências, que

duas correntes que se entrecruzavam caminharam do contínuo para o descontínuo ou do descontínuo para as grandes unidades ininterruptas, mas imaginemos que, “na análise das ideias e do saber, prestamos uma atenção cada vez maior aos jogos da diferença; não acreditamos que, ainda uma vez, essas duas grandes formas de descrição se cruzaram sem se reconhecerem”. Ao mesmo tempo, para a história clássica, o descontínuo era o dado e o impensável, o “que se apresentava sob a natureza dos acontecimentos

dispersos” (Foucault [1969] 1984, p. 9), devendo ser contornado, reduzido e apagado.

Discutindo a história a partir das imagens do que considera documento por oposição a monumento, Foucault observa que a história atual se volta para a arqueologia, para a descrição intrínseca do monumento. Quando os consideramos, buscamos as regras de formação, que tornaram possível a própria existência do objeto. A análise dos acontecimentos históricos, feita enquanto documentos ou monumentos, implica escolher entre a busca da linearidade ou da descontinuidade, respectivamente.

A partir de sua crítica, a observação é a de que essas regras de formação do objeto se encontram em processos de descontinuidade e

dispersas no nível dos enunciados9. Na crítica do documento, observa-se que esse tipo de tratamento de dados implica organizar e recortar a massa documental, desprendendo a pesquisa de uma empiria dada a priori e tornando a constituição do objeto uma parte importante da análise10:

[...] a história, em sua forma tradicional, se dispunha a "memorizar" os monumentos do passado, transformá-los em documentos e fazer falarem estes rastros que, por si mesmos, raramente são verbais, ou que dizem em silêncio coisa diversa do que dizem; em nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos e que desdobra, onde se decifram rastros deixados pelos homens, onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinham sido, uma massa de elementos que devem ser isolados, agrupados, tornados pertinentes, inter-relacionados, organizados em conjuntos. Havia um tempo em que a arqueologia, como disciplina dos monumentos mudos, dos rastros inertes, dos objetos sem contexto e das coisas deixadas pelo passado, se voltava para a história e só tomava sentido pelo restabelecimento de um discurso histórico; pode-se dizer, jogando um pouco com as palavras, que a história, em nossos dias, se volta para a arqueologia – para a descrição intrínseca do monumento. (FOUCAULT [1969] 2002, p. 7 – grifos do autor).

A passagem da visada de documento a monumento impõe a constatação de processos descontínuos e dispersos que impulsionam Foucault para o entendimento de como os campos de conhecimento como a medicina, a gramática e a própria ciência tomaram forma e existência. Assim, a descontinuidade entre, por exemplo, gramática geral e filologia, entre história natural e biologia, entre análise das riquezas e economia é que tornou possíveis as ciências humanas (Cf. NICOLAZZI, 2001).

Na descrição do funcionamento histórico, a partir da noção do descontínuo, Foucault ([1970]1997, p. 11) considera que o tema e a

possibilidade de uma história global apagando-se possibilita o esboçar do que se pode chamar de uma história geral, em que o centro único cede espaço à dispersão – “uma descrição global cinge significação, espírito, visão de mundo,

9

GIACOMONI, M. P. & VARGAS, A. Z. Foucault, a Arqueologia do Saber e a Formação Discursiva. VEREDAS ON LINE – ANÁLISE DO DISCURSO – 2/2010, P. 119-129.

10

COSTA, A. A crítica do documento de Michel Foucault: apontamentos sobre modalização empírica em análise do discurso. Revista Eletrônica Via Litterae – ISSN 2176- 6800

forma de conjunto; uma história geral desdobraria, ao contrário, o espaço de uma dispersão” (Idem, p.12).

Nesse posicionamento teórico, a descontinuidade, que era o “estigma da

dispersão temporal que o historiador se encarregava de suprimir da história”

(FOUCAULT, [1969]1997, p. 10), torna-se um conceito operatório: paradoxal

noção de descontinuidade: “é ao mesmo tempo, instrumento e objeto de

pesquisa, delimita o campo de que é o efeito, permite individualizar os domínios, mas só pode ser estabelecida através da comparação desses domínios” (Idem, p. 10).

Mas a utilização desse método traz consequências. Em primeiro lugar, o efeito de superfície: “a multiplicação das rupturas na história das ideias, a exposição dos períodos longos na história propriamente dita” (Idem, p. 9).

Depois, a importância ganhada pela noção de descontinuidade, seguida pela observação de que o tema e a possibilidade de uma história global começam a se apagar (Ibidem, p. 9). Como última consequência, os problemas

metodológicos enfrentados, como, por exemplo, na constituição de um corpus

coerente e homogêneo de documentos.

Segundo Foucault ([1969]1997, p. 13), estes problemas fazem parte do

campo metodológico da história porque houve esse deslocamento, essa libertação do que a constituía e também “porque coincide, em alguns de seus pontos com problemas que se encontram em alguma outra parte – nos domínios, por exemplo, da linguística, da etnologia, da economia, da análise literária, da mitologia” (Ibidem, p. 13). Na Linguística, por exemplo, a dedicação

de Saussure ([1916]2000) ao terreno da língua possibilitou a discussão sobre outro tipo de sujeito, como consequência para se pensar a ruptura entre língua e o seu controle por um sujeito supostamente dono do seu dizer.

Para ele, essa mutação epistemológica da história está inacabada. Ela não foi registrada nem refletida, enquanto que outras transformações, como as da Linguística, sim:

Não foi transformada nem refletida, enquanto que outras transformações puderam sê-lo – as da linguística, por exemplo – como se fosse particularmente difícil, nesta história que os homens retraçam com suas próprias ideias e com seus próprios conhecimentos, formular uma teoria geral da

descontinuidade, das séries, dos limites, das unidades, das ordens específicas, das autonomias e das dependências diferenciadas. É como se aí onde estivéramos habituados a procurar as origens, a percorrer de volta, indefinidamente a linha dos antecedentes, a reconstruir tradições, a seguir curvas evolutivas, a projetar teleologias, e a recorrer continuamente às metáforas da vida, experimentássemos uma repugnância singular em pensar a diferença, em descrever os afastamentos e as dispersões, em desintegrar a forma tranquilizadora do idêntico. (...) é como se tivéssemos medo de pensar o outro no tempo do nosso próprio pensamento. (Idem, p.14)

O estabelecimento feito por Foucault dessa ligação entre o posicionamento teórico da história geral via observação do descontínuo e a afirmação de que a Linguística conseguiu impingir essa visão da descontinuidade, das séries, dos limites, das unidades, problematizando o idêntico, parecem ser expressivos para a análise de como o jogo do signo na escrita – “em que se deve menos ao seu conteúdo significativo do que à própria natureza do significante” (FOUCAULT [1970] 2002, P.35) - é trazido para a análise da questão da autoria. A Linguística de Saussure propiciaria uma abordagem subjetiva que contemplaria o descontínuo, as rupturas, o vazio. Enfim, contemplaria a ruptura entre língua e seu controle por um sujeito, o que possibilitaria outra problematização do que seja autor, objeto de nosso estudo.

A descontinuidade entre autor e texto, por exemplo, aponta para uma lacuna e, ao mesmo tempo, algo que continua a funcionar a despeito dessa descontinuidade, no lugar do autor. Há a subsistência do autor, ainda que as noções de obra e especialmente a de escrita articulem o seu desaparecimento (FOUCAULT ([1970] 2002). Assim, o conceito de descontinuidade é relevante, porque Foucault ([1970]1997, p. 14) afirma que a Linguística fundada por

Ferdinand Saussure (1916) consegue lidar com a questão da descontinuidade, possibilitando, principalmente, nova visada sobre o sujeito, ao expor a ruptura entre a língua e o seu controle por um sujeito supostamente originário.

A análise desse descontínuo, desse vazio, entre essa função e o apagar-se deste sujeito leva Foucault à observação do que se tem colocado em seu lugar. Se não há mais o sujeito como origem de seu dizer e se mesmo assim esta função se mantém, como está se processando a articulação entre o

texto e autor? O que seria, então, o autor nesse dilaceramento de relações? Na observação da descontinuidade utilizada como conceito operatório – delimitando o campo de que é efeito -, lemos avanços e limites nas discussões sobre o autor em Foucault. Importa, portanto, observar a caracterização que o filósofo faz desse conceito. Nesse sentido, importa observar como nessa ruptura funciona o conceito de descontinuidade.

Em resumo, ao desenvolver a sua discussão sobre a questão da autoria, Foucault se utilizou da descontinuidade como conceito operatório. Esta metodologia de análise o levou à observação de que, na escrita, há a abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não pára de desaparecer. É a

descontinuidade entre a escrita e o sujeito que escreve, considerando que não se pode mais amarrar um sujeito em uma linguagem. É essa descontinuidade que levou o autor a relacionar escrita e exterioridade, pois considera que ela não está mais obrigada à forma de interioridade.

Para não repetir a “afirmação oca de que o autor desapareceu” – no

sentido da morte do sujeito consciente, centrado, senhor de si -, Foucault se

propõe a “localizar o espaço deixado vazio pelo desaparecimento do autor, seguir de perto a repartição das lacunas e das fissuras e perscrutar os espaços, as funções livres que esse desaparecimento deixa a descoberto

([FOUCAULT, [1969] 2002, p. 41). Entretanto, concomitantemente ao desaparecimento do autor, duas noções, que deveriam substituir o seu privilégio, acabam por bloqueá-lo: são as noções de obra e de escrita. Esse bloqueio também poderá ser analisado sob a égide da descontinuidade, em se observando a problemática do recorte e do limite quando a elas aplicados: a descontinuidade desfaz qualquer possibilidade do contínuo, do reconhecimento de si. O recorte e o limite são paradoxais: delimitam, embora se relacionem a uma dispersão (FOUCAULT, [1969] 2002, p. 9.).

Ao realizar suas discussões por meio da observação das descontinuidades, o filósofo aproximou autoria e escrita, ao mesmo tempo em que possibilitou pensar a autoria a partir da consideração de que uma discussão sobre a linguagem pode passar pelo terreno da língua, ao considerar a escrita enquanto um jogo de signos. Observemos, a seguir, como isso se apresenta em Saussure.

2.2. Fundação da ciência linguística: a noção de sistema em