UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA
MÔNICA CÂMARA
Uma
Gramática Visual
para o fotojornalismo
JOÃO PESSOA
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MÔNICA CÂMARA
Uma
Gramática Visual
para o fotojornalismo
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal da Paraíba como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Linguística.
Orientadora: Profª Drª María del Pilar Roca Escalante
JOÃO PESSOA
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MÔNICA CÂMARA
Uma
Gramática Visual
para o fotojornalismo
Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em
Linguística, do Programa de Pós-Graduação em Linguística - PROLING, da Universidade
Federal da Paraíba - UFPB.
Orientadora:
_____________________________________________________
PROFª DRª MARÍA DEL PILAR ROCA ESCALANTE - UFPB
Examinadores:
______________________________________________________________ PROFª DRª HÉRICA PAIVA PEREIRA - EAD - UFPB
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Não se entra duas vezes no mesmo rio.
HERÁCLITO
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Agradecimentos
Às sensações
leituras tateis sonoras olfativas palatáveis
das imagens possíveis
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O amor é um leão
e o amor o eça o t .
MARIANA BEZERRA CAVALCANTE,3 ANOS
(Através das palavras de Mariana,
agradeço a todos e cada um pela luz, pelo caos que ao longo dessa existência
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Resumo
Este trabalho envolve a presença da linguagem no discurso das imagens fotográficas, mais especificamente as fotografias de informação. Corroborando a tese de que as imagens falam, narram fatos, provocam nossos sentidos, tomaremos de empréstimo as imagens fotojornalísticas produzidas pela autora desta pesquisa, para o diário paraibano O Norte (entre 2001 e 2006), mostrando suas implicações semióticas, através da teoria dos signos de Peirce (1995); sua estruturação sintático-imagética, compreendida e instrumentalizada pela
Gramática Visual de Kress e van Leeuwen (1996); possíveis formalizações sobre a experiência estética também presente nesse tipo de texto (BARILLI, 1994; SILVA, 2010); bem com evidenciando performances discursivas de efeito sintático e estético (KRESS e van LEEUWEN, 1996; BARILLI, 1994; SILVA, 2010).
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Abstract
This work is about the presence of language in the discourse of photographic images, photographs of information, specifically. By supporting the idea that images can speak, narrate facts, provoke our senses. We will analyze some photojournalistic images produced by the author of this research for the Diário Paraibano O Norte (2001 through 2006), showing its
se ioti ài pli atio sàth oughàPei e sàtheo àofàsig s (1995); its syntactic-imagery structure, understood and manipulated by the Visual Grammar of Kress and van Leeuwen (1996); possible formalizations on the aesthetic experience which is also covered in this type of text (BARILLI, 1994; SILVA, 2010); as well as showing discursive performances with syntactic and aesthetic effect (KRESS and van LEEUWEN, 1996; BARILLI, 1994; SILVA, 2010).
KEYWORDS: Image. Photojournalistic Language. Semiotics. Visual Grammar. Aesthetic Experience.
Resumen
Este trabajo analiza la presencia del lenguaje en el discurso de las imágenes fotográficas, en particular, las fotografías de información. Apoyando la idea de que las imágenes hablan, narran hechos, provocan nuestros sentidos. Analizamos las imágenes fotoperiodísticas producidas por la autora de esta investigación para el Diario Paraibano O Norte (entre 2001 y 2006), mostrando sus implicaciones semióticas, a través de la teoría de los signos de Peirce (1995), su estructura sintáctico-imagética comprendida y manipulada por la Gramática Visual de Kress y van Leeuwen (1996); posibles formalizaciones sobre la experiencia estética también presentes en este tipo de texto (BARILLI, 1994; SILVA, 2010); así como mostrando performances discursivas de efecto sintáctico y estético (KRESS y van LEEUWEN, 1996; BARILLI, 1994; SILVA, 2010).
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Sumário
Introdução ... 15
Capítulo 1 – Da fotografia ao fotojornalismo ... 24
1.1 – Inícios do Fotojornalismo ... 32
1.2 – O fotojornalismo na engrenagem midiática da notícia ... 41
Capítulo 2 – Elementos da semiótica ... 45
2.1 – Modelos de signos triádicos ... 49
Capítulo 3 – Uma gramática para a fotografia ... 55
3.1 – Metafunção representacional ... 65
3.1.1 – Representações narrativas ... 65
3.1.2 – Representações conceituais ... 73
3.2 – Metafunção interativa ... 77
3.2.1 – Contato ... 77
3.2.2 – Distância social ... 79
3.2.2.1 – Plano fechado (close-up) ... 79
3.2.2.2 – Plano médio (medium shot) ... 79
3.2.2.3 – Plano aberto (long shot) ... 80
3.3.3 – Perspectiva ... 81
3.3.3.1 – Ângulo frontal ... 81
3.3.3.2 – Ângulo oblíquo ... 82
3.3.3.3 – Ângulos verticais ... 83
3.3.4 – Modalidade ... 86
3.4 – Metafunção composicional ... 88
3.4.1 – Valor de informação ... 88
3.4.2 – Saliência ... 91
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Capítulo 4 – Para além do óbvio: o contato estético ... 95
4.1 – A experiência estética ... 96
4.2 – Categorias estéticas ... 98
Capítulo 5 – Entre outras palavras: o discurso imagético ... 103
5.1 – Urubu Rei: uma análise ... 105
5.1.1 – Representação ... 106
5.1.2 – Interação ... 108
5.1.3 – Composição ... 110
5.2 – Recreio: uma análise ... 114
5.2.1 – Representação ... 115
5.2.2 – Interação ... 117
5.2.3 – Composição ... 119
5.3 – A Padroeira: uma análise ... 123
5.3.1 – Representação ... 124
5.3.2 – Interação ... 126
5.3.3 – Composição ... 128
Capítulo 6 – Para além das palavras: o estético no espaço fotojornalístico ... 132
6.1 – Sob as asas do Urubu Rei ... 134
6.2 – A leveza de Recreio ... 137
6.3 – A Padroeira ... 139
Conclu...indo ... 142
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Lista de figuras
Figura 1 Pintura rupestre do período paleolítico 24
Figura 2 Primeiras imagens feitas pelo homem 25
Figura 3 Primeiras imagens feitas pelo homem 25
Figura 4 Cueva de las manos 25
Figura 5 Vista de Le Gras a partir de uma janela 25 Figura 6 Primeira ilustração gráfica publicada da Câmara Obscura, 1544 26
Figura 7 Câmara obscura (Leonardo Da Vinci) 27
Figura 8 Mahe, um bravo, 1841, fotógrafo desconhecido, Daguerreótipo 28 Figura 9 Carreta fotográfica de Roger Fenton na Guerra da Criméia, 1855 29 Figura 10 Foto de Roger Fenton, 1885, na guerra da Criméia 29 Figura 11 Foto de Roger Fenton, 1885, na guerra da Criméia 29 Figura 12 A Colheita da Morte, Ti othy H. O’“ulliva , Gettysburg, julho de 1863 30 Figura 13 Imagem de Jacob A. Riis, subúrbio de Nova Iorque, 1889 30 Figura 14 Imagem de Jacob A. Riis, subúrbio de Nova Iorque, 1890 30 Figura 15 Trabalho infantil, na cidade, registrado por Lewis W. Hine, 1911 31 Figura 16 Trabalho infantil, no campo, registrado por Lewis W. Hine, 1916 31
Figura 17 Drº Erich Salomon 33
Figura 18 Bastidores da segunda conferência de Haia
Foto: Erich Salomon (1930)
33
Figura 19 Parte da reportagem coberta por Felix H. Man sobre Mussolini, em 1931 34 Figura 20 Cândido Portinari, em seu ateliê
Foto: Thomas Mac Avoy
35
Figura 21 Bresson e sua inseparável Leica 35
Figura 22 Hitler
Foto: Heinrich Hoffman (1939)
36
Figura 23 Hitler
Foto: Heinrich Hoffman (1939)
36
Figura 24 Hitler e seu staff
Foto: Heinrich Hoffman (1941)
36
Figura 25 Foto de André Kertesz 37
Figura 26 Foto de André Kertesz 37
Figura 27 Foto de André Kertesz 37
Figura 28 Foto de Brassäi 37
Figura 29 Foto de Brassäi 37
Figura 30 Foto de Brassäi 37
Figura 31 Guerra Civil Espanhola (1936-39)
Foto: Robert Capa
38
Figura 32 Segunda Guerra Mundial (1938-45)
Foto: Robert Capa
38
Figura 33 Foto de Henri Cartier-Bresson 38
Figura 34 Foto de Henri Cartier-Bresson 38
Figura 35 Foto de Henri Cartier-Bresson 38
Figura 36 Capa da revista L'Illustration, Setembro 1931 39 Figura 37 Páginas da Revista Vu sob fotomontagens de Alexander Liberman 39
Figura 38 Algumas capas da revista Life 40
| 12 Figura 40b Representação gráfica inexata do signo triádico (baseada em Puppi, 2009) 48
Figura 41 Representação gráfica ainda inexata do signo triádico (baseada em Puppi, 2009)
50
Figura 42 Representação gráfica do signo triádico genuíno (baseada em Puppi, 2009) 50 Figura 43 Signo triádico genuíno: significante (baseado em Puppi, 2009) 51 Figura 44 Signo triádico genuíno: significado (baseado em Puppi, 2009) 51 Figura 45 Signo triádico genuíno: significação (baseado em Puppi, 2009) 52 Figura 46 quadro ou caixa: participante (NOVELLINO, 2007) 66 Figura 47 quadro – seta – quadro: participante – vetor – meta (NOVELLINO, 2007) 66 Figura 48 seta – quadro: vetor – meta(NOVELLINO, 2007) 66 Figura 49 quadro – seta – quadro bidirecional (NOVELLINO, 2007) 66 Figura 50 Estrutura básica da gramática visual
Fonte: Mônica Câmara (O Norte, 17/01/2002)
67
Figura 51 Sujeito oculto
Fonte: Mônica Câmara (O Norte, 23/11/2001)
67
Figura 52 Estrutura transacional
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 26/10/2001)
68
Figura 53 Estrutura não-transacional
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 04/06/2003)
68
Figura 54 Interatores – bidirecional. Estrutura transacional
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 10/08/2003)
69
Figura 55 Reator – Transacional
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 19/09/2001)
69
Figura 56 Reator – Não-transacional
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 02/04/2002)
70
Figura 57 Reator – Processo transacional
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 13/12/2002)
70
Figura 58 Reatores – bidirecional –Processo transacional Fonte: Mônica Câmara (O Norte 14/04/2001)
71
Figura 59 Processo verbal
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 13/12/2002)
71
Figura 60 Processo mental
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 10/10/2002)
72
Figura 61 Classificacional – taxonomia evidente
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 26/09/2002)
73
Figura 62 Classificacional – taxonomia coberta
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 03/03/2004)
73
Figura 63 Processo simbólico – atributivo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 02/10/2005)
74
Figura 64 Processo simbólico – sugestivo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 22/12/2001)
75
Figura 65 Processo simbólico – sugestivo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 15/02/2005)
75
Figura 66 Processo analítico estruturado
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 02/08/2001)
76
Figura 67 Processo analítico desestruturado
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 12/12/2003)
76
Figura 68 Contato – Demanda
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 17/02/2002)
77
Figura 69 Contato – Demanda
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 06/05/2003)
78
Figura 70 Contato – Oferta
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 30/01/2004)
78
Figura 71 Contato – Oferta
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 14/11/2003)
| 13 Figura 72 Distância social – plano fechado ou close-up
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 28/05/2002)
80
Figura 73 Distância média
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 29/01/2004)
80
Figura 74 Distância longa
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 11/01/2005)
81
Figura 75 Ângulo Frontal
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 17/02/2004)
81
Figura 76 Ângulo Frontal
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 06/01/2002)
82
Figura 77 Ângulo Oblíquo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 19/06/2005)
82
Figura 78 Ângulo Oblíquo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 19/11/2002)
82
Figura 79 Ângulo Oblíquo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 18/10/2001)
83
Figura 80 Câmara altaou ângulo alto
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 13/10/2001)
83
Figura 81 Câmara alta ou ângulo alto
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 14/05/2001)
84
Figura 82 Câmara baixa ou ângulo baixo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 08/01/2002)
84
Figura 83 Câmara baixa ou ângulo baixo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 16/08/2002)
84
Figura 84 Câmara nivelada ao olhar do observador
Fonte: Mônica Câmara
85
Figura 85 Câmara nivelada ao olhar do observador
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 17/07/2002)
85
Figura 86 Câmara nivelada ao olhar do observador
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 02/10/2003)
85
Figura 87 Utilização da cor – Saturação
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 16/08/2002)
86
Figura 88 Contextualização
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 08/01/2002)
87
Figura 89 Iluminação
Fonte: Mônica Câmara
87
Figura 90 Brilho
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 17/03/2002)
87
Figura 91 Dadoe novo
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 17/03/2002)
89
Figura 92 Novo e dado
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 15/08/2005)
89
Figura 93 Valor de Informação – ideal x real
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 14/08/2001)
90
Figura 94 Valor de Informação – Tríptico
Fonte: Mônica Câmara (2001)
90
Figura 95 Valor de Informação – Circular
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 15/02/2002)
91
Figura 96 Saliência
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 13/07/2004)
92
Figura 97 Saliência
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 26/01/2002)
92
Figura 98 Saliência
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 27/08/2003)
| 14 Figura 99 Conexão – Estruturação Fraca
Fonte: Mônica Câmara (1999)
93
Figura 100 Conexão – Estruturação Fraca
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 07/10/2001)
94
Figura 101 Desconexão – Estruturação Forte
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 06/08/2005)
94
Figura 102 Desconexão – Estruturação Forte
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 25/03/2002)
94
Figura 103 Diagrama de Étiene Souriau 100
Figura 104 Urubu Rei
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 19/10/2001)
105
Figura 105 Recreio
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 13/07/2003)
114
Figura 106 A Padroeira
Fonte: Mônica Câmara (O Norte 06/08/2005)
123
Lista de quadros
Quadro 01 Gramática visual (baseado em Fernandes, 2009) 57
Quadro 02 As metafunções 60
Quadro 03 Estrutura básica da gramática do design visual (baseado em Petermann, 2006)
64
Quadro 04 Valores de informação (baseado em Barbosa, 2008) 88 Quadro 05 Metafunção representacional de Urubu Rei 111/112 Quadro 06 Metafunção interacional de Urubu Rei 112 Quadro 07 Metafunção composicional de Urubu Rei 112/113 Quadro 08 Metafunção representacional de Recreio 120/121
Quadro 09 Metafunção interacional de Recreio 121
Quadro 10 Metafunção composicional de Recreio 121/122 Quadro 11 Metafunção representacional de A Padroeira 129
Quadro 12 Metafunção interacional de A Padroeira 129/130
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Introdução
Uma fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fração de segundos, da significação de um fato e de uma organização rigorosa das formas percebidas visualmente que exprimem esse fato.
HENRI CARTIER-BRESSON
Esta pesquisa toma como objeto de sua atenção peças fotojornalísticas
publicadas em jornais da cidade de João Pessoa, Paraíba, e tem a pretensão de expor e
analisar os seus mecanismos de produção de sentidos e de geração de efeitos
estéticos. Entendemos, assim, que as imagens produzidas e veiculadas em espaços
noticiosos não só consubstanciam os fatos e eventos submetidos ao tratamento
jornalístico, como também apresentam condições de gerar estados estéticos.
Portanto, o estudo que aqui se inicia parte do pressuposto de que o exercício
fotojornalístico é uma preciosa fonte de informações desdobráveis em diversas
direções, que se oferece às leituras e avaliações semióticas.
O advento do fotojornalismo desponta como uma das consequências dos
processos de sofisticação das técnicas de reprodução iniciada pelo jornalismo
impresso. O papel da imagem nos processos jornalísticos alterou, substancialmente, as
relações que os jornais estabeleciam com seus leitores. A imagem é um suporte
imprescindível à atividade jornalística porque por seu intermédio se criaram as
condições para dar maior grau de veracidade, e de confiabilidade, àquilo que se
veiculava.
No âmbito do jornalismo – e essa é uma das crenças presentes no setor –
admite-seà ueàaài age à à aà piaàfielàdosàa o te i e tos ,àeà ue,àpo ta to,à o àaà
presença do suporte fotográfico, a tão pretendida objetividade jornalística ganharia
um forte aliado. Segundo Burmester (2006),
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Ocorre, porém, que o trabalho fotojornalístico não é um mero substituto do mundo, como pretendem alguns, mas exercício de linguagem, e, como tal, impregnado
das percepções de seu realizador, de suas ideologias e de suas convicções.Distante de
ser cópia do existente, este tipo de texto condiciona e redireciona a realidade de
acordo com a modalização contextual e conceitual de quem o produz. Nele há uma
realidade simulada, em que a verdade é resultante de variáveis situacionais e escolhas
adequadas às intenções comunicativas do seu produtor. Desta forma, assim como na
linguagem verbal, a não-verbal irá dispor de uma sintaxe, uma morfologia e um léxico,
cada qual com suas peculiaridades e funções (KRESS & VAN LEEUWEN, 1996).
Ao admitirmos que o processo de leitura é uma atividade interativa que se
estabelece entre interlocutores que constroem fatos e sentidos através de dado
discurso, consideramos que este processo se dá sob certas regras e princípios que
garantem ao discurso sua legibilidade – uma vez que, como produto da comunicação,
o discurso circula na malha social e gera sempre outros sentidos.
Todo dizer instaura uma história discursiva ao mesmo tempo em que formula,
no momento presente de sua construção, a sua resposta antecipada. Isso quer dizer
que os textos imagéticos também preveem respostas de seus eventuais
leitores/observadores, porque elas antecipam representações linguísticas ou
não-linguísticas (BAKHTIN, 2006).
Mediante tal raciocínio, quando lemos textos imagéticos não só constatamos
fatos ou acontecimentos, comumente reagimos a eles, sensibilizamo-nos diante de
registros do flagelo da seca, da miséria, do abandono; indignamo-nos face à violência e
a insegurança; chegamos mesmo a salivar diante de um prato suculento.
Embora, quando falamos em texto ou linguagem, normalmente os associamos
à escrita e à linguagem verbal, à capacidade humana, ligada ao pensamento, que se
concretiza e se manifesta numa determinada língua, por meio de palavras, há outras
formas de linguagem. Impressas nos gestos, nas vozes ou no silêncio, artes como a
pintura, o teatro, a música, a dança, a fotografia, representam bem essas
manifestações culturais expressas de maneira não linear.
Se na linguagem verbal, os signos, escritos ou oralizados, não se superpõem,
mas se sucedem destacadamente um depois do outro no tempo do espaço da linha
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outro, na linguagem não-verbal, ao contrário, vários signos se lançam
simultaneamente à nossa observação (BAKHTIN, 2006).
Em seus Ensayos sobre fotografia, Raúl Beceyro aponta recursos que a fotografia, e somente ela, é capaz de utilizar para falar,à at a sà deà seuà po toà deà câmara, altura da câmara, luz, linhas, volumes, enquadramento, para que assim a foto
possaà o eça àaà i e ài depe de te e te,à ela io a doàei osà eaisàdaàfotog afiaàeà seusàele e tos à BECEY‘OàapudàLENK,à .àássi ,à adaài age à o t à a i eisà
situacionais aliadas às variáveis técnicas e composicionais que proporão leituras
particulares, em que cada leitor/observador elegerá um elemento ou vários elementos
em detrimento de outros.
Desta forma, existe também na produção de uma imagem fotojornalística um
construto simbólico, vinculado ao ambiente sócio-cultural-político-ideológico de quem
a constrói, bem como de quem a lê/vê. E cada vez que esse universo simbólico
representado por cores, ângulos, disposição de elementos na cena, tipo de iluminação,
profundidade de campo, se dispõem num texto imagético, favorece um ordenamento
de significados, em que cada tema proposto pela pauta jornalística acaba tendo
concepções distintas, narrativas semiolinguísticas convergentes ou não.
Se, de um lado, as imagens fotojornalísti asà a a ,à o ta à epis dios,à
significam o mundo, por outro lado elas também afetam sensivelmente os leitores,
fazendo com que com elas interajam esteticamente. As imagens trazidas pelos jornais
podem, sim, instituir estados estéticos – e esta é uma das preocupações que nos
acompanham nesta pesquisa.
Deste modo, tomamos como ideia nuclear nesta pesquisa que as peças do
fotojornalismo são, sim, práticas discursivas, e como tais podem ser submetidas à
apreensão e análise de seus instrumentos de comunicação, que orientam e
determinam não só os seus sentidos, como também as reações estéticas que podem
produzir.
O universo do fotojornalismo, portanto, em se nos revelando um mundo de
imagens oferece-se à atividade de leitura e interpretação investigativa para se
perceber os seus modos específicos de estabelecer comunicação. É dessa experiência
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os materiais fotojornalísticos ao exame mais atento de seus mecanismos de produção
de semiose.
Reconhecendo que o fotojornalístico é linguagem, e que, portanto, cumpre
exigências próprias da comunicação humana, quais são os elementos que estruturam a
produção de seus sentidos e de seus efeitos de natureza estética?
Neste ponto, é preciso situar alguns pontos específicos, a serem verificados ao
longo da investigação: É possível estabelecer correlações entre estrutura linguística e
estrutura icônica, como a que se encontra em peças fotojornalísticas? Que elementos
integram seu léxico e sua sintaxe visual? De que maneira a imagem fotojornalística
interage no processo de elaboração de sentidos? Quais os elementos intrínsecos ao
fotojornalismo que lhe garantem legibilidade? E, por fim, que operações estéticasaí se
evidenciam decorrentes dos efeitos produzidos através do contato com a imagem
fotojornalística?
A realização desta pesquisa se justifica, em primeiro lugar, pela escassez de
estudos que contemplem esta temática. Ao analisarmos a bibliografia nacional sobre
fotojornalismo, com aporte de teorias de bases sistêmicas, nos deparamos com a
grave inexistência de títulos na área, e principalmente sobre o assunto no âmbito
regional.
Em segundo lugar, quando consideramos os estudos relacionados à imagem, na
área da linguística, percebemos uma tendência majoritária de esforço dirigida a
pesquisas assentadas em plataformas de linguagem verbal (escrita e falada).
Lúcia Santaella (2001) diz que uma das causas da ausência de teorias visuais
pode ser encontrada nas observações de Émile Benveniste, para quem as imagens
constituem um sistema semiótico que carece de uma metassemiótica, em outras
palavras, não dispõe de recursos para explicar a si mesmo, diferentemente do sistema
verbal. Isso traz complicações para o trabalho de análise dos sistemas imagéticos,
como a pintura, a fotografia, o cinema, entre outros.
De outra parte, tal situação motiva para que despontem novas iniciativas de
estudo na área. Ao mesmo tempo, servem de estímulo para que descubramos
processos que lhe são específicos, e que justificam a iniciativa da realização do estudo
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A escolha deste tema de pesquisa é efeito, também, de uma série de
questionamentos ligados à nossa experiência em fotografia. Foi trabalhando nessa
área, como fotojornalista e designer gráfica desde 2001 que observamos tal carência. As inquietações surgidas de nossa atividade profissional com a imagem e com a
fotografia ganharam forma e se refinaram através do contato provocativo com
mestres e estudantes do Programa de Pós-graduação em Linguística, da UFPB.
Sabemos que ao se selecionar uma imagem para publicá-la estamos
considerando, além dos seus aspectos técnicos, seu conteúdo
sócio-político-cultural-ideológico.
Por isso mesmo, é coerente dizer que a imagem – a imagem fotojornalística,
em especial – é um texto; e é como um texto que a semiótica peirceana a percebe.
Como teoria geral dos signos, a semiótica investiga a o universo dos materiais sígnicos,
as relações e processos semióticos presentes nas inúmeras e complexas relações e
situações comunicativas.
Bense (2000, p. 85) destaca que toda e qualquer atividade inteligente, em toda
ati idadeàespi itual,àu à eioàutiliz elàouàutilizado,à ue,àu aà ezà efe idoàaà ual ue à
fato ou acontecimento material ou não material, não pertença à teoria geral dos
sig os . É sabido que todo e qualquer signo pode ser analisado per si, nos seus
elementos constituintes, na sua capacidade de significar algo para alguém.
A semiótica peirceana traz um quadro teórico-metodológico que fornece
instrumentos capazes de permitir a interpretação e análise de nosso material de
pesquisa, em seus processos específicos de engendrar comunicação. As amplas
dimensões da semiótica de Peirce – que se inclina, podemos dizer, sobre a extensa
realidade sígnica – possibilita estabelecer articulações com outros estudos mais
pontuais, como é o caso, aqui, da Gramática Visual de Gunther Kress e Theo van Leeuwen.
Em termos específicos, a proposta de Gunther Kress e Theo van Leeuwen se
inclinam sobre os elementos funcionais da imagem, articuláveis dentro de uma
sintaxe. A proposta de Gramática Visual de Kress e van Leeuwen estabelece
interessantes relações entre língua e ícone, e interpõem um corpo de formalizações
que demonstram que os índices visuais são, sim, elementos de composição de uma
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Por isso mesmo, levaremos em consideração as propostas de uso e
contextualização da Gramática Visual, sistematizadas por Kress e van Leeuwen (1996), através de suas multimodalidades sintático-visuais, baseadas nas metafunções de
Halliday (1994), em que a maior função de uma linguagem encontra-se no uso e ajuste
às circunstâncias que determinam essa ação linguística. Por relações multimodais
entenda-se um conjunto de disposições presentes nesta prática fotográfica que se
entrecruzam e que, aqui, serão recortados em termos representacionais, interativos e
composicionais, como propõe a Gramática Visual de Gunther Kress e Theo van
Leeuwen (1996).
É justo pelos elementos que integram tal gramática, que a imagem (produto
social e linguístico) apresenta os meios de interagir com os públicos, produzindo e
estruturando significados e efeitos de natureza sensível.
Sendo assim, ler imagens, pela GV se constitui na resposta de variáveis
cognitivas que podem ser assimiladas por um de seus aspectos (representacionais,
interativos e composicionais) ou pela combinação destes, gerando multimodalidade
discursiva.
Por meio da conjunção entre a Semiótica peirceana e a Gramática Visual
buscaremos verificar e analisar de que modo, e por quais caminhos, as peças
fotojornalísticas produzem sentidos, e encaminham reações de natureza estética.
Além da complementaridade entre esses dois recortes teóricos, há outro elemento
que merece destaque: a perspectiva pragmática que os alimenta. O viés pragmático,
comum a esses autores, concebe a produção sígnica como elemento que executa uma
ação.
É ínsita a qualquer edifício teórico de viés pragmático a compreensão de que os
signos, em se manifestando, executam o movimento de ação e a reação, em que
p essup eà ueà h à u à age teà ueà diz à eà u à eage teà ueà e ep io a à eà eage.à Éà
próprio de a investigação semiótica pragmática avaliar os signos considerando-se 3
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elemento que reflete tanto as intenções de seu enunciador, quanto irá constituir o seu
leitor.
O texto, então – porque material socialmente construído – faz, a previsão de
sua própria leitura, como também traz internalizadas as reações que procurará
desencadear em seu leitor. Como afirmado, um texto (quer seja som, imagem,
pa to i a à oàape asà diz ,à asàta à dizàpa aà ueàalgu à eajaàaàesteàdize ,à
conforme previsões inscritas no próprio signo.
De outra parte, e em sintonia com os encaminhamentos possibilitados pela
Semiótica e pela Gramática Visual, a pesquisa se inclina, também, para colher as
reações estéticas produzidas pelas imagens fotojornalísticas. Dimensão diferenciada
do exercício da linguagem, mas associada às significações e sentidos, a experiência
estética referencia um tipo especial de contato, que introduz o sujeito num mundo de
relações dominado pelo sentimento de excesso produzido pelos materiais simbólicos.
A experiência estética caracteriza um tipo de contágio, em que o indivíduo se
desliga – nem que seja por instantes – de sua realidade, para viver as reações
sensíveis, impactos e tramas significações de uma narrativa ou material simbólico.
Nestaà situaç oà e à ueà oà i di íduoà est à ade idoà ouà fusio ado à à at iaà
significante, o indivíduo experimenta um mundo de sensações e de significados, em
que se misturam dispositivos como a imaginação, os valores, as crenças, as convicções
ideológicas etc.
Para dar conta desse impreciso, porém importante setor ou dimensão da
linguagem, recorremos às chamadas categorias estéticas. As categorias estéticas são conformações que sintetizam as experiências estéticas, através de seus elementos estruturantes.
É bom salientar, que as categorias estéticas têm presença longa na história da arte, e são excelentes descritores das experiências sensíveis, pelos menos as que têm
maior vitalidade social. Assim, após as análises, que procurarão caracterizar o jogo
sintático presente nas imagens, e de recortar os sentidos que surgem de seus
dispositivos gramaticais, verificaremos o teor estético que daí desponta, através de
projeções sobre as possíveis reações sensíveis diante das peças fotojornalísticas.
Sendo assim, no capítulo 1 apresentamos uma breve trajetória da fotografia e
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fotojornalístico de quase um organismo vivo, que confere credibilidade ao trabalho
jornalístico a setor indispensável à atividade noticiosa e ao sistema midiático.
No capítulo 2 exporemos alguns breves delineamentos da teoria semiótica
peirceana, suficientes, porém, para demarcar a composição teórica que irá
fundamentar as análises de nosso corpus, que é constituído por imagens fotojornalísticas. Aqui se expõe o conceito de semiótica, de signo propriamente dito, as relações que funda com seu objeto e seu interpretante, e os processos de significação que decorrem das diferentes configurações semióticas.
Ao capítulo 3 estará reservado à aplicabilidade dos aspectos e elementos
sintáticos da Gramática Visual, e como estes encaminham os processos de sentido – fatores importantes na observação da imagem fotojornalística e seus efeitos
significacionais e estéticos. Outrossim, salientamos que todas as fotografias aplicadas
nessa seção bem como as analisadas nos capítulos 5 e 6 são registros fotojornalísticos
produzidos pela autora desta pesquisa.
O capítulo 4 discute a experiência estética, apresenta as suas categorias, evidenciando particularmente as que irão instrumentalizar as nossas avaliações sobre
os efeitos de natureza sensível produzidos pelas peças fotojornalísticas de nosso
corpus. Aqui, se delineia a forma de contágio que a experiência estética proporciona,
bem como se expõe alguns critérios que permitem enquadrar o estético dentro de
formalizações razoavelmente consistentes.
Reservamos ao capítulo 5 a análise e interpretação das imagens que fazem
parte do corpus de nossa pesquisa. Nesta seção, à luz da Semiótica e da Gramática
Visual, demonstraremos como os elementos da estrutura visual atuam nas peças
fotojornalísticas, bem como os seus sentidos mais salientes. Ainda neste setor,
exploramos a forma específica trabalhada pela produtora da imagem, a partir de escolhas e critérios semiolinguísticos para a construção do seu discurso visual, onde
cada um dos elementos sígnicos dispostos na composição imagética proporá uma
legibilidade específica.
Ao efetuarmos tal abordagem da Gramática Visual (1996), através de imagens fotojornalísticas, buscaremos evidenciar como a aplicação da Semiótica e da GV,
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observadores, suscitam, assim, a formação crítica de leitores visuais, a partir da leitura
composicional dos fatos registrados e narrados em imagens num jornal.
át àpo ueà o oàafi aàPaulà)u tho ,à o u i a à oà o sisteàso e teàe à
fazer passar uma informação; é tentar mudar aquele a quem se dirige; receber uma
o u i aç oà à e essa ia e teàsof e àu aàt a sfo aç o à )UMTHO‘,à ,àp. 61).
Já no Capítulo 6 analisaremos os efeitos estéticos e de sentido, produzidos
pelas silenciosas imagens falantes que integram o corpus, acabando por revelar o universo do fotojornalístico um campo semiolinguístico dialógico e polissêmico,
propício à atividade de leitura e interpretação investigativa, que redimensiona e
amplifica, inclusive, os modos de se estabelecer comunicação.
Defendendo essa dinâmica de signos e sentidos, produzidos pela fotografia,
Jol à àate taàpa aàoàfatoàdeà ueà asài age sà oàs oàasà oisasà ueà ep ese ta ,à elasà seà se e à dasà oisasà pa aà fala à deà out aà oisa à JOLY,à ,à p.à ,à istoà ,à aà
imagem não é uma reprodução da realidade, mas por meio da subjetividade, tal meio
de expressão e comunicação confere aos elementos representados um sentido
singular e plural ao mesmo tempo. São essas metáforas visuais que constroem a
multimodalidade implícita no discurso fotojornalístico, que circunscreve o sujeito na
história e que servirá de instrumentos para nossas análises.
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CAPÍTULO 1
Da fotografia ao fotojornalismo
A fotografia preserva para todo o sempre uma fração finita do tempo infinito do Universo.
MARVIN KRONE
A fotog afia a ú i a li guage e te dida e
toda parte do mundo e que, ao interligar todas as nações e culturas, une a família humana.
Independente da influência política – onde as
pessoas forem livres – , ela reflete fielmente a vida e
os fatos, permite-nos compartilhar as esperanças e o desespero dos outros e esclarece as condições políticas e sociais. Tornamo-nos testemunhas oculares da humanidade e da desumanidade da espécie humana[...]
HELMUT GERNSHEIM
Este capítulo traça uma breve história do fazer fotográfico, e da atividade
fotojornalística, destacando os momentos decisivos que a dimensionaram como área
ou setor relevante do sistema midiático.
Muitas são as fomes dos homens...
A engenhosidade que ajudou o homem a criar fomes, também o ajudou a
saciá-las. Quando ela foi de comida, aprendeu a caçar; quando foi de entendimento, criou os
mais complexos e complementares códigos linguísticos, e quando a fome ultrapassou
territórios, inventou do espelho ao mito, às máquinas de reprodução e extermínio.
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Figura 2 e 3 – Primeiras imagens, feitas pelo homem do período paleolítico, há cerca de 25.000 anos nas cavernas de Altamira, Lascaux e Castilho
Figura 4 – Cueva de las manos (cova das mãos) –
Arte rupestre dos índios tehuelches há aproximadamente 9.000 anos
Se as primeiras imagens mostravam um tipo de homem e de sociedade
elementares, a fotografia, por sua vez, filha das evoluções óticas e revoluções sociais
que emergiam de novo sistema político e econômico do século XIX, o capitalismo,
reproduzia um novo tipo de homem, que era, agora, produtor e produto social, ao
mesmo tempo.
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A vista da janela de Le Gras, captada por Niépce, nos arredores de
Chalon-sur-Saône, entre 1826 e 1827, mesmo quase só manchas que tentam mostrar a visão de
u àt i ialà o ju toàdeà asas,àu àpa àdeàja elasàeàu aà agaàli haàdeàho izo te ,àd àaà
nítida noção do que a fotografia se tornaria desde então.
Não só Niépce, mas todos os que se filiaram à prática fotográfica ao longo dos
anos tornaram o cotidiano visível. Todo e qualquer gesto do dia-a-dia, por mais
comum e repetitivo, ganharia nova aura, através da fotografia. Não era só ver a
realidade, mas percebê-la, alcançá-la, tocá-la.
De certa forma, as primeiras fotos não revelavam qualquer primor técnico ou
artístico, como acontecia com as invenções neste momento da história, mas só o fato
de se congelar o momento, retê-lo para a posteridade imprimia à fotografia certa
magia como o próprio nome camera obscura já sugeriria.
Figura 6 – Primeira ilustração gráfica publicada da Câmara Obscura, 1544. Fonte: http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/imp24art04.pdf
Dos estudos e experimentos da ótica descritos por gregos e chineses 500 a.C.
até se obter um resultado satisfatório da imagem, tivemos aproximadamente 1.300
anos de maturação.
O princípio da camera obscura remonta à Antiguidade, quando Aristóteles (384 e 322 a.C.) se referiu a sua utilização em seus estudos astronômicos e observou que,
quanto menor o orifício, mais nítida a imagem projetada. Mas só na Renascença, com
Leonardo da Vinci (1452-1519), que tal fenômeno físico e seu funcionamento tiveram
| 27 Figura 7 – "Quando as imagens dos objectos iluminados penetram num compartimento escuro através
de um pequeno orifício e se recebem sobre um papel branco situado a uma certa distância desse orifício, vêem-se no papel, os objectos invertidos com as suas formas e cores próprias" (DA VINCI).
A princípio, as cameras obscuras ou "quartos escuros" - ambientes totalmente escuros, com um pequeno orifício - foram utilizados durante séculos, como suporte ao
registro de imagens (uma espécie de carbono) para pintores e desenhistas da época,
no desenvolvimento da perspectiva realista de sua arte. Só a partir do século XVII,
depois de ser acoplado ao orifício um sistema óptico para melhorar a qualidade da
imagem observada, é que as cameras obscuras tornam-seà po t teis ,àse do,àe t o,à chamadas de Câmara Óptica ou Câmara Fotográfica.
Apesar de, em 1832, o fotógrafo francês, radicado no Brasil, Antoine Hercule
Romuald Florence (1804-1879) ter desenvolvido pesquisas sobre a reprodução de
imagens mediante processos químicos que ele próprio designou de photographie, sendo o primeiro a usar o termo fotografia na história da mesma, oficialmente, a
fotografia teria nascido de um conterrâneo de Florence, em 19 de agosto de 1839,
após o astrônomo e deputado francês François Arago revelar publicamente, na
Academia de Ciências e Belas Artes de Paris, os detalhes do primeiro método prático
de fotografia, conhecido como daguerreótipo.
O nome da técnica é proveniente de seu criador, outro francês Louis-Jacques
Mandé Daguerre (1789-1851), pintor e desenhista de cenários para peças de teatro,
que vendeu seu invento ao governo da França no mês anterior à sua divulgação
pública. Tal procedimento do método foi publicado no manual Historique et
description des procédés du daguerréotype et du diorama e até 1855 foi o processo
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É importante lembrarmos que, já em 1841, o tempo mínimo necessário para
captação de um objeto ou cena, ficava em torno de cinco minutos ou infindos 300
segundos de exposição, o que não deixava de ser bastante avançado para aquela
época.
Figura 8 –Mahe, um bravo, 1841, fotógrafo desconhecido, Daguerreótipo. Fonte: http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/imp24art04.pdf
Nos relatos do filósofo alemão Walter Benjamin (1985), referentes ao impacto
do retrato fotográfico em seus primórdios, está as observações feitas por um fotógrafo
chamado Dauthendey:
As pessoas não ousavam a princípio olhar por muito tempo as primeiras imagens produzidas. A nitidez dessas fisionomias assustava, e tinha-se a impressão de que os pequenos rostos humanos que apareciam na imagem eram capazes de ver-nos, tão surpreendente era para todos a nitidez insólita dos primeiros daguerreótipos (BENJAMIN, 1985, p. 95).
Graças à engenhosidade de inventores americanos, ingleses e austríacos, em
menos de uma década, já era possível obter uma imagem em aproximados 40
segundos. O que possibilitou aos fotógrafos registrar temas não tão somente restritos
às naturezas mortas, arquitetura e paisagens estáticas.
Fato marcante se dá no início de 1855, com as aventuras de Roger Fenton, um
antigo advogado licenciado em artes, que servia aos interesses da coroa britânica, e
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Em fevereiro de 1855, Fenton embarca com quatro assistentes e uma pesada
carruagem puxada por dois cavalos. Consigo levava trinta e seis grandes caixas, os
arreios dos cavalos e a comida. A carreta fotográfica que já servira no comércio de
bebida agora lhe serve de laboratório e ambiente de repouso.
Figura9 – A carreta fotográfica de Roger Fenton na Guerra da Criméia, 1855. Fonte: GERNSHEIM, 1954, prancha 14.
Com Fenton conhecemos a face tendenciosa das imagens de guerra. Já que
esteà optava por retratar os vencedores das guerras em poses onde expunham suas
armas e medalhas nos uniformes à “áNTO“,à ,àp.à . Tais imagens, mais que um
registro do conflito, espo dia à opinião pública britânica quanto às condições de
vida dos soldados no front.
Figuras 10 e 11: Fotos de Roger Fenton, 1885, na guerra da Criméia. Fontes: http://www.studium.iar.unicamp.br/cinco/helio/pages/m198112330001.htm
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Em contrapartida, iríamos ter os momentos nada gloriosos dos campos de
batalhas registrados através das lentes e pontos de vista dos fotógrafos Alexander
Gardner e Timothy H. O´Sullivan. Gardner e O´Sullivan retrataram guerras, entretanto,
as descreveram sem retoques.
Figura 12– A Colheita da Morte, Ti oth àH.àO “ulli a , campo de batalha de Gettysburg, julho de 1863. Fonte: http://www.studium.iar.unicamp.br/cinco/3.htm?main=index.html
Tamanha fidelidade realística é atribuída a imagens fotográficas como essas
que, Mathew B. Brady, responsável pela equipe de fotógrafos que fez a cobertura
deste conflito, passou a considerar aà a aàfotog fi a,à o oà oàolhoàdaàhist ia .
Em 1870, o dinamarquês de apenas 21 anos, Jacob A. Riis seria o primeiro a
faze à usoà daà fotog afiaà o oà i st u e toà deà íti aà so ial ,à ilust a doà seusà a tigosà
sobre as reais condições dos imigrantes nas periferias de Nova Iorque e também no
seuàp i ei oàli oà Ho àtheàOthe àHalfàLi es à Co oàVi eàaàOut aàMetade ,àdeà .
Figuras 13 e 14 – Imagens de Jacob A. ‘iis,àutilizadasàe àseusàa tigosàeàe àseuàli oàà Ho àtheàOthe àHalfàLi es à .
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Mais tarde, entre 1908 e 1916, um sociólogo, Lewis W. Hine irá registrar
possivelmente as primeiras imagens sobre o trabalho infantil, na América. E será a
primeira vez que a fotografia se torna uma importante ferramenta na transformação e
melhoria da sociedade. Sob a égide de tais imagens mudanças são discutidas na
legislação sobre o trabalho infantil, da época.
Figuras 15 e 16 – Trabalho infantil na cidade (1911) e no campo (1916), registrados por Lewis W. Hine. Fonte:Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.
http://www.britannica.com/bps/image/266474/60934/
Daí, então, a fotografia se tornaria, um forte instrumento de registro do real,
assumindo definitivamente seu caráter social e histórico, quer trazendo à baila as
condições de existência em zonas rurais assoladas por crises financeiras, quer por
desnudar os problemas suburbanos aà lu i osa àPa is.
Fato curioso é que os primeiros fotógrafos, nos primórdios do fotojornalismo
(conhecidos como fotodocumentaristas), e engajados com as causas sociais, são tidos
como fotógrafos amadores, enquanto os ditos fotógrafos de imprensa (escolhidos mais
pela força física que pelo intelecto) sofriam descaso em sua função porque
considerados meros ilustradores e não agentes sociais diante de uma ferramenta
avassaladora de divulgação.
Tomando de empréstimo as palavras de Freund (1995, p. 110),
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Em parte, é para estes desavisados de plantão que este trabalho se volta. Até
porque como acreditamos, a imagem fotojornalística é um dos recursos de
comunicação mais eficazes, por sua capacidade de captar a dinâmica da vida
associada, revelando, de forma sintética, os múltiplos eventos sociais – quer
denunciando, surpreendendo, emocionando, tamanha a força e extensão daquilo que
as lentes, através de seus responsáveis, são capazes de captar.
1.1 Inícios do Fotojornalismo
Considera-se fotografia jornalística ou fotojornalística aquela imagem ou
conjunto de imagens, capturadas por câmera fotográfica que retratam e relatam
acontecimentos sociais, que pode vir acompanhadas de textos e legendas.
Se de um lado temos uma Alemanha devastada pela Primeira Grande Guerra,
do outro lado temos o vigor da Bauhaus do arquiteto Walter Gropius (1919); a física de
Einstein e o Nobel (1921); a literatura, de Thomas Mann em sua Montanha Mágica
(1924); Kafka e a sua obra póstuma, O Processo, romance inacabado, em que profetiza os horrores do período nazista; a pintura de Franc Marc, Kandinsky, Paul Klee e tantos
outros; o teatro de Bertolt Brecht; o cinema de Fritz Lang.
Se o berço da fotografia é considerado a França, o do fotojornalismo é a
Alemanha, a mesma da depressão pós-guerra, a mesma de tantos talentos, dentre eles
os primeiros e notáveis fotojornalistas.
O mais célebre fotógrafo da época, o Doutor Erich Salomon (1886 -1944),
o he idoàpo à He àDokto àouàsi ples e teà oàpsi logoàdeàseusà o idad os , era
mais um advogado na fotografia que havia aprendido aàfaze àasài age sà depo e à
em seu favor.
Depois de anos em uma prisão francesa, volta para Berlim (1918) num período
bastante instável econômica e politicamente. Curiosamente, a primeira vez que
Salomon manuseou uma máquina fotográfica, seus registros funcionaram como
documentos testemunhais frente aos tribunais, onde atuara.
Como é bem sabido, as primeiras experiências fotográficas exigiam menos
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contêineres de pólvora (para um tipo de flash bem antigo) a mantimentos até uma
parafernália entre máquina, placas de vidro e tripés.
Salomon foi, sem dúvidas, um dos pioneiros do fotojornalismo moderno. Foi o
primeiro a adotar o termo fotojornalista ao de foto repórter, termo, aliás, que
reprovava. Considerado o fundador do fotojornalismo político moderno, inteligente,
astuto, bem humorado, Salomon ainda conseguia manipular seu equipamento de
maneira única em sua época. Infelizmente, tamanhas habilidades não o livraram do
campo de concentração de Auschwitz, onde veio a morrer em 1944, com 58 anos.
Figura 17 – Drº Erich Salomon e sua Ermanox, antecessora da Leica. Fonte: http://global-metropolis.net/wp-content/uploads/2006/09/salomon1.jpg
Dele, é a célebre foto feita após se infiltrar nos bastidores da segunda conferência
de Haia, em 1930, em que flagrou ministros alemães e franceses cochilando enquanto
ainda não tinham definido questões sobre a dívida da guerra alemã.
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Naquela época, reconhecia-se uma boa foto pelo quão secreta ela fosse. É
assim que, de certa forma, Salomon também antecipa a atividade que mais tarde dará
origem aos paparazzi.
A partir de Dr. Erich Salomon desdobra-se uma rede de fotógrafos
independentes (free-lancers) que além de escolher quais assuntos registrar, tem seus registros assinados e respeitados. Hans Baumann, filho de um banqueiro alemão, em
meio à crise financeira que abalou o mundo, inclusive, a Alemanha durante e após a
Primeira Guerra Mundial, teve que abandonar os estudos para sobreviver.
Para isso, primeiramente tornou-se desenhista do Jornal B. Z. AM Mittag, em
Berlim. Em 1929, Hans Baumann torna-seàFeli àH.àMa àeà u àdosàp i ei osà ep te esà
fotográficos a realizar, em colaboração com Stefan Lorant, a fórmula moderna de
epo tage à F‘EUND,à ,à p.à .àDele, é o ensaio sobre o Duce italiano Benito
Mussolini (1883 -1945), abaixo.
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Fato marcante e decisivo para a consolidação do fotojornalismo moderno foi o
aparecimento da Leica1, em 1925, criada por Oskar Barnak, apaixonado por fotografia
e por mecanismos de precisão. Também é fato que quando a Leica surgiu poucos lhe
deram a devida atenção, dadas suas pequenas dimensões.
Como sempre, foi preciso contrariar a regra. Principalmente num mundo em
que a aparência de ser grande à ueà pa e eà o te à g a deza.à Ne à es oà u aà
revista como a Life, fundada em 1936, queria, nos seus inícios, que os seus repórteres seàse isse àdaàLei a à F‘EUND,à ,àp.à .à
Coube a Thomas Mc Avoy desobedecer a proibição do uso da aparentemente
frágil - e até hoje reconhecidamente incomparável – Leica. É claro que após a
desobediência de Mc Avoy nem seus trabalhos nem os que eram produzidos pela Life, e istaà pa aà aà ualà t a alha aà eà ue,à aà po a,à e aà espe ializadaà e à foto -epo tage ,àfo a àosà es os. Podemos dizer, que o fotojornalismo foi um antes e
outro depois da Leica.
Figura 20 – Cândido Portinari, em seu ateliê Figura 21 – Bresson e sua inseparável Leica Foto: Thomas Mac Avoy Fonte: http://alucinogenodramatico.blogspot.com
1
C e aà fotog fi aà deà pe ue oà po te que dispensava o uso de flash, agilizando e valorizando o efeito de
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Curiosamente, é graças ao nazismo e à ascensão de Hitler ao poder, em 1933,
que a imprensa ilustrada na França, Inglaterra e Estados Unidos irá sofrer as suas
maiores influências e mudanças.
Não obstante, graças a Heinrich Hoffman, mais conhecido no Terceiro Heich
po à He àP ofesso ,àaà ue àHitle àdepositaàsuaà o fia çaàe confia a sua imagem e do
seu staf que possivelmente tenhamos chegado a ter conhecimento dessa técnica aplicada ao registro fotográfico, antes mesmo dela vir a ser utilizada pela primeira vez,
no cinema, em 1941, com Orson Welles, na sua obra-prima Cidadã Kane. Trata-se de uma das mais célebres tomadas baixas reconhecida como contra-plongée.
Fatalmente, mais tarde, o arquivo de Hoffman servirá ao exército americano
para o reconhecimento dos criminosos de guerra.
Figuras 22 e 23 – Hitler e suas clássicas poses em contra-plongée Figura24 – Hitler e seu staff Fotos: Heinrich Hoffman (1939) Foto: Heinrich Hoffman (1941)
A Vu, revista francesa, criada em 1928, por Lucien Vogel (1886-1954), sucedeu os modelos de espírito liberal das revistas germânicas. O período de entre-guerras não
foi fácil pra ninguém, mas a Alemanha, mesmo em anos difíceis, conseguiu criar um
clima ideal para o fotojornalismo moderno.
Com a chegada de Hitler ao poder, em 1933, essa configuração mudaria, e
todos aqueles que faziam o melhor fotojornalismo do mundo, tiveram literalmente
que abandonar seus lares e assumir outra identidade noutras pátrias. Os ideais de
Hitler tornaram a Alemanha o berço da mediocridade e intolerância. Os gênios que
sobreviveram à tamanha insensatez pulverizaram o mundo do que havia de melhor do
engenho intelectual. Muitos desses engenhos foram parar diante de Vogel, homem de
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Antes de ser perseguido e morto pelos algozes do nazismo, Solomon não foi só
pioneiro no exercício de testemunhar e registrar fatos sem ser notado, também é de
sua responsabilidade a idealização e fundação da primeira agência de fotógrafos, em
1930, a Dephot, garantindo, assim não só o direito autoral dos fotógrafos sobre seus trabalhos bem como autoridade destes sobre o que e como fotografar. Associados à
Solomon, em sua agência, estavam: Felix H. Man, além de André Kertesz e Brassäi.
Figuras 25, 26 e 27 –Fotos de André Kertesz Fonte: http://www.chrishorner.net
Figuras 28, 29 e 30 –Fotos de Brassäi Fonte: http://graphia.files.wordpress.com
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Figura 31 – Guerra Civil Espanhola (1936-39) Figura 32 – Segunda Guerra Mundial (1938-45) Foto: Robert Capa Foto: Robert Capa
Figuras 33, 34 e 35 –Fotos de Henri Cartier-Bresson Fonte: http://www.henricartierbresson.org/
Sob diferentes critérios e percepções distintas, cada um desses fotógrafos
imprimirá um novo ritmo às narrativas visuais, transformando suas experiências
estéticas em arte fotojornalística.
Na primeira publicação de Vu, que já continha os mais notáveis fotógrafos, e porque não dizer fotojornalistas, de então - André Kertesz, Man Ray, Brassaï, Martin
Munkacsi, Felix H. Man, Robert Capa, entre outros, anunciava:
| 39
Rompia-se um padrão clássico vigente nas revistas da Europa, da fotografia
isolada, como até então era praticada pela influente L Illust atio .
Figura 36 – L'Illustration, setembro 1931, Figura 37 – Páginas da Revista Vu sob fotomontagens fotos de Erich Salomon de Alexander Liberman
Fontes: http://saisdeprata-e-pixels.blogspot.com/2007/01/revista-vu.html
Desta forma, em abril de 1932 L É ig e Alle a de sairá uma edição composta
de 125 páginas contendo exatas 438 imagens, através das quais o público francês toma
conhecimento do nazismo. Em 1933, será a vez da Itália.
A simpatia de Vogel pelo partido republicano espanhol, as reportagens que
edita a seu favor e a liberdade de imprensa assim como todos os princípios
democráticos que sempre repousaram muito bem sob tinta e papeis velhos, levam no
final de 1936 Vogel a demitir-se. A revista só resistiria mais dois anos.
Em 1954, Vogel morre fulminado na mesa de trabalho. Henri Luce, fundador da
revista americana Life em 1936, presta homenagem ao homem de ideias fartas e generosas, que havia criado a primeira e mais importante revista ilustrada na França,
o à aseà aàfotog afia,àe ia doàteleg a aà àfa ília,à o àoàsegui teàte to:à “e àVu,
| 40 Figura 38 – Algumas capas da revista Life que, entre idas e vindas, resistiu até abril de 2007 Fonte: http://www.fayerwayer.com.br/wp-content/uploads/2008/12/life_magazine_covers.jpg
De 1936 a 1972, Life foi uma revista semanal. Sanados alguns problemas financeiros, Life retorna em 1978, desta vez como revista mensal. De volta os problemas com anunciantes em 2000, Life volta a parar. Seu último retorno ao mercado ocorreu em outubro de 2004, como suplemento de 103 jornais. Sem fôlego,
seu último número saiu em março de 2007. Durante seu apogeu, Life chegou a ocupar cinco andares do Time & Life Building, no centro de Manhattan.
Com todo o desenvolvimento da engenharia e mecanismos fotográficos
impulsionou-se a cobertura dos acontecimentos feita eminentemente por fotografias
que por si só continha o aspecto da verossimilhança em suas narrativas.
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O fato de a América ser vultosa em dimensões territoriais e de estar passando
de uma nação agrícola para uma nação industrial, através, inclusive, de um imenso
investimento publicitário que perdura até os dias de hoje, fez da América não só um
dos maiores parques gráficos como um dos maiores consumidores de todo tipo de
produto, dentre eles, a notícia.
Os anunciantes cada vez mais interessados em ter sua imagem associada a
g a deza àdeà seuàpaís,àpassa a à adaà ezà aisàaài esti àe àse a iosà eàrevistas
mensais as quais atingiam um número maior de leitores.
1.2 O fotojornalismo na engrenagem midiática da notícia
A produção fotojornalística se insere no fluxo da engrenagem da produção
midiática, como um de seus mecanismos testemunhais, que revelam aos leitores os
acontecimentos, colhidos no exato momento em que estes acontecem.
É preciso ter-se em conta que a mídia apresenta características de um sistema,
e como tal é regulado por princípios que ordenam e orientam o seu fazer, segundo
regras muito específicas de uma área cuja principal característica é difundir informação
em ritmo contínuo.
Neste sentido, as concepções de Niklas Luhmann (2005) nos ajudam a perceber
o papel da fotojornalismo no conjunto da esfera midiática da difusão organizada de
informação. Segundo Luhmann, o mediático é um sistema orientado por uma lógica
própria, que mantém relação com outros sistemas sociais (o político, o econômico, o
artístico, o direito), e que são entendidos, por ele, como galáxias de comunicação –
amplas, socialmente necessárias, e reguladas por códigos próprios.
Para este estudioso alemão, a sociedade moderna traz, como uma de suas
características principais, diferentes sistemas sociais, e todos surgiram como
consequência da incapacidade de os sistemas existentes responderem a necessidades
incessantes e socialmente relevantes (LUHMANN, 2005).
Os chamados media modernos (jornais, revistas, programas de TV etc.) são um desses sistemas, assim como a política, a saúde, a educação, a arte, a religião, a
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comunicativo no meio social é justamente aquele que consegue articular-se com
alguns dos sistemas sociais.
Assim, cada sistema, possui um código específico com que irá selecionar,
processar e estabelecer comunicação. Então, cada sistema é uma galáxia de
comunicação que, ao negociar com os demais, retrabalha informações,
transformando-as de maneira peculiar, segundo suas próprias características de
funcionamento.
Luhmann destaca que há um duplo movimento no sistema mediático: o de
abertura a outros setores importantes do social, e o de clausura operacional
(LUHMANN, 2005, p. 27). Ele entende que os meios massivos são um universo
específico, em razão de sua tecnologia de difusão, e suas operações se processam de
maneira diferenciada. Isso porque eles levam adiante experiências comunicativas que
não dependem da interação direta, da participação olho-no-olho de agentes, e por expandirem enormemente as possibilidades de comunicação.
Assim, o sistema midiático desenvolve e consolida formas comunicativas
p p ias,à e osà ouà aisà o ple as,à poisà esteà à u à siste aà autopoiético, que se
reproduz a si mesmo e que já não está orientado à comu i aç oà e t eà p ese tes à
(LUHMANN, 2005, p. 46).
Todos os demais sistemas sociais, as informações dos outros sistemas sociais,
são processados e retrabalhados pelos media massivos. Por tal motivo, os processos midiáticos instituem um modo diferenciado de comunicação universal.
O critério maior utilizado pelo sistema midiático é aquilo que é passível de ser
informado, aquilo que é capaz de causar, no tecido social, certa polêmica, de
provocá-lo, movê-lo,à i it -lo .àEleà ào ga izadoàpor um código específico: o informável/o não
informável. Esse sistema seleciona tanto o que se pode ou não informar como também
o feitio da informação, sempre atento à maior capacidade de produzir impacto:
Os meios de comunicação mantêm, pode-se dizer assim, a sociedade em vigília, desperta. Produzem uma sempre renovada disposição para contar com a surpresa, com o irritante. Daí que os meios massivos se ajustem à dinâmica acelerada própria de outros sistemas de funções como a economia, a ciência, e a política, que estão permanentemente confrontando a sociedade com novos problemas (LUHMANN, 2005, p. 35).