BEPPE FENOGLIO E SEUS
APPUNTI PARTIGIANI
:
UMA EXPERIÊNCIA LITERÁRIA DE GUERRA CIVIL
Maria Gabriela Valente de Araujo
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos/ Literatura Italiana).
Orientador: Professor Doutor Marco Lucchesi
Ao Pedro, pelo amor que cultivamos juntos.
À minha mãe, que num ato de coragem e amor nos levou à Itália, de onde nunca mais saímos.
Ao meu pai, por quem voltei e fiquei.
Resumo
Esta dissertação consiste na análise do livro Appunti partigiani, de Beppe Fenoglio. Para isso, faz uso de dois principais recursos: um historiográfico e outro teórico. Num primeiro momento, realiza uma retomada histórica da Resistência e do fim da Segunda Guerra Mundial na Itália, a partir do livro de Claudio Pavone, Una guerra civile. No momento seguinte, alcança os textos de Walter Benjamin que tratam dos conceitos de Erfahrung, Erlebnis e ―rememoração‖. Ao fim, chega à análise do livro a partir de suas recorrências formais e conteudísticas, seguindo diretrizes da teórica Maria Corti. O apêndice desta pesquisa é a tradução instrumental do livro estudado, inédito em língua portuguesa.
Palavras-chave: Beppe Fenoglio; Walter Benjamin; Resistência italiana; Neorrealismo literário italiano.
Riassunto
Questa tesi consiste nell‘analisi del libro Appunti partigiani, di Beppe Fenoglio. A tal proposito si utilizano due risorse principali: una storica e l‘altra teorica. In un primo momento, si sviluppa la fase storica della Resistenza e della fine della Seconda Guerra Mondiale in Italia, a partire del libro di Claudio Pavone, Una guerra civile. Successivamente, si sviluppano i testi di Walter Benjamin relativi ai concetti di Erfahrung, Erlebnis e ―rememoração‖. Infine, si arriva all‘analisi del libro a partire dalle sue costanti di forma e contenuto, seguendo le direttive di Maria Corti.
L‘appendice di questa ricerca è la traduzione strumentale del libro studiato, inedito in lingua portoghese.
Agradecimentos
Ao chapa hauly Ricardo, meu maior e melhor amigo, pelo aprendizado da alegria e do amor doce e chameguento que guia em silêncio toda vida que eu vivo.
Ao Beppe Fenoglio, companheiro dos últimos dois anos, pela síntese potente e bela do que ele deixou escrito, pela ironia, o sentido político e a simplicidade com que escolheu fazê-lo.
Ao meu grande orientador Marco Lucchesi, que, sempre tão dedicado e atencioso, foi meu Google particular e seguiu de muito perto o texto que agora vejo terminado graças à sua ajuda generosa, delicada, rigorosa e também prazerosa. Com ele aprendi o que deve ser uma orientação: a liberdade que caminha de mãos dadas com a responsabilidade. Um imenso obrigada pela acolhida e a paciência.
Ao Pedro Segreto, que traz no sangue o impulso desta pesquisa, minha pedra fundamental, meu companheiro amoroso, teórico e digital, por me ensinar todos os dias que, com ou sem livros e psicanálise, a vida é maravilhosa. Pelo OCR, programa que tornou possível a digitalização dos Appunti e, consequentemente, sua tradução, um gesto prazeroso.
À minha família, os Araújos e os Valentes, por ser o lugar confortável em que eu existo plenamente. Aos meus pais, Flávio e Mariangela, pelo amor, pela infância no Logradouro e pelos irmãos que me deram. Por ainda conseguirem ser meus pais, apoiando e seguindo de perto minha vida, por exigirem de mim a felicidade. Aos meus irmãos Dráulio e Carlos, pela companhia de um mundo menos solitário. Ao meu irmão e grande amigo Sérgio, pela companhia intensa, generosa e amorosa no aprendizado de uma irmandade conquistada dia a dia, pelo amor que cultivamos nos últimos anos, pelas concordâncias e discordâncias em que aprendemos a amar incondicionalmente. Às minhas primas Maíra, Mariana e Milena, pela irmandade muito próxima que a vida nos deu e que, juntas, sabemos cultivar lindamente. Aos meus tios Mali e Cristina, pelo apoio e o amor incondicional, as receitas, as viagens, além dos meus ―primos qridos do
Ao Roberto Moura e à Beth Real, pelos almoços de domingo em família, onde nasceu esta pesquisa. Vatapás ouvindo sobre os italianos pioneiros do cinema brasileiro em suas dimensões humanas, Pascoal Segreto e Humberto Mauro de perto e de dentro. Longas conversas regadas a vinho, discutindo Benjamin, Neorrealismo italiano e vanguarda do cinema brasileiro.
Ao Garoto, por toda lambida, todo chamego e todo passeio em dia de sol. À Nilza, pela adoção voluntária e o aprendizado do sorriso fácil diante de toda dificuldade, além do chamego, também em forma de empadão de legumes e pudim de leite condensado.
Aos meus amigos, por partilharem muito de perto comigo a vida e esta dissertação. Muito obrigada à Lila Carvalho, a doçura em forma de amiga; Ao Danilo Torres, pelo irmão que temos e que continua a nos unir profundamente; À Juliana Cassidy, amiga muito próxima em cuja casa e família amorosa eu realizo os afetos mais puros e sinceros, por ser o colo confortável onde eu me deito com frequência. Ao Márcio Holanda e Ju Campelo, por tudo o que já vivemos juntos; Ao Jonas Torres, Ju Michilis e meu afilhado Luca, por celebrarmos a vida juntos; À toda a Caos! Vídeo e Design, pelo ambiente familiar e a convivência ao longo de todos esses anos: ao Marcelo Alt e Naiana, ao Afonso e ao Lui, pelo aprendizado de um trabalho que se ama. Ao Piero Messina, pela admiração e respeito que tenho por tudo o que ele faz. Ao Wilkie, ao Elio, à Francesca, à Laura, ao Maurizio, ao tios Riccardo e Elena, por cultivarem meus recantos afetivos italianos. À Marília Misailides, Alice Vieira e Pedro Melo, por estarem ali, mesmo quando eu não vejo. Ao João Maurício, por ele acreditar no que ele acredita, pelas conversas infinitas nas situações mais adversas. À Cristina Cadore e ao Tiago Gualda, amigos que me alegram a vida. À Elisa Ribaudo, pela tarde sull’amaca sugerindo soluções para a tradução dos Appunti.
graduação; com eles aprendi que o comprometimento sincero com a Universidade não burocrática pode salvar de todo o resto.
Aos professores que acompanharam de perto a evolução desta pesquisa e que, exatamente por isso, constituem a banca de avaliação: Marcelo Jacques e André Bueno, muito obrigada! André me mostrou um Walter Benjamin que mudou os rumos desta pesquisa e Marcelo me indicou os caminhos por onde compreendê-lo melhor. Tê-los na banca me enche de orgulho e responsabilidade, pois sei que neles reside a seriedade e o rigor que admiro na academia.
Meu agradecimento sincero à colega e pesquisadora de Beppe Fenoglio, Maria do Rosario Toschi. Tradutora do único livro disponível do autor em língua portuguesa (tradução que compunha sua dissertação de mestrado), dela recebi os Appunti partigiani, pelos quais imediatamente me apaixonei.
Ao esforço sem medida do teórico Claudio Pavone, cujo ensaio de mil páginas sobre a Resistência está por trás de tudo o que escrevi nesta dissertação.
Ao século em que vivo, que me permitiu ter acesso ao Google e ao site da Ibs.it, sem os quais eu não conseguiria, do Brasil, obter as informações e adquirir os livros essenciais para esta pesquisa. Aos leitores do blog neorealismoitaliano.wordpress.com, onde eu verbalizei e partilhei o work in progress desta pesquisa.
Ao Chico Belo, à Dona Mecê e seus 22 filhos, à Dona Luci e seus 18 filhos, à Ivone, ao Seu Franciné e à Dona Naísa, à Márcia, Marcilene e Marlete, ao Seu Caetano e Dona Maria, ao Chico da Velha, ao Branquinho, ao Juninho, ao Seu Chico Brito e a toda a Juatama que me fez poder um dia compreender de que falava o Fenoglio em seus Appunti.
Sumário
Introdução...10
Capítulo I ...20
1 A Segunda Guerra e seu fruto histórico: a Resistência ...20
1.1 O fim da Segunda Grande Guerra, alla italiana ...21
1.1.2 O ―25 de Julho‖, a primeira traição ...24
1.1.3 A confusão dos ―Quarenta e cinco dias badoglianos‖ ...25
1.1.4 O ―8 de Setembro‖, a segunda traição ...26
1.2 A decisão pela Resistência, uma guerra civil ...29
1.2.1 As instituições durante a Resistência, a revisão dos poderes e das funções ...30
1.2.2 O partigiano ...34
2 O Neorrealismo ...38
2.1 O Neorrealismo em divergências: cinema e literatura ...40
2.2 O Neorrealismo em literatura e suas constantes ...41
2.3 A literatura neorrealista em divergências ...43
Capítulo II ...47
1 Duas obras em duas vidas: Walter Benjamin e Beppe Fenoglio ...47
1.2 Uma obra e uma vida: Walter Benjamin ...48
1.3 Outra obra, outra vida, a mesma guerra: Beppe Fenoglio ...49
2 O Neorrealismo fenogliano e a teoria da narração benjaminiana ...54
3 Beppe Fenoglio e seus Appunti, entre a ―experiência‖ e a ―vivência‖ ...60
3.1 Fenoglio e a ―experiência‖ (Erfahrung) ...60
3.2 Fenoglio e a ―vivência‖ (Erlebnis) ...62
3.3 Fenoglio e a ―rememoração‖ ...65
4 Os Appunti partigiani, uma vida, uma obra e uma guerra ...69
4.1 Os Appunti de uma vida ...69
4.3 Os Appunti de uma guerra ...76
Capítulo III ...78
1 Os Appunti em sua materialidade ...78
2 Os Appunti em suas constantes neorrealistas ...79
3 Os Appunti para fins analíticos ...82
3.1 Os Appunti e a ―rememoração‖ ...82
3.2 Os Appunti: temas e ideologias ...90
3.2.1 Os Partigiani ...90
3.2.2. Comunhão com a população civil ...97
3.2.2.1. Igreja ...102
3.2.3. Le Langhe e La Langa, dois recantos afetivos ...106
3.2.4. Anna Maria e la Lupa ...111
3.2.5. Fascistas e alemães x opositores ...113
3.2.6. Ironia e humor ...116
3.3 Os Appunti: O nascimento de uma nova forma literária...128
3.3.1. Oralidade, dialeto e coloquialidade, uma gramática a serviço de uma literatura. 130 3.3.1.1 Sintaxe ...130
3.3.1.2 Morfologia ...133
3.3.1.3 Fonética ...133
3.3.2. Outros recursos: liberdade ...134
3.3.3. Um narrador, um estilo e um ritmo ...136
3.3.4. Estrutura dos diálogos ...137
4 Os Appunti e seu final inacabado ...138
Conclusão ...141
Referências ...146
Mapas ...154
Introdução
E não só falar desses escritores é difícil, como também entendê-los enquanto os lemos, porque é muito bonito dizer que uma obra de arte é tal enquanto escapa às contingências históricas que a produziram e cria um seu mundo fantástico etc., mas são palavras. De fato, a obra de arte nos comove ou se deixa compreender por nós somente enquanto conserva para nós um interesse histórico, enquanto responde a um nosso problema qualquer, resolve, enfim, uma nossa necessidade de vida prática. Não existe a arte pela arte. E até a mais ociosa lírica parnasiana resolverá para o leitor – um bocado antiquado deve ser, esse leitor, pra dizer a verdade – um problema prático: como viver sonhando.
(Cesare Pavese, em ensaio sobre a literatura americana, 1931)
A Segunda Guerra Mundial e a Resistência Italiana são capítulos tortuosos da história da Itália. Muitos vetores de força operavam sobre o mesmo período, com intensidades e direções distintas1.
Após trinta anos de fascismo, regime que viu a ascensão do líder Benito Mussolini à condição de imperador e ditador, em junho de 1940, a Itália declara guerra à França e ao Reino Unido, ao lado de uma Alemanha já em guerra contra os dois países há cerca de um ano. Pouco mais de três anos depois, em 25 de julho de 1943, a Guerra parece vencida pelos Aliados, que já começam a invadir o sul da Itália. Diante da derrota
1
iminente, o Rei Vittorio Emanuele III depõe Benito Mussolini do comando do Exército Régio e assina o acordo de paz com os Aliados. Mas a Segunda Guerra ainda duraria outros vinte meses em território italiano, porque no momento em que o rei assina a derrota italiana, o território da península estava definitivamente ocupado pelos nazistas.
A Resistência italiana é o fenômeno que viu, após a derrota oficial da Itália, o envolvimento de civis numa guerra civil contra os italianos que insistiam em apoiar Mussolini – então ainda em guerra no norte da Itália, onde fundara a República Social Italiana – e contra os alemães, para expulsá-los de seu território.
Glorificada logo depois do fim da Guerra como a salvação do povo italiano, que tinha, pelo menos no final do processo, se redimido pela luta armada antifascista e devolvido a Itália aos italianos, a Resistência, ao longo dos anos, nem sempre foi vista com tanto otimismo. Ao contrário, muitos foram os momentos em que o pessimismo que arrebatou a Itália a partir dos anos 1950, quando as coisas novamente se acomodaram e parecia que nada tinha mudado tanto quanto deveria, se alastrou também para o fenômeno da Resistência, obscurecendo em maniqueísmos absolutos sua real importância histórica e social, independentemente do sucesso moral ou ideológico obtido naquela guerra civil.
A Resistência, devido à sua forte relação com a Rússia comunista, foi ainda fortemente criticada quando tornaram-se públicos os Processos de Moscou e mudou a compreensão europeia da Rússia comunista e dos crimes cometidos por Stalin. Nesse momento, ela passou a ocupar um lugar menos glorioso no imaginário italiano. Mas a partir dos anos 1990, com o passar do tempo e acalmar dos ânimos, a Resistência voltou a trazer à tona questões profundas da história recente da Itália. Hoje ocupa o lugar dos grandes fatos históricos cuja dialética alimenta infindáveis estudos e reflexões.
Do fenômeno da Resistência, nasceu o fenômeno estético do Neorrealismo cinematográfico e literário italiano.
Resistência, que trouxe para os cineastas e escritores daquele período novos problemas estéticos e conteudísticos.
Porque, quem lembra o ―Neorrealismo‖ sobretudo como uma contaminação ou imposição sofrida pela literatura por razões extra literárias, desloca os termos da questão: na verdade, os elementos extra-literários estavam ali tanto massivos e indiscutíveis que pareciam um dado de fato; todo o problema nos parecia ser de poética, como transformar em obra literária aquele mundo que era para nós o
mundo2.
No cinema, realizado principalmente em Roma, o problema da representação parece mais facilmente delimitado: seu caráter documental se prestava perfeitamente à sua função e daquela linguagem – que parecia nascer definitivamente – serviram-se muito bem grandes diretores, como Roberto Rosellini em seu Roma, cidade aberta (marco importante da grande revolução que a linguagem cinematográfica sofreria naquele momento).
O primeiro filme reconhecidamente neorrealista3, Obsessão, de Luchino Visconti, é de 1943. Mas Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini, lançado em 1945 – pouco depois do fim da Guerra –, é o verdadeiro ponto de partida da estética enquanto sistema4. Roma espalhou pelo mundo aquela linguagem e colocou a Itália no centro da discussão de um novo modo de fazer cinema, em oposição ao cinema holliwoodiano5. Outras
2
Prefácio de Italo Calvino a Il sentiero dei nidi di ragno (1993). Grifo do autor.
3
O cinema neorrealista é fruto também da discussão teórica realizada junto à Rivista Cinema. Dirigida por Vittorio Mussolini, filho do ditador, a revista foi fundada como instrumento de propaganda fascista e, em teoria, era ideologicamente pró-fascismo, mas, na prática, a revista foi o berço do debate teórico que levaria ao Neorrealismo. Em torno dela orbitariam Alessandro Blasetti, Cesare Zavattini, Alberto Lattuada, Giuseppe De Santis, Franco Fortini, Luigi Comencini, Massimo Mida, Michelangelo Antonioni: todos responsáveis pela elaboração teórica que, com o fim da Guerra, explodiria como urgência estética.
4
O termo é usado aqui a partir de Antonio Candido, que, na sua monumental Formação da Literatura Brasileira, tratando de literatura, caracteriza o ―sistema‖ como a interlocução entre autor, leitor e tradição.
5
grandes manifestações cinematográficas são Paisà (1947), de Roberto Rosellini; Sciuscià (1946) e Ladri di biciclette (1948), de Vittorio De Sica; e La terra trema (1950), de Luchino Visconti.
A discussão crítica do Neorrealismo cinematográfico e sua difusão pelo mundo enquanto estética fundamental para o surgimento do cinema moderno deve-se principalmente a certa crítica francesa reunida em torno da revista Cahiers du cinéma, principalmente aos muitos artigos de André Bazin, publicados contemporaneamente ao lançamento dos filmes6. Em torno a essa crítica francesa, que durante os anos 1960 foi responsável pela retomada dos filmes e diretores neorrealistas, aquele cinema foi alavancado à condição de clássico: o primeiro cinema nacional, o primeiro cinema de autor, quase que o primeiro cinema de fato: um cinema então ainda recém-nascido, que algum tempo depois teria dado as condições de possibilidade para a Nouvelle Vague na França e para o Cinema Novo no Brasil. Por esse caminho, aquele cinema chegou até o público brasileiro já ocupando um lugar de clássico. O mesmo não aconteceria com a literatura.
Para a literatura, quase toda ambientada no norte da Itália, a questão da representação parece mais mediada e envolve especificidades da linguagem, que se reinventava naquele impulso histórico, num doloroso embate com a tradição, o que não se dava com o cinema, cuja tradição parecia estar sendo fundada ali. Na literatura, outra grande distinção em relação ao cinema, a Resistência era ainda mais forte, não apenas pela proximidade física, mas principalmente pelo envolvimento direto dos escritores que subiram as montanhas para lutarem como partigiani7 pela expulsão dos alemães da Itália. E a incógnita da representação era por isso mesmo ainda mais multiforme, pois fruto de uma experiência tantas vezes vivida em primeira pessoa por quem se propunha a escrever sobre ela.
6
Reunidos em português no livro O cinema, ensaios (1981), de André Bazin, atualmente esgotado.
7
Assim, muitas foram as tentativas de dar voz àquele tempo com a literatura, mas é perceptível, mesmo na diversidade, algo comum entre os escritores: uma vontade de contar o que se viveu naqueles anos, um pacto intenso de verossimilhança com o leitor, a opção por uma linguagem acessível, a preferência pela prosa em detrimento da poesia (forma muito alta, estreitamente ligada ao fascismo), uma paisagem local, o retorno ao uso dos dialetos (proibidos pelo fascismo), sem nenhuma pretensão de pureza – nem naturalista, nem regionalista – (puro era o mito do ―super-homem‖)8. Falar de si para falar do todo: o pequeno vilarejo que, em sua dimensão humana, pode dizer do mundo inteiro.
Dentre as tentativas literariamente bem sucedidas, as principais foram Uomini e no (1945), de Elio Vittorini; Il sentiero dei nidi di ragno (1947), de Italo Calvino; Cronache di poveri amanti (1947), de Vasco Pratolini; Il compagno (1947), de Cesare Pavese9.
Separadamente, é necessário compreender a produção de Beppe Fenoglio. Isolado na cidade de Alba, o autor teria um percurso específico dentro do Neorrealismo, em que as datas neorrealistas não correspondem à escritura e publicação de sua obra, mas quase toda a sua produção insistiu, mesmo tardiamente, nas questões temáticas e formais do pós-guerra italiano. Seus principais livros são Il trucco, Racconti della guerra civile (1949), La paga del sabato (1949) e Primavera di bellezza (1959). É de 2002 a edição das cartas do autor que restaram. É de 2007 a edição completa dos contos, seguindo a classificação do próprio autor, que os dividiu entre ―Contos da guerra civil‖, ―Contos de parentela e do povoado‖ e ―Contos do pós-guerra‖. De 2001 é a primeira e única tradução para o português do livro Una questiona privata (Uma questão pessoal), de Maria Rosário Toschi.
Cada um dos autores e cada uma das obras por eles produzidas, aos quais chamo de
―neorrealistas‖ nesta pesquisa, teve um percurso único e muito diverso, mas todos eles com resultados indubitavelmente literários. Acredito, porém, que o escritor que esteve
8
Il super uomo,tantas vezes usado pelo regime fascista para alimentar o ego e o desejo de dominação do povo italiano sobre outros povos.
9
esteticamente mais próximo da Resistência enquanto problemática fundadora daquela estética foi Beppe Fenoglio. Por isso, nesta pesquisa, realizo o esforço de compreensão dessa trajetória, de sua relação com os impulsos históricos e sociais e de seu fruto estético a partir do livro inicial desse autor, Appunti partigiani, inédito em língua portuguesa.
Os Appunti são um texto escrito entre 1944 e 1946 (a crítica não é unânime quanto a quase nenhuma data de redação das obras de Fenoglio), que trata do último ano da Segunda Guerra Mundial no contexto da Resistência italiana. Escrito a mão nos cadernos de contabilidade do açougue do pai, o livro foi esquecido pelo autor na mudança da casa no centro de Alba (pequena cidade localizada no norte da Itália) para uma casa mais afastada, por volta dos anos 1960. Anos depois o novo proprietário esvaziou o sótão e colocou tudo em caixas de papelão, que foram deixadas à beira do Rio Tanaro. Um empresário de Milão que pescava por ali viu as caixas e abriu uma das cadernetas, em cuja capa estava escrito ―Contabilidade Açougue Fenoglio‖; leu a primeira página: ―Appunti partigiani‖ e a dedicatória: ―A todos os partigianos da Itália, mortos ou vivos‖. Por alguma coincidência aleatória, o empresário-pescador levou para casa as cadernetas I, II, III e IV. Muito tempo depois, essas cadernetas alcançaram o estudioso da obra de Fenoglio, Lorenzo Mondo, e vieram a público em 1994.
Os Appunti partigiani são o marco zero do Beppe Fenoglio escritor neorrealista, com ecos em toda a sua produção posterior (fatos, causos, personagens). Obra de um escritor não de todo compreendido à época (muito cruel, muito violento com os ídolos que restavam ao povo italiano), que agora alcança seu lugar nos estudos de literatura italiana. Seus livros são relançados, seu nome ganha prestígio.
As hipóteses levantadas por esta pesquisa são as de que Beppe Fenoglio e seus Appunti traçam um percurso específico que pode dizer muito da relação entre a literatura neorrealista e a tradição literária, a crítica, a recepção literária e a cultura italiana exatamente devido à sua aproximação estética, linguística, política, moral e física com a Resistência.
Partindo dessa hipótese e do texto que constituiu o corpus desta pesquisa realizei aqui três esforços distintos, todos exigidos pelo texto de Fenoglio, e todos com o objetivo indireto de levantar questões relevantes para uma reflexão sobre o Neorrealismo literário italiano, levantar seus pontos sombrios, trazer à tona suas incongruências, discutir sua relevância e sua potência ao longo dos anos. Cada percurso que me parecia essencial para a discussão está localizado em um capítulo.
Restringir os teóricos que aproximei à obra de Fenoglio, em todos os capítulos, foi uma escolha consciente com o objetivo de aprofundar a discussão. Dentro do universo disponível em minhas leituras, que tentei que fossem inicialmente muito amplas, mas que, num segundo momento, pudessem aprofundar a discussão, escolhi não comparar muitos textos teóricos. Pois meu objetivo não era aquele de levantar uma discussão teórica sobre um conceito em diversos autores, mas aproximar os Appunti ao que eles exigiam e ao que lhes pudesse fazer alçar um voo mais alto. Todos os capítulos são voluntariamente uma conversa com poucos teóricos, poucos conceitos, poucos textos, que, quando necessário, são apoiados por outras fontes. Daí a escolha maciça, dentre muitas outras possibilidades que se encontram na bibliografia, de um texto de história da Resistência e de uma crítica e especialista em Beppe Fenoglio, no primeiro capítulo; daí a escolha de um teórico – quase que de uma questão – para o segundo capítulo; daí a escolha por um só método de análise, de uma teórica, para o terceiro capítulo.
complicado e a simples narrativa historiográfica não contemplava os meandros abordados por Fenoglio em seus Appunti.
Optei então por adotar, nesse capítulo, dois teóricos que melhor dialogavam com os Appunti sobre o ponto de vista que me interessava discutir, aquele de viés historiográfico.
O primeiro deles foi Claudio Pavone, historiador italiano, que no ano de 1991 publicou o ensaio de mais de mil páginas intitulado Una guerra civile: saggio storico sulla moralità nella Resistenza10. Nele, Pavone volta à Resistência italiana a partir de documentos não institucionais, buscando em cartas, diários e bilhetes uma via de acesso às mudanças no conceito de moralidade ao longo daqueles anos. Muito de uma Resistência até então ovacionada é discutida por Pavone, que mostra também a possível não ruptura de fato da Resistência com o fascismo e os dilemas de uma Itália sem muitos outros referenciais após quase trinta anos de regime ditatorial. Dele me servi inúmeras vezes por acreditar que a sua nova e complexa visão da Resistência, sua conceituação do período enquanto guerra civil contribuía para uma apreensão dialética e fragmentada, já que em nenhum momento pretendia esgotar o tema.
A segunda foi a filóloga e crítica italiana, responsável pela edição crítica das obras completas do autor e precursora dos estudos sobre Fenoglio, Maria Corti, que em 1978 publicou o texto Il viaggio testuale11, em que discute muitas questões sobre o Neorrealismo literário italiano e acena algumas problemáticas relativas à obra de Fenoglio.
Feito o preâmbulo contextual e a discussão sobre o nascimento de uma estética que se reivindicava estritamente ligada àquele contexto, o segundo capítulo ganha um fôlego de teoria literária. Nele proponho um exercício teórico de aproximação dos escritos de Walter Benjamin sobre a relação entre literatura e experiência e os Appunti. Também essa aproximação me foi sugerida pelo texto de Fenoglio, em que autobiografia e ficção se misturam numa pretensa objetividade de crônica historiográfica ou diário, tendo a
10
PAVONE (1991).
11
Resistência como motivo profundo da narrativa. Foi a visão estética e política da Resistência, desenvolvida por Fenoglio em seus Appunti, que me fez chegar às teses Sobre o conceito de história, de Benjamin. Foi a autobiografia enquanto reivindicação de todo um movimento literário, presente principalmente nos Appunti, que me fez chegar aos conceitos de Ehfahrung, Erlebnis e ―rememoração‖, de Walter Benjamin. Para discuti-los, me utilizei dos textos ―Experiência e pobreza‖, ―O narrador‖, ―Sobre alguns temas em Baudelaire‖ e, por fim, os últimos textos escritos por Walter Benjamin, as teses ―Sobre o conceito de história‖, todos escritos nos anos 193012. Para o aprofundamento dos conceitos sobre experiência, me utilizei da ajuda dos teóricos Jean Marie Gagnebin13 e Michel Lowy14.
Nesse capítulo, além de aproximar as obras de Benjamin e Fenoglio, aproximo também suas vidas, profundamente marcadas pela experiência da Segunda Guerra Mundial. Como literatura de apoio para as notícias biográficas sobre Benjamin, me servi de Marcio Selligman15, e para aquelas relativas a Fenoglio, me dirigi ao seu biógrafo e crítico Davide Lajolo16 (inicialmente, um dos muitos que não compreenderam os escritos do autor, Lajolo se tornaria depois o responsável pela primeira biografia do escritor).
O terceiro capítulo é a análise do livro, tentando mapear a estratégia estética e política contida no texto e seus mecanismos de realização. Mais longo e detalhado, nele me proponho a esmiuçar muitas das problemáticas presentes no texto dos Appunti. Para isso, utilizei dois princípios analíticos que se fundiram em um só: primeiro selecionei os temas recorrentes no texto, suas questões linguísticas, suas bases fomativas; em seguida, aproximei a elas o modo com que Maria Corti realiza a análise de textos neorrealistas. Ao fim, tinha a análise separada em dois momentos distintos: um temático e outro formal. Acrescentei a ela um terceiro momento – que, na verdade, se apresenta antes dos outros dois – que é a aproximação efetiva, com citações, do texto dos Appunti aos conceitos benjaminianos sobre experiência.
12
BENJAMIN (1994a)
13
GAGNEBIN (2007).
14
LÖWY (2008).
15
SELLIGMANN (2009).
16
Ao longo dos anos de mestrado realizei, ainda, a tradução completa dos Appunti de Beppe Fenoglio. A tradução nasceu não apenas da necessidade de citá-lo em língua portuguesa ao longo do capítulo de análise17, mas também como um método de apropriação do texto. Dessa tradução é composto o ―Apêndice‖ desta dissertação, que consta do texto dos Appunti em língua italiana e de sua tradução instrumental, por mim realizada. Dada a complexidade de tal tarefa – tanto linguística quanto conceitual – antes do ―Apêndice‖, há uma ―Introdução ao apêndice‖, em que trato com mais calma dessa tarefa, explicitanto inclusive algumas escolhas tradutórias e a manutenção de alguns termos em língua original inevitavelmente presentes nas citações do terceiro capítulo.
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Capítulo I
1 A Segunda Guerra e seu fruto histórico: a Resistência
A Segunda Guerra Mundial foi um divisor de águas na história do século XX. Para a Itália não foi diferente: suas consequências políticas, sociais e culturais são a chave para uma maior compreensão da condição italiana hoje. Na literatura e no cinema, o que foi produzido sobre os influxos daquela tragédia ainda é considerado um dos pontos altos da produção cultural italiana.
No Brasil, nosso esforço de compreensão daquela Guerra acabou focando muito mais na tentativa de apreensão da Alemanha nazista e da experiência limítrofe dos campos de concentração e menos nas particularidades italianas, que se tornaram, no pós-guerra, muito menos relevantes, pois tinham sido muito menos extremas e cruéis. Além disso, a Itália tinha mudado de lado e produzido uma Resistência civil aos alemães, o que acabou sendo essencial para o que chamaria de um ―perigoso perdão internacional do Fascismo‖ em detrimento de uma ―justa e sempre insuficiente condenação irrestrita do Nazismo‖.
Para a Itália, no entanto, aquela continua sendo uma encruzilhada essencial, em que paradoxos e incoerências afloram em relação a muitos pontos, como o que trata do papel desempenhado pelo país naquela guerra e os dramas vividos naqueles anos, mas principalmente no que diz respeito à grande confusão política e institucional em que a Itália esteve imersa nos dois últimos anos de Guerra: a mudança de lado; a política dividida entre o rei, o ditador e a Igreja Católica; a divisão do país entre Norte e Sul; a Resistência e os partigiani18; o comunismo e a relação com a Rússia comunista; a semente do que depois se tornaria o sogno americano do pós-guerra.
18
Nascido e ambientado em meio a essas problemáticas, o Neorrealismo, cujas escolhas estéticas e formais encontram-se profundamente inseridas naquela discussão especificamente italiana, ganha imensa amplitude se observado em relação a seu ambiente de produção. Para isso, faz-se necessária uma imersão na Itália em fim de Guerra e suas diversas problemáticas. Todas elas ecoaram na produção neorrealista, muitas delas ainda ecoam na Itália de hoje.
1.1 O fim da Segunda Grande Guerra, alla italiana
Qual deve ser a primeira virtude de um balilla19? A obediência! E a segunda? A obediência!
[em caracteres maiores]
E a terceira? A obediência!
[em caracteres enormes].
Livro único do Estado, usado durante o regime fascista nas escolas primárias20.
O fascismo, regime totalitário que durou de 1922 a 1945, teve forte adesão do povo italiano, chegando a uma quase unanimidade em 1936, na época da proclamação do
19
Ballila, em dialeto genovês, significa criança. Referindo-se a um evento histórico em que uma criança jogou pedras no invasor austríaco da cidade de Gênova no ano de 1746, eram assim nomeados pelo fascismo as crianças e jovens italianos.
20
―Império Fascista‖. Sua derrocada tem início em 9 e 10 de julho de 1943 com o desembarque das tropas Aliadas na Sicília.
O caminho escolhido pelos Países Aliados para derrotar Adolf Hitler e Benito Mussolini poderia ter sido outro: a invasão do território alemão, a partir do Canal da Mancha, era a ideia defendida pelos ingleses. A insistência dos americanos por uma avançada a partir da África, alcançando a Sicília e subindo a Península Italiana até chegar à Alemanha21 foi decisiva para o destino da Itália. A ofensiva aliada em território italiano trouxe para o país dilemas e consequências: a primeira guerra feita em casa com o envolvimento de civis, uma rendição incondicional, um acerto de contas dramático e fratricida com seu próprio passado e com as escolhas que havia feito.
A Itália entrou na Guerra acreditando que a vitória da Alemanha era certa, que a Guerra aconteceria longe da Itália e que a ela caberia um papel central na nova configuração mundial num pós-guerra que imaginava o nazi-fascismo como vencedor: ―A maior parte dos italianos teria desejado estar na guerra o menos possível, sempre longe de casa, e deixando que o resto providenciassem os poderosos aliados alemães‖22.
O país não dispunha de exército, dinheiro, ou matéria-prima necessários para entrar numa guerra de qualquer dimensão, e, principalmente, não dimensionou corretamente aquela guerra. Além disso, nenhum motivo parecia ser suficientemente relevante, e ao povo italiano aquela guerra iria soar, desde o início, não justificada.
Um dado que acomuna muitos dos testemunhos de que podemos dispor é que a massa dos combatentes se sentiu lançada em uma empreitada de dimensões, intensidades e significados para além da própria direta capacidade não só de controle, mas até mesmo de compreensão (PAVONE, 1991, p. 77).
A questão da purificação da raça e o consequente extermínio dos judeus, base ideológica do nazismo, não estavam na base do fascismo. Essa distinção levaria o exército alemão a se relacionar com o exército italiano como um aliado necessário, nunca essencial. Para os alemães, o povo italiano também era uma raça inferior, que
21
ISAACS (1973).
22
deveria servir-lhes, mas que estava longe de ter as qualidades arianas necessárias para merecer respeito e admiração. Em resposta a isso, o desejo de serem protagonistas, de demonstrar seu valor e não receber ordens de nenhuma outra nação irá perpassar muitas escolhas italianas durante a Guerra: desde a escolha de se colocarem como aliados dos alemães – para provar sua capacidade – e inimigos dos ingleses – nação de que eram tradicionalmente aliados –, até a ferocidade com que, durante a Resistência, mesmo tendo assinado uma rendição incondicional, os italianos esqueceriam rapidamente seu passado fascista aliado de Hitler e tentariam dar as cartas da avançada aliada em seu território. A lembrança transcrita abaixo explicita esse esquecimento:
Os aliados, vale lembrar, derramaram seu sangue além do nosso para nos liberar do fascismo. As desconfianças que eles podem alimentar em relação a nós são justificadas: não devemos esquecer que também sobre o povo italiano recai a culpa. Seremos nós (note-se o diferente significado que assume este segundo ―nós‖) [sic], vanguarda popular, que devemos demonstrar aos Aliados ter rompido definitivamente com o fascismo e termos nos colocado em um novo caminho (PAVONE, 1991, p. 196).
Durante os primeiros anos de Guerra, os italianos oscilavam entre a não convicção dos motivos daquela guerra e a vontade de provar ser capaz de vencê-la.
O próprio Churchill tinha dito (...) que os italianos ―sabem ser os melhores em muitos campos‖ (...). Mesmo assim, estão decididos a fazer a única coisa que nunca souberam muito bem, ou seja, combater (PAVONE, 1991, p. 190).
modificada pela Resistência, em que antigos soldados do Exército Régio tentaram se opor ao soldado sem motivo para lutar.
Foi durante a retirada da Rússia, primeira grande vitória dos Países Aliados, no final de 1942, que o exército italiano se deparou, pela primeira vez naquela guerra, com uma experiência de derrota dramática. A partir daquela data, a Guerra começou a ser vencida pelos Aliados. Foi também na Rússia que o exército entrou em contato com outros dois aspectos da Guerra até então desconhecidos que iriam chocar profundamente os italianos: foi lá que o soldado italiano tomou conhecimento dos campos de concentração nazistas, os italianos sentiram pena dos prisioneiros e confirmaram do que era capaz o nazismo; foi lá que viram, pela primeira vez, os resistentes russos, chamados partizans, homens e mulheres que morriam de cabeça erguida. Muitos soldados do Exército Régio se tornariam partigiani na Resistência.
Após o retorno da Rússia, o exército italiano nunca mais voltaria a combater como antes. O fascismo perdia adeptos, os Aliados avançavam na África e, em julho de 1943, desembarcaram em território italiano, tornando insustentável a posição do rei da Itália de apoio a Mussolini. Uniu-se a isso
o cansaço da guerra, o desejo de paz, a violência sofrida pelos bombardeios aéreos, a solidariedade para com os familiares mortos, desaparecidos e espalhados em muitas frentes de batalha, a fome e outras privações materiais, a consciência da superioridade arrasadora do inimigo [que, juntos,] concorriam a dar a certeza de uma guerra irremediavelmente perdida (PAVONE, 1991, p. 7).
1.1.2 O ―25 de Julho‖, a primeira traição
Fascista depõem Mussolini e colocam no comando do país o Marechal Pietro Badoglio. Os italianos acharam que fosse o fim da guerra, e os soldados, que já desertavam desde o desembarque Aliado, agora o faziam sempre em maior número.
Efetivamente, ainda nada tinha mudado, e o exército emitiu ordens de punição contra desertores. Não era o fim da guerra e, para a Itália, aquele seria um forçoso recomeço: Badoglio, em seu discurso inicial, diria: ―A guerra continua. A Itália mantém a palavra dada‖. E completaria seu discurso dizendo que a Itália iria reagir a todo e qualquer invasor. Porém, a partir daquela data, quem fosse o invasor, quem fosse o inimigo e quem fosse o aliado, não era mais claro nem para o exército e nem para o povo italiano. Por isso ―toda a Resistência é atravessada por essa constante preocupação. (...) Que no 25 de julho o povo foi clemente demais‖ (PAVONE, 1991, p. 254).
1.1.3 A confusão dos ―Quarenta e cinco dias badoglianos‖
No intervalo conhecido como ―Quarenta e cinco dias badoglianos‖ faltaram diretrizes básicas para o exército e a nação e a Itália viveu uma sensação de desamparo institucional, nenhum poder regulador impunha ou cobrava algo23. Durante esse período foi delineada a situação caótica para o 8 de setembro: a ausência institucional, a revolta dos italianos pela traição de seus superiores, o rompimento entre exército e população.
A vontade comum de acabar com a guerra não foi suficiente para criar entre exército e população aquela concordância de intenção e de obra que, no entanto, fez parte da retórica oficial dos quarenta e cinco dias badoglianos. Isso aconteceu não apenas pelo comportamento dos altos Comandos, (…) mas porque o uso das forças armadas em função de ordem pública comprometeu no nascimento qualquer forma de fraternidade, embora (…) as tropas e os oficiais subalternos tenham manifestado com freqüência relutância a executar as ordens mais drásticas (PAVONE, 1991, p. 9).
23
A partir de 25 de julho as instituições deixaram de dar qualquer garantia para as escolhas individuais dos cidadãos italianos e todos eles passariam a decidir sobre si com base em convicções altamente subjetivas. Nem Igreja, nem Exército, nem Monarquia, nem Fascismo conseguiria guiar o país. E, a partir disso, que caminho escolher tornou-se um grande problema.
Para os Aliados, a Itália estava apenas ganhando tempo. Sem que a Alemanha fosse oficialmente comunicada, o marechal Badoglio seria o responsável pelas negociações de rendição da Itália, que, como exigiram os Aliados, foi incondicional. Para os alemães, os italianos tinham demonstrado o que já se sabia: ―eram um povo fraco, volúvel e pouco confiável‖. Hitler agiu como se tivesse sempre sabido que a Itália mudaria de lado e, depois de 25 de julho, aumentou assustadoramente o contingente alemão em território italiano: cada vez mais o país caminhava para ser o cenário e o palco para o desenrolar final da Segunda Guerra Mundial.
Os quarenta e cinco dias teriam servido também para dar tempo aos fascistas, com medo da condenação dos Aliados e da população civil, de fugirem. E foi o que fizeram: os comandantes dos altos cargos do exército, sem maiores explicações ou recomendações a seus subalternos, simplesmente, um dia, sumiram. Esse foi um dia-chave na historiografia da Itália moderna.
A desintegração do 8 de setembro marcou uma fratura não facilmente recuperável na história das instituições militares italianas, e, mais ainda, na consciência do país diante delas. Dessa fratura as drásticas tomadas de posição dos resistentes não constituem mais que as manifestações mais evidentes (PAVONE, 1991, p. 99).
1.1.4 O ―8 de Setembro‖, a segunda traição
O dia 8 de setembro de 1943 é a data da chegada Aliada a Roma e marcou o fim dos
fugido, marechal Badoglio inclusive. Por sua vez, o rei não aguenta a pressão e assina o acordo de paz, fugindo de Turim para Roma e de Roma para Bari (extremo-sul da Itália). A Península fica dividida em duas (de Roma para baixo já liberada/ de Roma para cima ainda em poder dos nazistas). ―Dia 9 de setembro Emanuele Artom anotou no seu diário:
‗Meia Itália é alemã, meia inglesa e não existe mais uma Itália italiana‘‖ (PAVONE, 1991, p. 172).
Mais uma vez nada estava definitivamente resolvido, mais uma vez os italianos estavam em meio ao campo de batalha, expostos e abandonados, se sentiam traídos, os oficiais tinham fugido, até o rei os tinha abandonado. E diante da sensação de abandono, desertar era considerado natural: ―O que caracteriza a catástrofe do 8 de setembro é que ninguém, oficial ou soldado, travestindo-se como civis, pensou que estava desertando‖ (PAVONE, 1991, p. 17).
Se 25 de julho tinha sido muito difícil para os italianos, 8 de setembro foi ainda pior, como Giaime Pintor, antifascista, escreveria em seu diário:
Os soldados que em setembro atravessavam a Itália com fome e seminus, queriam principalmente voltar pra casa, não ouvir mais falar de guerra e de esforços. Eram um povo vencido; mas traziam dentro de si o germe de uma obscura retomada: o sentido das ofensas realizadas e sofridas, o desgosto pela injustiça em que tinham vivido (PAVONE, 1991, p. 21).
A reação da sociedade civil diante do 8 de setembro foi de desespero e raiva enquanto assistiam ―às cenas em que pouquíssimos alemães dominavam muitíssimos italianos, derrotados, perdidos‖ (PAVONE, 1991, p. 17). Tentando salvar os que ainda não haviam sido capturados pelos alemães, os italianos deram total apoio aos desertores:
equívoco de Badoglio, acontecia agora sob aquele da desgraça comum (PAVONE, 1991, p. 18).
Com a desfeita de toda instituição reguladora, por alguns meses, a Itália viveu um estado de anarquia puro: em pequenos vilarejos não havia nenhum sentido regulador. Nessa hora de abandono, o país acabou optando pela união. Mas, em novembro de 1943, Mussolini foi tirado da prisão por uma expedição alemã e fundou no norte da Itália a República de Salò ou Reppubblica Sociale Italiana24, um governo sob explícito domínio alemão, que serviria para dar apoio institucional à ocupação do território italiano pelos alemães e seria a principal motivação dos últimos vintes meses de guerra. Diante dessa nova instância de poder regulador e em paralelo à avançada dos Aliados (que se contrapunha à primeira), fez-se necessária a escolha por parte da população italiana: ser contra ou a favor dos que tentavam pela força impor uma ―lei‖25.
Na hora de realizar a escolha, os impasses vieram à tona e tudo se tornou paradoxal e polissêmico, toda escolha guardava também incoerências, a situação nunca mostrava prós e contras por inteiro e a dúvida e a confusão seriam imperativos na Itália ocupada. As hesitações que dominavam o imaginário italiano giravam em torno das perguntas sobre se deveriam continuar participando daquela guerra, ou a Itália era agora apenas o território em que ela se desenrolaria; se aquela guerra era justa e como lidar, nessa nova conjuntura, com o fascismo; se tornar-se antifascista ou se era possível abster-se dessa decisão; se das duas forças que se enfrentavam em território italiano, Inglaterra e Alemanha, ambas grandes potências invasoras, qual delas seria a boa e qual a má e, finalmente, se a luta era imprescindível, de que lado deveriam lutar.
24
Daqui em diante referida apenas pela sigla RSI.
25
1.2 A decisão pela Resistência, uma guerra civil
Le guerre civili sono le sole che meritano di essere combattute26.
Franco Venturi
Num país em que reside o Vaticano, todos os italianos, ou quase, tinham feito dois juramentos: ao rei e ao Duce 27. Mas quem recebeu o juramento os tinha traído. Sobre a traição do Marechal Badoglio a Hittler e ao nazismo, Gaetano Salvemini, antifascista, escreveria: ―Um mau caráter não se torna um gentleman quando trai outro mau
caráter‖28
.
Nesse caso, o povo italiano se sentia liberado da fidelidade prometida. Se o rei e Badoglio haviam traído, o povo italiano estava livre para não obedecer ao chamado para a tentativa de reorganizar o fascismo na RSI no Norte e para não obedecer ao rei, que tentava fundar novamente o Exército Régio, no Sul.
O primeiro significado de liberdade que assume a escolha pela Resistência está implícito em seu ser um ato de desobediência. (…) Não exatamente contra a legalidade (já que exatamente quem detivesse a legalidade estava em discussão), mas desobediência a quem detinha a força de se fazer obedecer. (…) Que o poder contra o qual se revoltassem fosse ainda julgado ilegal além de ilegítimo, não fazia que completar o quadro (PAVONE, 1991, p. 25).
Grande parte da população, não sem alguns casos famosos de crise de consciência, optou pela resistência: civis, intelectuais e soldados dissidentes do exército regular começaram a desaprovar abertamente o Exército Régio, o fascismo, Mussolini e a presença do exército alemão em território italiano, ―pegando em armas numa verdadeira guerra civil para devolver a Itália aos italianos‖ (PAVONE, 1991). E sobre a definição
26―As guerras civis são as únicas que merecem ser combatidas‖ (PAVONE, 1991). 27
PAVONE (1991).
28
de guerra civil aqui adotada: ―No ambiente anti-fascista e resistencial a atribuição de guerra civil ao que estava acontecendo por vezes é negada, mas mais frequentemente é reconhecida, implicitamente ou explicitamente, com inflexões variadas‖ (PAVONE, 1991, p. 248).
A manchete dos principais jornais logo após o 8 de setembro antecipava os vinte meses sucessivos da nação: ―Necessidade da luta armada e Povo e exército querem a paz. A paz se conquista com a expulsão dos alemães do nosso território‖29.
Era impossível, porém, que a Resistência fosse comandada por um poder institucional, já que os únicos poderes nacionais (rei Vittorio Emanuele e marechal Badoglio) eram traidores. Por isso, inicialmente, o movimento de resistência foi voluntário e desorganizado, composto principalmente por jovens desertores, civis e intelectuais, que, no território ocupado, tentavam pela força expulsar os alemães e com eles os fascistas da RSI.
1.2.1 As instituições durante a Resistência, a revisão dos poderes e das funções
Nesse momento, e em relação ao fenômeno já instaurado da Resistência, as instituições da Itália ocupada também passaram a desempenhar novos papéis. Se ao longo dos anos do fascismo suas diretrizes haviam sido pautadas numa retórica tão fanática quanto frágil por seu caráter ditatorial, com as alterações libertárias seguidas à Resistência as duas principais instituições da Itália ocupada, Igreja e Exército, foram obrigadas a rever seu lugar no novo conflito instaurado. Além disso, com a aproximação do fim da Guerra, novas entidades representativas foram criadas para mediar a transição e/ou fundar as bases políticas para a nova Itália.
Após a Primeira Guerra e ao longo de todo o fascismo, a Igreja mantinha uma aliança com os ideais do Império Fascista com base em interesses recíprocos e se ocupava da
29
reconstrução da Itália e das almas. Com a entrada da Itália em guerra, a Igreja tentou não se pronunciar abertamente enquanto instituição e permanecer acima de todas as partes envolvidas, mas, na prática, três vertentes distintas operavam nos discursos da instituição. Um incutia nos fiéis a ideia de que a Guerra é punição aos pecados; um segundo justificava a Guerra como uma vontade divina, ―Deus quer, a História precisa‖; e um terceiro pregava que um cristão não deve odiar nem matar. Juntamente com isso, a Igreja pregava ainda que em guerra ―morrem sempre os melhores‖, o que justificava as mortes e gerava culpa nos sobreviventes. Com a decadência do fascismo e o advento da RSI, a Igreja foi se afastando do fascismo e, enquanto instituição, tentou continuar acima de todas as partes. Mas voltou a viver inúmeros dilemas no nível do indivíduo: o debate sobre a ―guerra justa‖ volta às consciências no embate entre RSI e Resistência. Pois, se um soldado mata em guerra, ele está defendendo seu povo e cumprindo seu dever. Mas se uma guerra se dá no interior de um mesmo país, o quinto mandamento estaria, sem justificativas, ferozmente violado, e a Igreja não poderia apoiar uma guerra fratricida.
Já o Exército, cujos soldados dos primeiros três anos de guerra eram ―bons e não viam motivo naquela guerra‖, quando desfeito, dá lugar a soldados lutando numa guerra violenta e cruel, de uma violência política que nada guardava da falta de engajamento do Exército Régio. A Resistência seria para os jovens aventureiros e desertores do exército uma oportunidade para, rompendo com o caráter hierárquico da instituição, realizar um acerto de contas. Neste acerto, o Exército Régio foi fortemente penalizado pela traição feita, e seus oficiais de carreira, em sua grande maioria, ficaram de fora da Resistência, enquanto que os soldados rasos do Exército Régio seriam a base da Resistência. O fato de que ex-soldados – rasos ou não – tenham constituído a Resistência gerou a dificuldade em diferenciar ex-fascistas de resistentes, confusão que fez com que os criminosos de guerra do Exército Régio nunca tenham sido entregues aos Aliados (esse objetivo nem mesmo chegou a fazer parte dos planos da Resistência).
decisões tomadas no interior das instituições, viviam perplexidades subjetivas e dispunham de certa liberdade para agir no registro de um cotidiano inserido na comunidade.
Há que se distinguir ainda os soldados regulares do rei, servindo no sul da Itália sob dominação dos Aliados, e os rebeldes do Norte, que, embora pudessem ter o mesmo objetivo – a expulsão dos alemães e a extinção do fascismo –, eram movidos por princípios e motivos radicalmente distintos. No Sul, o poder do rei ditava as regras e os combatentes lutavam sob a dominação de um líder, a quem deviam fidelidade e lealdade. No Norte, os partigiani não serviam a ninguém e se organizavam muito livremente em grupos – muitas vezes lutando entre si – para, na tentativa de romper definitivamente com tudo o que a Itália representava, gerar algo novo, livre das amarras do passado, livre de fascistas, invasores, igrejas e até reis.
Com o passar do tempo e a demora da avançada aliada, a Resistência foi se tornando um fenômeno organizado. Surgem os Comitati di Liberazione Nazionali, órgãos semilegais que negociavam com os aliados a avançada, quase como que preparando o terreno para o fim da Guerra e o retorno do país a mãos italianas. Nesse segundo momento da Resistência, surgem também os partidos, principalmente o Partido Comunista Italiano, fortemente ligado à URSS comunista. Os partidos se opunham abertamente apenas no que dizia respeito ao futuro da Itália, mas concordavam na parte mais relevante: a Itália deveria ser liberada de fascistas e alemães e, como não havia outra possibilidade, a luta armada realizada por grupos de resistentes deveria prosseguir e, com o fim da Guerra, a Itália deveria tomar um novo rumo nas mãos dos novos representantes democráticos. Para que isso acontecesse, os partidos, totalmente legais, através dos CLN, que transitavam entre legalidade e ilegalidade, financiavam a Resistência: ―O enraizamento dos partidos na sociedade italiana do pós-guerra teve certamente um dos seus pressupostos nessa presença resistencial dos partidos, que ainda hoje legitima o arco constitucional dos partidos da República Italiana‖ (PAVONE, 1991, p. 148).
primeiro para ajudá-los, para estimulá-los, para lhes dar conselhos com uma maior experiência, pôde orientá-los em direção às próprias posições políticas‖ (PAVONE, 1991, p. 151).
Compostos por jovens que tinham crescido sem conhecer nenhuma outra forma de política que não fosse o fascismo, os grupos de resistentes começaram a se dividir entre os apoiados por partidos – dependendo do partido variava também a orientação política e o nome recebido – e os autônomos, que não recebiam auxílio regular de nenhum partido e não expressavam direcionamento político a priori. As formações dos grupos apoiados pelo Partido Comunista denominavam-se I Rossi– os Vermelhos – e aquelas sem orientação política, apenas patriotas, e por vezes monarquistas, Gli Azzurri – os Azuis. Embora a problemática da presença política na Resistência seja bem mais ampla e não se limite à adesão ou não aos partidos por parte das formações (PAVONE, 1991, p. 161).
A questão relacionada à escolha de em que formação lutar, trouxe ainda maiores problemas para os resistentes:
Bastava tornar-se anti-alemães para deixar de ser fascistas? O documento comunista (...) parece negá-lo; e certamente nenhum ―anti-alemão‖ continuou a se qualificar como fascista. Mas se fascista se assumia em sentido forte, aí a perspectiva se tornava menos linear; e a suspeita com que foram vistas, por aquelas politizadas, as formações ―autônomas‖, meramente militares ou patriotas, parece poder ser atribuída não apenas a sectarismo político, mas à percepção de uma diferença de substância e de um não resolvido emaranhado da consciência nacional lidando com o problema da própria responsabilidade diante do fascismo e da guerra (PAVONE, 1991, p. 259).
1.2.2 O partigiano
É nesse momento, de uma maior organização política, que os ―rebeldes‖ e os
―desertores‖ passam a ser chamados indiferentemente da origem ou da orientação política, de partigiano. Palavra inicialmente rechaçada pela sua etimologia –―de parte‖ dava a ideia de alguém que luta em prol de uma parte e não de outra –, com o advento da politização entre os bandos, a palavra ganha o sentido histórico dos partizans russos e passa a designar ―resistentes‖, cobrindo semanticamente todos os envolvidos na luta pela liberação italiana, comunistas ou não.
O primeiro grande desafio dos partigiani foi aquele de se desvincular da ideia de que seu comportamento era de antipatriotismo ao desejar que a Itália perdesse a Guerra. Outra dificuldade era aquela de lutar contra seus compatriotas numa guerra fratricida30.
Os partigiani tentaram também criar um novo ideal de pátria, mas a empreitada não foi bem sucedida, porque a outra metade da Itália estava apenas arrasada com a Guerra e não motivada pela insurreição da Resistência31: ―O fato de que italianos combatessem contra italianos e que uns e outros invocassem a Itália tornava de fato mais difícil, mas também mais urgente, a reconquista de um seguro sentido de pátria‖ (PAVONE, 1991, p. 173).
Um orgulho partigiano foi o de ter rompido, ou desejado romper, com tudo o que o fascismo tinha representado. Marcado pela dureza da experiência da guerra, rechaçando qualquer comportamento religioso, o partigiano provou ser mais competente que os oficiais militares de carreira e poder fazer a Resistência sem o auxílio do ―hierárquico e burocrático‖ Exército Régio: ―A identidade nacional não podia então ser reconstituída que tirando de si o secular destino que tinha feito da Itália apenas o palco dos grandes dramas históricos recitados como protagonistas por outros povos‖ (PAVONE, 1991, p. 179).
30―Os italianos são o ún
ico povo (acredito) que tenham na base da sua história (ou da sua lenda) um fratricídio‖ (SABA apud PAVONE, 1991, p. 267).
31―Una parte d‘Italia aveva subito la miseria della guerra, non la scossa morale dell‘insurezione‖ (PARRI
Muitos foram os paradoxos vivenciados pelos indivíduos envolvidos, entre eles a problemática relação entre legalidade e ilegalidade, voluntariado e financiamento partidário; ou, ainda, o dilema sobre até que ponto o direcionamento político diminuía a liberdade das formações, se receber ou não receber dinheiro dos partidos, e, caso optassem por receber, se deveria haver distinção entre o honorário dos chefes de bandos e dos outros partigiani; havia ainda a dúvida, às vezes política, outras aleatória, sobre em que grupo lutar; e, por último, os italianos se perguntavam se, uma vez expulsos os alemães e fascistas, em que medida a ocupação da Itália por ingleses e americanos consistia numa boa troca: ―Dos Aliados, então, não se podia prescindir, mas era necessário manter diante deles autonomia e dignidade, diferenciando-se, também nisso, do comportamento dos fascistas em relação aos alemães‖ (PAVONE, 1991, p. 193).
A intensificação da Resistência italiana após o 8 de setembro seria recebida com desconfiança e alguma admiração pelo países Aliados, o que reforçava ainda mais nos partigiani a necessidade de provar seu rompimento com a Itália anterior. A relação entre Inglaterra e Itália estava abalada pelos primeiros anos de guerra, mas não se podia prescindir daquela massa de soldados que, voluntariamente, se colocava à disposição dos países Aliados para lhes ajudar a vencer a Guerra.
A admiração é maior enquanto – digamos francamente – no exterior era difusa a opinião de que uma coisa parecida os italianos não teriam feito nunca (...). A idéia que neles seja defeito não tanto a coragem física quanto a virtude militar e até a vontade de lutar, não é de hoje e não é de ontem32.
Já os fascistas da RSI demonstraram dificuldade em reconhecer a própria existência dos partigiani.
Os fascistas têm de fato dificuldade em compreender como se possa não ser heróicos (...) e ao mesmo tempo não ser banais. Para além dos objetivos de propaganda, o uso de expressões como ―bandidos‖ (...) manifestava o forte desconforto diante de um fenômeno imprevisto, que se tentava exorcizar atribuindo
32
o nascimento e o desenvolvimento a agentes externos (PAVONE, 1991, p. 239).
Na base dessa negação fascista, estava uma profunda incredulidade na possibilidade real dos antifascistas de pegar em armas. Dessa incredulidade advinha a maior dificuldade em sair vitoriosos daquela guerra civil contra os partigiani: ―A segurança por muito tempo gozada pela cobertura institucional, o desprezo pelo adversário (...) tornava os fascistas não preparados para enfrentar uma verdadeira guerra civil combatida por ambas as partes‖ (PAVONE, 1991, p. 240).
Quanto ao dia a dia daqueles vinte meses, é importante lembrar que tanto o governo do rei quanto o governo fascista evitaram, em comum acordo com seus respectivos aliados, provocar um enfrentamento direto entre seus exércitos. O enfrentamento se daria entre RSI e partigiani, levantando mais uma vez a discussão sobre a relação inexistente entre Exército Régio no sul da Itália e partigiani no norte.
Esta é uma confirmação de que a guerra civil não foi combatida entre Reino do Sul e República Social Italiana. Foi uma guerra combatida entre os fascistas e anti-fascistas, sobre o único território que os via ambos presentes politicamente e militarmente, numa partida que assumia também um significado envolvendo todo o povo italiano (PAVONE, 1991, p. 238).
Os fascistas da RSI nada ofereciam de novo em relação aos fascistas dos primeiros anos de guerra; ao contrário, se mostravam desesperados. O surgimento do partigiano trará outra possibilidade de identificação e uma nova perspectiva para o acerto de contas com o passado, cheio de esperança e projetos. O aparecimento desse novo oponente levará os fascistas a um ulterior desgaste em sua função e naquilo que representavam para o povo italiano.
No final da Guerra, a escolha pela Resistência tornou-se ainda mais dramática. O inverno de 1944 foi rigoroso; os fascistas e alemães, já cientes de que perderiam a guerra, tinham se tornado mais cruéis e menos tolerantes com os partigiani; havia uma maior escassez de comida e as batalhas diminuíam entre RSI e partigiani com a avançada aliada. Nos últimos meses de guerra, muitos foram os partigiani, que, não suportando tantas provações físicas, se esconderam em lugar mais confortável, esperando a Guerra acabar.
Contínua era a necessidade de renovar a escolha [pela Resistência] cada vez em condições ainda mais difíceis daquelas dos primeiros meses (…). A escolha deve ser, portanto, considerada, muito mais do que como uma instantânea iluminação, como um processo que a cada vez abre o caminho por meio de provações, porque cansados estão os homens que a vivem (PAVONE, 1991, p. 39).
A República Social Italiana, ou República de Salò, o governo-fantoche sob domínio alemão, durou até abril de 1945, quando Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci foram capturados, julgados rapidamente e fuzilados, e seus corpos expostos em praça pública, em Milão. Era o verdadeiro fim da Segunda Grande Guerra. Como tinham esperado os italianos em 25 de julho e em 8 de setembro de 1943 e como tinham desejado nos 20 meses seguintes.
E aí? – gritei a eles diminuindo a velocidade da bicicleta. E tanta era naqueles dias a identidade de sentimentos e pensamentos que eles entenderam muito bem o sentido da minha pergunta e, embora não me conhecessem como eu não os conhecia, responderam com um gesto alegre de mão: – Foram embora!33.
33
2 O Neorrealismo
A Resistência foi na história, na política, na cultura e na sociedade italiana a herança mais importante deixada pela Segunda Grande Guerra para a Itália (enquanto que dos três primeiros anos de guerra fala-se pouco ou nada, como que num recalque do fascismo): a experiência de desobediência em massa, vivida pela primeira vez na história da Itália unida34, deixou muitos frutos: politicamente, a Itália foi um prolongamento daquele cenário até os anos 1990, com o início da Segunda República, e ainda é, hoje, o que se organizou entre os partidos naquele período; socialmente, ainda vive a problemática de classes e sindicatos alavancada com o proletariado naquele momento; e, culturalmente, ainda se remete, com frequência, para reafirmar ou negar, às questões estéticas levantadas a partir daquela guerra civil.
A produção cultural do pós-guerra na Itália, principalmente literária e cinematográfica, é conhecida pela ―etiqueta‖ Neorrealismo. A palavra tem origem no movimento alemão de reação ao Expressionismo, denominado Neue Sachlichkeit, de onde quase certamente deriva o vocábulo italiano Neorrealismo, também em final dos anos 192035. Mas a palavra permanece pouco utilizada na língua italiana até o ano de 1942, quando é empregada, no sentido que conhecemos hoje, por Mario Serandrei, montador do filme Ossessione, de Lucchino Visconti. Em uma carta ao diretor, Serandrei diria: ―Não sei como poderia definir este tipo de cinema se não com o apelativo de neorrealístico‖. Em 1943, a etiqueta se estende do cinema à literatura, assegurando assim a autonomia do vocábulo em relação à sua origem alemã 36 e ao seu uso literário – Realismo – na Itália dos anos 1930, de que o Neorrealismo não é uma retomada.
O Neorrealismo não foi um movimento organizado, apesar de no cinema ter tido um grande amadurecimento da discussão teórica. Não tem manifestos nem artistas reunidos nem obras de caráter exclusivamente panfletário ou engajado. Embora as raízes do rompimento que o Neorrealismo realizou estejam localizadas no começo do regime fascista, segundo Maria Corti, filóloga e crítica italiana, são nos últimos anos de Guerra,
34
PAVONE (1991).
35
BRUNETTA (1972, pp. 129-136).
36
principalmente pela influência da Resistência – ―de onde [deriva] o seu caráter mais coletivo e ligado a um processo generalizado de liberação‖37– que tal rompimento se manifesta. Assim, por ―Neorrealismo‖ entende-se aqui um conjunto de manifestações artísticas fruto de um mesmo ambiente, nem sempre produzidas durante os anos de imediato pós-guerra, mas contaminadas pela experiência de uma Itália arrasada por uma guerra perdida, apoiada moralmente numa Resistência vitoriosa38. Esteticamente, poderia dizer, com André Bazin, que o que justifica o epíteto de ―Neorrealismo‖ é certa
―vontade de realismo‖, em oposição ao esteticismo39.
O Neorrealismo, tanto cinematográfico quanto literário, teve como matriz a Segunda Grande Guerra e diante daquele cenário elaborou a renovação das linguagens na tentativa de uma nova forma de fazer arte, no caso, e não por acaso, naquele momento, fortemente marcada pela cinematografia. O cinema, filho da possibilidade técnica surgida com a fotografia, representava a possibilidade de ―mostrar‖ a realidade
―exatamente como ela se dava‖, foi a linguagem preferencial para uma tentativa de ficcionalização/transliteração do real. Numa profunda relação com o documentário, o cinema neorrealista extrapolaria as fronteiras do real e do ficcional, através de estratégias conscientes de manejo das duas matrizes, o ―sublime‖ e o ―humilde‖40, ora aproximando-as, ora afastando-as.
Apesar de todas as especificidades, algumas recorrências daquele cinema merecem atenção. São elas: a descoberta da paisagem italiana e o gosto pelos ambientes naturais, aqui não estáticos, mas determinantes à ação; a escolha por mostrar uma ―Itália proletária, suburbana, anti-heróica‖41; o emprego dos dialetos presente em muitos filmes42; o valor de documentário de algumas películas; o uso de atores não
37
CORTI (1978, p. 29).
38
FABRIS (1996).
39
BAZIN (1981).
40
A terminologia é de Maria Corti (1978). Corti entende por sublime tudo o que advém da tradição literária e por humilde, o que era colhido na oralidade das classes menos favorecidas, agora, através das operações formais do Neorrealismo, inseridas no sublime.
41
POGGIOLI apud FABRIS (1981, p. 67).
42 ―Os dialetos, considerados pelo fascismo