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A ESQUINA DOS CONTOS

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Academic year: 2022

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SOBRE O AUTOR:

IVAN CEZAR INEU CHAVES , brasileiro, nascido em São Sepé, interior do Rio Grande do Sul aos quatro de janeiro de 1962 . Devido ao golpe militar de 1964 seu pai abandona o País e recebe asilo político no Uruguai, para onde toda a família é forçada a se mudar. Alfabetizado em escolas do País do Prata, só retorna ao convívio com a língua portuguesa já na fase adulta da vida. Mas desde cedo , mesmo nos tempos em que permeava idéias na língua espanhola , apaixona-se pela literatura e se dedica à arte de escrever.

Advogado registrado na Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Rio Grande do Sul, exerce sua profissão com escritórios em São Sepé e Porto Alegre. Obteve também o registro profissional como Jornalista e durante muitos anos publicou crônicas e artigos nos Jornais ‘Folha Popular” e “Extra” de Sant´Ana do Livramento e em

“A Palavra”, de São Sepé.

Possui trabalhos literários publicados na internet , no portal OVERMUNDO e no sítio RECANTO DAS LETRAS, bem como de um Blog denominado IVANCEZAR ( http://ivancezar.blogspot.com ) , além de participações nos blogs POETAS GAÚCHOS e DIÁLOGOS POÉTICOS, onde interagem centenas de autores (as) que compõem a nova geração de poetas e escritores brasileiros.

AGRADECIMENTOS

Agradeço

- a Deus, Grande Arquiteto do Universo, sem o qual não há – jamais haverá - obra alguma

- A minhas filhas Thaís e Jéssica , por elas tenho ido muito além de meus limites ...

- Aos verdadeiros amigos e aos companheiros da lavra, que sempre incentivaram a arte da escrita.

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A ESQUINA DOS CONTOS

APRESENTAÇÃO

Este livro está dividido em quatro grupos de contos , cada um deles agrupando uma sucessão de histórias e causos que espero sejam do agrado.

São situações do cotidiano narradas de maneira leve, sem os recursos da linguagem rebuscada , com o direto e indisfarçável objetivo de atingir a maior gama possível de leitores. Do mais culto ao menos iluminado, a idéia é convidar para uma leitura amena, sem deixar de ser crítica e construtiva.

Em CONTOS AVULSOS as histórias não se conectam especificamente a um único personagem, compilando experiências de muitas épocas e de variados tipos, sujeitos fictícios , ou não ... Nunca será demais escrever que a fantasia e a realidade transitam por uma mesma via no mágico universo das letras .

Já na série do DELEGADO DADEU se concentram as histórias do Policial Civil DADEU – suas façanhas e muitas vezes divertidas aventuras desse agente da Lei e sua coleção de experiências no submundo do crime e no ambiente próprio dessa casta social – a Polícia – e todas as particularidades que cercam a atividade.

A série destinada ao personagem ABEDULA dedica uma especial reverência à cultura árabe trazida para o Brasil pelos imigrantes - são relatos do cotidiano de um Brasil antigo que recebeu de braços abertos milhares de estrangeiros – divertido e irreverente o curioso ABEDULA representa algo assim como uma própria síntese da colônia árabe.

Por fim, a série ALFACE narra a saga da adolescência , de um personagem juvenil e rebelde de seu tempo que em seus causos nos convida para lembranças carregadas de emoção e que instigam o leitor a voltar no tempo e ao cenário da comuna escolar , da merenda compartilhada , dos bons tempos que enclausuram a construção de todas as biografias.

E tudo gira em torno a uma mística geografia – um cruzamento de duas ruas – ou uma esquina . Que não era, contudo uma esquina qualquer e comum às tantas outras . Era a ‘ESQUINA DOS CONTOS’ , ponto de encontro de contadores de causos . E aqui o convite para que o leitor viaje no tempo e faça parte da confraria, como se estivesse sentado no muro da esquina . Da esquina dos contos ....

Contos Avulsos - O início

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Na esquina dos contos, que consagrou o personagem Alface como um dos maiores contadores de causos de que já se teve notícia , passaram também inúmeros outros contistas anônimos, alguns deles inclusive eram caminhantes sem nome , residência ou qualquer outro parâmetro de referência . Eles chegavam atraídos pelo agrupamento de jovens desocupados e contavam suas histórias.

Aqui estamos apenas registrando alguns desses contos que não guardam vinculação com personagens fixos . Cada uma das “estórias” representam apenas o resgate daqueles encontros na esquina , onde ninguém imaginava que um dia seriam compilados para uma coletânea . Os contos avulsos são, portanto, uma síntese de um passado de nômades anônimos.

Realidade ou ficção , ninguém sabe - nem nunca se saberá – mas o certo é que esses contos sobreviverão para todo o sempre , pelas mãos deste que vos escreve e que foi um dos camaradas da esquina , quiçá o único daquela geração que empenhou no mercado do tempo algumas horas destinadas à lavra.

Certa ocasião, num dia de chuva mansa e vento frio, estávamos todos amontoados no avarandado, quando adentrou ao resto de abrigo um caminhante com trajes que beiravam à mendicância . Ouviu alguns contos, abriu aquele sorriso largo e generoso que só os pobres parecem reverenciar como um tesouro único , e logo nos contou uma história que nós nunca esquecemos.

Disse que no início do século XX , quando as cidades do interior não possuíam luz elétrica , seu pai – ainda jovem e solteiro - trabalhava para a municipalidade como acendedor de lanternas da iluminação pública que eram alimentadas a querosene e cujas mechas eram avivadas ao anoitecer e apagadas ao raiar do dia.

Numa dessas noites , contou o anônimo, que seu pai encontrou uma bela mulher vestida de branco e que tremia de frio. Agindo com piedade, mas ao mesmo tempo seduzido pela beleza da donzela ele ofereceu-lhe seu casaco e prontificou-se a lhe dar uma carona na carroça da prefeitura, onde havia espaço para duas pessoas além do compartimento de carga onde se depositavam os galões de querosene, estoques de mechas para reposição e uma escada , além de outros utensílios.

Ao chegar nas proximidades do cemitério, a moça pediu para descer da carroça e rogou para que ele não a acompanhasse, alegando que seus pais

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a puniriam se a vissem chegar acompanhada. Seu incauto pai acatou o pedido da intrigante mulher da noite, mas desconfiou ao vê-la desaparecer na penumbra do portão principal do cemitério. Porém, tratou logo de retornar a suas atividades, conquanto já havia se arriscado demais ...

No outro dia, ao perceber que não havia resgatado seu casaco, voltou ao bairro onde se situava o cemitério e indagou pela moça, dando seus rasgos físicos , mas ninguém a conhecia ... Intrigado entrou no cemitério e se pôs a caminhar por entre os túmulos , sentindo um calafrio ao ver seu casado bem dobrado repousando sobre uma lápide de mármore , escurecida pelo

tempo .

Quase desmaiou quando se aproximou do túmulo, pois ao retirar seu casaco ficou a descoberto a inscrição e a fotografia , onde constava a data do óbito como sendo no dia treze de agosto de 1907 ... Era ela , a mesma mulher que ele carregara na noite anterior.

Contou que seu pai morreu velho e que cada vez que lembrava do acontecido, molhava os olhos e fixava o olhar ao desconhecido. Logo em seguida a chuva parou, e sem dizer mais nada, o homem partiu deixando- nos atônitos com esse que ficou marcado como sendo o primeiro dos nossos

“Contos Avulsos” ...

O Delegado Dadeu

O casal de feições italianas chegou de ônibus na rodoviária de Porto Alegre, indagaram as horas a um senhor bem trajado que respondeu - dezesseis horas – que eles custaram a entender , pois conheciam simplesmente como quatro da tarde – “Dado” aguardava os pais ansioso e nem bem desembarcaram saíram em disparada para tomar o primeiro ônibus, (táxi era muito caro), com destino ao Bairro da Azenha, onde ficava uma antiga pensão que hospedava os jovens do interior que vinham cursar a Academia da Polícia Civil.

Chegaram na casa antiga e “Dado” logo foi pedindo à dona autorização para que os pais pudessem “se lavar” e trocar de roupa, afinal a cerimônia de formatura estava marcada para iniciar às 19:00 horas e ele seria um dos novos “Investigadores” de Polícia, um cargo que posteriormente foi extinto lá pela década de oitenta, ficando a Polícia Civil formada apenas por

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Terminada a cerimônia, “Dado” convidou seus pais para comer grelhados numa churrascaria popular próxima ao Quartel do Corpo de Bombeiros e, para felicidade da família ali iniciava-se a carreira do filho que foi designado para trabalhar em diversas cidades pequenas do norte do Estado. Cidades onde existia uma Delegacia de Polícia, porém jamais houve um único Delegado no comando – no máximo aparecia algum uma vez por mês , apenas para assegurar o recebimento de um extra pela “substituição” ...

Por onde passava, portanto, o Investigador era conhecido como o “Delegado Dadeu” , que deveria chamar-se Tadeu , mas foi mais uma vítima dos velhos oficiais de registro civil – descendentes de italianos que trocavam a letra “t”

pelo “d” , da mesma forma como os árabes trocam o “p” pelo “b” . Mas como um “dado” lembrava a figura de um cubo com “lados diferentes” , julgou que não seria respeitável ser conhecido pelo apelido de “Dado” , o que transformava “Dadeu” numa opção mais segura, não obstante a carga melancólica da origem do nome ...

O Delegado Dadeu colecionou ao longo de quase trinta anos de Polícia inúmeras histórias, mas como o espaço do contador de “causos” é sempre limitado, vamos aqui nos ater aos mais curiosos. O primeiro foi quando atendia num lugarejo que durante a chamada “onda de emancipações”

virou município autônomo, mas cuja “cidade” não passava de uma única rua , pavimentada apenas numa linha reta de cem metros, exatamente à frente da Praça, da Igreja e da sede da Prefeitura Municipal . Certa ocasião acamparam na cidade vigaristas que vendiam herbicidas e insumos agrícolas falsificados no Paraguay , tidos como homens ricos, aliciavam moças e faziam promessas de emprego e passaportes para a boa vida na cidade grande. “Chico do Mato”, conhecido “abigeatário” – (ladrão de gado) da região negociou com os estelionatários sua filha mais velha,

“Pita”, de apenas 16 anos, num “pacote fechado” para três dias de amor, recebendo em pagamento seis notas de cinqüenta dólares norte- americanos.

Primeiro ele se exibiu bastante nas “pencas” e canchas de bocha, mostrando o dinheiro estrangeiro, mas no dia seguinte como não havia onde trocar, “Chico do Mato” necessitou viajar cento e cinqüenta quilômetros até uma cidade pólo para realizar a operação de câmbio da moeda e eis que chegando lá, foi constatada tratar-se de moeda falsa.

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Enfurecido ele voltou à cidade disposto a terminar com os estelionatários, mas evidentemente quando chegou não encontrou mais ninguém ...

Foi quando se deslocou para a Delegacia onde , assaltado pela fúria , “Chico do Mato” narrou a história nos mínimos detalhes , e ao final o

“Delegado Dadeu” , como convém, incontinenti , deu-lhe ordem de prisão por exploração sexual de menor, colocando o vilão direto para o xadrez . O caso repercutiu tanto que nosso policial – prestigiado - foi transferido para

um outro lugarejo, digamos “menos pior”...

Nessa outra cidade, próxima de um grande centro produtor de máquinas agrícolas , havia rádio , hospital e até um pequeno centro comercial onde existiam confortos como vídeo-locadora , lotérica, banca de revistas e até um supermercado. No “super” da cidade trabalhavam dois gringos vindos da roça, muito tímidos e sensíveis. Eram “raios” de feios e com pouca sorte no amor, eles compravam revistas pornográficas e se excitavam lendo depois do expediente.

Numa ocasião a dupla depois de ler um exemplar de quadrinhos “gay”

resolveu combinar um troca-troca para se realizar após o expediente, quando se deslocaram para a casa de um deles com uma dúzia de latas bem geladas de cerveja . Chegando em casa, depois de beber todas, estabeleceu-se a discussão de quem seria o primeiro a desempenhar o papel ativo, e a sorte foi decidida no par ou ímpar. O mais novo, um gringo retaco e cabeludo literalmente enrabou o mais velho e após terminar pediu para ir ao banheiro se lavar e voltar para ultimar o acordo. Só que depois de estar dentro do quarto de banho pulou a janela e fugiu pelos fundos da residência.

Seu parceiro, sentindo-se ultrajado, “cabeça de bagre” de um “estelionato sexual” , buscou a Delegacia de Polícia onde contou toda a história para o nosso “Delegado Dadeu” – O agente da Lei, contendo-se para não soltar gargalhadas , teve de fazer o registro do Boletim de Ocorrência e remeter o expediente para a Promotoria de Justiça que providenciou numa medida judicial impedindo o contato físico dos moços , diante do clima de vingança estabelecido. Dizem que dias depois ambos sumiram da cidade ...

Abedula

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Uns dizem que foi lá pelo ano de mil novecentos e seis, outros juram que foi no mínimo dez anos mais tarde,o certo é que nossa “estória” começa lá no início do século XX, entre a primeira e a segunda década dos anos mil e novecentos e uns , quando desembarcou em Uruguaiana um Palestino muito desajeitado e entristecido pelos efeitos da migração, mas que estava eufórico com as possibilidades do futuro , sobretudo porque trazia algumas economias para montar um negócio na próspera fronteira do Brasil com a Argentina.

Eram várias moedas de Libra Esterlina, que trouxe carregadas numa bolsa de pano costurada no interior das cuecas , e que seu tio avô – Ibrahim – lhe havia presenteado para que abandonasse o Oriente Médio, o quanto antes, já que o traumatizado velho havia perdido sua esposa e seu único filho durante a invasão turca e queria que o sobrinho fosse buscar vida nova , longe da guerra e das hostilidades que rondam aquele canto do mundo desde os primórdios da civilização.

Era uma época em que no interior havia muito pouca qualificação nos serviços públicos e vigorava o velho ditado popular “em terra de cego, vesgo é Rei” , o certo é que nosso personagem logo foi vítima disso, pois ao se dirigir ao Cartório para obter sua “Carteira Modelo Quatro”, que naquele tempo era o documento que franqueava o trabalho e residência a estrangeiros em zona de fronteira, o funcionário ao tentar “aportuguesar” o nome do infeliz árabe, o documentou com o nome de Abedula . Durante todos os anos que se seguiram, o árabe esbravejava quando os provocadores chegavam a seu estabelecimento, que já havia se tornado ponto de encontro de tudo quanto era a espécie de gente , e conhecedores das artimanhas para vê-lo irritado e em fúria iam logo atacando – “ e aí turco??” , ao que ele prontamente respondia – “turco não, libanês” . Aliás, era comum que os jordanianos e os palestinos mentissem que eram sírios ou libaneses, pois acreditavam que isso lhes conferia mais respeitabilidade.

E a provocação logo atingia o apogeu : - “tudo bem seu Abedula?” – Não é abedula, é Abdallah” , e aí o coitado contava sempre a mesma história –

“aquele gringo burro trocou o nome de Abdallah”...

Certa ocasião, Zé Mauro e o alemão Klaus, dois contrabandistas de couro e charque, que seguidamente visitavam a região do comércio, resolveram aplicar uma no Abedula e contrataram um sujeito conhecido como “Bico Doce” devido a sua fama de mulherengo, mentiroso e chegado a destilados

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nobres – uma espécie de estelionatário rudimentar – o papel dele era sair de dentro da repartição nos minutos finais do expediente.

Exatamente às 17:50 , faltando apenas dez minutos para o encerramento do expediente, alemão Klaus e Zé Mauro estacionaram o Ford Modelo “A”

na esquina do prédio da repartição , ante o olhar ansioso de Abdallah no banco traseiro do veículo. – “Calma diziam, o encontro tem de ser do lado de fora , pois “o homem” não pode correr riscos.” - Cinco minutos depois, saiu do prédio um homem vestindo um impecável paletó preto, gravata de borboleta, entrou no carro e saíram pelas ruas de Uruguaiana. Ao final de alguns minutos, desceu o elegante indivíduo carregando um envelope com dinheiro , boa parte das economias de Abdallah iam-se com aquela

“autoridade”, mas ele estava feliz, afinal iria recuperar seu nome e em poucos dias receber documentos novos. Voltaria a ter sua identidade !

Generosos, e muito satisfeitos pela ajuda ao “amigo”, a dupla alemão Klaus e Zé Mauro convidaram o árabe para comemorar comendo um churrasco – tipo “parrillada” – no outro lado da fronteira , na cidade argentina de Libres . - "Não se preocupe é tudo por nossa conta ... " o que deixou ainda mais eufórico o agora feliz Abdallah . - "Daqui a duas horas passamos para pega- lo ..."

Saíram da frente do estabelecimento e foram direto para a Pensão da Tia Benta, conhecida por hospedar todos os malandros que chegavam à fronteira, onde os aguardava já de malas prontas o “Bico Doce” – foi só o tempo de ratear o dinheiro - e levar o vigarista até a Gare onde embarcou num trem com destino a Santa Maria, via Alegrete e Cacequi. A noite, regada a vinhos de Mendoza e carnes nobres da Província de Santa Fé , terminou com o Abdallah embriagado, dormindo sono profundo, e sem imaginar que acordaria de manhã cedo bem mais pobre ... e continuaria ABEDULA ...

Alface

Nunca se soube ao certo o motivo do apelido, mas ele ficou conhecido por toda a geração de alunos da década de setenta como “Alface” – ninguém o

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chamava pelo nome – ele era simplesmente o “Alface” , o pior aluno , o terror dos professores, a negação total do que poderia se denominar “bom exemplo”, mas ao mesmo tempo era uma espécie de Herói-bandido – o cara que divertia demais aos outros. E por vezes, é verdade, até assustadoramente.

“Alface” era tão irreverente que estando com um dente totalmente corroído e tomado de cáries , decidiu extrair ao invés de trata-lo, pois considerou que seria muito interessante ostentar o “visual” sem um incisivo superior , o que de fato lhe atribuía ares de peculiaridade que combinadas a uma face redonda e gorda povoada de cavidades de acne, transformavam “Alface”

num ser , no mínimo , diferente .

Como ele não se apegava minimamente aos compromissos com o estudo, sobrava-lhe tempo para tudo o que os demais tinham de abdicar, de modo que “Alface” sempre estava a par das últimas , trazendo as novidades do esporte, as fofocas da escola e os últimos “hits” do momento, numa época em que só existiam os compactos e os Long-Plays . Sempre atual, ele impressionava a todos e sua presença apenas física no ambiente da escola se destinava a manter essa proximidade com a comunidade estudantil.

Foram muitas as estórias hilárias que “Alface” legou para a posteridade, mas por falta de espaço vamos aqui contar apenas duas delas, para prestar reverência a sua biografia. A primeira foi um dia em que “Alface” fez uma aposta com um grupo de alunos de que permaneceria todo o período da aula de matemática dentro de um antigo armário de madeira maciça que ficava ao lado da mesa do Professor. Iniciada a aula, o mestre logo percebeu um clima diferente e que algo havia de errado ali, mas enfim foi ministrando sua aula.

Murmúrios e nervosismo impregnavam o ambiente enquanto equações e fórmulas eram escritas no quadro negro, até que o velho e vivido professor percebeu muitos olhares dirigidos pelos alunos em direção ao armário e sob um silêncio sepulcral começou a ouvir ruídos vindos do interior do móvel . Abriu a porta e entre a perplexidade e a natural tensão descortinou-se a cômica cena do “Alface” abanando para o Mestre e dizendo-lhe: - O l á ...

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Depois desse episódio e cumprida uma pena de suspensão de quinze dias,

“Alface” retornou para o convívio da escola, contando as aventuras que haviam se consumado ao longo das duas semanas de afastamento compulsório e durante algum tempo , resignado pela punição, comportou-se adequadamente.

Logo porém, a mesma turma que o cultuava mas também o incitava, indagou – “e aí não vai aprontar outra ?” Ao que ele respondeu com invulgar determinação- “Calma já comprei um quilo de feijão branco e meia dúzia de ovos” . Ninguém entendeu nada , mas “Alface” logo tripudiou –

“seus burros não sabem que feijão branco e ovo cozido rende o pai de todos os peidos...”

Revelada a intenção só faltava escolher a vítima e a sorte recaiu na professora de literatura , uma magricela quase anã, que a turma havia apelidado de Penélope, tal sua semelhança com o personagem dos quadrinhos. Iniciado o período de literatura “Alface” soltou o primeiro de uma seqüência de torpedos, mas já o suficiente para que algumas meninas mais sensíveis passassem mal. Como ninguém se identificava como autor da façanha, a Professora retirou-se enfurecida da sala e só voltou ladeada pela direção da escola.

Depois disso, “Alface” não foi mais visto freqüentando a escola e todos os demais seguiram o rumo de suas vidas, sem nunca mais se saber notícias do rebelde, mas há quem assegure que ele se tornou jornalista ou poeta .

Os “percisos”

Da série CONTOS AVULSOS

O “Jardim Maiami” foi criação do último Prefeito da dinastia dos Sanrey que dominam a política na cidade de Pedregulhos, a 700 quilômetros de Porto Alegre, dizem ser o mais distante município do Rio Grande do Sul e também um dos mais pobres, com intenso êxodo rural e uma quantidade muito grande de desocupados na periferia da urbe.

A população do Jardim Maiami era muito variada, mas predominavam

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desempregados, bandidos, diaristas , que no caso das mulheres eram faxineiras e dos homens eram “chapas” que acampavam à beira da rodovia à espera dos caminhões para descarregar no comércio local. Mas a Vila era comandada por um percentual muito significativo de bandidos, numa variação que ia do larápio barato ao traficante mais perigoso.

Evidentemente, que numa diversidade dessas não faltavam as putas , sendo crível que onde há essa antiga profissional, existe como conseqüência lógica a figura sempre intrigante do gigolô e é exatamente aqui que encontramos o personagem central de nossa história – O “Dente de Ouro” , que ganhara esse apelido graças a um incisivo obturado com uma mistura de metal dourado, que os dentistas chamavam de “amalgama”

e que brilhava , mas não passava disso mesmo, ou seja, uma mistura de metais nada nobres.

Dente de Ouro mantinha sob seu domínio pelo menos três daquelas vagabundas, as quais distribuía por pontos específicos de Pedregulhos à caça de “clientes”, sempre ponderando que era necessário variar no investimento: “uma na estrada – outra na praça central e uma na zona” , assim não perde nunca, quando vai mal uma a outra compensa. Solteirão, Dente de Ouro buscava dar um atendimento especial a cada uma de suas

“operárias” , correndo por toda Maiami a fama dele como exímio

“chupador”, detentor de uma língua felina que trafegava por todas as

“partes” de suas ninfas profissionais.

Certa ocasião, apareceu uma moça da Vila Maiami embarrigada e dizendo que a cria era dele – do Dente de Ouro – que prontamente se preocupou em negar e a atribuir para a donzela tantos amantes quantos os de suas ninfetas. O caso foi parar no Fórum de Pedregulhos, numa época em que ainda não existia o exame de DNA e as ações de Investigação de Paternidade dependiam muito da prova por testemunhas. Divilaine, uma das putas , agilmente conseguiu uma testemunha para auxiliar a seu gigolô – tratava-se de Dona Matildia , uma cafetina aposentada .

Audiência marcada, Matildia sentou-se à frente do Juiz, jurou dizer a verdade sobre tudo o que sabia e lhe fosse perguntado , acrescentando – “Deus me livre Doto, só digo o que sei” e se pôs a falar sobre todas as experiências sexuais da pobre moça na Vila , até que o Juiz advertiu, “não quero saber sobre os casos passados dessa moça, o que lhe pergunto é se a senhora sabe se o cidadão aqui sentado é ou não é o pai da criança” , ao que ela

respondeu categoricamente Não, não é !!

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E como é que a senhora pode afirmar isso ? – indagou o Magistrado, ao que ela respondeu – porque o “Dente de Ouro” não tem os “percisos” , falando assim nesses precisos termos ...

O Juiz, num exercício de profissionalismo, tentando clarear a situação passou a insistir com a mulher para que ela esclarecesse o que seriam os

“percisos”, ganhando a audiência , neste momento, tons de uma trágica comédia. E a mulher sempre insistindo – “Ele não pode ser não, o pai da cria – ele não tem os percisos” , até que o Juiz lhe deu o ultimato : - “Dona Matildia esclareça o que são os “percisos” ou terei que determinar sua prisão” ... A audiência encerrou-se com o Juiz transpirando e uma cara vermelha incendiando de raiva – ao exclamar da mulher repetindo a seguinte frase – “Ah não Dotô um homi veio que nem o sinhô vai mi dizê que não sabe o que qui são os percisos” ...

Dadeu – O marido chifrudo

Dadeu assumiu como responsável pela Delegacia de Polícia de Nova Colônia, um antigo distrito de um dos principais municípios da zona norte do estado do Rio Grande do Sul, muito conhecido pela próspera cultura de uvas e pelos vinhos e espumantes que todos os anos atraiam centenas de turistas . Era também famosa pela beleza de suas mulheres – diziam com orgulho que o lugar era um “berçário” de Deusas.

Mesmo sendo carrancudo por natureza , Dadeu não tardou muito em perceber que o lugar fazia jus à fama, pois o desfile de gurias bonitas e senhoras elegantes desafiava a seriedade de qualquer homem normal e mesmo o Delegado, vez por outra , sentia a tentação de mirar mais detalhadamente para a fisionomia das beldades, muitas das quais arriscavam um olhar “tirano”, provocativo , quase que convidando o policial para o pecado.

Na Delegacia de Polícia havia um funcionário chamado Calisto, cedido pela Prefeitura Municipal que se encarregava apenas de tarefas administrativas e que – profundo conhecedor da comuna – cuidava de municiar Dadeu com informações privilegiadas , o qual aliás já fora transferido para lá diante de sua fama de fofoqueiro mor , um verdadeiro falador desses que pululam por aí , sobretudo nos municípios do interior.

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Foi numa dessas passagens pela calçada de um grupo de mulheres- monumento que Calisto , sem que Dadeu lhe perguntasse nada , passou a relacionar o nome das mulheres mais “liberais” e num segundo momento, a relação das esposas que traíam seus maridos, dando inclusive, detalhes dos adultérios . Fez especial ênfase a uma mulher chamada Angelina , casada com Francesco Gillianne , e que dormia mais com outros parceiros do que com o próprio marido.

Angelina era , de fato , uma referência de mulher porque era morena de olhos verdes, numa cidade onde predominavam mulheres louras e ruivas de pele clara. Uma verdadeira musa, divina e encantadora. Dadeu não conteve a curiosidade e perguntou: - “Mas e o marido não sabe?” , ao que Calisto respondeu: - “Claro que sim – é corno manso”!

Foi numa tarde chuvosa de um inverno gelado, desses que ameaça a saúde respiratória de qualquer um que se arrisque sair à rua , estando a Delegacia quase sem movimento, que entrou um homem aos gritos, pedindo para conversar com o Delegado e que se tratava de um “assunto particular” . Dadeu, que não conhecia aquele cidadão mandou-o passar e sentar-se , perguntando em seguida : “- o que lhe traz até aqui”??

O homem foi disparando : - “Doutor Delegado, mio nome é Francesco Gillianne, e io ser casado com Angelina...” e por aí seguiu um relato detalhado acerca da presença de um homem na sua casa, o qual estaria mantendo relações com sua esposa . E o homem enrolava a conversa, quase aturdindo a Dadeu que não entendia direito a fala misturada de dialetos italianos com português, até que meio sem paciência disse : - “Bem o que você quer é registrar uma queixa por adultério”??

O marido não dizia claramente o que desejava de Dadeu, até que num determinado momento, nosso Delegado perguntou-lhe: - “Você descobriu agora que sua esposa vem tendo casos com outros homens”?? . A resposta que se seguiu foi estarrecedora: - “Non Delegado é que io havia combinado com ela que non era para o sujeito estar lá quando io chegar em casa”...

Naquele ponto, Dadeu impressionado com a passividade e a desmoralização, determinou ao homem que se levantasse e se retirasse da

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Delegacia e concluiu: - “não volte mais aqui com casos como esse, “seu chifrudo” , porque a Polícia tem mais o que fazer” !!

Abedula – O Olho Gordo

*Da série ABEDULA

Abedula estava feliz – na verdade em êxtase – porque as vendas de natal superavam todas suas expectativas e a “freguesia” havia literalmente provocado uma limpa no estoque da Loja . Para sua surpresa, nem mesmo a tradicional liquidação de final de temporada se faria necessária, ao contrário teria de fazer algumas reposições para manter “surtido” o estoque nos últimos meses do verão .

Como nas primeiras décadas do século XX não existiam muitas fábricas de roupas era necessário viajar para grandes centros a fim de realizar as compras e Abedula já estava pensando na hipótese de montar uma pequena confecção de modo a garantir uma produção própria , sobretudo porque existia muita mão de obra barata . Costureiras e alfaiates eram profissões comuns na fronteira, onde eram mais conhecidos como

“modistas” ou “sastres”, por inspiração da língua espanhola.

Abedula rumou para São Paulo, onde além de um estoque de confecções prontas adquiriu diversas bobinas de tecidos nobres, inclusive alpaca e tergal , forros, botões e carretéis de linha, e tudo o que entendia necessário para estabelecer sua própria linha de produção se tornou mais robusto quando lhe anunciaram uma firma que representava modernas máquinas de costura, com motor elétrico. Era muito mais do que um sonho.

De volta a Uruguaiana , Abedula transformou uma parte de seu depósito na pequena fábrica de confecções , que mal dava vencimento , tanta era a procura dos clientes pelas peças produzidas ali mesmo, muitas delas imitando roupas que eram fabricadas no eixo Rio-São Paulo,mas um custo

infinitamente menor.

Como o sucesso do empreendimento era notório surgiram logo boatos de que alguns empresários concorrentes de Abedula estavam interessados em

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que dizem não dormiu várias noites pensando no risco de ver ruir seu investimento e “roubada” sua ideia.

Mas por obra do destino, Abedula recebeu a visita de Mustafá, um patrício seu que operava com diversos negócios na fronteira do Brasil com o Paraguai,em Foz do Iguaçu e que sempre parava em Uruguaiana quando de suas viagens para Buenos Aires, onde além de parentes também possuía contas bancárias destinadas à sonegação e remessa de ilegal de dinheiro para o Oriente Médio.

Abedula confidenciou a seu patrício toda a angústia diante do “olho gordo”

de seus concorrentes, contudo , jamais imaginou a resposta que ouviria de Mustafá , que a bem da verdade era muito mais vivido e audaz que seu anfitrião. Com perplexidade ouviu de seu visitante : - “ Mas batrício isto não é broblema , é obortunidade bra ganhar dinheiro...”

Abedula, sem entender o raciocínio de Mustafá foi limitando-se a escutar os conselhos. –“Esbalha bor toda região que está ganhando muito dinheiro e que não dá conta de atender sozinho e além de vender as máquinas tuas , vai a São Baulo e traz mais máquinas – debois só vende brodutos” . Já interessado e atento à conversa, Abedula serviu um licor de gengibre e deu toda atenção à fala de Mustafá . – “Em bouco tempo as custos da brodução seram menores bra você, borque mais gente concorrendo e você gasta menos que o salário dos embregados”

E foi assim que Abedula acrescentou algumas cifras em sua conta bancária, pois além de vender suas máquinas para os ambiciosos concorrentes, minou toda a região da fronteira com modernas máquinas de costura . Dizem que de Alegrete a São Borja foram dezenas de máquinas distribuídas por Abedula, que além do lucro da venda das máquinas criou uma freguesia fiel para os tecidos, forros e botões que trazia de São Paulo. Mustafá, ganhou um lugar cativo na casa e no coração de Abedula .

Bota mais ...

Da série CONTOS AVULSOS

Evidentemente que nossa “estória” possui nomes e lugares fictícios, afinal o escriba não quer se comprometer mais do que no limite de suas

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impulsividades com o vocabulário. Na cidade de São Trento, que fica a uns trezentos quilômetros a sudoeste de Porto Alegre vivia um casal de caipiras.

Ele se chamava Oriuvando e ela Genoveva.

O casal migrou do campo para a cidade, pois movidos pela ambição pensavam que iriam progredir mais vendendo frutas e legumes na feira do que cultivando-as na roça. Afinal dizia Oriuvando – “Muié, a gente nem percisa di pagá alugué na rua pra modu di vendê as fruta” .

Limitaram-se a alugar um barraco na periferia, onde se acomodaram e para onde retornavam à tardinha depois do trabalho e costumavam deitar para fazer sexo, ao entardecer,já que no outro dia a saída era na madruga para disputar espaço na feira de rua .

A atividade sexual logo foi descoberta pelos pirralhos da vizinhança que transformaram aquilo num espetáculo erótico e se reuniam acomodados na proximidade da janela para escutar os gemidos e o som do amor em profusão pós-feira ...

Certa tardinha, trazendo um volume de abóboras que encalharam e que estavam já muito maduras , portanto já prestes a estragar, o casal resolveu não perder o produto e reduzir o prejuízo fazendo doces – tipo geléia – para vender em vidros na feira.

Chegando em casa colocaram tudo n´uma grande panela e se puseram a confeccionar o doce de abóbora. Genoveva com uma colher de pau na mão e Oriuvando encarregado de ir dosando e alimentando a panela com açúcar e pedaços picados da abóbora, até o momento de se atingir o “ponto” do doce.

Na janela, postados com os ouvidos colados à madeira do casebre, os pirralhos ouviam os gritos de Genoveva que exclamava – “Bota mais Oriuvando” , ao que ele respondia – “Mexe , mexe Genoveva” ... para excitação total da platéia que do lado de fora imaginava uma cena bem diferente da que ocorria no lado de dentro .

ALFACE - O PRIMEIRO PORRE

* Da série ALFACE

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Alface deveria estar com dezesseis ou dezessete anos, idade que naqueles idos dos anos setenta era a fase em que os adolescentes se iniciavam nos bailes e nas noitadas sempre animadas por conjuntos musicais e onde , na maioria das vezes , as moças eram acompanhadas pelos pais ou irmãos mais velhos.

Os rapazes geralmente buscavam caprichar na vestimenta - um sapato bem lustrado - uma calça social e um blazer , era o traje mínimo que se admitia para "aparecer" bem nos bailes e conquistar a atenção das meninas "bem criadas" - aquelas que em tese tornar-se-iam as namoradas , noivas, e quiçá esposas ...

Para o 'gasto' existiam outros redutos onde as moças não eram acompanhadas por familiares ou "padrinhos" - eram as gurias "soltas" e nesses locais tudo era mais flexível , desde a vestimenta até outras

"cositas" mais ... Contudo este não é o objeto de nosso conto.

Alface estava ansioso com seu "debut" nos bailes - já havia comprado um blazer num brechó que ficava próximo ao perímetro da escola, onde era muito comum que os pais de ex-alunos vendessem as roupas que deixavam de servir aos filhos em pleno crescimento . Fez um bom negócio , pois a roupa parecia novinha em folha !

Phósforo, seu fiel companheiro, havia seguido os mesmos passos de Alface - só houve uma discussão em virtude da cor do blazer, porque Alface não aceitava que fossem iguais - mas a divergência foi superada quando Phósforo ponderou que as calças e os sapatos eram diferentes . Ficou tudo dentro dos "conformes".

No dia do baile a ansiedade era muita , Alface e Phósforo chegaram no clube e foram surpreendidos com o preço do ingresso ,que era bem superior ao que eles imaginavam. Sobraram apenas algumas moedas, de forma que ao se posicionarem no salão viram os outros rapazes bebendo Whisky e Camparis e se exibindo para as moças .

Eles , humilhados, só olhavam para a tabela de preços e viam que não tinham como ostentar o copo, com aquele balanço elegante das pedras de gelo e olhares cruzados para as mesas, onde as beldades aguardavam o convite para uma dança.

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Foi então que Alface se aproximou de um garçom e lhe confidenciou seu drama , ouvindo então algo que nunca esperou . O Garçom lhe disse : -

"Olha existe uma bebida chamada GRASPA COM MEL, importada do Uruguai, tem a mesma cor do Wisky e custa menos de um terço do preço - nem aparece na tabela - só tomem com cuidado porque ela "pega" rápido.

Felizes com a descoberta, Alface e Phósforo retornaram para o salão com copos repletos de gelo e doses de Graspa com Mel . Dançaram e se mostraram , repetindo doses e mais doses da bebida , sem atender ao alerta do garçom . Já quase ao amanhecer do dia, eles foram retirados do salão pelos seguranças - estavam bêbados e depois de vomitar muito chegaram em casa de mansinho, indo direto para o quarto para que a coisa não ficasse ainda pior ...

Dadeu e a prisão das putas

A terceira promoção de Dadeu assegurou-lhe a posse no comando de uma Delegacia de Polícia numa cidade do nordeste gaúcho, em franco crescimento graças à instalação de um frigorífico de frangos, onde havia poucos meses o Tribunal de Justiça instalara uma sede de Comarca, com direito a Juiz togado e Promotor de Justiça , ambos jovens que estavam na chamada “primeira investidura”, ou seja, eram marinheiros de primeira viagem.

O Delegado Dadeu nem bem desmanchou suas malas, tomou conhecimento de uma crise que havia se estabelecido no município, decorrente da decretação da prisão preventiva de todas as donas de prostíbulos . O jovem promotor havia recebido uma denúncia de uma mãe , porque sua ingênua filha de apenas dezessete aninhos de idade , estava “trabalhando” na zona do meretrício, acompanhada de outras menores. Ele não pensou duas vezes em pedir a prisão das empresárias do amor ...

O Juiz que era “unha e carne” com o Promotor nem terminou de ler o pedido e já foi redigindo seu despacho, acolhendo o pedido e determinando o recolhimento imediato das cafetinas ao Presídio Municipal , naquele tempo chamado de “cadeia pública” , recomendando, contudo em decisão muito bem fundamentada que as mulheres fossem mantidas numa mesma cela,

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distante dos demais presos , “para evitar confusão” ...

Dadeu, já homem maduro e com a bagagem de ter vivido anos em lugarejos onde ele era a maior autoridade – para não dizer única – percebeu que aquilo , além de constituir-se numa “baita” dor de cabeça , era uma ação estéril que só iria trazer desgastes para todos os envolvidos , mas ficou esperando um chamado do Juiz e do Promotor, já se preparando para um diálogo conciliador. Não queria problemas, mas tampouco abria mão de fazer suas considerações.

Não durou uma noite a expectativa do policial, pois na manhã seguinte recebeu um telefonema do Fórum, convocando-o para uma reunião a portas fechadas. Quando ingressou na sala do Juiz o magistrado estava cevando um mate para alcançar ao Promotor. Dadeu sentou-se e logo ouviu do Promotor: - “E aí Delegado como estão as cafetinas ? – no que foi secundado pelo Juiz: - “Vamos eliminar essa praga social !!” ...

As duas jovens personalidades cruzaram olhares quando Dadeu não lhes respondeu nada acerca do questionado, limitando-se a dizer – “Espero que vocês se adaptem logo à vida no interior” ... e logo foi tomando um chimarrão e avançando no bate-papo disse: - “olha eu vivo no interior há muito tempo e tenho que ensinar algumas “manhas” para vocês – é claro que com a devida permissão – mas creio que poderei ajuda-los ...

Intrigados os dois jovens que haviam sido criados na capital – filhos da classe média alta – se detiveram a escutar a “voz da experiência” . O Delegado Dadeu demonstrando um cabedal de conhecimentos que nenhuma faculdade passa , foi ponderando ao Juiz e ao Promotor que as putas existem desde quando Jesus Cristo andava pelas ruas da velha Jerusalém e que na Babilônia elas eram comuns nos palácios do poder. E tem mais uma coisa, aqui nestes lugarejos elas são arquivos vivos e sabem tudo da vida pessoal dos poderosos e até das pessoas “influentes” ... ao final, sem meias palavras sentenciou : - “Olhem meu conselho é que vocês chamem os advogados das putas e façam um acordo – eles apresentam alguns documentos de bons antecedentes e declarações de boa vizinhança e com mais alguns dias de cadeia soltam-se as vagabundas” . E arrematou –

“sem necessidade de Hábeas-Corpus” e sem nenhum desgaste para ninguém ...

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Sem condições de dar uma resposta às sábias ponderações a dupla invadiu a madrugada trocando opiniões, mas já no outro dia foram convocados os advogados das prostitutas que providenciaram na mesma tarde em juntar declarações abonatórias às condutas das mulheres e que eram assinadas por todos os Prefeitos da região, diversos Vereadores, fazendeiros, comerciantes , profissionais liberais e – pasme-se – até pelo Vigário da cidade que atestou a “alma caridosa” de uma delas , e as significativas contribuições com a Paróquia ...

No final da tarde, perplexos com tudo aquilo e livrando-se de um fardo, os dois moços encerraram uma audiência onde acolheram os pedidos de relaxamento da prisão preventiva e no mesmo ato determinava-se a expedição de Alvará de Soltura para liberação das putas . Alívio geral ...

Abedula – A roupa da gorda

*Da série de contos ABEDULA

Abedula sempre primou pela inovação no comércio e foi ele quem inaugurou

“nos pagos” de Uruguaiana a venda em grande quantidade de roupas prontas – eram peças de vestuário industrializadas nos grandes centros – novidades que literalmente provocaram sensação na cidade , onde ao longo de sucessivas gerações as famílias davam prioridade à confecção de roupas por “costureiras” ou “alfaiates” . Pela influência da fronteira com a Argentina costumava-se chamar esses profissionais de “modistas” ou

“sastres”, conforme a especialização em roupas femininas ou masculinas.

Naqueles “idos tempos” a grande maioria das lojas se especializava na venda de tecidos que eram vendidos por metro linear, expostos em grandes bobinas sempre circundadas por vendedores e vendedoras, todos munidos de uma régua de madeira e de uma tesoura para medição dos retalhos . Comprava-se o pano , a linha , o botão e levava-se todo o material para os profissionais que tomavam as medidas do cliente e se jogavam à arte de produção das roupas “sob medida”.

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Abedula começou a fazer viagens para São Paulo, onde adquiria roupas que eram fabricadas em série , imitando tendências industriais que se inspiravam em experiências da Europa e dos Estados Unidos . Certa tarde, numa rua do Brás, ele conversou com um imigrante libanês que lhe disse:

“Batrício : - “brebare sua loja bara rouba bronta, borque essa realidade não tem volta”...

Comerciante nato, ele ouviu com atenção os conselhos e já na primeira experiência as roupas prontas que Abedula expôs em sua loja causaram uma revolução na região inteira . Não custou muito tempo para que famílias de Itaqui, São Borja e até de Alegrete se deslocassem a Uruguaiana para comprar as “novidades” que Abedula havia introduzido no conservador comércio da fronteira.

As mulheres, sobretudo, estavam encantadas com os vestidos industrializados, em variadas cores e com “apliques” decorativos inimagináveis para os padrões de elaboração das costureiras e “modistas” . Compravam alucinadamente, para a felicidade do árabe que não parava de contabilizar lucros.

Um dia chegou à Loja uma das mulheres mais ricas de Uruguaiana, pessoa educadíssima, mas que ostentava um peso bem acima do normal . Obesa era popularmente conhecida como a “Gorda do Cofre” , não obstante ninguém tivesse coragem de se dirigir a ela dessa forma. A mulher saía frustrada da Loja, porque não encontrava roupas na sua “medida” . Abedula ficava ainda mais frustrado por não lançar mão no dinheiro da ricaça, pensando como poderia entrar no bolso da gorda .... até que uma noite levantou-se da cama , sacudiu sua esposa , e disparou “Abedula teve uma idéia ” – Chamou a mulher, desmancharam dois vestidos iguais, cortaram e costuraram as laterais, fazendo de duas peças apenas uma . Foi um trabalho que exigiu algumas horas de paciência na antiga máquina de costura a pedal, mas o resultado foi excelente.

Dias depois, Abedula mandou chamar a mulher gorda e lhe disse que havia recebido um mostruário de roupa em “tamanho especial” , abrindo um grande sorriso na cliente que já começava a se sentir diminuída em relação às outras damas da sociedade local. O preço do vestido, ponderou o árabe é

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bem mais caro, custa quase cinco vezes o valor de um comum – disse – mas a senhora não esboçou qualquer reação e pagou na mesma hora o preço exigido, com felicidade e disse mais , - que poderia encomendar mais peças pois ela compraria tudo ...

Abedula, não apenas duplicou seu lucro, como acrescentou essa curiosa criatividade à história do comércio de Uruguaiana. Dizem que ele só confessou esse causo depois de sua aposentadoria ...

Alface – A esquina dos contos

Alface, como já contamos durante nosso primeiro encontro, estampou na cartulina do tempo uma marca registrada da rebeldia de uma geração escolar, e sua personalidade condensava todos os conceitos de negação aos bons exemplos – e primava por isso – sabia ser ele o ícone da afronta . De certa forma, ao assumir aquela conduta ele também assumia uma filosofia de vida diferente, algo assim como um caminho alternativo conscientemente escolhido.

Todos nós que fomos seus contemporâneos nos perguntávamos – o que será do Alface ? porque todos iriam dar prosseguimento ao plano traçado por suas respectivas famílias, de modo que em poucos anos todos estariam morando em outras cidades, distribuídos em faculdades, escolas técnicas, academias militares, enfim , havia um norte – um projeto de vida - para cada um, menos para ele .

Alface permaneceria naquela esquina , que alguém – não se sabe quem – batizou como a “esquina dos contos” , reduto próximo à escola, onde funcionava um armazém , num casario muito antigo, provavelmente construído no final do século XIX e que continha um avarandado em frente ao qual uma enorme árvore de cinamomo , que provavelmente envelhecera junto com a obra , como testemunha muda das outras vidas que por ali passaram.

Na sombra da árvore e nas muretas do avarandado se formava o círculo vivo , no centro do qual sempre estava a figura insólita de Alface . Ali eram renovadas diariamente as conversas , estabelecidas as pautas das noitadas , dos jogos de futebol, das festas de aniversário que seriam

“furadas”e muitas outras atividades que não caberiam neste texto. Mas

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também ali se desenvolvia uma outra atividade que ficou como marca registrada da esquina e lhe rendeu o nome : - os contos .

Alface era um exímio contador de causos e quando imaginávamos que seu repertório iria se exaurir, lá vinha ele com uma “estória” nova . Contos policiais e histórias de terror eram as preferidas - mas não as únicas - pois vez por outra ele esbanjava talento em trilhas eróticas e até mesmo em hilárias narrativas de humor . Outros participantes da “esquina” , muitos tentando desafiar o talento de Alface , outros com ciúme enrustido, faziam também seu show.

Dizem que muitos dos “contos” que Alface celebrizou naquela esquina jamais foram escritos e outros juram que um de seus discípulos estaria resgatando as “estórias” muitas das quais exigiam até um certo cuidado, porque ele mesmo quando narrava os detalhes de cada episódio, alguns

“picantes” , sempre advertia : - “olha é só uma coincidência com o professor fulano ou com a fulana de tal” ...

Certo é que os episódios e as situações narradas na esquina dos contos transitavam entre a ficção e a realidade , mas algo ficou plasmado como muito verdadeiro e muito intenso e foram as palavras de Alface , já no crepúsculo daqueles tempos juvenís : - “Vocês todos partirão para ir em busca do futuro e da realização profissional, mas nunca se esqueçam que para serem pessoas plenas e felizes deverão entender que os outros que ficaram e renunciaram à trilha do sucesso , de algum modo, irão ser tão importantes quanto cada um de vocês , pouco importando se anônimos agricultores de um fundo de campo ou operários ocultos nos labirintos urbanos – Jamais esqueçam que as histórias e os momentos vividos aqui nesta esquina serão - para sempre – parte indivisível de suas vidas” .

Contos Avulsos – O velho motoqueiro

Duca Méndez era descendente de espanhóis e sua família possuía terras nos dois lados da divisa seca que separa o Uruguai do Brasil no extremo sul do País , fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul . Os Méndez detinham vastas extensões de campos nobres chamados tanto de

“Estâncias” pela influência da língua castelhana quanto de “Fazendas” no lado de cá onde se rumina o idioma herdado dos lusitanos.

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Como parece ser comum na biografia de quase todos os abastados em todas as eras conhecidas – e dizem que até nas desconhecidas – quem detinha o poder do dinheiro e a chave do cofre, acabava também exercendo o natural domínio político da redondeza. Os antigos moradores da campanha gaúcha chancelaram um decreto que vigora até os dias atuais –

“nunca se briga com cachorro grande” ...

Nos idos da década de setenta, quando o Brasil estava sendo governado por um desses Generais que de política não entendiam nada , a milícia governante do Grande Quartel entendeu de estabelecer as chamadas “Áreas de Segurança Nacional” , pretexto para impedir que o povo exercesse o

“restolho” de democracia que sobrevivera ao golpe militar . Graças ao emblema da “segurança” nacional nas cidades de fronteira os prefeitos eram nomeados pelos Generais .

Tanto quanto os chamados Senadores “Biônicos” os prefeitos das cidades fronteiriças assumiam o cargo pela força indicadora do dedo militar, escorado no braço de ferro do fuzil guardado na caserna. E na fronteira, é bom que se diga , os milicos sempre cuidaram de manter estreitas relações com os fazendeiros , sendo a recíproca absolutamente verdadeira – Aliás era

“status” e sonho de consumo bilateral ver casamento de filha de

“estanciero” com Oficial novato e solteiríssimo . Pão quente das Agulhas Negras.

Os Méndez já possuíam duas de suas mais belas prendas casadas com oficiais de alta patente , de modo que gozavam de prestígio no seio do “alto comando” . A ditadura caiu bem para a família e quando se tratou de indicar um Prefeito, eis que Duca Mendez que nunca havia administrado nada além de suas vacas e ovelhas , assume o comando do Palácio Municipal.

Erguido à condição de Prefeito Municipal ele não abandonou seus hábitos burgueses e suas preferências exóticas . Carro do ano , Jeeps equipados e até uma potente moto importada “Harlley Davidson” compunham os itens de lazer e conforto de Duca Méndez que já estava para lá dos “cinqüenta e uns” anos de idade quando ocorreu o fato insólito que aqui é contado.

Dizem que n´uma tarde primaveril dessas em que o cheiro das flores silvestres impregna a alma dos viventes , Duca Méndez preparou sua moto e lançou mão de dois capacetes, intimando seu neto, um rapaz forte e com

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aquela barba incipiente que brota aos dezessete anos de idade, para darem uma volta pela estrada para um encontro com o vento da estação – prazer incomparável no dizer do velho motoqueiro , ruralista pela essência e alcalde de ocasião.

Na estrada, gozando do passeio , foram surpreendidos por uma blitz da Polícia Rodoviária que estava com duas viaturas – uma VW Brasília e uma GM Veraneio – num entroncamento da estrada. Pararam a moto e exigiram os documentos do veículo e a carteira de motorista de Duca Méndez, no que foram prontamente atendidos, malgrado a cara amarrada do velho motoqueiro.

Um dos policiais, contudo, não parava de olhar para o jovem forte e corpulento que estava na garupa da “máquina” e Duca Méndez teve uma reação inusitada . Disse em tom de resmungo e de ordem ao policial:

- “Tá bem agora pede os documentos do guri” !

O patrulheiro meio que sem entender e confuso com a situação respondeu:

- “Não senhor !

Pode seguir porque está tudo bem com sua documentação” . . .

Mas Duca Méndez não aceitou e retrucou com severidade a autoridade do guarda , asseverando em tom já de fúria :

- “Não senhor ! - Você vai sim examinar os documentos do rapaz ! O policial, sabendo que se tratava do Prefeito amigo dos Generais e dono de terras nos dois lados da fronteira não vacilou e pensando que não custava nada mesmo examinar os documentos do jovem, tomou sua Cédula de Identidade e simplesmente a olhou sem nada ler , dando como se dizia na fronteira – “um vistaço” – e devolvendo-a ao rapaz.

O episódio teve o ponto final com a seguinte locução de Duca Méndez:

- “Agora sim ficou bom ! – Viram que o guri é meu neto - Do jeito que o outro guarda me olhava e fofoqueira como toda polícia é , vocês logo iriam

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dizer que o Duca havia “emputecido” e que o velho motoqueiro era um

“veado” que carregava seu amante na garupa ....”

O Delegado Dadeu e o causo do “alemon Schmidt”

* Da série O DELEGADO DADEU

Dadeu já havia completado dez anos na Polícia Civil e tornara-se conhecido na instituição , afinal sua passagem por diversas sub-delegacias e a rodagem por inúmeros pontos do interior do estado , não apenas conferiram-lhe uma vasta experiência, como também um volume muito grande de “estórias” que se tornaram conhecidas no meio policial graças aos encontros regionais e até estaduais, quando era uma atração para os demais “tiras” ouvirem os “causos” – em geral cômicos – que rendiam gargalhadas aos colegas.

Atendendo a uma convocação para reforço do policiamento em Porto Alegre devido à inauguração do estádio “Beira Rio” , Dadeu chegou e se abancou na mesma pensão da rua Lima e Silva , onde se abrigavam costumeiramente quase todos os policiais que vinham do interior . De pronto combinaram churrasco , marcando encontro no Palácio da Polícia , que possuía nos fundos um galpão com churrasqueira.

Logo indagaram se tinha algum “causo” novo e ele então passou a narrar a ocorrência na chácara do alemão Schmidt , no interior do Município de Candelária , onde havia estado por um curto período de tempo como

“Delegado Substituto” . Schmidt era conhecido como um imigrante trabalhador, que obtinha “milagres” explorando uma pequena chácara com uma produção diversificada de alimentos coloniais.

O “alemon Schmidt” - como era conhecido em Candelária - havia angariado fama porque na pequena propriedade criava gado leiteiro e produzia um queijo de qualidade tão diferenciada que vinham pessoas de outros municípios comprar sua produção . Além disso, a chácara contava com pocilgas tão organizadas que envergonhavam os outros criadores de suínos , que ele mesmo dizia : - “Aqui non ten chiqueiro de porco , ten suínocultura...” E fabricava salames deliciosos.

Galinhas, ovos, mel de abelha , melado de cana , além de doces caseiros produzidos pela mulher - “Frida” - complementavam a variedade . Mas não era essa a única característica do “alemon” , pois Schmidt além de muito trabalhador era reconhecido pelo mau humor e pela fúria que incendiava

Referências

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