A rua é o ambiente de trabalho de muitos seres diferentes , pessoas por assim dizer extravagantes e que fazem da convivência efêmera com seus próximos um arco de relações que jamais chega a constituir uma intimidade e tampouco fica no limbo das indiferenças . São relacionamentos literalmente superficiais e que, portanto ,não geram grandes expectativas mas também inspiram poucos riscos.
Um dos sujeitos que passava pela “Esquina dos Contos” era simplesmente conhecido como “Bicheiro” , porque era o
“apontador”do jogo do bicho e o percurso à caça das apostas de seus clientes previa a passagem pelo ponto de encontro da confraria, onde ela sempre parava para uma conversa rápida, conquanto a turma não era dada ao jogo , além do que os raros níqueis que forravam os bolsos possuíam destinações muito mais certas do que o imprevisível investimento na “timba”.
O bicheiro era um sujeito muito comunicativo e não fazia o mínimo esforço para esconder um bloquinho de papel pardo e a caneta na mão, cuja palma sempre estava manchada de preto pela cor do carbono que utilizava para deixar registrada a cópia da aposta numa improvisada “segunda via” do jogo.
Era tudo tão precário que a confraria da esquina sempre brincava com o bicheiro acerca da seriedade de sua empresa . Alface sempre primava por lançar suspeitas quanto ao pagamento dos prêmios aos eventuais ganhadores e dizia :
- “Mas tche, esse pedaço de papel garante alguma coisa para quem aposta ?”
O bicheiro sem rodeios e com um bom humor que desprezava a repetição da mesma resposta em quase todas as oportunidades sempre dava a mesma resposta:
- “Gurizada, o jogo do bicho é uma das coisas mais sérias neste País, se ganhar eu mesmo sou o encarregado de levar o dinheiro do prêmio”
Ele sustentava que durante todos os anos em que trabalhara recolhendo apostas do jogo do bicho jamais ocorrera de algum vencedor não receber seu prêmio. Os banqueiros do jogo cumpriam com rigor uma espécie de código de ética da atividade. Pagar os
vencedores é manter a credibilidade de uma atividade ilícita e trata-se de uma regra ainda vigente nos dias atuais.
Como todo ser que utiliza a via pública como lugar de trabalho, o Bicheiro não desprezava uma das mais primitivas mídias para divulgação do produto – a gritaria – tanto na chegada quanto na saída ele berrava a palavra “Quinela” !!
Acontece que na língua espanhola, com forte influência nas regiões de fronteira com o Brasil, onde se fala uma espécie de dialeto batizado de “portunhol” – uma mistura bagual do português com o espanhol – a palavra ‘quinela” é o nome dado pelos castelhanos ao jogo do bicho , algo que é de conhecimento público nessas regiões fronteiriças.
Era uma época tão pura e tão inofensiva que a imagem daquele sujeito com os bolsos repletos de dinheiro circulando livremente pelas ruas seria algo utópico em tempos contemporâneos , onde os bandidos assaltam e matam pessoas nas ruas por muito menos riqueza do que aquela que o bicheiro carregava em seu andar faceiro e ostensivo.
Uma única situação causava um certo desconforto no bicheiro e provocava sua saída mais rápida da Esquina dos Contos e era quando algum dos membros da confraria falava na “propina” paga aos policiais. Em certa ocasião, Alface perguntou quanto ele pagava ao guarda que ficava na outra esquina da escola, ao que ele respondeu:
- “Isso é um assunto que não se fala” ...
E o bicheiro em impetuosa meia volta deu partida à sua marcha, abrindo a gritaria :
- “Quinela – quinela , hoje tem quinela !!!
CONTOS AVULSOS – PAI DESCONHECIDO
NO mesmo bairro onde se localizava a escola, próximo à Esquina dos Contos, num velho casarão tipo construção do início do século XX, com portas de “duas folhas” e com altura de três metros, funcionava o que hoje conhecemos como Defensoria Pública, mas que naqueles tempos possuía outra denominação – um daqueles “nomes velhos”
que jamais se recordam - mas que representava o mesmo serviço prestado nos dias atuais, qual seja, assistência jurídica gratuita em favor de pessoas menos bem aquinhoadas.
Apenas uma bandeira nacional e uma placa “esmaltada” em formato oval – fundo branco padrão “ovo frito” - e com o brasão do Estado dava alguma pompa àquele casario antigo, que recebia todos os dias uma caravana de gente simples, muitos dos quais passavam de cabeça baixa pela Esquina dos Contos, provavelmente carregando no silêncio o conjunto dos males que os levavam até aquela repartição, perseguindo uma justiça sempre incerta e invariavelmente mais simpática aos poderosos.
Um garotinho que aparentava pouco mais de 12 anos transitava seguidamente pela mesma rua , quase sempre acompanhado de sua mãe , e como que parecendo curioso fixava o olhar para o pessoal da confraria da esquina , abanando a mão e presenteando-nos com um sorridente “olá” . É um gesto simples, mas – bom recordar - que ao longo dos tempos sempre se prestou para conquistar alguma simpatia e , ao menos, assegurar um registro na memória alheia.
Quem sabe por isso, suas passagens pelo local foram sendo registradas e com o transcurso dos meses e dos anos o menino já crescido e “conhecido” da turma arriscava parar para dar uma conversada com o pessoal da confraria. A essas alturas, já egresso da sala da inocência infantil, ostentando ares de adolescente e algumas
“espinhas” no rosto , que se apresentavam acompanhadas daquele som de galo garnizé , típico de guri mudando de voz ... e com isto o desejo de falar, de opinar e de indagar ...
Desejo que, de certa forma , era recíproco ...
Um belo dia, intrigado e curioso , Alface perguntou ao jovem se ele morava ali perto, o que a todos parecia muito improvável devido a suas vestes humildes e sua aparência de pobre, intrigando também o fato de que era da mesa forma sabido que ele não estudava na escola. Havia algo de incomum a desafiar a freqüência daquele guri por aquelas bandas ...
Foi então que o menino , acolhendo a indagação com naturalidade , respondeu de maneira bem espontânea que freqüentava o escritório da assistência jurídica gratuita e disse sem rodeios – fulminante e definitivamente - que já estava na terceira tentativa de descobrir quem era seu pai.
O garoto parece que respirou muito fundo e com uma autoridade que parecia brotar das profundezas de sua alma, confessou a todos do grupo que sua mãe havia sido prostituta profissional e que nunca soube quem era seu pai. Contou que nenhum ressentimento tinha com a mãe, pois ela o assistiu sempre na medida de suas parcas possibilidades e do destino que a vida havia lhe reservado. Mas ele queria saber sua origem paterna ... necessitava disso ...
Houve um certo mal estar e até mesmo uma sensação de remorso, porque de certa forma todos os presentes eram filhos de famílias sólidas e foram criados ao pálio da cultura do “macho” onde o bom pai deveria desde cedo encaminhar seus filhos na “iniciação”
sexual,de preferência “comendo” alguém da vizinhança, incljusive para arredar aquele fantasma do filho “veado”...
Mas, é bom que se diga, um silenciou momentâneo impregnou o ar e não escapava ao conhecimento de todos ali que vez por outras surgiam casos de homens de situação financeira “estável” que davam suas “escapadas” ... Pais, tios, primos e até irmãos mais velhos freqüentavam casas de tolerância e ninguém se arriscou a perguntar muito mais ... quiçá no silencio da consciência de cada um não transitou o medo de que aquele infeliz pudesse ser seu parente...
Ele contou aos membros da confraria da Esquina dos Contos que um dos homens suspeitos de ser seu pai era uma cidadão abastado, dono de fazenda e rebanho de gado , mas que o mesmo teria contratado e pago dezenas de testemunhas para prestarem depoimento contrário, algo que sempre ganhava muito valor frente à versão de uma
“puta”... também correu a suspeita de que o ricaço havia oferecido suborno a um enfermeiro na hora da coleta do sangue.
Aliás, naqueles tempos ainda não existia o chamado exame de DNA e a perícia de sangue era feita apenas para excluir a paternidade, ou seja, se o “tipo” e o fator RH do sangue era incompatível o exame sanguineo permitia afirmar quem não era o pai, mas ao contrário do exame genético não dava a garantia da paternidade. Era apenas o chamado “exame negativo” e não afirmativo .
Havia, contudo, cor de “sangue” nos olhos do menino que revelava um incêndio interno , a certeza de que seu trânsito por aquelas ruas iria ser prolongado e repetitivo...
Com os anos passando todos os membros da confraria seguiram suas vidas e aquela figura do guri certamente se perdeu nos desdobrados caminhos da vida e todas as suas tantas incertezas. Mas com certeza a confraria jamais esqueceu da dolorosa peregrinação daquele jovem.
Como deve ser triste e incompleta a vida sem uma história de lastro paterno .... - Como deve ser angustiante para alguém viver ostentando na cédula de identidade a condição de “pai desconhecido” ....