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ENCONTRO LATINOAMERICANO DE EDIFICAÇÕES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS

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Academic year: 2021

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ENCONTRO LATINOAMERICANO DE EDIFICAÇÕES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS

CURITIBA - PR | 21 A 24 DE OUTUBRO

RELATO DE EXPERIÊNCIA : PROJETO DE EXTENSÃO - RESGATE CULTURAL: O ADOBE COMO TÉCNICA VERNACULAR LOCAL EM BARRA DO BUGRES

Gisele Carignani1, Tadeu Miranda de Queiroz2, Eduardo Soares Gonçalves3, Samyha Breda4

Resumo

O presente artigo refere-se ao relato de experiência de um projeto de caráter extensionista realizado pela UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso) na cidade de Barra do Bugres, onde está instalado curso de Arquitetura e Urbanismo. O objetivo foi realizar um levantamento histórico resgatando a técnica construtiva das primeiras edificações da cidade. Trata-se da técnica construtiva do adobe (tijolo em terra crua). O tijolo de adobe constitui-se basicamente de argila, silte e areia. A construção com o adobe é basicamente feita através da sobreposição de blocos de barro, que se unem através de uma argamassa de constituição semelhante ao material do qual o bloco é constituído. Esse tipo de construção já havia sido utilizado no local no início de sua colonização. A partir de estudos bibliográficos e levantamentos realizados in loco, foi elaborada uma cartilha abordando os conceitos teóricos do material construtivo e históricos, viabilizando o emprego do mesmo e a técnica através de oficinas. O objetivo é de qualificar mão de obra difundindo essa técnica e destacando o valor histórico local fazendo uso de um material sustentável que não exige grandes conhecimentos ou tecnologias para seu manuseio. O público alvo são as pessoas interessadas em qualidade ambiental, assim como a comunidade carente, com enfoque na auto construção como opção de amenizar o déficit habitacional.

Palavras-chave: adobe, técnica construtiva vernacular, construção sustentável, resgate cultural, Barra do Bugres.

EXPERIENCE REPORT: PROJECT EXTENSION - CULTURAL RESCUE: ADOBE AS TECHNICAL VERNACULAR LOCAL IN BARRA DO BUGRES

Abstract

This article reports an experience within a social-academic project carried out by UNEMAT (University of Mato Grosso) in Barra do Bugres where the School of Architecture and Urbanism is located. The aim was to revisit and rescue the construction technique of the first buildings in the city, adobe (raw soil brick). The adobe brick is made up primarily of clay, silt and sand. The construction with adobe is basically done by overlapping blocks, which are joined by a mortar of similar constitution to the material from which the block is made. This type of construction had already been used in the region at the beginning of its colonization. From bibliographic studies and surveys carried out in situ, a booklet was prepared addressing theoretical and historical concepts of the building material, enabling the use of the same technique. There were also workshops. The goal was to qualify manpower, spreading the construction technique and emphasizing the value of local history by making use of a sustainable material that does not require much knowledge or technology for handling. The target audience consists of people interested in environmental quality, as well as low –income community, with a focus on self-construction as an option to ease the housing shortage.

Keywords: adobe, vernacular construction techniques, sustainable construction, cultural revival, Barra Bugres.

1 Professora do Depto Arquitetura e Urbanismo UNEMAT. E-mail: [email protected]

2 Professor do Depto Engenharia de Produção Agroindustrial UNEMAT. E-mail: [email protected].

3 Professor do Depto Engenharia de Produção Agroindustrial UNEMAT. E-mail: du_gonç[email protected] 4 Graduanda Bolsista de extensão. E-mail: [email protected]

DOI: http://dx.doi.org/10.12702/978-85-89478-40-3-a047

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1 INTRODUÇÃO

Nos últimos anos houve um aumento na preocupação com a preservação e resgate do patrimônio histórico.

A utilização da matéria-prima orgânica tem ganhado ênfase na construção civil, devido à preocupação em encontrar fontes de energia renováveis para a produção de materiais alternativos ecologicamente corretos, aliados à busca da sustentabilidade.

O tijolo de terra crua foi utilizado em muitas construções em todo o mundo, tendo sua maior aplicação em lugares quentes como o Egito, porém foi se extinguindo ao longo do tempo. No Brasil foi muito empregado na época colonial, devido à abundância de recursos para sua execução. Graças à grande diversidade biológica no território brasileiro, ainda há grande possibilidade de difusão dessa técnica. Em contrapartida a essa diversidade, está a falta de aproveitamento desses recursos.

O adobe é constituído basicamente por terra crua, água e palha (fibras naturais). Seco ao sol, dispensa a queima de carvão, diminuindo a poluição pela grande emissão de COᴤ. São muitas as qualidades desse material, como o bom desempenho térmico e acústico e a capacidade de ser 100% reciclado. Os brasileiros convivem cotidianamente com a falta de moradia, educação e saúde .O déficit habitacional acaba gerando grandes aglomerações urbanas a exemplo das favelas e outros assentamentos informais muitas vezes em áreas de risco, construídas pela própria população, muitas vezes sem conhecimento técnico, comprometendo a imagem da cidade e qualidade de vida destes habitantes. Partindo desse conceito propõe-se o resgate da técnica construtiva do adobe associando ao uso de resíduos provenientes da cana de açúcar (bagaço e cinzas) muito encontrado na região e também passível de substituição facilmente por outros materiais abundantes em todo o Brasil.

O projeto de extensão dedicado à qualificação da mão de obra resgatará o uso de um material sustentável e vernáculo, promovendo a autoconstrução, ajudando a amenizar o déficit habitacional e a degradação ambiental. Pode acarretar o barateio nos custo e um aumento da qualidade das construções, favorecendo a população de baixa renda, que é público alvo do projeto. Além disto, pode dar um novo destino ao bagaço da cana de açúcar que agregará a composição dos tijolos.

2 METODOLOGIA DE TRABALHO

Para tomar conhecimento do material em estudo, foram elaboradas pesquisas bibliográficas sobre as diversas técnicas construtivas que envolvam a terra como matéria-prima. Levou–se em consideração os aspectos históricos e técnicos relativos aos materiais e técnicas observadas, assim como a análise dos procedimentos de execução aplicados a cada uma delas, com a finalidade de aprimorar a técnica que seria posteriormente testada, o Adobe. Realizou-se um levantamento de material bibliográfico e iconográfico, referente à história da cidade de Barra do Bugres, tomando conhecimento sobre as primeiras construções onde foi utilizada a referida técnica.

Sabe-se que técnica do adobe pode ter seu desempenho melhorado agregando novos tipos de resíduos orgânicos em seu processo de fabricação. Para maior domínio sobre essas habilidades foi realizada uma pesquisa bibliográfica com enfoque geral, realizando levantamentos que tratam desde a história, tipos de solo adequados à execução dos tijolos, vantagens e desvantagens na aplicação da técnica, análise do seu comportamento diante das agressões físicas e intempéries, classificações específicas, testes práticos referentes ao solo e todas as etapas pertinentes a esse sistema construtivo.

3 ESTRATÉGIAS DE AÇÃO 3.2 A cartilha

Foi desenvolvida, a partir do embasamento teórico adquirido em pesquisas, uma cartilha de execução com intuito de orientar o desenvolvimento do projeto por meio de atividades práticas. A cartilha é um material didático, onde são descritas algumas técnicas construtivas que empregam a terra crua como matéria prima.

Com uma linguagem acessível de fácil entendimento, apresenta todas as etapas que devem ser seguidas na elaboração e aplicação do tijolo de adobe, abordando estudos sobre o solo adequado para uso, fibras e outros materiais que podem ser incorporados, como funciona o sistema construtivo (assentamento, massa para assentamento, estrutura, aberturas, dentre outros), além de demonstrar passo-a-passo os

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procedimentos e etapas para a construção de uma casa com esse material. São descritos também, exemplos de aplicação da técnica na cidade de Barra do Bugres, com intuito do resgate histórico da técnica.

A cartilha aborda em seu conteúdo o adobe como material milenar e mundialmente utilizado, demonstrando sua mobilidade e adaptabilidade, tentando quebrar os preconceitos criados a seu respeito, que podem ter ocasionado o seu desuso, fazendo com que essa tradição se perca na história. Foram confeccionadas, juntamente com a criação da cartilha, fôrmas, camisetas com a logo desenvolvida para o projeto, aquisição de materiais para os minicursos e oficinas.

Tendo em vista que a arquitetura local já utilizava o adobe como sistema construtivo, que predominou durantes muitos anos, e tendo a característica vernacular, houve o interesse da comunidade indígena Umutina, aldeia localizada nas proximidades do perímetro urbano de Barra do Bugres, para o aprendizado e aplicação da técnica. A demanda se refere à necessidade de substituição de construções em estado precário, em técnica não original da comunidade.

3.2 Os minicursos

A partir de um material gráfico e explicativo, produzido pela equipe executora do projeto, são ministrados os minicursos. Através de uma abordagem teórica e histórica desse material serão descritas as potencialidades e qualidades do adobe; as construções com a utilização de terra crua; as técnicas empregadas para tais construções, bem como a importância que o adobe apresenta em relação aos aspectos ambientais, sociais e econômicas; trabalho em equipe; reconhecimento de materiais e equipamentos para uso da técnica. Conta também com aulas expositivas para conhecimento e resgate histórico das habitações de Barra de Bugres que mantém exemplares de edificações em Adobe.

3.3 As oficinas

Em sequência aos minicursos serão realizadas as oficinas, onde serão colocados em prática os conhecimentos adquiridos no minicurso. Nesta etapa, serão abordados os itens descritos na cartilha, seguindo a sequência para execução. Inicia-se com classificação do solo local através de ensaios práticos; depois é feita a seleção do solo e preparo (peneiramento em peneira grossa de 4 mm e secagem), em seguida a preparação do agregado (bagaço de cana de açúcar) já seco e desfibrilhado. Após a coleta e acondicionamento das fibras, deve-se lavá-las para a remoção de impurezas para em seguida serem colocadas ao sol por um tempo e posteriormente na estufa para perda total de umidade. Depois da secagem da biomassa por completo, deve- se peneirá-la a uma ordem de 15mm. Atender a proporção de 10% em volume da fibra no adobe - o barro (mistura de solo, biomassa e água) deve ser amassado e deixado em repouso durante 24 horas para melhor homogeneização da umidade e absorção pela biomassa. Terminado o repouso, para evitar a redução da resistencia dos tijolos através da ordenação das lâminas de argila devido a atração elétrica, deve-se amassar o material robustamente. Em seguida coloca-se a mistura, com as mãos, até o preenchimento completo das fôrmas, retirando o excesso de material com uma régua. A desmoldagem dos tijolos é feita na sequência. A secagem varia de acordo com as condições climáticas, intensidade do sol (temperatura ambiente), umidade relativa do ar e dimensão dos tijolos (varia de região para região), devendo ser realizada incialmente a sombra, e somente após 8 dias poderão ser colocados diretamente ao sol, sobre estrados e cobertos com lona plástica no período noturno e caso ocorram chuvas. Recomenda-se que durante esse processo os tijolos sejam virados frequentemente, para que a secagem seja homogênea, evitando retrações diferenciais e, consequentemente, deformação dos tijolos.

3.4 Aplicação da técnica

Terminado esse processo de fabricação dos tijolos, durante a oficina, deverá ser trabalhada a aplicação da técnica construtiva, utilizando os conhecimentos fornecidos na cartilha e nos minicursos, iniciando a construção de casas na aldeia Umutina, para a substituição das casas de palha de buriti, em modelo não original da cultura local, já um pouco degradadas. Esse processo tem início com o assentamento, exigindo proteção contra possíveis infiltrações de água, podendo ser ascendentes ou descendentes, que demanda um tipo de impermeabilização ou isolamento. Uma solução que pode ser adotada com relação às infiltrações ascendentes, ou seja, provenientes do solo, consiste na execução de embasamentos de pedra (fundações), tal como Martins (2004) verificou nos exemplares de muro encontrados em Goiás, e que, do mesmo modo, demandam a instalação de sistemas de drenagem para se evitar o “empoçamento” de água. Contra as infiltrações descendentes, além da proteção dos beirais dos telhados, as paredes podem ser recobertas por

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uma camada de reboco, composto de terra, areia e cal, e por uma camada de pintura seca à base de cal (Martins, 2004; Uemoto, 1993).

A massa de assentamento exige uma maior atenção, quanto ao seu preparo e aplicação. De acordo com McHenry (1984), o adobe absorverá umidade da massa de assentamento e secará mais lentamente porque a superfície em contato com amassa está menos exposta ao ar, podendo ruir estruturalmente, por falta de força de compressão. A melhor solução a esta eventualidade é o uso de paredes simples e estreitas, pois secarão mais rápido, entretanto o uso de cal e cimento na massa de assentamento também resolveria esse problema, absorvendo a umidade e evitando que seja transmitida aos tijolos.

Na estrutura, geralmente as fundações ou alicerces da casa, são diretas, do tipo sapata corrida de alvenaria de pedra em toda a extensão das paredes, ou de concreto ciclópico, executada com pedras de mão. A viga de amarração superior possui três objetivos: um, de função de distribuição uniforme das cargas do telhado sobre a parede; outro de amarração do topo da parede contra as forças horizontais do telhado (McHenry, 1984).

As aberturas são feitas juntamente com o levantamento das paredes, as esquadrias e marcos geralmente em madeira, podem servir também como estrutura das paredes, desde que sejam colocados antes do inicio do levantamento. O acabamento das paredes pode ser composto por uma argamassa de cimento e cal. De acordo com Soares (2007) a finalidade dos acabamentos externos é evitar que a chuva danifique a superfície do adobe. A pintura pode ser utilizada como acabamento, funcionando como um repelente de água.

4 CONSTRUINDO COM TERRA CRUA – ADOBE

A terra vem sendo utilizada como matéria-prima na construção desde o período pré-histórico. Podemos citar alguns lugares no Oriente médio, como Turquia e Assíria, onde foram encontradas construções com terra apiloada ou moldada datando entre 9000 e 5000 a.C. (Minke, 2001). A terra foi muito utilizada na construção de fortificações e residências no antigo Egito, os adobes de terra crua eram assentados com argamassa composta por argila e areia. Empregada principalmente em regiões quentes e secas verifica-se sua presença nas Muralhas da China, notando entre as alvenarias duplas de pedra a presença da argila apiloada.

Essa técnica, porém, só chegou ao Brasil milhares de anos depois, mais precisamente, na época de sua colonização, com a vinda dos africanos, que eram trazidos pelos portugueses como escravos. Algumas das tribos empregavam estruturas com barro, o adobe também era conhecido dos africanos, portanto, durante o início da colonização brasileira várias culturas componentes dominavam técnicas construtivas que utilizavam a terra como matéria-prima (Barbalho, 2013).

Hoje em dia é evidente a busca por técnicas construtivas que minimizem os impactos gerados pela construção, visto que os recursos naturais existentes no planeta são finitos e a ação humana tem gerado grandes impactos no meio ambiente. Segundo Pisani (2007) “não existe construção que não gere impacto, a busca é por intervenções que os ocasionem em menor escala”. A terra crua é um material que não gera muitos impactos no seu processamento. Possui um bom desempenho acústico e característica isolante térmica, diminuindo os gastos energéticos durante e após a obra terminada, além de ser um recurso abundante em todo o planeta.

A taipa é um sistema construtivo usado na execução de paredes e muros que tem como material de construção básico a terra argilosa, umedecida ou molhada, sem nenhum beneficiamento anterior ao barro.

Trazida pelos portugueses para o Brasil, a taipa tornou-se uma das manifestações mais tradicionais da nossa arquitetura no período colonial, muito utilizada nas construções em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraná e, principalmente, São Paulo. A taipade-pilão é uma técnica de construção na qual a terra é apiloada dentro de fôrmas de madeira, os taipais, cuja estrutura utiliza dois tabuados laterais e móveis nos quais o barro é socado com o pilão ou com os pés, para adquirir maior consistência, e em camadas sucessivas, formando a parede, cuja espessura varia entre 50cm e 90cm, podendo chegar a 1,50m (Kawamoto, 2010;

Sakai, 2010).

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A taipa de mão é uma das técnicas que empregam a terra como matéria-prima. As paredes de taipa de mão (que dependendo da região e da época também recebem o nome de taipa de sebe; pau a pique; barro armado; taipa de pescoção e tapona e sopapo) foram muito empregadas em todo o Brasil desde o início da colonização, quase sempre fazem parte de uma estrutura de madeira bastante rígida, formada por esteios, vigas baldrames, frechais e vergas superiores e inferiores. Serve como vedo de uma estrutura independente ou como paredes internas de edificações com paredes externas de taipa de pilão (Barbalho, 2013).

4.1 Adobe

O adobe, que é um dos mais antigos materiais de construção, foi utilizado em larga escala na antiguidade, principalmente em regiões quentes e secas, como no oriente médio, o antigo Egito e a Mesopotâmia.

Podemos citar como exemplos as mastabas e zigurates, pertencentes respectivamente ao Egito e Mesopotâmia, feitos com tijolos de adobe.

É um material vernacular utilizado na construção civil, seu processo construtivo é uma forma simples e primitiva de alvenaria. Define-se como um tijolo de terra crua, água, palha ou fibras naturais, que são moldados em fôrmas, caracterizando um processo semi-industrial ou artesanal, sofre o processo de secagem a sombra e ao sol, porém não recebe queima. As construções com esse material são bastante resistentes, o conforto térmico e acústico oferecidos são duas de suas qualidades.

As construções de adobe devem ser executadas sobre fundações de pedra comum local, cerca de 60 cm acima do solo, para evitar o contato com a umidade ascendente (infiltração), que degradaria o adobe (Barbalho, 2013). Para conter a umidade descendente, recomenda-se o uso de coberturas com beirais, protegendo as paredes contra a água da chuva, bem como revesti-las com pintura para maior durabilidade.

O período da seca é ideal para a construção com essa técnica, para evitar o contato do tijolo com a umidade no seu processo de cura. Depois de concluída a construção, a mesma se torna muito resistente e durável.

Com a vinda da revolução industrial no século XIX, as construções em série foram tomando o lugar da arquitetura de terra, que aos poucos foi sendo abandonada, passando a ser utilizada apenas por algumas pessoas com poucos recursos. Acredita-se que, esse, talvez seja um dos motivos principais do preconceito que perdura até hoje. Apesar da queda no uso do adobe, no Brasil essa técnica foi muito utilizada no período colonial, e ainda hoje é utilizada em algumas regiões, principalmente norte e nordeste, podendo ser encontradas algumas casas em Minas Gerais e Goiás.

5 O ADOBE NA CIDADE DE BARRA DO BUGRES

Segundo Ramos (1991), a ocupação e o desenvolvimento de Barra do Bugres esteve relacionado com a exploração da poaia, planta medicinal de valor no mercado exterior, e serviu de atração desde meados de 1878 para a vinda de famílias que se instalaram na região para trabalhar na sua extração. A evolução urbana de Barra do Bugres ocorreu no período de 1960 até 1990.

O patrimônio histórico do município situa-se numa área próxima aos rios Paraguai e Bugres, que na década de 40 foram as principais opções de transporte Nessa mesma época crescia a extração de poaia, que era principal atividade econômica da cidade, favorecendo o desenvolvimento das construções nas suas proximidades. As tipologias arquitetônicas caracterizaram-se pela simplicidade devido ao aspecto temporário e transitório decorrentes da economia estabelecida na região e através da cultura que é desenvolvida à beira do rio.

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Figura 1 - Mapa da cidade de Barra do Bugres de acordo com seu processo de evolução e ampliação da região onde se encontra o centro histórico. Fonte: Silva, 2011.

Segundo Silva (2001), apesar do Centro Histórico de Barra do Bugres não ser oficializado como patrimônio pelo município ou Estado, ele possui várias construções originais históricas de taipa, adobe ou madeira, coberta por telhas de barro tipo capa canal e esquadrias de madeira, com piso, inicialmente de terra batida, e mais tarde cimento queimado e cerâmica. As construções mais significativas no Centro Histórico são a Paróquia de Santa Cruz, construída em 1936, o Centro de Tradições Mato-grossense (CTM) e a antiga cede da prefeitura, estabelecida ali entre 1952 e 1955, que funciona atualmente como escola.

Essas construções sofreram muitas modificações, e a maioria delas se perderam ou foram intensamente degradadas, pelo tempo, má conservação ou por falta de reconhecimento das autoridades competentes.

A Paróquia é um exemplo desses ocorridos, passou por grandes conflitos, onde os moradores, sem conhecimento do seu valor histórico, queriam transformá-la em oficina mecânica.

Verifica-se que a maioria das construções de adobe existentes no município, são residências pequenas, que estão abandonadas, ou são utilizadas como cortiços.

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Figura 2 – Localização das principais construções em adobe no centro histórico de Barra do Bugres. Fonte: Barbalho, 2013.

5.1 Estudo do solo

A classificação determinada para o solo de Barra do Bugres teve como referência bibliográfica o Projeto RadamBrasil, onde consiste um mapa exploratório de solos, elaborado com base na interpretação de mo- saicos semicontrolados de imagens de radar e trabalho de campo (Barbalho, 2013).

Figura 3 – Classificação do solo em Barra do Bugres. Fonte: Barbalho, 2013.

A partir de análises mais precisas do solo de Barra do Bugres, através de testes práticos como o do vidro, baseado nas diferentes sedimentações dos componentes da terra, concluiu-se que há solos adequados à

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elaboração de tijolos de adobe, dentro do perímetro urbano, principalmente nas proximidades de córregos e rios que integram a cidade.

6 ADIÇÃO DE FIBRAS NATURAIS NO ADOBE

As fibras são materiais de crescimento rápido, de baixo custo, podem ser cultivadas em praticamente todo o território nacional e podem ser encontrados em forma de rejeitos produzidos pelas indústrias, como as de amarra, estofados, tecelagem, sucroalcooleira (Agopyan, 1998; Savastano Jr, 1998). A adição dessa biomassa vegetal confere ao tijolo de adobe um aumento de cerca de 40% na sua resistência, em relação tijolo de adobe normal. Além disto, proporciona redução considerável de resíduos nos aterros sanitários.

Deve-se conferir a probabilidade de ser viável a utilização da fibra natural, geralmente são coletadas algumas informações, para assegurar-se disso, como: dimensão das partículas, relação entre o comprimento e diâmetro das fibras, volume de vazios (que pode acarretar menor peso para a estrutura, mas também alta absorção de água), módulo de elasticidade, resistência à tração, alongamento na ruptura, durabilidade, custos.

6.1 O bagaço da cana de açúcar

Produzido após a moagem e extração do caldo, é o resíduo lignocelulósico fibroso do colmo da cana-de- açúcar, formado por um conjunto heterogêneo de partículas de tamanho variável entre 1,0 e 25,0 mm (média de 20,0mm) a distribuição em tamanho das partículas do bagaço depende, fundamentalmente, dos equipamentos de preparação da cana e, em menor grau, dos moinhos e da variedade da cana-de-açúcar (GEPLACEA, 1990). Outra vantagem do bagaço é que além de ser encontrado em grandes quantidades, trata-se de um material mais fibroso, com maiores chances de industrialização que outros resíduos agro- industriais.

Sua composição é variável em função da variedade da cana empregada, seu grau de maturidade, método de colheita utilizado e eficiência do processo industrial. É composto, principalmente, de fibras (43 a 52%), água (46 a 52%) e pequenas quantidades de sólidos solúveis (sacarose, cera) e não solúveis (terra, pedras), estes num total de 2 a 6%. Sobre sua composição morfológica, seu conteúdo é formado basicamente por fibra (55 a 60%), medula (30 a 35%) e finos, terra e solúveis (10 a 15%) (SARMIENTO, 1996).

Quimicamente o bagaço da cana-de-açúcar é composto por três principais elementos, a celulose, hemicelulose e a lignina, que são polímeros naturais. Constituído por medula e fibras, o ordenamento anatômico dessa estrutura se perde na moagem. Depois desse processo obtém-se o bagaço de onde deve ser retirada a medula, componente indesejável.

Segundo Sarmiento (1996), o bagaço é um material constituído por fibras com espaços vazios entre elas, além dos poros e do lúmen. A massa específica aparente do bagaço de cana-de-açúcar que depende de vários fatores, dentre os quais o mais importante é o grau de compactação do material e a umidade. A umidade do bagaço está em relação direta com o alto nível higroscópico da medula, assim como a porosidade das partículas, daí a grande capacidade de absorção (80 a 85% de umidade); a umidade de equilíbrio média do bagaço está situada entre 9 a 10%.

Verifica-se a viabilidade do emprego desse resíduo fibroso por constatar a sua presença na maioria dos países, porém é produzido apenas durante 4 a 5 meses na época de safra, havendo a necessidade de armazená-lo depois desse período. São duas as possibilidades de armazenamento: compactada ou a granel.

A adição desse material a composição usual do tijolo de adobe conferiu maior resistência mecânica, cerca de 40% a mais que o tijolo de adobe comum. Além disso, propiciou um novo destino a esse resíduo.

7 CONCLUSÃO

Há hoje em dia uma grande preocupação com a preservação do meio ambiente, verificando a necessidade de produção de materiais ecológicos, fazendo uso de recursos naturais, em busca de soluções sustentá- veis. O déficit habitacional em todo país aumenta ainda mais a busca por alternativas economicamente viáveis para a população de baixa renda. Visando atender a demanda neste aspecto em praticamente to- das as regiões brasileiras, uma opção de baixo custo, relativa qualidade e com característica sustentável é a construção em terra crua. O adobe combinado com a utilização de fibras naturais, abundantes na cidade

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de Barra do Bugres e em muitos países, caracterizam uma solução ecológica e economicamente viável.

Deve-se então repensar a cidade existente, adequando as nossas necessidades às novas possibilidades, sem mudar nosso modo de vida, buscando soluções alternativas que não sejam prejudiciais ao meio ambiente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARIGNANI, Gisele; QUEIROZ, Tadeu; BARBALHO, Raíssa; SOARES, Eduardo Gonçalvez. Resgate cultural – o adobe como técnica vernacular em Barra do Bugres- MT. UNEMAT – Universidade do Estado de Mato Grosso, 2013.

KAWAMOTO, Cristiane; SAKAI, Diogo; CARPES, Ivanete; DANTAS, Melina. Sistemas Construtivos Do Brasil Colonial. UFMS - Universidade Federal De Mato Grosso Do Sul.

MINKE, Gernot. Manual de construccion en tierra: la tierra como material de construcción y sus aplicaciones em la arquitecture actual. Uruguay: Nordan-Comunidad, 2001.

PISANI, Maria Augusta Justi. Taipas: Arquitetura De Terra. Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, 2007.

Projeto Radambrasil – Mapa Exploratório de solos, elaborado com base na interpretação de mosaicos semicontrolados de imagem de radar e trabalho de campo. Ministério das Minas e Energia, 1982.

RAMOS, Jovino Santos. Entrevista Concebida a Prefeitura de Barra do Bugres, registrada em um documento.

Barra do Bugres, 2007.

SAVASTANO, JR. H. E AGOPYAN, V. – Transition zone of hardened cement paste and vegetable fibers.

In: International Symposium on fibre reinforced cement and concrete, 4, 1992, Sheffield. Proceedings … London: E & FN spon, 1992.

SILVA, Sandra Lemes. “REVIVER A CIDADE”, Proposta de Revitalização e Intervenção Urbana do Centro Histórico de Barra do Bugres. Universidade do Estado de Mato Grosso, 2011.

SOARES, Raquel Nascimento; SILVA, Adeildo Cabral; PINHEIRO, José Cesar. Tijolos De Terra Crua Estabilizados Com Fibras De Coco Verde: Alternativa Para Habitação De Interesse Social. Fortaleza – CE, 2008.

UEMOTO, Kai Loh. Pintura a Base de Cal. IPT, 1993.

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