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De tous petits liens mille et une nuits

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Academic year: 2018

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DE TOUS PETITS LIENS

MILLE ET UNE NUITS

ponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A

assertiva de A . W arburgde que

Deus está no

particular

encontra na reflexão proposta por F rançois L aplantine, sobre a rede de

interações vigente na vida social, um a justificativa bem

argum entada. V alorizar

peque-nos laços sociais, ações e

sentim entos m enos visíveis, com o objetos de

conhecim ento no cam po das ciências sociais, constitui a referência principal deste livro, m arcado

pela abordagem ensaística e poética. A proposta

anunciada na obra contrapõe-se ao olhar pautado

pela sociedade do espetáculo e da grandiosidade, afirm ando-se, em contraponto, pela observação

dos laços sutis e dos m ecanism os com plexos e

m enos evidentes que fundam entam o m undo

social contem porâneo.

M ais do que um a nova proposição teórica, as idéias do livro evocam um a estética de

observação da realidade captada através de exem plos contidos em film es, produções literárias

e obras de arte. A linguagem artística serve de

bússola ao registro de detalhes e expressões sociais m enos visíveis. C ores, sons, ritm os e gestos,

presentes em diferentes criações estéticas, nutrem

a construção do que poderia ser designado com o um a abordagem m icrossociológica dos fatos

sociais. F laubert, K afka, P roust e C larice L ispector, ao lado de cineastas com o B resson e E ric R ohner,

são m encionados com o indutores de planos

existenciais com postos de m etáforas e detalhes indicadores da riqueza social existente na vida

cotidiana.

D o ponto de vista epistem ológico, L aplantine

abdica das fronteiras com partim entadas do

DE FRANÇOIS LAPLANTINE conhecim ento na área das

ciências sociais, valorizando

o ato de percepção

socioló-gica através da experiência m últipla das linguagens:

literatura, arte, cinem a. C ada m odo específico de

apreen-são da realidade em m inús-culas graduações pode, na

visão do autor, explicitar aspectos relevantes e sensíveis da vida social.

D im ensões m icroscópicas da realidade

social não são privilégio de percepções artísticas.

E starão presentes, sobretudo, na etnografia, a exem plo das considerações de C lifford G eertz

sobre a diversidade am pla de práticas sociais,

fato que im põe ao investigador um trabalho

analítico baseado na ínfim a variação de gestos,

sentim entos e flexões da linguagem .

A prioridade conferida à perspectiva

m icroscópica de observação da vida social rejeita o ideal de unidade e de espaço fechado, sugerido

por um a versão totalizadora dos fatos sociais. A s interpretações da realidade social seriam , em

um a outra perspectiva, baseadas não só em

"verdades" apresentadas segundo um a lógica positivista, m as em dissim ulações - o recurso a

m etáforas.

A observação do "pequeno" poderia ser a

resistência à noção fechada de totalidade, quase

sem pre cega aos detalhes, por conta da prioridade conferida a questões dotadas de m aior visibilidade:

o poder e a dom inação, por exem plo. A tecnologia

cinem atográfica na sua capacidade de registro

de detalhes prestar-se-ia a observações m ais sutis,

pela tessitura de gestos e cores capazes de aproxim ar a ética da estética (W ittgenstein).

De tous petits liens mille et une nuits

QPONMLKJIHGFEDCBA

R io d e J a n e iro : J o rg e Z a h a r E d ito r. 2001.

POR IRLYS ALENCAR FIRMO BARREIRA

P ro fe s s o ra T itu la r d o D e p a rta m e n to d e C iê n c ia s S o c ia is d a U n iv e rs id a d e F e d e ra l d o C e a rá

(2)

o

conceito de passagem em W alter B enjam in é tam bém invocado por L aplantine

com o subsídio para os registros do detalhe e da sutileza. S erve para designar travessias parisienses

ligação de ruas, espaços de pequenos com ércios

e anúncios de grandes m agazines, tal com o o

trajeto do flanêur que percorre cam inhos, expressando, de m odo paradigm ático, a transição

do século X IX ao século X X . A passagem , segundo o filósofo alem ão, seria a passarela entre

a arte e a técnica, com binando a ilusão do novo,

já am eaçada pelo declínio ou perda da aura.

A passagem representa tam bém , acrescenta L aplantine, o prenúncio de um m undo novo,

o estilo m oderno e decorativo de G audi ou de

L echner, em B udapeste. O pensam ento de

B enjam im , feito em gradações, perm itiria a em ergência de instrum entos precisos de

observação de detalhes tam bém utilizados na psicanálise para interpretar o inconsciente.

D e fato, observa-se que na exploração que faz B enjam in (993) de suas vivências existe um a

evocação à cidade m em orial da infância. C idade

de um passado feito de fragm entos reconstituídos através de lem branças de B erlim , capturadas na

sucessão de descobertas m icroscópicas de

m últiplos espaços. N esse contexto, são objetos de rem iniscências: o parque de anim ais

(T ieg arten ), os bosques, o relógio da escola,

as ruas com a prostituição, a luz a gás e o interior

das casas. N o conjunto dessas narrativas, a percepção de que as dim ensões abrangentes

da vida social revelam -se nas entrelinhas, sendo

as m iniaturas urbanas captadas na sensibilidade infinitesim al de expressões sutis e m udas da vida

cotidiana.

QPONMLKJIHGFEDCBA

É este trabalho de lupa sugerido por

B enjam in que perm ite, na versão de L aplantine, a observação das transform ações urbanas

presentes nas experiências inéditas, reveladas na descrição de sons, cores e cheiros.

D entro da m esm a perspectiva de observação m icroscópica da realidade social, L aplantine evoca

S im m el, autor que recom põe a sociologia do

cotidiano através de fenôm enos considerados até então triviais: a m oda, o dinheiro, o casam ento.

130

R E V IS T A D E C IÊ N C IA S S O C IA IS v .3 5 N . 1

P ara S im m el, o real é feito de ínfim as sensações

e transform ações infinitas, não podendo ser

com preendido na sua totalidade, m as com base em um a pluralidade de perspectivas que se

apresentam em aspectos singulares.

N o cam po da literatura, outros autores servem de referência para a discussão dos planos

m oleculares de observação da vida social.

E m K afka, L aplantine privilegia a predom inância da rarefação, o território da linguagem

equiparável a um fio de voz feito de obscuridade,

tal com o a percepção de um crepúsculo - a transição entre noite e dia.

N a obra de C larice L ispector são destacados

os tem as da penúria e da desilusão, presentes

sobretudo no livro

A Hora da estrela,

que narra

a saga de um a nordestina pobre e desprovida de dotes. C om o em um quadro de im pressões, não

haveria, no texto de C larice, um a posição central na narrativa, pois tudo é fugidio e deslocado.

A perspectiva epistem ológica recusada pelo antropólogo francês critica tanto o essencialism o,

presente em palavras seguidas do artigo definido,

o hom em , a hum anidade, a liberdade, com o rebate o dualism o que contrapôs, no terreno da

filosofia, raciona listas e fenom enologistas.

L aplantine desenvolve um foco epistem ológico que recusa a relação de totalidade, a linearidade

e a interpretação unívoca dos fatos sociais.

A o invés do conceito, com o expressão indubitável

da realidade, propõe o

deceptt»

ligeira decepção) que abdica da uniform idade e da positividade afirm ativas, em favor das transições, das

indeterm inações e das m odulações.

A preponderância de laços sociais envolvendo articulações m últiplas, em contextos

culturais e cam pos diversificados ele práticas

efetiva-se através ela idéia de m estiçagem . T rata-se ele perspectiva analítica partilhada pelo

autor com A léxis N ous, que se baseia nas troca provenientes de contatos sociais efetivados em

condição de igualdade. A m estiçagem , concepção

utilizada originalm ente pela biologia, é então

invocada com o m etáfora para cam pos diver o elo conhecim ento. D e saída, contradiz a polaridad

(3)

hom ogêneo-heterogêneo, apresentando-se com o a terceira via: entre "a fusão totalizante do

hom ogêneo e a fragm entação diferenciada do heterogêneo". E m síntese, a m estiçagem afirm aria

o contato entre culturas, sem a anulação de um a

das partes, redefinindo um m odelo alternativo

às form as usuais de dom inação.

A s relações que são produtos da m estiçagem não são lineares. Incluiriam tam bém a desarm onia,

tal com o na m úsica duodecafônia que incorpora

a idéia de tensão, renunciando o fecham ento da partitura através da conclusão. A lógica da

com posição, nesse sentido, consistiria em unir,

reunir e associar a redistribuição de elem entos

no espaço, através de processos de deslocam ento e· desdobram ento de fronteiras. O conceito de

turbilhão é, nesse contexto lógico, igualm ente

evocado para referir-se a algo que desorienta o curso do rio (B enjam irn), perm itindo verificar o

m ovim ento contraditório fora da lim inaridade.

N o cam po das ciências sociais, um exem plo desse deslocam ento de fronteira

ocorreria na situação de entrevista. A técnica de

conversação, dotada de intervalo, interrupção, de palavras que circulam de um sujeito a outro,

destaca-se pela descontinuidade fora do parâm etro causa e efeito.

O s liam es sociais fundam -se tam bém na

m odernidade estética que abdica da pretensão ao enquadram ento, tal com o na tragédia grega

que incorpora o m ovim ento de oscilação entre

D ionysios e A ppolon.

A m estiçagem opõe-se, na versão antropo-lógica sugerida pelo autor, à noção de aculturação

que pressupõe a contam inação vinda do exterior,

sendo por esse m otivo portadora da desordem . A heterogeneidade das civilizações já havia sido

percebida em R oger B astide, em bora este não

tenha conseguido, na versão de L aplantine, fazer um a crítica radical ao princípio da pureza cultural.

A palavra aculturação e seus correlatos,

assim ilação, adoção, apropriação é tam bém objeto de críticas, por não conseguir realizar a

separação e articulação de processos culturais. T rata-se, na realidade, de um m ovim ento de

separação que supõe um antes e um depois, um

passado e um presente claram ente definidos, um dentro e um fora, form ando unidades com pactas.

S e um encontro é algo m ais com plexo do que

um a relação entre entidades separadas, argum enta L aplantine, existe um m ovim ento de vibração entre

o eu e o outro, a exem plo da bossa nova que é feita de oscilação entre o ritm o de jazz e o ritm o

de sam ba. C om isso o autor recusa o m ovim ento

binário da ideologia denotativa que desvaloriza a transição e reenvia o pensam ento para um a

separação entre a form a e a estética.

O utros exem plos de prioridade conferida

às uniform idades e rejeição a um a idéia de

m ovim ento acom panham , na interpretação de L aplantine, a história da antropologia com o

disciplina baseada no reforço às expressões culturais denom inadas autênticas. O privilégio

do estudo de coletivos hom ogêneos, através da

divisão da cultura em unidades, desconsiderava as dinâm icas interativas entre grupos. E stes, vistos

atra é de proce os que se "form am e deform am ". ver

õe

raciona lista (D urkheim ), culturalista (B oas) e em pirista (B oas) teriam em

com um o paradigm a da ordem , privilegiando a

objetividade em lugar da afetividade. O espaço e o tem po euclidianos serviram de referência ao

pensam ento antropológico clássico, alheio ao

conhecim ento da física quântica.

A o lado da idéia de

m estiçagem ,

as m etáforas da prova, da revelação e do escândalo servem de referência àperspectiva de com preensão do universo das ligações entre fatos sociais. E nquanto a prova supõe ligações necessárias e irrefutáveis, fundadas

em explicações objetivas (lógica positivista), a

revelação é a m anifestação m etafísica baseada

na crença e no m istério. O escândalo, por sua vez, m ostra a ausência de ligações coerentes entre

o visto e o dito: faltam cadeias. O s lapsos de

coerência e intelegibilidade provocam , por

conseqüência, o discurso rarefeito. D errota, assim , a lógica da explicação através da ligação necessária

entre dois signos. A suspensão e não a prova,

presente no escândalo, prevalece com o elem ento

(4)

A s ligações que interessam ao autor, considerando-se a vigência dessas m etáforas,

aquelas em construção, não m obilizadas pela lógica

da prova, da revelação ou do escândalo. T am pouco

am paradas na idéia de adesão ou do acordo

perfeito. A s pequenas ligações feitas de detalhes, rupturas e suspensões podem ter im plicações éticas

e políticas. S ão os sentidos e os jogos que se constroem no acontecer da vida social.

A própria estrutura do livro obedece ao

princípio da não linearidade. A borda sob diversos

ângulos as possibilidades de interpretação dos fatos sociais em três partes. A prim eira parte discute o m odo de conhecim ento m icroscópico,

referenciando-se principalm ente na literatura.

A segunda parte analisa as pequenas ligações e

ínfim as graduações inspiradas na pintura, na m úsica e na literatura. A terceira parte exam ina

a prova, revelação e o escândalo com o m etáforas indutoras de diferentes ligações. A divisão em

partes inter-relacíonadas condiz com a idéia

presente em toda a obra de valorização dos elos

de ligação que inform am a vida social e a experiência estética.

QPONMLKJIHGFEDCBA

É possível inferir, a partir do livro, conclusões de natureza epistem ológica e política. D e início, a abordagem m icroscópica im plica a

prim azia do cotidiano e ruptura com grandes

esquem as interpretativos. A prioridade conferida às ínfim as gradações na política abdica das

narrativas pom posas para apegar-se às linguagens

sutis de gestos e sím bolos que podem revelar aspectos im portantes das esferas de poder.

A recusa às grandes narrativas poderia significar um a filiação às correntes pós-m odernas.

N o entanto, não é essa a perspectiva da abordagem apresentada. O livro está m ais voltado

para buscar a especificidade das ciências sociais

e seu poder de análise da vida social em seus detalhes m ais sutis.

N esse contexto de enunciação de im agens literárias e observações de cunho sociológico

definidoras dos laços sociais cotidianos, vale a

pena citar o texto de C arlos G inzburg, "E nigm as

de um paradigm a indiciário", no qual o autor

132

R E V IS T A D E C IÊ N C IA S S O C IA IS v .3 5 N . 1

apresenta um a contraposiçao entre o conheci-m ento lógico racional e o conheciconheci-m ento baseado

nos indícios, intuições e detalhes renegado, ao longo da história da ciência, ao ostracism o.

S egundo G inzburg, em ergiu por volta do

século X 1X , silenciosam ente, no âm bito das ciências hum anas, um m odelo epistem ológico

baseado em indícios. O m étodo indiciário de M orelli, usado para distinguir obras originais de

cópias, com para-se à m etodologia de S herlock

H olm es cuja investigação baseava-se em detalhes, intuições. F reud, tam bém leitor de M orelli,

conferiu prioridade aos indícios através do m étodo interpretativo baseado em resíduos.

T rata-se de um paradigm a que tem raízes bem m ais antigas: o saber venatório das cartas e

adivinhações que integravam contos e lendas.

O grupo de disciplinas indiciárias não entrava nos critérios científicos galileanos,

fazendo com que as ciências sociais, baseadas no qualitativo, m antivessem ainda o m al estar

da busca de reconhecim ento N a m etade do século X IX , os m odelos anatõm ico e sem iótico

de sociedade contrapõem -se e, no final do

m esm o século, o paradigm a indiciário em erge

com o necessidade de controle da crim inalidade ou repressão da oposição operária.

O paradigm a indiciário m odelou as ciências

hum anas. M inúsculas particularidades foram

em pregadas com o veículos para reconstrução de transform ações culturais e indícios foram vistos

com o relevantes de fenôm enos m ais gerais tais com o a visão de m undo de um a classe.

N a realidade, as proposições contidas no livro acom panham a história das ciências sociais

que guardam o dilem a posto por G alileu: assum ir

o estatuto científico frágil para chegar a resultados relevantes ou estatuto forte para resultados de

pouca relevância.

O im portante a destacar é a sensibilidade e argúcia da observação com o qualidades

im prescindíveis ao conhecim ento. É nesse sentido

que as ciências sociais alim entam -se tam bém da literatura e da arte, tal com o argum enta com m uita

propriedade F rançois L aplantine ao longo do livro.

(5)

T rata-se de reflexão provocativa que invoca

dim ensões estéticas e epistem ológicas do conhecim ento. S ão intuições m ais que com provações

de pesquisa que suscitam a velha prática da

im aginação sociológica. O pensar com a alte com o a arte de pensar.

Referências bibliográficas

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Obras

Escolhidas,

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Mitos, emblemas

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L A P L A N T IN E F R A N Ç O IS E A L m aS O U S o In: Le

Métissage,

D om inós/F lam arion, E vreux-F rança.

QPONMLKJIHGFEDCBA

Referências

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