GT 03. Ruralidades e Meio Ambiente
ATIVIDADES SOCIOECONÔMICAS NO ESPAÇO RURAL DE SÃO JOÃO DO CARIRI-PB: uma discussão acerca dos impactos ambientais
Luiz Gustavo Bizerra de Lima MORAIS1 Josandra Araújo Barreto de MELO2
Luciano Guimarães de ANDRADE3
1 Especialista em Análise Regional e Ensino de Geografia (UFCG)/Professor da rede pública de ensino do Estado da Paraíba/Secretaria de Estado da Educação da Paraíba, [email protected]
2 Doutora em Recursos Naturais (UFCG)/Professora do Departamento de Geografia/Universidade Estadual da Paraíba, [email protected]
3 Mestrando do programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (UEPB-UFCG)/Professor da rede pública de ensino do Estado da Paraíba/Secretaria de Estado da Educação da Paraíba, [email protected]
RESUMO
O espaço rural do município de São João do Cariri vem sofrendo com os efeitos do mau uso dos seus recursos naturais desde os primeiros momentos de sua colonização. A forma e intensidade em que se deu o desenvolvimento das atividades socioeconômicas ao longo do tempo não levaram em contra a fragilidade do meio ambiente. Como resultado teve-se a disseminação de práticas que paulatinamente desencadearam um quadro ambiental marcado por degradações ambientais. A diminuição do poder de renda e subsistência da população rural levaram as autoridades governamentais a desenvolverem políticas que contribuíram para o agravo do quadro socioambiental, principalmente as de incentivo a pecuária caprina e ovina, sem haver o melhoramento nas formas de manejo das atividades. Este trabalho toma como foco as atividades socioeconômicas predominantes no espaço rural do município de São João do Cariri/PB com vistas à análise de suas formas de manejo e os danos ambientais inerentes. Para tanto, tomou-se a pesquisa qualitativa enquanto forma de abordagem e utilizou-se como recursos procedimentais a revisão bibliográfica, a pesquisa in lócus e o levantamento de dados junto aos produtores rurais, através da aplicação de questionário em cerca de 20%
dos domicílios e do levantamento de registros iconográficos. Constatou-se que as atividades predominantes são: pecuária, agricultura e extrativismo vegetal que, em sua maioria, não garantem a subsistência da população. As formas tradicionais de manejo da terra que levam ao desmatamento e as queimadas, associadas ao manejo extensivo da pecuária e da exploração dos recursos florestais, além de demonstrarem a fragilidade social, ocasionam fortes impactos ao meio ambiente. Neste cenário, o desenvolvimento de estratégias que visem práticas e formas de manejos menos nocivas torna-se extremamente necessárias.
Palavras-chave: recursos naturais; população rural; formas de manejo.
INTRODUÇÃO
As formas de ocupação e de uso do solo do município de São João do Cariri apresentaram-se, desde o início da colonização do seu território, não condizentes ao desenvolvimento socioambiental. A exploração dos recursos ambientais promovida pelo desenvolvimento insustentável de atividades produtivas voltadas, sobretudo, a manutenção do sistema pecuário acabou constituindo um quadro socioambiental marcado por profundas modificações no bioma caatinga.
A posição geográfica do município, muito ao interior, e a natureza climática semiárida, com ocorrência de períodos secos constantes, retardaram sua colonização (SOUZA, 2008). Fatores estes que não enquadrava este espaço nos anseios econômicos da colônia. Tal panorama, a partir da segunda metade do século XVII, começou a mudar haja vista a expansão da economia canavieira que permitiu o surgimento de atividades secundárias (FURTADO, 2004), levando a coroa portuguesa a incentivar a colonização dos sertões.
Com o surgimento de mercado consumidor para carne bovina aumentou-se, assim, a demanda da pecuária nos engenhos e expandiu esta para o interior, tornando-se ainda mais intensa a partir da Carta Régia de 1701, que proibiu a pecuária a menos de 10 léguas da costa (SOUZA, 2008). Segundo Andrade (2005, p. 185), “a influência paraibana penetrava os Cariris Velhos até o Boqueirão e daí se estendia a Taperoá (...)”.
Assim, no entremeio desses dois atuais municípios, Boqueirão e Taperoá, alguns colonizadores foram se estabelecendo no território onde atualmente se localiza o município de São João do Cariri.
Tendo em vista o caráter extensivo em que se deu a introdução da atividade pecuária e as características edafoclimáticas dominantes no município de São João do Cariri, é possível afirmar que esta se constituiu bastante prejudicial ao meio ambiente, pois exigiu a adaptação do espaço através do uso de técnicas degradantes voltadas ao manejo do rebanho criatório, bem como o desenvolvimento de atividades produtivas responsáveis pela sustentação do sistema pecuário nas fazendas.
Assim, esta forma de manejo, típica das terras semiáridas do Nordeste brasileiro para a introdução da pecuária, exigiu de maneira geral alguns “cuidados”, como foram os casos da retirada de parte da vegetação para fazer áreas de pastagens, cercas que demarcavam propriedades e currais, e, nos períodos de seca, a derrubada da
vegetação para servir de alimentação aos animais (ANDRADE, 2005 e PRADO JR, 2004). Em especial a construção de cercados, na visão de Souza, Silans e Santos (2004), constituiu uma prática que ocasionou à diminuição das árvores de maior porte.
O manejo contava ainda, tendo em vista afastar animais peçonhentos, com a eliminação da vegetação nas áreas próximas as habitações, constituindo-se, assim, focos de degradação intensos nessas áreas. Já ao longo dos rios, as margens foram ocupadas com culturas de subsistências, principalmente milho e feijão, representando importante fator na ocupação e no uso destes espaços, ocasionando ao Rio Taperoá, principal rio do município, bem como a seus afluentes, grande parte de sua degradação (SOUZA, 2008).
No século XVIII, quando a produção canavieira se encontrava em crise, o algodão surge como cultura de importância econômica que, responsável pelo abastecimento do mercado europeu, invadiu o semiárido, servindo de lavoura de complemento à pecuária, se aproveitando das condições socioeconômicas da região, permitindo maior concentração da população e transformando a economia pastoril em agropastoril (ANDRADE, 1974, p. 186-187).
Cabe ressaltar, diante desta questão, que o algodão detinha importância para a economia de São João do Cariri desde 1860 (RAMOS, 1972 apud MARACAJÁ, 2007), adentrando no século XX como descreve Brito (1989, p. 24), que o relata como “[...] a principal fonte de renda” do município, sendo reforçado por Costa (1996) apud Araújo (2006), colocando o município como o quarto maior produtor do estado em 1920.
Assim, a sua erradicação haveria de ter grandes consequências, ainda mais, devido à importância que esta cultura tinha no contexto socioeconômico da Paraíba e do Nordeste.
A reconfiguração na dinâmica do espaço rural ocasionada pela crise da produção algodoeira, por volta da década de 1960, foi além das perspectivas econômicas, representou a intensificação das práticas extensivas e a degradação do meio ambiente (ABÍLIO et al., 2010). Sobretudo, por que foi sucedida pelo desenvolvimento de políticas públicas por parte da SUDENE que pautou-se no incentivo a pecuária caprina e ovina, por estas se adaptarem melhor as condições climáticas e se alimentarem da vegetação durante o ano todo e, também, no alargamento das áreas de pastagens animal, contribuindo, decisivamente, para o declínio da produção alimentícia de subsistência e a piora do quadro ambiental (SOUZA, 2008). Tem-se em vista ainda, às consequências socioeconômicas causadas pela diminuição da renda, sobretudo do
pequeno agricultor, que vão novamente atingir o meio ambiente, pois a falta de renda na visão de Maracajá (2007) constitui-se um dos fatores da degradação deste ambiente.
A pecuária bovina foi bastante afetada com a crise algodoeira, perdendo espaço para a pecuária caprina e ovina que, menos onerosas, passaram a figurar como as principais atividades socioeconômicas desenvolvidas por pequenos e médios proprietários. Porém, não se configurando este quadro uma regra, pois alguns proprietários não abdicaram da pecuária bovina como principal atividade.
Diante do quadro ambiental resultante das fortes degradações ocorridas pelo manejo inadequado das atividades produtivas, o desenvolvimento de políticas de reflorestamento da caatinga por parte de órgãos governamentais como o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e a SUDENE, durante a década de 1970, marcou novamente o meio ambiente do Cariri paraibano como um todo.
Em consonância, a posição de Abílio e Florentino (2010, p. 92), Maracajá (2007, p. 61) afirma que:
A substituição da caatinga pela algaroba contribuiu para o empobrecimento de espécies da flora nativa, destruição do habitat de alguns animais, de abelhas que contribuíam para a vida da população local, agravamento do processo erosivo, a diminuição ou perda total da fertilidade dos solos.
Assim, a substituição da vegetação nativa por plantas exóticas para a produção de energia, ou outro fim, não se constituiu em uma solução para a problemática ambiental existente, ao contrário, esta prática contribuiu para o agravamento do quadro ambiental em muitas áreas, sendo desmatadas várias faixas de terras em locais que a espécie apresentou um desenvolvimento pouco expressivo e o que deveria ser uma medida para reflorestar, acabou aumentando o número de áreas degradadas.
Dispostas as contingências históricas que demarcaram/demarcam o quadro socioambiental do espaço objeto deste estudo, cabe ressaltar que este trabalho toma como foco as atividades socioeconômicas predominantes no espaço rural do município de São João do Cariri com vistas à análise de suas formas de manejo e os danos ambientais inerentes.
1. MATERIAIS E MÉTODOS
O município de São João do Cariri está localizado no Cariri Oriental paraibano (Figura 1), uma das microrregiões geográficas do estado da Paraíba. Esta faixa
territorial está inserida na região climática do semiárido brasileiro de vegetação do tipo hiperxerófila, estando ainda, na área denominada de polígono das secas, que apresenta os menores índices pluviométricos do Brasil.
Figura 1: Localização geográfica do município de São João do Cariri, PB
Fonte: Morais, 2015.
Quanto à forma de abordagem, esta pesquisa trata-se de uma pesquisa qualitativa que toma como pressuposto atender a necessidade de compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais existentes no espaço lócus da mesma.
Ressaltando-se neste sentido que, a adoção da abordagem qualitativa, contudo, não dispensou o apoio, na análise dos resultados, de instrumentos quantitativo. Já no que diz respeito aos aspectos procedimentais dessa pesquisa, adotou-se como parâmetro o método do estudo de caso, em virtude da pesquisa tratar-se de uma análise do caso específico do espaço rural do município de São João do Cariri.
Neste sentido, de acordo com Triviños (1987, p. 134), o suporte teórico apresentado pelo Estudo de Caso permite "uma visão sobre o fenômeno em sua evolução e suas relações estruturais fundamentais", servindo de orientação ao trabalho de investigação. Assim, uma das peculiaridades do estudo de caso, conforme explicita Ludwing (2012, p. 58), é a necessidade de contextualização do objeto estudado, o que suscita o levantamento de sua história, sua situação atual e sua localidade.
O caminho traçado pelo arcabouço metodológico aqui delineado conduziu-se a partir do levantamento de técnicas que permitiram a coleta e a análise de dados de forma eficiente. Desse modo, instrumentos como a pesquisa bibliográfica, a observação, o questionário e o levantamento de registros iconográficos constituíram a base para a
obtenção de informações relevantes, bem como a análise e discussão acerca dos agentes de degradação ambiental no município de São João do Cariri.
Os questionários foram aplicados a pequenos, médios e grandes proprietários rurais do município de São João do Cariri entre os meses de Janeiro e Março de 2012 e abrangeu cerca de 20% do universo total de domicílios atendidos pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) na zona rural.
2. DISCUSSÃO
Na atualidade, conforme a pesquisa realizada nos estabelecimentos agropecuários do município de São João do Cariri (Tabela 1) constatou-se que as atividades socioeconômicas mais praticadas nos estabelecimentos são: pecuária, agricultura e extrativismo vegetal.
Tabela 1: Atividades produtivas desenvolvidas nas propriedades rurais do município de São João do Cariri-PB
Atividades Descrição Nº de propriedade % individual
Pecuária
Bovina 35 66%
Ovino 31 58,5%
Caprino 20 37,7%
Asinino, Equino, Suino e Avícola 11 20,1%
Agricultura Cereais, Tubérculos, Forragem,
Verduras e hortaliças 46 86,8
Extrativismo Retirada de madeira 46 86,8
Fonte: Pesquisa direta, 2012.
No tocante a atividade pecuária faz-se mister destacar que, apesar da pecuária bovina ser praticada em 66% das propriedades, contrapondo os 58,5% da pecuária ovina e os 37,7% da caprina, o efetivo conjunto dessas últimas somam, segundo dados do IBGE 2013, 13.711 cabeças, bem mais do que as 4.009 cabeças de bovinos contabilizadas.
Uma característica marcante da criação de caprinos e ovinos é o fato de que estas são praticadas em estabelecimentos pertencentes aos proprietários menos abastados economicamente, graças aos incentivos dados, principalmente após a década de 1970, pelos órgãos governamentais. Tal aspecto é imprescindível frente a problemática ambiental resultante no espaço municipal, haja vista que estes proprietários residem, sobretudo, em pequenos e médios estabelecimentos, o que segundo Souza (2008), aumenta a pressão ao meio ambiente por exceder a capacidade de suporte desses estabelecimentos.
Um dos impactos mais nocivos ao ambiente ocorre pela ação direta desses rebanhos a vegetação nativa local uma vez que, criados extensivamente, se alimentam dos recursos florestais praticamente o ano todo, conforme mostrado na Figura 2.
Figura 2: (A) Caprinos se alimentando de cascas e folhas de espécies da caatinga; (B) Marmeleiro (Croton sonderianus) com anelamentos provocados pela ação de rebanho(s) caprino e/ou ovino na, Zona rural do município de São João do Cariri
Fonte: Acervo dos autores, 2015.
No período chuvoso a ocorrência das primeiras chuvas na caatinga faz eclodir a folhagem da vegetação num curto período de tempo, do mesmo modo, várias sementes que ficaram, durante meses, a espera de água, põem-se a germinar. É neste momento que os caprinos e ovinos começam a impor um forte impacto a determinadas espécies de plantas nativas do bioma caatinga. Além de se alimentarem das folhas, esses rebanhos ainda promovem a eliminação precoce de algumas espécies como o umbuzeiro (Spondias tuberosa), a baraúna (Schinopsis brasiliensis), a aroeira (Myracrodun urundeova), a imburana (commiphora leptofhoeos), entre outras.
Os impactos promovidos são ainda mais graves durante os períodos de estiagens prolongadas, uma vez que, com a falta de alimento os rebanhos passam a se alimentarem das folhas secas que caem da vegetação quando atingem seu ápice de escassez hídrica, causando a quebra do ciclo de fertilização natural da floresta. Até as cascas da vegetação, conforme visto na Figura 2 (B), entram na dieta dos mesmos.
Roendo-as, acabam provocando o anelamento, levando um número considerável de vegetais a morte, conforme faz referência Araújo et al. (2010), sendo esta ocorrência mais comum em espécies nativas como: catingueira (Caesalpinia pyramidalis) e marmeleiro (Croton sonderianus), duas das principais arvores que compõe a cobertura vegetal da caatinga.
O levantamento de dados junto aos produtores, conforme apresenta o Gráfico 1, constatou que, além dos danos já evidenciados, o uso de técnicas tradicionais para o
A B
desenvolvimento da pecuária e da agricultura como são os casos do desmatamento e das queimadas são ainda muito comuns no âmbito do espaço rural ora analisado.
Gráfico 1: Uso de queimadas e desmatamento para o desenvolvimento da agricultura e pecuária no município de São João do Cariri-PB
Fonte: Pesquisa direta, 2012.
Nestas propriedades em que o desmatamento é uma prática corriqueira, tem-se em vista que sua utilização dar-se principalmente para produção de campos de pastagens para alimentação do gado bovino que necessitam de suporte forrageiro em maior quantidade, sendo muito comum a abertura de áreas de vegetação nativa para a produção de Capim-buffel (Cench ciliaris) e palmáceas, conforme Figura 3 (A) e (B).
Figura 3: (A) Área desmatada para introdução de Capim-buffel (Cench ciliaris); (B) Área desmatada para introdução de palma Orelha-de-elefante-mexicana (Opuntia tuna (L.) Mill) na zona rural de São João do Cariri
Fonte: Acervo dos autores, 2015.
Um dos principais danos relacionados o desmatamento, no âmbito do espaço analisado, trata-se dos ocorridos nas matas ciliares, para o desenvolvimento de culturas exploradas sob as condições de sequeiro, como milho e feijão. Embora atualmente as áreas utilizadas sejam quase as mesmas desmatadas nos anos que sucederam a colonização, a pressão sobre elas são bem maiores, a limpeza constante e o uso destas como áreas de pastagens, aceleram o ritmo da degradação.
Dessa forma as áreas de utilização para a agricultura na atualidade encontram- se bastante impactadas, entre outros danos pode ser diagnosticados: solos esgotados
38,5%
30,8%
0 10 20 30 40 50
Desmatamento Queimadas
% de Propriedades
Práticas degradativas comuns
A B
pelo uso excessivo, assoreamento pela ação das chuvas que caem no solo desprotegido ou em casos de irrigações e desmatamento em nível elevado.
Por sua vez, as queimadas, que são realizadas em 30,8% das propriedades pesquisadas, se fazem, para preparar o terreno para a agricultura e, principalmente, para alimentar o rebanho pecuário a partir da queima de cactos em períodos de estiagens prolongadas, conforme mostra a Figura 4.
Figura 4: Queimada de Xique-xique (Pilosocereus gounellei) para alimentação do rebanho pecuário na zona rural do município de São João do Cariri
Fonte: Acervo dos autores, 2015.
Destaca-se, assim, frente a este processo, o emprego de espécies típicas de cactáceos como o Xique-xique (Pilosocereus gounellei), a Palmatória (Opuntia palmadora), a Macambira (Bromelia laciniosa Mart.) e o Mandacaru (Cereus jamacaru DC), como fonte de forragem animal que se dá fortemente durante os períodos de estiagens prolongadas, período em que estas espécies se tornam a base do desenvolvimento da pecuária, servindo de alimentação para caprinos, bovinos e ovinos, mas, colocando em risco o meio ambiente e a sobrevivência humana neste espaço pela diminuição dos recursos biológicos.
Com a erradicação da Palma forrageira da variedade gigante (Opuntia Fícus Indica) pela praga da Cochonilha do Carmim no espaço agrário municipal, Morais (2015), apontou que práticas como o desmatamento e, principalmente a queima de cactáceas, se tornaram ainda mais utilizadas por parte dos produtores municipais, fato este que segundo o autor “pode aprofundar as problemáticas relativas ao processo de desertificação que já preocupam alguns estudiosos no assunto” (MORAIS, 2015, p. 77).
O extrativismo é outra prática que vem provocando uma intensa degradação. O uso da vegetação como fonte energética passou a partir dos anos 70 a ser utilizada em larga escala, ultrapassando os padrões de sustentabilidade, visto que a crise no setor petrolífero exigiu a procura por parte de alguns setores industriais por fontes energéticas
de biomassa, sobretudo as dos ramos alimentícios e de construção civil (ABÍLIO et al., 2010 e MARACAJÁ, 2007).
Com a crise nas perspectivas de renda no espaço rural a exploração deste recurso natural se tornou desde então uma das alternativas mais viáveis sobre o ponto de vista econômico para os proprietários, porém, sendo uma das mais terríveis para o meio ambiente e levou a degradação de grandes porções territoriais e a diminuição da biodiversidade.
Atualmente a utilização da espécie exótica Algarobeira (Prosopis juliflora), como fonte energética principal, aumentou o potencial energético, todavia, a introdução dessa e de outras espécies exótica vêm sendo bastante contestadas por alguns estudiosos por elas trazerem outros danos ambientais.
A substituição da vegetação nativa por exóticas na produção de energia ainda não é a solução da problemática ambiental do espaço rural de São João do Cariri, porém, não podemos ser míopes diante do caso descrito, uma vez que a falta desta alternativa poderia representar danos ainda maiores já que socialmente falando não há alternativas de melhores viabilidades diante de uma economia precária.
O extrativismo vegetal de madeira destina-se a venda do excedente a madeireiros locais e uso doméstico. Em estudo mais detalhado Maracajá (2007) constatou que 90% da fonte de energia utilizada nos domicílios do município é de origem vegetal, ocorrendo danos ao ciclo biológico. A venda constitui outro elemento da degradação deste ambiente, destacando-se as grandes demandas para cerâmicas e indústrias mineradoras dos municípios próximos, a exemplo de Boa Vista e Campina Grande.
A utilização da lenha para finalidade industrial, embora sendo esta originária da Algarobeira (Prosopis juliflora), causa sérios impactos ambientais no meio rural do município de São João do Cariri, pois, a quantidade de demandada supera os níveis sustentáveis, provocando processos erosivos nas áreas exploradas, desmatamento e inviabilizando o crescimento de espécies nativas nas matas ciliares (Figura 5).
Figura 5: (A) Área desmata e em processo erosivo devido a exploração da algarobeira (Prosopis juliflora); (B) Pilha de madeira de algarobeira (Prosopis juliflora) pronta para ser levada a indústria, zona rural de São João do Cariri
Fonte: Acervo dos autores, 2015.
Após o levantamento dos dados constatou-se que a degradação existente no espaço rural do município de São João do Cariri tem forte relação com a fragilidade social, propiciando o mau uso dos recursos ambientais. A propriedade não gera o suficiente para manter as despesas da família sendo geradora de uma quantidade de renda ínfima, como pode ser visto no Gráfico 2 (A e B).
Gráfico 2: (A) Porcentagem da capacidade das propriedades de gerar ou não o suficiente para o sustento de todos que estão envolvidos nas atividades; (B) Renda oriunda das atividades desenvolvidas nas propriedades
Fonte: Pesquisa direta, 2015.
Os dados mostram que as pessoas residentes no espaço rural de São João do Cariri não tiram das atividades desenvolvidas nas propriedades o suficiente para manter suas necessidades básicas, portanto, evidencia que tanto estas como o meio ambiente estão com suas sustentabilidades comprometidas. A carência econômica desta população a leva a desenvolver formas alternativas de se conseguir renda, o que significa o desenvolvimento de práticas mais agressivas de lidar com o meio, como a venda de lenha ou o fabrico de carvão, também destinado à venda.
O governo pouco se faz presente, seja para o desenvolvimento de políticas publicas ou pra orientar o desenvolvimento de atividades cotidianas, através de um
34%
58%
8%
A
Sim Não Não responderam32%
24%
16%
28%
B
Sem renda De 0 a R$ 545 Mais de R$ 545 Não responderamA B
suporte técnico (Gráfico 3), pois este poderia constituir uma forma de amenizar ou evitar maiores danos. Prevalece o desconhecimento de formas alternativas de melhor convívio com as dificuldades encontradas, o que não são poucas, principalmente relativas ao clima, encontrando-se períodos de estiagem prolongada. O manejo sempre mantem-se por formas tradicionais de convivência as quais grande parcela da população desconhece qualquer dano delas inerentes, como visto no Gráfico 4.
Gráfico 3: Percentual de presença de suporte técnico nas propriedades rurais. Gráfico 4:
Percentual de percepção se a atividade desenvolvida na propriedade provoca danos
Fonte: Pesquisa direta, 2012.
Conforme visto, a falta de conhecimento promovida por insuficiente apoio técnico faz com que os produtores tenham consciência limitada acerca que as técnicas e práticas desenvolvidas pelos mesmos provocam degradações ao meio ambiente o que age de modo a dificultar a superação do quadro posto. Portanto se faz necessário maior empenho das autoridades municipais para tentar reverter o problema socioambiental que vem se agravando ao longo do tempo, deixando homem e natureza fragilizados sem perspectivas futuras de superação das problemáticas existentes.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O município de São João do Cariri encontra-se em uma faixa territorial cujas características de solo e vegetação, típicas do bioma caatinga, não suportam determinadas formas de manejos, porém, historicamente a sociedade rural que vive neste espaço ao estabelecer suas práticas socioeconômicas em prol da sustentabilidade vem exercendo forte pressão sobre este ambiente e causando diversos danos.
O acúmulo de danos, provocados pelas práticas inadequadas de manejo do meio ambiente ao longo do tempo, estão marcados na paisagem fazendo surgir focos de
11%
77%
12%
Sim Não Não responderam
30%
61%
9%
Sim Não Não responderam
3 4
desertificação em áreas devastadas, sobretudo, para introdução de campos de pastagens, o que provoca, entre outros efeitos, a diminuição da biodiversidade.
Neste cenário constatou-se ainda que, a falta de políticas públicas voltadas ao manejo adequado dos recursos se apresenta como um fator importante na manutenção e reprodução das práticas tradicionais.
Assim, o quadro ambiental denuncia o agravamento da problemática social, pois, as práticas e as formas que são desenvolvidas demonstram a fragilidade que o individuo do espaço rural se encontra e clama urgência no desenvolvimento de estratégias que visem assegurar a manutenção do homem no campo pelo estabelecimento de práticas e formas de manejos menos nocivas.
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