PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC ‒ SP
Maria Bethânia Batista
PERCEPÇÕES SOBRE O PRAZER E SOFRIMENTO NO TRABALHO DOCENTE: estudo em duas Instituições de Ensino Superior privadas na cidade de São Paulo
MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC ‒ SP
Maria Bethânia Batista
PERCEPÇÕES SOBRE O PRAZER E SOFRIMENTO NO TRABALHO DOCENTE: estudo em duas Instituições de Ensino Superior privadas na cidade de São Paulo
MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Administração, sob a orientação do Prof. Dr. Edson Sadao Iizuka.
Banca Examinadora
_____________________________________
Prof. Dr. Edson Sadao Iizuka PUC-SP
_____________________________________
Profa. Dra. Maria Ester de Freitas FGV-EAESP
_____________________________________
AGRADECIMENTOS
Ao meu querido orientador, Prof. Dr. Edson Sadao Iizuka, por tudo o que fez por mim, não apenas neste trabalho, mas na minha formação, que será essencial para a minha vida acadêmica.
Às docentes, que participaram da pesquisa, abrindo seus corações, compartilhando sentimentos muito particulares, contribuindo definitivamente para a viabilização da dissertação que aqui é apresentada.
Aos participantes da minha banca de qualificação, Prof. Dr. Leonardo Trevisan e
Profª. Dra. Maria Ester de Freitas, por suas pertinentes e preciosas orientações.
À CAPES, pela concessão da bolsa de estudos, o que viabilizou a realização de meu curso de mestrado.
À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e à equipe docente que tive a oportunidade e a grata satisfação de conhecer.
À minha irmã Maria Raquel Batista, pela correção do texto, que representou aqui um pedacinho de todas as minhas irmãs na participação do trabalho. Obrigada, minha irmã, por sempre ter investido em mim.
À Maria Inês Faria, pela correção conforme a ABNT e pelo carinho com que a fez.
Ao Fábio Margherito,pelo excelente trabalho de transcrição das entrevistas.
Ao meu querido cunhado-irmão, Todd Marshall, pela tradução do resumo, pelos conselhos e força que sempre me dispensou.
Ao meu irmão, Bebé (in memoriam), que, no seu silêncio e olhar, torcia por mim e que foi para os braços de Nossa Senhora sem ler essa homenagem.
À minha tia-mãe, Maria da Conceição Soares, que me criou com um amor imensurável e batalhou pela formação dos meus irmãos e irmãs junto de meu pai e minha mãe, pelas orações durante toda a realização desse estudo.
Às minhas irmãs: Maria Cristina Batista Kreutzer, Maria Margarida Batista dos Santos, Maria Olímpia Batista Araújo, Maria Aparecida Batista Rodrigues, Maria Lúcia Batista Ferreira, Maria Regina Batista e Maria Natália Batista Marshall, por sempre acreditarem em mim e serem meu exemplo de vida.
Às minhas mães de coração, Maria do Carmo Pinheiro da Silva e Dra. Heloísa Battilani, pelas constantes orações e palavras de sabedoria em cada etapa desse estudo.
Aos meus cunhados, sobrinhos que sempre acreditaram em mim.
Aos meus queridos amigos, Frederico Oliveira Batista eSônia Rodrigues Portes, que me acompanharam antes e durante o desenvolvimento dessa dissertação.
À colega mestranda, Cristiane Bortoleto, por dividir comigo as alegrias e aflições.
Aos meus queridos sobrinhos, especialmente os pequeninos Guilherme Borges,
Gustavo Borges, Mariana Pinheiro, Sophia Pinheiro e Vitória Rodrigues, que são as crianças mais lindas desse mundo.
Os seres humanos não são coisas. Convém, portanto, considerar o indivíduo não como recurso, mas como o produto de uma história da qual ele procura se tornar sujeito. No próprio fundamento do humano, há uma aspiração de se construir como um ser singular, ligado aos outros em um desejo de realização. É esse paradigma central que deve fundar o conhecimento e a concepção humana. A busca de cada homem de se tornar um sujeito tem múltiplos aspectos. Ele se exprime no registro de conhecimento, no do direito, mas também nos registros sociais e psíquicos.
O indivíduo humano é caracterizado por sua capacidade reflexiva e deliberativa: capacidade de pensar o mundo, de ter uma atividade racional e calculadora, mas também por sua capacidade de pôr em questão a si mesmo e seu meio ambiente. O indivíduo reflexivo pode pensar alguma coisa diferente daquilo que existe. O imaginário reflexivo não se opõe ao real, mas é uma de suas formas de expressão. A imaginação pode ser “conservadora”, quando ela se calca sobre uma realidade percebida como intangível ou “progressista”, quando ela salienta aquilo que o real tem de insuportável, desenhando contornos de um mundo diferente. É imaginando outros possíveis que os homens podem transformar a sociedade na qual vivem.
RESUMO
BATISTA, Maria Bethânia. Percepções sobre o prazer e sofrimento no trabalho docente:
estudo em duas Instituições de Ensino Superior privadas na cidade de São Paulo. São Paulo, 2014. 133 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Este estudo tem como objeto a investigação do prazer e sofrimento a partir da perspectiva de professores em cursos de Administração de duas Instituições de Ensino Superior (IES) privadas na cidade de São Paulo, sendo seu objetivo verificar as vivências de prazer e sofrimento dos professores do ensino superior privado analisando as possíveis divergências e convergências e as estratégias de defesas individuais e coletivas mais utilizadas. Para responder à questão da pesquisa: “Quais são as percepções dos docentes sobre os prazeres e sofrimentos do professor do ensino superior privado em duas instituições particulares na cidade de São Paulo?”, foi realizada uma revisão bibliográfica da literatura. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, sendo que os dados colhidos, mediante entrevistas com seis docentes, foram submetidos à análise de conteúdo. Os resultados evidenciaram a coexistência da dinâmica do prazer-sofrimento no trabalho docente e muitas semelhanças nas duas instituições. O prazer encontra-se relacionado à satisfação obtida na atividade de lecionar; na convivência e no reconhecimento por parte dos alunos; em poder contribuir na formação de indivíduos críticos; em desenvolver o raciocínio dos educandos. As vivências de sofrimento estão relacionadas à falta de salário igualitário entre os docentes e à correspondente titulação, à falta de reconhecimento institucional, à variedade de disciplinas que lecionam, à carga semestral, à violência institucional, à extensa jornada de trabalho, a condições de sobrecarga de tarefas e necessidade constante de capacitação, entre outras. No entanto, é interessante observar que o fato desses professores não se sentirem valorizados pela instituição e pela sociedade parece não afetar o seu envolvimento e a sua dedicação para com os alunos e para com o seu trabalho. Entre as estratégias defensivas, destaca-se o individualismo: os professores do ensino superior estão procurando individualmente respostas às suas insatisfações. Entre as estratégias mais citadas, mesmo inconscientemente, para lidar com o sofrimento, está a perspectiva de, em curto prazo, poder sair da área educacional, de forma temporária ou definitiva.
ABSTRACT
BATISTA, Maria Bethânia. Perceptions of pleasure and suffering among professors: study in two Institutions of Higher Education in São Paulo, Brazil. São Paulo, 2014. 133 pages. Masters Thesis (Masters Degree in Business Administration) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
The present study aims to investigate the pleasure and suffering from the perspective of professors in Business Administration courses of two private Institutions of Higher Education (IHEs) in the city of São Paulo, Brazil. The core objective was to verify the experiences of pleasure and suffering of professors of private higher education courses, analyzing the possible divergences and convergences, as well as the strategies of the most commonly used methods of personal and collective defense. To answer the question: “What are the professors’ perceptions of the pleasures and sufferings of professors of private higher education courses in two private institutions in the city São Paulo?”, a bibliographic review of the literature was performed. This work consisted of a qualitative study in which the data were collected through interviews with six professors and submitted to content analysis. The results illustrated the coexistence of the pleasure-suffering dynamic in the professors’ work as well as many similarities between the two institutions. Pleasure is related to the satisfaction obtained in the activity of lecturing, in the interaction with and recognition on the part of the students, in the ability to contribute to the formation of critical individuals, and in the development of the students’ logical reasoning. The experience of suffering is related to the lack of an equal salary among the professors and their corresponding titles, to the lack of institutional recognition, to the wide range of disciplines that they lecture, to their semester load, to institutional violence, to their extensive work shift, to the conditions of an overload of tasks and the constant need for training, among others. Nevertheless, it is interesting to observe that the fact that the professors do not feel valued by the institution and by society seems not to affect their involvement with and their dedication to the students and their work. Among the professors’ defensive strategies, what stands out is individualism: professors of higher education search individually for answers to their dissatisfaction. Among the most commonly cited strategies to deal with the suffering, even if unconsciously, is the perspective, in the short term, of being able to leave the field of education, whether temporarily or permanently.
LISTA DE QUADROS
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CESUR Centro de Ensino Superior de Rondonópolis
CFA-SP Conselho Federal de Administração de São Paulo
CNS Conselho Nacional de Saúde
EAD Ensino à Distância
EDUCAR Instituição Educacional S/S Ltda.
ES Espírito Santo
EUROPAN Euro-Panamericana de Humanidades e Tecnologias
FABRAI Faculdade de Tecnologia
FACNET Faculdade de Negócios e Tecnologia da Informação FADOM Faculdades Integradas do Oeste de Minas
FAENAC Faculdade Editora Nacional
FAFEB Faculdades Fênix de Bauru
FARPLAN Faculdades Planalto FASERT-SP Faculdade de Sertãozinho
FATEJ Faculdade de Tecnologia de Jaraguá do Sul FATESC Faculdade de Tecnologia São Carlos
FATI Faculdade de Tecnologia IESVILLE
FINTEC Faculdade Interlagos
FIZO Faculdades Integradas da Zona Oeste
FLA Faculdade Latino-Americana
FRIS Faculdade Regional de Itapecerica da Serra
IES Instituição de Educação Superior
IESVILLE Instituto de Ensino Superior de Joinville
IFC International Finance Corporation
ILAN Instituto Latino-Americano de Educação e Cultura Ltda.
INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira INTESC Instituto Tecnológico de Educação Superior e Pesquisa de Santa Catarina
Ltda.
IREP Sociedade de Ensino Superior, Médio e Fundamental Ltda. ISEC Instituto Superior de Educação de Santa Catarina
LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
MEC Ministério da Educação e Cultura
MG Minas Gerais
MS Mato Grosso do Sul
MS Ministério da Saúde
NGP Nova Gestão Paradoxal
OIT Organização Internacional do Trabalho
ONG Organização Não-Governamental
PUC/SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
RS Rio Grande do Sul
SBCEC Sociedade Brasil Central de Educação e Cultura SINPRO Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro
SP São Paulo
SUESC Sociedade Unificada de Ensino Superior e Cultura
TCC Trabalho de Conclusão de Curso
UCES União Capixaba de Ensino Superior
UniA Centro Universitário de Santo André UNIBERO Centro Universitário Ibero-Americano
UNICEM União Cultural e Educacional Magister Ltda. UNIDERP Universidade Regional do Pantanal
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 14
2 O MUNDO DO TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE ... 22
3 DA PSICOPATOLOGIA À PSICODINÂMICA DO TRABALHO ... 28
3.1 A Dinâmica do Trabalho Prescrito e o Real ... 30
3.2 Estratégias Defensivas ... 34
3.3 A Alienação e Sofrimento ... 40
3.4 Reconhecimento e Identidade: o lado do prazer ... 44
3.5 Clínica em Psicodinâmica do Trabalho... 49
4 CONTEXTO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL ... 53
4.1 O Curso de Administração ... 63
4.2 Prazer e Sofrimento no Trabalho da Docência ... 65
5 METODOLOGIA ... 72
6 RESULTADOS ... 77
6.1 O Sofrimento no Trabalho... 77
6.1.1 Salário ... 78
6.1.2 Variedade de disciplinas / carga horária ... 80
6.1.3 Violência nas relações institucionais e na relação professor-aluno ... 84
6.1.4 Reconhecimento institucional ... 86
6.1.5 Condições de trabalho ... 87
6.1.6 Aspectos pontuais de sofrimento relatados ... 89
6.1.7 Ações para reversão do sofrimento no âmbito acadêmico ... 91
6.2 O Prazer no Trabalho ... 94
6.2.1 Reconhecimento do aluno / relação com o aluno / crescimento profissional do aluno ... 94
6.2.2 Lecionar / orientar o aluno em suas pesquisas ... 95
6.2.3 Carga horária diferenciada e flexível... 96
6.2.4 Orgulho pelo trabalho realizado ... 96
6.2.5 Autonomia em sala de aula e liberdade de usar a criatividade ... 98
6.2.6 Orgulho por fazer parte da instituição ... 98
1 INTRODUÇÃO
A inteligência não consiste em se fixar ao mesmo tempo sobre duas ideias contraditórias, sem por outro lado deixar de funcionar?
Deveríamos, por exemplo, compreender que as coisas são sem esperança e, entretanto, estarmos decididos a mudá-las.
Scott Fitzgerald
Esta pesquisa propõe-se a investigar e analisar o processo de prazer e sofrimento de professores universitários que atuam em duas diferentes instituições de ensino privadas. Baseia-se nos referenciais teóricos da psicodinâmica do trabalho, ou seja, este estudo está sedimentado em pressupostos que inter-relacionam a saúde mental e o trabalho docente. A constante exigência por produtividade associada a um contexto de trabalho mentalmente insalubre tendem a favorecer o desenvolvimento de sentimentos de sofrimento no trabalhador. Porém, de alguma forma, esse mesmo sujeito, muitas vezes, parece encontrar estratégias para defender-se de tal situação, enquanto em outras situações começa a questionar-se, analisando o cenário laboral no qual está inserido e, assim, passa a buscar novas fontes de prazer no trabalho.
Nesse sentido, Dejours (2007a) argumenta que somente se espera mobilização individual e coletiva, necessária para uma mudança estrutural, se o sofrimento e o sentido dele forem acessíveis às testemunhas, e se essas tiverem inteligibilidade da injustiça, da violência e do mal a que estão submetidas. De acordo com o autor, por vezes, o sujeito da ação encontra-se tão ocupado com a exigência do trabalho que não encontra tempo para refletir sobre o encontra-seu próprio destino.
A escolha do tema relaciona-se com a trajetória profissional da pesquisadora como professora em instituições de ensino superior privadas ao longo de sete anos e que se encontrava em um contexto em que pouco refletia sobre sua própria atividade docente, tal como afirma Dejours (2007a) no parágrafo anterior.
Atualmente o professor universitário, em muitos casos, tem que estudar continuamente, participar de congressos, publicar artigos, escrever livros, orientar trabalhos de final de curso, preparar aulas, corrigir exercícios e avaliações. Além de ministrar suas aulas, na maioria das vezes, em regime de 40 horas, o docente trabalha em campi diferentes, leciona várias disciplinas em organizações distintas com suas próprias regras, normas, valores e políticas. Ao mesmo tempo, é cobrado pela organização e por si mesmo para desenvolver sua especialização, mestrado, doutorado. Além disso, tem que administrar sua vida pessoal e, por vezes, com pouco reconhecimento da organização, dos pares, dos estudantes e da família. Esse profissional pode, em função do sofrimento, desenvolver uma patologia.
Nesse contexto, um professor enviou um e-mail à pesquisadora que ilustra, em parte, a realidade vivida por docentes do ensino superior.
Nesses últimos dias, me dei conta de que o tempo passou e está passando cada vez mais rápido. Caiu a ficha de que tenho 35 anos e que os cabelos brancos, as rugas, a flacidez muscular estão aumentando cada dia mais e sem pedir licença. É preciso fazer uma readequação dos meus hábitos, buscando ser menos exigente comigo, sublimando aquilo que me causa dor e sofrimento no cotidiano, readaptando a forma de conduzir o meu trabalho e estudos. Percebi que as coisas devem ser feitas uma de cada vez e de que não adianta abraçar todas as tarefas se sei que não conseguirei responder a elas a contento. Tudo será feito ao seu tempo, perdoando-me por não ter conseguido fazer tudo no tempo planejado, livre das frustrações que só atrapalham. O que importa é fazer bem feito e não às pressas, sobretudo quando não sei fazer de qualquer jeito.
Percebe-se a preocupação desse professor em conduzir de forma satisfatória seu trabalho como docente e o quanto se cobra por isso, o que demonstra sua responsabilidade profissional. Revela-se também sua inquietação diante do tempo. Tempo que parece pouco diante de suas atribuições profissionais, tal como segue:
Chega de deixar a minha saúde em segundo plano, de não ir à academia, deixando de lado os tratamentos que necessito para a coluna, para o estômago e para a minha saúde mental/psicológica. Chega desses problemas plantados pela violência do stress de uma vida desregrada e pela autocobrança a que me submeto constantemente. Quero todos os dias olhar para a beleza da vida. Quero andar nas ruas e ver a cara das pessoas. Quero olhar para as flores do jardim e para o céu. Quero apreciar minhas refeições diárias livre das pressões do tempo. Quero cozinhar mais vezes. Quero poder ler uma revista que acabei de comprar na banca sem precisar esperar o domingo. Quero conversar e trocar ideia com os colegas sem o desespero para entrar em sala de aula. Quero andar mais a pé e poder ir ao trabalho sem ter que ficar horas preso num trânsito infernal. Quero voltar para a terapia, para a plenitude do meu autoconhecimento. Quero libertar-me dessa escravidão cruel e violenta.
refeições e a companhia dos colegas. O que será que o impede de atender a suas aspirações simples e cotidianas? Será que a realidade que o docente em questão vivencia é semelhante ao de outros professores de universidades privadas? Mesmo diante dessa realidade, o que faz o professor comprometer-se com seu ofício? Essas perguntas, entre outras, tentarão ser respondidas nesse estudo.
É chegado o tempo de aproveitar mais a vida e não somente nas férias ou nos finais de semana, mas aproveitar também nos intervalos, no horário do almoço, no caminho para o trabalho e no próprio trabalho sem esquentar com as reclamações infundadas de alguns alunos medíocres. Amo tudo o que faço, mas preciso fazer com que isso seja prazer sem sofrimento. Sei que nem tudo depende de mim, sei que estou longe de melhorar, mas vou tentar... Ah! Isso eu vou!
No trecho final, nota-se que o docente deseja que a realidade seja diferente, não no futuro próximo, mas no presente. Acredita-se que, diante de tantas atribulações, a paciência com os alunos já não é tão grande, o que pode afetar negativamente o desempenho de seu trabalho, uma vez que o relacionamento com eles pode vir a ser prejudicado. O autor do depoimento termina o texto enfatizando o quanto gosta do que faz e o quanto o trabalhar para ele parece estar mais associado com sofrimento do que prazer e que pretende lutar para que a sua situação profissional e pessoal melhore. Porém, apesar de elucidar a vontade de mudança, não fica claro o que será feito de fato, para que tal melhora ocorra.
Muitas análises, interpretações e atitudes podem ser visualizadas quando se permite dar “voz” àqueles que estão diante do real trabalho, no caso em questão, o trabalho em uma universidade.
previsão, controle e êxito, diferentemente de uma instituição social que, para a autora, é uma ação social, uma prática social (CHAUÍ, 2003).
Para Medeiros (2013), por sua vez, as universidades brasileiras enquanto organizações podem ser encontradas em três tipologias: as universidades federais, universidades particulares orientadas para o curto prazo e universidades particulares orientadas para o longo prazo. Cada uma dessas organizações apresenta uma filosofia de gestão: a primeira voltada para a qualidade; a segunda, orientada para o mercado; e a terceira, voltada para a qualidade e para o mercado, respectivamente. Consequentemente a filosofia de gestão de cada organização impactará, provavelmente, no processo de prazer e sofrimento dos sujeitos com ela relacionados, incluindo os professores.
Dessa forma, a gestão tende a transformar, em certa medida, diretores de curso em gerentes; professores em vendedores, preocupados com o processo de fidelização de seus clientes (estudantes); e estudantes em acionistas (MARIZ; NUNES, 2013).
Stallivieri (2007) coloca que de acordo com o Ministério de Educação do Brasil, para efeito de registros estatísticos, as Instituições de Ensino Superior estão classificadas em públicas (federais, estaduais e municipais) ou privadas (comunitárias, confessionais, filantrópicas e particulares). A presente pesquisa foi realizada em duas instituições privadas: confessional e particular, buscando contrastar o processo de prazer e sofrimento do trabalho docente nesses dois ambientes organizacionais distintos. As instituições confessionais são aquelas sem fins lucrativos, uma vez que estão ligadas a uma congregação de ordem religiosa específica (na maioria das vezes católicas) ou ligadas a alguma orientação ideológica que as conduzem. As instituições particulares são instituições com fins lucrativos.
Nesse contexto, busca-se evidenciar a perspectiva teórica da Psicodinâmica do Trabalho, uma teoria crítica do trabalho que busca fomentar a consciência acerca das relações de poder (DEJOURS, 2007a), em que o trabalho pode constituir-se em um espaço tanto de prazer quanto de sofrimento.
Para Dejours (2011a), o trabalho que a Psicodinâmica do Trabalho expressa não é a atividade ou o concreto do trabalho, mas além, é o trabalhar em si, a ação. Tanto assim que Dejours (2011a, p. 161), define trabalho como “(...) a atividade coordenada de homens e mulheres para defrontar-se com o que não poderia ser realizado pela simples execução prescrita de uma tarefa de caráter utilitário com as recompensas estabelecidas pela organização do trabalho”.
Trabalhar é, portanto, preencher a lacuna entre o prescrito e o real, e essa experiência é constitutiva da subjetividade do sujeito, tendo o trabalho uma posição central na constituição (MENDES; DUARTE, 2013). O trabalho prescrito corresponde ao que antecede a execução da tarefa. Um registro que satisfaz uma necessidade de orientação, burocratização e fiscalização. É fonte de reconhecimento e de punição para quem não lhe obedece. Já o trabalho real, é o próprio momento de execução.
De acordo com a Psicodinâmica do Trabalho, o sofrimento no trabalho origina-se do confronto entre o trabalho prescrito e o trabalho real, ou seja, entre as regras e direcionamentos impostos pela organização de um lado e, de outro, os desejos, anseios, e ações desenvolvidas pelos trabalhadores para executar as tarefas (ALVES; MENDES; SIQUEIRA, 2012).
Para a Psicodinâmica do Trabalho, ao enfrentarem o trabalho real, os trabalhadores desenvolvem estratégias defensivas. Constroem e mantêm coletivamente algumas estratégias para se proteger do sofrimento gerado pelos constrangimentos no trabalho, que têm como objetivo principal lhes permitirem continuar a trabalhar. As estratégias defensivas são elaboradas para ou ocultar ou atenuar a percepção do que está envolvido na confrontação com a vulnerabilidade (medo, desgosto, injustiça, vergonha). As regras defensivas individuais e coletivas, estabelecidas para continuar a trabalhar, representam assim compromissos inventados pelos indivíduos para permanecer na normalidade e afastar o risco de doença mental ou somática (GERNET, 2012).
Todas as estratégias de defesa individuais e coletivas têm em comum a produção de uma recusa de percepção daquilo que faz sofrer. Assim, elas têm por princípio o estreitamento, a anestesia da capacidade de pensar com vistas a salvaguardar o equilíbrio psíquico, e o equilíbrio da vida física (DEJOURS, 2011b).
o sofrimento, mas por outro lado, se funcionarem muito bem e as pessoas deixarem de sentir o sofrimento, podem-se prever situações de alienação. Como deixaram de sofrer, as pessoas podem passar a desejar que as coisas não mudem. Uma vez que é sacrificante construir as defesas, as pessoas tendem a conservá-las e a não querer abandoná-las (DEJOURS, 1999). Será que os professores constroem defesas conservando-as para se protegerem do sofrimento alienando-se do próprio processo de trabalho? Se sim, por que isto acontece? Como recuperar a consciência crítica diante da realidade depois dessa captura? Isto é possível? Como fazê-la?
Para tanto, o presente trabalho pretende evidenciar as vivências de prazer e sofrimento de professores universitários de duas instituições de ensino superior privadas, identificando as vivências em seu ambiente de trabalho, para responder à questão de pesquisa: “Quais são as percepções dos docentes sobre os prazeres e sofrimentos do professor do ensino superior privado em duas instituições particulares na cidade de São Paulo?”.
Pesquisas sobre a relação entre condições do trabalho docente e saúde são relativamente recentes no país. A pouca tradição desse tema é responsável pelo fato de haver ainda um conjunto de questões que carecem de aprofundamento teórico e pesquisa. Considerando-se também o fato de que a maior parte dos estudos sobre essa temática é, predominantemente, originária da área das ciências biológicas em detrimento das humanas e sociais, tornam-se evidentes os desafios que continuam colocados para a discussão do tema a partir do ponto de vista sociológico, ou, ainda, da educação.
Para fazer o estudo, realizou-se uma revisão da literatura e utilizou-se o método qualitativo com a realização de entrevistas semiestruturadas individuais em profundidade. Foram entrevistadas três professoras da organização A e três professoras da organização B. Conforme acordado com os participantes da pesquisa, os nomes das organizações pesquisadas serão mantidos em sigilo, assim como os seus nomes. Todas as entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas pelo método de análise de conteúdo proposto por Bardin (1977).
Especificamente, são analisadas as relações entre a organização do trabalho, as vivências, as estratégias de mediação do sofrimento e o processo de saúde-adoecimento. O que se deseja é lançar um olhar sobre as relações de trabalho dos professores e suas consequências, tanto no mundo interno do sujeito como em suas ações no mundo externo. Procurar-se-á desvendar essas relações pelas práticas, como uma lente através da qual o homem atribui sentido às coisas e a si mesmo.
deu-se por conveniência em que a facilidade de acesso aos docentes para a realização das entrevistas foi fator decisivo. Tem como objetivos específicos:
‒ verificar os aspectos relacionados ao prazer e ao sofrimento dos professores do ensino superior privado;
‒ analisar as possíveis convergências e divergências das vivências de prazer e sofrimento dos docentes de duas organizações de trabalho do ensino superior privado;
‒ identificar as estratégias de defesas individuais e coletivas que são utilizadas pelos professores no exercício da docência e, dentre elas, as que poderiam torná-los alienados de seu próprio trabalho;
‒ apontar as ações que contribuem para reversão do sofrimento no âmbito acadêmico.
Para que seja possível discutir a complexidade do campo das IES privadas, bem como as relações do trabalho docente com a saúde mental dos professores universitários, optou-se por desenvolver a organização da pesquisa em sete capítulos que serão brevemente apresentados: 1. Introdução; 2. O mundo do trabalho na contemporaneidade; 3. Da Psicopatologia à Psicodinâmica do Trabalho; 4. Contexto da Educação Superior no Brasil; 5. Metodologia; 6. Resultados; 7. Considerações Finais.
Nesta “Introdução”, buscou-se apresentar uma problematização sobre a temática que será discutida. No capítulo dois, três e quatro, os temas serão contextualizados, estabelecendo então as bases da pesquisa, relacionando os aspectos que podem estar interligados a essa investigação. Está dividida em três seções: o mundo do trabalho na contemporaneidade, as abordagens da psicodinâmica do trabalho, o contexto do trabalho do ensino superior.
O quinto capítulo, “Metodologia”, apresenta o método utilizado para o desenvolvimento dos procedimentos de campo desse trabalho. É nessa parte em que estão descritas todas as etapas da pesquisa.
No sexto capítulo, “Resultados”, são apresentados os dados e as interpretações caracterizando esses processos em relação à literatura acadêmica sobre a temática.
2 O MUNDO DO TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE
O homem, ao contrário de outros seres vivos, recebe, além da herança biológica, uma herança sócio-histórica. Em suas relações sociais, são influenciados pelo meio em que atuam e têm o poder de exercer influências nesse mesmo meio, transformando-o e sendo por ele transformado. Condicionado a uma rede complexa, o homem é, na maioria das vezes, síntese de múltiplas determinações em constante processo de reformulação de sua subjetividade. Esse processo está presente em todas as instâncias da vida, inclusive e, principalmente, no trabalho. O trabalho está presente na vida humana em boa parte do tempo. Quando não se está nele, está se preparando para ele ou descansando-se dele. Em função do trabalho, o homem define o que pode, o que deve fazer ou o que deve deixar de fazer. Em muitos casos, o trabalho de cada um anuncia para a sociedade quem é cada indivíduo. De certa forma, o trabalho condiciona a vida dos homens, pois em alguns casos influencia, direta ou indiretamente, a organizar sua vida pessoal e social. Esse mesmo trabalho na sociedade capitalista está ancorado em contradições e conflitos. No entanto, é uma dimensão fundamental na vida do homem, o que torna o estudo desse e a sua relação com outros aspectos da vida algo constantemente pesquisado.
Nas relações de trabalho atuais, novas dimensões estão e foram sendo traçadas. Faria (2011a) relata que essas dimensões foram proporcionadas, entre outros fatores, pela introdução da tecnologia de base microeletrônica no âmbito das relações de produção. Com a automação sobre o processo de trabalho, transformações no processo produtivo ocorrem e novas qualificações são requeridas do trabalhador, sendo que, ao mesmo tempo, menos empregados são necessários para a realização das tarefas. Além disso, o controle sobre o empregado torna-se mais frequente e, por sua vez, a cobrança por um ritmo maior de produção. Aliado a esses fatores, Faria (2011a) assinala que há um incremento do cansaço físico e mental, pois existem controles, pressões, sofrimento e dor no mundo do trabalho.
Enriquez (2007 apud PABST, 2008, p. 27), argumenta que o poder pode ser apreendido também como algo sagrado provocando respeito e amor. O que caracteriza esse amor é que ele é profundamente repressivo, os sujeitos tornam-se totalmente dependentes do mestre (no caso, a organização) e tentam se tornar semelhantes a ele. Entretanto, esse poder é consentido, isto é, ele só existe porque se consentiu que ele existisse permitido pelos próprios trabalhadores. Por que isso acontece?
Poder-se-iam levantar várias hipóteses, de variadas ordens: sociais, políticas, culturais, econômicas. Apresentam-se a seguir algumas que dialogam com o objetivo do presente trabalho.
Uma primeira hipótese defendida por Dejours (2011b) é que, atualmente, o sujeito visualiza a organização como único possível meio de alcançar o sucesso e reconhecimento e, para se ter acesso a esses últimos, esse sujeito passa a servir a organização de forma voluntária, a buscar o desejo da organização, deixando de lado seus próprios quereres. Às vezes, a IES é direta na sua mensagem: “Ou segue as regras, ou vai embora”. Outras vezes o sujeito é “sutilmente” levado a pedir demissão.
Uma segunda hipótese defendida por Santos, Siqueira e Mendes (2010) seria a estratégia de vincular os sentimentos dos trabalhadores a uma imagem empresarial. Trabalhar em uma das melhores empresas ou em uma universidade de renome é sinal de sucesso. Para Pagès e colaboradores (1987, p. 39), a empresa torna-se um meio para se superar conflitos internos e angústias: “(...) as empresas tiram parte do seu poder do fato de trazerem respostas às contradições psicológicas individuais”. Assim, permite-se que o indivíduo diminua suas angústias e sofrimento, oferecendo a eles uma solução global aos problemas da existência.
Seguindo uma linha parecida com a segunda hipótese, a autora americana, Illouz (2011), defende um conceito interessante nas relações contemporâneas de trabalho, que ela vai chamar de capitalismo afetivo. O mecanismo é perceber como os sentimentos passam a invadir o mercado e os meios empresariais, contrariando assim a ideia de um capitalismo frio e de um controle mais rígido por parte das empresas, cujo método antigo, antes dessa invasão, que ela declara ser por volta do século XX por influência da psicanálise e do feminismo, se dava por um sistema de pressão, um método que envolvia supervisão rigorosa e até ofensivas verbais.
descobriu a “nova galinha dos ovos de ouro”: a valorização dos funcionários como indivíduos, que tende a ser um ótimo investimento.
Além dessas hipóteses levantadas, para se compreender a dominação das organizações sobre o sujeito, talvez valha a pena arriscar e dizer que um dos aspectos preponderantes reside no fato desses mesmos sujeitos acreditarem que a resistência é inútil.
Freitas (2006) coloca que ao mesmo tempo em que a empresa passa a ser um local de sofrimento e de injustiça, devido a demissões e a políticas de recursos humanos ambíguas, passa também a ser aquela que acena com a promessa de identidade, de felicidade e de realização para os que se adaptarem e contribuírem para seu sucesso e “excelência”.
Freitas (2006) evidencia que quanto mais as referências sociais, culturais e religiosas se fragilizam mais a insegurança psicológica eleva-se, e mais claramente os trabalhadores tendem a agarrar-se a mensagens e a líderes que lhes garantam um sentido de vida, no qual possam se reconhecer e acreditar.
Torna-se fundamental buscar inspirações em pessoas e instituições percebidas como “as melhores” para se tornar um membro do clube dos raros, usando um argumento já utilizado por Siqueira (2012) e Freitas (2006) ‒ por meio de uma total identificação, o indivíduo entrega-se docilmente à organização.
Pagès e colaboradores (1987) corroboram essa afirmação ao dizer que com tal atitude os indivíduos sentem-se fazendo parte de uma comunidade: que satisfaz seu desejo de ser hipnotizado e de ser amado pelo pai e pelos membros do grupo; em que se percebe como filho de um herói, que também tem sua própria parcela de heroísmo; em que ela fornece ao indivíduo um modelo a ser seguido, um modelo que deve ser percebido como tendo dado certo. As organizações aproveitam-se, então, nesse momento, para ser esse referencial que os indivíduos procuram, desenvolvendo uma gestão voltada para o afetivo.
Freitas (2006) intervém dizendo que as organizações não são nem neutras ou inocentes, mas como astutas que são aproveitam-se das estruturas psíquicas dos sujeitos e, ainda, os tornam mais frágeis, levando-os a acreditar que ali encontraram as respostas a seus constantes pesadelos.
Com o controle de todas as dimensões do indivíduo, a organização tentará condicionar ao máximo a obediência do sujeito, controlando-o de todas as formas, seja pela força, pelo medo da demissão, pela coerção ou pelo amor. A estratégia a ser utilizada variará de acordo com a gestão da organização.
Nesse contexto, muitas vezes, Siqueira (2009) defende, baseado no pensamento de Enriquez (1991), que o poder aproxima-se do amor.
Para Siqueira (2009), nas relações cotidianas de trabalho das organizações, há duas modalidades de controle do amor: a fascinação e a sedução. Por meio desses dois mecanismos, as organizações conseguem impor de maneira sutil a sua cultura e dominar o inconsciente do indivíduo deixando pouca margem tanto para o pensamento quanto para a postura e ação crítica dentro e fora da empresa. Quanto à fascinação, ela está bem próxima da relação hipnótica e confere ao hipnotizador um domínio quase que completo do indivíduo. Há, segundo Enriquez (1991 apud SIQUEIRA, 2009, p. 83), um conjunto de consequências que caracterizam essa relação: a submissão do indivíduo; o deixar de lado tudo aquilo que não diz respeito ao objeto amado; a ausência de crítica; a alienação e a submissão voluntária. Em suma, a relação hipnótica consiste em abandono amoroso.
O fascínio por determinado objeto pode ser conquistado, de acordo com Enriquez (1991 apud SIQUEIRA, 2009, p. 83), por meio de ritos de grandes comemorações, de grandes festas triunfais, elementos que compõem a cultura organizacional. Ao lado da fascinação, a sedução é outra modalidade do controle pelo amor. Mas, diferentemente daquela, a sedução sai um pouco da vertente do sagrado. Nela, também, não existe nada de fantástico ou fora do comum. Em termos gerais, o sedutor busca, por meio de estratégias bem definidas, ser o detentor dos desejos das outras pessoas.
A sedução torna-se um mecanismo eficaz de poder que sutilmente atrai o indivíduo para um processo que, muitas vezes, o leva à entrega completa ao trabalho.
O amor se mescla a outro sentimento, a fé, tornando-se, pois, indissociáveis no que se refere às relações de poder nas empresas: não apenas ama-se a empresa, mas, também, muitas vezes, acredita-se que ela pode modificar as vidas, auxiliando na realização de objetivos. Isso acontece de tal forma que o sujeito convence-se a colaborar integralmente com a organização aceitando a sua cultura com suas normas, regras e leis, mesmo que essas contrariem suas crenças e valores pessoais, para garantir o seu lugar, invariavelmente invejado e disputado por outros (SIQUEIRA, 2009).
linguagem do poder gerencialista, que manipula, fascina e seduz o indivíduo que, na expectativa do sucesso iminente, deixa-se envolver pelas amarras da organização moderna (SIQUEIRA, 2009; GAULEJAC, 2007).
Diante disso, questiona-se se seria possível considerar uma concepção na qual os empregados de uma empresa sofrem uma opressão tal em que esses são esmagados e fracos demais para enfrentá-la?
Pagès e colaboradores (1987) esclarece que o sistema de poder da sociedade contemporânea isola os indivíduos de forma a impedir boa parte da expressão coletiva de reivindicações e chega assim a enfraquecer consideravelmente seu potencial de luta. No entanto, já é sabido que diversas mudanças ocorrem quando o conjunto de sujeitos mobiliza-se a partir de ações comuns. Sozinhos, não há solidariedade, confiança, valorização, reconhecimento necessário para fortalecimento da identidade dos trabalhadores e consequente mobilização para mudanças estruturais nas condições de trabalho. Assim, inevitavelmente o poder instaura-se permanentemente nas organizações. Nesse cenário, está presente o sofrimento que ataca a capacidade de pensar, de imaginar, de sentir e de agir. De sonhar, inclusive. Nesse compasso, muitas vezes, sem perceber, o sujeito adoece.
Contudo, o trabalho, conforme defende Dejours (1992), nem sempre aparece como uma fonte de doença e infelicidade; ao contrário, ele é, às vezes, operador de saúde e de prazer.
Para Dejours (1982, p. 134), quando a relação com a organização do trabalho é favorável, ao invés de conflituosa, é porque uma das condições descritas a seguir é realizada:
‒ As exigências intelectuais, motoras ou psicossensoriais da tarefa estão, especificamente, de acordo com as necessidades do trabalhador considerado, de tal maneira que o simples exercício da tarefa está na origem de uma descarga e
de um “prazer de funcionar”.
‒ O conteúdo do trabalho é uma fonte de uma satisfação sublimatória: situação que, a bem dizer, é rara em comparação com a maioria das tarefas, encontrada em circunstâncias privilegiadas, onde a concepção do conteúdo, do ritmo de trabalho e do modo operatório é, em parte, deixada ao trabalhador.
os cidadãos, excluindo os nãos aptos (velhos e/ou mal preparados) ou exigindo dos considerados aptos, desempenho cada vez maior em termos de produtividade, dedicação, disponibilidade, abnegação e disciplina.
Faria e Meneghetti (2011b) relatam que a violência no mundo do trabalho nem sempre assume uma forma visível, na medida em que sua prática é disfarçada por uma dissimulação discursiva que encobre a forma tornando-a naturalizada. Os autores consideram a violência uma forma de ação que resulta da opressão e da injustiça ‒ abuso de poder, que se manifesta através da força física, da coação psíquica, moral e normativa, exercidas pelos sujeitos individuais ou coletivos. Ainda, nas relações de trabalho, várias são as possibilidades do aparecimento da violência, pois a organização é um local de mediação de interesses, de socialização dos indivíduos, de formação de identidade, de competição, de prazer e sofrimento, de realizações individuais e coletivas.
No mundo contemporâneo do trabalho, as novas condições de trabalho impostas pelas organizações e pelo desenvolvimento das forças produtivas passam a ser aceitas como naturais por se constituírem em práticas comuns da sociedade. No entanto, é necessário considerar que a violência não é originária da falta de consciência dos trabalhadores. Ao contrário, é a lógica do Sistema de Capital que faz dos indivíduos alienados tanto dos objetos de criação (dos resultados de seus trabalhos), quanto de sua consciência política e psicossocial.
3 DA PSICOPATOLOGIA À PSICODINÂMICA DO TRABALHO
Lá onde crescem os perigos, cresce também a salvação.
Holderlin
De acordo com Alves, Mendes e Siqueira (2012), o adoecimento no trabalho foi objeto de grande preocupação, sobretudo na década de 1950, quando do surgimento da Psicopatologia do Trabalho. Fundada por autores entre os quais se destacam L. Le Guillant, C. Veil e P. Sivadon, a Psicopatologia do Trabalho teve como objetivo entender a relação entre trabalho e doença. Presumia-se que as contingências do trabalho poderiam provocar distúrbios psicopatológicos. Portanto, as pesquisas eram realizadas de maneira a identificar doenças mentais ocasionadas por determinados tipos de trabalho, assim como determinados tipos de agentes físicos causadores de certas doenças.
A Psicodinâmica do Trabalho teve sua origem marcada pela psicopatologia do trabalho. A obra que marcou o surgimento da psicodinâmica foi “Travail: usure mentale ‒ essai de psycopatologie du travail”, publicada na França em 1980, e no Brasil em 1987, com o título “A loucura do trabalho: estudos de psicopatologia do trabalho”, de autoria de Christophe Dejours (MORAES, 2008). O interesse da psicodinâmica naquele momento era estudar a origem do sofrimento e o confronto do trabalhador com a organização do trabalho.
A Psicodinâmica do Trabalho organizou-se em meados dos anos 80 quando Dejours, fundador e propagador dessa disciplina, voltou-se para o estudo da Psicopatologia do Trabalho na França, propondo uma teoria crítica para estudar o trabalho.
Dejours (1992), estudando trabalhadores semiqualificados de indústrias francesas, observou nas situações de trabalho, o predomínio da normalidade sobre a doença. Mesmo em situações em que a organização do trabalho dessas indústrias apresentava um trabalho taylorista-fordista, com condições prejudiciais à saúde psíquica, monótono, repetitivo com rígidos controles, a maioria dos trabalhadores não adoecia. E ainda evidenciou-se o trabalho como um elemento central na promoção do desenvolvimento psíquico e da constituição da identidade. A partir dessas primeiras constatações, a Psicodinâmica do Trabalho deixou de enfocar prioritariamente o adoecimento psíquico como objeto de suas investigações e passa a se preocupar com o campo da normalidade psíquica e com as relações sofrimento/prazer no trabalho (LANCMAN; SZNELWAR, 2011).
tornara-se demasiadamente estreita para responder às novas questões no ambiente laboral e, dessa forma tornou-se imperativo uma perspectiva mais ampla: a Psicodinâmica do Trabalho. Lancman e Sznelwar (2011) enfatizam que Dejours, ao propor a denominação de Psicodinâmica do Trabalho, incorpora novos conceitos à sua trajetória e novo alento. Afinal, poderia haver prazer no trabalho.
O prazer no trabalho permite considerar que ele não é uma desgraça socialmente determinada, mas, pode, de fato, ser um edificador das identidades individuais e coletivas. Ou seja, as pesquisas em Psicodinâmica do Trabalho têm buscado compreender por que e como o mesmo trabalho, em função de sua organização, pode inscrever-se em uma dinâmica de destruição ao contrário de construção da saúde. Focaliza-se, a partir desse momento, não mais as doenças mentais, mas o sofrimento e as defesas contra esse sofrimento.
A pergunta que passou a guiar as pesquisas do médico francês a partir da constatação de que o ambiente de trabalho não gera apenas sofrimentos e doenças foi a seguinte: Como era possível que a maioria daqueles trabalhadores se mantivesse saudável, apesar de condições de trabalho tão desfavoráveis? Por que os trabalhadores não enlouquecem apesar das pressões que enfrentam no trabalho?
Dejours (1999) coloca que a normalidade é interpretada como o resultado de uma composição entre a luta (individual e coletiva) e sofrimento no trabalho. Para o autor, a normalidade não significa ausência de sofrimento. Pelo contrário, essa normalidade é alcançada na constante luta contra a desestabilização psíquica provocada pelas pressões do trabalho.
A contribuição de Dejours (1999) é a revelação de que os trabalhadores, em condições adversas, desenvolvem estratégias para suportar o sofrimento, tornando-se aceitável aquilo que por vezes não deveria sê-lo. Não necessariamente o trabalhador poderia ser considerável saudável, mas um sujeito capaz de alcançar condições mínimas para um não adoecimento, permitindo continuar executando seu ofício no trabalho.
fonte de prazer. Desse modo, esses trabalhadores garantem sua sobrevivência física, psicológica e social. Esses ajustes são necessários uma vez que o trabalho real desempenhado pelos funcionários apresenta-se, muitas vezes, diferente daquele prescrito pela hierarquia. A dinâmica do trabalho prescrito e o trabalho real serão explanados na seção seguinte.
3.1 A Dinâmica do Trabalho Prescrito e o Real
O hiato entre o trabalho prescrito e o real revela-se a partir da análise psicodinâmica do ambiental laboral, conforme argumentou Dejours (2011c). O trabalho prescrito corresponde ao que antecede a execução da tarefa. Trata-se do registro que necessita de uma necessidade de orientação, burocratização e fiscalização. É fonte de reconhecimento e de punição para quem não lhe obedece. Já o trabalho real , é o próprio momento de execução, a tarefa realizada efetivamente.
(...) que a organização do trabalho não é absolutamente absorvida pelos assalariados (...); todos os preceitos são reinterpretados e reconstruídos: a organização real do trabalho não é a organização prescrita. Não o é jamais: é impossível prever tudo e ter o domínio sobre tudo [antecipadamente ao trabalho]. Mas a distância entre a organização prescrita e a real não tem sempre a mesma sorte: ora é tolerante, e oferece margens à liberdade criadora; ora é restrita, e os assalariados receiam ser surpreendidos cometendo erros. O mais comum é que seja simultaneamente uma e outra; tolerante ali onde o ganho é visível, restrita lá, quando se a observa como capaz de regular a desobediência e a fraude (DEJOURS, 2011c, p. 74-75).
Além da lacuna entre o trabalho prescrito e real, a organização do trabalho em si é repleta de contradições. Com o passar do tempo, leis, regulamentações, normas, formam um corpo de tamanha complexidade que se torna de conciliação extremamente difícil entre si. Chega ao limite de tornar impossível a execução do trabalho, caso o conjunto de regras e normas venha a ser cumprido. As regras e normas concebidas para organizar o trabalho levam, às vezes, à desorganização (DEJOURS, 2011c).
Diante dessa constatação, Dejours (2011c, p. 78) propôs uma nova definição para trabalho: “(...) a atividade coordenada de homens e mulheres para defrontar-se com o que não poderia ser realizado pela simples execução prescrita de uma tarefa de caráter utilitário com as recompensas estabelecidas pela organização do trabalho”.
e o real, e essa experiência é constitutiva da subjetividade do sujeito. Em outras palavras, praticamente tudo aquilo que se prevê no trabalho real pode acontecer de modo contraditório.
Portanto, o trabalho para a Psicodinâmica do Trabalho, revela-se pela experiência do real, no mundo das práticas, isto é, uma conjuntura em que se apresenta, essencialmente, sob a forma da experiência do fracasso. Do fracasso de seguir as ordens prescritas, que dificilmente poderiam findar na conclusão do trabalho se seguidas à risca. Regras feitas por quem provavelmente não conhece o dia-a-dia do trabalhar e seus imprevistos. Portanto, se trabalhar é fazer a experiência do real, isso implica, necessariamente, uma experiência afetiva penosa que não é senão a experiência do fracasso (DEJOURS, 2007b).
Trabalhar é o resultado do trabalho prescrito menos o trabalho real da organização. É, antes de tudo, fazer a experiência e o enfrentamento do real. O real é o que se revela àquele que trabalha por sua resistência ao domínio da atividade; é um modo operatório convenientemente assimilado e elaborado mas que não funciona adequadamente, colocando os sujeitos diante do inesperado, e não apenas a aplicar as regras. Pois o trabalho sempre provoca imprevistos, anormalidades, panes, que colocam em xeque as previsões e as predições. Entre o trabalho prescrito e a atividade real do trabalho existe uma distância muitas vezes intransponível (DEJOURS, 2007b).
De acordo com a Psicodinâmica do Trabalho, o sofrimento no trabalho origina-se exatamente desse confronto entre o trabalho prescrito e o trabalho real, entre as regras e direcionamentos impostos pela organização do trabalho de um lado e, de outro, as ações desenvolvidas pelos trabalhadores para executar as tarefas.
Quando o sujeito se mobiliza subjetivamente para o trabalho, surge um sofrimento denominado criativo. Esse sofrimento move o trabalhador a buscar soluções para as dificuldades, vivenciando gratificação e prazer quando consegue encontrá-las. Assim, a mobilização subjetiva é vivenciar sofrimento criativo e prazer no trabalho (MENDES; DUARTE, 2013).
Quando o sujeito não se mobiliza, mas paralisa-se frente ao real, envolvendo angústia, medo e insegurança, a experiência do sofrimento criativo transforma-se em sofrimento patogênico. É um sofrimento que, se não ressignificado, mantém o trabalhador insatisfeito, paralisado, sem ação sobre o real do trabalho.
Como e a que preço é realizado o ajuste entre a organização do trabalho prescrito e a organização do trabalho real?
menos sofrível, a organização do trabalho precisaria reconhecer que a organização prescrita do trabalho é insuficiente ou que apresenta falhas. Em outros termos, é preciso que a hierarquia reconheça o real existente em seu próprio trabalho, ou seja, é preciso que a hierarquia reconheça que há situações que resistem ao controle e ao seu conhecimento (DEJOURS, 1999).
Nessa direção, Seligmann-Silva (1994) escreveu que o desafio que a Psicodinâmica do Trabalho se dispõe a atender é o de superar a atual distância entre a organização prescrita e a organização real do trabalho, levando em conta todos os perigos que tal distância atualmente representa para a saúde, a segurança e a qualidade do que é produzido.
Há obrigatoriamente, conforme Dejours (2011c), todo um processo de interpretação pelos sujeitos-trabalhadores depois de recebidas as incumbências de uma tarefa, com uma infinidade de interpretações possíveis e, por conseguinte, conflito, na maioria das vezes, entre as diferentes interpretações dos agentes.
Ainda nessa perspectiva, o trabalho é a criação do novo, do inédito. Ajustar a organização prescrita do trabalho exige a disponibilidade da iniciativa, da inventividade, da criatividade e de formas de inteligência específicas, próximas daquilo que o senso comum classifica como engenhosidade (DEJOURS, 2011c).
Além disso, Dejours (2007a) argumenta que se todos os trabalhadores de uma empresa se esforçassem para cumprir à risca todas as instruções que lhes são dadas por seus superiores, não haveria produção. Na maioria das vezes, uma organização só funciona quando os sujeitos, por própria iniciativa, usam artimanhas, macetes, quebra-galhos, truques. Quando esses sujeitos se antecipam, sem que ninguém lhes tenha solicitado, quando se ajudam mutuamente, a produção conclui-se. Colocando de outro modo, o processo de trabalho tende a funcionar quando os trabalhadores beneficiam a organização do trabalho com a mobilização de suas inteligências, individual e coletivamente.
Entretanto, o autor esclarece que o exercício dessa inteligência no trabalho, geralmente, só é possível à margem dos procedimentos, isto é, cometendo infrações dos regulamentos e das ordens.
em caso de incidentes ou acidentes, envolveriam a responsabilidade dos operadores e de seus chefes diretos.
O grande problema que se coloca diante do quebra-galho é o seguinte: para que aconteça são necessárias relações de confiança entre os operadores e os executivos (DEJOURS, 1994a). Estes últimos deveriam permitir que o quebra-galho fosse não somente tolerado, mas, pelo menos, tacitamente reconhecido. O autor coloca aí um impasse: qual pode ser o estatuto ético desse reconhecimento, uma vez que se trata de um quebra-galho? O que pode acontecer é que esse quebra-galho não venha mais a ser acobertado ou que seja francamente denunciado ou mesmo combatido pelos executivos e o prazer no trabalho desaparecerá, dando lugar às ameaças e sanções.
Aquilo que representava até então a parte que fazia o trabalho acontecer e implicava uma responsabilidade técnica e humana real dos trabalhadores, transforma-se então em matéria geradora de conflitos, passa a desestruturar as relações de cooperação e a suscitar, eventualmente, a desconfiança. Os operários desconfiam então de seu chefe e até mesmo dos outros operários. As relações entre trabalhadores tornam-se tensas e, às vezes, degeneram. Ainda que não seja de bom grado para o trabalhador, é necessário quebrar um galho, pelo menos um mínimo para que se possa terminar a realização de uma tarefa (DEJOURS, 1994a). A contrapartida frente a tais alterações é a tática do segredo que deriva para uma tática do silêncio generalizado, conduta mais ou menos obrigatória que parece extremamente penosa e psiquicamente custosa para os operadores (DEJOURS, 1994a).
O prazer do uso da inteligência astuciosa na prática do quebra-galho não pode mais ser compartilhado. A cooperação e a solidariedade desaparecem. A convivência nas relações cotidianas desloca-se e, enfim, também desaparece. Os operários não fazem mais festas nem almoços ou confraternizações. Eles não partilham mais das refeições cotidianas em conjunto. Eles não se falam mais. Eles chegam a não mais se cumprimentar. É essencial destacar aqui que o desaparecimento do convívio cotidiano inicia-se com a crise de cooperação e da relação psíquica com o trabalho. Nesse contexto de trabalho, pode ter lugar, frequentemente, o sofrimento no trabalho (DEJOURS, 1994a).
Seligmann-Silva (1994) faz referência a um texto de Dejours (1994, p. 15) no qual ele conceitua o sofrimento da seguinte forma:
torná-la mais congruente com seu desejo. Logo que esta negociação é conduzida a seu limite, e que a relação homem-organização do trabalho fica bloqueada, começa o domínio do sofrimento, e da luta contra o sofrimento.
O modo como essa luta contra o sofrimento se faz a um só tempo, coletiva e individualmente, conduzindo ao ocultamento, ou à identificação do sofrimento, sob a forma de patologia, ou ao enfrentamento efetivo de dinâmicas causais enraizadas nas situações de trabalho tem sido a abordagem central nos estudos de Dejours.
Como a organização do trabalho tende a não se adequar à organização do trabalho vivo, real, os sujeitos-trabalhadores são obrigados a fazer uso de estratégias de defesas coletivas e individuais e de mobilização subjetiva, tema que será tratado na seção subsequente. Essas passam a serem as únicas alternativas possíveis de sobrevivência nas empresas.
3.2 Estratégias Defensivas
Se o sofrimento não é sempre seguido de uma descompensação, é porque o sujeito desenvolve defesas suficientemente eficazes contra o sofrimento.
Christophe Dejours
As estratégias defensivas são elaboradas para ocultar ou atenuar a percepção do que está envolvido na confrontação com a vulnerabilidade (medo, desgosto, injustiça, vergonha). As regras defensivas individuais e coletivas estabelecidas para continuar a trabalhar representam compromissos inventados pelos indivíduos para permanecer na normalidade e afastar o risco de doença mental ou somática (GERNET, 2012).
Todas as estratégias de defesa individuais e coletivas têm em comum a produção de uma recusa de percepção daquilo que faz sofrer. Assim, elas têm por princípio o estreitamento, a anestesia da capacidade de pensar com vistas a salvaguardar o equilíbrio psíquico e o equilíbrio da vida física também. Essas defesas tornam as pessoas ainda mais incapazes de pensar a transformação e reunir as condições necessárias de ação e de desconstrução das estratégias de defesa (DEJOURS, 2011b).
pessoas deixarem de sentir o sofrimento, podem-se prever situações de alienação. Porque deixaram de sofrer, as pessoas podem passar a desejar que as coisas nunca mudem. Uma vez que é difícil construir as defesas, as pessoas tendem a conservá-las, a não querer abandoná-las (DEJOURS, 1999).
Estudos em Psicodinâmica do Trabalho (DEJOURS, 2011b, 2008; DEJOURS; BÈGUE, 2010; MENDES; LIMA; FACAS, 2007; MENDES; MORRONE, 2012) têm apontado o uso de diferentes mediações por parte dos trabalhadores para lidar com o sofrimento no trabalho. O sofrimento tanto pode ser patogênico, quando o sujeito não consegue ressignificá-lo, ou pode ser criativo, quando mobiliza o sujeito a ampliar sua inteligência prática, a criar novas soluções e a se descobrir mais competente e mais capaz, solucionando as dificuldades, processo que se completa quando recebe o reconhecimento por sua perícia e habilidade (MORAES, 2013a).
Diferentemente, o prazer pode ser experimentado no trabalho se houver retribuição às expectativas e desejos do trabalhador, ou seja, as vivências de prazer estão relacionadas ao reconhecimento e à realização pessoal (DEJOURS, 2007b; ALVES; MENDES; SIQUEIRA, 2012).
Segundo Moraes (2013a), as estratégias defensivas são recursos construídos pelos trabalhadores, de forma individual e coletiva, para minimizar a percepção do sofrimento no trabalho, funcionando a partir da recusa da percepção daquilo que faz sofrer.
Autores como Gernet (2012) e Moraes (2008) asseveram que o marco teórico da Psicodinâmica do Trabalho, diferenciando-a definitivamente da psicopatologia do trabalho, foi a descoberta do uso de estratégias defensivas individuais e coletivas pelos trabalhadores, com o objetivo de salvaguardar a normalidade sobre a doença mental em contextos de trabalhos marcados por adversidades, evitando a descompensação (mental ou somática).
Caracteriza-se, complementa Moraes (2013a), como uma conquista, de caráter parcial, processual e dinâmica.
As estratégias defensivas coletivas parecem ser mais eficazes, pois tendem a ser construídas de acordo com o contexto ‒ o ambiente de trabalho ‒, de forma a se adequar e enfrentar aquele sofrimento coletivo de trabalho. No entanto, essas estratégias dependem do consenso do grupo para funcionarem como uma regra de conduta.
A flexibilidade do capital tem levado à precarização e a um sofrimento ético marcado pela banalização das injustiças, ocasionando o surgimento de patologias sociais. Diante de tal contexto, o sofrimento se apresenta como uma reação, uma manifestação da resistência e da insistência em viver em um ambiente precário, funcionando, assim, como um mobilizador para uma luta contra as patologias sociais.
Entretanto, os trabalhadores tendem a não ficarem sempre passivos diante do sofrimento, há uma pró-atividade, há um movimento defensivo, que são as estratégias defensivas.
Como o objetivo geral dessa dissertação é verificar e analisar as vivências de prazer e sofrimento no trabalho de docentes do ensino superior privado, atenção especial deve ser dada às variadas formas de expressão do sofrimento na organização do trabalho. Tendo em vista tal fato, houve um esforço na sistematização das estratégias de defesa na literatura consultada.
Dejours (1994a, p. 91-92) relata estratégias de defesa contra o sofrimento, tais como,
‒ O primeiro procedimento defensivo consiste em se desvencilhar das responsabilidades, a fazer greve do zelo, a não mais tomar iniciativas, a sistematicamente se cercar de proteção em caso de dificuldades, a remeter sempre para os escalões superiores e a se ater estritamente a execução.
‒ Uma atitude de fechamento em uma autonomia máxima, de segredo, silêncio. Ideologia de cada um por si.
‒ Indo mais longe, esta orientação do tipo cada um para si e da tática do segredo conduz, às vezes, à desconfiança generalizada.
‒ Não respeito à hierarquia. Passar por cima de seu superior, não se dirigindo a ele, mas passando diretamente ao nível superior.
‒ Enfrentamento do sofrimento no silêncio e só verbalizaçao no consultório médico.
‒ Recusa em cumprimentar os colegas. Acontece que para evitar o sofrimento, evita-se não só o conflito, mas tudo aquilo que representa uma ocasião para que o conflito aconteça (...) então não se conversa mais, não se cumprimenta mais, não se toma mais refeições juntos.
‒ Denúncia de outros grupos, os outros coletivos, as outras equipes como incompetentes, até mesmo como inimigos jurados.
ativismo mesmo, no trabalho, que “aliás” vem acompanhado de um verdadeiro presenteísmo. Engaja-se na ação, tanto mais intenso quanto mais ele permitir, ao final, não pensar mais, não refletir mais e mesmo não mais perceber o sofrimento. A força de trabalhar mais rápido, de aumentar o número de horas de trabalho, de aceitar qualquer posto de trabalho possível, etc., a fadiga os vence. É assim que alguns lutam contra a tensão e o sofrimento no trabalho. Em contrapartida, esses agentes não estão de forma alguma disponíveis para a discussão durante a parada do setor. Mais eles agem, menos eles discutem, de maneira que o ativismo defensivo se transforma em um freio à discussão e à negociação das condições e da organização do trabalho. Completado o período de parada de setor, eles aspiram principalmente ao repouso e à tranquilidade, eles evitam as responsabilidades e os conflitos, eles se fecham ao máximo sobre suas esferas privadas. Enquanto que, em parada de setor, eles estavam hiperdisponíveis e hiperativos, fora de parada de setor parecem se desengajar radicalmente. Isso contribui, certamente, para fazer aparecer, de forma caricatural nesses agentes, uma espécie de ruptura espetacular de comportamento, de atitude e de conduta, entre os períodos de parada de setor e fora de parada de setor. Eles parecem mesmo dar a impressão de ter uma dupla personalidade.
Percebe-se, pois, que Dejours (1994) coloca que as defesas vão se apresentando aos poucos pelos sujeitos-trabalhadores, apresentando-se inicialmente na falta de zelo, de iniciativa até se chegar a um isolamento.
Em outra obra, Dejours (1999) expõe outras formas de defesas: os segredos internos ao coletivo de trabalho, de mentir e dissimular, do segredo guardado individualmente ou ainda a desesperança de ser reconhecido. O trabalhador defende-se através do descomprometimento e da desmobilização, voltando-se individualmente para a esfera privada. Mendes e Duarte (2013) destacam como exemplos de estratégias defensivas a aceleração, o individualismo, a banalização, o cinismo, a dissimulação, a hiperatividade, a desesperança de ser reconhecido, o desprezo, a negação do risco inerente ao trabalho e a distorção da comunicação.
Mendes e Morrone (2012) apresentam alguns exemplos tais como: a negação da precarização das condições de trabalho, a banalização da violência, aceitação do assédio moral, a passividade. As autoras revelam que, ao mapear as estratégias de defesa mais comumente utilizadas pelos trabalhadores, pesquisadores apontam as de negação da realidade, aceleração, uso de “brincadeiras” durante a realização da atividade, chegada antes do horário, opção por sair ou seguir os scripts, criação de expressões verbais, apoio no coletivo de trabalho para evitar erros, distanciamento do cliente/usuário, individualismo e passividade.