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Memória guardada em papéis e livros

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Academic year: 2018

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M e m ó r i a G u a r d a d a e m P a p é i s e L i v r o s

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Giselle Martins Venânci Universidade Estadual do catá

I ESUMO:

presente texto pretende investigar a organização e preservação do arquivo e biblioteca pessoal de Francisco José de Oliveira Vianna. Buscando inspiração nos estudos realizados nos campos da biografia, da história dos intelectuais, dos arquivos privados, das bibliotecas e das correspondências, propõe-se investigar a construção memorialística positiva que os amigos de Oliveira Vianna tentaram empreender, após a sua morte, com o objetivo de regenerar a imagem de decadência intelectual que havia marcado seus últimos anos de vida. O texto objetiva ainda analisar a importância e a função dos arquivos e bibliotecas pessoais como fontes privilegiadas da escrita histórica.

PALAVRAS-CHAVE:

Oliveira Viana, Bibliotecas Privadas, Arquivos Privados

ABSTRACT:

This anicJe intends to investigate the Brazilian intellectual Francisco José de Oliveira Vianna's personal file and library's organizarion. Seeking inspiration ar the biography, intellecrual history, privare files, libraries and letter study fields, it proposes to investigare the positive memorialist construction which Oliveira Vianna's friends tried to underrake, after his death, trying to regenerate him from the intellectual decadency image that had followed him through bis last years. The articJe tries as well to analyze the importance of personal files and libraries as privileged information source for the historical research. KEYWORDS

Oliveira Viana, Private Libraries, Privare Files

No dia 28 de março de 1951, morria Francisco José de Oliveira Vianna, em Niterói, cidade onde viveu a maior parte da vida. Tratava-se de um dos mais reconhecidos intelectuais brasileiros da Primeira República, que tinha exercido uma função-chave no primeiro período do governo Vargas e um dos pioneiros dos estudos sociológicos brasileiros. Vianna havia conhecido em vida o sucesso intelectual porém, nos momentos derradeiros, havia sido alvo de constantes críticas.

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Oliveira Vianna nasceu em Saquarema, em 1883. Sexto filho de uma familia de proprietários de terras, publicou, aos 37 anos, o primeiro livro, concluído dois anos antes:

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P o p u l a ç õ e s M e r i d i o n a i s n o B r a s i i , que acabou por tornar-se um clássico do que se pode considerar pensamento social brasileiro. Sua trajetória, até esse momento, incluía a formação em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1905, e a docência de Direito Judiciário e Penal e de Direito Industrial, desde 1916, na Faculdade de Direito de iterói. Mais tarde, Oliveira Vianna viria a ocupar, ainda, diversos cargos na burocracia estatal, tais como diretor do Instituto de Fomento Agrícola, em 1926, Conselheiro do Interventor Ari Parreiras, em 1930, Consultor Jurídico do Ministério do Trabalho, de 1932 a 1940, e Ministro do Tribunal de Contas da União, de 1940 a 1951. Além disso, participou da Comissão Revisara das leis da Justiça do Trabalho, em 1939.

Solteiro, sem filhos, Vianna morria sem deixar herdeiros e legava, aos amigos, tudo que acumulou ao longo da vida: livros, periódicos, jornais, cartas, rascunhos e anotações. Seu arquivo privado pessoal e sua biblioteca compunham o maior dos bens que seriam transmitidos, senão aos herdeiros diretos, ao menos, aos sucessores intelectuais.

A morte de Vianna desencadeou, nos amigos, o desejo de lutar incessantemente para forjar uma memória mais "positiva" de seu percurso e qualidades intelectuais, com vistas a manter presente sua produção no espaço intelectual brasileiro. Nas " b a t a l h a s d a m e m ó r i a ' , l os amigos de Vianna assumiram, de certa forma, a tarefa de elaborar objetivamente uma representação que destacasse os serviços prestados por ele ao país, durante sua atuação nos órgãos estatais, assim como seu mérito intelectual. a visão dos herdeiros intelectuais/ a primeira medida necessária para fazer com que todos reconhecessem o justo lugar de Vianna no campo da produção intelectual no Brasil, e evitar o seu esquecimento definitivo, era preservar o espaço onde ele havia vivido a maior parte da vida: a casa da alameda São Boaventura, 41, no Fonseca, Niterói.

Assim, imediatamente após a sua morte, iniciou-se o processo para transformar esse espaço em fundação, mantida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de garantir a preservação de sua memória.

A casa testemunhava a existência de Vianna e legava, às futuras gerações, uma organização objetiva de seu passado e a imagem que ele havia

[nb r icad o de si mesmo, através da conservação de papéis e livros. Fr qüentemente, as imagens dos indivíduos são forjadas a partir de construções póstumas. No caso de intelectuais como Vianna, são comuns os discursos no

1110111 .nt do enterro, as biografias, reedições de sua obra e os eventos que

servem para marcar, de alguma forma, a "despedida". São essas homenagens que "recriam a pessoa no templo da memória".

Com relação a Vianna, a construção da memória, embora acentuada no momento da morte, teve início muitos anos antes, no instante em que ele próprio decidiu organizar a vida em papéis, "induzindo a elaboração de sua posteridade";' Ao organizar seu arquivo pessoal, Oliveira Vianna ordenou os acontecimentos que balizaram sua vida, estabeleceu coerências, construiu c ntinuidades e linearidades em sua trajetória, em suma, almejou deixar definido seu lugar social, suas relações com os pares e uma espécie de esboço da própria biografia. Na gestão e organização de um "sem número de contradições etensões"," Vianna elaborou sua versão, mas silenciou, evidentemente, sobre diversos aspectos. Nessa escrita fragmentária, deixou inscrito o seu caráter modelar de homem público e a grandeza de sua produção intelectual. Nenhuma linha mais explícita sobre a vida pessoal. Nenhuma carta de amor, nenhum poema, esparsas referências à vida familiar. Os documentos explicitam, entre registros e lacunas, lembranças e esquecimentos, o dizível e o indizível, o memorável e o imemorial. Mostra-se homem público e intelectual, oculta-se a dimensão privada de sua vida. Analisar essa escrita exige a observação

uidadosa de sua especificidáde.

ARQUIVOS PRIVADOS PESSOAIS: PROCESSOS DE CONSTRUÇÃO E MODOS DE INn:RROGAÇ,\O

Os arquivos privados pessoais podem, como quaisquer outros, ser onsiderados "evidências das transações da vida humana"." No entanto, possuem características específicas que os tornam também bastante singulares como fonte para os estudos históricos. Qualquer arquivo é classificado, fundamentalmente, pela origem dos documentos, ou seja, pelo processo de a umulação. Por esse motivo, melhor seria defini-Io de duas formas gerais: .orno arquivo de proveniência pública, cujos documentos remetem-se a Instâncias do Estado, ou arquivo de proveniência privada, acumulados por pessoas físicas ou jurídicas sem relação direta com órgãos estatais. Segundo

;arcia, "a noção de documento público aparece cada vez mais associada à d mandato, e quem detém uma parcela da autoridade pública produz documentos públicos". Mas, muitas vezes, um arquivo, de origem privada, pcde mudar de natureza, se alteradas as relações entre a entidade produtora (' o Estado."

Éimportante destacar o fato de que arquivos privados de homens públicos - como é o caso do conjunto documental organizado por e sobre

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Oliveira Vianna -, apresentam, freqüentemente, problemas para a classificação de seus documentos. Nem todos os documentos do acervo são de caráter privado, pois muitos deles são relacionados às funções públicas desempenhadas pelo titular, ao longo de sua vida. Esse é um problema bastante comum, nesse tipo de coleção de documentos, como chama atenção Heymann, ao analisar o arquivo privado de Filinto Mulier:

o

limite que separa os documentos públicos daqueles de caráter privado, em se tratando de titulares que atuaram como homens públicos, é bastante tênue e objeto de constantes reflexões. (...) é possível encontrar documentação que deveria integrar fundos de arquivos públicos, mas que foi "privatizada" pelos agentes que estiveram à freme de cargos por um determinado período, passando a integrar sua documentação pessoal, demonstrando nessa mélange de esferas e confusões, imbricações e impropriedades que caracterizam as relações entre público e privado nesse domínio.'

Entre os arquivos privados, pode-se identificar ainda um tipo específico: os arquivos privados pessoais, que se definem, principalmente, pelo fato de todos os documentos do acervo possuírem, como marca identitária, relação direta com o nome próprio do titular. No arquivo pessoal, o nome do titular cria a identidade fundamental do acervo constituído; é a partir dele que se organiza a série de documentos acumulados.

O risco que se pode correr ao se trabalhar com arquivos privados pessoais é o de se acreditar que eles traduzem a visão mais verdadeira do indivíduo, à medida que foram organizados pelos próprios titulares. Cria-se a falsa noção de que identifica os conjuntos documentais de origem pessoal à manifestação concreta e objetiva da memória individual dos titulares.

Pode-se sugerir que a pesquisa que tem como objeto arquivos privados pessoais deve, primeiramente, identificar o processo de construção desses acervos documentais, atentando-se para a idéia de que eles podem e devem ser lidos, assim como qualquer outro texto ou documento, como uma escrita, e que, por esse motivo, "não podem nunca anular-se como texto, ou seja, como um sistema construído consoante categorias, esquemas de percepção e apreciação, regras de funcionamento, que remetem para as suas próprias c ndições de produção"."

O arquivo torna-se, pois, o próprio objeto de investigação. Busca-se c mpreendê-lo descobrindo, em sua trama, a função dos documentos, sua forma e seus destinatários. A homogeneidade do acervo, relacionada à existência de único titular, é quebrada quando se consideram e se investigam as características específicas de cada documento arquivado. Interrogar um

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arquivo pessoal significa compreender a escolha e a classificação dos documentos guardados, historicizando cada

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c o r p u s de texto. Como acentua Bourdieu, é necessário que se faça uma crítica do estatuto social dos documentos, interrogando-se sobre seus usos e destinos."

O arquivo pessoal é sempre organizado para enunciar e criar um pensamento, uma reflexão, uma história. Ao longo da vida, muitos registros acumulados por um indivíduo são descartados e o resultado dessa ação é que s: conserva apenas uma parte desses vestígios. Através de uma triagem diária, sao arrumados, desarrumados, classificados os papéis, pondo-se em ordem a deso:dem cotidiana. Ao arquivar, o colecionador, de certa forma, manipula a existencia: omite, Ignora ou dá destaque a certas passagens. A escolha e o registro de determinados acontecimentos, pensamentos e reflexões, dete~mlOam. o sentido que o colecionador busca dar ao arquivo. Como anota ~rtleres, muitas vezes, "arquivar a própria vida é por-se no espelho, é contrapor a Imag~m SOCIal~ ~magem íntima de si próprio, e nesse sentido o arquivamento do eu e uma pratica de construção de si mesmo e de resistência"."

O arquivo privado pessoal permite vislumbrar uma "vontade de guar,dar",11 de tornar público o privado, de exibir a exemplaridade da própria história. ASSIm, a organização de um arquivo pessoal acentua a individualidade do titular, redefinindo seu lugar particular na pluralidade dos acontecimentos históricos.

.. Nesse contexto, destacam-se os arquivos privados pessoais como

= :

pnvIleglado de análise histórica, pois registram uma forma de acumulação ~nvada ~ue poSSUl~como marca identitária específica, o nome próprio do titular. Sao revalonzados não porque representam o conhecimento "mais verdadeiro", mas sim porque asseguram a possibilidade de mudanças de foco, .\ partrr d: redução do campo de observação e da compreensão de Ç()??guraçoes mtelectuais múltiplas que exibem uma memória específica. A analise desse tipo de fonte permite a compreensão das relações estabelecidas entre aos.representações subjetivas do titular do arquivo e a memória que se vonstroi sobre ele. A exploração de arquivos pessoais pode, dessa forma, roruribuir para o trabalho do historiador, revelando dimensões do "vivido"

II(ultas em outros tipos de análises históricas. '

11'.MÓRIA E AUTO-REPRESE TAÇÃO A BIBLIOTECA E ARQUIVO PESSOAL

O arquivo de Oliveira Vianna guarda a "leitura" e a "escrita" de si

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de Oliveira Vianna que pode ser decodificada pelo trabalho interpretativo de seus documentos. Pomian observa que, ao contrário dos monumentos que remetem ao passado, em simples olhar, os arquivos e documentos precisam ser decifrados e criticados. Segundo ele, o arquivo é uma memória objetiva, porém virtual. É a leitura histórica que o reatualiza, ressignificando-o e tornando-o suporte da memória.F

O arquivo privado pessoal de Vianna constitui, assim, uma memória a ser decifrada que pode, à medida que é explorado e analisado, informar aspectos até então ignorados sobre ele e suas relações sociais. Ao desenredar-se a trama do arquivo, pode-desenredar-se conhecer parte da trajetória intelectual de Francisco José de Oliveira Vianna, levando-se em conta a sua escrita autobiográfica, inscrita nos suportes materiais que compõem o acervo, bem como a "fabricação" de uma memória postumamente elaborada pelos herdeiros intelectuais.

Nesse sentido, na trama do arquivo, destaca-se, do conjunto dos acontecimentos, a trajetória de um indivíduo singular e, mais particularmente, seu processo de formação, autopercepção e designação como inrelectual'". O processo de conservação do acervo de Vianna tem início com a escolha do local que sediaria os documentos: a própria casa onde Vianna viveu desde que chegou a Niterói com a família. A Casa da Alameda São Boaventura, n. 41, no Fonseca, em Niterói, teve tanta importância na vida de Oliveira Vianna que, apesar de muitas vezes os prefácios de seus livros não comportarem a data da publicação ou da redação da obra, neles freqüentemente estava presente a inscrição: "Estado do Rio. Alameda São Boaventura, 41. Fonseca".

Desde que sua família chegou a Niterói, em 1897, passou a morar nesse endereço e, na biblioteca que mandou construir, ele estudou, leu e escreveu durante toda a vida. A biblioteca era seu lugar preferido, seu espaço privado e privativo." Era o principal lugar de leitura de Oliveira Vianna e, ao mesmo tempo, seu refúgio e seu lugar de comunicação com o mundo. Nessa biblioteca ele conhecia as notícias e novidades. Através dos volumes guardados, obtinha o' conhecimento que utilizava em seus livros, que eram, eles também, escritos nesse mesmo lugar. Esta casa é o lugar onde estão organizados os vestígios materiais de sua existência e os objetos que permitem a reconstrução de sua memória.

Oliveira Vianna, assim como outros intelectuais, deu atenção especial ao processo de organização de sua coleção de livros. Ele começou muito cedo a formação de sua biblioteca. Possivelmente, parte do acervo veio da velha biblioteca da casa da fazenda Rio Seco, onde nasceu. Esse conjunto de livros

Ifll formado por seu pai, o coronel Francisco José, nas diversas visitas que 1,lzia a livrarias da cidade do Rio de Janeiro. O fato de ter nascido em família k! rada - a mãe lhe havia ensinado as primeiras letras - contribuiu seguramente para que Vianna viesse a ampliar a sua condição de "grande leitor".

O interesse pelos livros e pelas leituras, aliado à personalidade austera

l' r servada e ao modelo de intelectual sério que pretendia seguir, fez com

lJll " em 1911, muitos anos antes do lançamento do livro de estréia,

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P o p u l a ç õ e s

M e r i d i o n a i s d o B r a s i l , ele realizasse uma reforma na casa onde morava com a

lamília para abrigar justamente o gabinete de leitura ou, como gostava de

ihamar, a sua biblioteca. Vianna mandou adaptar a casa para abrigar a

hiblioteca, com a construção da sala principal, da varanda, da sala de visitas e

(I ' seu quarto. A casa mudava e o principal espaço era destinado à leitura. A biblioteca de Oliveira Vianna sobreviveu ao proprietário e encontra-se ainda hoje preencontra-servada na forma original. Éuma grande sala que dá acesso direto à varanda, na entrada principal da casa. Da biblioteca ele podia perceber qucm chegava e saía, o movimento da casa. A biblioteca lhe permitia, assim, manter-se recolhido e, ao mesmo tempo, em contato com a vida cotidiana':'.

Ao entrar nesse espaço, vê-se logo a sua mesa de trabalho com canetas-tinteiro e o famoso lápis de duas pontas, uma vermelha outra azul, com o qual Vianna insistia em inscrever seus percursos de leitura nos espaços em branco dos livros colecionados.

A biblioteca de Vianna pode ser considerada de grande porte." Hoje, no catálogo, constam cerca de 12.000 exemplares, entre livros, folhetos e periódicos. Pode-se dividir esse acervo em duas partes: a primeira, composta de 4.161 livros," foi praticamente organizada na sua totalidade pelo próprio Vianna, com, após a sua morte, a inclusão de um ou outro exemplar. A segunda, composta pelos periódicos, contou com a inclusão sistemática de vários títulos (' exemplares novos.

A biblioteca de Vianna é mais um gabinete de trabalho do que a

Ç(leção de um bibliófilo, Assim, como na biblioteca de Jacques-Auguste de

'I'hou, descrita por Gabriel Naudé e analisada por Jacques Revel, a primazia em dada "antes à qualidade das edições, e a importância das obras segundo os critérios dos eruditos, que as obras raras ou preciosas", Vianna buscava prioritariarnente "juntar o saber crítico elaborado através do tempo e os comentários das grandes obras"." Por esse motivo, ele priorizava a produção contemporânea, em detrimento das obras antigas e raridades.

A trajetória profissional de Vianna foi, sem dúvida, um enterro d 'terminante do acervo da biblioteca. Observando-se o acervo, pode-se

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CLASSIFICAÇÃO DOS TÍTULOS DA BIBLIOTECA DE OLIVEIRA VIANNA2('

Tipo de livro Títulos %

CIÊNCIAS SOCIAIS 1385 35%

LIVROS JURÍDICOS

E ADMINISTRATIVOS 821 21%

BIOGRAFIAS, MEMÓRIAS

E AUTOBIOGRAFIAS 184 4,5%

LITERATURA BRASILEIRA 171 4,3%

LITERATURA ESTRANGEIRA 128 3,2%

HISTÓRIA DO BRASIL

E LITERATURA DE VIAJANTES 451 1,4%

HISTÓRIA GERAL 310 8%

RELIGIOSO S39 1%

OUTROS 460 1,6%

TOTAL 3949 100%

Uma análise minuciosa dos títulos e temáticas dos livros do acervo de Vianna indica cinco grandes linhas de classificação. A primeira é marcada

pelas ciências sociais; a segunda, composta dos livros sobre a realidade

brasileira;" em terceiro lugar, são textos relacionados à legislação

administrativa, trabalhista e aos estudos jurídicos; o quarto grupo é formado

pela literatura brasileira e estrangeira; por fim, há os livros religiosos.

Estudos de antropologia, sociologia, geografia, educação, economia,

filosofia e psicologia interessavam prioritariamente a Oliveira Vianna, pois

estava preocupado em entender, através de suas leituras, e explicar, por meio

de sua obra escrita, os princípios de organização da sociedade, da cultura e da política nacionais. Nesse sentido, aos livros de ciências sociaisdevem-se somar ainda os títulos relacionados à história do Brasil e os relatos de viajantes.

Entre os autores da área de ciências sociais, destacam-se Le Play,

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hl1ll0lld I i-molins. Georges Gurvitch, Harold Laski, Gustave Le Bon, Vacher

I.apoug(. I(1011de Ia Blache, Emile Durkheim, Georges D' Avenel, Roger

Ihsl1d~ h,II1Z Boas.

1'.111t(' os "sociólogos" brasileiros, podem-se verificar, entre outros

norn 5, 10 volumes de Gilberto Freyre e 4 livros de Gustavo Barroso.

. 11111('11Febvre e Fustel de Coulanges, bem como Momsem, Ranke e

l lcnriB 'li, ao alguns historiadores que aparecem representados no acervo.

a listalil lustoriadores brasileiros, estão todos os nomes importantes do

1l1(~111nlc) 1\1.\)( Fleiuss, Felisberto Freire, Afonso Celso, José Maria Bello,

Alfredo l'lIl~ Ir, Pedra Calmon, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda.

li, Itlvr, tura de viajantes aparece nas obras de Gandavo Debret e

aint-Ilil~1I1 '

() relu adores estão representados pelas obras de Azevedo Amaral,

remando Ili z vedo e John Dewey e o pensamento psicológico aparece em

bras de 1 1IIItI c Jung.

1'11111'os filósofos, destacam-se os livros de Benedetto Croce, Engels

e seteVOllll1l'S da obra de Henri Bergson.

. 1'111wgundo lugar, em número de títulos, figuram os livros jurídicos e adrnimsj, 111\"IlS,também diretamente relacionados às atividades profissionais de Vl~nn:) I'111r' s juristas nacionais, há títulos de Clóvis Bevilácqua, Achilles

Bevilácqu., I 1{1IIBarbosa e entre os estrangeiros aparecem Fantini Barassi

Baudri-l.a, 1I111111're,entre outros. ' "

Sillll,lIllls s títulos correspondentes às rubricas ciências sociais, livros

jurídicos, 11I~I()fi,geral e do Brasil e biografias, memórias e autobiografias

(dos gran 11 -ult s da História nacional e estrangeira), pode-se verificar que

represenl~1I1 \.11)I títulos, o que corresponde a cerca de 80% do acervo.

I\.t 1 ,IS literaturas brasileira e estrangeira também têm lugar nesse

acervo. 111,li de quantitativamente representar menos de 10% dos títulos,

exemplar' ,ltlS principais cânones literários nacionais e estrangeiros podem

ser encOl)lt,1\I"s, mo José de Alencar Machado de Assis Olavo Bilac

Albertod t ihvcira, Manuel Antonio de ~eida Manuel Band:ira Humbert~

de Campo, ( .isrrniro de Abreu, Menotti del Pi~chia, Monteiro L~bato, além

de outros III1I1I1'Sonsagrados.

I~11II( I.lçã aos autores estrangeiros, constam títulos de Goethe,

Balzac, C 1\ ,1111'S, amões, Corneille, Racine, Moliêre, Erasmo, Dante,

Flauben, 1)1111'115,Dostoievsky, além de uma quantidade significativa de

volumesd \Il':~ndre Herculano, de quem possuía 26 títulos.

. <\I.II1I() :i presença dos autores estrangeiros, a biblioteca de Oliveira

Vianna pall I ( estar de acordo com os princípios de qualidade intelectual da

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época, pois, segundo Tania Bessone, eram as obras desses autores as que mais circulavam nos leilões de livros. Diz ela:

A língua estrangeira predominante nas obras divulgadas nos avisos de leilões era o francês, sobretudo na segunda metade do século XIX, com nítida preferência para autores como Corneille, Racine, Moliêre, Montesquieu, Rousseau, Benjamin Constant, Victor Hugo, Dumas, Eugêne Sue. Ponson du Terrail e Chateaubriand eram também muito indicados nas listagens. Dos portugueses, os mais comuns eram Camilo Castelo Branco, Herculano, Garret e Camôes, A partir da década de 70, tornaram-se mais freqüentes obras em inglês e alemão: Shakespeare, Schiller, Goethe, Proudhon, Walter Scott, Dickens, Disraelli e as irmãs Bronte estavam entre os mencionados mais amiúde.F

A presença de livros de literatura estrangeira traduz ainda outra característica dessa biblioteca: a diversidade de línguas. Nota-se a presença de cinco línguas mais freqüentes: espanhol, inglês, alemão, francês e italiano, com destaque para as duas últimas. O estudo de línguas estrangeiras por Oliveira Vianna pode ser registrado também pela grande quantidade de livros didáticos e de gramáticas de línguas estrangeiras, agrupados, em nossa classificação, na rubrica "outros".

Outra característica importante dessa biblioteca é a presença de livros religiosos, cujo número não traduz, na verdade, o seu valor no acervo de Oliveira Vianna. Isso porque não era na biblioteca, mas em outro cômodo da casa, que Vianna guardava esses tipos de livros. No quarto de dormir, numa estante fixa à parede, junto à sua cama de solteiro, ele colecionava o que ele chamava de seus "livros de cabeceira", uma coleção de 78 títulos, dos quais 67 eram religiosos. Segundo Marcos Almir Madeira, "essa era uma das características de Oliveira Vianna, nas suas poucas horas vagas, geralmente à noite, ele se dedicava a leitura espiritual't.P.

A biblioteca de Oliveira Vianna traduz tanto o itinerário de leituras quanto traça o seu percurso como autor.

No que diz respeito aos vestígios do processo de transformação do ato de ler em ato de escrever, o arquivo guarda uma grande quantidade de notas, rascunhos, pequenos papéis que registram os primeiros momentos da produção dos textos que viria a publicar. As anotações são coletâneas de leituras, repertórios de citações que Vianna viria mais tarde utilizar em seus trabalhos pois "toda citação é primeiro uma leitura".24

A estes inúmeros papéis, Vianna denominou "papagaios". A palavra Papagaio que, no dicionário Aurélio, aparece com 22 significados diferentes, pode significar a papeleta que se junta aos livros entregues ao encadernador,

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com instruções sobre a maneira de executar o trabalho, ou ainda, um pedaço de papel que se prende à extremidade de uma folha para continuar nela o escrito. Talvez esse últime tenha dado origem aos "papagaios" de Oliveira Vianna. Ele chamava papagaios pequenos pedaços de papel de formas múltiplas e diversas onde escrevia frases, textos e fragmentos que seriam, posteriormente, utilizados ou não em seus textos e livros. Nestes papelotes, ele anotava idéias, próprias ou não, muitas vezes, trechos de diálogos com amigos - até mesmo conversas telefônicas - e algumas opiniões de "maruros da Baixada", guardadas com o mesmo cuidado das anotações dos conceitos dos maiores intelectuais europeus e americanos. Algumas vezes, pequenos bilhetes para ele mesmo, como se vê no texto de um dos papagaios:

Ler o livro de Marcel Pernant - Biologie et marxisme - da minha biblioteca. Há um estudo muito novo sobre os grandes problemas da biologia humana.

Segundo Marcos Almir Madeira, esses papéis formam um dos principais documentos do arquivo de Oliveira Vianna,

(00') são os seus apontamentos e notas pessoais de estudo, tudo do próprio punho, que ele colecionou e catalogou em fichários junto com as notas bibliográficas (00') Suas anotações, catalogadas por assunto e que eram apelidadas de papagaios, estão reunidas num fichário especial.

Prática comum entre os letrados" , na biblioteca de Vianna, a guarda de frases, citações e anotações ganhou aspectos de requinte. Especialmente para conservar os papagaios, Vianna mandou fabricar o que ele chamou de "fichário de idéias", um armário de seis gavetas divididas em seis partes retangulares. Em cada uma, guardava anotações de um assunto diferente, uma ordenação que, sem dúvida, expressa algo de seus hábitos de leitura e de sua prática de escrita.

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Entre os papagaios, existem cerca de 75 documentos classificados como "pontos de revisão", que permitem inferir as releituras que Oliveira Vianna fazia da própria obra e a forma como elaborava e reelaborava a escrita.

Assim como não deixou testemunhos das leituras, Vianna também não produziu nenhum registro de como desenvolvia o processo de escrita. Os papagaios e os demais documentos do arquivo sugerem algumas hipóteses que não podem ser consideradas senão como possibilidades. Poder-se-ia supor que Vianna escrevia como descreve Pedro Nava:

Como escrevia e escrevo:

Penso bem a estrutura de um capítulo. Escrevo o seu sumário, ou boneco ou esqueleto.

Procuro entre minhas notas cada uma que se adeque a cada um desse boneco. Numero entre estas notas a escolhida.

Escrevo esse número ao lado de cada item do sumário. Escrevo e componho consultando um por um.

Destruindo as fichas a medida que escrevia, conto isso a Drummond. Ele manda que eu guarde todas.

Do fato de guardá-Ias nasceu mais respeito pelo meu escrito, pelo trabalho que ele me custa."

Vianna provavelmente usava fichas, se não numerando-as de acordo com os itens do rascunho que preparava, certamente classificando-as em função dos assuntos de que pretendia tratar. Talvez por isso, no arquivo, apareçam alguns papéis classificados em dois tipos de assuntos diferentes, sugerindo uma constante reclassificação.

Além dos papagaios, outro documento que se destaca, no arquivo de Vianna, são as correspondências. Documentos típicos de arquivos privados pessoais, as cartas possuem características, ao mesmo tempo, íntimas e públicas, pessoais e relacionais. A. Castillo Gomez destaca a importância da correspondência como fonte para os estudos históricos, ao afirmar que é um tipo de documento que o historiador não pode negligenciar, sob pena de ser cúmplice de determinados silêncios e esquecimentos."

Apesar de Oliveira Vianna ter mantido, por cerca de 30 anos, intensa produção intelectual e grande importância política, os críticos e comentadores da sua obra são unânimes em afirmar as características pessoais de reclusão social. Ao longo da vida, Oliveira Vianna contribuiu para a construção da auto-imagem de homem reservado e austero. Isso decorreu, sem dúvida, do fato de ter evitado festas, recusado convites para ocupar cargos e posições de destaque e ter vivido sempre no âmbito exclusivo de sua residência,

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I. ,"Iludo à sua biblioteca. Mas, ao mesmo tempo em que se esboçava essa

111111 r .presentaçâo, Vianna guardava, no arquivo pessoal, cartas, bilhetes,

," Hurnentos que indicam, registram - algumas vezes privilegiadamente - as

11.1 relações pessoais. A análise do arquivo pessoal sugere a imagem de um

li' un .rn recluso que mantinha uma forma própria e singular de relacionamento

'H i.rl: a prática epistolar. A coleção de correspondências passivas de Vianna

hu ma um conjunto importante do acervo, não somente pela quantidade,

III.I~por registrar uma forma específica de sociabilidade. o trabalho sobre

I cartas, destacam-se, justamente, as estratégias e práticas de relacionamento

Il('SS aI e profissional. Não se trata de traçar uma nova representação desse

1111 .lecrual que elimine a já sedimentada pelos estudiosos, mas compreender

(I que forma a escrita epistolar constituiu uma prática que visava estabelecer ( manter uma rede de relações sociais, profissionais e intelectuais.

O arquivo de Oliveira Vianna guarda grande quantidade de cartas, preservadas tanto a correspondência passiva quanto uma parte, embora pequena, de cópias de sua correspondência ativa. Considerando-se os documentos do acervo, pode-se verificar que Vianna guardou, das cartas que recebeu, em 40 anos, 1.499 exemplares, o que corresponde à média de 37 por ano e 3 por mês. Das cartas que escreveu, estão no arquivo 90 exemplares de cópias ou rascunhos. A quantidade de cópias das cartas escritas por Vianna não deve ser minimizada, visto não ser comum, em arquivos assim (privado e pessoal), a guarda da correspondência ativa. Nesta pesquisa, portanto, optou-se por se trabalhar com a correspondência passiva de Vianna, visto ser o acervo maior e mais completo. Ao contrário do que se pode supor à primeira vista, a categoria correspondência não é homogênea. Ela abriga enorme quantidade de formas discursivas distintas e é resultante de diversas práticas. Refere-se tanto a relações oficiais e públicas, como as privadas e íntimas, alia intenções tão distintas quanto discussões intelectuais, solicitações de emprego, pedidos de favores, relato de notícias, entre outras. Na opinião de Dauphin, "vestígio de uma realidade complexa, a forma carta absorve uma infinita diversidade de práticas e de registros, que é importante esclarecer't":

Uma carta expressa mais do que o texto que contém. Sua materialidade denota a condição da redação, a análise da trajetória e a identificação does) destinatário(s) - se individual, institucional ou familiar - e permite a compreensão dos mecanismos de sua circulação e a sua presença num arquivo, isto é, o conhecimento dos gestos em prol de sua conservação deixa entrever os critérios que definiram sua importância.

Por esse motivo, elaborou-se, em relação ao acervo de correspondências passivas de Oliveira Vianna, uma tipologia dos documentos

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presentes. Há, nesse arquivo, diversas formas de correspondências que podem ser classificadas em seis tipos distintos, divididos em três grupos.

No primeiro grupo, estão as cartas que se podem caracterizar como expressivas das relações de amizade e de prestígio político. São as que Michel Trebitsch" define como

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c o r r e s p o n d ê n c i a - r e d e , muito mais importantes pela função que desempenham do que pelo conteúdo. Esse grupo é composto da correspondência social - mensagens de Natal e Boas Festas; participação de nascimento, de novo endereço; congratulações por novos cargos ocupados por Oliveira Vianna; convites para festas; cartões postais; aviso de falecimento; agradecimento de manifestação de pesar; cartas desejando melhora de saúde e pronto restabelecimento, em caso de doenças, e convites de casamentos - e também das correspondências que tratam de assuntos políticos - comentários sobre pareceres do Ministério do Trabalho; discussão sobre eleições; pedidos de empregos e favores, destacando-se, entre as últimas, as relativas ao processo de aposentadoria de Oliveira Vianna, quando este então se torna o solicitante, e os amigos, os mediadores.

O segundo grupo de correspondências, formado pelo que denominamos dec o r r e s p o n d ê n c i a - o r d i n á r i a , é, ao contrário, mais importante pelo conteúdo veiculado do que pela função, pois esta reduz-se à solução de atividades e problemas cotidianos do intelectual. Compõem esse grupo as cartas para aquisição de bens materiais - nestas são destaques principalmente as correspondências referentes à aquisição de livros - e as correspondências sobre assuntos cotidianos - pagamentos de empréstimos; solicitação de empréstimos; informações acerca de inventários e causas judiciais familiares. O terceiro conjunto de correspondências é caracterizado pelas cartas que compõem o que chamamos, aqui, a sua comunidade de leitores, o grupo de troca intelectual. Seriam as que M. Trebitsch denomina c o r r e s p o n d ê n c i a s

-l a b o r a t ó r i o , em que as idéias trocadas são parte do próprio trabalho intelectual.

Essas cartas são destacadas tanto por sua função de estímulo, inspiração e desenvolvimento do trabalho intelectual quanto pelo seu conteúdo, pois ele próprio é constitutivo do trabalho intelectual. Esse grupo é formado pelas cartas que se referem a questões intelectuais - são as que tratam de opinião sobre textos e livros; solicitação para publicação de artigos, livros e textos; pedidos de doação de livros para bibliotecas e instituições; solicitação de autógrafos em livros; convites para prefaciar livros, para entrevistas e para bancas de concursos; doação de livros por diversos intelectuais - como também pelas cartas de agradecimento, categoria na qual foram inseridas as cartas enviadas pelas pessoas que receberam livros da autoria de Oliveira Vianna, enviados de presente".

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Dos documentos e livros do arquivo privado pessoal e biblioteca de ( ihveira Vianna, emergem inumeráveis proposições, imagens e representações.

I\IIS amos, neste texto, indicar algumas.

Dessa forma, procurou-se contribuir para as reflexões realizadas sobre ( ihvcira Vianna, buscando inspiração nos estudos nos campos da biografia, da história dos intelectuais, dos arquivos privados, das bibliotecas e das

Iorrespondências. O caminho proposto para a investigação relaciona-se à

r onstrução memorialística positiva que os amigos de Oliveira Vianna tentaram empreender, após sua morte, com o objetivo de regenerar a imagem de ti 'cadência intelectual que havia marcado seus últimos anos de vida.

Na militância memorialística posta em prática por seus herdeiros intelectuais, os amigos contaram com a ação do próprio Vianna, que organizou, pacientemente, ao longo de sua vida, um acervo de documentos que induzia, ,\ posteridade, a representação de homem público e intelectual que lhe interessava legar. Nada de testemunho de foro privado, nada que pudesse macular a imagem de um cidadão probo, respeitável, sem pretensões políticas. Todas as referências deveriam construir a representação de um profissional venerável, preocupado sobretudo com os interesses do país.

A essa representação e o acervo acumulado por Vianna e sua biblioteca particular, somava-se ainda a do intelectual erudito, atualizado, conhecedor das últimas novidades dos principais centros de produção científica. O itinerário e as práticas de leitura e escrita inscritos na trama do arquivo de Vianna e nos volumes de sua biblioteca permitem investigar as relações entre suas leituras e sua obra publicada, entre os seus métodos de escrita e o seu percurso de transição de leitor/autor. Esses documentos contribuíram, de certa forma, para a construção de uma memória positiva de Vianna e sua transformação em um dos intelectuais canônicos do que se pode considerar o "pensamento social brasileiro", uma referência incontornável, sempre que se busca compreender ou explicar o Brasil.

NOTAS

IPOLLAK, Michel. "Memória, esquecimento, silêncio".E s t u d o s H i s t ó r i c o s , Rio de Janeiro,

vol, 2,n. 3, 1989,P.4.

2O grupo de amigos mais próximos de Vianna era formado por Alberto Lamego Pilho,

Thiers Martins Moreira, Geraldo Bezerra de Menezes, Marcos Almir Madeira, Dail de Almeida, Anselmo Macieira, Vasconcelos Torres e Hélio Palmier, todos ex-alunos da Faculdade de Direito de Niterói, São esses indivíduos que, após a morte de Vianna, vão

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atuar de modo constante com vistas a construir uma memória positiva de sua obra e de sua trajetória.

3ABREU, Regina.

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A fa b n ' c a ç ã o d o i m o r t a l . M e m ó r i a , h i s t ó r i a e e s t r a t é g i a d e c o n s a g r a ç ã o n o B r a s i l .

Rio de Janeiro: Rocco/ Lapa, 1996, p.67.

4POLLAK, Michel. "Memória, esquecimento, silêncio", Op. Cit., p.13.

5 COOK, Terry. "Arquivos pessoais e arquivos institucionais: para um entendimento arquivístico comum da formação da memória em um mundo pós moderno". E s t u d o s

H i s t é r i c o s , Rio de Janeiro, v o l . 11, n. 21, 1998, p.131.

(, GARC1A, Maria Madalena A. de M. Machado. "Os documentos pessoais no espaço público". E s t u d o s H i s t â r i c o s . Rio de Janeiro, vol. 11, n. 21, 1998, p.177 e 179.

7HEYMANN, Luciana. A s o b r i g a ç õ e s d o p o d e r : r e l a ç õ e sp e s s o a i s e v i d a p ú b l i c a n a c o r r e s p o n d ê n c i a

p e s s o a l d e F i l i n t o M u l i e r . Rio de Janeiro: PPGAS/MUSEU NACIONAL/ UFRJ, 1997,

p.64-65.

, CHART1ER, Roger. A t I b o r d d e I a fa l a i s e . L' b i s t o i r e e n t r ec e r t i t u d e e ti n q m é t u d e . Paris: Albin Michel, 1998, p.63.

') CHARTIER, Roger e BOURDIEU, Pierre. "A leitura: uma prática cultural". P r á t i c a s d e

l e i t u r a . São Paulo: Estação Liberdade, 1996, p.234.

111ARTIERES, Philippe. "Arquivar a própria vida". E s t u d o s H i s t ó r i c o s . Rio de Janeiro, vol. 11, n. 21, 1998, p.l1.

11 VIANNA, Aurélio, LISSOVSKY, Maurício e SÁ, Paulo Sérgio Moraes. "A vontade de guardar: lógica e acumulação em arquivos privados". A r q u i v o e a d m i n i s t r a ç ã o . Rio de Janeiro, vol. 10, n. 2.

12POMIAN, Krzyszrof "Les archives: du Trésor des Chartres au Caran". In: NORA, Pierre (org.). L e s l i e t : » : d e s m é m o i r e s . Paris: Gallimard, 1992.

11A escolha da perspectiva individual não é aqui, evidentemente, contrária à social. A idéia é reconhecer a ação de um sujeito entre outros sujeitos, conciliar a singularidade e o coletivo, como propõe Jacques Revel, ao assinalar que "esse individualismo metodológico tem Limites, já que é de um conjunto social - ou melhor, de uma experiência coletiva -que é sempre preciso procurar definir as regras de constituição e de funcionamento". Ver: REVEL,Jacques. "MicroanáLise e construção do social". In: REVEL,Jacques (org.).J o g o s d e e s c a l a s : a e x p e r i ê n c i a d a m u r o a n á l i s e . Rio de Janeiro: editora da FGV, 1998, p. 21.

" Segundo Darnton, é importante precisar o lugar onde o leitor lê pois essa informação pode nos dar indícios de suas formas e práticas de leitura. DARNTON, Robert. Ob e i j o d e

l . a r u o u r e t t e . São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 156.

15E interessante notar que ao se referir ao gabinete de Montaigne, Roger Chartier descreve uma situação semelhante. Diz ele, "( ...) retraite ne signifie pas réclusion ou rejet du monde. La "librairie" de Montaigne est un Lieudou I' on voit, sans être forcement vu, et que donne pouvoir àcelui qui sy retire. Pouvoir sur Ia maison et ses gens: "Je me détourne un peu plus souvent àma librairie, doú tout dune main je commande àmon ménage. Je suis sur

r

entrée et vois sous moi mon jardin, ma basse-cour, ma cour, et dans Ia plupart des membres de ma maison", Ver: CHART1ER, Roger. "Les pratiques de lécrit" in: CHART1ER, Roger. e DUBY, Georges (orgs). H i s t o i r e d e I a v i e p r i i é e : d e I a R e n a i s s a n c e a u x L u m i i r e s . Paris: Éditions du Seuil, 1985. p. 136.

1(,Apenas a título de comparação, a biblioteca de Machado de Assis, doada a Academia Brasileira de Letras, possui 736 volumes. Ver: VIANNA, Glória. "Revendo a biblioteca

11•. Machado de Assis". In: JOB1M, José Luis (org.).A b i b l i o t e c a d e M a c h a d o d e A s s i s . Rio de J,'''elro: Topbooks, 2001, p. 119.

1 (b livros formam um total de 4.161 exemplares de 3.949 títulos distintos.

1 1(t':VEL, Jacques. "Entre dois mundos: a biblioteca de Gabriel Naudé". In: BARAT1N, 1\.\.Irc e JACOB, Christian. Op o d e r d a s b i b l i o t e c a s . A m e m ó r i a d o s l i v r o s n o O c i d e n t e .Rio de 1,111 .iro: Uf'R], 2000, p.222.

1" lvntcnde-se por ciências sociais, nesse texto, os estudos relacionados ao homem em I) iedade tais como os trabalhos de antropologia, psicologia, economia, filosofia, geografia, n"'ncia política, etc, visto que, até esse momento, no Brasil, a maior parte dessas ciências uno havia passado ainda por um processo de especialização e institucionaLização . •• A biblioteca possui, como se afirmou, um conjunto de 4161 exemplares. O número

citado aqui, 3949, corresponde à quantidade de títulos, visto que alguns deles possuem vários exemplares diferentes.

'1 Afrânio Garcia J r. cunhou a expressão "o Brasil em representação" para se referir a esse upo de estudos. São textos que destacam a construção da Nação e de uma identidade nacional. Ver sobre esse aspecto: GARC1A JR., Afrânio Raul. "O Brasil como representação". In: C o m u n i c a ç ã o , ri. 6, Rio de Janeiro, UFRJ/PPGAS, 1981 e ABREU, Regina. A fabricação d o i m o r t a l . ' m e m ó r i a , b i s t ô r i a e e s t r a t é g i a d e c o n s a g r a ç ã o n o B r a s i l . Rio de Janeiro: Rocco/Lapa, 1996, p. 138.

12 rERRE1RA, Tania Bessone, "Biblioteca de médicos e advogados do Rio de Janeiro: dever e lazer em um só lugar" in: ABREU, Márcia (org). L e i t u r a , H i s t ô r i a e H i s t ó r i a d a

le u n r a . Campinas: Mercado das Letras, 2000. p 328.

~.1Marcos Almir Madeira em depoimento ao caderno Encontro do Jornal O Fluminense.

24COMPAGNON, Antoine. O t r a b a l h o d a c i t a ç ã o .Belo Horizonte: UFMG, 1996, p. 17.

25Desde o Renascimento diversos instrumentos com vistas a coLher citações, sentenças e anedotas passaram a ser utilizados pelos eruditos. Entre eles, destacavam-se as coleções de lugares-comuns que, "reunindo sob uma forma mais ou menos sistemática uma massa de informações e citações tiradas das fontes mais diversas, essas obras, inicialmente nascidas da seleção e da coleção de um autor particular, tornam-se, (...) resumos de bibliotecas ou "bibliotecas portáteis", onde os letrados podem colher o necessário para enriquecer seus escritos". As coletâneas de lugares-comuns armazenavam de modo que se pudesse encontrá-los rapidamente diferentes informações - colhidas através da leitura ou das transmissões orais nos diversos espaços de sociabilidade intelectual - que pudessem ser utilizadas para diversas formas de produção posterior tais como cartas, orações, cursos e publicações de todas as espécies. Talvez essa tenha sido a idéia propulsora da organização dos papagaios de Vianna. Ver a esse respeito, BLAIR, Ann. "Bibliotecas portáteis: as coletâneas de lugares-comuns na Renascença tardia". In: BARAT1N, Marc e JACOB, Christian. Op o d e r r i a s b i b l i o t e c a s . A m e m ó r i a d o s l i v r o s n o O c i d e n t e . Rio de Janeiro: editora

urnj,

2000, p. 74-75.

2(,N A V A a p u r lLE M01NG, Monique. A s o l i d ã o p o v o a d a . U m a b i o g r a fi a d e P e d r o N a v a . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p.129.

27 GOMEZ, Antonio Castillo. C u l t u r a e s c n t a y c l a s e s s u b a l t e r n a s : t i n a m i r a d a e s p a t i o i a . Alcalá de Henares, Sendoa, 2001, p.16.

2.Como anota ainda Dauphin, o termo correspondência, assim como escrita, é polissêmico. Significa traço, aquilo que corresponde ao que resta da realidade de um acontecimento; é,

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ao mesmo tempo, texto produzido e objeto trocado entre aqueles que se (co) respondem e designa ainda o processo da escrita, a lógica que funda os gestos e as práticas; é a correspondência entre os indivíduos que testemunha suas trocas afetivas, profissionais e

intelectuais. DAUPHIN, Cécile. "Pour une histoire de Ia correspondance familiale".

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R o m a n t i s m e , Paris, Albin Michel, 1995, p. 89-92.

") Os conceitos de c o r r e s p o n d ê n c i a - r e d e e de c o r r e s p o n d ê n c i a - l a b o r a t ó r i o estão definidos em:

TREBITSCH, Michel."Correspondances dintellectuels: le cas des lettres dHenri Lefebvre à Norbert Guterman (1935-1947)". S o c i a b i l i t e s i n t e l l e c t l l e l l e s : I e i u x , m i l i e u x , r é s e a u x . L e s C a b i e r s d e L ' l H T P . Cahier n. 20, mars. 1992, p. 83.

]O Sobre esse conjunto de correspondências, ver os seguintes artigos de minha autoria: VE A CIO, Giselle Martins. "Presentes de papel: cultura escrita e sociabilidade na correspondência de Oliveira Vianna".E s t u d o s H i s t ó r i c o s , Rio de Janeiro, n. 28, 2001, pp.

23-48 e VENANCIO, Giselle Martins. "Sopros inspiradores": troca de livros,intercâmbios intelectuais e práticas de correspondência no arquivo privado de Oliveira Vianna". In: Maria Helena Câmara Bastos, Maria Teresa Santos Cunha e Ana Chrystina Venâncio Mignot (org.). D e s t i n o s d a s L e t r a s : h i s t ó r i a , e d l l c a ç ã o e e s c r i t a e p i s t o l a r . Passo Fundo: UPF,

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