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ÉTICA E CIDADANIA INSTRODUÇÃO

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Academic year: 2022

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ÉTICA E

CIDADENIA

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ÉTICA E CIDADANIA

INSTRODUÇÃO

Ética e cidadania são conceitos abrangentes que perpassam os vários contextos das diversas esferas da vida social. Vemos a utilização desses termos em excesso por aqueles que buscam defender posições, ações políticas e individuais e tentam regrar condutas e ditar como as coisas devem ser feitas, quais atitudes devem ser tomadas e quais os princípios devem ser defendidos. Fazer uma exposição sobre essa questão é sempre um empreendimento complicado tendo em vista o risco de cair em artifícios normativos e transformar a análise em um texto panfletário que tenta impor um padrão de conduta certa. Como critério de exposição trato de enfatizar a divisão entre julgamentos de fato ( tratar como as coisas são e qual a natureza do objeto estudado) e os julgamento de valor (tratar como as coisas deveriam ser ou qual o melhor caminho a seguir). Como um pressuposto de uma exposição com critérios científicos o texto vai se deter aos julgamentos dos fatos, ou seja, se esforçar na caracterização, definição e desenvolvimento das diversas dimensões que a Ética e a Cidadania apresentam.

Em nossa experiência cotidiana nos deparamos com situações difíceis que, embora nos exijam uma resposta rápida, com freqüência nos sentimos inseguros e sem parâmetros para definir a melhor ação a ser seguida. Em seguida encontra-se diversas situações hipotéticas como meios de pensar os dilemas éticos cotidianos. A primeira situação hipotética ocorre no ambiente de trabalho e observamos um colega X, em torno do qual temos uma amizade intima, se apropriar de recursos da empresa para fins privados. Nosso colega com freqüência tira cópias ou imprime na empresa de material de interesse pessoal, leva para casa resmas de papel, canetas e outros pequenos bens da empresa e etc. É óbvio para todos que os bens da empresa em que se trabalha

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devem ser distinguidos das posses individuais, independente se empresa é de ordem pública ou privada. Qual seria a melhor atitude a ser tomada nesse caso? Listo aqui algumas possíveis respostas à essa situação, embora haja outras diversas possibilidades de escolha: opção 1- Não há problema algum que o colega se aproprie de alguns pequenos bens da empresa, pois há muitos desses bens e a empresa não esta sendo prejudicada com isso. Opção 2- o colega X está tirando vantagem e abusando de sua condição de funcionário. O melhor a fazer é manter uma atitude correta e ignorar o que o colega X esta fazendo. Opção 3 – Ficar omisso a essa situação é ser conivente com ela. As relações de amizade entre colegas de trabalho não podem comprometer a integridade ética do indivíduo. O melhor a ser feito nessa ocasião é conversar com o colega X e mostrar que sua ação é incorreta, caso ele insista devemos denunciá-lo a um superior.

A situação hipotética seguinte também é cotidiana e não é difícil nos depararmos com alguém que passa por situação parecida. Este seria o caso de uma menina de condições financeiras precárias que engravida ainda adolescente. Como toda gravidez precoce, observamos a imaturidade tanto psicológica quanto fisiológica da adolescente para ter um filho tão jovem que é agravado pelas dificuldades financeiras de sua família. O pai da criança também é adolescente da mesma classe social que a menina e não tem condições de apoiar a companheira de maneira apropriada a nível financeiro, psicológico ou afetivo. Os pais de ambos os adolescentes se esforçam trabalhando tempo integral todos os dias para manter a família. Qual seria a melhor opção nesse caso? Opção 1- Os adolescentes devem assumir a responsabilidade de seus atos e mesmo que não tenham concluído a educação básica, devem agora se sacrificar para sustentar essa criança, mesmo que isso signifique se submeter a sub-empregos de baixa remuneração ou abandonar a escola. Opção 2- Os pais dos dois adolescentes por serem os responsáveis legais dos menores de idade devem criar a criança até o momento em que os adolescentes tenham maturidade e condições financeiras para conseguir criar a criança. Opção 3- O melhor a ser feito nesse caso é interromper a gestação.

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O feto não é um ser humano nos primeiros meses de gravidez é apenas um conjunto disforme de células. Dentro do contexto dessa situação hipotética é justificável que se realize o aborto para garantir o futuro dos adolescentes e dar uma chance às famílias de ambos os lados de sair dessa situação precária.

As vezes as questões que a vida nos impõe podem ser bem mais abrangente embora tão complexa quanto as demais. Podemos constatar isso no próximo exemplo que se expõe o caso dos países islâmicos como o Irã, Iêmen, Malásia e etc., onde o tratamento das mulheres se diferenciam muito do observado nos países do Ocidente. A vida da mulher mulçumana esta sempre correlacionada às decisões masculinas, seja inicialmente por parte do pai e do irmão ou posteriormente por parte do marido. A mulher fica limitada ao âmbito doméstico e ao sair de casa e freqüentar espaços públicos deve se preservar, seja com um véu sobre os cabelos e roupas fechadas, seja com traje que lhe tampe todo o corpo (a burca). Outras questões polêmicas sobre o tratamento da mulher no Islã são relacionadas às praticas violentas que as mulheres sofrem com a mutilação do clitóris, a permissividade do marido violentar a mulher e as penas violentas. Como lidar com relação a essa questão? Opção 1- As mulheres islâmicas estão nessa condição por que elas consentem com essa situação. Não é incomum ver as próprias mulheres defendendo o regime islâmico e criticando a situação das mulheres no mundo ocidental. Opção Opção 2- Isso é um caso explicito de violação dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Essas civilizações são atrasadas e os países mais desenvolvidos devem educá-los para que essas manifestações de selvageria não aconteçam. Opção 3- A relação com as mulheres islâmicas faz parte de um processo muito maior que inclui toda uma rede de padrões culturais mulçumanos. A mídia faz um sensacionalismo sobre a condição da mulher. Na verdade a violência não é cotidiana, mas não é mostrado os benefícios que a mulher mulçumana tem. Na verdade, até nas sociedades dos países desenvolvidos a relações com homens e mulheres tem um lado negativo. O certo a fazer é preservar a cultura islâmica e não tentar impor nossos padrões sobre eles. Quais dos três posicionamentos acima você

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escolheria?

Os três casos são ilustrativos de questões éticas e morais que fazem parte de nosso cotidiano. Qual o caminho para resolver essas questões? Como disse acima não tentarei fazer julgamentos de valor de maneira que o texto acabe se tornando um sermão. O compromisso científico aqui é analisar a natureza dos julgamentos e dos valores implicados nos dilemas de comportamento individual e coletivo dos homens e mulheres. O estudo da Ética nos auxilia a entender como esses processos se dão.

A Ética: Conceito e dimensões

A Ética, abordada como conceito usado cotidianamente, pode adquirir dois significados principais:

1. um conjunto de valores compartilhados por um determinado número de indivíduos que condiciona as ações individuais e seus julgamentos e se crê que esses são os princípios corretos.

2. um campo de estudos que pode ter feições filosóficas, cientificas ou teológicas e tem como objeto um raciocínio prático através do qual os homens guiam sua conduta e seus julgamentos e classificam condutas em bem ou mal, certo ou errado, virtude ou ao vicio, justo ou injusto. Observa-se que a palavra ética pode ser utilizada como um fenômeno ou uma área de conhecimento, ou seja, são denominados pela mesma palavra a ciência que estuda um fenômeno e o objeto de estudo da ciência.

O filósofo espanhol Adolfo Sánchez Vázquez define ética da seguinte maneira:

“A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é a ciência de uma forma específica de comportamento”

Adiante o autor acrescenta:

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“Como ciência, a ética parte de certo tipo de fatos visando descobrir-lhes os princípios gerais. Neste sentido, embora parta de dados empíricos, isto é, da existência de um comportamento moral efetivo, não pode permanecer no nível de uma simples descrição ou registro dos mesmos mas os transcende com seus conceitos, hipóteses e teorias.” (SANCHEZ VAZQUES,1970, p.12,13)

A busca de uma definição da Ética como ciência colocada por Sanchez Vazquez nos defronta com o desafio de diferenciar moral de ética. Os vários dilemas mostrados nas situações hipotéticas já mencionadas seriam de natureza ética ou moral? O que distingue a palavra ética da palavra moral? A etimologia da palavra ética mostra que sua origem é grega advinda da expressão ethos, enquanto a palavra moral é de origem latina advinda de mos, moris. Interessante notar que o significado das palavras grega e latina designam a mesma coisa, ou seja, os costumes e hábitos de uma sociedade.

Não há um consenso quanto à distinção das duas palavras e cada autor,de acordo com sua origem, língua e herança intelectual, vai dar ênfases diversas à distinção entre os dois conceitos. Mas de maneira geral podemos diferenciá-los com a seguinte formula comumente usada (VAZQUEZ,1970; CHAUÍ,2005;

VALLS,2004): a moral refere-se ao conjunto de normas destinadas a regular as ações dos indivíduos que são experienciadas e postas em prática cotidianamente e se relaciona diretamente com escolhas pessoais e à subjetividade individual. Importante notar que a moral é variável de acordo com a época histórica, entre sociedades e muitas vezes entre grupos de uma mesma sociedade. A Ética, por sua vez, é uma empreendimento cientifico, filosófico ou teológico que analisa essas práticas morais e pode ter como finalidade somente o conhecimento ou estabelecer um agir e um modo de vida justos, razoáveis e universalmente válidos. De maneira geral, podemos resumir a diferença entre as duas concepções frisando a intenção da moral de

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moldar a ação humana e da ética em conhecer e estabelecer os princípios gerais e os valores das diversas ações.

Essa distinção nos aponta que os três casos hipotéticos colocados no início do texto se encarados no intuito de responder qual a melhor opção de ação caem em uma questão moral, pois implicam a pratica de moldar o que deve ser feito. No entanto, se tomarmos essas situações hipotéticas para um estudo de princípios esta nos servirá para o estudo da Ética. Para fins didáticos costuma- se separar a ética entre seus problemas gerais (centrado em questões consciência moral, o bem, a justiça, a liberdade, a racionalidade, as leis e etc.) e os problemas localizados e específicos como a ética profissional, bioética, ética empresarial entre outros. Tal separação não existe em termos reais mas somente como uma maneira de facilitar a abordagem satisfatória das diversas questões.

As questões éticas e morais dizem respeito à vida social do indivíduo e suas diversas relações sociais. A superação da natureza puramente natural e instintiva para a busca da reflexão da ação e da natureza social do comportamento humano configura a necessidade dos parâmetros morais de comportamento e da Ética enquanto campo de estudo.

A Ética tem relações intrínsecas com aquilo que denominamos valores.

Um valor consiste em levar em conta certo princípio ou aspecto das coisas na tomada de decisões e estar inclinado a se comprometer com tal aspecto no processo de escolha da ação a ser seguida e de julgamento das ações dos outros. Muitos discursos e ditados buscam mostrar a hierarquização que fazemos entre os vários valores. Um exemplo interessante é a famosa frase que inspira os discursos ufanistas atuais e foi proferida por nosso imperador D.

Pedro I: “Independência ou Morte!”. Nessa frase vemos uma hierarquização dos valores de liberdade política como superiores à própria vida individual que serve como inspiração para o nosso nacionalismo até hoje. As decisões morais muitas vezes implicam nessa hierarquização de valores. No caso acima citado da situação de trabalho que nosso colega X se aproveitava para fins privados do patrimônio da empresa nossa ação depende se valorizamos mais a amizade

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ou a integridade da empresa. No caso da adolescente grávida, depende se valorizamos o futuro dos pais adolescentes ou a vida do bebê que vai nascer.

Em relação à mulher mulçumana uma tomada de posição depende se valorizamos mais a preservação e autonomia das culturas islâmicas ou a integridade das mulheres como um todo.

Encontramos diversos Códigos de Ética que mostram os princípios pelos quais nossas ações devem ser ancoradas. Esses códigos podem ser formais e escritos ou apenas realizados de maneira tácita. A parte da Ética que se esforça em prescrever as normas e posicionamento dos indivíduos em uma determinada situação é chamada de Deontologia. Podemos incluir aqui os diversos Códigos de Ética principalmente àqueles que normatizam a conduta nos ambientes de trabalho. Dessa forma, a ética pode se expressar a nível subjetivo ou a nível objetivo.

A seguir encontramos os desenvolvimentos da Ética através de uma rápida visão dos desenvolvimentos filosóficos na área.

Um Percurso Filosófico sobre a Ética

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A Filosofia foi a primeira a se interessar em desenvolver um conhecimento racional e reflexivo sobre as questões éticas. De maneira geral, podemos dizer que a filosofia clássica e suas diversas temáticas abordadas tocavam constantemente nessas questoes. A análise do desenvolvimento filosófico da Ética será realizada de maneira a evidenciar princípios gerais.

Sem dúvidas os princípios e teorias estão relacionados intimamente com aqueles que as produziu, no entanto, o foco será sobre as teorias deixando a análise das obras e da biografia do autor para pesquisa posterior àqueles que se interessarem em se aprofundar melhor.

Obviamente o percurso filosófico deve ter início no berço da filosofia, ou seja, a Civilização Grega Clássica. Os pensamentos e idéias do período têm relações intimas com a polis e a inserção do indivíduo e sua conduta no sistema político da cidade-estado grega; e também o conceito de cosmos como

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uma relação do individuo com o todo, as regras que regem o universo e as leis da natureza.

Um grupo de pensadores da Grécia antiga dedicava a enfatizar a relatividade do conhecimento e das regras de conduta. Os chamados sofistas proclamavam a impossibilidade de criar valores gerais e universais e defendiam a flexibilidade da ética segunda cada situação. Desde a gênese dos estudos éticos encontramos a contraposição entre relativismo e universalismo, ou seja, o conflito entre a defesa da variabilidade dos valores e das regras morais e a busca de parâmetros universais para determinar a conduta humana no sentido de definir bem, o justo, o belo, por outro. Posteriormente esse debate toma novo fôlego na inserção da questão do relativismo cultural.

Nesses debates Sócrates defende o universalismo e aplica métodos racionais na determinação da conduta certa a ser seguida e para que ocorra a evidência de valores gerais. O princípio de ação denominado intelectualismo socrático se baseia na valorização do logos (razão) como elemento central na determinação da boa conduta. Ou seja, argumenta-se que quem sabe o que é o bem age de maneira benéfica e virtuosa, somente o ignorante é vicioso.

Todos os indivíduos teriam o bem como interesse maior em suas vidas, partindo da premissa de que ninguém age contra seus interesses, o indivíduo que conhece o bem age de maneira benéfica e dessa forma chegaria à felicidade.

A Ética platônica, por sua vez, incorpora a relação entre razão e virtude de Sócrates, mas insere a questão da responsabilidade e questões políticas e sociais. Platão defende quatro virtudes cardeais e relaciona cada virtude a um grupo social em busca da ordem política ideal na polis grega. A primeira virtude cardeal é a sabedoria que implica no desenvolvimento do lado racional da alma e deve ser cultivada pelos dirigentes da polis (filósofos). A virtude seguinte é a coragem adquirida a partir do lado espiritual da alma humana de sua força moral e sua impulsividade. Esta, por sua vez, deve ser predominante nos guardiões da polis. Em seguida encontra-se a temperança ou a moderação que tem implicações sobre a questão dos desejos e dos instintos da alma humana

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e deve ser cultivada pelos artesãos e agricultores. Por ultimo a virtude principal e mais geral que é a justiça que diz respeito a toda alma humana e é cultivada quando toda a polis esta em harmonia gerando a felicidade da sociedade e do indivíduo. De maneira geral, Platão defendia que o indivíduo deve se livrar de suas paixões para se submeter a um critério racional.

O terceiro grande filósofo clássico grego defende que a ética é o empreendimento da busca da felicidade. Aristóteles concebe a virtude como um saber pratico. O autor defende que a virtude é alcançada em um exercício de buscar o meio-termo entre dois vícios: o excesso e a falta. Logo a coragem seria uma virtude que se encontra no meio termo entre um vicio pelo excesso (temeridade) e a falta (covardia) e da mesma forma ocorreria com as demais virtudes. Aristóteles distingue as virtudes intelectuais (bom-senso e o saber) das virtudes morais (justiça, coragem, amizade, temperança e etc). Nenhuma virtude é inata e podemos alcançá-las através do aprendizado que se realiza por meio do conhecimento ou da prática

Uma mudança considerável ocorre quando o mundo grego clássico se desfaz com a invasão de Alexandre Magno. As teorias éticas se redimensionam com a fusão da cultura grega e macedônica. A política se afasta das preocupações éticas e a busca individual em viver bem se torna o foco das discussões. Uma das teorias expressivas dessa época é o epicurismo que se reveste de caráter empirista, hedonista finalista. Empirista por buscar no mundo real as causas do bem e do mal. Hedonista ao ter como máxima a busca do prazer e o afastamento da dor. No entanto, deve haver um discernimento na análise

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desse prazer pois não pode causar maiores dores no futuro. E finalista por colocar o sentido e a finalidade da vida humana na busca por felicidade.

Outra teoria importante desse período é o estoicismo que pregava que o indivíduo deveria viver de acordo com a lei da natureza. A razão era um instrumento para se conhecer as leis do universo e o indivíduo deveria se conformar com essas leis. Uma corrente radical que segue a mesma tendência são os chamados cínicos. Estes interpretavam que viver segundo a natureza é viver de maneira instintiva, primitiva e fugir das convenções sociais. E a ultima concepção ética fundamental desse período são os chamados céticos que de defendem que não há possibilidade de conhecimento concreto, logo todo indivíduo deve esforçar-se em abster-se de julgar ou criar opiniões sobre qualquer tipo de prática.

Durante a Idade Média as produções éticas se entrelaçaram com as questões teológicas e cristãs. Os dois principais filósofos da época são Agostinho e Tomás de Aquino que defendiam que a felicidade é alcançada a partir da relação do homem com Deus recuperando a tradição clássica platônica e aristotélica.

A partir do Renascimento e início da Idade Moderna há uma proliferação de pensamentos variados sobre a questão e podem ser classificados a partir de grandes correntes de pensamento. O Racionalismo com uma fé em conhecer o mundo através da razão tenta negar todo o misticismo na determinação da conduta humana. Um dos maiores autores racionalista, René Descartes não consegue colocar parâmetros seguros para ação humana e se resigna ao afirmar que o homem deve somente seguir o que dita as convenções e normas vigentes. O Empirismo tenta se contrapor ao racionalismo, buscando no mundo material a sua base de argumentação. John Locke defendia que os homens nascem todos com os mesmos direitos e sua teoria ética se baseia na respeitabilidade dos direitos inatos dos homens.

O Iluminismo por sua vez faz uma junção entre o racionalismo e o empirismo de maneira a manter a fé na razão e na ciência com a busca de agir no mundo. A partir daí surge toda a filosofia que dará suporte às revoluções

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políticas na Europa. Dentre um grupo grande de filósofos e pensadores da época destaca- se o nome de Immanuel Kant. Em sua filosofia moral, o autor busca definir não o conteúdo das ações mas a forma de uma ação ética.

Para isso tem como principio o chamado “imperativo categórico” que consiste na regra que todo ser racional deve seguir:

“Existe... só um imperativo categórico, que é este: Age somente, segundo uma máxima tal, que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal."(KANT,2003, p.70)

A noção ética de Kant diz que devemos agir com os outros da uma maneira possamos agir com toda humanidade e da maneira como queremos que os outros ajam com conosco. Esse imperativo tem bases na chamada regra de ouro muito usada em várias tradições religiosas e prega que deves fazer com os outros o que espera que os outros façam contigo.

Uma ultima concepção ética importante é o chamado utilitarismo que tem como principais representantes Jeremy Betham e Stuart Mill. A regra moral dessa filosofia parte do pressuposto de que o bem é aquilo que se mostra útil em proporcionar o bem-estar para o maior numero de pessoas possível e o mal é o seu contrario. A ética utilitarista tem relações fortes com a idade contemporânea e toda ética do sistema econômico que se fixou no período atual.

Observamos que durante toda a história da filosofia e da ciência o homem se preocupou em tentar achar os critérios segundo os quais este poderia guiar sua conduta no sentido do bem e criar normas gerais para as suas condutas dos outros. Posteriormente o estudo das éticas também se dedicou em mostrar como as regras éticas e morais podem servir para fins de dominação, à serviço das classes burguesas (Karl Marx) ou a serviço dos fracos (Friedrich Nietzsche). Outro tipo de ênfase tem tomado o estudo da ética principalmente nas ciências humanas e sociais onde se enfatiza a pluralidade dos valores e a

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busca do entendimento de cada um e não mais tentar estabelecer o valor universal.

A Cidadania

A cidadania pode ser definida como uma visão do ser humano como munidos de dignidade intrínseca que lhes garante direitos de natureza política, civil e social. O noção de cidadania é uma herança da civilização grega clássica, onde significava a ação política na polis. A democracia grega clássica não era para todos os cidadãos e os grupos que podiam ser considerados cidadãos acabavam tidos como superiores. A cidadania era uma espécie de fonte de privilégios para um grupo de pessoas.

Em um processo histórico longo o conceito de cidadania foi reformulado ampliado e tem relações diretas com a noção de Estado Democrático de Direito. A noção de cidadania hoje se relaciona a um conjunto de liberdades e obrigações civis, políticas, sociais e econômicas. O cidadão é um individuo que tem as seguintes prerrogativas essenciais o direito à vida, à liberdade , ao trabalho, à moradia, à educação, à saúde, à escolha de seus representantes, à cobrança de ética por parte dos governantes e etc. Esses direitos devem ser preservados tanto na relação entre os cidadãos quanto na relação entre Estado e sociedade civil. O Estado mostra-se como o principal ator no processo de garantia da cidadania e dos direitos dos cidadãos a partir da fixação de um aparato de leis e normas.

A cidadania reflete os valores que são atribuídos aos homens que lhe capacitam ter poderes políticos nas decisões no nível das diversas estâncias do Estado. Deve-se ter cuidado em não simplificar a cidadania ao simples direito de votar. A capacidade de ação política dos cidadãos se estende para além do momento eleitoral. Um cidadão reconhece a si mesmo como um membro de seu país e passa a ter a sua disposição uma série de canais para participação, controle e influência das instituições político-sociais. Estes canais vão do direito de votar ao direito de ser votado; da liberdade de expressão à

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possibilidade de assumir cargos políticos. A cidadania tem um significado político muito valioso, pois permite que os indivíduos tenham mecanismos para melhorar sua situação através de vias pacíficas.

Na consolidação em nível internacional da valor do ser humano e da cidadania, a Declaração de Direitos Humanos é considerada um grande avanço. Formulada no ano de 1948, a Declaração representa a consagração de um conjunto de valores produto de um processo histórico tortuoso que levaram séculos para se definir e a obter um consenso alargado a nível mundial. Hoje, estes valores fundamentam um conjunto de direitos nas diversas nações e apesar de ser reconhecido o direito à diferença a cada Estado, as diferenças nas suas legislações internas não podem contudo contrariar o que está consignado na Declaração. Os valores gerais da Declaração são os seguintes: a Pessoa Humana como valor maior, a dignidade humana (integridade física e moral), a liberdade (pessoal, civil e política) Igualdade (de direitos, econômica, política e cultural) e a Solidariedade.

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Bibliografia

CHAUÍ, Marilena de Sousa. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005.

COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O Que e cidadania. 3. ed. Sao Paulo:

Brasiliense, 1995.

GALLO, Silvio,. Etica e cidadania: Caminhos da filosofia: elementos para o ensino de filosofia. Campinas: Papirus, 1997.

KANT, Immanuel,. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2003

SANCHEZ VAZQUEZ, Adolfo. Etica. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1970

VALLS, Alvaro L. M. O Que e ética. Sao paulo: Brasiliense, 2004.

Referências

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