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O conceito de violência escolar na perspectiva dos discentes

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O CONCEITO DE VIOLÊNCIA ESCOLAR NA PERSPECTIVA DOS DISCENTES

Brasília 2006

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação “Stricto Sensu” em Educação, da Universidade Católica de Brasília, como requisito para a obtenção do Título de Mestre, área de concentração Política e Administração Educacional.

(2)

Mestre em Educação, área de abrangência Política e Administração Educacional, defendida e aprovada, em 20 de setembro de 2006, pela banca examinadora constituída por:

Professor Doutor Candido Alberto da Costa Gomes

Orientador

Professora Doutora Clélia de Freitas Capanema

Examinadora

Professor Doutor Álvaro Chrispino

(3)
(4)

A Deus, por ter me concedido a graça de concretizar mais essa conquista.

Ao meu orientador, Professor Doutor Candido Alberto da Costa Gomes, pela importante contribuição intelectual.

Aos meus familiares, em especial, a Norma Tomaz Fernandes, dedicada irmã, pelo estímulo e pelas oportunidades dados a meus estudos.

(5)

Uma simples palavra humilde e boa, Que esclareça e reanime,

Traz consigo o milagre, amplo e sublime, Do amor que regenera e aperfeiçoa.

Um "sim" ou um "não", na graça de um sorriso, Uma frase de estímulo e ternura, Muitas vezes, restauram de improviso,

O coração chagado de amargura.

Mas a palavra contundente e rude, Que exprime acusação, miséria e ofensa,

Mata os germens da paz e da virtude E traz consigo as travas da descrença.

Freqüentemente, o golpe inesperado Do mal escuro que nos dilacera,

Procede do veneno disfarçado, Na língua que vergasta ou desespera.

Bendita a frase calma e enobrecida! Bendito o verbo doce, amigo e forte!...

Uma simples palavra traz a vida, Uma simples palavra traz a morte.

(6)

Este estudo, de natureza exploratória, teve em vista investigar o conceito de

violência escolar da perspectiva de discentes do Ensino Médio, comparando-o com a

perspectiva de docentes, também do Ensino Médio, segundo a pesquisa anterior desse

Programa. A partir das noções sobre violência, foi elaborado e aplicado um questionário em

uma escola pública e uma particular do Distrito Federal, em turmas de 1ª. série do Ensino

Médio regular de cada estabelecimento, os mesmos selecionados para a pesquisa sobre os

professores. A escolha da primeira série se deve à sua heterogeneidade, já que serve como

gargalo seletivo do fluxo de discentes oriundos do Ensino Fundamental, incidindo sobre ela,

com mais intensidade, o afastamento por abandono e a reprovação. Os dados mostram que

existe uma diferença significativa no modo como os discentes e docentes percebem a

violência, o que pode gerar potenciais conflitos. Os estudantes de ambas as Instituições não

conseguem aquilatar o possível prejuízo que a violência simbólica pode causar às relações

sociais. Dos dados obtidos destaca-se a existência de dificuldades na compreensão do

significado do conceito de “violência escolar” nas escolas pesquisadas, o que leva à

recomendação de que a partir de conhecimentos, atitudes e práticas de alunos e professores,

cada estabelecimento desenvolva canais de comunicação comuns com vistas a melhorar o

clima interno da escola e a aprendizagem.

Palavras-chave:

(7)

perspective of Secondary School students, compared to that of teachers at the same level,

thereby providing continuity to research previously conducted in this Program. Based on

conceptions of what constitutes violence, a questionnaire was developed and applied to

groups of Secundary School students and their teachers in both a public and a private school

in Brasilia (DF). Choice of this level was based on the group’s heterogeneity, serving as a

selective funnel for the flow of students completing Junior High School Education and

frequently reflecting a propensity toward a greater school dropout rate due to study

abandonment or grade failure. The data demonstrate a significant difference in the way

students and faculty perceive violence, leading to potential conflicts. Students from both

institutions were unable to evaluate the potential damage that symbolic violence could

provoke in social relationships. From the data obtained from the two schools studied,

regarding actions considered to constitute school violence, it becomes clearly evident that

there exists much difficulty in understanding the true significance of the concept of “school

violence”. This fact arises the need to develop clear communications code.

Keywords:

(8)

SUMÁRIO

RESUMO ... vi

ABSTRACT ... vii

INTRODUÇÃO ... 09

JUSTIFICATIVA ... 14

OBJETIVOS ... 18

CAPÍTULO I: PROBLEMA 1.1: Problema ... 19

CAPÍTULO II: REVISÃO DA LITERATURA ... 24

2.1: Visões históricas e sociológicas da escola ... 24

2.2: Escola e violência ... 35

2.3: Conceitos de violência escolar e suas manifestações ... 43

CAPÍTULO III: REFERENCIAL METODOLÓGICO ... 53

3.1: Modelo de estudo ... 53

3.2: Coleta de dados ... 54

3.3: Análise dos dados ... 54

CAPÍTULO IV: ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 57

4.1: Caracterização das Escolas ... 57

4.2: Identificação dos discentes ... 60

4.3: Percepção dos discentes sobre atitudes de violência, por Escola ...65

4.4: Percepção dos docentes sobre atitudes de violência, por Escola ... 74

4.5: Análise Gráfica das respostas dos discentes e docentes ... 79

4.5.1: Nível de Gravidade da violência, por Escola ... 99

4.6: Aspecto que contribui para a violência, por Escola ... 104

4.7: Providência efetuada pela direção, por Escola ... 108

4.8: Opinião sobre processo de aprendizagem e violência ... 112

4.9: Pessoa a quem procura quando sofre um tipo de violência na escola ... 114

4.10: Solução para restaurar a paz nas escolas ... 118

CONCLUSÃO ... 123

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 131

(9)

INTRODUÇÃO

A partir da década de 80, novo cenário econômico e produtivo se estabeleceu com o

desenvolvimento e o emprego de tecnologias complexas agregadas à produção e à prestação

de serviços e com a crescente internacionalização das relações econômicas. Em conseqüência,

passou-se a requerer sólida base de educação continuada para atualização, aperfeiçoamento,

especialização e requalificação de trabalhadores.

A par dessa reestruturação econômico-produtiva, despontou, igualmente, distinto

espaço social mundial, repleto de conflituosidades, desenhado nos espaços e nos tempos da

globalização, com a predominância da mercantilização do social e a destruição das

sociabilidades coletivas, ou seja:

[...] o mercado é agora a fundamental força motora das práticas e discursos sociais e políticos contemporâneos, com o desenvolvimento de novas formas de desigualdade social [...] (SANTOS, 2001, p. 113).

Por conseguinte, as instituições socializadoras vivem um processo de crise e

desinstitucionalização: a família, a escola, as empresas, as religiões e o sistema de Justiça.

Apesar de tal acirramento, pode-se dizer que a ocorrência de conflitos não constitui fenômeno

social recente. No entanto, pode-se afirmar que suas manifestações se multiplicam, assim

como os atores nelas envolvidos. O novo parece ser a multiplicidade de formas que assumem

na atualidade, algumas especialmente graves, chegando a se manifestar no que se pode

chamar de “cultura da violência”, com o envolvimento de pessoas cada vez mais jovens na

sua teia. Os fenômenos da violência difusa ambiental, étnica, social com caráter abrangente

-, adquirem novos contornos-, passando a disseminar-se por toda a sociedade e podem ser

exemplificados como violência ecológica, exclusão social, violência entre os gêneros,

racismo, violência na escola. Essa multiplicidade de formas de violência presente nas

(10)

No início do século XXI, a questão das conflituosidades - das modalidades de

violência, das metamorfoses do crime, da crise das instituições de controle social e dos

conflitos sociais - configura-se pela emergência de novos tipos de conflitos sociais:

[...] estamos em presença de um social heterogêneo, no qual nem indivíduos nem grupos parecem reconhecer valores coletivos. Esse contexto dá origem a múltiplos arranjos societários, a múltiplas lógicas de condutas. Se predominar tal situação, vale falar em sociedade fragmentada, plural, diferenciada, heterogênea (GROSSI e BORDINI, 1992, p.23).

Conformam-se novas questões sociais mundiais, seja porque os processos de

transformação pelas quais vem passando o trabalho afetam sua característica de integração

social, com uma configuração fundamentalmente marcada pela fragmentação (SANTOS,

2001), seja pela expansão dos fenômenos da violência difusa, para cuja explicação poderia ser

útil uma microfísica da violência.

Ao se retornar à definição de violência difusa, percebe-se que as distintas

configurações de violência presentes em cada um dos conjuntos relacionais que estruturam o

social podem ser explicadas caso se compreenda a violência como um ato de excesso,

qualitativamente distinto, verificado no exercício de cada relação de poder presente nas

interações sociais. A idéia de força, ou de coerção, supõe dano que se produz em outro

indivíduo ou grupo social, seja pertencente a uma classe ou categoria social, seja a um gênero

ou a uma etnia, seja a um grupo etário ou um cultural. Traduz-se por força, coerção e dano em

relação ao outro, como ato de excesso das relações de poder.

Na sociedade brasileira, pode-se verificar empiricamente a seletividade social das

vítimas: trabalhadores urbanos, moradores de bairros populares, pais, crianças, mulheres,

jovens, negros, índios. No que respeita ao sexo masculino, ocorrem acidentes de trânsito,

homicídios, uso de armas de fogo; aos jovens e aos adolescentes, abuso sexual e violência

doméstica; às crianças, castigos corporais e maus-tratos; e à mulher, violência sexual,

(11)

etnia, classe social, dentre outras). Assim, reina no País permanente estado de angústia e

insatisfação no que toca à violência em todas as suas manifestações. Esse sentimento se

estende à Educação, em geral, e à escola, em particular. Considera-se esta como parcialmente

injusta, dado que reproduz as diferenças sociais e apresenta falta de contextualidade, bem

como nela coexistem todos os problemas verificados na sociedade à qual pertence, dentre eles

a violência.

O sistema educacional deve proporcionar ao aluno as ferramentas intelectuais

básicas para assegurar sua capacidade de sobreviver e conviver adequadamente dentro da

sociedade local ou da global. Porém, o caminho para alcançar tal fim se encontra

normalmente repleto de emboscadas diversas e perversas, dentre elas a questão da violência

escolar. A escola não mais seria representada como lugar seguro de integração social,

socialização; ao contrário, tornou-se cenário de fatos violentos.

Em razão disso, a sociedade em geral hoje está preocupada com a violência no

ambiente escolar. A reflexão sobre o tema passa a enfocar também a chamada violência

simbólica em suas múltiplas formas de expressão, especialmente aquelas relativas às práticas

institucionalizadas na sociedade, incluindo-se manifestações diversas de discriminação.

Trata-se de problema que afeta o dia-a-dia de discentes, professores, diretores e

demais membros da equipe técnico-pedagógica da escola, prejudica o relacionamento entre os

membros da comunidade escolar, a qualidade do ensino, o desempenho dos estudantes e o

interesse deles pelo estudo, conforme demonstra a pesquisa nacional Violências nas Escolas,

coordenada pela UNESCO (ABRAMOVAY et al., 2002b).

O que vê no cotidiano escolar são relações do tipo bancário, conforme bem observou

Paulo Freire, na quais o professor deposita continuamente conteúdos em vasilhas sem vida

própria, que representariam a figura dos discentes. Isso implica uma educação baseada no

(12)

instituição destinada à educação. Esta educação bancária, a qual se referia Paulo Freire, nega

o diálogo, a construção coletiva do conhecimento (não crescem os discentes, nem o

professor), promove a alienação, forma cidadãos desconectados com à realidade, acríticos,

inconscientes, desprovidos de opinião. Resulta, assim, que ela é extremamente opressora e

não tem como finalidade a liberdade e a consciência crítica, criadora. O que ocorre na escola,

hoje, é a educação voltada aos interesses dos dominantes e dos opressores, que cada vez mais

exercem seu pleno poder.

Como resultado, nos últimos tempos, vêm-se desenvolvendo novas concepções acerca

da violência nas escolas, pelos significados que assume, ampliando-se sua definição, de modo

a incluir eventos que antes passavam por práticas sociais costumeiras. Nesse sentido, a

violência deixa de estar relacionada apenas à criminalidade e à ação policial, passando a ser

alvo de preocupações ligadas à miséria e ao desamparo político, uma vez que acarreta novas

formas de organização social concernentes à exclusão social e institucional e à presença de

atores em situação de “não-integração” na sociedade. (ABRAMOVAY et al., 2002c).

Do ponto de vista metodológico, este trabalho, de natureza exploratória, tentou

descobrir relações entre fenômenos, não só para conhecê-las, mas implicou complementar os

dados advindos de outras ordens sociais, com as observações de campo para chegar ao

conceito de violência escolar que contemplasse e refletisse os fatos relacionados à atividade

propriamente pedagógica, de modo a enriquecer a literatura e trazer mais uma contribuição

aos órgãos responsáveis pela condução das políticas educacionais. Assim, significou estudar a

escola em sua singularidade para abordar a conceituação de violência na escola nas

perspectivas de discentes, de professores de Oliveira (2003) e de discentes e equipe escolar da

(13)

Desse modo, a proposta de realizar trabalho referente à violência escolar não

pretende fazer generalizações, mas desenvolver novas idéias, novos significados, novas

compreensões sobre os problemas da escola e, portanto, contribuir para a implementação de

políticas educacionais que busquem solucionar o problema da violência escolar. Ao retratar o

cotidiano escolar, a pesquisa oferece elementos para melhor compreensão do papel da escola

(14)

JUSTIFICATIVA

Nos centros urbanos o aumento da violência e a constante participação de jovens em

atos violentos, ora como vítimas, ora como agressores, têm configurado um dos principais

problemas que a sociedade enfrenta no momento (WAISELFISZ e MACIEL, 1998). Essa

problemática vem preocupando educadores e pais, não somente no Brasil, mas também em

outros países.

Para Candau (2002), o debate sobre violência parece oscilar entre dois extremos: há

os que reduzem os comportamentos violentos àqueles referidos à agressão física, de maior ou

menor gravidade. Outros ampliam o conceito de violência de tal modo que toda manifestação

de agressividade, conflito ou indisciplina é considerada como violência.

No Brasil, a questão da violência e as violações aos direitos humanos, especialmente

as que atingem a vida e a integridade física dos indivíduos, são assuntos amplamente

debatidos em vários segmentos da sociedade, pois atraem o interesse dos meios de

comunicação de massa e constituem uma das maiores preocupações da população das grandes

cidades.

Essa nova questão social global, representada por manifestações de violência contra

a pessoa, roubos, furtos e depredações, até mesmo assassinatos, que se repetem em um

conjunto expressivo de sociedades nos últimos anos, vem evidenciando que se está em face de

uma conflituosidade que coloca em risco a função social das instituições, dentre elas a da

escola, a qual visa à socialização das novas gerações, mas tem se tornado local de explosão de

conflitos sociais (SANTOS, 2001).

A escola não existe desgarrada do contexto histórico-social, econômico e político da

sociedade (SAVIANI, 1980). Quando se trata de oferecer suporte teórico para a compreensão

(15)

compreensão das categorias referentes às determinações mais amplas da vida na sociedade,

não é possível entender o que se passa em qualquer recorte específico da realidade

humano-social (PARO, 2001).

Hoje se detecta não só a violência física, como a simbólica, praticada tanto por

discentes como por professores. No Reino Unido, nos últimos dez anos, a “intimidação”

(bullying) por colegas (crianças e adolescentes) representa um problema que causa sofrimento

tanto às vítimas da intimidação quanto aos espectadores, incapazes de intervir

(DEBARBIEUX, 2002b). Para autores da literatura inglesa, a expressão “violência na escola”

só deveria ser empregada no caso de manifestação violenta do conflito entre estudantes e

professores ou de atividades que causassem suspensão, atos disciplinares e prisão

(ABRAMOVAY et al., 2002b).

A violência nas escolas apresenta índices alarmantes, o que leva pais, mestres,

discentes e sociedade a pensar e repensar como agir diante de tão sério problema. Esse

fenômeno, que ultrapassou o muro das escolas e invadiu o espaço das salas de aula, é um dos

reflexos da violência que passou a dominar diversos setores da sociedade. Formar indivíduos

que se realizem como pessoas, cidadãos e profissionais implica incorporar ao cotidiano da

escola o cotidiano sociocultural. É preciso que os indivíduos sejam vistos como iguais,

tenham oportunidade de dialogar, expor seus anseios, necessidades e opiniões para que a

escola passe a ser vista como local de troca, de relacionamento interativo (GOMES, 2005).

Guimarães (1996, p. 25) analisa a violência escolar e relata o fato de que tanto pobres

quanto ricos, depredam o patrimônio da sociedade, porém:

(16)

Assim, instala-se correspondência entre exclusão social e violência escolar: a

violência é determinada socialmente. Tanto mais o público jovem é desfavorecido em termos

econômicos e culturais, tanto mais ele experimenta exclusão, não só de oportunidades

econômicas, mas também de prestígio social, o que resulta em agravamento de sua

auto-estima e de sua perspectiva de futuro (SANTOS, 2001). Ocorre que a violência é também

praticada por grupos de poder aquisitivo elevado, evidenciando a crise de valores na raiz de

grande parte dos atos e práticas violentas na pós-modernidade (GOMES, 2005).

A escola pode amplificar a violência ou contribuir para a construção da paz na

sociedade. Há causas de diversos tipos, desde fatores sociais até variáveis de natureza

psicológica, relacionadas às diferenças individuais e ao funcionamento da família

(DEBARBIEUX, 2002). O amplo espectro de manifestações da violência precisa de

categorização que reflita com precisão as perspectivas dos envolvidos, professores e

discentes, pois se podem deixar invisíveis certos tipos e dimensões de violência relevantes

(PARO, 2001).

Nas discussões atuais sobre a qualidade da Educação e a missão da escola,

especialmente nas esferas oficiais, nota-se que a educação escolar vem sendo considerada

como processo que permite às crianças acessar uma cultura universal, pela qual possam

construir autonomia pessoal. Mesmo se discutindo a importância das “variáveis de contexto”,

as proposições para as escolas, os currículos, os métodos, os processos avaliativos retomam

certo paradigma de neutralidade, universalidade, passando ao largo da consideração dos

processos de massificação e de diferenciação social e cultural em que crianças e jovens estão

inseridos, processos esses que implicam diferenciais de códigos intelectuais, comportamentais

e de linguagem. Quando a questão é relativa a como melhorar o sistema escolar, não há como

(17)

integrante dos processos de mudança. Escolhas políticas e ações decorrentes podem

potencializar processos de superação de desigualdades ou reforçá-los (CASASSUS, 2002).

Segundo Camacho (2001), a escola brasileira estaria passando por uma “crise de

socialização”, responsável pela ocorrência de comportamentos violentos nas escolas, oriunda

tanto dos problemas de gestão e das tensões internas quanto da desorganização da ordem

social exterior à escola que se manifesta mediante a exclusão social e institucional, a crise e o

conflito de valores e o desemprego. Para Debarbieux (1998, p.187):

[...] esse angustiante sentimento de vulnerabilidade, expressa a existência de uma tensão social, que desencadeia insegurança no cotidiano das pessoas, mesmo não sendo elas vítimas diretas de crimes e delitos [...].

O cotidiano escolar, além de incorporar as ameaças de uma sociedade pode estar

produzindo, ele mesmo, conflitos e exclusões. Segundo Bourdieu (2002), tratando-se de

pensar o mundo social, a força do pré-construído está em que, achando-se inscrito ao mesmo

tempo nas coisas e nos cérebros, ele se apresenta com as aparências da evidência que passa

despercebida porque é perfeitamente natural.

Pelos significados que assume as novas concepções acerca da violência na escola,

Debarbieux (2002b) entende não haver um conhecimento total acerca da violência na escola

porque ela só pode ser representada de modo parcial. Para o pesquisador, na tentativa de

estabelecer uma definição objetiva, limitada acerca do fenômeno, pode-se excluir a

experiência de algumas das vítimas, ignorando o fato de que a pior violência deriva da

“microviolência”, bem como impedir que as vítimas possam dizer o que sentem. Assim

apresentamos, nesse trabalho, alguns eixos teóricos que revelam a micro e a macroviolência e

a percepção de discentes e docentes de duas escolas de lª série do Ensino Médio do Distrito

(18)

OBJETIVOS

GERAL

Estabelecer relação entre os conceitos de violência existentes na literatura e o

de violência escolar na perspectiva dos discentes, com vistas a contribuir para a

implementação de políticas educacionais que busquem solucionar o problema.

ESPECÍFICOS

− Identificar as diferentes formas de manifestação de violência, na perspectiva

dos discentes;

− Identificar as reações da escola em face da violência, na perspectiva dos

discentes;

− Identificar as repercussões da violência nos estudos e na interação social na

escola,na percepção de discentes;

− Identificar a concepção de discentes e docentes sobre a conceituação de

(19)

CAPÍTULO I

1.1: O PROBLEMA

A violência acomete o mundo contemporâneo em todas as suas instâncias e se

manifesta de variadas formas. Ela está presente em toda a sociedade e não se restringe a

determinados espaços, a determinadas classes sociais, a determinadas faixas etárias ou a

determinadas épocas. É equivocado pensar que ela se vincula apenas e diretamente à pobreza,

aos grandes centros urbanos, aos adultos e aos dias de hoje. Verifica-se, por exemplo, o

crescimento das práticas de violência entre os jovens de classe média e de segmentos

privilegiados da sociedade, nos seus diferentes espaços de atuação: na família, na escola ou na

rua (CAMACHO, 2001), o que provavelmente está relacionado à aludida crise dos valores

sociais.

Debarbieux chama a atenção para relevantes mudanças no que é considerado

violência. Enquanto Chesnais, 1981 (apud ABRAMOVAY et al., 2002b) destaca o fato de

que existem várias concepções de violência, as quais devem ser hierarquizadas segundo seu

custo social, como a violência física que pode resultar em danos irreparáveis à vida dos

indivíduos e, conseqüentemente, exige a reparação da sociedade mediante a intervenção do

Estado; a violência econômica, que se refere somente aos prejuízos causados ao patrimônio, e

a violência que tem por foco a idéia de autoridade, que possui forte conteúdo subjetivo, a

violência moral ou simbólica.

Além disso, a descrição do fenômeno violência tem incorporado várias formas de

manifestação, tais como o suicídio, o espancamento, o roubo, o assalto e o homicídio, a

agressão sexual, o assédio moral, os acidentes de trânsito, bem como todas as formas de

(20)

necessidade de identificar diferentes formas de violência e definir seus significados

(ABRAMOVAY, 2002a). Mesmo oculta, não-verbal, abafada, a violência transpira por meio

dos não-ditos, dos subentendidos, das reticências. Essa distorção na comunicação tem por

finalidade poder usar o outro, para que ele continue não compreendendo nada do processo em

curso e fique ainda mais confuso. O blecaute sobre as informações é essencial para reduzir a

vítima à impotência (HIRIGOYEN, 2002).

No que toca à educação, a centralidade do conhecimento nos processos de produção

e organização da vida social rompe o paradigma segundo o qual aquela seria um instrumento

de conformação. Disciplina, obediência, respeito restrito às normas estabelecidas, condições

até então necessárias para a inclusão social, perdem a relevância, em face das novas

exigências colocadas pelo desenvolvimento tecnológico e pelo social (OLIVEIRA, 2004). Se

o antigo paradigma tem essas características, na verdade ainda não surgiu um novo, mas

vivemos situação de incerteza, dubiedade, relativismo e desafiliação (GOMES, 2005).

Nos últimos anos, multiplicaram-se, na América Latina, as iniciativas destinadas a

produzir mudanças e a melhorar a qualidade e a eqüidade da educação. Os governos

elaboraram reformas e programas de naturezas diferentes, havendo uma grande ativação do

meio educacional, mas também existe a percepção de que essas iniciativas não conseguem a

penetração desejada nas escolas e nas salas de aula. Percebe-se, ainda, que há pressão sobre o

sistema, com aumento de programas, intervenções e avaliações (CASASSUS, 2002). Dentre

os programas, muitos se voltam ao tema da violência na escola como, por exemplo, “Abrindo

Espaços” (WAISELFISZ e MACIEL, 2003).

As reflexões sobre as profundas mudanças da modernidade e do esgotamento desta

com o surgimento da pós-modernidade subtraem grande parte dos paradigmas do consenso e

do conflito da educação (GOMES, 2005). A visão da escola, local de aprendizado e formação

(21)

drogas, a de área de ação de gangues, a de palco para embates discriminatórios e a de local

onde as contradições sociais e econômicas podem desencadear reações violentas, que deixam

cada vez mais vítimas.

As conseqüências da violência na sociedade encontram-se também no ambiente

escolar. Trata-se de um problema que preocupa discentes, professores, diretores e demais

membros da equipe técnico-pedagógica da escola, prejudica o bom relacionamento entre os

membros da comunidade escolar, ameaça a qualidade do ensino, o desempenho dos

estudantes e o interesse deles pelo estudo, conforme demonstra a pesquisa nacional

“Violências nas Escolas”, coordenada pela UNESCO (ABRAMOVAY et al., 2002b). Este

estudo captou vários tipos de manifestação de violência nas escolas que estão relacionados

sobretudo a uma realidade social de pobreza e exclusão social.

A escola não seria mais representada como lugar seguro de integração social, de

socialização; ao contrário, tornou-se cenário de ocorrências violentas. Abramovay (2002)

ressalta que a reflexão sobre o tema passa a focalizar, também, a chamada violência simbólica

em suas múltiplas formas de expressão, especialmente aquelas relativas às práticas

institucionalizadas na sociedade, incluindo-se aí manifestações diversas de discriminação.

Para Bernard Charlot, definir e delimitar as fronteiras da violência escolar é difícil,

pois o significado de violência não é consensual. O que é caracterizado como violência varia

em função do estabelecimento escolar, do status de quem fala (professores, diretores,

discentes), da idade e, provavelmente, do sexo (apud ABRAMOVAY, 2002a).

A escola hoje está passando por uma crise, relacionada à socialização, e tem

enfrentado dificuldades na transmissão das normas e dos valores gerais da sociedade. Essa

crise gera um espaço no qual os discentes constroem uma experiência significativa, muitas

vezes fora da própria escola ou contra ela, ou dentro, mas a despeito dela (DUBET, s/d). A

(22)

significado quando se atenta para a característica da educação como atualização

histórico-cultural de indivíduos (PARO, 2001). Ou seja, as soluções educacionais se encontram na raiz

da violência nas escolas que, conforme dados, tem impacto sobre a sociabilidade, a qualidade

do ensino e o aproveitamento dos discentes.

Vários autores, tanto no Brasil como no exterior, frisam a importância de diferenciar

a violência que vem de fora e aquela que propriamente identificam como violência escolar –

que nasce no interior da escola ou como modalidade de relação direta com o estabelecimento

de ensino. Insistem no papel das desigualdades sociais como “potencializadoras” de violência,

bem como na banalização da violência, isto é, no fato de diretores e discentes, em alguns

casos, não considerarem como violência atos que o seriam por outros parâmetros

(ABRAMOVAY, 2002a).

Uma das manifestações de violência entre discentes que tem sido objeto de maior

atenção por parte da investigação educacional é o fenômeno bullying (intimidação, em

português) ou maus-tratos entre iguais. Os maus-tratos entre iguais configuram diferentes

formas de agressão que podem ser categorizadas em: bullying físico – atacar fisicamente outra

pessoa, roubar ou danificar os seus pertences; bullying verbal – chamar nomes, opor-se com

atitude desafiadora e ameaçar; bullying indireto – espalhar rumores pejorativos, excluir

socialmente (VEIGA, FREIRE e FERREIRA, 2004). Segundo Neto (2004), ao sofrer a

violência do tipo bullying, tanto as crianças como os adultos, sozinhos, não têm como se

defender. Os colegas, embora digam repudiar esse tipo de violência psicológica e sintam

pena, declaram que nada podem fazer para defendê-la, com medo de serem as próximas

vítimas. Também os estudos realizados por Debarbieux (2002) revelam que este é um

problema que ocorre em todos os níveis de ensino, área geográfica ou demográfica. As

crianças que sofrem intimidação vêm a ter menos amigos, apresentar mais tendência à

(23)

acadêmico e de saúde. A cada ano, muitos jovens cometem suicídio tendo a intimidação por

colegas como uma das causas.

Diante da gravidade dos problemas verificáveis na realidade da escola e dos diversos

tipos de violência apontados pela literatura, é preciso chegar a um conceito de violência

escolar que contemple e reflita o fato relacionado à atividade propriamente pedagógica. No

entanto, tal conceituação, por mais precisa, não pode superestimar ou subestimar a violência.

Este Projeto visa abordar a conceituação de violência na escola na perspectiva dos discentes,

com vistas a contribuir para a implementação de políticas educacionais que busquem

(24)

CAPÍTULO II

REVISÃO DA LITERATURA

2.1: Visões históricas e sociológicas da escola

Ao mesmo tempo em que o gênero humano evoluiu, transformando a natureza

através do trabalho, o ser humano também desenvolveu idéias, valores e crenças sobre seu

modo de vida. Esse fato permitiu que ele se preocupasse em transmitir suas experiências

cotidianas a seus semelhantes. Sob tal ângulo, a História consiste, pois, nas respostas dadas

pelo homem à natureza, aos outros homens, às estruturas sociais na tentativa de ser

progressivamente, cada vez mais, o sujeito de sua práxis, ao responder aos desafios de seu

contexto.

Consiste, também, numa cadeia continua de épocas, caracterizadas por valores,

aspirações, necessidades, motivos. Uma época se cumprirá à medida que seus temas sejam

captados e suas tarefas realizadas; tornar-se-á superada quando seus temas e suas tarefas não

forem mais pertinentes às novas necessidades emergentes.

[...]Nesse sentido é lícito dizer que o homem se cultiva e cria a cultura no ato de estabelecer relações, no ato de responder aos desafios que a natureza coloca, como também no próprio ato de criticar, de incorporar a seu próprio ser e de traduzir por uma ação criadora a experiência humana feita pelos homens que o rodeiam ou que o precederam [...] (MIZUKAMI, 1996, p. 85-103).

Em tal contexto, a Sociologia recebe papel de destaque no estudo das teias sociais,

inclusive do processo educativo e da estrutura escolar: essa ciência investiga a realidade não

somente do ponto de vista da estrutura formal desta. A sistematização do exame sociológico

busca desvendar a formação dinâmica da escola, considerando-a como grupo o qual interage

(25)

(escolas e forças sociais) evidenciará que, em ambas, as condutas se pautam por valores

compartilhados por elas (CHRISPINO e CHRISPINO, 2002).

No que se refere à sociedade de seu tempo, em meados do século XIX e início do

XX, Durkheim (1857-1917), denominado pai da Sociologia da Educação, admitia que a

sociedade passava por uma crise, embora houvesse progredido muito; porém, a coletividade

não se adaptou a esse novo estado de coisas. Ele acreditava que, com os problemas sociais,

havia momentos em que a sociedade, que se apresentava como corpo social muitas vezes

semelhantes ao corpo humano, adoecia. O que o mantinha saudável era a moral, denominada

de consciência coletiva. A função da moral social consistia em manter a ordem. No momento

em que ela deixava de existir ou quando perdia sua eficácia, despontavam problemas na

sociedade (MEKSENAS, 1994).

Durkheim, segundo Meksenas (1994), percebeu que a convivência em sociedade era

impossível sem a Educação, elemento adaptador e normalizador da integração

indivíduo-sociedade. Assim, a escola, mediante suas normas e seus conteúdos devia inculcar nas pessoas

os valores sociais. A supervisão sobre as normas e os conteúdos a serem repassados ficaria a

cargo do Estado. A tarefa que cabia à Educação não era transformar ou revolucionar e, sim,

reproduzir os valores morais dessa sociedade, integrando os indivíduos e tentando ao máximo

corrigir alguns aspectos sociais considerados negativos. Assim, numa sociedade organizada

pela moral social, podia ocorrer que alguns não se adaptassem à moral a que estavam sujeitos;

isso originava os problemas basilares de nossa sociedade. O conflito básico consistia nos

interesses individuais contra os sociais.

Durkheim (apud OLIVEIRA, 2003) foi também pioneiro do exame sociológico da

escola e da sala de aula. Por meio do estudo da moralidade, desenvolveu teorias consistentes

sobre a função da Educação: a de servir de paradigma do consenso. Sobre o papel da escola

(26)

discentes regularidade e autodomínio, características com as quais as crianças nasciam. No

entanto, a capacidade de desenvolver hábitos e a sugestionabilidade, parte de sua natureza,

eram predisposições básicas que as expunham à influência dos educadores. A partir delas, a

escola desenvolvia a disciplina. Essa não era, contudo, simples recurso para assegurar a

ordem na sala de aula. Ela representaria a moralidade da sociedade e prepararia para a vida

adulta. Por isso, as sanções não deveriam exercer papel preponderante na educação.

As concepções de Durkheim sobre a educação moral, segundo Gomes (1994), se

ligavam à sua fundamentação positivista. Para o sociólogo, cada um de nós possuía um ser

individual e um social: o primeiro era egoísta, ao passo que o último era altruísta –

desenvolvido pela Educação. O ser social seria valorizado positivamente, pois graças a ele

existiam a vida social e o respeito mútuo. Logo, o ser social era moralmente superior ao

individual, e a Educação, um processo não só de destaque como legítimo. Durkheim não

admitia a possibilidade de antagonismo entre o indivíduo e a sociedade, uma vez que esta

transcendia o indivíduo, e a Educação era uma forma de restabelecer valores sociais: ela se

configurava como um dos meios de que a sociedade se valeria para desenvolver na pessoa o

altruísmo. Para exercer tal papel, a Educação seria brandamente coercitiva e efetiva para

internalizar nos indivíduos os significados sociais.

Durkheim pensou a Educação como influência unilateral dos adultos sobre os que ele

chamou os “imaturos”. Como Piaget afirmou aquele desconheceu a existência de uma

sociedade das crianças; parecia não conhecer outra sociedade além da dos adultos. Durkheim

nem mesmo reconhecia a existência de vários tipos de autoridade adulta, que podiam impor

tipos distintos de normas diferentes e até conflitantes (apud OLIVEIRA, 2003). O Sociólogo

possuía visão conservadora da sociedade e da Educação e considerava a escola como

instituição integradora, já que esta seria o meio adequado para transmitir a educação moral e

(27)

seria o modo de desenvolver a educação moral: apreensão dos valores morais, base da ordem

social.

Talcott Parsons, 1959 (apud GOMES, 1994), por sua vez, concebeu a sala de aula

como uma agência de socialização pela qual as personalidades são preparadas para

desempenhar papéis de adultos. A escola contribui para a implementação dos valores amplos

da sociedade e para a representação de tipos definidos de papéis na estrutura social. Além

disso, desenvolve habilidades, como a competência para executar tarefas inerentes aos grupos

sociais e responder às expectativas de outras pessoas. Conforme o Autor, a escola detém o

papel de primeira agência de socialização da criança, na qual se institucionaliza a diferença de

status em bases não biológicas. Tal diferenciação acarreta em distinguir os discentes

progressivamente consoante seus méritos. Com isso, a escola exerce uma função relacionada

à alocação de mão-de-obra (OLIVEIRA, 2004).

A “Teoria do Funcionalismo Moderno”, cujo maior mentor foi Parsons, viu a escola

como agente de controle social. A obediência seria alcançada por meio da internalização de

regras e valores pelas crianças. O ordenamento das relações sociais e a concordância com

respeito a fins e meios eram enfatizados. A escola constituía, enfim, uma instituição que

contribuiria para a construção do consenso social e da continuidade do conhecimento e da

experiência adquiridos.

Apreende-se que Willard Waller (1967) formulou outra visão, pioneira, de novo

paradigma, o do conflito. Percebeu as escolas como centros de difusão que levavam padrões

culturais dos grupos mais amplos às comunidades locais (GOMES, 1994). Waller citou como

exemplo o conflito constante entre professores e discentes. Os primeiros representavam a

cultura do grupo mais amplo e a do mundo adulto; os últimos, a cultura da comunidade local e

a de adolescentes e crianças que ocorriam nos espaços do mundo adulto. Dessa forma, os

(28)

visava ao conhecimento de fatos e ao aprendizado de habilidades, para os quais os interesses

espontâneos dos estudantes em geral não ofereciam suficiente motivação. Em tal cenário,

muitas vezes os mestres exigiam dos estudantes o domínio de certos assuntos e aptidões em

grau mais elevado do que estes atingiram, caso dispusessem de liberdade de escolha.

Já para Cândido (1976, p.107), a estrutura de uma escola, na modernidade, seria algo

mais amplo, compreendendo não apenas as relações ordenadas conscientemente, mas todas as

que derivassem da sua existência como grupo social. O conhecimento adequado da realidade

escolar só podia efetuar-se mediante a análise sociológica que ilustrasse a realidade, dando

acesso à dinâmica das relações. Cada escola manteria certo grau de autonomia interna - uma

ordem que lhe é específica - similar à de muitas outras, mas diferente da de outros tipos de

grupos. Ademais, sua dinâmica interna daria lugar às formações específicas mantidas por um

sistema de normas e valores também internamente desenvolvidos.

A diferenciação da escola dependeria, em parte, da estrutura social externa, de tal

forma que diversas escolas de uma região, ou um país, apresentariam similaridades não

apenas da superordenação estabelecida pelos grupos institucionalizadores, bem como da

própria vida social desenvolvida. O que mais influiria no sistema de status da escola eram os

fatores de sua sociabilidade interna, influenciados pelas condutas que tecessem nos grupos de

ensino onde nasceram e se desenvolveram quase todas as relações que tiveram lugar entre

professor e aluno. Segundo Cândido (1976, p. 108), a escola constituiria ambiente social

peculiar caracterizado pelas formas de tensão e acomodação entre administradores e

professores - representando os padrões cristalizados da sociedade - e os imaturos, os quais

deveriam equacionar na sua conduta às exigências desta com as de sua sociabilidade.

No pensamento clássico, a sociedade se configurava como noção central, realidade

altamente integrada e integradora, cuja representação da sociedade estaria na “ordem e

(29)

representava a realização de um papel integrado, interiorizando normas e princípios

reconhecidos pelos atores e visando à coesão do sistema.

Paulo Freire (1978) revela novo ponto de vista sobre a relação educação, indivíduo e

escola. Para ele o homem seria o sujeito da educação e, apesar de ênfase no sujeito,

evidenciar-se-ia tendência interacionista, já que a interação homem-mundo, sujeito-objeto, era

imprescindível para que o ser humano se desenvolvesse e tornasse agente de sua práxis.

Segundo tal abordagem, a Educação, para ser válida, dever-se-ia levar em conta

necessariamente tanto a vocação ontológica do homem (vocação de ser sujeito) quanto as

condições nas quais ele vive (contexto). O homem chegaria a ser sujeito pela reflexão sobre

seu ambiente concreto: quanto mais ele refletir sobre a realidade, sobre sua situação concreta,

mais se tornaria progressiva e gradualmente consciente, comprometido a intervir na realidade

para mudá-la.

Segundo Gomes, (1994), Metz (1979) analisou o “mito do controle coercitivo”, tal

qual Waller (1967) o constatava. Para Metz, conforme as sanções coercitivas eram usadas

consistentes e rapidamente contra os transgressores, a ameaça de coerção em si passava a ser

suficiente e o uso dela tornava-se desnecessário. Assim, a aceitação dos procedimentos

disciplinares pelos discentes, sem reflexão sobre eles; o desconhecimento das infrações dos

colegas; o temor aos adultos e o medo de desaprovação simbolizavam a ingenuidade das

crianças. Contudo, quando viam número significativo de colegas transgredindo as normas, a

infração tornava-se uma conduta a ser considerada; a partir daí, os discentes desafiavam a

ordem, e o “mito do controle” ruía por terra, porquanto era, na realidade, muito limitado.

Por conseguinte, a escola era dotada de modo característico de integração social,

centrado em ofertar e receber do processo de ensino. A “cultura da escola” - distinta de outras

- concretizava-se como mistura do trabalho dos jovens “artesãos”, os quais elaboravam

(30)

princípio da autocracia, uma vez que professores e discentes eram grupos em conflitos. Como

um dos objetivos de uma teoria avançada consistiria, inexoravelmente, em reduzir o conflito

entre professores e discentes, a escola precisaria se apoiar no despotismo. No entanto, tal

comportamento se encontrava em estado de instabilidade: pais (e adultos em geral) o exigiam,

mas era exercido sobre as crianças, exatamente os membros sociais mais instáveis. Ademais,

a autoridade da escola podia, a qualquer instante, ser ameaçada por discentes, pais,

autoridades educacionais, dentre outros agentes. Esse processo acontecia de forma cíclica: a

escola era continuadamente ameaçada por ser autocrática, mas tinha de sê-lo porque era

ameaçada. Dessa forma, as forças antagônicas obtinham certo equilíbrio mediante a

disciplina.

Para Happer (1980), os discentes advindos de classe social menos favorecida vinham

tendo maior acesso à escola. Entretanto, suas possibilidades de êxito permaneciam menores

do que as dos discentes advindos de outras classes sociais. O cotidiano escolar, além de

incorporar as ameaças de uma sociedade, poderia estar produzindo, ela mesma, conflitos e

exclusões.

A Constituição Federal (BRASIL, 1988, p. 49), no Cap. III, Seção I art. 205,

estabelece que a educação será promovida e incentivada visando o pleno desenvolvimento da

pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Igualmente, consta na Lei Federal nº 9.394/96, art. 22 (BRASIL, 1996, DOU seção 1 p.

27839), que “a educação tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu

preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Mas a cidadania só

adquire forma própria quando provém do indivíduo, portanto, é primordial a existência dele

para que ela deixe de ser algo apenas teórico ou privilégio de alguns, e passe a permear as

relações sociais e políticas. Assim, para que haja uma educação de cidadãos, é preciso que

(31)

expor seus anseios, necessidades e opiniões, para que a escola passe a ser vista como local de

troca, de relacionamento interativo, e não de imposições e regras.

Na pós-modernidade, a sociedade como totalidade se encontrava em declínio,

dissolvida numa rede de sistemas, uma sociedade determinada pela multiplicidade da formas

de conflito. Nela, os atores não poderiam ser mais reduzidos a um só tipo de papel

programado, nem atuar segundo uma lógica única e definida: o ator e o sistema se separavam.

O indivíduo se destacaria pela capacidade de distanciamento; a dispersão se torna regra. Não

existiria conflito central muito menos um paradigma único da ação social; havia explosões

sociais localizadas da unidade social e uma pluralidade de sistemas.

A velocidade dos progressos científico e tecnológico e a transformação dos processos

de produção tornaram o conhecimento rapidamente superado, exigindo atualização contínua e

colocando novas exigências para a formação do cidadão. Nessa conjuntura, a Educação

perdeu sua ordem e sua unidade. A instituição, concebida como um conjunto de papéis e de

valores fabricando indivíduos e personalidades, transformou-se, originando a “escola de

massa”, que funcionaria como um mercado, no qual cada um agiria em função de seus

recursos, em uma concorrência surda entre os grupos sociais, as áreas de estudo e os

estabelecimentos (DUBET, 1994).

Para o sociólogo Dubet (1994), o mundo social já não possuía centro, nem

comportava visão unificada. Assim, a separação das identidades culturais, da racionalidade

instrumental e da ação política acendia o sinal de que a Sociologia Clássica necessitava

desembocar em novas perspectivas. Isso remetia à necessidade de se descobrir uma nova

forma de fazer escola, já que a instituição declinava na pós-modernidade. Dubet, propôs,

então, construir a noção de experiência social, noção esta que designa as condutas individuais

e coletivas dominadas pela heterogeneidade dos seus princípios constitutivos e pela atividade

(32)

heterogeneidade”. A experiência se caracterizava pela heterogeneidade dos princípios

culturais e sociais que organizavam as condutas (apud GOMES, 2005).

Para Gomes (1994), a Sociologia apresenta duas abordagens que levam a diferentes

visões da escola. O paradigma do conflito enfatiza as tensões e as oposições entre professores

e estudantes. A escola foi vista como instituição que impunha certos valores e padrões

culturais. O paradigma do consenso, por seu turno, destaca os valores comuns e a cooperação

entre professores e discentes, de modo que a escola funcione como elemento de integração e

continuidade entre gerações.

Esperava-se que a instituição socializasse os discentes em uma cultura comum, que

proporcionasse formações úteis que permitissem o desenvolvimento da personalidade.

Contudo, as competências desejáveis ao pleno desenvolvimento social não garantiriam

homogeneização das oportunidades sociais.

[...] A massificação da educação trouxe para dentro do universo escolar um conjunto diferente de discentes, sendo certo que a escola, da maneira como estava organizada e como foram formados os professores só estaria preparada para lidar com discentes com formato padrão e perfil ideal. A massificação ampliou o número de discentes e trouxe um aluno de perfil diferente daquele com o qual a escola se preparou para lidar. Isso acarretou uma desestabilização da ordem interna histórica. Assim se criou o conflito [...] (CHRISPINO e CHRISPINO, 2002, p. 39).

Consoante Sposito (2001), ao mesmo tempo em que o Estado detinha o dever de

proporcionar a todos educação de qualidade, novas formas de exclusão social eram

desencadeadas pela não-garantia do cumprimento desse dever. A seletividade se estabelecia

entre os que podiam acessar e os que não podiam. Os que participavam da educação

organizada e sistematizada eram considerados os que sabiam, os que possuíam cultura. E

assim, aumentava a exclusão social no sistema educativo. A escola, por muitas vezes,

continuava reproduzindo a divisão da sociedade em categorias sociais distintas, legitimando

(33)

A preocupação com a compreensão dos fenômenos que aconteciam na realidade

escolar ganhou maior significado quando se atentou para a característica da educação como

atualização histórico-cultural de indivíduos (PARO, 2001). Ou seja, o conceito de homem não

incluiria apenas suas características naturais, mas também aquilo que ele construísse durante

seu desenvolvimento histórico. No século passado, a educação era vista como grande

introdutora dos processos de socialização dos sujeitos; esperava-se que os professores os

conduzissem à sua adaptação social, ao controle das suas sexualidade e agressividade

(MRECH, 2003).

Para Santos (2001), como efeito dos processos de fragmentação social e exclusão

econômica e social, emergiram as práticas de violência como norma social. Essa nova questão

social global, configurada por manifestação de violência, evidencia que se estava diante de

uma conflitualidade que colocava em risco a função social de socialização das novas gerações

pela escola. O sistema escolar estava em crise, sem resposta para explicar e ensinar em uma

situação de crise das oportunidades de ganhar a vida, pois se tratava de um mundo de

carência, tentativa de alcançar equipamentos coletivos mínimos em um horizonte de exclusão

social

Segundo Bourdieu (2002) tratava-se de pensar o mundo social, em que a força do

pré-construído repousaria em que, achando-se inscrito ao mesmo tempo nas coisas e nos

cérebros, ele se apresentava com os indícios da evidência que passa despercebida porque é

perfeitamente natural. A história era também uma ciência do inconsciente. Propôs então

construir a noção de experiência social, noção esta que designa as condutas individuais e

coletivas denominadas pela heterogeneidade dos seus princípios constitutivos e pela atividade

dos indivíduos que devem construir o sentido das suas práticas no próprio seio desta

(34)

Dentro dessa realidade do novo mundo, para Chrispino e Chrispino (2002), a escola

não estava preparada para lidar com a massificação e com a existência de discentes diferentes,

quer no campo da gestão, quer no campo da relação pessoal, quer no campo do conhecimento.

Esse conjunto de fatos endógenos e exógenos à escola gerou grande conflito institucional e

tornou-se obstáculo aos decisores de políticas educacionais. Por conta das dificuldades que

encontrou em razão da sua inadequação para lidar com a realidade educacional

contemporânea, a escola não respondeu às expectativas nela depositadas pela sociedade.

Ademais, além de ser uma caixa de ressonância social, possuí seus próprios campos

de relação e cria conflitos específicos nas relações com a comunidade, como também nas de

diretor/professor, professor/professor, professor/aluno e aluno/aluno, com características

próprias. Assim, o que era genérico e global assumiu desenhos específicos, o que indicou que

cada escola contava com seu campo facilitador de violência (CHRISPINO e CHRISPINO

2002). O conflito resultava dos “diferentes e das diferenças” no espaço escolar e participa do

processo comum de interação de uma sociedade aberta. Os conflitos tendem a assumir função

estabilizadora, resultando em exercício salutar para estabelecer novas alianças e

transformação social.

Presencia-se, hoje, a fragmentação do modelo clássico de análise da sociedade e a

multiplicidade de paradigmas que convidam a aceitar uma diversidade de tipos de explicação

e a conceber a sociedade como um todo desprovido de centro (DUBET, 1994). Cabe, então,

mudar de perspectiva e analisar os processos reais de socialização como formadores de

indivíduos. As crianças se socializam e se formam como indivíduos na experiência escolar.

Acontece a mesma coisa com a escola, a família e a religião: a instituição carrega peso menor

que os sentimentos pessoais ou a fé. Os fins da escola perderam sua clareza e sua unidade; ela

não pode mais ser tomada como instituição, porquanto encontra dificuldade em administrar as

(35)

inteiro e as instituições parecem não serem mais capazes de enquadrar novas demandas que

traduzem uma ânsia de reconhecimento e de respeito de sua especificidade, seja na Igreja, na

família, na escola (WAUTIER, 2005).

Para Gomes (2005), as reflexões sobre as profundas mudanças da modernidade e do

esgotamento desta com o surgimento da pós-modernidade subtraem grande parte dos

paradigmas do consenso e do conflito da escola. A instituição de ensino caracteriza-se pela

complexidade de sua estrutura, em que se verifica uma diversidade de grupos que

constantemente interagem, de modo informal, conforme decisão dos discentes e, não, dos

adultos. Tal inter-relacionamento acarreta a integração do ambiente escolar, uma vez que

todos partilham de regras e valores comuns determinados por distintas variáveis, tais quais a

faixa etária dos estudantes, a comunidade em que vivem, dentre outras.

Embora se concretize essa integração, ela não consegue dissipar conflitos que

também surgem dentro da escola, oriundos das diferentes idéias, conceitos, valores e objetivos

dos grupos e dos subgrupos formados na instituição (GOMES, 2005). Os atores adotam

simultaneamente vários pontos de vista, numa torrente de identificações sucessivas, com o

indivíduo situado no entrecruzamento de vários círculos sociais, sem, no entanto, participar

integralmente de nenhum deles.

2.2: Escola e violência

Para Chrispino e Chrispino (2002), a escola além de ser caixa de ressonância social e

sofrer as conseqüências da sociedade onde está inserida, cria seu próprio campo de relação,

tem seus conflitos específicos e características próprias nas relações escola/comunidade,

(36)

Também, segundo Morais (1995, p. 57), a pedra angular do inter-humano e

minimizador da violência é o conceito de relação, que define a existência e permite distinguir

agregados humanos (simples conglomerados) de agrupamentos sociais. Para ele, o

autoritarismo no campo educacional está na raiz de toda a violência e se caracteriza por uma

indisposição ao diálogo:

[...] muitas são as formas que o autoritarismo pode assumir no campo educacional, indo desde manifestações grosseiras e explícitas até expressões bastante dissimuladoras [...].

Ocorre que, durante cerca de dois séculos, família e escola, viveram uma verdadeira

lua-de-mel. Crianças e jovens sentiam, nas figuras de autoridade que as cercavam o

orientavam, coesão e homogeneidade. Com isso, o poder educacional dessas instituições se

alicerçava e alimentava mutuamente. Com isso, as novas gerações adquiriam seus valores e

seus saberes (intelectual e moral) sem mais problemas. De repente, o que se observou? Que já

não existia essa harmonia, esse clima de confiança. Os pais pareciam estar, todo o tempo,

supervisionando a escola, desconfiados de professores, diretores, equipes pedagógicas

(ZAGURY, 2002).

A escola, por sua vez, começou a se sentir também atemorizada, insegura, com a

auto-estima abalada. Comumente esses pais passaram a adotar duas atitudes: a primeira, de

desconfiança - parte deles parece ter perdido totalmente a fé no trabalho docente. Então, iam

freqüentemente à escola questionando, reclamando, ameaçando até (em alguns casos), por

qualquer motivo, acreditando sempre que a escola errou ou não agiu adequadamente com seus

filhos. Ora é o fulano que não passou tarefas suficientes, sobrando às crianças tempo

excessivo para a rua, para o playground, para a TV; ora é outro que marcou prova no dia em

que não deveria ter marcado, ora é sicrano que não corrigiu direito o trabalho solicitado. A

segunda, depois de matricular os filhos, considera sua missão terminada e daí em diante

entrega à escola toda e qualquer problemática relacionada à educação. De uma maneira geral,

(37)

chamados para entrevistas ou reflexões conjuntas, nunca podem ir. Enfim, aquela base de

confiança parece ter se esvaído num passe de mágica (ZAGURY, 2002).

Já o professor, em sua condição de conservador da cultura considerada legítima,

continuou a reproduzir sua mensagem de acordo com as normas consagradas e

necessariamente “rotinizadas” e homogeneizadas exigidas pela ação duradoura de inculcação

de conhecimentos para reproduzir hábitos e, por essa via, devoção cultural duradoura. As

contradições da relação que os professores mantêm com a verdade de sua prática (e que cada

vez mais sobressaem à medida que se elevam na hierarquia da profissão) transparecem

mediante jogos duplos em que são envolvidos, quando, por ocasião das correções, querem que

uma dissertação destinada a julgar futuros professores seja algo diverso de uma dissertação de

professor, ou então, o que é pior, de um aspirante a professor (BOURDIEU, 1992).

Verifica-se que a instituição escolar vem enfrentando profundas mudanças, com o

aumento das dificuldades cotidianas que provêm tanto dos problemas da gestão e das próprias

tensões internas quanto da efetiva desorganização da ordem social, que se expressa mediante

fenômenos exteriores à escola, como a exclusão social e a institucional, a crise e o conflito de

valores e o desemprego. Assim, a escola não seria mais representada como lugar seguro de

integração social, de socialização, não é mais espaço resguardado, ao contrário, tornou-se

cenário de ocorrências violentas. (OLIVEIRA, 2004).

Para Tedesco, 1998 (apud OLIVEIRA, 2004), um dos problemas mais sérios que a

sociedade tem enfrentado é a queda da capacidade socializadora não só das instituições

escolares, mas das instituições classicamente responsáveis por essa função. Vive-se num

período no qual as instituições educativas (família, escola) estão perdendo a capacidade de

transmitir valores e normas culturais de coesão social. Nos últimos anos há concorrência

(38)

As modificações, tanto na organização escolar como nas propostas curriculares,

afetam diretamente os docentes. Novas tecnologias, mais autonomia dos centros escolares,

exigências de níveis mais altos de responsabilidade, deterioração das condições de trabalho,

sentimentos de insegurança associados à perda da proteção oferecida pela situação tradicional,

dentre outras, interferem diretamente na ação do corpo docente. A Sociologia desempenha

papel fundamental no processo educativo e pode auxiliar o educador à medida que investiga a

realidade para muito além da estrutura formal. O estudo sociológico sistemático pode

esclarecer a dinâmica viva da escola como grupo em interação com as forças sociais de seu

meio, evidenciando que, nas duas estruturas, as condutas são pautadas por valores

compartilhados que se traduzem em atitudes e comportamentos.

Em sua pesquisa, Oliveira (2003) constatou que os professores foram unânimes em

afirmar que a violência na escola tem aumentado ultimamente. A maioria concorda que a

formação de valores é a maior tarefa da escola, que deve informar como meio de formar.

Quase a totalidade deles admitiu que a violência ocorre em todo tipo de escolas, envolvendo

pessoas de variadas condições sociais. A Pesquisadora, analisando os resultados da pesquisa

sobre a percepção dos professores sobre o que consideram violência mais ou menos grave,

constatou que a maioria dos docentes apontou como ausência de violência as seguintes

situações: atitudes críticas do professor em relação à escola, uso detector de metais na escola,

uso de câmera de TV na escola, expulsão dos discentes pelo professor; como violência pouco

grave: emprego de palavrões, gritos do professor para com discentes, comparações entre

discentes, e como violência grave: brigas, discentes denominarem colegas de negro, insulto do

professor ao aluno, insulto do aluno ao colega e ao professor, crítica negativa aos colegas,

intimidação por meios psicológicos, toque no colega com conotação erótica, chantagem,

(39)

Para Aranha (1989) a escola, ao invés de superar as injustiças sociais, é instituição

discriminadora e reprodutora de violência simbólica. Ela reproduz a ideologia dominante,

impedindo o desenvolvimento e a expressão dos anseios populares. A violência simbólica é

exercida na persuasão das idéias transmitidas mediante forças legítimas, instrumento de

poder. Em nome da eficácia do trabalho pedagógico, são exercidos o poder e a autoridade por

meio da institucionalização, reafirmando os privilégios existentes da cultura imposta e

inculcando nos excluídos o reconhecimento de que são incapazes.

Waiselfisz e colaboradores (1998) afirmam que em pesquisas realizadas com jovens,

estes, ao serem perguntados se haviam sido vítimas de algum tipo de violência na escola,

sempre diziam que não. Contudo, no decorrer do estudo a percepção da violência foi se

ampliando para além dos limites da agressão física, demonstrando que há um tipo de violência

moral da qual são vítimas em seu cotidiano. Já para Abramovay (2002a), a violência, no

entender dos jovens, nem sempre se refere à agressão física. Magoar, agredir por meio de

palavras e atitudes, comportamentos que os jovens consideram “falta de respeito”, já seriam

para eles formas de exercer a violência. Constata que ela é experimentada pelos jovens como

fenômeno comum, cotidiano, embora concebida como prática anormal e condenável, e, por

isso, naturalizada, porque ultrapassa os limites do que para eles é visto como forma aceitável

de relacionamento entre as pessoas, em especial quando resulta em agressão física.

Para Abramovay (2002a), mediante a percepção da relação entre discentes e

docentes, pode-se analisar aspectos importantes das repercussões da violência para a vida

estudantil. Investigando as opiniões de professores e discentes, a Autora observou que os

discentes apontaram os próprios colegas como fonte dos problemas de violência da escola;

para eles, os professores não estão interessados nos discentes e consideram normal o aluno se

vingar de quem o agrediu. Os dados indicam que a violência possui repercussões importantes

(40)

por discentes. A falta de interesse e o uso de linguagem pesada pelo corpo docente são

freqüentemente identificados pelos estudantes.

Blaya (2001), em seus estudos na França e Inglaterra, aponta que no cotidiano

escolar o clima social varia enormemente de uma escola para outra e de um país para outro e

independe da existência de problemas administrativos, financeiros ou relacionais. Emergem

da pesquisa de Blaya alguns aspectos relativos à extensão da violência: sensação de

insegurança e clima social escolar deteriorado. Ao comparar os problemas relacionados à

violência em escolas de países diferentes, a Autora constatou que tanto o ambiente escolar

quanto a extensão das agressões variavam de uma para a outra, uma vez que cada uma delas

dava diferente direcionamento ao tratamento da questão e reagia de modo distinto aos

incidentes violentos ocorridos dentro delas, fato que resultava em distinto clima escolar.

Com base em seu estudo, Blaya concluiu que não é o nível socioeconômico da escola

o que determinará o grau de violência, isto é, as vitimizações não sucedem com mais

freqüência em instituições social e economicamente mais desfavorecidas; e que a solução para

o problema não pode passar tão somente pela adoção de medidas de segurança, mas repousa

em fatores organizacionais internos e externos à escola, já que a comunidade pode influenciar,

em alguma medida, o clima escolar, embora tal situação ocorra em percentual inferior ao

esperado.

Assim, discentes ingleses e franceses, bem como a equipe escolar dos dois países,

apresentam boa visão sobre o clima das escolas. A percepção negativa dos discentes acerca de

sua escola está relacionada, sobretudo, a qualidade de sua relação com o “staff”, falta de

respeito, principalmente por parte de professores; experiência de violência e facilidades da

escola e da vizinhança. Quando o pensamento é positivo os discentes se referem a bom

ambiente escolar e disposição dos professores; também consideram problemático a

(41)

Enquanto a equipe da escola e os discentes possuem ponto de vista parecidos na

França, na Inglaterra a opinião da direção da escola é mais negativa que a dos discentes.

O relacionamento entre discentes e corpo docente da escola é mais difícil na França

do que na Inglaterra, tanto para discentes quanto para professores. Na França esse problema

repousa no sentimento de falta de respeito, de professores, bem como de discentes e

dificuldade de comunicação. Os discentes franceses também parecem se ressentir com as

punições e acreditam que são injustas, se comparados com os colegas ingleses. A

comunicação com os diretores das escolas inglesas parece mais fácil, em razão das regras e da

maneira como tratam a disciplina. Os discentes franceses necessitam de mais atenção da

direção.

Nesse sentido, para Abramovay (2002a), as discrepâncias entre o que registram os

discentes e os membros do corpo técnico-pedagógico podem significar a presença de barreira

na comunicação, divergência de perspectivas e de concepções da realidade. Com a falta de

comunicação eficaz, de acordo com Chrispino e Chrispino (2002), os conflitos terminam por

desaguarem na violência. Sugere então, a aplicação da mediação de conflitos no universo

escolar como alternativa à sua nova dinâmica.

No que tange a mau comportamento e indisciplina, embora essas atitudes sejam

comuns em ambos os Países, constituem maior dificuldade na França. Os discentes ingleses

possuem melhor conhecimento das regras da escola e são menos punidos que os franceses.

Todavia, os professores ingleses admitem que penalizam com mais freqüência que seus

colegas franceses, essa afirmação revela que algumas das reclamações do lado francês, de que

alguns membros da escola não assume responsabilidade no que concerne a disciplina escolar

Imagem

Tabela nº. 3: Percentual de discentes da 1ª série do Ensino Médio   da Escola 1, em agosto de 2005, segundo o tempo de estudo na escola
Tabela nº. 6: Percentual de discentes da 1ª série do Ensino Médio, da Escola  2, em agosto de 2005, segundo o tempo de estudo na escola
Tabela nº. 7: Percentual de atitudes consideradas violência ou não para discentes da 1ª série do Ensino Médio, por escola pesquisada
Gráfico 1a: Respostas dos discentes
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