UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
CURSO DE HISTÓRIA
PERFIL DOS ALMOTACÉS NA CAPITANIA DO RIO GRANDE (1672-1719)
KALLYANY SANTAYNE PINTO DA SILVA
NATAL/RN
KALLYANY SANTAYNE PINTO DA SILVA
PERFIL DOS ALMOTACÉS NA CAPITANIA DO RIO GRANDE
(1672 -1719)
Monografia apresentada ao curso de História - Bacharelado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em História, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Carmen M. Oliveira Alveal.
NATAL / RN
KALLYANY SANTAYNE PINTO DA SILVA
PERFIL DOS ALMOTACÉS NA CAPITANIA DO RIO GRANDE (1672 -1719)
Monografia aprovada como requisito para a obtenção do título de bacharel em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pela banca examinadora formada pelos professores:
____________________________________________ Dra. Carmen Margarida Oliveira Alveal (UFRN)
Orientadora
______________________________________________ Dra. Maria da Conceição Guilherme Coelho (UFRN)
Avaliadora
_______________________________________________ Dr. José Evangelista Fagundes
Avaliador
Os que semeiam entre lágrimas, recolherão com alegria. Na ida, caminham chorando os que levam a semente a aspergir. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes. Salmo 126, 5-6.
A todos os que me apoiaram direta ou indiretamente, em especial, minha avó Maria Diniz da Silva. Guardo-os no coração. Deixo também uma homenagem a meu avô Francisco Pinto da Silva. (In memorian).
RESUMO
Perfil dos almotacés na Capitania do Rio Grande (1672 - 1719)
Esta monografia tem por objetivo analisar o perfil dos almotacés nomeados pela câmara do Senado de Natal no período entre 1672 e 1719, observando aspectos como a sua ocupação, a presença de indivíduos com patentes militares e posse de sesmarias, buscando entender quais requisitos que poderiam ser elencados para a escolha destes. Depois, pretende-se explicar em que consistiam suas incumbências quanto às ações de ordenamento da cidade com relação à construção, ao controle do mercado e à salubridade, a fim de que se possa entender a ação do poder local neste contexto, sobretudo, quanto a questões que envolvam o gerenciamento da cidade. Dessa maneira, fez-se necessário este estudo sobre a almotaçaria, instituição presente no período moderno tanto em Portugal quanto na América portuguesa. O período estudado é de suma relevância, pois a Coroa portuguesa já havia retomado a posse das terras no Rio Grande contra os holandeses na primeira metade do século XVII e, entre 1687 e 1725, ocorreu o conflito entre grupos indígenas e os conquistadores luso-brasileiros, conhecido como Guerra dos Bárbaros. As fontes utilizadas foram o Catálogo de Livros dos Termos de Vereação do senado na câmara de Natal, registros paroquiais da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, plataforma SILB e fonte impressa sobre inventários publicado por Hélio Galvão em Velhas Heranças. Assim sendo, pretende-se colaborar com as pesquisas sobre o Rio Grande que já vem sendo feitas, corroborando para o estudo sobre o Rio Grande do Norte no período colonial.
ABSTRACT
Profile of the Almotacés in the Captaincy of the Rio Grande (1672 - 1719)
This monograph aims analyzing the profile of the almotacés appointed by the Senate from 1672 to 1719, observing aspects such as their occupation, the presence of individuals with military patents and possession of sesmarias, trying to understand requirements listed for the choice of these. Then, it would be explained what were its attributions, regarding the actions of city planning regarding construction, market control and health, in order to understand the action of local power in this context, especially on issues involving management of the city. Thus, this study on the almotaçaria was necessary, institution present in the early modern period in both Portugal and Portuguese America. The period studied was of great relevance, since the Portuguese Crown had already regained possession of the lands in the Rio Grande against the Dutch in the first half of the seventeenth century, and between 1687 and 1725, there was a conflict between indigenous people and the Portuguese-Brazilian conquerors , known as the War of the Barbarians. The sources used are the Catálogo de Livros e Termos de Vereação in the Natal Chamber, church records of the parish of Nossa Senhora da Apresentação, SILB platform and printed sources on inventories published by Hélio Galvão in Velhas Heranças. Thus, we intend to collaborate with the Rio Grande research that has already been done, corroborating the study about Rio Grande do Norte in the colonial period.
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Exercício da almotaçaria no ano seguinte à eleição por função principal em porcentagem e número de indivíduos ...26
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Referente aos bens de raiz, inventariados por Cipriano Lopes Pimentel, em
réis...49
Quadro 2 - Objetos de ouro inventariados e avaliados em réis ...50
Quadro 3 - Objetos de prata inventariados e avaliados em réis ...50
Quadro 4 - Objetos de cobre inventariados e avaliados em réis ...51
Quadro 5 - Gado bovino e equino inventariados e avaliados em réis ...51
Quadro 6 - Bens móveis inventariados e avaliados em réis ...53
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Porcentagem dos postos militares ocupados por almotacés na cidade do Natal (1672-1719)
...30
Gráfico 2 - Modelo geral de rotatividade a partir do cargo de almotacé (1672-1719) ...35
Gráfico 3 – Modelo de rotatividade a partir do cargo de almotacé (1672 – 1719) ...38
LISTA DE ABREVIATURAS
CCHLA- Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
IAHGP - Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano
IHGRN – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
LEHS-UFRN - Laboratório de Experimentação em História Social da UFRN
MOEDAS E VALORES
1 Cruzado ($400): 400 réis
1 Conto de réis (1:000$000): 1.000.000 réis
1 Pataca ($320): 320 réis
SUMÁRIO
1.INTRODUÇÃO...14
2.CAPÍTULO 1 - FUNÇÕES DESEMPENHADAS PELOS ALMOTACÉS NOMEADOS PELA CÂMARA NA CIDADE DO NATAL (1672 A 1719) ...22
1.1- Sobre a nomeação dos almotacés ...22
1.2 - Principais funções desempenhadas pelos almotacés na capitania do Rio Grande (1672-1719) ...28
3.CAPÍTULO 2 - ANÁLISE DA ROTATIVIDADE EM RELAÇÃO AO CARGO DE ALMOTACÉ E A POSSIBILIDADE DE ACESSO À CÂMARA A PARTIR DA FUNÇÃO DA ALMOTAÇARIA...33
2.1 Dos almotacés mais nomeados para a função e que exerceram cargos camarários principais ou secundários ...39
2.2 Dos que exerceram a almotaçaria e posteriormente tornaram-se sesmeiros ...42
2.3 Almotacés mais nomeados e que não exerceram postos militares ...46
4.CAPÍTULO 3 - SOBRE O INVENTÁRIO DE CIPRIANO LOPES PIMENTEL...48
5.CONSIDERAÇÕES FINAIS ...57
REFERÊNCIAS DAS FONTES ...59
1. INTRODUÇÃO
Ao pensar sobre a administração das capitanias hereditárias durante o período colonial na América portuguesa, um ponto que pode ser discutido seria como esta ocorreu durante a reconfiguração político-administrativa no período pós-bellum na cidade do Natal e de outros lugares sob controle da Coroa lusitana por meio da recepção das ordens régias. Ademais, pretende-se entender como ocorreu a reinstalação de instituições por parte da Coroa para legitimar a posse sobre as terras conquistadas neste período. Na historiografia norte-riograndense clássica podem ser citados Luís da Câmara Cascudo1, Tavares de Lyra2, Rocha Pombo3, e, da mais recente, podem ser citadas Denise de Mattos Monteiro4 e Fátima Martins Lopes5 que escreveram sobre diferentes questões que englobam a história do Rio Grande do Norte e que servem de baliza para o aprofundamento de temas referentes ao período colonial.
Neste sentido, tem ocorrido um aumento qualitativo e quantitativo quanto à produção acadêmica voltada para o estudo da Capitania do Rio Grande, principalmente quando esta ocorre por meio da troca de ideias entre pesquisadores6. Este trabalho foi possível, também, devido à colaboração e apoio do Laboratório de Experimentação em História Social, LEHS, em disponibilizar fontes referentes ao objeto de estudo observado. Além disso, vale salientar o esforço destes pesquisadores em estudar sobre a capitania do Rio Grande no período colonial, que tem sido de grande contribuição para a historiografia, seja pelo levantamento de dados sobre os indivíduos deste período, seja pela interpretação e análise dos objetos de
1 CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal: EDUFRN, 2010 [1948]. 2
LYRA, Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Natal: EDUFRN, 2008.
3 POMBO, Rocha. História do Estado do Rio Grande do Norte. Editores Annuário do Brasil – Rio de Janeiro:
Renascença Portuguesa – Porto, 1922.
4 MONTEIRO, Denise Mattos. Introdução à história do Rio Grande do Norte. 4. ed. Natal: Flor de Sal, 2015. 5
LOPES, Fátima Martins. Capitães mores das ordenanças de índios: novos interlocutores nas vilas de índios da capitania do Rio Grande. In: OLIVEIRA, Carla Mary S.; MENEZES, Mozart Vergetti de; GONÇALVES, Regina Célia (Org.) Ensaios sobre a América Portuguesa. Editora Universitária, João Pessoa, 2009.
6 Dentre estes trabalhos, podem ser citados aqueles no âmbito do LEHS : DIAS, Patrícia de Oliveira. Onde fica
o sertão rompem-se as águas: processo de territorialização da ribeira do Apodi -Mossoró (1676-1725). (Mestrado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2015, 191 f; BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017, 319 f. ; OLIVEIRA, Leonardo Paiva de. Capitães-mores das Capitanias do Norte: Perfis, trajetórias e hierarquias espaciais no Rio Grande e Ceará (1656-1755). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017, 163 f. ; BARBOSA, Lívia Brenda da Silva. Das Ribeiras o tesouro, da receita o sustento: a administração da provedoria da fazenda real do Rio Grande (1606-1723). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017, 222 f.; FONSECA, Marcos Arthur Viana da. Sob a sombra dos governadores de Pernambuco? Jurisdição e administração dos capitães-mores da capitania do Rio Grande (1701-1750). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2018. Entre os colaboradores do LEHS pode ser citado: DIAS, Thiago Alves. Dinâmicas mercantis coloniais: Capitania do Rio Grande do Norte (1760-1821). Dissertação (Mestrado em História e Espaços), Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2011, 277 f.
estudo. Parte deste trabalho teve como norte a pesquisa desenvolvida pela professora Carmen Alveal7 sobre a capitania do Rio Grande e os modos de governança, assim como a pesquisa desenvolvida por Kleyson Bruno Chaves Barbosa8, mestre pela UFRN que aborda temas relativos à câmara municipal de Natal.
Nas últimas décadas, tem-se repensado sobre o papel das câmaras na América portuguesa e sua atuação diante do processo de formação da colônia. Na formação da Capitania do Rio Grande, busca-se compreender como ocorriam as relações de controle de preços e abastecimento, as questões que envolviam a limpeza da cidade e a construção de edificações e caminhos diante de um processo de conquista do território. Na capitania do Rio Grande, durante o século XVII, os portugueses enfrentaram a resistência dos povos indígenas e a concorrência dos franceses pelo usufruto das terras, tornando maiores os esforços pela conquista destas. Outrossim, na primeira metade do século XVII, os holandeses tomaram o poder sobre a capitania do Rio Grande por 24 anos (1630-1654), sendo expulsos depois pelos conquistadores luso-brasileiros.
Após este episódio, foram reinstaladas unidades administrativas e instituições que assegurassem o poder real sobre estes domínios. Dentre estas instituições, havia o Senado da Câmara, responsável pelo governo da cidade que exercia atribuições como conceder datas de terras do termo para plantar ou construir9. No que se refere à administração da cidade do Natal, bem como das cercanias, os camarários desempenhavam funções que abrangiam o gerenciamento municipal, quanto ao cotidiano da cidade como: a emissão de editais, posturas municipais, quanto à taxação de impostos, permissão para a venda de produtos, conservação dos caminhos e das estradas e do cuidado pela sanidade10.
Para que tais medidas fossem cumpridas, o Senado da Câmara nomeava almotacés, que eram responsáveis por atuar no âmbito do controle do comércio, da higiene e das construções na cidade. Esta atividade, não remunerada, abrangia um "conjunto de atribuições relevantes para a vida local, designadamente o abastecimento em gêneros e fixação de
7 ALVEAL, Carmen Margarida Oliveira. Os desafios da governança e as relações de poder na Capitania do Rio
Grande na segunda metade do século XVII. In: MACEDO, Hélder Alexandre Medeiros de; SANTOS, Rosenilson da Silva (Orgs.). Capitania do Rio Grande: histórias e colonização na América Portuguesa. João Pessoa: Ideia; Natal: EDUFRN, 2013, pp.27-44.
8 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara da cidade do Natal: o cotidiano administrativo de uma câmara
periférica (1720-1759). 2015. 87 fls. Monografia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
9 CASCUDO, História da cidade do Natal. Natal: EDUFRN, 2010. [1948], p. 83.
10 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
local na Capitania do Rio Grande. Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
preços"11. Na atualidade, a atividade da almotaçaria tem sido mais discutida na historiografia brasileira.
Dentre estas pesquisas, destaca-se a realizada por Magnus Roberto de Mello Pereira, analisando o papel dos almotacés no cotidiano da cidade, no contexto da Câmara Municipal de Curitiba, na Vila de Nossa Senhora dos Pinhais no período entre 1718 a 182812. Para este, o "Estado de políticas públicas teria nascido das atribuições desempenhadas pelas esferas administrativas e a apropriação destas", sendo que essas atribuições também podem ser analisadas historicamente. A preocupação quanto a questões referentes à infraestrutura da cidade ou vila, e quanto ao comércio, ter-se-ia institucionalizado na atribuição da almotaçaria durante o período medieval, obtendo especificidades na península ibérica. Assim, segundo Magnus Pereira, para entender a formação do espaço urbano, torna-se necessário entender sobre os aspectos que perpassam a atribuição dos almotacés: construção, sanitário e comercial.
Em seu trabalho, Magnus Pereira destacou as atribuições dos almotacés em cada âmbito destacado, referindo-se, em especial, a Portugal e suas colônias. Para este historiador, os almotacés eram responsáveis pela fiscalização das licenças de funcionamento e verificação das casas comerciais; quanto à averiguação de pesos e medidas para que estas fossem devidamente afiladas e a verificação de tabelamento. Se estas fossem transgredidas, resultaria em multas, discursos moralizantes ou prisão aos que fossem penalizados13.
O autor também destacou as atribuições quanto ao aspecto da higiene, em que os almotacés ficavam encarregados de promover a preservação das fontes de água potável para abastecimento da vila ou cidade; controle das obras de escavação de valos para o escoamento de água e de dessecação de charcos. E quanto ao âmbito da construção, os almotacés eram encarregados de manter o traçado urbano da vila, além de serem responsáveis pela organização e pavimentação de ruas, construções, manutenção dos imóveis.
Dessa forma, Magnus Pereira foi observando as diferenças quanto a atribuições dos almotacés e nomeação destes, comparando os reinos de Espanha e Portugal ao longo do período moderno. Também fez um estudo de comparação entre Portugal e as colônias lusas
11 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Os concelhos e as comunidades. In: História de Portugal. O Antigo Regime.
Vol. 4. Direção: José Mattoso. Coordenação: Antônio Manuel Hespanha. Editorial Estampa. p. 271.
12PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. Almuthasib - considerações sobre o direito de almotaçaria nas cidades
de Portugal e suas colônias. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.21, nº42, p.365-395, 2001.
na América quanto à almotaçaria, mostrando como essas atribuições foram sendo compartimentadas, posteriormente, separadas e delegadas a diferentes instâncias e instituições dos poderes estabelecidos no Estado centralizado durante o século XIX.
Outro trabalho de destaque é o de Thiago Alves Dias em que este aborda sobre a relação entre as normas "metropolitanas", embasadas no Código Filipino, e o poder local municipal, apontando os mecanismos de vigilância do reino sobre o comércio na Capitania do Rio Grande, no período de 1759 ao início do século XIX. Para este historiador, o almotacé tinha o papel de fiscalizar as atividades comerciais na Capitania, pois havia uma preocupação do poder camarário em relação aos produtos e locais de comércio, pois estavam sujeitos a atos ilícitos no sentido da tentativa de burlar as leis, ao utilizar pesos e medidas diferentes ou de não pagar impostos14 .
Entre os atributos destacados por Thiago Alves Dias, estava a vigilância portuária e denúncias quanto à saída de víveres da Capitania. Para exercer ofícios e praticar o comércio era necessário obter uma licença da Câmara. Também havia a cobrança de impostos e taxas sobre estas atividades, que objetivava o fluxo de riquezas para esta e garantir a regulamentação da prática cotidiana dentro da colônia. Para que as normas fossem cumpridas, os almotacés se deslocavam até os pontos comerciais e as casas de ofício a fim de averiguar tais permissões e as medidas utilizadas, bem como os preços atribuídos aos produtos. Tornava-se, então, necessária a atuação do almotacé no sentido de ser um agente responsável pela normatização dos espaços na colônia e no reino.
Ainda em relação à Capitania do Rio Grande, quando os almotacés recebiam uma ordem de saída em correições, ou seja, eram chamados a verificar se as leis estavam sendo transgredidas, indo em contrário aos ordenamentos e editais propostos, estes saíam pela cidade do Natal e demais localidades15 para fiscalizar as casas comerciais: se estas possuíam licença para funcionar, conferir pesos e medidas e os preços dos produtos vendidos.
Até 1759, a Capitania do Rio Grande contava apenas com a Câmara de Natal, fazendo com que estas posturas atingissem também além das fronteiras da cidade, enquanto estas ainda não dispusessem de Câmaras municipais, conforme Kleyson Barbosa. Quanto à
14 DIAS, Thiago Alves. O código Filipino, as Normas Camarárias e o comércio: mecanismo de vigilância e
regulamentação comercial na capitania do Rio Grande. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 34. n.68, p.215-236, 2014.
15 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
local na Capitania do Rio Grande. Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
obtenção do cargo de almotacé, este era nomeado pela câmara por duas formas16: geralmente quando um oficial camarário era eleito em um pleito, no ano seguinte deveria este servir como almotacé nos primeiros seis meses, como constava nas Ordenações Filipinas; outra forma seria a nomeação sem que o indivíduo fosse necessariamente camarário, mas que fosse considerado idôneo, por parte do conselho, para a função. Deste modo, não necessariamente o almotacé deveria exercer alguma função camarária, embora fosse nomeado por esta.
Esta atividade era importante na dinâmica administrativa da cidade, pois visava que as ordens estabelecidas pelo rei, por meio do Código Filipino, fossem cumpridas em esfera local no contexto das possessões coloniais. Os trabalhos de Kleyson Bruno Chaves Barbosa e Thiago Alves Dias discorrem sobre os mecanismos utilizados pela câmara sobre as atividades comerciais tendo como contexto espacial a capitania do Rio Grande, em que foram analisados os almotacés. Embora tivessem papel significativo, ainda não há muitos trabalhos que explorem sobre o perfil dos que exerciam esta atividade na Capitania do Rio Grande após a expulsão dos holandeses e durante a Guerra dos Bárbaros e sobre a atuação dos almotacés na cidade do Natal durante este período. Esta atividade refere-se à temática da normatização dos espaços coloniais. Desta forma, faz-se necessária a pesquisa sobre este tema no contexto da Capitania do Rio Grande, no período a ser estudado, como forma de contribuir para a produção historiográfica.
Por meio desta pesquisa, pretendeu-se investigar o perfil dos almotacés na Capitania do Rio Grande no período entre 1672 e 1719, abrangendo as funções que estes desempenhavam na cidade. O recorte temporal inicial deve-se aos registros obtidos dos Termos de Vereação, que abrange o período posterior à saída dos holandeses, ocorrido em 1654, e a consecutiva retomada da colonização lusitana e das atividades administrativas na Câmara. O recorte final refere-se à Guerra dos Bárbaros que, em 1720, seria considerada como terminada na capitania.
Além de investigar o perfil dos que realizavam a almotaçaria com o intuito de conhecer sua ascendência, relações de parentesco, origem de nascimento e riquezas herdadas e/ou obtidas no decurso de suas atividades como almotacé ou como oficial camarário; um
16
Ordenações Filipinas. Disponível em: <<www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l1p156.htm>>. Acesso em 24 jun. 2018.
outro aspecto a ser observado será se estas pessoas desempenhavam postos ou se eram oficiais na Câmara17 e como ocorria a ascensão destes.
Dentre os aspectos a serem observados, considerando os esforços pela consolidação da conquista da capitania e a necessidade de proteção das possessões portuguesas, pretende-se perceber pretende-se havia uma relação entre exercer postos militares e pretende-ser nomeado para o exercício da almotaçaria e se este fator influenciaria em sua nomeação. Finalmente, observar se estes possuíam sesmarias, considerando a posse de terras como um dos fatores que favoreciam o exercício do poder. Desta forma, podem-se apontar possíveis relações de parentesco entre camarários e almotacés nomeados que poderiam interferir na obtenção do cargo. E, por meio dos dados obtidos, observar o que poderia permitir a mobilidade social dos que exerciam a almotaçaria.
Esta pesquisa tem por objetivo principal elaborar um estudo sobre os almotacés na Cidade do Natal entre o período de 1672 a 1719, traçando um perfil socioeconômico destes, além de analisar quais requisitos poderiam ser atribuídos à obtenção do cargo de almotacé, como por exemplo, a possível relação entre a nomeação destes como almotacés e o grau de parentesco com os oficiais camarários. Ainda, observar os privilégios que detiveram, antes e depois do exercício da almotaçaria, dentre elas a posse de terras, sendo isto também importante para se perceber este cargo como possível propulsor de ascensão social.
Esta pesquisa é uma continuidade de um estudo iniciado em 2016, em que alguns dados sobre os almotacés foram organizados por meio de tabulação e confecção de gráficos, observando as atividades que estes poderiam exercer na Câmara e possíveis postos militares que obtivessem. Porém, tornou-se necessário aprofundar a pesquisa, fazendo um estudo prosopográfico, que consiste em um método utilizado por historiadores sociais atualmente, que ocorre através da elaboração de questões concernentes ao universo a ser estudado, investigar fenômenos políticos e movimentos sociais, como forma de interpretação histórica, como apontado por Lorena Madruga Monteiro18.
17 DIAS, Thiago Alves. O código filipino, as Normas Camarárias e o Comércio: mecanismos de vigilância e
regulamentação comercial na capitania do Rio Grande. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 34. n.68, p. 215-236, 2014.
18
MONTEIRO, Lorena Madruga. Prosopografia de grupos sociais, políticos situados historicamente: método ou técnica de pesquisa? Pensamento plural. Pelotas [14] 11-21; jan.-jun. 2014.
Segundo Lawrence Stone, este método de investigação busca "características comuns de um grupo de atores na história por meio de um estudo coletivo de suas vidas"19 estabelecendo, mediante o universo a ser estudado, correlações entre comportamentos e formas de ação. Assim, foi possível, com base nas fontes disponíveis no Laboratório de Experimentação em História Social, obter as informações necessárias para este estudo e sua finalidade e observar alguns aspectos que poderiam ajudar a questionar sobre como ocorria o acesso à almotaçaria e se esta atividade seria propulsora para uma posterior eleição entre os cargos camarários principais, ou se seria um facilitador para a obtenção de algum privilégio. Com base nesta lógica de concessão de privilégios e de poder, foi possível observar quais grupos teriam sido beneficiados na nomeação de almotacés, como forma de controle também sobre os vassalos do rei estabelecidos em suas colônias.
A fim de obter dados sobre os almotacés nomeados na capitania do Rio Grande durante o período estudado, foram utilizadas fontes como o Catálogo dos Livros de Termos de Vereação do Senado da Câmara da cidade de Natal, registros paroquiais da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação (batismos), referentes ao recorte temporal explicitado e dados referentes à posse de sesmarias como forma de obter maiores informações sobre os almotacés. As duas primeiras fontes estão disponíveis no banco de dados do Laboratório de Experimentação em História Social (LEHS), do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O último foi obtido por meio da Plataforma SILB20.
Tais fontes foram utilizadas para obter uma tentativa de levantamento prosopográfico dos almotacés nomeados. Assim, este trabalho deu continuidade e maior aprofundamento ao que já fora iniciado em uma pesquisa anterior21. Como visto, outra pesquisa já foi desenvolvida para o período de 1720 a 1750 por Kleyson Bruno Chaves Barbosa, em seu estudo sobre a Câmara da cidade do Natal. O objeto observado foram os oficiais camarários no período apontado, diferenciando-se desta pesquisa por não destacar os almotacés, que não eram oficiais da Câmara22.
19 STONE, Lawrence. Prosopografia. Revista Sociologia e Política, v. 19, n.39, p.115-137, jun. 2011. 20
Plataforma SILB. Disponível em: <<http://www.silb.cchla.ufrn.br/>>. Acesso em 2 jul.2018
21 SILVA, Kallyany Santayne Pinto da. Almotacés na Capitania do Rio Grande do Norte entre 1672 e 1719.
Trabalho apresentado no VI Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades - Sertões: histórias e memórias (Caicó, UFRN, 07 a 11 nov. 2016).
22 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
Esta monografia se divide em três capítulos. O primeiro aborda questões referentes ao perfil dos almotacés, quanto às funções desempenhadas por estes, seja na Câmara por meio de cargos principais ou secundários, ou se detinham patentes militares, a fim de traçar um perfil social destes indivíduos. No segundo capítulo, será analisada a rotatividade da atuação destes quanto à almotaçaria e exercendo funções camarárias principais no período estudado. No terceiro capítulo, pretende-se traçar a trajetória política e militar dos indivíduos que mais se destacaram quanto ao exercício da almotaçaria, inferindo possíveis relações de parentesco ou apadrinhamento.
Desta forma, busca-se entender se havia uma maior preferência por parte de determinados grupos no sentido da escolha para ser nomeado para a almotaçaria, observando as necessidades da capitania no processo de conquista. Por meio da análise do perfil e atuação dos almotacés, pretende-se se contribuir para os estudos que vem sendo desenvolvidos sobre a administração da cidade na América Portuguesa e as instituições no contexto ultramarino.
2. CAPÍTULO 1 - FUNÇÕES DESEMPENHADAS PELOS ALMOTACÉS NOMEADOS PELA CÂMARA NA CIDADE DO NATAL (1672 A 1719)
1.1 Sobre a nomeação dos almotacés
Para inferir sobre a atividade da almotaçaria na capitania do Rio Grande, é necessário pensar que este ofício obedecia a uma hierarquia de poder, em que esta instituição era subordinada à Câmara, que por sua vez obedecia a pessoa do rei e de instituições que representassem o poder real. Essa hierarquia é explicada pela teoria de Antônio Manuel Hespanha23, em seu conceito de sociedade corporativa. Para o autor, a relação entre o poder real e as demais instituições funcionava como um corpo. O rei era representado pela cabeça desse corpo, tendo o poder de gerir as partes restantes. As demais instituições teriam cada qual a sua função, não ocorrendo concorrência entre estas, mas autonomia político-jurídica24. Porém, entre estas instituições haveria também uma relação hierárquica em que uma instituição estaria sob subordinação de outra.
Além disso, o poder do rei no império lusitano ocorria de forma diferenciada dos demais reinos, pois este tinha por base a ideia de que o rei teria por atribuição uma função reguladora, interferindo, por exemplo, na economia. Tal responsabilidade real tem por balisas conceitos como a justiça, moral cristã e o amor que seria demonstrado pelo rei aos vassalos. Dessa forma, o rei deveria intervir com a finalidade de manter o bem comum para a população25.
Com esta interpretação, Flávio Marcus da Silva26, em seu trabalho sobre a política de abastecimento em Minas Gerais no período setecentista, explica sobre a ideia da teoria corporativa de Antônio Manuel Hespanha. Com este conceito, torna-se possível entender as estratégias do poder real no sentido de interferir nas relações de mercado, como forma de evitar motins e revoltas devido às oscilações dos preços dos produtos, em especial, de gêneros alimentícios. Essas ações de normatização consistiam no controle do comércio no que se refere à taxação de impostos sobre produtos, preocupação com a concessão de
23 HESPANHA, António Manuel. Às vésperas do Leviathan: instituições e poder político. Portugal - séc. XVII.
Coimbra: Livraria Almedina, 1994.
24 Idem.
25 SILVA, Flávio Marcus da. Subsistência e poder :A política do abastecimento alimentar nas Minas
setecentistas. Belo Horizonte. Editora UFMG, 2008.
permissões e estabelecimento de preços tabelados como uma maneira de negociação entre as autoridades e as camadas populares.
Estas normas perpassavam as colônias além-mar, nas quais a América Portuguesa estava inserida, e, por meio da atuação das Câmaras municipais, eram estabelecidos editais em Códigos de posturas, que consistiam na concessão de permissão para venda de produtos, tabelamento de preços e taxação de multas caso as normas fossem descumpridas. Nesta ação reguladora, de maneira efetiva, atuavam os almotacés, no sentido de fazer cumprir essas normas, fosse afilando pesos e medidas, ou averiguando concessões de venda, tabelamento de preços, considerando um dos aspectos referentes à atribuição dos almotacés, como as relações comerciais. Desta forma, a atividade da almotaçaria era relevante no cotidiano da América lusa e em Portugal. Assim, torna-se importante conhecer não só a atividade da almotaçaria, mas quem eram os sujeitos nomeados para esta atividade e quais requisitos seriam valorizados para que esta nomeação ocorresse.
Em estudo preliminar sobre os almotacés na capitania do Rio Grande durante o período supracitado, foi possível fazer um levantamento e construir uma análise do perfil destes que exerciam a almotaçaria27. Este trabalho pretende aprofundar o que foi construído até então, levantando hipóteses sobre a escolha da nomeação dos almotacés estudados, sobre a possibilidade da ocorrência de grupos que detivessem maior poder político e militar diante dos demais ao exercer postos camarários, postos de ordenança, ou outra função que significasse uma forma de distinção social. Os dados obtidos foram coletados do Catálogo dos Livros de Termos de Vereação, que são uma espécie de ata contendo informações sucintas sobre as questões discutidas em cada vereação, assim como a eleição para os cargos principais na Câmara e nomeação para os demais postos. Estes foram analisados com a finalidade de obter dados sobre os almotacés nomeados no período estudado.
Foram observadas as funções desempenhadas por estes almotacés, se estes exerciam postos de ordenanças militares, ou cargos camarários, ou outra função na colônia ou no reino. Foram, então, listados os nomes destes e sua ocupação, além dos postos militares que ocupavam, caso tivessem, a fim de obter informações que pudessem ser analisadas observando apenas os que exerceram a almotaçaria, sendo excluídos os demais citados. Este
27 SILVA, Kallyany Santayne Pinto da. Almotacés na Capitania do Rio Grande do Norte entre 1672 e 1719.
Trabalho apresentado no VI Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades – Sertões: histórias e memórias (Caicó, UFRN, 07 a 11 nov. 2016).
trabalho, por sua vez, buscou traçar o perfil dos almotacés mais nomeados, observando a trajetória social destes e as possíveis semelhanças ou diferenças entre estas a fim de compreender como ocorriam as relações de poder no âmbito local, na Capitania do Rio Grande durante o processo de conquista e territorialização da colônia.
Em meados do século XVII houve a expulsão dos holandeses, e na segunda metade deste século ocorreu a chamada "Guerra dos Bárbaros", que fora um conflito entre indígenas e conquistadores portugueses, o qual teria contribuído para o posterior avanço sobre as terras mais para o interior da capitania, caracterizada como sertão. Houve então o processo de conquista por este espaço, segundo a historiadora Patrícia de Oliveira Dias28, em que se destaca a ação dos colonizadores expandindo seus domínios por meio da aquisição de terras e da doação de sesmarias por parte da Coroa portuguesa, o que os fazia avançar permitindo a formação de um território que estivesse sob a jurisdição dos poderes instituídos, tanto local quanto do reino.
A pesquisa de Patrícia de Oliveira Dias traz uma análise sobre o perfil dos colonizadores que obtiveram sesmarias e quais aspectos que favoreciam a aquisição destas, considerando também o período de enfrentamento com os indígenas durante a conquista das terras na região do Assú. Segundo a autora, houve um incentivo por parte da coroa pela ocupação das terras desconhecidas da capitania, o que levou os conquistadores a desbravar esses espaços antes considerados como sertão29.
Os almotacés30 eram responsáveis pelos aspectos relacionados à fiscalização da execução das posturas municipais que diziam respeito ao comércio, salubridade e construção nas cidades e vilas. Os almotacés eram nomeados para exercer seu ofício por bimestre, sendo já designados no início de cada semestre pelos oficiais camarários, que eram um dos responsáveis pela governança local. Outro aspecto observado é que os homens que exercessem uma função principal na Câmara deveriam servir como almotacé no ano seguinte, como constava nas Ordenações Filipinas, instituídas em 160331:
28 DIAS, Patrícia de Oliveira. Onde fica o sertão rompem-se as águas: processo de territorialização da ribeira do
Apodi -Mossoró (1676-1725). (Mestrado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2015, 191f.
29 Idem
30 As atribuições dos almotacés constam no Livro I, título 68 das Ordenações Filipinas em que se intitula " Dos
Almotaces". As normas sobre os almotacés estão organizadas em parágrafos: "Dos Almotacés"; "pesos e medidas"; "limpesa" e "edifícios e servidões". O referido documento está disponível em: << http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l1p157.htm >>Acesso em: 5 Mar. 2018
E os Almotacés se hão de fazer no começo do anno per esta maneira. O primeiro mez hão de ser Almotacés os Juizes do anno passado: o segundo dous vereadores mais antigos: e o terceiro hum Vereador e o Procurador. E no lugar, onde houver quatro Vereadores, servirão no terceiro mez os outros dous Vereadores, e no quarto mez servirá o Procurador com outra pessoa, que será eleita.32
Segundo as Ordenações Filipinas, para os que seriam nomeados para o início do ano, estavam dispostos da seguinte forma: no primeiro mês seriam nomeados os juízes ordinários eleitos no ano anterior, no segundo dois vereadores, no terceiro um vereador e um procurador e no quarto mês um procurador e outro que tivesse sido também eleito33. Para o restante do ano seriam nomeados homens considerados idôneos pelos camarários. Percebe-se, por meio deste trecho, a preocupação em tornar a função da almotaçaria designada para o ano seguinte, em que estariam discriminados os oficiais responsáveis por aquele semestre.
Para o caso da capitania do Rio Grande, Kleyson Barbosa observou que havia o cumprimento desta norma na Câmara de Natal para o período entre 1720 a 1759, sendo que dos 150 indivíduos analisados por ele, 70% atuaram como almotacés34 posteriormente, não necessariamente no ano seguinte ao seu pleito. Segundo o autor, estando o oficial camarário impedido de atuar no ano seguinte nos cargos principais, poderiam servir como almotacés, o que lhes permitia uma forma de poder em relação aos demais na Capitania. Ao exercer uma função normatizadora, poderiam atuar no poder local, executando as posturas determinadas.
No período entre 1672 e 1719, esta recomendação não foi seguida tão à risca quanto no período posterior, sendo nomeados outros indivíduos para o exercício da almotaçaria. Dos indivíduos que foram eleitos para postos camarários principais, a saber, procurador, vereador e juiz ordinário, foram 12635. Não foram inseridos na contagem os que foram impedidos de exercer a função. Dos camarários analisados para o período entre 1672 e 1719, 88 não foram almotacés no ano seguinte e apenas 39 exerceram a função. Estes números correspondem a 70% e 30% respectivamente, o inverso do período posterior analisado por Kleyson Barbosa. Na Tabela 1 estão representados os indivíduos que exerceram ou não a almotaçaria no ano seguinte à eleição para algum cargo principal, divididos por função.
32 Ordenações Filipinas. Livro 1. Título 67. Em que modo se fará a eleição dos Juízes, Vereadores, Almotacés e
outros oficiais (Continuação). Disponível em: <<www1. Ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l1p156>>. Acesso em 24 jun. 2018.
33
Ordenações Filipinas. Livro 1. Título 67. Em que modo se fará a eleição dos Juízes, Vereadores, Almotacés e outros oficiais (Continuação). Disponível em: <<www1. Ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l1p156>>. Acesso em 24 jun. 2018.
34 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
Tabela – 1 Exercício da almotaçaria no ano seguinte à eleição por função principal em porcentagem e número de indivíduos.
EXERCERAM NÃO EXERCERAM TOTAL
Procurador 30% (11) 70% (26) 100% (37) Vereador 34% (23) 66% (46) 100% (69) Juiz Ordinário 29% (12) 71% (29) 100% (41) Total 31% (46) 69% (101) 100% (147)
Tabela 1 – Elaborada pela autora Kallyany Santayne P. da Silva com base no Catálogo dos livros de termos de vereação (1672-1719)
Dos resultados obtidos, observa-se que há uma uniformidade quanto à porcentagem dos que exerceram a almotaçaria, estando em torno de 30% dos que atuaram em algum posto camarário principal no ano anterior. Isto revela que grande parte dos que desempenharam alguma função como oficial camarário não cumpriu a determinação posta nas Ordenações Filipinas de exercer a almotaçaria no ano seguinte a sua eleição e posse, diferindo do que foi apresentado por Kleyson Barbosa para o período entre 1720 a 1759.
É importante aprofundar a pesquisa a fim de entender quais seriam as possíveis justificativas para que esta medida não fosse cumprida na capitania do Rio Grande nesse período. É importante destacar que os almotacés tinham por obrigação sair em correições pela capitania a fim de fiscalizar o cumprimento das posturas propostas na Câmara de Natal. Considerando que até 1759 não havia outra para o Rio Grande, isto significava ter de se deslocar para fora da cidade, dificultando a ação dos almotacés devido à distância. Outra hipótese seria de que neste momento a atividade da almotaçaria ainda não fosse valorizada pela Câmara e estes não quisessem sair para executar as posturas.
Dos que exerceram funções principais na Câmara e não foram almotacés no ano seguinte destacam-se Pedro da Costa Faleiro. Este foi eleito juiz ordinário por quatro vezes, em 1679, 1694, 1697 e 1711, sendo que no último não assumiu por ter falecido. Exerceu apenas este posto camarário, o de maior importância e prestígio. Verifica-se, em sua trajetória, uma ascensão quanto a patente militar, visto que no ano de 1694 assumiu como juiz ordinário com a patente de capitão e depois como coronel. É possível inferir que a almotaçaria ainda não exercia um papel relevante entre os que exerciam os cargos principais.
elegerão às mais vozes nove pares de homens bons dos melhores, que houver no Concelho, que esse ano não forem officiaes deles, que sejam pertencentes para o ser; e serão escriptos em uma pauta, assinada pelos ditos officiaes, e se cerrará e sellará, e meterá no cofre da eleição, para se saber no fim do anno, se saíram aqueles que foram ordenados.36
É interessante observar a recepção destes regimentos por parte não só do reino, mas também para as colônias no ultramar, pois isto dependia das necessidades de cada localidade. Para o caso da capitania do Rio Grande, partes destas normas eram cumpridas, sendo também a proporção de camarários eleitos diferente das Ordenações Filipinas: dois juízes ordinários, três vereadores e um procurador. Isto influenciaria também na dinâmica de escolha dos almotacés. Para o primeiro semestre, eram nomeados para a almotaçaria os que tivessem sido eleitos para algum cargo camarário principal no ano anterior, seguindo a ordem de importância do posto, de juiz ordinário a procurador, que consta nas Ordenações, mas com um número diferente, sendo nomeados dois a cada dois meses.
Para o segundo semestre também seriam nomeados dois almotacés a cada dois meses, entre os que fossem considerados aptos para esta função e fossem reconhecidos pelo Senado, porém sem necessariamente ter sido camarário. No ano anterior, não foi encontrada nenhuma lista de indivíduos que compusessem os que figuravam entre os aptos para a almotaçaria para o Rio Grande, mas foi possível elaborar um perfil dos que foram escolhidos a partir das fontes utilizadas.
A função de almotacé, embora não fosse remunerada, poderia trazer privilégios a quem fosse nomeado, pois estes poderiam receber uma remuneração se uma medida envolvendo a venda de mantimentos fosse descumprida37, por exemplo. Uma das atribuições dos almotacés referia-se ao controle e fiscalização do comércio. Caso os instrumentos de pesos e medidas não estivessem devidamente afilados, ou seja, se não estivessem de acordo com as normas estabelecidas, isto poderia resultar em punições como o pagamento de multas ao concelho. Além disso, poderiam praticar atividades comerciais somente aqueles que tivessem licença da Câmara38.
36 Ordenações Filipinas. Livro 1. Título 67. Em que modo se fará a eleição dos Juízes, Vereadores, Almotacés e
outros oficiais (Continuação). Disponível em: <<www1. Ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l1p156>>. Acesso em 24 jun. 2018.
37 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017, p.58
38
Ordenações Filipinas. Disponível em: << http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l1p158.htm>>. Acesso em 24 jun. 2018.
Os almotacés eram responsáveis por verificar tais permissões quando saíam em averiguações na capitania, as correições. Tratava-se de um cargo que poderia servir de acesso à câmara, favorecendo a circulação destes indivíduos entre os considerados homens
bons e que estes fossem eleitos entre os camarários principais (procurador, vereador e juiz
ordinário).
1.2 - Principais funções desempenhadas pelos almotacés na capitania do Rio Grande (1672-1719)
Para esta pesquisa, observou-se a presença de 140 pessoas nomeadas como almotacé na cidade do Natal. Dentre estes, 107 exerciam postos militares, representando 76% do total. Não fora detalhado quais seriam as tropas militares às quais os indivíduos participavam, mas é possível observar a presença das tropas de ordenanças. Estas não eram pagas, porém recebiam, em troca dos serviços, mantimentos e armamentos, bem como detinham prestígio social entre seus pares. Embora esta informação não esteja detalhada neste momento, é possível inferir sobre o papel relevante destas forças militares para a defesa da capitania e conquista de terras no processo de conquista e consolidação do poder sobre a colônia. No período estudado, estava ocorrendo a "Guerra dos Bárbaros"39, em que houve conflitos entre os colonizadores luso-brasileiros e diversos grupos indígenas. Portanto, a nomeação de almotacés que exercessem postos militares reflete a importância da defesa da Capitania e expansão de seus domínios.
No período entre 1720 e 1759, Kleyson Barbosa observou que uma das características observadas fora a presença de camarários que tinham patentes de ordenanças e que havia uma relação hierárquica entre os postos camarários e postos militares. Destes, 87% receberam alguma patente de ordenança, ou seja, detinham poder militar.40 Fora observado também que, conforme um oficial camarário fosse ascendendo em seu cargo, de procurador a juiz ordinário, este ascendia em seu posto militar e poderia adquirir mercês relacionadas à posse
39 PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: Povos Indígenas e Colonização do sertão Nordeste do Brasil,
1650-1720. São Paulo: HUCITEC: Editora da Edusp, 2002; ALENCAR, Júlio César Vieira de. Para que enfim se colonizem estes sertões: a Câmara de Natal e a Guerra dos Bárbaros (1681-1722). 2017. 243f. Dissertação (Mestrado em História) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
40 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017, p.55
de terra por meio de sesmarias ou de chãos de terra. Tais fatores serviriam como distinção social41 e aumento da qualidade da pessoa.
O autor destacou a função dos oficiais da Câmara, escolhidos por eleição, para analisar, por meio destas, outras funções como o dos almotacés, nomeados por estes. A análise foi feita a partir de um processo inverso ao proposto neste trabalho. Considerando que grande parte dos oficiais camarários analisados por Kleyson Barbosa exerceram a almotaçaria e que esta poderia ser considerada uma porta de acesso para o exercício de postos na câmara42, que parte expressiva destes possuía alguma patente de ordenança, foi possível questionar este aspecto no período anterior para os almotacés aqui observados.
Para esta pesquisa, foi elaborado o Gráfico 1, a fim de facilitar a percepção e análise das informações obtidas43. Dos almotacés, a maioria exercia algum posto militar, sendo 87% destes. Isto pode indicar que havia uma preferência maior por parte da Câmara por indivíduos que possuíssem algum posto militar na capitania do Rio Grande, percebendo tanto a necessidade de defesa do território para a efetivação da reconquista deste e a expansão territorial, quanto pela posição de autoridade que estas pessoas tinham naquela sociedade. José Eudes Gomes, em seu trabalho sobre a organização e cotidiano das tropas de primeira linha na Capitania do Ceará no século XVIII, aponta que o serviço de armas era obrigatório a todos os homens que fossem capazes de tomar armas e que estes deveriam estar engajados em alguma tropa44. E se preferia que as tropas fossem locais para que os soldos permanecessem na Capitania como forma de manter a economia local45. É possível fazer uma comparação com o Rio Grande e desta forma explicar a grande quantidade de almotacés que exerciam algum posto militar. Esta função poderia reforçar aquela, no sentido de que o exercício de autoridade diante dos demais colonos poderia destacar-lhes para serem nomeados como almotacés. Além disso, é possível fazer uma relação entre a obtenção de reconhecimento por meio de postos de ordenança como forma de reconhecimento por serviços prestados à Coroa na defesa da capitania por estes indivíduos e assim estes poderiam
41 Idem. 42
Idem
43 Gráfico elaborado utilizando como fonte os Termos de Vereação da cidade do Natal. IHGRN. Catálogo dos
livros de termos de vereação: Senado da câmara de Natal.
44 GOMES, José Eudes Arrais Barroso. " As armas em nome de sua Altíssima Majestade: organização e
cotidiano das tropas de primeira linha na Capitania do Ceará (século XVIII)." In: DORÉ, Andréa; SANTOS, Antônio César (orgs.). Temas setecentistas. Curitiba: Fundação Araucária, 2009, p. 45.
se distinguir socialmente tornando-se este um fator relevante para a nomeação destes para a almotaçaria.
O Gráfico 1, apresentado a seguir, permite observar a porcentagem por posto de ordenança exercido pelos almotacés.
Fonte - Gráfico elaborado pela autora Kallyany Santayne P. da Silva com base no Catálogo de livros dos Termos de Vereação da cidade do Natal entre 1672 a 1719.
Desta forma, foi observado que uma parcela significativa dos almotacés exercia uma patente militar, por meio dos postos de ordenança, representando 76% dos 140 almotacés analisados para o período entre 1672 e 1719. Havia diferentes postos de ordenança dentre os que foram observados, constatando-se que a maioria exercia o posto de capitão e alferes, sendo 44 capitães e 31 alferes, representando 41% e 28% respectivamente. Embora fossem postos baixos, eram importantes no quadro social. As tropas de ordenança, embora não fossem pagas, possuíam armas e recebiam mantimentos como forma de manutenção de sua atividade. É possível inferir duas hipóteses que possam explicar o número expressivo destes postos. A primeira diz respeito à porcentagem de alferes. Grande parte dos almotacés ingressava na câmara com esta patente, como observado no trabalho de Kleyson Barbosa, o
que mostra a possibilidade de construir um processo combinado de ascensão militar e política. O posto de alferes estava imediatamente acima da patente de soldado, o que pode significar uma carreira iniciada ainda na juventude por parte desses homens. Outra hipótese que pode ser pensada seria a grande parcela de capitães nomeados para a almotaçaria. O posto de capitão estaria acima do alferes, mas ainda era uma patente baixa, considerando a de coronel, por exemplo. Os que possuíam tal patente seriam os indivíduos que já detinham cargos na câmara, sendo eleitos ou nomeados e que exerceram a almotaçaria posteriormente.
Dentre os postos militares de maior importância, havia 10 tenentes, cinco tenentes-coronéis e quatro tenentes-coronéis. Verificou-se, desta forma, que conforme os militares ascendiam em sua patente, estes não atuavam como almotacés. Embora não fosse uma regra, havia certo padrão. É possível demonstrar a relação hierárquica nos postos militares em que poucos alcançavam os postos mais avançados, como o de coronel. Para obter tal reconhecimento, era necessário construir uma carreira na qual o serviço e a lealdade ao rei no processo de defesa e conquista da colônia eram necessários.
Havia ainda dois comissários gerais da cavalaria que podem ser analisados em separado para entender a ocorrência destes. O comissário geral da cavalaria estava acima dos que faziam parte de postos que pertenciam à infantaria. Era mais difícil alcançar este posto, dado o seu valor hierárquico. É possível inferir que a maioria, 44%, exercia um posto superior na hierarquia das ordenanças militares, que era o de capitão, embora apenas 4% detivesse a patente de maior importância na colônia que era o de coronel e 2% de comissário geral da cavalaria. Entre os almotacés nomeados havia também dois ajudantes, posto militar abaixo de soldado. Considerando as patentes nas quais os almotacés mais se destacavam, é possível levantar hipóteses quanto a ocorrência dessas patentes mais baixas. Mesmo em menor quantidade, estes números mostram certa heterogeneidade entre os que exerciam a almotaçaria.
Um dos almotacés que foram estudados tanto nesta pesquisa quanto na de Kleyson Barbosa e que obteve destaque foi Manuel de Melo e Albuquerque. O comissário geral da cavalaria, conforme descrito pelo historiador em seu trabalho46, construiu uma carreira na Câmara da cidade do Natal ao passo que crescia em sua patente de ordenança. Nascido em Olinda, em sua trajetória iniciou como soldado, alferes, tenente e após chegar à capitania do
46 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017
Rio Grande fora promovido para capitão em 170647. No período estudado nesta pesquisa, observou-se que este se tornou vereador em 1709 quando ocupara este posto. À medida que ascendia em postos militares, crescia também quanto aos postos camarários. Obteve a última patente descrita em 171148. Manuel de Melo e Albuquerque pode ser analisado como um dos casos em que os oficiais se alternavam entre o cargo na Câmara e o exercício de almotacé no ano seguinte à sua atividade, durante o período em que foi vereador.
Conforme Kleyson Barbosa, Manuel de Melo e Albuquerque ocupou o cargo de almotacé por 11 vezes entre 1710 e 1745, sendo também juiz de órfãos entre 1732 e 1734. De acordo com o historiador, o almotacé ainda recebeu três chãos de terra na cidade do Natal. Ele também solicitou e recebeu duas sesmarias na capitania do Rio Grande. Posteriormente, recebeu uma sesmaria em Pedra Preta, em 173949, e em Natal em 174050. Além disso, casou-se com Dona Eugênia Rodrigues de Sá, filha do vigário de Natal, Doutor Simão Rodrigues de Sá, com quem teve três filhos, dentre eles Caetano de Melo e Albuquerque51. Este também se destacou no cenário militar e político, seguindo os passos de seu pai.
Pretendeu-se observar a trajetória dos almotacés que ingressaram na Câmara a partir da almotaçaria, sendo estes nomeados pelos oficiais do Senado, pensando que, posteriormente, o acesso a este por meio de eleição seria possível. Porém, conforme a pesquisa foi sendo aprofundada, lançou-se a hipótese de que a almotaçaria também seria uma forma de manutenção de poder por parte dos camarários que exercessem postos principais no ano anterior, sem assim desligar-se da Câmara e formando possíveis redes de relacionamento entre os que exerciam papéis de governança local. Mas como foi observado, poucos eram os camarários, cerca de 30%, que exerceram a almotaçaria no ano seguinte.
47 Idem 48 Idem
49 Referência: RN 0480. Disponível em:<<www.silb.cchla.ufrn.br/busca>>. Acesso em 2 jul. 2018. 50
Referência: RN 1005. Dados disponíveis da Platafoma SILB que podem ser encontrados no sítio <<http://www.silb.cchla.ufrn.br/sesmaria/RN%200954>>. Acesso em: 27 out. 2016. Fonte: Fundo documental do IHGRN, Caixa 01 de Cartas e provisões do Senado da câmara. Livro 5 (1708-1713), fl. 48 v.
51 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
3.CAPÍTULO 2 - ANÁLISE DA ROTATIVIDADE EM RELAÇÃO AO CARGO DE ALMOTACÉ E A POSSIBILIDADE DE ACESSO À CÂMARA A PARTIR DA FUNÇÃO DA ALMOTAÇARIA
Um ponto que pode ser destacado é que, dos almotacés nomeados entre 1672 e 1719, somente 30% exerceram uma função principal na Câmara, ou seja, ocuparam os postos de procurador, vereador e juiz ordinário. Ademais, exerciam outras funções no Senado construindo uma carreira neste, participando do cotidiano da cidade, fosse pela participação na emissão de editais, ou pelo gerenciamento das atividades realizadas na capitania. Quanto aos que foram nomeados para a função da almotaçaria em maior quantidade e que podem ser destacados neste trabalho tem-se a seguinte lista em ordem decrescente do número de vezes em que ocuparam o cargo: Felipe da Costa, Francisco Pinheiro Teixeira, que tiveram seus nomes citados cinco vezes; Francisco de Oliveira Banhos, Manuel Gonçalves Branco, Manuel de Melo e Albuquerque e Gregório de Oliveira e Melo, nomeados por quatro vezes e Simão da Rocha Caminha, Teodósio Grassiman, Belchior Simões, Cipriano Lopes Pimentel, Manuel de Faria, José de Amorim, Cosme da Silveira, Manuel Soares Raposo da Câmara, João Leite de Oliveira e Manuel Fernandes de Melo, que foram citados pelo menos três vezes.
Foi possível levantar alguns dados a respeito dos almotacés mais nomeados, sendo estudados pelo menos 16 nomes entre os que exerceram algum posto na câmara no período estudado. Dentre os que constaram na tabulação feita, os escrivães, embora não fossem oficiais, tiveram presença significativa quanto ao exercício da almotaçaria. Francisco de Oliveira Banhos, Domingos Dias de Barros e Estevão Velho de Melo, foram os escrivães que também foram nomeados para aquela atividade nos anos seguintes. Os escrivães desempenhavam um papel fundamental na Câmara: escreviam as atas dos Termos de Vereação, as posturas municipais e correições, de forma que as decisões tomadas pelos camarários passavam por eles. Os escrivães tinham maior acesso aos documentos, quanto à compreensão destes por serem alfabetizados, sendo de extrema relevância para uma sociedade de poucos letrados.
Dos almotacés nomeados, uma minoria conseguia se manter na função e ascender para algum cargo principal. Desta forma, foi possível observar a formação de grupos: entre os que exerceram apenas uma vez a almotaçaria e posteriormente não eram eleitos para alguma função na Câmara; os que exerciam mais de uma vez e não conseguiam ter acesso à câmara e
os que exerceram a almotaçaria e conseguiam posteriormente ser eleitos pelo menos uma vez, ou desenvolviam uma carreira camarária. Por meio dos gráficos que serão analisados neste capítulo, é possível observar que o número de indivíduos, quanto aos casos citados diminui, formando uma espécie de "funil" ou camadas de almotacés entre os quais os que estavam no topo seriam os que alcançavam os três cargos depois de terem sido nomeados almotacés.
Foram subtraídos dos almotacés estudados os que exerciam outras funções secundárias, como o escrivão, obtendo-se 115 indivíduos. Observou-se a trajetória a partir da função de almotacé para um possível acesso às funções principais na Câmara: procurador, vereador e juiz ordinário.
Os dados foram organizados a fim de elaborar um Modelo Geral de Rotatividade a partir do cargo de almotacé entre 1672 e 1719. Foram analisados apenas os que exerceram a almotaçaria pelo menos uma vez, várias vezes consecutivas e os que exerceram apenas um ofício na Câmara de Natal no período estudado. É possível observar que dos 115 almotacés no geral, destes, 46% ingressaram tendo sido oficiais da câmara anteriormente. É importante salientar que para cada ano eram eleitos 3 vereadores, 2 juízes ordinários e 1 procurador. Em grau de importância e prestígio na Câmara, a função de juiz ordinário seria o de maior relevância se comparados a de vereador e procurador respectivamente52, de acordo com Kleyson Barbosa. O Gráfico 2 apresenta um modelo geral de rotatividade a partir da função de almotacé e a entrada destes em funções principais sendo anteriormente nomeados para a almotaçaria53.
52 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
Fonte - Gráfico elaborado pela autora Kallyany Santayne P. da Silva com base no Catálogo de livros dos Termos de Vereação da cidade do Natal (1672-1719).
Por meio dos dados apontados, observa-se que 26% destes que iniciaram como almotacés foram eleitos diretamente para o cargo de vereadores, ou seja, conseguiram alcançar um posto de maior importância na Câmara, depois do juiz ordinário, e que era responsável pela definição de posturas para a cidade. Este número corresponde a 30 pessoas. Enquanto isto, apenas 13 indivíduos foram eleitos como procuradores e 11 juízes ordinários, de forma direta - a partir do cargo de almotacé - o que corresponde a 11,3% e 9,6% respectivamente. É possível explicar, com base nestes resultados, que o número maior de vereadores se deve também a maior quantidade de eleitos para esta função, em razão a de procuradores e juízes ordinários. Além disso, observa-se um menor número destes últimos, que pode ser explicado pela importância dada a este cargo, sendo o posto camarário mais elevado, segundo Kleyson Barbosa. O posto de juiz ordinário, que permitia a eleição de dois indivíduos, aparece em terceiro lugar, tomando-se as devidas proporções, pelo fato de serem eleitos em maior número. Observa-se a dificuldade em acessar postos mais elevados, a partir do cargo de almotacé, sendo eleitos com a função de juiz ordinário, por exemplo, tornando-se necessário muito mais do que exercer a almotaçaria para facilitar um possível cargo camarário.
A maioria dos almotacés que foram nomeados para o período entre 1672 e 1719 e que o exerceram apenas uma vez corresponde a 42% (48 pessoas), enquanto 11,3% (13 pessoas) exerceram mais de uma vez a mesma função. A almotaçaria, para este período, apresentou grande rotatividade para os que a exerceram apenas uma vez, e menor para os que a exerceram continuadas vezes, o que pode ser interpretado como uma distinção social entre os almotacés, que pode estar associada a relações familiares com pessoas de influência política na capitania. É possível perceber a formação de um grupo seleto dentro da almotaçaria, ou mesmo entre os homens bons. Alguns grupos na colônia destacavam-se como sendo "homens principais", ou se constituindo como uma "nobreza da terra", conquistando esta distinção não nobiliárquica não somente por meio da ascendência familiar, mas também por meio da conquista de terras e patentes no ultramar, o acesso à Câmara e ser senhor de terras e escravos, segundo Maria Fernanda Bicalho54.
É possível pensar a almotaçaria, para o caso da capitania do Rio Grande, entre 1672 a 1719, como um cargo que possibilitava o acesso à atividade camarária, mas não significava a garantia para isto, visto que 53% dos que foram nomeados almotacés não foram eleitos posteriormente para algum cargo principal. Somando-se à análise do primeiro gráfico referente aos postos de ordenança, a atividade da almotaçaria e o desempenho de uma função militar, mesmo que os destacasse na sociedade, ainda não significaria ser um fator decisivo para o ingresso na Câmara.
É interessante notar a porcentagem maior de almotacés eleitos vereadores do que de procuradores, visto que dentro do quadro de importância entre as três funções, os procuradores estariam em último lugar, tendo à sua frente os cargos de vereador e juiz ordinário, segundo a análise de Kleyson Barbosa como forma de interpretar uma possível hierarquia entre os cargos camarários55.
Nuno Gonçalo Monteiro, em sua pesquisa sobre os concelhos e as comunidades em A História de Portugal, aborda as funções desempenhadas e o número de oficiais que deveria haver em cada casa da Câmara. Segundo Monteiro56, esta seria composta por um juiz-presidente (ordinário ou de fora), dois vereadores, um procurador e que estes oficiais
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BICALHO, Maria Fernanda Baptista. Conquista, Mercês e Poder Local: a nobreza da terra na América Portuguesa e a cultura política do Antigo Regime. Forum. Amanack braziliense, n. 2, nov. 2005
55 BARBOSA, Kleyson Bruno Chaves. A Câmara de Natal e os homens de conhecida nobreza: Governança
Local na Capitania do Rio Grande (1720-1759). 319 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2017.
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MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Os concelhos e as comunidades. In.: História de Portugal. O Antigo Regime. vol.4. Direção: José Mattoso. Coordenação: Antônio Manuel Hespanha. Editorial Estampa.