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Formação de professores numa perspectiva inclusiva?

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Formação de professores numa perspectiva inclusiva?

Flomar Ambrosina Oliveira Chagas1 e Giselma Ribeiro de Souza1

1Programa de Pós-Graduação, mestrado profissional em Educação para Ciência e Matemática do Instituto Federal de

Goiás/IFG/Câmpus Jataí, Brasil. [email protected]; [email protected]

Resumo. Esta pesquisa de abordagem qualitativa, tipo bibliográfica, foi realizada em 2018, com o objetivo de

verificar se a legislação tem se concretizado nas instituições de ensino superior para a formação efetiva dos professores. Foi realizado estudo das ementas da disciplina da Libras de cursos de formação de professores em duas instituições de ensino superior públicas, na cidade de Jataí-Goiás, região Centro-Oeste do Brasil, relacionadas às áreas de Ciência. Constatou-se que nas duas instituições, os cursos trazem em suas ementas a Libras como componente obrigatório. A inserção da Libras no currículo das licenciaturas representa, sobretudo, acesso a direitos, que possibilitam uma outra história para a educação dos Surdos. Sabe-se, contudo, que não é só a obrigatoriedade de uma disciplina que irá mudar as problemáticas da educação do Surdo, são necessários a efetivação de políticas públicas e o empenho conjunto da instituição e da sociedade.

Palavras-chave: Ementas; Ensino Superior; Educação Inclusiva; Surdez.

Teacher education in an inclusive perspective?

Abstract. This research of qualitative approach, bibliographical type, was carried out in 2018, in order to verify if the legislation has materialized in the institutions of higher education for the effective formation of the teachers. A study was carried out on the subjects of the Libras discipline of teacher training courses of two public higher education institutions, in the city of Jataí-Goiás, Central-West region of Brazil, related to the areas of Science. It was verified that in the two institutions, the courses bring in their menus the Libras as a compulsory component. The inclusion of Libras in the curriculum of degrees is, above all, access to rights, which provide another story for the education of the Deaf. It is known, however, that it is not only the obligation of a discipline that will change the problems of the education of the Deaf, it is necessary the implementation of public policies and the joint commitment of the institution and society.

Keywords: Menus; Higher education; Inclusive education; Deafness.

1 Introdução

Ao longo da história, pessoas com necessidades especiais foram desprovidas da educação formal. Era privilégio, dos que tinham condições financeiras. Dupla exclusão. No Brasil, a oferta da educação de pessoas com necessidade especial, na escola regular de ensino, decorre da implantação da Educação Inclusiva consolidada pela Constituição Federal de 1988, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei n. 9.394 de 20 de dezembro de 1996 e pelas leis pós-LDB seguindo os documentos internacionais, como por exemplo, a Declaração de Salamanca de 1994.

Um dos aspectos relacionados a esse movimento, destaca-se as condições de acesso às informações e à interação na participação social, e o reconhecimento da diferença linguística, cultural e social. As instituições escolares ainda têm dificuldades em conviver entre dois sistemas linguísticos distintos, com duas línguas de modalidades diferentes como a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a Língua Portuguesa. Daí é imprescindível a formação do professor na perspectiva da educação inclusiva. Apenas na década de 1990, a formação de professores da educação especial foi regulamentada, a partir de então, houve avanços quantos às leis. A LDB, em seu art. 59, inciso III, por exemplo, destaca a importância da preparação adequada dos professores como um dos fatores fundamentais para a efetivar a inclusão, para integrar educandos especiais nas classes comuns (BRASIL, 1996). A Lei 10.436/2002, o Decreto 5.626/2005 trazem a obrigatoriedade da Libras nos cursos de licenciatura.

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Assim sendo, buscou-se verificar se a legislação tem se concretizado nas instituições de ensino superior para a formação efetiva dos professores de Ciência da Natureza para responder a seguinte pergunta: As ementas dos cursos de Licenciaturas na área de ciências contemplam a disciplina da Libras? Esta questão desdobra-se em outras: as ementas contemplam parte prática e teórica? A carga horária dos cursos de Licenciaturas que ministram Libras é compatível para a formação efetiva do licenciando ou apenas atende a legislação sobre inclusão dos estudantes Surdos? Buscou-se, assim, dialogar sobre a construção curricular nas Licenciaturas a partir destas indagações. Para tanto, analisou-se ementas da disciplina da Libras em quatro cursos de licenciaturas relacionadas às áreas de Ciência de duas instituições públicas de ensino superior de Jataí, Estado de Goiás/Brasil.

A partir de leis internacionais, as leis nacionais buscam, lentamente, dar garantia de educação, na escola regular, aos alunos com deficiência, no caso desta pesquisa, aos alunos Surdos. Destacamos algumas leis fundamentais, como: a Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394 de 20 dezembro de 1996 que estabelece o ensino especial como modalidade que se inicia na educação infantil e vai até o ensino superior. Esta lei direciona à educação inclusiva em nosso país, de forma gradativa, os sistemas de educação começaram a cumprir o que esta lei determinava. Outra, a Lei n° 10.436 de 24 de abril de 2002 reconhece a Libras como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil. O decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005 estabelece a obrigatoriedade da disciplina da Libras nos cursos de formação de professores, a Lei nº 12.319 de 1º de setembro de 2010 reconhece a profissão de Tradutor e de Intérprete da Libras, a Lei nº 13.146 de 6 de julho de 2015, institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

Além das leis, vários autores dão suporte teórico a este trabalho entre eles, Saviani (2009), Nóvoa (2007) discorrem sobre a formação de professores, Bueno; Ferreira (2009) fala sobre a formação de professores para a educação inclusiva e educação de Surdos, Gesser (2009) sobre Libras. Para Vygotsky (1997, p.127), “as crianças surdo-mudas vivem e respiram como vivem e respiram todo o país”, daí a importância da formação de professores na perspectiva inclusiva.

2 Formações de professores e diretrizes para o ensino superior

A formação de professores surge, de maneira explícita, conforme Saviani (2009), após 1822, com a independência, quando se pensa na instrução popular, e o desenvolvimento educacional ocorre nos últimos dois séculos. Nesse estudo, focaliza a formação de professores a partir da década de 1990, quando emerge de forma mais intensa a proposta da educação inclusiva. Para Gesser (2009, 79-80), não se pode falar em igualdade de condições de ensino nas escolas se não existir uma política de formação universitária de educadores devidamente capacitados para fazerem face às diferenças linguísticas existentes em nosso país - diferenças que não se restringem somente ao caso dos surdos. Assim sendo, programas de formação inicial ou continuada devem oferecer aos professores que ensinam em classes comuns, oportunidades de apropriação de conteúdos e competências necessários para um trabalho com alunos com necessidades educacionais especiais incluídos em suas classes. (Bueno; Ferreira, 2003, p. 66). E a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal, (Nóvoa, 1995, p.25).

No Brasil, ao longo dos séculos, não houve preocupação com a educação formal dos alunos com necessidade especial. A primeira tentativa, sem êxito, sobre a institucionalização da educação de Surdos, ocorreu em 1835. As pessoas com deficiência, só tiveram seu início educacional em meados do século XIX. A fundação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, em 1854, atual Benjamin Constant – e do Instituto dos Surdos-mudos, em 1857, são marcos importantes.

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Quando o assunto é educação inclusiva, a discussão acerca da capacitação adequada se agrava e, inevitavelmente, o foco recai sobre as instituições formadoras de professores. O cumprimento das leis, a Libras inserida nos cursos de licenciaturas faz com que os futuros docentes construam percursos significativos de aprendizagem e o desenvolvimento profissional ao longo da vida.

Desde a obrigatoriedade da disciplina da Libras, nos cursos de licenciaturas, o assunto se tornou tema de pesquisas. Fizemos um levantamento de pesquisas realizadas, dentre elas, citamos a pesquisa de mestrado de Pereira (2008) desenvolvida em oito instituições de ensino superior, privadas, sendo quatro do Estado de São Paulo e quatro do Estado de Minas Gerais. Destas, apenas quatro implantaram o ensino da Libras nas matrizes curriculares, com carga horária de 22 a 85 horas semestral. Perse (2011) analisou ementas de cinco universidades públicas do Rio de Janeiro, cujo resultado traz a concepção numa visão estruturalista de língua e decodificação de vocábulos e, com exceção de uma universidade que apresenta carga horária de sessenta horas, as demais têm carga horária de trinta horas.

Lemos e Chaves (2012) também pesquisaram sobre a temática em seis universidades federais de quatro diferentes regiões e concluíram que há prioridade ao conteúdo teórico. Almeida e Vitalino (2012) pesquisaram sobre a implantação da disciplina da Libras no curso de Pedagogia numa instituição de ensino superior do Paraná e entre as principais dificuldades, as autoras destacam habilidades específicas para a prática da língua de sinais e a carga horária insuficiente da disciplina. Martins e Nascimento (2015) analisam as ementas da Libras nas Licenciaturas em duas instituições de ensino superior, uma pública e outra privada, do interior do estado de São Paulo com carga horária de quarenta e sessenta horas semestrais, respectivamente. As autoras verificaram a importância da relação entre professor surdo e licenciando para a aprendizagem. Jesus (2017) analisou os Projetos Pedagógicos de Cursos e as ementas das Disciplinas Educação Especial e Libras em três cursos de licenciaturas da cidade de Manaus, sendo duas com carga horária de sessenta horas, apenas teoria, e a outra com carga horária de noventa horas, sendo trinta horas de prática.

No presente artigo, apresenta-se a análise de ementas de duas instituições públicas formadoras de professores da cidade de Jataí/ Goiás/Brasil, nos cursos da área de Ciências da Natureza. Para compreender as ementas analisadas, realizamos leituras de textos teóricos, de leis que abordam o tema, destacamos alguns artigos, incisos e parágrafos que falam sobre a formação de professores e ensino superior como, por exemplo, o Art. 3o, do Decreto 5.626/2005 estabelece: “A Libras deve ser

inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível [...] superior”.

Strobel (2008, p. 102) afirma que são poucos os professores com habilitação “para trabalhar com os alunos Surdos em sala de aula. Na maioria dos cursos de Pedagogia nas universidades não tinham estas especializações para esta área - somente agora salvo pelo decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005” e, de acordo com Almeida e Romanhol (2017), o ensino da Libras nos cursos de formação de professores é de suma importância, pois, os discentes das licenciaturas precisam de ter conhecimento das especificidades do Surdo, bem como de sua língua.

Para atender ao referido decreto, um dos desafios foi a reformulação das matrizes curriculares dos cursos de licenciatura e da inclusão da disciplina da Libras que se constituirá em disciplina optativa nos demais cursos de educação superior, a partir de um ano da publicação do decreto.

As instituições de educação superior que oferecem formação de professores, devem incluir Libras como disciplina curricular, como objeto de ensino, pesquisa e extensão nos cursos de formação de professores para a educação básica, devem “viabilizar cursos de pós-graduação para a formação de professores para o ensino de Libras e sua interpretação, a partir de um ano da publicação deste Decreto” (Art. 12).

As instituições federais de ensino devem, conforme Art. 14, “garantir, obrigatoriamente, às pessoas surdas acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos [...] desde a educação infantil até a superior” (Brasil, 2005). E a

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formação do tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa deve efetivar-se, pelo Art. 17 “por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras - Língua Portuguesa” (Brasil, 2005).

A partir do decreto 5.626/2005, que diz sobre a obrigatoriedade da educação numa perspectiva inclusiva, foram analisadas as ementas de duas instituições públicas de ensino superior, verificando de que forma a disciplina da Libras tem sido implementada nos cursos de licenciatura para compreender como os futuros professores estão sendo formado para trabalhar com aluno Surdo.

Em pesquisas, Monteiro, Santana, Rinaldi e Schlünzen (2011, p. 126) verificaram que as produções acadêmicas sobre o ensino superior mostram dificuldades dos cursos de licenciatura em atender o decreto 5.626/2005, pela falta de profissionais qualificados para ministrar a disciplina da Libras. De acordo com as autoras, os cursos de licenciatura ainda não se adequaram ao texto legal, pois “o ensino da Libras é oferecido como disciplina optativa nos cursos de formação de professores e não como disciplina obrigatória”, sendo sua inserção, como obrigatória, nos cursos de Licenciatura em Letras e em Fonoaudiologia. Além disso, para as autoras, a escassez de produções tem dificultado pesquisa educacional sobre a temática.

Quanto à posição social de aprendizagem, principalmente, sobre o pensamento e a aquisição de conhecimentos, embasamos em Vygotsky (1997, p.132) para quem “as palavras desempenham um papel central não só no desenvolvimento do pensamento, mas também na evolução da história da consciência como um todo”.

Sobre formação docente, o prof. David Rodrigues, da Universidade de Lisboa, em entrevista, diz o porquê de Portugal ser uma referência em educação inclusiva. Para ele, “desde 1986, é obrigatório em todos os cursos de formação de professores uma ou várias disciplinas sobre Necessidades Educativas Especiais (NEE). Em vez de uma disciplina, considerar que todas fossem organizadas numa lógica inclusiva. Afinal, como é possível ter uma disciplina de “Desenvolvimento Curricular” sem falar de “diferenciação curricular”?

3 Metodologia

Este trabalho é um recorte de uma pesquisa mais ampla de dissertação de mestrado. O recorte trata-se da análitrata-se de ementas de quatro cursos de Licenciaturas de duas instituições públicas de ensino superior da cidade de Jataí/Goiás/Brasil. É uma pesquisa de abordagem qualitativa que consiste no enfoque de diferentes aspectos subjetivos que possam ser observados, possibilitando às

pesquisadoras uma análise mais elaborada do processo e de respostas apresentadas. Caracteriza-se a

pesquisa qualitativa como aquela que tem “o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como instrumento-chave. É descritiva. Assim, pesquisadores estão preocupados com o processo e não simplesmente com os resultados e o produto. O significado é preocupação essencial na abordagem qualitativa” Triviños (2011 p. 128-30). A pesquisa qualitativa não se detém a número, dá ênfase à análise dos fatos. Essa abordagem é adequada quando se procura compreender, explorar ou descrever acontecimentos e contextos complexos, nos quais estão, simultaneamente, envolvidos diversos fatores e por proporcionar aos pesquisadores maior vivência da realidade.

Em âmbito geral, foi feito um levantamento sobre a temáticas e a história da educação do Surdo, sobre legislação prevista para a educação de Surdos, a formação dos professores e a atuação do intérprete da Libras em escolas regulares. Depois, houve observações das aulas, pôde-se conhecer a rotina escolar de ensino fundamental, espaços internos e externos, a estrutura física das unidades escolares, se havia Laboratório de Informática, de Ciência e Biblioteca com atividades específicas para Surdos. No terceiro momento, houve entrevistas com participantes da pesquisa, professores da rede pública de ensino, intérpretes da Libras e alunos Surdos. E por último, foi feito mapeamento das ementas dos

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cursos de licenciaturas de instituições de ensino superior da região centro-oeste

, e feito

análise de ementas de duas instituições de formação de professores. Esta última parte é o foco deste artigo. Neste recorte, dá-se ênfase ao tipo de pesquisa bibliográfica. Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, esta pesquisa consistiu no levantamento bibliográfico para a coleta de informações, principalmente no portal de teses e de dissertações da Capes e em artigos caráter científico.

Primeiramente, foi feito levantamento bibliográfico, revisão da literatura, (teses, dissertações e artigos) sobre ementas de Libras nas licenciaturas, entre os anos de 2008 a 2018, nas diferentes regiões do país, para conhecimento do que fora produzido na área deste estudo. Após, foi feito levantamento nos sites das instituições que ministram licenciaturas presenciais, da cidade de Jataí/Goiás, região centro-oeste do Brasil. Em seguida, foram analisados quatro planos de cursos e ementas da área de Ciências da Natureza de duas instituições públicas de ensino superior desta cidade, denominadas de instituição A e B. Na instituição A, são dez cursos de licenciaturas, foram analisadas as ementas dos cursos de Ciências Biológicas, de Física e de Química. Deixou-se de fazer a análise do curso de Matemática, pois a ementa não se encontrava disponível no site do curso.

E na instituição B, procedeu-se análise da ementa do curso de Física, único curso de Licenciatura da instituição. As categorias analisadas foram Projeto Político dos Cursos e as Matrizes curriculares. As categorias oportunizaram compreender como foi a implementação do ensino da Libras em duas Instituições de Ensino Superior no sudoeste goiano.

Os cursos escolhidos se justificam pelo Mestrado ser em Educação para Ciências e Matemática a que se submete esta pesquisa.

4 Resultados e discussões

Por meio deste recorte de pesquisa, em nível de mestrado, pode-se dizer que os cursos de Licenciaturas voltados para Ciências da Natureza, estão cumprindo tanto o artigo 3º do Decreto nº 5.626/2005, como artigo 4º da Lei 10.436/2002 que dispõem sobre a obrigatoriedade da disciplina da Libras nos cursos de licenciaturas. A disciplina da Libras é ofertada como obrigatória nas instituições A e B nos cursos de Ciências Biológicas, de Física e de Química.

Os resultados desta pesquisa confirmam com os resultados de autores que pesquisaram sobre esta temática, como Pereira (2008), Lemos e Chaves (2012), Martins; Nascimento (2015) quanto à insuficiência da carga horária desta disciplina para a formação de professores, “O conhecimento básico desta língua é insuficiente para proporcionar uma fluência ao futuro professor, o que ele aprende em um semestre não o permitirá lecionar nesta língua para um aluno surdo”, (Martins; Nascimento, 2015:22). Para estas autoras, a disciplina nos cursos de licenciaturas traz outras leituras sobre a surdez, porém, com pequena carga horária, é impossível formar sujeitos bilíngues para o ensino de Surdos, mesmo assim, a perspectiva é de que a disciplina desfaça mitos sobre a surdez e a pessoa surda e, ainda propor uma experiência de contato com a língua de sinais, ainda que inicial. Almeida (2010) também fala da importância da disciplina da Libras na Licenciatura, possivelmente os licenciandos desconstruirão alguns mitos sobre os Surdos e sua língua. Isso, com certeza, trará impacto na sala de aula quando tiver em sala de aula alunos Surdos.

De acordo com Strobel (2008), com a obrigatoriedade da Libras nas licenciaturas, pode-se esperar melhoras nesta área, mas para Botelho (2007), pelo fato da Libras ser obrigatória nos cursos de formação de professores, pode dar a entender que o professor da sala de aula deverá ministrar suas aulas em Libras, para ela isso é impossível, pois aprender uma nova língua requer tempo, leva mais de um semestre ou mais de um ano letivo. Assim, ainda há uma longa caminhada a ser percorrida, “visto que as instituições de ensino superior, ainda não atingiram o percentual previsto no Decreto nº 5.626/2005”, (Santiago (2015, p.21).

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Em se tratando da relevância dessa disciplina para as licenciaturas, não há documentos legais ou de orientação que conduzam as particularidades que ela deve ter. Fica a critério de cada instituição aspectos como carga horária e ementa da disciplina, como se verificou a disciplina da Libras dos cursos de Ciências Biológicas, de Física e de Química da instituição A, conforme Projetos Pedagógicos dos Cursos (PPC) e da Matriz Curricular, acessível no site das duas instituições, nos seus respectivos departamentos de ensino. A disciplina da Libras nesses cursos, é ministrada num único semestre com caga horária de 64 horas. O PPC em Ciências Biológicas foi aprovado para os alunos ingressantes a partir de 2015, consta que a Libras é disciplina obrigatória, com sugestão para ser ministrada no sétimo semestre do curso. Assim também, pelo Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Física, os alunos têm a disciplina da Libras, como componente de natureza obrigatória, sugerida para o oitavo semestre, com. No entanto, ao analisar a matriz curricular verificou-se divergência entre ela e o PPC, neste consta a disciplina da Libras, mas não está inclusa na matriz curricular do referido curso. Quanto à Química, a Libras também é componente obrigatório, sugerida para o oitavo semestre no fluxo de disciplinas.

Sobre a ementa da disciplina da Libras da instituição B, o Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Física foi aprovado em 2007, destaca-se que havia apenas dois anos de aprovação do Decreto 5.626/2005, e o PPC já havia inserido a disciplina da Libras na matriz curricular. A disciplina é ministrada em dois semestres, sendo Libra I e II. Verificou-se que a disciplina Letras-Libras I, é um componente do núcleo comum, sendo sugerida para o quarto semestre no fluxo de disciplinas, com carga horária total semestral de 27 horas. A disciplina Letras-Libras II tem como pré-requisito ter sido aprovado em Letras-Libras I, é sugerida para o quinto semestre no fluxo de disciplinas, com carga horária total semestral de 27 horas, num total de 54 horas/aula.

Percebe-se, que não há carga horária prática para a disciplina da Libras em nenhum dos cursos analisados, nas duas instituições, o foco da Libras é o ensino de sinais, mas, como ensinar vocabulário sem prática? A esse respeito, Santos (2015, p.130) afirma que apesar de a maioria das ementas em análise não prescrever em seus textos esses procedimentos práticos, “na sua transposição é possível que isso ocorra, visto que nem sempre a ementa expressa a dimensão teórica e prática que ocorre em sala de aula”.

A ementa do curso de Física da instituição B traz divisão entre atividades práticas e teóricas a serem trabalhadas, porém, não consta carga horária prática no PPC. Ressalta-se essa divisão, como um ponto positivo, entretanto, seria interessante especificar a carga horária para cada momento.

Para Almeida e Romanhol (2017), a prática da Libras, não se deve ser em forma de vocabulários avulsos, como se aprender um amontoado de sinais resultaria em saber a língua alvo. É importante que a ementa aponte sobre contextualização com a área do curso, o que pode ser observado apenas no curso de Física da instituição B, aborda a expressão visual-espacial para a sociedade e para o ensino da Física. Relacionar com a área do curso é importante e auxilia o trabalho do futuro professor em formação.

Sobre a carga horária da disciplina da Libras nas licenciaturas, verificou-se nas duas instituições pesquisadas que não há padrão na carga horária. Numa, a maior corresponde a 64h, na outra 54h. Quanto à insuficiência da carga horária, também coincide com as pesquisas analisadas entre 2018 a 2018. Conforme Lacerda (2011), o ensino da Língua de Sinais nas instituições de ensino superior ainda é limitado e a quantidade de horas de curso da Libras é insuficiente, tornando também insuficiente a formação dos futuros professores.

Mesmo que o professor regente seja fluente em Libras, ele precisará da mediação do/a intérprete em ambientes que tenha surdos e ouvintes e a disciplina da Libras na formação de professores deve ser organizada, de forma a preparar os licenciados a atuarem com alunos Surdos, capaz de explicar as especificidades desses sujeitos Almeida (2010).

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A ementa do curso de Ciências Biológicas mostra as concepções sobre a Língua de Sinais, o surdo e a sociedade. O curso de Física da instituição A traz apresentação de conteúdos gerais relativos à comunicação visual, regras gramaticais específicas e sobre a legislação específica. E consta no PPC de Química que a Libras visa à formação docente com habilidades e competências para o ensino inclusivo.

A ementa da disciplina da Libras do curso de Licenciatura em Física da instituição B aborda as questões ligadas aos surdos, sua língua e particularidades, os pressupostos teóricos-históricos, filosóficos, sociológicos, pedagógicos e técnicos da Libras. Apresenta também a legislação vigente a respeito da Língua Brasileira de Sinais e dos direitos da pessoa surda. Inserir essas discussões na disciplina da Libras permite ao licenciando conhecer sobre, as filosofias educacionais da educação de surdo e alguns direitos dos povos Surdos e é fundamental para a formação do futuro professor, pois possibilita ressignificar sua formação, a partir da compreensão das especificidades dos Surdos quanto aos aspectos linguísticos, culturais e sociais.

A inserção da Libras no currículo das licenciaturas representa, sobretudo, acesso a direitos, que possibilitam uma outra história para a educação dos Surdos. Sabe-se, contudo, que não é só a obrigatoriedade de uma disciplina que irá mudar as problemáticas da educação do Surdo, são necessários a efetivação de políticas públicas e o empenho conjunto da instituição escolares e da sociedade, para uma formação numa perspectiva inclusiva que não ocorre apenas com uma carga horária de 64 horas aula. Conforme Martins (2008, p.195), não se pode tornar “superficial o ensino da língua de sinais, tomando uma única disciplina semestral, como manual de inclusão dos surdos na escola e na sociedade”.

Para além da obrigatoriedade da disciplina, as ementas devem garantir aos futuros professores o devido preparo para trabalharem com alunos Surdos. E isso passa pelo conhecimento dos direitos do povo Surdo, de sua cultura e identidade, também pelo estudo de metodologias adequadas, de materiais que contemplem o visual, formas avaliativas e processo de ensino capazes de valorizar a aprendizagem do aluno Surdo. Por isso não basta somente a aquisição de léxicos da Libras, é preciso de que a causa representada desta disciplina se incorpore em toda a formação de professores. Para Martins e Nascimento (2015, p. 27) se dará com luta e por meio das resistências surdas, na posição, ou construção de professores bilíngues com fluência na língua de sinais.

Como escreve Pereira (2008, p. 81), “a Lei por si só não opera mudanças, sendo necessário que haja surdos e ouvintes dialogando no espaço escolar para alcançar os objetivos propostos na educação dessa minoria linguística, constituída pela comunidade surda”. Então, que a disciplina da Libras nas licenciaturas faça com que os Surdos consigam respeito às suas necessidades linguísticas e que a formação possibilite ao futuro professor compreender os modos peculiares da aprendizagem do licenciando Surdo.

5 Conclusões

A Libras, como disciplina obrigatória nos cursos de Licenciaturas, é muito recente e vem atender políticas públicas educacionais, requer também profundas mudanças nos projetos de formação de professores tanto surdos como ouvintes. A partir da presença de estudantes Surdos nas escolas de ensino regular, as condições dos estabelecimentos de ensino precisam de ser outras, pois o público não é mais formado apenas por ouvintes. É preciso de ir ao encontro das necessidades dos alunos Surdos, grupo minoritário na escola, visto que “ensinar o surdo a falar significa não só brindar-lhe com a possibilidade de comunicar com as pessoas, como desenvolver nele a consciência, o pensamento, a autoconsciência” (Vygotsky, 1989, p. 66). Assim, suas necessidades deveriam ser o principal ponto de atuação da escola.

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E qualquer mudança precisa de passar pela formação do professor numa perspectiva inclusiva. Deve possibilitar a construção de outras estratégias pedagógicas. Uma formação para a cidadania inclusiva, é construção permanente, pois se trata de língua, cultura e de identidade diferente das pessoas ouvintes. Eis o grande desafio, ter a Libras como primeira língua do estudante Surdo e a Língua Portuguesa como segunda língua e a matriz curricular atender as particularidades no processo educativo, a experiência visual sobressair à oralidade. Assim, estaremos promovendo a cidadania e uma sociedade mais justa, mais igual.

Para Skliar (2005), precisa-se de entender a surdez como diferença não como doença. Desta forma, para uma educação inclusiva, é importante a mudança no ensino como um todo, mudanças no material didático, enfim na formação de professores. O’Donoghue; Chalmers (2000) afirmam que os professores pouco realizam mudanças na forma de ensinar os conteúdos curriculares ao receberem estudantes com necessidades especiais, com certeza, porque não tiveram durante a vida acadêmica a formação para a educação numa perspectiva inclusiva. Assim, como as demais pesquisas realizadas em diferentes regiões do país, a carga horária das duas instituições de ensino superior da região sudoeste, é insuficiente para a formação efetiva dos futuros professores.

Pelos estudos das ementas, ainda há cursos de Licenciaturas que a disciplina da Libras não é ofertada nem mesmo como optativa, como se vê pelo site da instituição A. Em alguns departamentos desta instituição, a Libras é ofertada como núcleo livre, assim sendo, o/a licenciando/a tem a liberdade de cursá-la ou não. Desta forma, é fundamental torná-la obrigatória, em todas as Licenciaturas, para as outras áreas do conhecimento, em especial na área de saúde.

Por fim, esta pesquisa qualitativa sobre ementas da Libras nos cursos de Licenciaturas de Ciências Biológicas, Física e Quimíca, possibilitou uma reflexão sobre a importância da Libras na formação dos professores e também oportuniza pesquisadores a realizarem outras pesquisas nas demais licenciaturas e abordarem aspectos não investigados como os egressos que ministram aulas para Surdos.

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Referências

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