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História, vida, liberdade e responsabilidade

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História, vida, liberdade

e responsabilidade

*

JOsÉ MigUEL sArDiCA **

É preciso que a História deixe de vos aparecer como uma necrópole adormecida, onde só passam sombras despojadas de substância. É preciso que, no velho palácio silencioso onde ela dorme, vocês pene-trem [...] – e que abrindo as janelas de par em par, avivando as luzes e restabelecendo o barulho, despertem com a vossa própria vida, com a vossa vida quente e jovem, a vida gelada da Princesa adormecida.

Febvre, 1985: 40

Magnífico Reitor da Universidade Católica Portuguesa; Ex.ma Senhora Directora da Faculdade de Ciências Humanas

(a quem, com toda a amizade e respeito, agradeço o convite e a honra de estar hoje aqui);

Ex.mo Senhor Director do Instituto de Estudos Políticos;

Ex.mos

Senhores Coordenadores de Áreas Científicas e Licenciaturas da Facul-dade de Ciências Humanas; Caros Docentes, Funcionárias, Licenciados e seus Familiares; Minhas Senhoras e Meus Senhores: Este é o dia em que, anualmente, a Faculdade de Ciências Humanas escreve mais uma página da sua história institucional. Mas é também uma data que entra

na história individual e familiar de cada um dos alunos que aqui irão ser reconhe-Comunicação & Cultura, n.º 8, 2009, pp. 151-160

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cidos como Licenciados. Esta dupla circunstância leva-me assim, hoje, a falar-vos sobre a História, para vos apresentar uma leitura do que julgo ser o estatuto epis- temológico dessa área de saber, dentro do vasto campo das chamadas Humanida-des, salientando a sua necessidade, utilidade e indispensabilidade, quando posta – como deve ser – em íntima relação com a vida, com a liberdade e com a respon-sabilidade. Não é um tema fácil nem cómodo. Se é certo, por um lado, que a História é hoje um género muito apetecível para o mercado editorial e para a celebração polí-tica e cultural de efemérides, é igualmente certo que sobre ela impende o estigma, injusto, lançado sobre as ciências humanas: o de serem saberes pouco científicos, cuja aplicabilidade não é imediatamente visível, irredutíveis aos indicadores quan-titativos de rentabilidade com que a civilização material hoje avalia os homens, as ideias e as coisas. Chegados ao século xxi, o cientismo economicista eclipsou a noção de que há áreas do conhecimento e da realização humana cujo lucro não se mede em quantidade de outputs para figurarem em rankings internacionais, mas em qualidade de formação humana que através deles se atinge. A História, como a Filosofia, a Literatura, as Artes ou outros ramos humanistas, está hoje no incó-modo lugar de um réu, obrigado a advogar a justeza da sua causa (v. Donoghue, 2008). É o que aqui farei, esperando conseguir convencer o meu júri – que são todos os que hoje me escutam – de que as humanidades, latamente entendidas, constituem a base essencial da formação dos seres humanos, ao fornecerem os ingredientes que definem a identidade e a memória espaciotemporal dos povos e dos indivíduos (Castro, 2007: 2). A História é um saber velho de milénios, que remonta aos Antigos, entre os quais era valorizada como Magistra Vitae, como arsenal de ensinamentos e de exemplos que ajudava os homens a conduzirem-se como cidadãos livres e os polí-ticos a apurarem a melhor forma de governo para a Polis, a Cidade (v. Ramos, 1991). Neste sentido, e desde a sua origem, em Heródoto ou Cícero, ela foi sempre uma epistemologia de aperfeiçoamento moral e civil – um caminho de percepção e de realização do Bem comum. Narrativa fundamental da aventura humana desde a Antiguidade, a História viria a ganhar a sua identidade e estatuto modernos nos séculos xvii e xviii através daquilo a que Isaiah Berlin chamou de «divórcio entre as ciências e as humanidades» (v. Berlin, 1999). Segundo a célebre dicotomia ini-ciada por Giambattista Vico e hoje reivindicada por todos os que a consideram um saber e não uma ciência, a História era Geisteswissenschaft, relato de ideias e vidas, esperanças e acções, acasos e contingências, por oposição ao cariz axiomático, imutável e lógico das Naturwissenschaft, ciências naturais ou exactas (Berlin, 1999: 103, 114-116). Desde o século xix até há umas duas décadas, gerações sucessivas

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de cientistas sociais, de Marx a Comte, e da historiografia dos Annales ao estrutu-ralismo, alimentaram a esperança de cientificizar a História, importando conceitos e métodos alheios à disciplina, sempre sob o raciocínio de que apenas seria verda-deira e academicamente digna uma História que fosse científica (Bonifácio, 1999: 18; Munslow, 2006: 29-31). Ora, como resumiu Isaiah Berlin, «pedir à história que se aproxime da condição de uma ciência é exigir-lhe que contradiga a sua essência» (Berlin, 1998: 104). A história fala de homens, no tempo e no espaço, e não de entidades a-tem- porais e a-espaciais, como os átomos de um físico ou os números de um matemá-tico. E porque os homens são sujeitos individuais, irredutíveis na sua diversidade, imprevisíveis na sua liberdade e incapazes de formularem leis gerais que antecipem o futuro, sobre eles não se pode construir ciência segura. Foi isso que levou o histo-riador Paul Veyne a definir a História como «uma mistura muito humana e muito pouco científica de causas materiais, de fins e de acasos», uma «fatia de vida», que se compreende empaticamente, mas que não se explica como quem analisa um corpo inerte (Veyne, 1987: 44).

O divórcio entre a história e a ciência não é portanto uma insuficiência a resolver mas uma saudável alteridade a manter. Se o objecto histórico é o estudo das ideias, das vontades, das acções e seus resultados, dos homens no passado, ele é incompatível com uma abordagem científica, porque não há leis gerais, modelos imutáveis ou regularidades infalíveis que possam guiar toda a diversidade impre-vista dos comportamentos humanos. É por isso que José Mattoso não hesita em definir a história como «uma fantástica sinfonia», «feita da incomensurável mis- tura de elementos de toda a espécie, tão diversos e contraditórios como a pró-pria vida»; e se é de vidas que a história fala, ela é «um saber e não uma ciência» (Mattoso, 1997: 10 e 38): só é possível abarcá-la com uma atitude «contempla-tiva» – a einfühlung alemã, enquanto intuição empática e «imaginação informada» (Berlin, 1999: 129) – que tudo envolve num «golpe de vista», captando assim «a espantosa realidade das coisas» (Mattoso, 1997: 17-18), e a fibra humana que um dia as regeu (a lifelikeness dos ingleses). Afirmar que a história não é uma ciência não significa afirmar – e eis outra questão central na avaliação da identidade do ofício – que nada a distingue da fic-ção literária ou, como o pós-modernismo faz, que o «real é tão imaginado como o imaginário» e que afinal «nada há para além do texto» que elaboramos (Lawrence Stone, cit. por Bonifácio, 1999: 55). Aqui, é necessário convocar Hayden White ou Peter Burke e lembrar que, se é verdade que a narrativa é a forma natural de escrever história (v. Bonifácio, 2000) – porque onde não há story, não pode haver History –, a narrativa histórica repousa objectivamente sobre uma realidade passada, cuja

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substância existe antes da forma mais ou menos literária com que se apresenta (v. White, 1990; Burke, 1991). O conhecimento histórico não é arbitrário: sendo certo que ele nunca tem estatuto absoluto ou intemporal, nem por isso a deon-tologia do historiador admite concessões à pura ficção. As regras da heurística vinculam-no a elaborar «afirmações empiricamente verificáveis» e «interpreta-ções racionalmente discutíveis», e a não dispensar a «evidência documental» e a «consistência do argumento» (Bonifácio, 1999: 79 e 111). É por isso que a história tem, na base, uma «técnica», de selecção e estudo de fontes; mas é, no seu todo, uma «arte» (Bonifácio, 1999: 32) – a arte de pensar imaginativamente, como faz quem constrói um puzzle, e a arte de narrar com a beleza literária suficiente para cativar o leitor e para lhe oferecer um «juízo sinóptico», uma «síntese do heterogé-neo» (Paul Ricoeur cit. por Bonifácio, 1999: 112 e 116) sobre homens num tempo e espaço, num texto que tem de ser factualmente rigoroso, mas também «comunica-tivo e sugestivo» – em suma, «construtor de evidência» e «fundador de harmonia» (Matto so, 1997: 27).

Advogar este estatuto epistemológico para a História em nada a diminui enquanto campo de investigação universitário, e actividade cívica eminentemente respeitável e desejavelmente financiável. Supor que, por ser literária ou artística no seu registo final, ela deixa de ser digna, implica defender que qualquer discurso não- -científico – isto é, qualquer ramo de conhecimento que não serializa ou quantifica – nada tem de válido a ensinar sobre o mundo (White, 1990: 44). Se, ao contrá-rio, aceitarmos que «há maneiras não científicas de saber» (Bonifácio, 1999: 114), aceitaremos – e quem não o faz não pode ser historiador – que as vidas romanes-cas de Júlio César, Dante Alighieri, William Shakespeare ou George Washington, por exemplo, contêm em si um insubstituível potencial revelador do que foram o ambiente e os desafios da Roma Antiga, da civilização medieval, da Inglaterra isa-belina ou das origens da ordem liberal contemporânea, respectivamente. Re-situada no horizonte das humanidades, como janela aberta à apreensão da diversidade e da riqueza humanas e como metanarrativa do que foi a sua milenar evolução, é agora tempo de argumentar por que razões a História, além de estrutu-ralmente necessária e útil, é também conjunturalmente indispensável, neste início pós-moderno do século xxi. Muita gente achou, ou acha, que isto não é verdade. Ainda hoje, embora não o saibam, os gestores economicistas da política e das ciências ecoam uma velha afirmação do escritor russo Leon Tolstoi, para quem os historiadores eram como seres surdos, que gastam a vida a responder a perguntas que ninguém lhes fez! Não responderei a este julgamento, mas antes ao do francês Paul Válery, que, um dia, lembrando o quanto Adolf Hitler gostava de ler história, declarou que ela era

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«o produto mais nefasto que a química do intelecto jamais elaborou», porque embriagava os povos, engendrava neles falsas memórias e condenava as nações a serem «amargas, soberbas, insuportáveis e vãs». É verdade que a História teve sinistros leitores e reprováveis usos: mas então, ainda mais urgente é a missão de arredar dela os abusos que em seu nome se podem fazer, e de remar contra uma das características mais empobrecedoras da época actual: a amnésia, a ignorân-cia histórica, a forma como muitos dos nossos concidadãos vivem numa espécie de a-temporal contínuo, «sem qualquer relação com o passado público da [sua] época» (Hobsbawm, 1996: 15). Ora, o esquecimento fomenta a ignorância; e como ensinavam os iluministas, é da ignorância, complementada ou não com a maldade, que vem o erro – e quando não o erro, pelo menos a soberba de homens e de povos que, na expressão de Lucien Febvre, se acham «filhos das suas obras e não dos seus antepassados fora de moda» (Febvre, 1985: 243). É por isso que Eric Hobsbawm, entre muitos, falando sobre o século xx, celebra a centralidade e a utilidade de um ofício que consiste, simplesmente, em «lembrar o que outros esquecem» (Hobs-bawm, 1996: 15). Mas lembrar com que objectivo? O que é que todos lucram com o labor histo-riográfico de uns tantos? Desde logo, o historiador é o agente da memória e o seu contributo é portanto insubstituível na construção da identidade colectiva: «somos o que fizemos e o que nos aconteceu» e, por isso, «esquecendo o que fomos», diluímos «a ideia do que somos» (Bonifácio, 1999: 9). É a História que nos dá enraizamento, espessura e consciência, que nos ensina que toda a evolução humana é cumulativa, que nos elucida sobre os valores e experiências a imitar e sobre os erros e abusos a evitar. Como há já mais de dois séculos explicou Edmund Burke, não podemos saber onde estamos e muito menos para onde vamos se não soubermos onde estivemos. É esta continuidade fundamental da espécie humana através dos tempos e espaços, malgrado as rupturas e os acidentes, que estabelece uma linha através da qual a His-tória ilumina o presente e permite até, pelo seu saber de experiência feito, imaginar estratégias de vida e de acção para o futuro (Mattoso, 1998: 9). Insisto neste ponto: é necessário e útil recorrer à História para compreender a actualidade; só ela apreende e racionaliza o que a espuma do nosso instantâneo nos oferece como vertigem; só ela permite recordar o bem de ontem onde hoje só há mal, ou o mal de ontem, sempre que hoje adormecemos à sombra de um fugidio bem. O conhecimento histórico ajuda-nos a perceber que cada momento encerra pontos de chegada e bases para o futuro, revelando-nos que não há «fim da histó- ria» nem «últimos homens»; há só, isto é certo e isto é muito, evolução e contin-gência, continuidade e ruptura, hipótese e experimentação, liberdade humana e, por isso, responsabilidade individual.

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Mas não é só enquanto intérpretes da memória e da identidade que nos confere existência – sobretudo em países como o nosso, que tem tanta história e que dela sabe tão pouco – que os historiadores são úteis e necessários. É que, ao contrário de outras áreas de saber hiperespecializado e técnico, a História habi-lita especialmente para a análise e para a elucidação de questões complexas, para o olhar amplo, que conjuga «diversos níveis e escalas» (Mattoso, 2006: 12 e 16). Como desenvolve, sobre este tópico, José Mattoso, a História habitua a descobrir, «no passado longínquo e recente, o mesmo e o outro, a identidade e a variância, a repetição e a inovação», conferindo a quem a ela se dedica uma atenção apurada para «a infinita complexidade das formas de sociabilidade pelas quais o homem se foi adaptando ao mundo», e para «a relatividade das soluções encontradas pelas diversas culturas na sua relação com a natureza» (Mattoso, 2006: 17-18 e 21). O mesmo é dizer que o historiador é «um técnico dos homens e dos tempos» (Hes-panha, 2002: 17), dotado que está de uma larga cultura sobre modelos de sociedade, de organização e de comportamento. Em épocas de incerteza ou ruptura, é um conhecedor do humano cujo know-how interessa em contextos políticos, sociais, organizacionais e até empresariais, na medida em que só ele conhece o histórico de ensaios, êxitos e fracassos de quem, no passado, foi também obrigado a escolher e a agir sem conhecer o futuro, e «sem possuir a chave do sucesso ou da verdade» (Hespanha, 2002: 17, e 2001: 17). Chego aqui à razão pela qual considero que a História, além de útil e neces-sária, é mesmo indispensável. A época pós-moderna em que estamos imersos impõe-se-nos como um tempo fluido e rápido, de excesso de informação, saberes desmaterializados, relativismo de valores e estilhaçamento de grandes modelos ou narrativas formais, tudo isto ameaçando a possibilidade de pensar e conhecer duravelmente as coisas e os homens (Hespanha, 2005: 82; Munslow, 2006: 207- -209). Ora, em face desta condição pós-moderna, talvez a história possa ser a última narrativa, o fio condutor capaz de conferir inteligibilidade às nossas vidas e assim compreender alguma coisa (não tudo), da existência humana. Se a pós-moderni-dade é, na conhecida visão de Zygmunt Bauman, líquida e evanescente (v. Bauman, 2000), a História, porque é sólida nos factos e densa na narrativa, pode e deve ser um leme em mares revoltos ou uma bússula em mapas incertos, recuperando o ensino das Humanidades como uma enseada amena para aí ancorarem as técnicas e os zappings que hoje são de ponta e amanhã já estão obsoletos. Reconhecer que a História é útil e indispensável não implica nunca, contudo, voltar costas ao que nos rodeia. Friedrich Nietzsche sustentava que a História era inútil quando esquecia a vida, ou quando apenas a conservava com espírito de anti-quário, não conseguindo gerá-la a partir da «vontade enérgica de coisas novas».

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Era isto que o levava a defender que a História em excesso era um mal e que, mui-tas vezes, o «a-histórico», ou seja, o esquecimento, era condição indispensável à felicidade (Nietzsche, 1874: 23-25 e 44-45). Há sem dúvida ocasiões em que esta operação é necessária; mas até para rejeitar ou superar é preciso conhecer. Nou-tras ocasiões, felizmente a maioria, o passado «é um valor e uma fonte de energia; podemos apoiar-nos nele, para ganhar ímpeto no salto para o futuro» (Mattoso, 2000: 12). Aos mais cépticos nas capacidades de o historiador educar para a cida-dania e para a liberdade, Richard Holmes explicou um dia que a História «[nos ensina], simplesmente, a compreender melhor os outros; e através deles, nós mes-mos. É este o seu potencial humanista» (Holmes, 2002: 17). Lucien Febvre iniciava os seus cursos na École Normale Supérieure dando aos alunos uma recomendação igualmente humanista: «Para fazer história, virem resolutamente as costas ao pas-sado e antes de mais vivam. Envolvam-se na vida. Na vida intelectual, sem dúvida, em toda a sua variedade» (Febvre, 1985: 40). Senhor Reitor, caros licenciados, minhas senhoras e meus senhores: Certo dia, em 1992, em conversa com a imprensa, no encerramento de uma das suas muitas viagens apostólicas, João Paulo II foi interrogado sobre quais seriam os requisitos essenciais para se ser um bom jornalista. O Santo Padre reflectiu alguns segundos e respondeu simplesmente: «É preciso discernir, sempre!» (Miguel, 2003: 178-180). Julgo que esta recomendação nos serve a todos e resume luminosamente o tipo de operação mental que o historiador humanista faz: seleccionar um tema, um tempo e um espaço cujo conhecimento esclareça e enriqueça quem somos; separar, nas fontes, a informação verdadeira e a informação falsa; estabelecer, na escrita, o possível e o verosímil, rejeitando o errado e o impossível. É só isto que se pede ao historiador; mas é muito, e de muita responsabilidade, o que se lhe pede. A boa História não está acima dos outros saberes no campo das Humanidades – e de forma alguma sustenta que não deva haver economia, gestão, física, engenharia, informática ou ciências. Ainda assim, olhando para os licencia-dos que hoje aqui estão, não me levarão a mal se considerar que a História os pode servir a todos – porque ela é arquivo informativo e ginástica mental para ler os mass media, para pensar o homem e a política, para enquadrar as relações inter-nacionais, para compreender as línguas e as culturas, para observar a sociedade e para entender as necessidades de serviço à mesma. Sim, a História não é uma actividade imediatamente rentável; mas não, ela não é supérflua ou dispensável. Por isso resiste, ainda e sempre, não orgulhosamente

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só, mas muito bem acompanhada pelos outros saberes dessa reconfortante área que são as Humanidades. E é por isso que nós, os historiadores, ouvimos sempre com um sorriso de satisfação e de assentimento John Lennon e Paul McCartney cantarem «Oh! I believe in yesterday». Sim, acreditamos que o conhecimento do ontem informa o hoje e, insuflando-lhe vida, o liberta para enfrentar o amanhã. E se a Universidade (nome que significa «análise do Universo») é o lugar de eleição para ousar saber (o Sapere aude da razão iluminista), compete-nos a nós todos, his-toriadores ou não, demonstrarmos que o conhecimento é a via fundamental para a vida e para a liberdade. E finalmente se, sabendo, somos livres, então – é essa a moral da grande narrativa histórica da espécie humana – somos e seremos sempre responsáveis pelos nossos actos e escolhas. Aos alunos que hoje aqui se licenciam, os meus votos de boa sorte – embora cientes devam estar de que a sorte é geralmente a consequência do esforço, do empenho e do mérito. A todos, um sincero reconhecimento pela forma como es cutaram a minha empenhada apologia da História nestes nossos tempos dema-siadamente amnésicos.

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