Adolescente em conflito com a lei,
direitos humanos e a função da
narrativa
Resumo
Nosso propósito foi o de demonstrar a dimensão política do caráter narrativo da ação. Quando pensamento e realidade encontram-se dissociados, o ato de narrar histórias é o modo mais apropriado de conferirmos significados aos novos eventos de nossa vivência, bem como de retomar os sentidos que as ações passadas produziram. A narrativa e o testemunho dos que compartilharam e refletiram o mundo foi nossa escolha para compreender as transformações do contemporâneo.
Palavras-chave: narrativa, democracia, pensamento.
Abstract
Our purpose was to demonstrate the political dimension of the narrative feature of the action. When thought and reality are dissociated, the act of narrating stories becomes the most proper way to convey meanings to the new events of our existence as well as to take back the meanings that previous actions had produced. The narrative and testimony of those who shared and reflected the world was our choice to comprehend the transformations of the contemporary.
Key-words: narrative, democracy, thought. Edson Teles 1
1 Doutor em Filosofia Política pela Universidade de São Paulo, professor de Ética e Direitos Humanos no Mestrado Adolescente em Conflito com a Lei, da UNIBAN.
Autor para correspondência:
Endereço posta: Av Braz Leme,
Este artigo pretende desenvolver uma análise filosófica do poder político que englobe as histórias e os desdobramentos da experiência subjetiva da ação no contexto do adolescente em conflito com a lei.
O desastre social imposto por situações-limite, como as vividas pelo adolescente em conflitualidade, seja no ato infracional ou no cumprimento de medidas punitivas, implica esforços diários de resistência e desconstrução do cotidiano com o objetivo de fornecer novos significados para a vida em sociedade. Nosso propósito é compreender o fenômeno a partir da elaboração da herança de experiência violenta, especialmente em suas relações na esfera pública e com as instituições do Estado.
O jovem é visto como sujeito portador de narrativa, com histórias e verdades próprias, resultante de determinações políticas, sociais, éticas e psicológicas. Diante das medidas atendimento, o adolescente torna-se, ao mesmo tempo, sujeito e objeto, agente, mas também paciente do processo de sua educação. O ato delinquente lança o adolescente no mundo das instituições públicas, transferindo a autoridade dos pais para a figura do juiz e dos representantes deste. Uma das principais dificuldades encontrada pelo jovem está na impossibilidade de expressão de seus sentimentos, sonhos e traumas. A instituição, detentora da função de referência segura dos aspectos sociais e éticos encontra-se deteriorada por concepções ultrapassadas no trato do problema. Parece-nos que o jovem sofre uma dupla violência: a privada, vivida em situação familiar ou social deteriorada; e, a pública, experimentada nas ruas e locais de delinqüência, mas também nas instituições nas quais ocorreria sua recuperação para a cidadania.
O rito institucional do atendimento ao adolescente infrator tende a forçar uma unanimidade de vozes e condutas em torno da racionalização da prática profissional, priorizando significações homogêneas dos atos de violência. A contrapartida desta abordagem institucional é o ocultar dos modos divergentes com que as subjetividades sociais, tanto dos adolescentes, quanto dos profissionais, rompem com o modelo racional. O trato homogêneo do sujeito obscurece as interpretações da memória traumática e mantém o incessante embate entre dominação e resistência dentro do ordenamento. A oposição entre a razão institucional pacificadora – via repetição da violência – e as lembranças traumáticas obstrui a expressão da dor e reduz a memória às emoções, acabando por construir uma nova relação social justamente sobre a negação do passado. Diante da degeneração do diálogo e da convivência,
consideramos que a publicidade dos traumas e ressentimentos, por meio das narrativas dos eventos passados, poderia contribuir para a consumação de certo luto da experiência violenta e para o aprimoramento dos elos sociais.
Memória e democracia
As novas democracias surgidas após os regimes autoritários, durante o século XX, colocaram em relevo um elemento marcante do moderno: a memória. A memória tornou-se instrumento de resistência e condenação das violações aos direitos humanos.
Há certa tradição na democracia brasileira, na qual a publicidade das denúncias de abusos aos direitos se viu reduzida à memória privada, a memória de pessoas ou grupos identitários. A ausência de uma livre elaboração da memória pode eliminar do repertório social a articulação histórica necessária para a realização do processo de interpretação dos eventos passados. Cabe-nos indagar: qual o papel desempenhado pelo passado no tempo presente e, em especial, o papel da memória dos adolescentes frente ao ato infracional ou à ação de atendimento?
O trato oficial da memória, por parte das instituições, somente é capaz de evocá-la como tema e, no máximo, processá-la como informação, mas não de praticá-la em seus aspectos transformadores e criadores. Se por um lado, a ausência, a perda, a nostalgia, a angústia, o ressentimento evocam a dimensão mais brutal da violência, por outro, têm também a conotação de morbidez simbólica, criando um vazio entre um passado originário e o presente, uma lacuna na memória dos momentos traumáticos. A valorização das narrativas busca recuperar do sepultamento oficial a recordação dos momentos dolorosos, com o objetivo de suturar as feridas que distanciam o adolescente de sua reconciliação com o social.
Quando pensamento e realidade encontram-se dissociados, como no vazio causado por situações-limite, o ato de contar histórias pode ser o modo mais apropriado de conferir significados aos novos eventos, bem como de retomar os sentidos que as ações passadas produziram, auxiliando na reconciliação com o mundo. Ao agir, o adolescente-narrador faz com que o pensamento se debruce sobre a realidade, procurando reconstituir, pela imaginação, a gama de opiniões e acontecimentos observados enquanto atuava como espectador das ações dos outros. O narrador corresponde, igualmente, à figura do espectador e do ator: ao narrar ele também é agente, fornecendo significado aos acontecimentos dos quais foi testemunha. A reflexão a que almeja o narrador consiste em um duplo movimento: por um lado, recuperam-se os acontecimentos e fatos históricos em
suas particularidades e de acordo com sua importância para o presente; e, por outro, a partir dos significados recuperados, elaboram-se os conceitos e valores que utilizamos no manejo dos eventos cotidianos.
Para o adolescente-narrador articular suas falas e gestos ele recorre às próprias experiências de vida, como um olhar que capta suas condições de existência. Por meio da ação, ao praticar determinada experiência e nela se identificar, o agente trafega entre o vazio a ser preenchido e o vazio determinado de um mundo que demanda por ação. O processo de criação se efetua na saída da órbita de si (exorbitar), para se expor enquanto obra, fazendo vir ao sujeito a experiência que permite vivenciar o novo, o original. A trama da condição humana é o entrecruzamento do visível com o invisível, do dizível com o indizível, do pensável com o impensável, do lembrado com o esquecido, o revestimento do mundo (Merleau-Ponty 1971). Seu produto, o mundo da cultura, também é constantemente renovado e recriado.
Temporalidade histórica
A continuidade histórica, cito Hannah Arendt, em que “uma coisa sempre sucede a outra” (Arendt 2000: 154), é substituída pelo tempo fragmentado, composto de “situações únicas, feitos ou eventos, [que] interrompem o movimento circular da vida diária (...) – o extraordinário, em outras palavras” (Ibidem: 72).
A especulação sobre o que é o tempo traz, além da interrogação temporal, o debate em torno do eu, “sobre a natureza do tempo, sobre a identidade do sujeito narrador, sobre o sentido da narração” (Gagnebin 1997: 71). A reflexão temporal é, segundo Jeanne-Marie Gagnebin, “sobre a caducidade, a fragilidade, mais, a mortífera transitoriedade do tempo humano: o passado não existe, pois já morreu, o futuro tampouco, pois ainda não é, e o presente, que deveria ser o tempo por excelência porque é a partir dele que se afirmam a morte do passado e a inexistência do futuro, o presente, então, nunca pode ser apreendido numa substância estável, mas se divide em parcelas cada vez menores até indicar a mera passagem entre um passado que se esvai e um futuro que ainda não é” (Ibidem). A impossibilidade de se localizar o tempo indica que as subjetividades e suas memórias não seguem um encadeamento de eventos, no qual a lembrança de cada acontecimento é precedido e seguido de um outro, em um tempo linear com espaços próprios.
O ato de pensar os tempos ausentes da temporalidade tradicional, passado e futuro, se encontra no momento presente, o que confere importância aos eventos do passado na compreensão do que
está sendo vivido. Na temporalidade do pensamento, o passado não está morto e o futuro abre-se de maneira indeterminada e inovadora. Trata-se de buscar o sentido particular de cada evento, tomando-o como fragmento singular, sob a luz dos acontecimentos do presente, rearticulando-o com o objetivo de dar início a um novo começo (Arendt 1993: 51).
A memória não é o oposto do esquecimento
Se a restituição integral do passado é impossível, a memória caracteriza-se por ser uma seleção entre o que será lembrado e o que será descartado. O cerne da questão é que o esquecimento institucional da violência, ao selecionar o que será esquecido e lembrado – operação que cada um de nós e todas as sociedades o fazem constantemente –, está deteriorando a livre elaboração das memórias, transformando-as em algo ausente de realidade, carente de reflexão (Todorov 1995: 15).
Podemos pensar a relação entre memória e esquecimento na esfera pública a partir da distinção feita por Claude Lefort entre “memória histórica” e “memória coletiva”. O autor procura refletir acerca de acontecimentos marcados por um recalque e cuja análise no presente demanda uma problematização da memória. Dessa forma, a memória coletiva “é elaborada no interior e na conjunção de múltiplos agrupamentos que apenas retêm do passado o que convém à sua representação do presente. E é moldada em nossa época, cada vez mais insistentemente, pelo pequeno número que dispõe dos meios para difundir essas representações (...)” (Lefort 1983: 167-68). A memória coletiva ou comum visa a aspectos de durabilidade, continuidade e estabilidade na perspectiva de interesses do presente.
Já a memória histórica, recorrendo ao auxílio das reflexões da psicanálise, literatura, sociologia, atinge uma perspectiva que permite também o acesso ao não-dito, aos esquecimentos forçados pela memória comum (imposta pela necessidade de coesão social dos contratos institucionais), remetendo, a partir de índices e vestígios, a uma experiência já desaparecida. Em especial, nos casos de abordagem da memória de traumas violentos, o recurso às várias áreas de conhecimento se faz importante, desenvolvendo aspectos sociais a partir do que foi reprimido, pesquisando não somente o ausente, como faz a História, mas aquilo que não foi dito, índice de um passado não encerrado(Le Goff 1990).
Os usos da memória
Além de refletir sobre as ações do passado, é preciso pensar na utilização da memória. Em uma época de exortação do dever de memória (Kattan 1999), a condição dos indivíduos mantém-se diante de um pathos que situa a memória de momentos dolorosos como algo letal para a constituição da existência. O evento ocorrido, evocado no presente, pode ser usado de várias formas, pois a memória é a conservação e seleção de informações, operando com critérios de escolhas das lembranças. Não se trata de pensarmos em uma boa ou má utilização da memória, mas de conhecer a maneira pela qual as escolhas se adequam ao pensamento e à realidade do sujeito, que lembra e esquece aspectos de suas experiências. O passado seria relembrado na construção singular de cada narrativa que, confrontada com a de outros indivíduos, seria qualificada por seus aspectos comuns, servindo como princípio de ação no presente.
Assim como há várias formas de memória1, também se podem identificar diferentes modos do esquecimento. Um deles é o luto que se faz por alguém de quem se gosta, permitindo um distanciamento do sentimento de falta por seu desaparecimento. É uma forma de livrar-nos do sofrimento patológico, levando ao esquecimento da dor, mas não dos fatos. Neste caso, o que se busca esquecer é a potência destrutiva das lembranças. Por meio dos conceitos de “nostalgia fechada” e “nostalgia aberta” (Jankélévitch 1986), podemos compreender melhor o papel e os resultados obtidos pelo luto. Nostalgia fechada seria a melancolia, uma memória presa a um passado que parece nunca acabar. Na nostalgia aberta também há um retorno, mas neste caso se produz um resto. O retorno é um encontro com um desapontamento inaugural, a volta a uma origem, fonte de um desejo não realizado, ponto de partida e caminho para um novo começo.
Para os gregos a rememoração, articulação entre esquecimento e lembrança, era um modo de enfrentar a morte e a dor sem angústia, trazendo à presença o não-presente das coisas passadas, tornando-o não ausente. Segundo Hannah Arendt, para os gregos “a História acolhe em sua memória aqueles mortais que, através de feitos e palavras, se provaram dignos da natureza, e sua fama eterna significa que eles, em que pese sua mortalidade, podem permanecer na companhia das coisas que duram para sempre” (Arendt 1997: 78).
1
Cf. T. Todorov 1995. Les abus de la mémoire. Op. cit. Sobre a memória literal, particularizada por meio da lembrança de um indivíduo e a memória exemplar, que generaliza a lembrança como um ensinamento a ser seguido. Cf. ainda em Todorov. Memória do mal, tentação do bem. A memória sacralizada que “não nos evoca nada” além do próprio passado; e a memória banalizada que “nos faz pensar em tudo e em qualquer coisa”.
Diversamente ao trato que os gregos forneciam à memória, o mundo contemporâneo parece ter no esquecimento sua própria condição de existência, definindo uma concepção de cultura e de organização social e política (Horkheimer 1976). Assim, referências ao passado podem ser empreendidas como crítica do presente (Cardoso 2001), direcionando o esquecimento e a perda de sentido na memória à construção de um regime (o democrático) anômalo, que sofre com as ambigüidades dos recalques inibidores às ações criativas e inovadoras na experiência política.
Ação e ressentimento
A fonte do conteúdo que nos leva à reflexão é, por um lado, os traumas dos que sofreram e testemunharam as arbitrariedades e as violências dentro do âmbito do atendimento ao adolescente e das quais o adolescente infrator é, essencialmente, vítima; e, por outro lado, o desconhecimento (ou não reconhecimento) dos eventos traumáticos por parte de parcela considerável da população, que se limita a ignorar/desconsiderar o problema, como algo que não lhe diz respeito. Levantamos estas duas implicações observadas por entendermos serem experiências esclarecedoras sobre a conformação social de certo silenciamento sobre a questão. Neste quadro, há os sentimentos que sofrem a impossibilidade de serem narrados na esfera pública, isto é, um estado de perda de si mesmo ou de sua participação no âmbito social, porém parte de relações pessoais.
Sentimentos acompanhados de aflição e dor, que necessitam de um trabalho de luto para realocar as lembranças daquilo que se perdeu em lugares periféricos da memória, libertando a vítima da melancolia, sem o que sujeito se incapacita à narrativa e à plena cidadania. O recalque da personagem vítima de violações à dignidade humana é vivido no espaço privado; na outra situação, na qual se encontra grande parte da população, o recalque ocorre na esfera pública. Neste caso, o esquecimento das violências implica uma exclusão objetiva de sentimentos, reflexões e narrativas que, no entanto, permanecem como elementos subjetivos de constituição da ação no presente. E, sem a articulação da memória há o ressentimento, no qual o que foi excluído mantém-se nas experiências sociais de forma deturpada e repressora de novas possibilidades.
Tanto no caso dos adolescentes e dos profissionais, quanto no caso da massa aparentemente apática e passiva, a melancolia, o luto e o recalque conformam conceitos fundamentais para a compreensão dos danos causados pelos crimes contra os direitos humanos. No primeiro caso, dos que não esquecem as agressões sofridas, a nostalgia (do grego nóstos, retorno, e, álgos, dor) destes indivíduos é marginalizada dos espaços públicos e sua lembrança não se
transforma em experiência, permanecendo como uma imagem fixa no pensamento de quem sofreu as ofensas, submetendo o presente ao passado e transfigurando a realidade. No caso dos que não estiveram envolvidos diretamente com a violência, o ressentimento é absorvido como norma geral da sociedade.
O impedimento às expressões de dor cria o ressentimento do indivíduo ou grupo reprimido com relação à sociedade, geralmente produzindo reações de ódio e vingança. Este ressentimento surge de uma negligência às origens de emoções que se situam, em geral, nos limites do intangível; a frustrações de sentimentos como amargura, rancor e hostilidades impotentes. Além de atingir a auto-estima, causar o ódio do outro, indissociável do ódio de si (semelhante ao outro), chega-se à integridade física e psíquica do indivíduo, colocando em questão as próprias condições de construção de si mesmo (Freud 1997). Pode-se optar por aceitar voluntariamente este sentimento, seja por comodismo ou por impotência, mas qualquer destes procedimentos mantém uma relação de submissão a uma frustração que aparece “como uma resposta inconsciente, efeito longínquo de uma angústia ignorada, recalcada, ligada ao sentimento ameaçador de uma negação da existência” (Haroche 2001: 340). O indivíduo do ressentimento remói na dor, sem re-agir, incapaz, nessa passividade imposta, de prevalecer sobre a angústia. Sob o auspício do rancor ele é tomado por uma memória intestina que o impele, ainda que a contragosto, a incessantemente (re)experimentar o passado.
Ainda que não se sofra a melancolia de uma perda no passado, a falta de acesso aos acontecimentos decorridos, que configuram o presente, impõe às narrativas um vazio. Brechas entre os eventos passados e a vivência no presente também geram ressentimentos; neste caso, uma mágoa produzida pela incapacidade de compreensão do presente, pois lhes faltam dados fundamentais da realidade. Estas são situações-limite que, por eliminar um espaço de exibição pública de sentimentos e opiniões, bloqueiam o acesso das gerações futuras à realidade de suas existências. Tanto em um caso, o das personagens diretamente envolvidas, como em outro, o do restante da sociedade, guardando as devidas diferenças, o resultado pode ser a produção de párias, ou seja, indivíduos que usufruem de condições políticas democráticas, mas com dificuldade de acesso à cidadania por não conseguirem elaborarem a própria experiência.
Por meio de uma sociedade sem intimidade com os eventos do passado, a herança da violência social impõe aos seus cidadãos celebrarem o esquecimento e o silêncio e se contentarem com a consumação do instantâneo, do que se vive a cada momento, sem acesso às idéias formadoras da cultura. Nas democracias contemporâneas, a memória é ameaçada pela eliminação das informações, mas também por sua perda de valor. Dessa forma, com
uma ação menos brutal, porém com maior eficiência, cada cidadão torna-se o agente consentido do esquecimento, implicando uma deterioração profunda no diálogo público. Com o esfriamento das relações democráticas, o deslocamento de problemas públicos para a esfera dos assuntos privados pressupõe a imposição do silenciar sobre conflitos e cisões geradores de ressentimentos. Juntamente com o esquecido, que objetiva a estabilização da sociedade, o investimento na política sofre considerável redução (Rancière 1996: 102 e 112).
Conclusão
A memória das violações aos direitos humanos formatada em livros, arquivos, leis e placas comemorativas deposita os elementos do recordar em seqüências lineares, desprovidas dos recursos de que dispõem os relatos e narrativas, de recombinar finais e começos, alterar pausas, voltar atrás, sem qualquer subordinação a ordens pré-determinadas. Esses entrecruzamentos da narrativa capacitam a lembrança como o criar de reflexões críticas alternativas à continuidade programada das instituições. As democracias têm apresentado a questão por um paradoxo: de um lado, coloca-se a importância de recordar, através das ações positivas institucionais; de outro, articula-se o esquecer como sepultura das dores do passado. No entanto, os mecanismos da memória vão além da tensão entre o velar (expulsar) e o revelar (assimilar) do passado, articulando-se em subjetividades da memória capazes de entrelaçar passado e presente em partículas históricas construtivas e produtivas (Benjamin 1994).
Este fazer produtivo das narrativas tem, para as democracias contemporâneas, o papel de cura e regeneração de feridas profundas e não cicatrizadas no interior da sociedade. No teatro trágico da Grécia antiga, os espectadores, capacitados tanto quanto os atores para a recordação e para a narrativa, realizavam a catarse. Um dos sentidos possíveis para a palavra grega catarse é “cura”, algo que na tragédia grega tem lugar no espectador. Ao assistir à narrativa do sofrimento de outro, o espectador se identifica de tal forma que passa a realizar em seu interior a eliminação dos sentimentos perturbadores de sua condição humana. A narrativa da tragédia equivale à narrativa histórica, ao purgar e curar as feridas do passado e constituir-se na doxa do debate político, o caminho necessário para se atingir um mínimo comum nas relações sociais, ou seja, um salto qualitativo na produção de relações democráticas.
Bibliografia
ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Trad. André Duarte. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 2000.
_____ . Entre o passado e o futuro. Trad. Mauro W. Barbosa de Almeida. São Paulo: Perspectiva, 1997.
______. A dignidade da política. Antônio Abranches (org.). Trad. Helena Martins e outros. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Obras escolhidas I, Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 197-221.
CARDOSO, Irene. Para uma crítica do presente. São Paulo: 34, 2001.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Trad. José Octávio de
Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
HAROCHE, Claudine. Elementos para uma antropologia política do ressentimento: laços emocionais e processos políticos. In: Memória e ressentimento: indagações sobre uma questão sensível. Stella Bresciani e Márcia Naxara (orgs.). Campinas: Unicamp, 2001, pp. 333-50.
HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Rio de Janeiro: Labor, 1976.
JANKÉLÉVITCH, Vladimir. L’irreversible et la nostalgie. Paris: Seuil,
1986.
KATTAN, Emmanuel. Le devoir de mémoire. Paris: Ehess, 1999.
LEFORT, Claude. A invenção democrática – os limites do
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas/SP: Unicamp, 1990.
MERLEAU-PONTY, Maurice. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1971.
RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento – política e filosofia. Trad.
Ângela Leite Lopes. São Paulo: 34, 1996.
TODOROV, Tzvetan. Memória do mal, tentação do bem. Tradução de Joana Angélica D'Avila Melo. São Paulo: Arx, 2002.