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Práticas psicológicas nas varas de família: uma trajetória de 30 anos

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Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes Programa de Pós-Graduação em Psicologia

PRÁTICAS PSICOLÓGICAS NAS VARAS DE FAMÍLIA Uma trajetória de 30 anos

Juliane Dominoni Gomes de Oliveira

NATAL 2019

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Juliane Dominoni Gomes de Oliveira

PRÁTICAS PSICOLÓGICAS NAS VARAS DE FAMÍLIA Uma trajetória de 30 anos

Tese elaborada sob orientação da Prof.ª Dra. Isabel Fernandes de Oliveira e coorientação da Prof.ª Dra. Ana Ludmila Costa e apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Psicologia.

Natal-RN Junho/2019

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Oliveira, Juliane Dominoni Gomes de.

Práticas psicológicas nas varas de família: uma trajetória de 30 anos / Juliane Dominoni Gomes de Oliveira. - Natal, 2019.

248f.: il. color.

Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2019.

Orientador: Profa Dra. Isabel Fernandes de Oliveira. Coorientador: Profa. Dra. Ana Ludmila Costa.

1. Psicologia jurídica - Tese. 2. Família - Tese. 3. Divórcio - Tese. I. Oliveira, Isabel Fernandes de. II. Costa, Ana Ludmila. III. Título.

RN/UF/BS-CCHLA CDU 159.9:34 Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte Centro de Ciências Humanas Letras e Artes

Programa de Pós-Graduação em Psicologia

A tese PRÁTICAS PSICOLÓGICAS NAS VARAS DE FAMÍLIA - Uma trajetória de 30 anos, elaborada por Juliane Dominoni Gomes de Oliveira, foi considerada aprovada por todos os membros da Banca Examinadora e aceita pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia, como requisito parcial à obtenção do título de DOUTOR EM PSICOLOGIA.

Natal/RN, 11 de julho de 2019.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Adriano Beiras (UFSC) ________________________________________________ Prof. Drª. Fernanda Simplicio Cardoso (PUC Minas) ________________________________ Profª. Drª. Isabel Fernandes de Oliveira (Presidente) _________________________________ Profª. Drª. Leila Maria Torraca de Brito (UERJ) ____________________________________ Profª. Drª. Symone Fernandes de Melo (UFRN) ____________________________________

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À Júlia Dominoni Gomes Pereira de Oliveira, em nome de todos os filhos, que vivenciam ou vivenciaram a separação de seus pais.

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Agradecimentos

Chegar ao produto final desse percurso, configurado nesta tese, não foi nada fácil. O processo de se tornar doutor é algo extremamente árduo, que me resgata as aulas, no curso de Doutorado em Psicologia, da professora Maria Madalena Vaz Pereira de Melo, na Universidade de Évora - Portugal, em 2009/2010, que teve como tema do seu estudo doutoral o processo de se tornar doutor. Nas aulas, Madalena contava estórias tanto do difícil trajeto dos estudantes contemporâneos para concluir o doutoramento, quanto dos tempos remotos das Universidades Europeias. Uma delas me marcou profundamente.

Nos dias que precediam a defesa da tese, nos remotos tempos, em uma das Universidades Europeias, o candidato ao título, após a entrega do seu trabalho manuscrito, que em média podia durar até 8 anos, deveria se isolar, por alguns dias, numa cela que ficava no mais alto andar da universidade. Lá ficava solitário, fazendo suas orações e refeições, à espera do dia da defesa. No dia do tão esperado julgamento do seu trabalho, estava liberado para fazer sua defesa e aguardar a sentença dos jurados. Se tivesse aprovação, sairia pela porta da frente, que ficava num dos andares elevados, seguia em direção à varanda, onde era aclamado e louvado pela multidão, que o aguardava ansiosamente. Em caso de reprovação, o seu direcionamento seria pela porta dos fundos, onde uma sacada aberta lhe esperava, para findar sua vergonha num suicídio.

Sendo assim, tenho que agradecer as mudanças históricas do processo de se tornar doutor, afinal, hoje, ele está muito mais ameno. No entanto, não significa que esteja tranquilo. Afinal, enquanto ouvia a estória da professora portuguesa, só me lembrava das estórias de colegas que tinham passado antes de mim nessa trajetória e a cantiga que vinha nos meus pensamentos era: “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um pega geral, também vai pegar você”, além do mote da formação da tropa de elite dos policias civis cariocas “Nunca será” e

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“Pede para sair”, bem retratado no filme “Tropa de Elite – missão dada é missão cumprida” (2007, Padilha), baseado no livro Elite da Tropa, de André Batista e Rodrigo Pimentel, em parceria com Luiz Eduardo Soares.

Ao chegar ao fim do meu trabalho doutoral, percebo que também, por muitos momentos, no meu processo de doutoramento, a mesma cantiga e o mesmo mote vieram aos meus pensamentos. Logo, se não fosse pelas minhas orientadoras e por uma série de pessoas que estiveram comigo ou passaram pelo meu caminho, nesses últimos 4 anos, eu não teria cumprido a minha missão.

Agradeço a Deus, pois foi Ele que me manteve de pé, quando em vários desses momentos pensei em “pedir para sair”, pois eu achava que nunca seria uma doutora. Certamente, foi Ele que colocou cada pessoa no meu caminho, as quais foram essenciais nesse meu processo. Sendo assim, na sequência, faço questão de agradecer, nominalmente, cada uma delas e eternizá-las nestas páginas.

À UFRN e ao PPGPSI, pela oportunidade de desenvolver esse estudo doutoral.

À UFCG, à UAPSI e ao Governo Federal, por terem autorizado o meu afastamento laboral e tornar possível a escrita e a conclusão desta tese.

À professora doutora Valquíria do Nascimento, minha colega da UFCG e amiga da vida, que incentivou a minha inscrição no doutorado da UFRN e me apresentou à professora Isabel Fernandes de Oliveira.

À professora doutora Isabel Fernandes de Oliveira, orientadora, da UFRN, por toda a sua confiança, paciência, compreensão, empatia e ensinamentos. Suas orientações e encaminhamentos foram imprescindíveis.

À professora doutora Ana Ludmila Costa, coorientadora, da UFRN, que foi essencial em todo o processo, com suas pontuações e encaminhamentos metodológicos, leituras, indicações bibliográficas e empatia.

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À professora doutora Leila Maria Torraca de Oliveira, da UERJ, a grande referência na minha trajetória profissional, com quem aprendi o labor e a pesquisa na Psicologia Jurídica. Hoje, mais do que referência profissional, é uma amiga e uma parceira. Acompanhou todo o processo da tese, lendo, indicando bibliografias e fazendo apontamentos.

Às professoras Doutoras Ana Paula Almeida, da UFPR, e Katia Maheirie, da UFSC, pelas suas relevantes contribuições no seminário de tese.

Ao professor doutor Oswaldo Yamamoto, da UFRN, por sua gentil e precisa pontuação referente à estratégica metodológica durante o seminário de tese.

Ao professor doutor Lourival Novais Neto, da UFRR, por sua amizade amorosa e por ter me presenteado com o abstract da tese.

À professora Valéria Gomes Lopes (Tia Léla), por seus exemplos e por ter me presenteado com a revisão ortográfica da tese. És uma grande referência na minha vida.

À professora doutora Laura Cristina Eiras Coelho Soares, da UFMG, por sua amizade, parceria profissional e por suas essenciais e cuidadosas contribuições no seminário de tese e na qualificação.

À professora doutora Symone Fernandes de Melo, por suas essenciais e cuidadosas contribuições na qualificação da tese.

À Dona Gracinha (Mainha), que me acolheu com todo amor e carinho em sua casa, em vários dias que tive de pernoitar em Natal. Seus mimos e cuidados foram essenciais.

À Maria Luiza Gonçalves (Luizinha), que também me recebeu com todo amor e carinho em sua residência, em vários dias que tive de pernoitar em Natal. Pelas várias noites viradas, embaladas por histórias e gargalhadas. Foi uma grande companheira.

Ao Padre João Medeiros Filho (Joãozinho), que também me recebeu, junto com Luizinha e Quinzinho, em seu lar. Um tio amoroso, que sempre tinha uma palavra de apoio. Sua espiritualidade é um guia para mim e minha grande família.

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Ao Quinzinho, que também faz parte da minha família Natalense, que sempre me tratou com carinho e piadas. Nossas refeições à mesa eram sempre muito alegres, devido à sua presença de espírito hilariante.

À Lurdinha, que cuidava com todo amor dessa grande família Natalense e cuidou de mim também. Seus quitutes foram imprescindíveis.

À Elaine de Melo e à Edja Costa, minhas irmãs nordestinas, que me agregaram à família Buscapé, desde o primeiro dia que senti o cheiro da Paraíba. Vocês foram a minha base, com toda a alegria que possuem no coração. Muitas boas risadas, ontem hoje e sempre. Vocês anunciaram Maria para mim, que, nesta minha trajetória em terras nordestinas, sempre passou na minha frente.

À Amélia Guimaraes, que também abriu as portas de seu lar para me acolher, mesmo sem me conhecer e depois se tornou uma grande amiga. Uma das três Marias da minha vida nordestina, a mais doce, a Mel.

À Maria Cristina da Hora Figueiredo Guimarães, você foi meu suporte em cada momento dessa minha caminhada. Sua Fé é contagiante. Você cuidou de mim e da minha preciosidade: Júlia. Se não fosse por ti, nada seria possível.

Ao Getúlio Guimarães, meu pai paraibano, que também me acolheu e eternizou esse carinho e cuidado na Moringa de centro de mesa.

Ao Rafael Guimarães, meu irmão paraibano, por ceder seu quarto para me acolher em sua casa e até compartilhar o carro nas idas e vindas da Universidade. Demos muitas risadas juntos.

À Paula Rayol Polastri, minha eterna amiga/irmã que a vida me deu. Por sua disponibilidade, companheirismo e escuta. Por ter estado ao meu lado, em todos os momentos, mesmo à distância, por todos esses 26 anos de amizade incondicional.

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À Beth, ao Carlos, à Carol, à Noemi, ao Rodrigo, à Soraia, à Talita, à Vanessa, à Valéria, à Zilpa, meus queridos confrades marianos, que como vinho se tornam melhores com o tempo. A cada encontro com vocês, as minhas energias são renovadas, são muitas trocas e muitos afetos. Vocês foram uma grata surpresa e um grande presente neste meu retorno ao Rio de Janeiro.

Ao José Josias Farias Gomes (JJ), meu amado pai, você é tudo nas nossas vidas. Meu eterno anti-herói. Seu amor e exemplo me permitiram seguir essa trajetória. Você é a referência para acreditar numa paternidade amorosa, com valores fortes, seja na alegria ou nas dificuldades.

À Vera Lúcia Dominoni Gomes, minha amada mãe, o meu grande desafio. Seus valores firmes me fizeram uma mulher forte e guerreira. Você é a Mulher Maravilha, que se sobrecarrega para manter tudo em pé. É o eixo e a agregadora da família, recebendo todos com muito amor e quitutes.

À Luciane Dominoni Gomes, minha irmã sonhadora, entre amores e brigas, sempre cuidamos uma da outra, cada uma ao seu jeito.

À Josiane Dominoni Gomes, minha irmã guerreira, empreendedora e amável ao seu jeito. Seus exemplos são essenciais em minha vida.

À Rosileny Correia da Silva (Branca), por cuidar de todos nós, nessa grande família carioca, especialmente, por cuidar, com todo amor, da minha pequena. Sem você, eu não conseguiria dar conta de tudo isso.

À Yedda Correia da Silva, minha amada avó, sempre cuidadosa e amável. Seus carinhos e orações foram e são imprescindíveis. Um grande exemplo de vida.

À Lygia Farias Gomes (in memoriam), minha amada avó e madrinha, por ter sido minha referência em vários momentos da minha vida. Você é a luz que nos guia.

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À Júlia Dominoni Gomes Pereira de Oliveira, minha pequena Mainha, meu grande amor. Você aguentou minhas ausências, de tantas viagens, mesmos com choros, foi sempre compreensiva e companheira. Minha nordestina/carioca, que entendeu que minhas faltas também eram em favor de ti. Como a professora falou em tua formatura na educação infantil, tu és a confiança em pessoa.

Ao Filipe Luiz Pereira de Oliveira (pai de minha filha), por ter me dado o maior presente da minha vida (ser mãe de Júlia). E, que apesar de todas as nossas confusões e tensões na difícil e contínua tarefa de separar as questões conjugais, que marcam até hoje as nossas trajetórias individuais, das nossas obrigações parentais, consegue ser um pai amoroso de nossa Júlia.

Ao Warley Moreira da Conceição, por ter resgatado a minha possibilidade de sonhar meus próprios sonhos; por ter me redirecionado para a tese, quando eu já estava cansada e sem ânimo; e por várias noites e dias virados, revendo os meus escritos. Você mostrou que é possível acreditar novamente no amor e que cada pessoa em nossa vida tem um porquê. Você foi essencial no final dessa trajetória. Se não fosse você, como no ditado popular, poderia “ter morrido na praia” e não ter concluído a minha missão.

A todos, a minha eterna gratidão.

Findo aqui os meus agradecimentos, mas registro, ainda, um pedido à Academia: que o processo de se tornar doutor seja mais ameno para as próximas gerações.

(12)

Sumário Lista de Figuras... 14 Lista de Siglas... 15 RESUMO... 18 ABSTRACT 19 RESUMEN 20

1. Introdução ...

21

1.1 O uso do saber psicológico para o Direito... 28

1.2 Objetivo... 36 1.2.1 Objetivo Geral... 36 1.2.2 Objetivos específicos... 36 1.3 Estratégica metodológica... 37 1.3.1 Estratégica de coleta... 38 1.3.1.1 Fonte de dados... 38 1.3.2 Recorte temporal... 39 1.3.3 Estratégia de Análise... 40

2. A prática profissional do psicólogo nas Varas de Família – um

estudo histórico entre 1985 e 2002

42

2.1. Evolução legislativa e a demanda aos psicólogos no contexto do divórcio e da guarda de filhos

42

2.2. Processo de sistematização da prática do psicólogo nas Varas de Família 45 2.2.1. A constituição dos cargos e o melhor interesse da criança e do

adolescente

(13)

2.2.2. A lotação dos psicólogos em espaços improvisados ou junto aos assistentes sociais

50

2.2.3. A demanda por perícia como atividade principal do psicólogo nas Varas de Família

57

2.3.Práticas do psicólogo em disputa nas Varas de Família... 59

2.4. Considerações parciais 64

3. Práticas psicológicas nas Varas de Família – um estudo histórico

entre 2002 e 2008

66

3.1. Os impactos do Novo Código Civil nas Varas de Família... 67 3.2. Novas armadilhas para a prática do psicólogo nas Varas de Família no

início do século XXI

72

3.3.Práticas psicológicas no contexto do divórcio e guarda de filhos: caminhos diante das denúncias éticas

80

3.3.1Regulamentações da avaliação psicológica em contexto de perícia... 82 3.3.2 Construção de alternativas à perícia: movimentos de resistência às

práticas hegemônicas e tradicionais

87

3.4. Considerações parciais... 91

4. Um estudo histórico sobre a prática do psicólogo nas Varas de

Família entre 2008 e 2015 – em tempos de judicialização e cultura de

paz

93

4.1. Evolução legislativa e as demandas ao psicólogo no contexto do divórcio e da guarda de filhos

96

4.1.1. Da identificação de quem reúne melhores condições ao estabelecimento de atribuições parentais e períodos de convivência

(14)

4.1.2. Entre a perícia de Alienação Parental e os acompanhamentos psicológicos e de visitas

104

4.1.3. Auxílio e estimulo à identificação ou ao desenvolvimento de soluções consensuais

114

4.2. Vara de Família: uma questão para psicólogos? ... 124 4.3. Regulações do Conselho Federal de Psicologia referente à prática

psicológica nas Varas de Família

130

5. Considerações finais... 138 6. Referências... 132 Apêndices... 167

(15)

Lista de Figuras

Figura Título Página

1 Recorte Temporal 39

2 Categorias de Análise 41

3 Evolução legislativa e a demanda aos psicólogos no contexto do divórcio e da guarda de filhos (1985 – 2002).

44 4 Fatores em evidência na fase de sistematização da prática do psicólogo nas Varas

de Família

47

5 Dados do IBGE 70

6 Novas armadilhas para a prática do psicólogo nas Varas de Família no início do século XXI.

75

7 Evolução legislativa entre 2008 e 2015. 93

8 Responsável pela guarda dos filhos em divórcios concedidos em 1ª instância

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Lista de Siglas

AASPTJ/SP Associação de Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

AP Alienação Parental

APASE Associação de Pais e Mães Separados

CC Código Civil

Cejuscs Centros Judiciários de Soluções de Conflitos e Cidadania CF Constituição Federal

CFP Conselho Federal de Psicologia CGJ Corregedoria Geral de Justiça CNJ Conselho Nacional de Justiça

CPMA Central de Penas e Medidas Alternativas à Prisão CPC Código de Processo Civil

Crepop Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas CRP Conselho Regional de Psicologia

CRPs Conselhos Regionais de Psicologia

CRP/RJ Conselho Regional de Psicologia do Estado do Rio de Janeiro CRP/SP Conselho Regional de Psicologia do Estado de São Paulo DF Distrito Federal

DRH Departamento Técnico de Recursos Humanos ECA Estatuto da Criança e do Adolescente

ETIC Equipes Técnicas Interdisciplinares FAHUPE Faculdades Integradas Pedro II GC Guarda Compartilhada

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GC1 Lei nº 11.698/2008 de Guarda Compartilhada GC2 Lei nº 13.058/ 2014 de Guarda Compartilhada IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Papai Instituto Papai

UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro EUA Estados Unidos da América

VEP Varas de Execuções Penais VIJ Varas de Infância e Juventude

VIJI Varas de Infância, Juventude e Idoso JVDOM Juizados de Violência Doméstica NCC Novo Código Civil

NCPC Novo Código de Processo Civil ONG`s Organizações Não Governamentais ONU Organização das Nações Unidas SAID Sexual Allegations in Divorce SAP Síndrome da Alienação Parental

SARP Sistema de Avaliação do Relacionamento Parental SEPAF Seção Psicossocial Forense

SERPP Serviço Psicossocial Forense

SPTJ Setor de Psicologia do Tribunal de Justiça TJ Tribunal de Justiça

TJs Tribunais de Justiça

TJAC Tribunal de Justiça do Estado do Acre TJAL Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas

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TJDFT Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios TJMA Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão

TJMG Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais TJPE Tribunal de Justiça de Pernambuco

TJRJ Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro TJRS Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul TJSP Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro UGF Universidade Gama Filho

Unesco Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

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Resumo

Completados 30 anos desde o primeiro concurso para psicólogo no TJSP (1985), identificou-se a necessidade de realizar uma pesquisa histórica nacional sistematizada sobre a trajetória do psicólogo nas Varas de Família, uma vez que, nesse período, mudanças nas famílias e nas legislações brasileiras impactaram a atuação do psicólogo. Vários estudos e eventos ocorreram, ampliou-se a oferta de formação em Psicologia Jurídica e praticamente todos os Tribunais de Justiça realizaram concurso para psicólogo. Objetivou-se analisar historicamente o contexto de desenvolvimento das práticas psicológicas nas Varas de Família. A proposta de periodização aqui apresentada, dividida em três períodos, realizou-se através de marcos legislativos, tendo como marco inicial o concurso do TJSP (1985) e final a lei de mediação (2015). Para tanto, delimitaram-se o levantamento e a análise de documentos legislativos e bibliográficos sobre convivência familiar após o divórcio e os resultados foram apresentadas num percurso histórico. Na primeira fase, as lutas pela consolidação dos cargos direcionaram-se “ao melhor interesse da criança” e a demanda por perícia dividiu a categoria em duas perspectivas. Na segunda, a complexidade da demanda por perícia aumentou, devido aos temas emergentes; teve início a regulação das práticas, em decorrência de denúncias éticas; a função de perito foi consolidada e a mediação esteve em evidência. Na terceira, as atribuições do psicólogo expandiram, provocando tensões e debates; as atividades interventivas foram transferidas para outros órgãos; serviços foram sucateados e alguns direitos e espaços consolidados pela categoria foram retirados, alertando para uma possível extinção do cargo nas Varas de Família. As práticas dos psicólogos nas Varas de Família foram forjadas num terreno híbrido, entre a judicialização dos conflitos familiares e a assimilação acrítica da cultura de paz. As configurações atuais do campo revitalizam a indagações e incertezas do início da década de 1990.

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Abstract

Attained 30 years since the first contest for psychologist at the Court of Justice in Sao Paulo (1985), it was identified the need to carry out a systematized national historical research on psychologist path at the Family Court. During that period, some changes in families and Brazilian legislation have affected the psychologist performance. Several studies and events have passed, the offer of training in Legal Psychology was expanded and practically all Courts of Justice have held public service exams for psychologist. The aim was to analyse historically the development context of the psychological practices at the Family Courts. The periodization, which consisted into three terms, took place through legislative frameworks. The survey and analysis of the documents between the contest at the TJSP - Court of Justice in Sao Paulo (1985) and Mediation Law (2015) were delimited. The analysis was made from categories, which were defined a priori. Documents were analysed based on bibliographies about family life after divorce and the results were presented in a historical course. In the first phase, the struggles to consolidate positions were directed "to the best interests of the child," and the demand for technical expertise divided the category into two perspectives. In the second, the demand complexity for expertise increased due to emerging issues; the regulation of practices began as a result of ethical complaints; the expertise function was consolidated and mediation was in evidence. In the third, the psychologist's assignments expanded, provoking tensions and debates; the intervention activities were transferred to other agencies; services were scrapped and some rights and spaces consolidated by the category were withdrawn, alerting to a possible extinction of the position in the Family Courts. The psychologist’s practices in Family Courts were forged in a hybrid terrain, between the judicialisation of family conflicts and the uncritical assimilation of culture of peace. The current configurations of the field revitalize the inquiries and uncertainties ot the early 1990s.

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Resumen

Tras 30 años de la primera oposición para psicólogo en el TJSP (1985), se realizó una encuesta sobre la trayectoria del psicólogo en los Juzgados de Familia. En ese período, cambios sufridos en las familias y en la legislación brasileña impactaron la actuación del psicólogo. Ocurrieron estudios y eventos, se amplió la formación en Psicología Jurídica y los demás Tribunales de Justicia realizaron oposiciones. El objetivo era analizar históricamente el desarrollo de prácticas psicológicas en los Juzgados de Familia. La periodización, dividida en tres fases, se realizó a través de marcos legislativos. Se delimitó la investigación entre la oposición de 1985 y la ley de mediación (2015). El análisis se realizó desde categorías, definidas a priori. Se analizaron los documentos con base en bibliografías sobre convivencia familiar tras el divorcio y los resultados se presentaron en un recorrido histórico. En la primera fase, las luchas por la consolidación de los puestos estaban direccionadas “al mejor interés del niño” y la búsqueda por pericia dividió la categoría en dos perspectivas. En la segunda, la complejidad de la demanda por pericia aumentó debido a los temas emergentes; tuvo inicio la regulación de las prácticas a causa de denuncias éticas; la función de perito se consolidó y la mediación se puso de relieve. En la tercera, las atribuciones del psicólogo aumentaron, provocando tensiones y debates; las actividades intervencionistas se trasladaron a otros órganos; los servicios fueron desmantelados y algunos derechos y espacios consolidados fueron excluidos, alertando para una posible extinción del puesto. Las prácticas de los psicólogos en los Juzgados de Familia se forjaron en un terreno híbrido, entre la judicialización de los conflictos familiares y la asimilación acrítica de la cultura de paz. Las configuraciones actuales del tema revitalizan las interrogaciones e incertidumbres de principios de los años noventa.

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1.

Introdução

Conforme resgatam Pereira e Pereira Neto (2003), no contexto brasileiro, a Psicologia se desenvolveu nas primeiras décadas do século XX, enquanto ciência aplicada, sob a interferência de escolas de Medicina e da clínica psicanalítica. Era ministrada enquanto disciplina nos cursos de formação em Pedagogia, Medicina e Serviço Social, em vista a contribuir na “solução de problemas de ajustamento” (p. 24).

Sendo consolidada como profissão, em 1962, em meio a um governo civil-militar que institui um Estado de Segurança Nacional, a Psicologia constitui-se sob as bases de um ideário individualista, focada no privado, no subjetivo e no inconsciente, servindo como recurso de moldagem, controle dos corpos e enquadramento. A questão mais perversa dessa realidade é que a Psicologia é forjada “[...] no sentido de consciência falsa, equivocada da realidade (Marx; Engels, 1846/2007) – e responsabiliza os sujeitos por seus problemas (materiais, existenciais, psíquicos), cabendo aos mesmos a tarefa para sua superação” (Oliveira e Paiva, 2016, p.226).

A Psicologia desprende-se das suas circunstâncias históricas, da dinâmica social e das contradições de classe, tendo como consequência uma Psicologia focada na elite nacional. No entanto, inclusive a elite brasileira era submetida ao condicionamento e à colonização das teorias e práticas psicológicas, retirando dos sujeitos as suas capacidades reflexivas (Oliveira & Paiva, 2016).

Segundo Carvalho e Yamamoto (2002), o ideário individualista favoreceu a construção de uma cultura da profissão de Psicologia que persiste até os dias atuais e limita as práticas profissionais, mas por outro lado permite a construção de um mercado profissional. O impasse constituído é que o contexto social, ignorado por um longo período pela categoria, é o mesmo que produz a redução do mercado para o exercício liberal da Psicologia enquanto profissão no

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final dos anos de 1970, como também é o mesmo que motivará a atuação dos psicólogos neste campo.

Numa conjuntura de diversos fatores, ruína do milagre econômico, a contínua desobstrução democrática com a consequente reforma do Estado e os consecutivos questionamentos a respeito do papel político do trabalho do psicólogo, forjam-se oportunidades de emprego ao psicólogo no contexto da política social. “De espaço obscuro, passa a ser referência de inserção, uma vez que o serviço público e o trabalho institucionalizado tornam-se os grandes empregadores de psicólogos no Brasil, a partir da década de 1980”. (Oliveira & Paiva, 2016, p.227).

A Psicologia adentra o hospital, a escola, as unidades de saúde, a assistência social, as Organizações não Governamentais (ONG´s) e, como não poderia ser diferente, o Tribunal de Justiça (TJ). Este último, local privilegiado da gerência da infância desadaptada e da tutela das consideradas famílias desestruturadas, por não se enquadrarem no modelo tradicional de família nuclear burguesa, ou seja, pais e filhos convivendo sob o mesmo teto. Como bem configura Donzelot (1986), “em vez de uma instância de decisão judiciária, o tribunal de menores faz pensar em uma reunião de síntese psiquiatra” (p.100).

A inserção formal da Psicologia nos Tribunais de Justiça brasileiros remonta a 1985, quando ocorreu o primeiro concurso público para o cargo de psicólogo no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP). Até esse momento, a participação desse profissional no Judiciário era exercida exclusivamente por contratos temporários, desvios de função ou por peritos de confiança do juiz (Ribeiro, 1999).

Nessas três décadas, diversos eventos sobre a temática ocorreram e pesquisas foram desenvolvidas sobre diferentes aspectos: tensões e limites do campo, o perfil dos profissionais, atividades implementadas, dentre outros. No ano 2000, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), a partir da resolução 014/2000, incluiu a Psicologia Jurídica como uma das

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especializações da profissão. No referido período, foram constituídas pós-graduações nesta área, aumentou-se a oferta da disciplina Psicologia Jurídica nos cursos de graduação e foram realizados concursos para o cargo de psicólogo para praticamente todos os Tribunais de Justiça (TJs) brasileiros (Brito, Beiras & Oliveira, 2012). Além disso, diversas modificações ocorreram na legislação, as quais interferiram nas demandas e atribuições do psicólogo, por exemplo, que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e que os filhos devem conviver com ambos os pais, ainda que estes estejam separados.

A maior quantidade de pesquisas e bibliografias referentes à Psicologia Jurídica estão voltadas para as questões da infância e juventude e a área penal, especialmente por, tradicionalmente, estas serem as portas de entrada para a atuação do psicólogo no contexto do judiciário. No entanto, mais tardiamente, os profissionais de Psicologia adentraram as Varas de Família. (Brito, 1993).

No decorrer da segunda metade do século XX, principalmente no ocidente, houve uma redução nos índices dos casamentos e das famílias numerosas; aumentando os concubinatos, os divórcios, as famílias monoparentais, recompostas e a quantidade de mulheres assalariadas (Singly, 2000). O modelo de organização e os valores das famílias brasileiras também sofreram mudanças radicais, se comparados aos últimos séculos.

O padrão familiar idealizado no século XX foi o "nuclear", onde as relações eram traçadas a partir de papéis e regras bem definidas e delimitadas. No final do século XX e no advento do século XXI, algumas exigências de transformações acabam por se fazer. Seguindo nesse entendimento, Genofre (1995), com base nas pesquisas de Brul, salienta que a característica principal da modificação da família é a sua tendência a se configurar em um grupo cada vez menos estruturado e hierarquizado, em que as relações se fundam mais na base do afeto mútuo.

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Configurações diversas ao modelo de família nuclear começaram a ser autorizados a adquirir o status de família, com suas complexidades e variedades de nomenclatura. As diferentes possibilidades de famílias coexistem, confrontando os papéis pré-estabelecidos, hierarquizados, definidos pelo modelo de família tradicional.

Os casais estão se divorciando e as mães, que sempre foram as cuidadoras e educadoras dos filhos por excelência, estão no mercado de trabalho competindo com os homens por igualdade de posições. Esses últimos estão lutando para não perderem seus status profissionais, mas não conseguem manter suas famílias sozinhos, na posição de provedores. As crianças, cada vez mais, estão perdendo a possibilidade de viver a infância, pois na mais tenra idade são encaminhadas para se prepararem para o feroz e competitivo mercado das profissões. Junto a tudo isso, temos um incentivo, cada vez maior, de garantia de direitos individuais, em que cada um desses personagens é levado a se visualizar como um ser a parte, individualizado. Sujeito/cidadão que deve lutar para ter seus direitos garantidos e sua autonomia (Goldenberg, 1991).

Conforme apontam Ramires (1997) e Ridenti (1998), no final dos anos de 1990, a possibilidade de as mulheres terem maior liberdade, seja ao exercer a sua sexualidade, de comporem o mercado profissional e envolver-se no espaço público, concorreram para mudanças no âmbito privado, especialmente nas relações e papéis familiares e de gênero. A conquista de direitos femininos na esfera trabalhista, tais como a licença-maternidade e outros benefícios específicos, trouxe mudanças nas questões de gênero, no que tange às oportunidades de trabalho, salário e ocupação de cargos de liderança e/ou políticos. Alterações que exigiram a ampliação da participação dos homens no espaço doméstico e na educação dos filhos. Atualmente, os pais são solicitados a exercerem uma paternidade mais participativa e afetiva, entretanto as mulheres acabaram por acumular os papéis tradicionais do espaço doméstico com os do espaço público.

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Por outro lado, na passagem do século XX para o século XXI, é possível identificar incongruências entre os papéis que são exigidos do pai e as condições sociais e legislativas para que os genitores possam vir a exercer tais papéis. Como aponta Ridenti (1998), a paternidade está ganhando novas significações, mas, neste contexto, para que os genitores venham conseguir exercer o direito de educar seus filhos, devem exigi-los, inclusive, juridicamente, para atingir um lugar de igualdade com a mãe.

Ocorrem mudanças nas configurações das famílias brasileiras na contemporaneidade e diversas legislações inerentes ao Direito de Família foram constituídas desde o primeiro concurso para o cargo de psicólogo, em 1985. Contudo, não se tem conhecimento de que foi realizada pesquisa histórica sistematizada em âmbito nacional sobre a trajetória do psicólogo neste campo, há apenas estudos estaduais sobre a prática do psicólogo nas Varas de Família. Logo, percebeu-se a necessidade de realizar tal sistematização, sem a intenção de simplesmente reproduzir a lógica indicada nas bibliografias, pelo contrário, a proposta foi colocar tais produções em análise. Considera-se que as práticas psicológicas desenvolvidas na Vara de Família são permeadas por mediações e contradições, que envolvem não só aspectos inerentes à profissão (como por exemplo, formação acadêmica, regulamentações profissionais e desenvolvimentos teórico-técnicos), mas também características do contexto judiciário e determinantes políticos, econômicos e culturais. Entende-se que tais mediações e contradições ainda não tinham sido sistematizadas e analisadas de modo a contribuir para uma compreensão efetiva das práticas psicológicas nas Varas de Famílias nos TJs.

O estudo teórico aqui apresentado configura uma tentativa de periodização, a partir de marcos legislativos, para a história da prática da Psicologia nessa seara, que é de extrema relevância para compreensão de qualquer fenômeno (Kosik, 1963/2002), como também para a Psicologia enquanto formação e profissão.

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Com a perspectiva de que toda teoria se constrói com a prática e que as relações entre as Psicologias e outras áreas estão em constante construção, conhecer o caminho percorrido por outros profissionais e pesquisadores, ou seja, apreender a dimensão histórica do processo, é essencial para construir uma reflexão sobre as demandas do seu campo de atuação.

A periodização foi composta por três fases, mais especificamente entre 1985 e 2002, de 2003 a 2008 e, finalmente, de 2009 a 2015. A escolha dos marcos legislativos não foi aleatória, as normativas selecionadas representaram inflexões aos processos de separação, divórcio e guarda de filhos menores de idade, como também impactaram na prática do psicólogo neste contexto.

Bicalho (2016) salienta que, em qualquer uma das áreas de atuação do psicólogo jurídico, há o pressuposto da pré-existência das leis. Esta afirmação pode ser ampliada para qualquer outro campo de prática profissional, pois como relembra (Perucchi, 2010), as ações humanas são normalizadas por leis e códigos que gerenciam as relações sociais, estabelecem medidas comuns e bases de comparações entre os indivíduos.

O legislativo exerce uma função reguladora da vida humana, retratando o ideal do contrato social de Rousseau (1762/1996), o qual não estaria limitado à relação com o Estado, pelo contrário, ele se expande para todas as relações, regulando nossas formas de existência. O interesse nas configurações legislativas justifica-se não só pelo seu caráter regulador, e sim porque as leis funcionam como mais um formador de subjetividade, elas nos constroem. Logo, contribuem para forjar nossas formas de agir no mundo, nossas relações conjugais, familiares, parentais e profissionais (Bicalho, 2016).

Nesse caminho, Bicalho (2016) reivindica como uma das atribuições do psicólogo jurídico a participação no processo de construção legislativa: “porque a lei, como uma prática social, também deve ser tomada por seu processo de construção. E, afirmamos, este também é um lugar para a atuação de uma psicologia que se pretende jurídica” (p.18).

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Este trabalho doutoral, ao pretender realizar uma periodização da prática do psicólogo nas Varas de família através de marcos normativos, segue no sentido de mostrar como as leis se constituem como um dos mediadores-históricos de nossas práticas. E, ao apresentar como as leis provocaram inflexões na atuação dos psicólogos e nas concepções de família, conjugalidade e parentalidade, buscou-se descontruir uma perspectiva individualista e intimista da Psicologia Jurídica no contexto das Varas de Família. Como afirma Netto (2014), para transformar o presente e construir o futuro, é necessário compreender o passado.

A proposta dessa tese surge como consequência da minha trajetória acadêmica e profissional, compreendida desde 1999 aos dias atuais, no âmbito da Psicologia Jurídica. Durante esses 20 anos, foi possível acompanhar, participar e desenvolver pesquisas, publicações, práticas docentes e extensionista, além de debates científicos desta especialidade da Psicologia, que me permitiram ter acesso às tensões existentes na relação entre a Psicologia e o Direito, a Psicologia e o Serviço Social e, mais ainda, entre as diversas perspectivas psicológicas que abarcam as questões referentes a esse campo profissional. Apesar de possuir experiências no contexto que abrange os direitos da criança e do adolescente e dos direitos humanos em geral, minha principal atuação esteve voltada para a Vara de Família.

A tese está dividida em três capítulos, que são correspondentes aos períodos propostos à essa sistematização histórica da atuação do psicólogo nas Varas de família durante 30 anos. O primeiro abrange desde o primeiro concurso para o cargo de psicólogo no país até a promulgação do Novo Código Civil (NCC) - Lei de nº 10.406/2002. Essa fase refere-se ao período de formalização da prática da Psicologia nas Varas de Família, de 1985 a 2002, quando se inicia a constituição dos cargos nestes estabelecimentos. O segundo abarca as mudanças trazidas pelo NCC até a instituição da primeira lei da Guarda Compartilhada (GC1) - Lei de nº 11.698/2008. Esse período compreende, praticamente, à primeira década do século XXI, de 2003 a 2008, fase marcada por denúncias éticas, pela emergência de novos fenômenos e

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armadilhas e pela regulamentação das práticas do psicólogo nesta seara. Finalmente, o terceiro, que se inicia a partir das consequências das alterações implementadas pela primeira lei da GC1 até os primeiros reflexos das novas determinações legislativas de 2014 e 2015, quais sejam, a nova lei de Guarda Compartilhada (GC2) - Lei nº 13.058/ 2014, o Novo Código de Processo Civil (NCPC) - Lei 13.105/2015 e a lei sobre Mediação - Lei nº 13.140/2015. Esse intervalo é marcado pelos reflexos de uma prática forjada em tempos de judicialização e cultura de paz.

1.1 O uso do saber psicológico para o Direito

A história da Psicologia Jurídica não pode ser desconectada da história da Psicologia, sendo assim, a emergência do psicólogo no contexto jurídico também foi marcada pelas contribuições dos saberes médicos psiquiátricos, influenciados pelas transformações provocadas no mundo ocidental a partir de 1789, pela Revolução Francesa. Estudos como a Frenologia de Gall (1825), a hereditariedade da inteligência de Galton (1869), a teoria evolucionista de Darwin (1859), as ideias sobre o criminoso nato de Lombroso (1876) e a teoria das degenerescências de Morel (1857), dentre outros, fomentaram as teorias, pesquisas e intervenções médicas no Brasil do século XIX ao XX, como pôde ser evidenciado por Jacó-Vilella e Pereira (2005) nos levantamentos das teses de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, entre 1830 e 1930.

Neste mesmo estudo, as autoras reafirmam o que já tinha sido identificado por Russo (1993), que a Medicina Legal pode ser considerada o berço da psiquiatria brasileira. Na lógica do Direito Positivo, o que está em questão não é o ato praticado pelo sujeito, mas sim o criminoso; o foco não é a punição, mas sim a regeneração e o tratamento para evitar a reincidência e garantir a segurança social, como foi exaustivamente demonstrado nas teses de Foucault (1979,1987, 1996a e1996b).

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Segundo Foucault (1987), a lógica positivista do Direito abriu espaço para constituição do inquérito, das classificações e do exame, o qual possibilitou a análise minuciosa do sujeito, descortinando o seu mundo interno. Como afirmam Jacó-Vilella e Pereira (2005), o médico legista acreditava ser capaz de medir o nível de periculosidade dos alienados que cometiam crimes, a partir da investigação do crime e da personalidade do criminoso e, quando necessário, os alienados criminosos deveriam ser removidos do convívio social, por configurarem a parte doente da sociedade.

Cabe destacar que a introdução do procedimento pericial na ordem jurídica no Brasil, tal como na Europa, ocorreu inicialmente pela Medicina, que tinha por objetivo humanizar a justiça ao avaliar a responsabilidade moral dos criminosos para encaminhá-los a prisões ou a asilos. Esta perspectiva foi duramente contestada por Foucault (1996a) ao demonstrar que, na realidade, a partir do séc. XIX, algumas disciplinas passaram a ser usadas para controlar os indivíduos, desenvolvendo técnicas de exame para classificá-los, visando à elucidação da verdade jurídica.

Brito (1993) confirma que os laudos e pareceres elaborados pelos psicólogos sobre o prognóstico dos comportamentos desviantes dos sujeitos envolvidos em lides são marcos das práticas tradicionais da Psicologia Jurídica brasileira. No Brasil, na década de 30, a Psiquiatria foi adotada como ciência auxiliar do Direito, no campo restrito da perícia para a avaliação da responsabilidade em criminosos. Com isso, tornava-se possível a separação dos que eram tidos como loucos dos mentalmente sãos, marcando o primeiro encontro do Direito com as áreas psicológicas pela perspectiva da Medicina (Delgado,1992).

Também a partir de 1930 e, especialmente nos anos de 1940, segundo Jacó-Vilela e Pereira (2005), foi a época do apogeu dos testes psicológicos no Brasil, quando os psicólogos, mesmo antes da regulamentação da profissão no Brasil, são convidados a contribuir na

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identificação da inimputabilidade e da periculosidade. O Código Penal brasileiro, decreto-lei no 2.848/1940, em vigor até o presente momento, é constituído com base nessas teorias.

A Lei de Execução Penal, lei nº 7.210/1984, normativa que foi atualizada, em 2003, pela lei de no 10.792/2003, determinava em seu art. 5 que “Os condenados serão classificados, segundo os seus antecedentes e personalidade, para orientar a individualização da execução penal” e que a classificação do condenado, através do exame criminológico, será realizada pela Comissão Técnica de Classificação que, dentre outros profissionais, será formada pelo profissional de Psicologia.

Em 1945, é publicado no Brasil o Manual de Psicologia Jurídica de Mira y López, difundindo a tese de que a Psicologia Jurídica deveria servir de base para o bom exercício do Direito. A intervenção da Psicologia deve, na perspectiva de Myra y Lopez, subsidiar a decisão dos magistrados em processos nos quais a subjetividade impede a objetividade jurídica. Sendo os laudos e/ou pareceres dos psicólogos constituídos como mais uma das provas no processo jurídico.

Alguns psicólogos, tal como Rovinski (1998) e Shine (2003), consideram que subsidiar o magistrado enquadra o psicólogo na função de perito, prevista no Código de Processo Penal, decreto-lei nº 3.689/1941, (arts.158 a 184) e no revogado Código Processo Civil, Lei No 5.869/1973, (arts. 420 a 439). Para Mira y López, as principais contribuições da Psicologia ao Direito seriam: a Psicologia do Testemunho, por reconhecer que a personalidade do sujeito influencia no testemunho, e a realização de interrogatórios, por acreditar que os Operadores do Direito não possuem formação adequada para o serviço (Mira y López, 1945/2011).

Segundo Jacó-Vilela (1999), após a promulgação da Lei 4.119/1962, que dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo, foram constituídos vários cursos de Psicologia no Brasil e o professor Eliezer Schneider (1916-1998) foi um dos primeiros professores de cada um deles, (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ,

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ, Universidade Gama Filho/UGF, Faculdades Integradas Pedro II/FAHUPE). O docente, que possuía a formação em Direito e era apaixonado pela Psicologia, esforçou-se para incluir a disciplina de Psicologia Jurídica nessas instituições. Na UERJ, Schneider contribuiu na constituição do curso de especialização em Psicologia Jurídica, que teve sua primeira turma em 1986, sendo também seu coordenador por alguns meses. Em 1987, constituiu parte da banca com os docentes Miguel Chalub e Roberto Bello, do primeiro concurso para professor de Psicologia Jurídica no Brasil, sendo a disciplina oferecida até hoje na graduação (Brito, 2009).

Em 1964, o decreto 536/1964 estabeleceu que o profissional de Psicologia poderia realizar perícias e emitir pareceres no âmbito do judiciário. Aos poucos, os juízes das Varas Civis, Criminais e de Menores foram demandando psicodiagnósticos para subsidiar as suas sentenças, ao ponto que, no final da década de 1970, foi instituído o Serviço de Liberdade Assistida no Juizado de Menores da Comarca da Capital do Rio de Janeiro. O referido serviço contava com psicólogos voluntários ou servidores que tinham a formação em Psicologia e foram desviados de função, os quais desenvolviam diagnósticos dos chamados menores infratores, além de atenderem jovens que estavam em medidas de liberdade assistida (Brito, 1993).

A partir de 1977, com a legalização do divórcio Lei Nº 6.515/1977 no país e sua crescente disseminação, os juízes das Varas de Família, esporadicamente, solicitavam o auxílio da Psicologia por meio do recurso da perícia, geralmente quando eram alegados impedimentos emocionais de uma das partes nos processos de posse e guarda dos filhos.

Como citado anteriormente, a contribuição da Psicologia inicia no Direito Penal, mas, na atualidade, adentra as questões pertinentes ao direito da criança e do adolescente, ao Direito de Família; ao Direito trabalhista e às violações dos Direito Humanos de forma geral. Nesse caminho, é possível verificar a constituição de uma das perspectivas da Psicologia Jurídica no

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contexto brasileiro, a do Psicólogo Jurídico como sinônimo de perito, aquele profissional que irá utilizar todo o seu arcabouço teórico e suas técnicas da melhor forma possível, para identificar a “verdade psíquica” dos sujeitos envolvidos em lides judiciais.

Na busca de referências que possibilitassem a análise crítica das práxis em Psicologia Jurídica no Brasil, dois autores tiveram evidência para profissionais e pesquisadores psicólogos que estavam construindo resistência à perspectiva hegemônica de realização de perícia, nomeadamente, Michel Foucault e Jacques Donzelot. Os estudos dos referidos autores discorrerem sobre a constituição dos especialistas que irão atuar como auxiliares do corpo jurídico, após as Revoluções (Francesa e Industrial), na constituição de Estados ditos democráticos de direitos, com base político-econômica capitalista.

Inclusive, nas referências técnicas para a atuação do psicólogo em Varas de Família (2010), desenvolvidas pela equipe do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (Crepop), do Conselho Federal de Psicologia (CFP), há a indicação das obras: A verdade e as Formas jurídicas (Foucault, 1974), Vigiar e Punir (Foucault, 1986), A ordem psiquiatra: a idade de ouro do alienismo (Castel, 1978) e A polícia das Famílias (Donzelot, 1986), como leituras fundamentais para os profissionais que desejam compreender melhor sobre o surgimento das perícias no contexto do judiciário e, especialmente, perceberem o risco de exercerem papel disciplinador.

Foucault (1996a), no cerne da discussão sobre saber/poder e sobre as reformas penais ocidentais ditas humanistas, assegura que, para garantir o controle dos indivíduos na referida época, surge em torno da instituição judiciária uma série de instituições de vigilância (polícia) e correção (instituições psicológicas, psiquiátricas, criminológicas, pedagógicas e médicas). Nesse caminho, Foucault (1996a) assegura que esses especialistas não são demandados para garantir a qualidade de vida do sujeito, mas para controlar e normatizar o indivíduo.

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Um saber que tem agora por característica não mais determinar se alguma coisa se passou ou não, mas definir se um indivíduo se conduz ou não como se deve, conforme ou não a regra, se progride ou não etc. Esse novo saber não se organiza mais em torno das questões: “Isto foi feito? Quem fez o quê?”; não se ordena em termos de presença ou ausência, de existência ou não existência. Ele se ordena referido a uma norma, em termos do que é normal ou não, correto ou não, do que se deve ou não fazer.

Tem-se, portanto, em oposição ao grande saber do inquérito [...] um novo saber, do tipo totalmente diferente, um saber de vigilância, de exame, organizado em torno da norma pelo controle do indivíduo ao longo de sua existência. Essa é a base do poder, a forma de saber/poder que vai dar lugar não às grandes ciências de observação, como no caso do inquérito, mas ao que chamamos de ciências humanas: Psiquiatria, Psicologia, Sociologia, dentre outras (Foucault, 1996a, 70).

Este cenário constitui o que o autor chamou de sociedade disciplinar, ortopédica, regida por uma determinada ordem do discurso que cria e possibilita procedimentos de exclusão, interdição, silenciamento e vontade de verdade. Um modelo de sociedade que, auxiliada pelos especialistas da área de humanas, retira a análise crítica dos indivíduos, o seu poder político sobre a sua própria vida, tornando-o corpo dócil, submetido às normas do Estado. Como alerta Machado (1979) no prefácio da obra de Foucault (1979):

Não se explica inteiramente o poder quando se procura caracterizá-lo por sua função repressiva. O que lhe interessa basicamente não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho, dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente (Machado, p. XVI).

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Seguindo o entendimento das teses foucaultianas, Jacques Donzelot (1986) irá explicar como foi constituído um modelo econômico de governo que percebeu a importância de investir no desenvolvimento social para favorecer o crescimento da economia, que na prática se exerce a partir do governo das famílias. Ou seja, Donzelot (1986) irá explicar que os profissionais de Ciências Sociais irão ser forjados para atuar como polícia das famílias. “Conexão sistemática entre moral e economia que implicará uma vigilância contínua da família, uma penetração integral em todos os detalhes de sua vida” (Donzelot, 1986, p. 67).

As fundamentações trazidas por esses dois autores (Foucault e Donzelot) levaram alguns profissionais de Psicologia Jurídica, (tais como Brito, 1993; Barros, 2002; Coimbra, 2002; Shine, 2003) que estavam questionando as suas práticas frente às referências hegemônicas, a refletirem sobre as demandas jurídicas ao seu labor e as consequências negativas que estavam provocando nos sujeitos indicados nos seus laudos, relatórios e pareceres encaminhados aos Operadores do Direito. Levantaram perguntas, como: quem é o cliente do psicólogo? (O juiz, as partes, a criança ou o adolescente?); Quem demanda o serviço? (O juiz ou as partes?); Qual é o enquadre do seu trabalho? Quais são os limites éticos? Tais questões evidenciaram as tensões existentes na Psicologia Jurídica, tanto entre os psicólogos e os operadores do direito, como entre os próprios psicólogos.

O profissional de Psicologia Jurídica, neste momento, pode ser comparado à Alice, na aventura do País das Maravilhas (Carroll, 1865/2002), que ao cumprir a missão de encontrar o coelho branco (que está vestido de cartola e fraque e que corre sem parar, a partir do ritmo de um relógio de bolso, pois a Rainha de Copas irá chegar e cabeças poderão rolar), depara-se com várias indagações: Quem és tu? Para onde quer ir? E afirmações: Se não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. A porta não está impossível de ser passada, mas intransponível.

Será que comparar o coelho a um típico burguês seria mera coincidência? Será que a Alice Psicojurídica, na realidade de uma sociedade capitalista, poderia estar correndo para

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atender à demanda/missão de normatização da sociedade disciplinar, para não ser ela própria punida? Afinal, ela só está fazendo a tarefa para qual foi demandada, ou seja, definir quem irá ficar com a criança após o divórcio litigioso; indicar se a mãe deve ser destituída do Poder Familiar; avaliar se o candidato é competente para adotar uma criança; indicar se o condenado irá voltar a praticar um crime; verificar se o adolescente tem condições de voltar ao meio social etc.

Será que a Alice Psicojurídica, ao não saber para onde vai, por simplesmente atender as solicitações dos operadores do direito, sem questionar as consequências dos seus atos, poderá provocar prejuízos aos sujeitos atendidos no judiciário? Afinal, quem é o profissional de Psicologia Jurídica? Para onde ele quer ir? Quais são os seus limites éticos? Essas são questões que só podem ser respondidas pelo psicólogo que analisa criticamente o seu pensar e fazer profissional. Na história da Alice, o julgamento final já possui sentença antecipada, e nos pareceres psicológico, como isto se configura? Os profissionais de Psicologia não são juízes, mas são convocados a elaborar documentos/provas para basear a sentença do magistrado.

Como nos provoca Jacó-Vilela (1999, p.17),

como o psicólogo aceitará/ atuará frente a esse encargo: será o estrito avaliador da intimidade, aperfeiçoando seus métodos de exame? Ou lembrar-se-á que este sujeito singular também é um sujeito-cidadão, cujos direitos e deveres se constituem no espaço público, território onde perpassam outros discursos e práticas que não os exclusivamente psicológicos?

1.2 - Objetivos

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Analisar historicamente o contexto de desenvolvimento das práticas psicológicas nas Varas de Família.

1.2.2 Objetivos específicos

• Apreender as concepções de família, conjugalidade e parentalidade em jogo ao longo do desenvolvimento das leis relativas ao divórcio e guarda de filhos;

• Problematizar o campo da Psicologia jurídica e seus saberes em disputa em três momentos históricos que marcaram seu desenvolvimento nos séculos XX e XXI.

1.3. Estratégica metodológica

Para se apreender a dinâmica das práticas dos psicólogos na Vara de Família, foram identificadas determinações, que lhe são inerentes, e particularidades para compreender como as categorias se articulam entre si. Não se pretendeu apenas identificar os determinantes históricos-sociais das práticas psicológicas nas Varas de Família, mas também verificar os complexos que os originam diretamente, suas mediações-históricas e quais as funções sociais assumem.

Segundo Cury (1986, p. 43), a mediação deve ser ao mesmo tempo relativa ao real e ao pensamento; procura apreender o fenômeno na articulação de relações com os demais fenômenos e no conjunto das manifestações daquela realidade da qual ele faz parte, seja como fenômeno essencial ou não. As mediações abrem espaço para a concretização das teorias, tornando-se guias das ações. “[...] Sem as mediações, as teorias se tornam vazias e inertes, e, sem as teorias, as mediações se tornam cegas ou caolhas” (Cury,1986, p. 44).

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Para Martinelli (1993, p.136-137), mediações “são categorias instrumentais” a partir das quais a ação profissional ganha concretude, pois são instâncias de passagem, vias de penetração no real, expressas através do uso de instrumentos, recursos, técnicas e estratégias. Como categoria “reflexiva e ontológica”, sua construção (histórica) se consolida com base em operações intelectuais e valorativas, “apoiadas no conhecimento crítico do real, possibilitado fundamentalmente pela intervenção da consciência” (Martinelli, 1993).

A mediação tem papel fundamental no plano metodológico devido a sua dupla natureza, ontológica e reflexiva. As mediações que estruturam (ontológicas) devem ser reconstruídas pela razão (reflexivas) para que seja possível uma compreensão do movimento e constituição do objeto e para orientar a intervenção (Prates, 2016, p. 92-93).

1.3.1 Estratégia de coleta

1. 3.1.1 Fontes de dados:

Foram realizados levantamentos e análises de três conjuntos de documentos.

O primeiro conjunto diz respeito aos documentos técnicos e normativas emitidos pelas organizações da categoria profissional referentes às práticas psicológicas na Vara de Família, publicados no período analisado. Os mesmos foram resgatados nos sítios eletrônicos do Conselho Federal de Psicologia (CFP), dos conselhos regionais e das associações de psicólogos que atuam junto aos TJs.

O segundo conjunto de documentos analisados refere-se às legislações referentes ao Direito de Família vigentes no interregno 1985-2015: o Código Civil (CC) de 1916; Código de Processo Civil. (1973); Lei do Divórcio (1977); Constituição Federal (1988); Estatuto da Criança e do Adolescente (1990); Código Civil (2002); Guarda Compartilhada (2008);

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Alienação parental (2010); Guarda Compartilhada (2014); Código de Processo Civil (2015); e Lei de mediação (2015).

A base utilizada para acessar tais legislações foi o sítio eletrônico oficial do legislativo (http://www2.planalto.gov.br). Ademais, foram analisados documentos do Conselho Nacional de Justiça inerente ao campo de estudo, devido a sua relevância para as práticas judiciárias: a resolução de Nª125/2010, a qual dispõe sobre a Política Judiciária Nacional de tratamento

adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário; e a recomendação de Nª

050/2014, a qual recomenda aos Tribunais de Justiça, Tribunais Regionais do Trabalho e Tribunais Regionais Federais realização de estudos e de ações tendentes a dar continuidade ao Movimento Permanente pela Conciliação.

O terceiro conjunto de documentos analisados foram as produções bibliográficas de profissionais, pesquisadores e grupos de pesquisa sobre o tema, reconhecidos nacionalmente por suas contribuições na prática do psicólogo nas Varas de Família. Sendo que alguns marcaram pontualmente uma das fases, tais como: Fernanda Otoni de Barros (TJMG); Helenice Gama Dias de Lima (TJDFT); Roberto Moraes Cruz (UFSC) e Vivian de Medeiros Lago (UFRGS). E, outros como Ester Arantes (UERJ); Leila Maria Torraca de Brito (UERJ); Sónia Rovinski (Sapiens/RS); Sidney Shine (TJSP), possuem uma g produção mais vasta sobre o tema no decorrer desse percurso histórico.

Esse material foi acessado pela biblioteca virtual Scielo e os capítulos, livros, dissertações e teses são do meu acervo pessoal e do grupo de pesquisa do qual participo.

1.3.2 Recorte temporal

O estudo percorreu um período de 30 anos, o qual foi dividido em três fases: de 1985 a 2002, que abrange desde o primeiro concurso para o cargo de psicólogo até a promulgação do

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Novo Código Civil (NCC); de 2003 a 2008, que abarca as mudanças trazidas pelo NCC até a instituição da primeira lei da Guarda Compartilhada (GC1); e, finalmente, de 2009 a 2015, anos que são afetados pelas alterações implementadas pela lei da GC1 de 2008 até as determinações legislativas de 2015, nas quais estão incluídas a lei de Alienação Parental, a Nova Lei de Guarda Compartilhada, o Novo Código de Processo Civil e a Lei de Mediação. O Recorte temporal foi reproduzido na Figura 1.

Figura 1 – Recorte Temporal

Considera-se importante esclarecer que a escolha por esses marcos não é aleatória, cada um apresenta uma inflexão ao percurso. O ano de 1985 formaliza o cargo de psicólogo num Tribunal de Justiça no Brasil, que até o momento configurava-se por contratos e instabilidades; o Código Civil de 2002 elimina a noção de culpa na separação conjugal e no divórcio, a qual era determinante para a definição da guarda dos filhos menores de idade; e a Guarda compartilhada de 2008 que, além de instituir a possibilidade da parentalidade conjunta,

Recorte Temporal

30 anos

Fase 1 (1985 -2002) Fase 2 (2002 -2008) Fase 3 (2008 -2015) CC 2002 GC 1 2008 1ºC 1985 GC 2 2014 NCPC 2015 LM 2015

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configura-se como a primeira legislação específica do Direito de Família que determina a participação do profissional de Psicologia para compor a equipe multiprofissional das Varas de Família, pois, até esse momento, as legislações que normatizavam a exigência de equipe multiprofissional e justificavam a realização de concursos públicos eram referentes à Vara da Infância e Juventude (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, em 1990, e à Lei da Adoção, Lei nº 12.010/2009), às Varas de Execução Penal (Leis de Execução Penal, lei nº 7.210/ 1984) e aos juizados especiais de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher (Lei Maria da Penha, lei nº 11.340/ 2006). Especificidade que contribuiu para que, na maioria dos tribunais brasileiros, as poucas vagas que eram abertas fossem destinadas paras as referidas Varas, sendo comum encontrar psicólogos efetivos apenas nas Varas de Família das capitais.

Em geral, as Varas de Família das comarcas do interior contam com uma ou a junção das seguintes configurações: psicólogos de confiança do juiz, que atua como perito; uma lista de profissionais de psicologia que se cadastram para serem convocados enquanto peritos; e/ou os psicólogos lotados em outras Varas que acumulam processos da Vara de Família. Ainda, é possível outra configuração: a Vara única, que abarca diversos tipos de processos, através dos quais os psicólogos recebem demandas de diferentes ordens.

1.3.3 Estratégia de análise

As categorias de análise utilizadas para compreender como foram constituídas as práticas psicológicas, nesses 30 anos, foram: debates em torno do cargo de psicólogo nos diversos tribunais; as temáticas de trabalho inerentes ao campo da Vara de Família; as tensões e debates entre os profissionais e pesquisadores deste campo; e o impacto das legislações pertinentes ao Direito de Família sobre as práticas do psicólogo junto a esse contexto. As referidas categorias de análise foram reproduzidas na Figura 2.

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Figura 2 – Categorias de Análise

A análise de tais categorias busca captar as transformações ocorridas no campo da Psicologia brasileira nesse período.

As referidas categorias foram escolhidas a partir da experiência profissional da doutoranda no tema da tese. Durante a prática de ensino, pesquisa, extensão e assistente técnica, de quase duas décadas, foi possível identificar que tais categorias se evidenciavam enquanto organizadoras na trajetória dos psicólogos junto às Varas de Família.

A análise do material estudado, a partir das categorias indicadas, foi apresentada enquanto percurso histórico, onde os documentos levantados foram debatidos à luz da produção científica referente à atuação do psicólogo na Vara de Família, especificamente, em processos de convivência familiar após a dissolução conjugal.

Categorias de Análise

Compreender como foram constituídas as práticas psicológicas, nesses 30 anos Debates em torno do cargo de psicólogo nos diversos tribunais Temáticas de trabalho inerentes ao campo da Vara de Família Tensões e debates entre os profissionais e pesquisadores Impactos das legislações pertinentes ao Direito de Família sobre as práticas

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2.

A prática profissional do psicólogo nas Varas de Família – um estudo

histórico entre 1985 e 2002

Este capítulo visa apresentar o primeiro período de atuação formal da Psicologia nas Varas de Família brasileiras, de 1985 a 2002, que é da constituição do cargo nestes estabelecimentos e abrange desde o primeiro concurso para o cargo de psicólogo no país até a promulgação do Novo Código Civil (NCC) - Lei de nº 10.406/2002.

Nos três levantamentos realizados neste período (1988, 1994 e 2001) pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) sobre o perfil do psicólogo e da profissionalização da Psicologia no país, a profissão foi caracterizada como feminina, jovem, focada na área clínica e concentrada nos centros urbanos, devido aos cursos universitários e mercado de trabalho também estarem principalmente nessas localidades (Pereira & Pereira Neto, 2003).

Na década de 1980, o ecletismo já era uma marca da profissão, muitos psicólogos possuíam pelo menos duas abordagens, entretanto a Psicanálise era a orientação teórica dominante. Havia ainda o predomínio, independentemente da área de atuação profissional, do desenvolvimento de atividades de avaliação psicológica, psicodiagnóstico e aplicação de testes (Bastos, Gondim & Borges-Andrade, 2010). Nesse sentido, tais características da profissão e dos profissionais influenciaram na realidade das práticas desenvolvidas no judiciário.

2.1 Evolução legislativa e a demanda aos psicólogos no contexto do divórcio e da guarda de filhos

Referências

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