O CELPE BRAS E SUA IMPORTÂNCIA PARA AS PESQUISAS EM PLE NA UFPB Rosilene Félix Mamede¹; Ina Mirely Oliveira da Rocha²; Rafael Torres Correia Lima²; Maria de Fátima Benício de Melo³ Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas RESUMO
Neste trabalho, apresentaremos o perfil do Programa LingüísticoCultural para Estudantes Internacionais (PLEI) na UFPB, enfocando o ensino de Português como Língua Estrangeira (doravante PLE) nos projetos de pesquisa e extensão. Mostraremos também as atividades interdisciplinares realizadas na UFPB através do PLEI e sua fundamental importância na aplicação do exame de Proficiência em Língua Portuguesa, o CELPEBras. Este certificado de proficiência em Língua Portuguesa para estrangeiros foi desenvolvido e outorgado pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) e é aplicado não só no Brasil, como também em outros países com apoio do MRE (Ministério das Relações Exteriores).
Da participação ativa do PLEI, vislumbramos a realização de inúmeras pesquisas lingüísticas a partir do material coletado das produções dos candidatos a exemplo do que acontece nas grandes universidades do Sul e Sudeste do país. Como a maioria dos candidatos são hispano falantes, iniciamos nossos estudos analisando as interferências da língua materna dos candidatos nas produções textuais do Exame de Proficiência em Língua Portuguesa.
A partir destas análises, procuraremos fazer um levantamento dos principais problemas encontrados de natureza morfossintática e textual, tais como: coesão e coerência, desconhecimento dos gêneros textuais, entre outros. Através das nossas pesquisas, esperamos contribuir para o ensino de PLE, visando às novas metodologias no processo de ensinoaprendizagem.
Palavras Chave: CelpeBras, PLE (Ensino de Português para Estrangeiros); PLEI (Projeto LingüísticoCultural para Estudantes Internacionais).
1. Introdução:
Neste trabalho, apresentaremos o perfil do Programa LingüísticoCultural para Estudantes Internacionais (PLEI) na UFPB, enfocando o ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) nos projetos de pesquisa e extensão. Mostraremos também as atividades interdisciplinares realizadas na UFPB através do PLEI e sua fundamental importância na aplicação do exame de Proficiência em Língua Portuguesa, o CELPEBras.
Com os resultados obtidos em nossas atividades, iniciaremos diversas pesquisas lingüísticas, nas quais abordaremos algumas problemáticas, tais como: interferência da língua materna, coesão e coerência e desconhecimento de gênero textual.
2. Fundamentação Teórica:
Até o final da década de 60, a psicologia behaviorista teve forte influência no ensino de línguas estrangeiras. Em sendo a língua considerada de natureza social e cultural, aprender uma língua estrangeira implicava formar um novo hábito (distinto daquele da língua materna) por meio da prática. Para tal fim, estímulos (estruturas lingüísticas) eram fornecidos como modelos a serem imitados e praticados, visando à produção de respostas apropriadas (estruturas lingüísticas). Todavia, na prática de sala de aula, o que acontecia era que os hábitos formados na língua materna “atrapalhavam” a formação de novos hábitos na língua alvo, resultando em “erros”.
Tem origem, então, no seio do behaviorismo e no auge da lingüística estrutural americana, a Análise Constrativa, uma abordagem com a finalidade didática de fornecer um modelo de trabalho que evitasse os erros no processo de ensino e aprendizagem. Robert Lado
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) (1) Bolsista; (2) Voluntário(a); (3)Prof(a) Ori ent ador(a)/Coor denador(a); (4)
Prof(a) Colaborador(a);
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(1957), precursor desta abordagem, defendia que o professor, ao realizar análise contrastiva, comparando as semelhanças e as diferenças entre a língua materna do aprendiz e a língua alvo, seria capaz não apenas de prever as dificuldades e os problemas (leiase “erros”), mas evitálos. No contexto em que a Análise Contrastiva surgiu, o de considerar a língua como um conjunto de hábitos, esse conhecimento de ambas as línguas possibilitaria ao professor formar em seus alunos novos padrões lingüísticos, ou seja, os padrões lingüísticos da língua alvo deveriam suplantar os da língua materna.
Enquanto que para a análise contrastiva, de cunho behaviorista, o erro era uma interferência da língua materna na língua estrangeira, para outros (Lee, 1956; Corder, 1969), o erro sugeria que o input era mentalmente processado, o que reforçava a tese racionalista de Chomsky, segundo a qual o ser humano é dotado de uma faculdade da linguagem que o capacita a gerar enunciados,e não apenas repetilos.
Os artigos de Corder (1969) e Selinker (1972), intitulados “The significance of errors” e “Interlanguage”, respectivamente, foram os marcos seminais desta nova área de investigação, chamada Lingüística Aplicada ao ensino de línguas estrangeiras. Ao valorizar os erros e desvios cometidos, como pistas para a compreensão do processo cognitivo em andamento, Corder dá início à corrente chamada Análise de Erros e corrobora a tese de uma mente pensante que manipula informações, faz associações, gera enunciados e age sobre as informações fornecidas.
No mesmo período, Selinker examina o estágio de apropriação da língua alvo, desenvolvido pelos aprendizes nos diferentes níveis de desenvolvimento, não como uma versão imperfeita da língua alvo, mas algo com características sistemáticas, dinâmicas e governadas por regras. Selinker notou que a língua produzida pelos alunos diferia tanto da língua materna quanto da língua estrangeira, denominandoa, assim, de Interlíngua, que é o “o sistema de transição criado pelo aprendiz, ao longo de seu processo de assimilação de uma língua estrangeira” (Shütz, 2005).
Desde então, a Lingüística Aplicada ao ensino de línguas estrangeiras tem construído um aporte teóricometodológico, capaz de prover formação inicial, teoricamente fundamentada, para professor de línguas estrangeiras em conceitos basilares necessários a sua prática docente.
Embora o português tenha sido ensinado pelos jesuítas por dois séculos como uma língua estrangeira, seja incluído em sexto no ranking das línguas mais faladas no mundo (Wikipedia), seja ensinado desde o advento do Mercosul, só mais recentemente alguns poucos grupos de pesquisa – geralmente situados em áreas de alta concentração de estrangeiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Brasília – começaram a discutir o que significa formar (ao invés de treinar) um professor de português como língua materna exclusivamente, a formação teóricometodológica complementar, aqui proposta, objetiva desenvolver um olhar estrangeirizado sobre a língua materna desse professor em formação, desenvolvendo os seguintes conhecimentos:
· o conceito de fossilização (cristalização) de erros e desvios internalizados e tratamento metodológico adequado para prevenir fossilização prematura na interlíngua do aprendiz; · a diferenciação do fenômeno de fossilização, tanto de uma pausa mais prolongada num determinado estágio de desenvolvimento de uma estrutura lingüística quanto de um lapso ou equívoco;
· a diferenciação de situações de interferência da língua materna, que geralmente resultam em erros para aquelas de transferência da língua materna, que normalmente resultam em acertos;
· compreensão de que cultura não é uma quinta habilidade a ser ensinada separadamente (cf. Dourado, 2005);
· conhecimento de tipologia já existentes de estratégias de aprendizagem que podem auxiliar a entender o processo de ensino e aprendizagem;
· teorias behavioristas, cognitivas, construtivistas, interacionais e discursivas de ensino e aprendizagem de línguas e suas implicações na produção de materiais didáticos e avaliação da aprendizagem;
· percepção de certas singularidades da língua portuguesa aplicada ao ensino de língua materna.
3. PLEI ( Programa Lingüístico Cultural para Estudantes Internacionais)
Vinculado ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da UFPB, o PLEI (Programa LingüísticoCultural para Estudantes Internacionais) destinase a aprofundar os conhecimentos sobre o processo ensino/aprendizagem do português como língua estrangeira, atuando nas áreas de ensino, pesquisa e extensão, com os seguintes objetivos específicos:
· Promover Cursos de Português como Língua estrangeira para estudantes conveniados ou não com a UFPB
· Oferecer Cursos de Literatura Brasileira e Literatura Popular e Cultura Brasileira para estudantes conveniados ou não com a UFPB;
· Elaborar material didático para os Cursos promovidos;
· Desenvolver pesquisas voltadas para aspectos do português, para a identidade cultural brasileira e para o processo de ensino/aprendizagem de Português como Língua Estrangeira;
· Estabelecer espaços para debates sobre o ensino e a pesquisa de Português como Língua Estrangeira e da cultura brasileira;
· Aplicar o exame para a obtenção do Certificado de Proficiência em Português para Estrangeiros (CelpeBras).
4. Em que consiste o CelpeBras?
O CelpeBras é o certificado de proficiência em Língua Portuguesa para estrangeiros e foi desenvolvido e outorgado pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura). Este certificado é aplicado não só no Brasil , mas também em outros países através do apoio do MRE (Ministério das Relações Exteriores). O CelpeBras é a única certificação em proficiência de Língua Portuguesa reconhecida e aceita internacionalmente por empresas e instituições de ensino como comprovação de competência da língua portuguesa.
No Brasil, ele se faz necessário tanto na validação de diplomas de profissionais estrangeiros que desejam exercer sua profissão em território nacional, como também para aqueles que pretendem ingressar no meio acadêmico, seja em cursos de graduação ou de pós graduação.
Todo exame de Proficiência em línguas tem como objetivo de avaliação o uso que o falante faz da segunda língua, ou seja, avalia se o falante consegue suprir as necessidades de comunicação tanto na linguagem oral como na escrita. Nesta avaliação, são analisados critérios do desempenho lingüístico que fazem parte do cotidiano, tais como: a comunicação no ambiente de trabalho, o ato de ler e redigir textos, a interação oral e escrita no contexto escolar (ex.:esclarecer dúvidas, atribuir opiniões, fazer trabalhos acadêmicos) etc.
4.1. Contexto Histórico
O processo de implementação do CelpeBras teve início com a Portaria n.º 101/93 (DOU de 11/06/93), da Secretaria de Educação Superior (SESu) do Ministério da Educação (MEC), a qual constituiu uma Comissão para "desenvolver as ações necessárias à elaboração de um teste padronizado de português para estrangeiros". Posteriormente, a Portaria Ministerial n.º 500/94 (DOU de 08/04/94) alterou e ampliou o número de membros da Comissão Técnica, determinando que a mesma teria a atribuição de concluir a padronização do teste e de assessorar a SESu nas questões relacionadas ao ensino de português para estrangeiros. A Portaria Ministerial nº.1787/95 (DOU de 02/0195) instituiu finalmente o CELPEBras, a ser conferido em dois níveis: parcial Primeiro Certificado; pleno Segundo Certificado. Em 1998, foram publicadas a Portaria Ministerial n.º 643 (DOU de 2/7/98) e a n.º 693 (DOU de 9/7/98), ambas alterando dispositivos da Portaria 1787/95. A primeira trata da criação da Comissão ad hoc, responsável pela correção dos exames, e, a segunda, da designação da Comissão
Técnica do CelpeBras pela Secretaria de Educação Superior, o que se deu por intermédio da Portaria n.º 1591, de 9 de outubro de 1998.
5. As Etapas e Tarefas Desenvolvidas na Aplicação do CelpeBras
Como já foi mencionado, o exame de proficiência consiste em avaliar o uso adequado da língua, porém levase em conta tudo o que está relacionado ao momento de transmissão da mensagem, como o contexto e a intencionalidade dos interlocutores envolvidos na interação, para que haja uma comunicação efetiva.
Diferentemente de exames que analisam de forma separada as modalidades escritas e orais da língua, o CelpeBras avalia tais modalidades de forma integrada, simulando situações reais de comunicação.
A parte individual é uma interação faceaface entre o participante do exame e o entrevistador. Aqui, o candidato é submetido a uma conversa de 20 minutos que será gravada para uma posterior avaliação. A fim de que haja uma maior desenvoltura lingüística do entrevistado, a equipe aplicadora, a partir do questionário respondido pelo mesmo, elege elementos motivadores (imagens, textos jornalísticos, publicidades, fotos, cartuns, charges etc.), com vistas a uma melhor adequação do perfil do candidato. É objeto desta tarefa o fluxo natural da conversação lingüística. Nas realizações da Parte Individual, são analisados os seguintes aspectos: · Fluência; · Pronúncia coesão e coerência na elaboração dos textos orais; · Gramáticaadequação no uso de termos e estruturas; · Léxico: extensão e adequação no uso do vocabulário. 6 O Celpe Bras na UFPB
No Nordeste brasileiro, apenas três universidades são credenciadas para aplicar este Exame de Proficiência. O primeiro pólo aplicador é a UFBA (Universidade Federal da Bahia); em seguida, a UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e, em terceiro lugar, a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).
O Exame de Proficiência é aplicado nacionalmente duas vezes por ano, sendo que a primeira avaliação é feita em abril e a outra no mês de outubro, com a participação ativa de todos os envolvidos no projeto (professores, bolsistas e voluntários).
Na UFPB, o PLEI (Programa Lingüísticocultural) é o setor responsável pela aplicação do exame. Vale ressaltar que, devido à eficácia e organização do trabalho desenvolvido o PLEI pela primeira vez foi convocado, em nome da pessoa da Coordenadora Maria de Fátima Benício de Melo, para a correção do exame, em dezembro de 2006, no Distrito Federal. 6.1. O Perfil dos candidatos No ato da inscrição, os candidatos são submetidos a um questionário padrão. Nele o candidato responde a perguntas sobre suas afinidades, o que o levou a conhecer e a se interessar pela Língua Portuguesa e pela Cultura Brasileira e se ele tem contato com pessoas brasileiras. De acordo com as informações obtidas nos questionários, a equipe aplicadora formada por professores, alunos bolsistas e voluntários do PLEI elegem os elementos motivadores, que são constituídos por imagens e textos relacionados a diversos assuntos. Este material é fornecido pelo MEC e sua utilização tem por objetivo estimular a conversação entre os participantes do CELPEBras e os entrevistadores.
Como algumas entidades de classe exigem o Certificado de Proficiência para a inscrição profissional, a exemplo do que ocorre com o Conselho Regional de Medicina (CRM), em geral, os candidatos são médicos hispanofalantes que desejam exercer sua profissão no Brasil, embora haja um pequeno número de estudantes que pretendem cursar pósgraduação.
Como já foi mencionado, os nossos candidatos são em geral hispanofalantes, que, por considerarem o espanhol e o português bastante semelhantes, fazem uso constante de estruturas de sua língua materna.
A seguir, destacamos trechos ilustrativos de algumas interferências da língua espanhola no exame do CelpeBras: 1) “Para levar adiante esta idéia estamos precissando de donativos”. 2) “ Cada livro doado desejamos seja referenciado pon o doador”. 3) “Tendo em centa o interés do Japão”. 4) “Primeramente Deus abençoe a sua pessoa escoger frutas”. 5) De repente ele paró o carro. 6) Quál era idea dela de um casamento? 7) Qué significado teve seu tempo(...) 8) Peenso que não existia amor, (...).
O problema identificado nas produções textuais vai muito além do que simples interferências lingüísticas, conforme mostra o exemplo (2), em que há incoerência através do uso da expressão“seja referenciado”, e termos espanhóis como os pronomes interrogativos, nos exemplos (6) e (7). Encontramos ainda interferência da língua materna no tocante à ditongação da vogal “e”, no exemplo (8), e outros vocábulos como “idea” , “escoger” e “interés”.
8. Perspectivas para Desenvolvimento de Pesquisa
A partir da análise das produções dos candidatos ao CelpeBras, procuraremos fazer um levantamento dos principais problemas encontrados de natureza morfossintática e textual, tais como: Interferências da língua materna, problemas de coesão e coerência, desconhecimento dos gêneros textuais, o que prejudica a própria realização das tarefas propostas no exame.
Conforme demonstramos acima, iniciamos a pesquisa analisando as interferências do espanhol no Exame de Proficiência em Língua Portuguesa. Em um segundo momento, procuraremos investigar os impactos produzidos por tais fatores nos mecanismos coesivos e na própria coerência textual.
9. Considerações Finais
Pretendemos apresentar, com este artigo, perfil do Programa Lingüístico Cultural para Estudantes Internacionais na UFPB no que diz respeito ao ensino de PLE (Português como Língua Estrangeira), à pesquisa e à extensão. Dentre as suas várias atribuições de caráter interdisciplinar, o Programa em tela exerce um papel de fundamental importância na aplicação do Exame de Proficiência em Língua Portuguesa, segundo caracterizamos anteriormente. Dessa participação ativa, vislumbramos a realização de inúmeras pesquisas lingüísticas a partir do material coletado, a exemplo do que acontece nas grandes universidades do Sul e Sudeste do País.
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