CENTRO INTEGRADO DE COMANDO E CONTROLE:
sua missão na integração das forças policiais e de defesa social
no Estado do Rio de Janeiro.
Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia.
Orientador(a): Profª. Esp. Maria Leonor Teixeira.
Rio de Janeiro 2018
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Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG
_________________________________
Assinatura do autor
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Elaborada por Alessandra Alves dos Santos – CRB-7/6327
B813c Braga, Mauro Henrique Vieira.
Centro Integrado de Comando e Controle: sua missão na
integração das forças policiais e de defesa social no Estado do Rio de Janeiro / Delegado de Polícia Civil Mauro Henrique Vieira Braga. - Rio de Janeiro: ESG, 2018.
89 f.: il.
Orientadora: Professora Esp. Maria Leonor Teixeira.
Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2018.
1. Centro Integrado de Comando e Controle. 2. Integração. 3. Doutrina de Comando e Controle. 4. Segurança Pública. 5. Defesa Social. I. Título.
CDD – 353.36
A todos familiares e amigos que durante o meu período de formação contribuíram com ensinamentos e incentivos.
A minha gratidão, em especial, aos meus colegas da Turma Ética e Democracia (TED), pela convivência, respeito, companheirismo e aprendizagem.
Com vocês, foi mais fácil superar os obstáculos deste intenso ano.
Aos delegados de polícia civil Carlos Augusto Neto Leba e Fernando Antônio Paes de Andrade Albuquerque, por terem feito a minha indicação à Escola Superior de Guerra; e Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior e Gilberto da Cruz Ribeiro, por terem mantido a indicação, decisões que oportunizaram meu aprendizado sobre o Brasil e suas variadas expressões do Poder Nacional.
A esta escola, seu corpo docente, direção e administração, pelos ensinamentos e por terem sido responsáveis por parte considerável da minha formação e conhecimento.
À minha orientadora, professora Maria Leonor Teixeira, e ao professor Lameiras, pelo suporte, correções e incentivos.
A Elaine de Deus Oliveira, Laís Fraga Kauss e Vilene Eulálio de Magalhães, pelo auxílio luxuoso na formatação deste trabalho.
E, por fim, à minha inestimável equipe do Centro de Comunicações e Operações Policiais-CECOPOL/PCERJ, em especial ao Antônio Carlos e à Andréa, por toda a dedicação e disponibilidade no atendimento das demandas do trabalho, atuação que fez com que fosse possível, a despeito de eu permanecer inserido nas atividades profissionais, concretizar minha participação no curso, até a sua devida e desejada conclusão.
“O CICC simboliza a integração e o compromisso do Estado com a população do Rio, um legado inquestionável”.
Ex-secretário de Estado de Segurança, Roberto Sá.
“Esta estrutura é fantástica”.
Vice-ministro parlamentar do Ministério Federal de Economia e Energia da Alemanha, Uwe Karl Beckmeyer.
Esta pesquisa teve por objetivo estudar o Centro Integrado de Comando e Controle, que em maio de 2018 fez cinco anos de existência, de forma a verificar a sua real capacidade de fomentar integração junto às instituições de segurança pública e de defesa social, missão que justificou a sua criação, bem como propor eventuais ações que aperfeiçoem o seu uso. Considerado o principal legado dos Grandes Eventos recepcionados pelo Estado do Rio de Janeiro, o Centro Integrado de Comando e Controle é caracterizado por ser um prédio dotado de vocação para disponibilizar recursos tecnológicos e proporcionar um ambiente adequado à atuação coletiva das agências. O estudo se ambienta na doutrina de comando e controle, e as informações que formam a estrutura do trabalho foram coletadas por meio de pesquisa de campo exploratória, através de entrevistas e questionários, bem como da observação direta do funcionamento diário do local. Trata-se, portanto, de pesquisa bibliográfica com traços descritivos, com base em publicações que abordam o assunto, e em opiniões de especialistas que trabalham no local. Concluiu-se pela relevância do Centro Integrado de Comando e Controle como ferramenta capaz de fomentar a integração interagências, de maneira a promover maior grau de eficiência e de eficácia na prestação dos serviços de segurança pública e de defesa social, proporcionando à coletividade, desta forma, serviços de qualidade; não obstante tenham sido verificadas necessidades de avanço e adequação, razão pela qual foram propostas ações de melhoria.
Palavras-chave: Centro Integrado de Comando e Controle. Integração. Doutrina de Comando e Controle. Segurança Pública. Defesa Social.
This research meant to study the Integrated Center of Command and Control, which turned five years old on May 2018, so to verify its actual capacity of fomenting the integration of public security and social defense institutions, mission that justified its creation, and to propose eventual actions to improve its use. Considering the main legacy of the Major Events occurred in Rio de Janeiro state, Integrated Center of Command and Control is characterized by being a building able to offer technological resource and an adequate environment for a collective action of the agencies. The study is based on the command and control doctrine, and the information forming the structure of the study was collected through an exploratory field research, interviews and surveys, added by the observation of the local routine. It is, therefore, a bibliographic research with descriptive traces, based on the subject published material and on experts’ – who work at the Center – opinions. The conclusion attested the relevance of Integrated Center of Command and Control as a tool able to foment the integration between agencies, so as to promote a better efficiency and effectiveness of the public security and social defense services, granting to the collectivity, therefore, qualified services; though the research identified necessities of improvement and adequation, reason why there were improvement proposals.
Keywords: Integrated Center of Command and Control. Integration. Command and
Gráfico 1 - Tempo de serviço na instituição ... 43
Gráfico 2 - Tempo de serviço no CICC ... 43
Gráfico 3 - Integração no CICC ... 44
Gráfico 4 - Diminuição da característica isolacionista das instituições ... 44
Gráfico 5 - Arquitetura do CICC ... 45
Gráfico 6 - Dificuldades no relacionamento ... 46
Gráfico 7 - Circulação de informações ... 46
Gráfico 8 - Recursos tecnológicos ... 47
Gráfico 9 - Protocolos operacionais ... 48
Gráfico 10 - Capacitação e treinamento ... 49
Gráfico 11 - Eficiência das instituições ... 50
Gráfico 12 - Eficácia das instituições ... 50
Gráfico 13 - Notas atribuídas à integração ... 51
Gráfico 14 - Lições aprendidas ... 52
AGETRANSP Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários, e Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro
BPM Batalhão da Polícia Militar
BPVE Batalhão de Policiamento em Vias Expressas
CBMERJ Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro CCC Centro de Comando e Controle
CECOCO Centro de Coordenação de Comunicações CECOPOL Centro de Comunicações e Operações Policiais CECOPOM Centro de Controle Operacional da Polícia Militar
CEDAE Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro CETIC Coordenadoria Especializada de Tecnologia da Informação e
Comunicação
CGU Corregedoria Geral Unificada
CICC Centro Integrado de Comando e Controle CIOC Centro Integrado de Operações Coordenadas CIODS Centro Integrado de Operações de Defesa Social CML Comando Militar do Leste
COBAT Centro de Operações do Batalhão
COCB Centro de Operações do Corpo de Bombeiros CONOPS Conceito Operacional do Sistema
CONUSO Conceito de Uso
COR-Rio Centro de Operações Rio
CPA Comando de Policiamento de Área
CRFB Constituição da República Federativa do Brasil CSPI Curso Superior de Polícia Integrado
DEGASE Departamento Geral de Ações Socioeducativas DGCCO Diretoria Geral de Comando e Controle Operacional
DP Delegacia Policial
GGC Gabinete de Gestão de Crise GIF Gabinete de Intervenção Federal GIO Grupos de Integração Operacional GLO Garantia da Lei e da Ordem
GM Guarda Municipal
GPS Global Positioning System
GRC Guia de Recolhimento de Cadáver IME Instituto Militar de Engenharia INB Indústrias Nucleares do Brasil ISP Instituto de Segurança Pública
ME Memorando de Entendimento
OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte PCERJ Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro PMERJ Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro POP Procedimento Operacional Padrão
PRF Polícia Rodoviária Federal
RISP Região Integrada de Segurança Pública
RP Radiopatrulha
SCI Sistema de Comando de Incidentes
SEAP Secretaria Estadual de Administração Penitenciária SEDEC Secretaria de Estado de Defesa Civil
SESEG Secretaria de Estado de Segurança
SESGE Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos SIRCE Sistema Integrado de Radiocomunicação Crítica Estadual SSCC Subsecretaria de Comando e Controle
SSEVP Subsecretaria de Educação, Valorização e Prevenção SSINTE Subsecretaria de Inteligência
SupCAd Superintendência de Coordenação e Administração SupCCrit Superintendência de Comunicações Críticas
SupGI Superintendência de Gestão Integrada
SupTIC Superintendência de Tecnologia da Informação e Comunicação SVO Serviço de Verificação de Óbito
1
INTRODUÇÃO ... 11
2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 16
2.1 FONTES LEGAIS E DOCUMENTAIS ... 16
2.1.1 Constituição da República Federativa do Brasil ... 16
2.1.2 Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa ... 17
2.1.3 Doutrina para o Sistema Militar de Comando e Controle ... 19
2.1.4 O Centro Integrado de Comando e Controle: uma análise histórica e descritiva. CONOPS e CONUSOS ... 23
2.1.4.1 Análise Histórica ... 23
2.1.4.2 Análise Descritiva ... 24
2.1.4.3 Decreto Nº 44.698/14 ... 25
2.1.4.4 Conceito Operacional do Sistema ... 26
2.1.4.5 Os Manuais de Conceito de Uso ... 27
2.2 FONTES BIBLIOGRÁFICAS ... 27
2.2.1 Megaeventos Esportivos e Modernização Tecnológica – planos e discursos sobre o legado em segurança pública ... 27
2.2.2 O Centro Integrado de Comando e Controle: ferramenta de coordenação, integração e planejamento na defesa social ... 29
2.2.3 Centro Integrado de Comando e Controle (CICC): ferramenta de integração para o estado rede ... 30
2.2.4 O Comando e Controle na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro – operações de pequeno, médio e grande porte Discussão e análise, cód. nº 016 ... 31 3 ENTREVISTAS ... 33 4 QUESTIONÁRIO ... 42 5 CONCLUSÃO ... 54 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 60 APÊNDICE - A ... 62
1 INTRODUÇÃO
A formação de Estados e, consequentemente, governos, em que o indivíduo abre mão de parte de sua liberdade e capacidade de exercer autotutela, só encontra sustentáculo quando este mesmo Estado, administrado por um governo, ao passar a deter o monopólio do uso legítimo da força, é capaz de realizar efetiva proteção aos indivíduos que habitam ou se locomovem por seu território. Referida proteção deve ser considerada com a maior amplitude possível: da preservação da integridade física, honra, fama e moral à reparação escorreita nos casos de lesão a esses bens jurídicos tutelados, donde se pode extrair que faz parte do conteúdo do termo “segurança jurídica” o próprio conceito de “segurança pública”, recorte do presente trabalho que se pretende desenvolver.
O Estado, portanto, por conta de sua missão, deve adotar todos os meios possíveis para preservar a liberdade dos seus nacionais e dos que visitam e se locomovem por seu território, permitindo-lhes uma vida em que impere a paz social e a harmonia entre os homens. Dentre as estratégias adotadas nos últimos anos para o atendimento da segurança pública está a formação de centros integrados, locais em que a doutrina de comando e controle é empregada pelas forças de segurança e de defesa social.
Assim, frente aos megaeventos internacionais que seriam sediados pelo Estado do Rio de Janeiro, a saber: Copa das Confederações da FIFA, 2013; Jornada Mundial da Juventude, 2013; Copa do Mundo de Futebol, 2014; Jogos Olímpicos e Paraolímpicos, 2016, aprouve a decisão política de se construir na região central da capital, como exemplo de modernização tecnológica e maior símbolo do que se restaria de legado, uma estrutura predial chamada Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), que teria a missão de reunir todas as forças de segurança pública e defesa social, numa verdadeira integração institucional, para que, juntas, pudessem dar a resposta adequada frente às demandas apresentadas.
Em seu curriculum na recepção de megaeventos internacionais, o Rio de Janeira já apresentava dois: a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, em 1992, e a XV edição dos Jogos Pan-Americanos, em 2007. Especialmente, neste último, houve a formação temporária
de um Centro de Comando e Controle (CCC), que foi instalado dentro do prédio do Banco do Brasil, localizado na Rua Senador Dantas, no centro do Rio, com um centro de backup no 3° andar do prédio da Secretaria de Segurança, na Central do Brasil, tendo sido a primeira experiência de união de esforços em prol da segurança pública e defesa social, de integração institucional, mas que tinha apenas a previsão de funcionar ao longo dos Jogos, sendo extinta - como foi - logo após.
Não se pode perder de vista que, para além de sediar megaeventos internacionais e, enquanto durarem, angariar dividendos, o planejamento estratégico de um país para essa finalidade deve levar em conta que eles retratam uma excelente janela de oportunidade para a promoção do desenvolvimento local e regional, possibilitando o surgimento permanente de novos empregos, empresas e fontes de recursos (CARDOSO, 2013).
Noutro aspecto, importa mencionar o alto custo na área da segurança pública que os países hospedeiros de grandes eventos vêm aportando ao longo dos anos, mormente após o marco histórico do atentado de 11 de setembro nos EUA. Conjugar o alto custo de eventos desse escol e a estratégia para manter “viva” e funcional as estruturas formatadas, para que haja, ao longo do tempo, ganho social e desenvolvimento, é medida que se impõe, embora seja de difícil aferição, mormente em relação a países com recursos financeiros mais escassos, como é o caso do Brasil. (CARDOSO, 2013).
Como exemplo máximo do legado de combate à violência urbana e à criminalidade local, tem-se o Centro1, e o questionamento que se pretende responder ao término deste trabalho: representa ele um bom e eficiente legado?! Para tanto, dentre outros aspectos, deve-se levar em conta que ele tinha uma previsão de custar 36 milhões de reais e foi entregue após o gasto de 104,5 ou seja, 290,28% a mais do que o valor inicialmente informado. (CARDOSO, 2013; BATITTUCI; SOARES, 2017).
Assim, em nome de conceitos como “atuação coletiva”, “circulação de informações” e “modernização tecnológica”, e no afã de aperfeiçoar o atendimento das ocorrências, aplicando-se conceitos de eficiência e eficácia, instituições/ agências2 policiais e de defesa civil passaram a laborar ombreadas diuturnamente
1
No decorrer do texto, as expressões Centro (com a letra inicial maiúscula), Centro Integrado de Comando e Controle e a abreviatura CICC serão utilizadas como sinônimas.
2
no atendimento das diversas questões que impactam a vida em sociedade, utilizando-se, para tanto, do CICC, estrutura da Secretaria de Estado de Segurança (SESEG), localizado na Rua Carmo Neto, s/nº, Centro, Rio de Janeiro, que em maio próximo completou cinco anos e que tem a dura tarefa de realizar - utilizando-se de conceitos de comando, controle e integração - segurança pública e defesa social no Estado do Rio de Janeiro, mormente na região metropolitana, área que engloba vinte e um municípios, com mais de doze milhões de habitantes e, infelizmente, altas taxas de criminalidade.
O estudo propõe uma análise histórica dos cinco primeiros anos de existência CICC, da decisão política que motivou o seu surgimento até os dias atuais, verificando se ele cumpre sua missão de ser o local de onde são emanados os atos de comando e controle das forças de segurança e de defesa social, bem como se o seu quadro técnico e administrativo e sua tecnologia atuam a favor da integração das instituições que por lá têm assento. Resumindo, o CICC, de fato, realiza integração?
Representa objetivo final deste estudo verificar se o CICC realiza a missão de integração, razão da sua criação, bem como propor ações que otimizem o seu uso, caso se constate necessário e oportuno.
Já os objetivos intermediários são elencados do seguinte modo:
a) Analisar se as agências que compõem o prédio melhoraram a execução das suas atribuições por conta de compartilharem do mesmo espaço físico;
b) Verificar se realmente há integração entre as instituições que têm assento no Centro, e em que medida;
c) Desvendar as “lições aprendidas” pelas agências e pela própria administração do local no trato entre si;
d) Averiguar qual a percepção dos chefes/coordenadores das instituições, bem como do Subsecretário de Comando e Controle e seu staff quanto à rotina do local e sua compatibilização no atingimento da missão de integração; e
e) Estabelecer se e em que medida o CICC proporcionou mais eficiência e eficácia na prestação da segurança pública e da defesa social no Estado do Rio de Janeiro.
Nesse estudo, não se pretende trazer a realidade interna da Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar nem de qualquer outra instituição componente do Centro. A cadeia de comando e controle destas instituições não
comporá a presente monografia e, se e quando citada, será apenas para fazer um contraponto ou demonstrar o suposto avanço que houve nesta matéria a partir da instalação do prédio.
Tampouco fará parte deste trabalho as demais estruturas da Secretaria de Estado de Segurança que, devido à sua vasta atribuição, possui outras subsecretarias, superintendências, setores. Por fim, nem mesmo a Subsecretaria de Comando e Controle (SSCC), estrutura pertencente à SESEG e dentro da qual está inserido o objeto deste estudo, será completamente perscrutada, uma vez que nela há outros setores, que até ocupam o mesmo espaço físico do Centro, mas que não estão diretamente vinculados à cadeia de comando e controle nem da integração entre as agências.
Os cortes referidos são necessários para que seja possível respeitar as regras da Escola Superior de Guerra (ESG) para a monografia, incluindo aí, principalmente, a quantidade de laudas, bem como para que não se confunda o CICC com a realidade de quaisquer das instituições que dão movimento a ele e que já possuem seus processos e protocolos próprios e distintos entre si.
O tema é sobremodo pertinente como contribuição para os estudos da ESG no campo da segurança e do desenvolvimento. Na atualidade, a segurança pública e a defesa social ocupam lugar de destaque na vida em sociedade. No Brasil, especialmente no estado do Rio de Janeiro, há uma grave crise neste setor. As pessoas, frente ao alto índice de violência urbana, encontram-se sobremaneiras descrentes das instituições e em constante sensação de insegurança. O Estado, quem tem o dever pela segurança, vê-se desafiado dia a dia a promover o resguardo das pessoas, físicas e jurídicas, e bens. Não é tarefa nada fácil. Uma das estratégias, pensada há alguns anos, especialmente por conta dos grandes eventos que o Rio de Janeiro havia sido escolhido para sediar, e que inaugurou em maio de 2013, repita-se, foi o Centro, estrutura da Secretaria de Estado de Segurança. (ESCOLA SUPERIOR..., 2018).
Considerando, portanto, que a segurança pública e a defesa social estão na ordem do dia da sociedade fluminense e que aprouve ao governo do Rio de Janeiro, há cinco anos, apostar numa estrutura de integração interagências como proposta para melhorar a prestação do serviço público na área, o presente estudo torna-se relevante para avaliar se realmente o que se esperava vem ocorrendo; se, de fato,
há integração e cadeia de comando e controle aptas à prestação escorreita do serviço público, apresentando, ao final, propostas, se for o caso.
Para a consecução do referido trabalho, foram realizadas uma revisão bibliográfica sobre o tema e visitas técnicas ao CICC, no escopo de colher dados capazes de contribuir com o objetivo deste trabalho, mormente no tocante a equipamentos tecnológicos e protocolos de atuação, oportunidade em que foram observadas, especialmente, as tarefas rotineiras existentes no Centro Integrado de Operações de Defesa Social (CIODS). De igual modo, a própria experiência que o subscritor possui em razão da sua atuação no Centro Integrado de Operações Coordenadas (CIOC) e no apoio às poucas vezes em que o Gabinete de Gestão de Crise (GGC) foi acionado auxiliou na escrituração deste trabalho.
Foi formulado também um questionário capaz de colher a opinião de colaboradores e operadores das mais variadas agências.
De igual sorte, pessoas-chave da administração do Centro e coordenadores de algumas agências foram convidadas a prestar entrevista mais minudente a respeito de suas atuações e opiniões quanto ao funcionamento do local.
Por fim, aproveitou-se do privilégio de acesso livre ao prédio, por conta da relação profissional que o autor possui com o Centro, em razão de ser o responsável pela coordenação do Centro de Comunicações e Operações Policiais (CECOPOL), setor que representa a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) no local, para estabelecer contato direto com documentos, pessoas e dados estatísticos. Tais informações foram capazes de, quando interpretadas, sustentar alguma conclusão em relação ao questionamento aventado.
Trata-se, portanto, de uma pesquisa bibliográfica com traços descritivos, com base em publicações que abordam o assunto de forma detalhada; bem como em pesquisa de campo exploratória, baseada em percepções de colaboradores no ambiente do Centro, obtidas através de observação direta, questionários e entrevistas.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 FONTES LEGAIS E DOCUMENTAIS
Para a revisão legal e documental do tema foram analisadas normativas, desde a Constituição da República, fundamento de todas as demais e “pedra de alicerce” da própria República Federativa do Brasil, que discorre de forma abrangente sobre a segurança pública e estabelece as instituições componentes do seu sistema, até as normas internas de uso do próprio CICC, passando pela Política Nacional de Defesa, Estratégia Nacional de Defesa, Doutrina para o Sistema Militar de Comando e Controle e Decreto estadual instituidor do próprio Centro.
2.1.1 Constituição da República Federativa do Brasil
A Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB), no Título sobre a Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, no Capítulo da Segurança, em seu artigo 144 prescreve que “[...] a segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio [...]” (BRASIL, 1998).
O constituinte, ao formular nossa atual CRFB, portanto, determinou que a responsabilidade pela segurança pública não é exclusividade do Estado, uma vez que todos os cidadãos devem contribuir de forma a resguardar a ordem pública e zelar pela sua própria segurança e a das demais pessoas. Entretanto, ao mesmo tempo, atribuiu ao Estado o poder/dever de quem detém o papel principal no assunto, uma vez que é ele quem deve buscar meios para a concreta efetivação da propalada segurança, donde o CICC pretende ser um exemplo. (MONEZI; HENRIQUES, 2016).
É que nessa matéria, há nitidamente por vontade do legislador constituinte uma repartição de competências entre a União e os Estados, com uma desproporção grande, entretanto, na direção dos Estados-membros, de tal sorte que
o princípio que rege é o de que o problema da segurança pública é de competência e responsabilidade de cada unidade da Federação, tendo em vista as peculiaridades regionais e o fortalecimento do princípio federativo. O acúmulo de atribuições dos Estados no campo da segurança pública adveio com a redemocratização e, portanto, é o modelo adotado pela Constituição em vigor, que, afora as atribuições taxativas elencadas para as polícias federal, rodoviária federal e ferroviária federal, aponta todo restante para as polícias estaduais: civil e militar, além do corpo de bombeiros e, após a emenda constitucional 19/98, alguma parcela para as guardas municipais. (MONEZI; HENRIQUES, 2016; GUERRA, 2018).
É, portanto, um modelo descentralizado e que parece não favorecer a interlocução entre os atores, razão pela qual ferramentas idealizadas, das quais um centro de integração é exemplo, são bem vindas para atenuar o isolacionismo das instituições integrantes do sistema de segurança pública e fomentar a atuação conjunta frente à criminalidade e à imposição da manutenção da ordem pública querida por todos os cidadãos de bem. (GUERRA, 2018).
2.1.2 Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa
A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa são importantes documentos de planejamento e execução das ações de defesa nacional capitaneada pelo Ministério da Defesa, baseados nos fundamentos, objetivos e princípios constitucionais, e, por isso, de interesse de todos os segmentos da sociedade brasileira, aí, incluindo, por evidente, as áreas de segurança pública e defesa social e seus atores.
A segurança pública e a defesa civil estão abarcadas dentro do amplo espectro das ações e políticas públicas que visam à preservação da segurança nacional. A segurança é a condição que Estado, sociedade e indivíduos possuem de não sofrerem riscos nem ameaças, mantendo a sua incolumidade, liberdade e exercício de direitos e deveres. (BRASIL, 2016 a,b.).
É que o ideal do Bem Comum precisa indispensavelmente que o sistema de segurança realize a sua missão com louvor para que ele possa ser perseguido e
cada vez mais perto alcançado, já que possui em seu conceito também uma parcela de utopia e indeterminação.
As razões que promovem insegurança à população devem ser combatidas, pois elas, além de representarem atos atentatórios à existência humana, eventualmente também podem representam ameaças à própria soberania nacional. É preciso que todas as expressões do Poder Nacional, portanto, atuem em defesa do alcance dos objetivos fundamentais da Nação e consequentemente do alcance do Bem Comum. (BRASIL, 2018).
Segurança, portanto, e em resumo, é a sensação de garantia contra ameaças de qualquer natureza; e, segurança pública, especificamente, é o sistema que persegue a ordem pública, a tranquilidade, a normalidade, a proteção integral do homem como ser único e social, em nível individual e comunitário. (BRASIL, 2018).
A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa devem ser coordenadas e estarem harmonizadas entre si, mormente nos aspectos das reais necessidades nacionais e dos meios disponíveis existentes. O descasamento entre a política e a estratégia é o que pode provocar o não atingimento da meta estabelecida, o não alcance do resultado pretendido.
É dada à política, seguindo a cartilha da justiça e da ética e observando as necessidades e limitações da estratégia, a missão de identificar e definir os objetivos da Nação, assegurando-lhe a manutenção e a evolução, ao procurar atender aos interesses e às aspirações nacionais. Já a estratégia, espelhando-se nos conceitos de eficácia e eficiência, representa o modo de como empregar o poder, e tem a missão de utilizar-se de todos os meios e recursos disponíveis, aplicando-lhes de forma a superar os obstáculos e atingir os objetivos estabelecidos pela política.
Com relação ao campo da segurança pública, a lição que se extrai ao analisar os documentos referentes à política e à estratégia de defesa nacional é que os objetivos e metas estabelecidos, bem como as ações pensadas e empregadas para o seu atingimento, devem, de igual modo, levar em conta, respectivamente, os conceitos de ética e justiça, eficiência e eficácia. É dizer que se faz necessário, na definição de políticas e estratégias públicas no campo da segurança, definir os objetivos e as ações de forma clara, adequados à realidade, que considere os meios existentes, e que verdadeiramente deseje perseguir, sem preconceitos nem discriminações, o alcance do nível de segurança pretendida, cujos efeitos positivos deverão alcançar a toda a coletividade, de forma indistinta e difusa.
2.1.3 Doutrina para o Sistema Militar de Comando e Controle
A Doutrina para o Sistema Militar de Comando e Controle, documento atualizado de tempos em tempos pelo Ministério da Defesa, aprovada pela Portaria Normativa nº 1.861/MD, de 25 de julho de 2014, estabelece a base doutrinária do sistema de comando e controle a ser observada pelas Forças Armadas quando em conjunto atuarem, seja no planejamento ou na execução, e, por que não, dada à sua excelência, no que couber, pelas demais instituições públicas brasileiras. Neste documento, é onde encontram-se as definições de conceitos básicos sobre o tema, sem contar no próprio esclarecimento do que seja a cadeia de comando e controle, tida como “[...] ciência e arte que trata do funcionamento de uma cadeia de comando e que envolve três componentes imprescindíveis e interdependentes: a autoridade, o processo decisório e a estrutura”
a) a autoridade, legitimamente investida, da qual emanam as decisões que materializam o exercício do comando e para qual fluem as informações necessárias ao exercício do controle;
b) o processo decisório, baseado no arcabouço doutrinário, que permite a formulação de ordens e estabelece o fluxo de informações necessário ao seu cumprimento; e
c) a estrutura, que inclui o pessoal, instalações, equipamentos e tecnologias necessários ao exercício da atividade de comando e controle. (BRASIL, 2014, p. 15).
A ideia de Comando e Controle surgiu, portanto, dentro de um ambiente militar, a partir da complexidade imposta pelas guerras e da necessidade de as Forças Armadas estabelecerem prioridades no teatro operacional, uma vez que os recursos são escassos, muitas vezes, aquém do que o ambiente de batalha impõe. Daí, baseado na consciência situacional angariada por meio de um sistema de comunicação e inteligência, procura-se a tomada de decisão em tempo hábil e alicerçado em dados concretos, como meta para alcançar o objetivo desejado com o emprego racional dos recursos tático e logístico. É que a evolução do estado da guerra forçou o homem a se relacionar com métodos, processos, tecnologias e inovações, em situações e cenários no espaço de batalha, em prol da realização de objetivos táticos, operacionais e estratégicos. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
O conjunto das instalações, equipamentos, sistemas de informação e comunicações, doutrinas, procedimentos e pessoal postos à disposição do decisor
compõe o Sistema de Comando e Controle. Neste cenário, é o comandante quem detém a responsabilidade pela tomada de decisão, devendo influenciar suas decisões levando em conta um conjunto de princípios e procedimentos alicerçados em meios e processos preestabelecidos, de modo a atenuar a possibilidade de erros e afastar o incômodo das falhas. Tal acerto nas decisões é fundamental para possibilitar a sinergia das forças sob a sua responsabilidade. O processo de tomada de decisão envolve a obtenção de dados, a conjugação de fatores intervenientes, a obtenção e a manutenção da consciência situacional até a decisão propriamente dita (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
Modernamente, o conceito de Comando e Controle extrapolou o campo militar e vem sendo utilizado cada vez mais em outras áreas do conhecimento humano, aí se destacando o campo da segurança pública. É que o uso de um modelo adequado e preestabelecido de tomada de decisão, permite a escolha de um caminho racional que conduza à concretização eficaz dos objetivos estabelecidos em uma organização, tenha ela fins públicos ou privados. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
Entretanto, urge ressaltar que o processo é contínuo e permanente, posto que tanto os recursos quanto às demandas e objetivos representam fatores modificáveis nesta equação. Assim, o modelo de Comando e Controle, baseado na consciência situacional e na tomada de decisão, impõe um acompanhamento em tempo real, razão pela qual as inovações tecnológicas no campo da tecnologia da informação são sempre bem vindas, eis que são capazes de permitir a constante atualização das informações e do status quo. Os recursos de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), que permitem a coleta, armazenamento, processamento e difusão de um grande número de informações compõem o Sistema de Tecnologia da Informação e Comunicação, imprescindível para o sucesso operacional e atingimento dos objetivos. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
Ter consciência situacional é perceber correta e adequadamente o ambiente operacional. Sua positividade aumenta proporcionalmente quanto maior for a percepção real do cenário posto. Tal exercício é permanente, posto que seus fatores mudam conforme o andamento do conflito, razão pela qual se faz premente que as informações sejam repassadas de forma adequada, para as pessoas corretas e no momento oportuno. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
No processo de planejamento e execução do Comando e Controle alguns princípios genéricos devem ser observados, restando evidente que, dependendo do caso concreto, alguns podem ser afastados em detrimento de outros, havendo neste exercício o uso da técnica da ponderação de princípios.
Dentre estes está a Unidade de Comando, consubstanciado no emprego conjunto de meios e na convergência de esforços para que haja eficácia no emprego das forças e recursos disponíveis. Referido princípio é muito utilizado no CIOC e no GGC, duas das três estruturas do CICC.
Segundo a Doutrina para o Sistema Militar de Comando e Controle,
A Unidade de Comando compreende as seguintes ideias básicas:
a) cadeia de comando bem definida, com clara divisão de responsabilidades;
b) sistema de comunicações seguro e confiável entre as forças em operação;
c) doutrina operacional bem compreendida, aceita e praticada pelos comandantes em todos os escalões;
d) programas de adestramento que visem à produção de padrões de eficiência, à obtenção de moral elevado e de espontânea unidade de esforços;
e) acompanhamento das ações planejadas, para identificação dos desvios ocorridos e aplicação das correções pertinentes; e
f) em um determinado escalão, as ordens devem emanar exclusivamente do seu comandante. (BRASIL, 2014, p. 17).
Outros princípios que, na medida do possível, devem ser respeitados são: simplicidade, segurança, flexibilidade, confiabilidade, continuidade, rapidez, amplitude e integração. Simplicidade impõe que o sistema de comando e controle deve primar pelo uso racional dos recursos, dispensando a complexidade, posto que esta só acaba por aumentar a possibilidade de haver erros e falhas no gerenciamento. Segurança dá conta de que, para atenuar os riscos de vazamento, as comunicações e informações devem respeitar criteriosamente os protocolos preestabelecidos, sendo, fundamental, também, o treinamento do pessoal habilitado para a operação e a revisão permanente das medidas de segurança. Já a flexibilidade impõe que o sistema de comando e controle não seja uma realidade estanque, rígida, inflexível, mas, ao contrário, respeite a regra da vida de que tudo passa e de que as coisas são impermanentes; assim, para se adequar às novas demandas, o sistema deve possuir capacidade de resiliência, de modificar suas funcionalidades, realizando a reconfiguração que restar necessária frente à modificação ambiental, abarcando, especialmente, as inovações tecnológicas eventualmente existentes. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO...,2014).
Confiabilidade indica que o sistema deve ter credibilidade pelos seus usuários. Continuidade, que deve operar ininterruptamente, prevendo, para tanto, planos de contingência e sistemas redundantes. Por rapidez, leia-se que um bom sistema de comando e controle deve operar com agilidade sem perder a confiabilidade. Por amplitude, que o sistema deve atender a todo o leque de setores e repartições envolvidos no conflito. E, por fim, o princípio da integração, que impõe que o sistema procure unir todas as forças que possuem o mesmo objetivo e que, para tanto, permita o compartilhamento de informações. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
O processo decisório caracteriza-se pelo conjunto de ações que o decisor deve realizar na tomada e execução das decisões. Requer conhecimento das informações, ou seja, consciência situacional, mas também intuição, experiência e criatividade, uma vez que os recursos são limitados para todas as demandas. Deve-se pensar com praticidade e agilidade, a fim de surpreender o oponente e dar-lhe o menor percentual possível de informações a respeito de si, lembrando que o sistema de comando e controle é cíclico e sua reavaliação, permanente. (BRASIL, 2014; CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
Tal intenção é provocar no oponente o que se convencionou chamar de paralisia psicológica, estratégia muito utilizada nas guerras do século XX e estudada por diversos doutrinadores, tais como John Boyd (com o conceito do ciclo OODA: observar, orientar-se, decidir e agir) e John Warden (com o modelo dos cinco anéis estratégicos: liderança, elementos orgânicos essenciais, infraestrutura, população e forças desdobradas). Entretanto, não basta que a tomada de decisão seja feita com agilidade para garantir-lhe efetividade, mas, também, que ela se baseie em informações percebidas e processadas corretamente, uma vez que uma falsa noção da realidade fará com que o decisor adote medidas que não impactarão positivamente o ambiente, retirando de sua atuação, apesar de veloz, a qualidade. (BRASIL, 2014).
2.1.4 O Centro Integrado de Comando e Controle: uma análise histórica e descritiva. CONOPS e CONUSOS
2.1.4.1 Análise Histórica
Em agosto de 2008, por meio do Decreto nº 41.417, a Secretaria de Segurança, em processo de reformulação, criou a Subsecretaria de Modernização Tecnológica, que restou responsável pela formulação de um moderno centro de comando e controle para o Estado. (BRASIL, 2008).
Após diagnosticar o cenário e desafios, foi marcada uma primeira grande reunião, ocorrida em 12 de maio de 2009, no Palácio Laranjeiras, demonstrando, por fazer o encontro na sede do poder político estadual, que a tarefa tinha todo apoio do governo de então. O objetivo desta reunião foi passar a todas as instituições de proteção e segurança ao cidadão o plano de realização do Centro e sua missão, convidando-as a fazerem parte do projeto, no escopo de que, aglutinando as forças, fosse possível aperfeiçoar as operações de serviço que, até então, salvo momentos específicos de integração, eram realizadas de forma isolada. (CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
As instituições que aceitaram o convite da reunião e, ao final, aderiram ao projeto foram a Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, SAMU, Guarda Municipal, Defesa Civil Municipal, Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) e Polícia Rodoviária Federal (PRF). A partir daí, uma sucessão de reuniões foi realizada entre as equipes operacionais e de TI das instituições com o staff da Subsecretaria de Modernização Tecnológica, para ajustes, refino de ideias e desenvolvimento de soluções integradoras. (CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
A proposta do Centro era proporcionar um local em que as instituições pudessem aglutinar as forças, buscando aperfeiçoar as operações de serviço.
Após muito esforço e dedicação, o Centro finalmente foi inaugurado, em maio de 2013, na esquina da Rua Carmo Neto com a Rua Benedito Hipólito, trazendo funções e setores específicos: Centro Integrado de Operações de Defesa
Social (CIODS), Centro Integrado de Operações Coordenadas (CIOC), e Gabinete de Gestão de Crise (GGC). (CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
2.1.4.2 Análise Descritiva
A proposta do Centro, portanto, é proporcionar um local em que as agências de segurança pública e de defesa social possam compartilhar, labutando ombreadas no dia a dia. A que receber a comunicação de uma demanda que precisará da participação de outras, deve informá-las, oportunidade em que a dedicação à referida demanda já começa de imediato, com despacho de recursos internos e/ou externos e sem precisar aguardar os colaboradores no terreno, reduzindo, com isso, o tempo de atendimento, o que indica proporcionar uma prestação de serviço com mais eficácia e eficiência. É a atuação em paralelo das agências e não mais em sequência, como outrora.
Essa dinâmica descrita é realizada numa das três subdivisões do CICC: o Centro Integrado de Operações de Defesa Social (CIODS), que realiza seu mister 24h por dia, todos os dias do ano, e que, por isso, é composto por instituições que possuem serviços de emergência ininterruptos. Arquitetonicamente, estão todas numa mesma ala do prédio, lado a lado.
Estão previstos na estrutura do CICC também o Centro Integrado de Operações Coordenadas (CIOC) e o Gabinete de Gestão de Crise (GGC). As duas estruturas são ativadas quando há uma demanda específica, sendo que o último só pode ser acionado por uma figura política. Operações integradas, réveillon, carnaval, eleições, rock in Rio e ENEM costumam motivar a ativação do CIOC, local em que se integram, ao longo do período operacional, agentes de ligação, que de lá emanam ações de comando e controle para seus colegas que estão no teatro da operação.
No caso do CIOC, há que se observar o fluxo de informações vertical e horizontal. O primeiro, realizado entre os integrantes de uma mesma força no cenário da operação e seu representante no nível tático-operacional; e o segundo, entre todos os elementos de ligação das forças que compõem o CIOC, a fim de, condensando as informações, possam estas ser disponibilizadas para todos os
componentes deste nível, proporcionando, com isso, consciência situacional, para o retorno do comando aos agentes na ponta.
2.1.4.3 Decreto Nº 44.698/14
O Decreto nº 44.698, de 02 de abril de 2014, é o instrumento normativo instituidor do Centro, sua certidão de nascimento. Uma das considerações pela qual foi ele editado foi a necessidade de integrar serviços de atendimento de emergências das agências no tocante às áreas de segurança pública, defesa social e de proteção e defesa civil. Enfim, a intenção do governo do Rio de Janeiro foi oferecer um espaço físico dotado de tecnologia e outros meios para promover largo espectro de promoção e proteção à convivência social, especialmente, em regiões de grande aglomerado humano, como é a região metropolitana. (BRASIL, 2014).
Prosseguindo, o citado diploma legal estabeleceu que o CICC fosse inserido na estrutura organizacional da SESEG e que corporificasse um local aglutinador das ações de defesa civil e social, tanto no atendimento às demandas de rotina da região metropolitana, quanto nas eventuais e necessárias ações de comando e controle relacionadas a situações anormais e excepcionais, tais como desastres e grandes eventos.
Fomentando ações multiagências e um relacionamento vocacionado ao apoio mútuo, a legislação citada, além de também estabelecer as competências, serviços e equipamentos do CICC, prevê a adoção da característica da interoperabilidade pelas agências envolvidas, no escopo de potencializar o uso dos recursos disponíveis, proporcionando, com isso, uma melhor formação da consciência situacional e, consequentemente, uma tomada de decisão mais adequada.
2.1.4.4 Conceito Operacional do Sistema
O Conceito Operacional do Sistema (CONOPS), documento interno inaugural do Centro, preceitua as razões pelas quais houve o incremento no Centro e dá as suas diretrizes. Esclarece que os conceitos de comando e controle ultrapassaram as fronteiras das Forças Armadas e passaram a fazer parte da estratégia de combate à criminalidade urbana. Apregoa o uso da ideia de consciência situacional a partir de ações de comunicação e inteligência, possibilitando a tomada de decisão racional em tempo hábil e com o uso dos recursos adequados, sem ocasionar resposta insuficiente tampouco o desperdício de meios. (CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
Para Paulo Roberto Aguar Portella (apud CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014, p. 13), comando e controle significa “o exercício de autoridade de um comandante, chefe ou diretor sobre organizações, frações ou elementos que lhe são subordinados ou que estejam sob seu comando operacional.”
No campo organizacional, tece detalhes sobre as estruturas do Centro; estabelece as definições de variados conceitos afetos ao prédio e à própria doutrina de comando e controle, tais como interoperabilidade, procedimento operacional padrão (POP), integração de sistemas, grandes eventos, desastres, crise, ambiente multiagência, dentre outros; especifica as estruturas de suporte disponíveis, tais como o vieowall, mesa digital e vídeo monitoramento embarcado, dentre outros; estabelece a política de segurança do sistema e da comunicação social; e prevê um programa de treinamento e capacitação. (CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
O objetivo do CONOPS, portanto, é propor um plano estratégico para o desenvolvimento do Sistema Integrado de Comando e Controle a ser utilizado nas ações integradas, a fim de apontar soluções e identificar o modelo de gestão integrada a ser empregado. (CONCEITO OPERACIONAL DO..., 2014).
2.1.4.5 Os Manuais de Conceito de Uso
Os Manuais de Conceito de Uso (CONUSOS) representam outros documentos internos do Centro e estabelecem as regras de uso do espaço físico e da tecnologia postos a serviço das agências, quando da ativação do CIODS, do CIOC e do GGC, e têm como objetivo definir o propósito e a forma de utilização de cada setor do CICC, bem como o papel desempenhado pelas agências componentes quando da ativação de cada uma das instalações acima mencionadas. Considerado como documentos fundamentais dentro da hierarquia dos documentos e da política de Comando e Controle, os Manuais procuram garantir que os conceitos de comando e controle realizados nas três estruturas operacionais do CICC estejam de acordo com o CONOPS e fomentem a atuação coletiva frente às demandas identificadas, garantindo a integração no trabalho a ser realizado.
Também pretende fornecer aos operadores das instituições o entendimento de como cada estrutura do CICC funciona e opera, permitindo compreensão das responsabilidades de cada ambiente, instituição componente e operador, bem como consciência na execução dos processos organizacionais e dos procedimentos operacionais.
2.2 FONTES BIBLIOGRÁFICAS
Como fonte bibliográfica, foram separados quatro trabalhos realizados na análise de outros centros integrados ou não, os quais estão referidos abaixo:
2.2.1 Megaeventos Esportivos e Modernização Tecnológica – planos e discursos sobre o legado em segurança pública.
Em Megaeventos esportivos e modernização tecnológica – planos e discursos sobre o legado em segurança pública, Bruno de Vasconcelos Cardoso
traça um histórico dos preparativos da segurança no Rio para a recepção dos Grandes Eventos internacionais, aí inserido, como peça principal, a construção do Centro, que ficaria como principal legado a ser deixado pelos megaeventos, um espaço de cultura de integração entre agências.
Adstrito ao tema, o autor ressalta a necessidade de diferenciar três tipos de riscos capazes de influenciar um megaevento: a) a violência política e o terrorismo; b) a violência entre/e de espectadores; e, c) a violência urbana e a criminalidade local. No caso brasileiro, o CICC seria um legado deste último tipo de combate à violência, pois dele se pretendia gerenciar a segurança pública de modo geral durante os megaeventos. (CARDOSO, 2013).
Tendo estudado diversos documentos relacionados aos megaeventos, especialmente o Planejamento Estratégico de Segurança para a Copa do Mundo FIFA Brasil 2014 (PESCM14), o autor afirma que eles dão patente importância à integração institucional como horizonte de operacionalidade e principal legado para a área da segurança pública, tanto que o referido documento chega a mencionar a palavra integração por trinta e uma (31) vezes. O desperdício de recurso público e o impedimento na redução da criminalidade, para os doutrinadores destes documentos, são consequências da falta de integração institucional. “O compartilhamento interinstitucional das informações e a coordenação da atuação e integração das diferentes instituições é o novo paradigma almejado.” (CARDOSO, 2013, p. 5).
A centralidade do discurso da integração pretende, portanto, promover a cooperação entre as instituições e a realização de ações menos fragmentadas, procurando deixar de lado a rivalidade que por vezes (mal) alimenta as instituições públicas. Para tanto, ressalta que pari passu da estrutura hierarquizada e verticalizada das instituições, estas, enquanto ocupantes de assentos no CICC, devem ser capazes de também promover relações horizontais ou em redes, para o bem de um sistema integrado de segurança. (CARDOSO, 2013).
Por fim, Cardoso (2013) remete ao futuro um estudo capaz de avaliar se o funcionamento do CICC, com seu processo de modernização tecnológica e de criação arquitetural, foi capaz de realmente proporcionar mudança na cultura isolacionista das instituições, representando, desta forma, uma verdadeira transformação nos paradigmas da segurança pública no Rio de Janeiro.
2.2.2 O Centro Integrado de Comando e Controle: ferramenta de coordenação, integração e planejamento na defesa social.
Em O Centro Integrado de Comando e Controle: ferramenta de coordenação, integração e planejamento na defesa social, os autores Philipp Augusto Krammer Soares e Eduardo Cerqueira Batitucci, observando o Centro do estado de Minas Gerais, discorrem sobre a origem e a razão do surgimento de centros integrados nas políticas públicas brasileiras e afirmam que eles representam uma ferramenta recente de facilitação e incremento do serviço da segurança pública frente às demandas cada vez mais complexas que surgem no seio da sociedade brasileira. (BATITUCCI; SOARES, 2017).
Ressaltam que a tecnologia foi um dos principais alicerces disponibilizados para prover os centros de comando e controle integrados da capacidade de fornecer as informações necessárias aos tomadores de decisão, para que adotem ações capazes de atender às demandas atinentes à segurança pública e defesa social. (BATITUCCI; SOARES,2017).
Apresentando uma análise em que considerou quatro variáveis: atores envolvidos, ações integradas, capacidade de coordenação e aspectos de comando e controle, dentre outras conclusões, os autores ressaltaram que houve baixo grau de amadurecimento em relação à continuidade da sua operação, ou seja, a adequação do Centro (lembrando que é o de MG) a situações do cotidiano da segurança pública e defesa social. (BATITUCCI; SOARES,2017).
Com isso, os autores afirmam que o Centro não se legitimou (ainda) como uma política pública de segurança, especialmente no cotidiano, sendo usado, apenas e eventualmente, para a integração entre instituições quando da consecução de determinadas ações específicas. (BATITUCCI; SOARES,2017).
2.2.3 Centro Integrado de Comando e Controle (CICC): ferramenta de integração para o estado rede.
André de Oliveira Coli (2011), em Centro Integrado de Comando e Controle (CICC): ferramenta de integração para o estado rede, debruçou-se sobre a viabilidade da implantação dos referidos centros, no escopo de verificar a sua potencial capacidade integradora em relação aos órgãos dedicados à defesa social tendo em conta a realização da Copa do Mundo.
Para tanto, discorreu sobre o modelo de segurança pública brasileiro, sua vocação histórica fragmentária, sob a ótica da divisão de serviços e da multiplicidade de banco de dados e de instituições atuantes, e sua contradição com o propalado Estado Rede. (COLI, 2011).
Pontuou que, infelizmente, a legislação ainda favorece a atuação isolada de variadas instituições frente às demandas sociais relacionadas à defesa social e à segurança pública, razão pela qual, ao longo dos anos, houve o surgimento de ferramentas criativas no escopo de possibilitar uma atuação mais aproximada dos órgãos, funcional e operacionalmente, sendo os centros integrados um belo exemplo, podendo neles ser desenvolvidos métodos de trabalho mais adequados, utilizando-se, inclusive, da maior consciência situacional alcançada frente ao crescente uso de recursos tecnológicos, característica marcante destes locais. (COLI, 2011).
Contextualizou quanto ao primeiro modelo de Centro de Comando e Controle, dando conta de ter surgido na segunda grande guerra mundial, sendo, portanto, de origem militar. (COLI, 2011).
Explicou que segundo o Ministério da Justiça os CICC(s) são uma estrutura que permite a integração dos serviços de vários órgãos e aonde se realizam ações conjuntas, cooperativas e com caráter gerencial horizontalizado. Também que para que haja integração dos serviços das instituições, estas devem atuar cooperativamente, levando em conta o conceito de liderança situacional, a ser definida a partir da demanda a ser enfrentada e da atribuição legal e técnica de cada agência, e com base em protocolos existentes. (COLI, 2011).
Na conclusão, ressaltando o momento desafiador para o sistema da segurança pública e da defesa social integrarem e compartilharem esforços,
objetivos, meios e recursos, defendeu a aplicabilidade dos centros integrados como ferramentas capazes de harmonizar os órgãos pertencentes aos sistemas acima mencionados, em um ambiente cooperativo, com tomadas de decisões consensuais baseadas no conceito de liderança situacional, defendendo que isso capacita o Estado a uma maior capacidade de resposta às demandas, proporcionando racionalização de esforços e qualidade na prestação dos serviços públicos. (COLI, 2011).
2.2.4 O Comando e Controle na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro – operações de pequeno, médio e grande porte. Discussão e análise, cód. nº 016.
E, finalmente, para Fábio Souza, oficial da PMERJ, “esguiano”, no trabalho que apresentou ao final do CAEPE de 2017, para quem as ações operacionais realizadas ou não em conjunto merecem protocolos específicos e condutas humanas vocacionadas à integração e à cooperação interagências. Só assim o combate à criminalidade e violência urbana tem condição de prosperar. (SOUZA, 2017).
Em sua pesquisa, Souza (2017) constatou que as ações de comando e controle no âmbito da segurança ocorrem de forma empírica, situação que provoca maior risco e possibilidade de danos colaterais, além da ausência de uma memória operacional. Ressaltou a premente necessidade de se estabelecer uma cadeia de comando e controle capaz de possibilitar o fluxo de informações e, assim, uma visão ampla do campo operacional, facilitando sobremaneira as ações que serão levadas a efeito pelo escalão superior.
Nas entrevistas dirigidas, o distinto colega obteve relatos de oficiais da PMERJ dando conta de que os planejamentos (e, por conseguinte, a cadeia de comando e controle) são em grande maioria personificados, sem um manual ou norma, ou seja, variam de acordo com o militar que está à frente; situação indesejável, pois ausente uma padronização de procedimentos. (SOUZA, 2017).
Em suas proposições (adstritas à PMERJ), o autor ressalta a necessidade de realizar a formação do policial com noções de comando e controle e promover continuamente aperfeiçoamento, capacitação e treinamento do pessoal, levando
sempre em conta a necessidade de manter a dimensão cognitiva (aspecto humano) do circuito consciente do estado da arte e atualizado quanto às inovações tecnológicas postas a cada tempo à disposição do sistema de comando e controle. (SOUZA, 2017).
3 ENTREVISTAS
Dentre outros instrumentos, o trabalho de pesquisa no CICC foi realizado por meio de entrevistas. Foram colhidas doze, que totalizaram mais de trinta e quatro horas de material. As entrevistas foram aplicadas diretamente pelo pesquisador, mediante agendamento com o entrevistado em seu local de trabalho ou residência, delimitando o universo pesquisado na análise qualitativa de opiniões de especialistas da área da segurança pública e da defesa civil, subdividido em dois grandes grupos: coordenadores das agências que atualmente estão no CICC; e pessoas-chave da Subsecretaria de Comando e Controle que estão à frente da administração do prédio e da missão de fazê-lo um local dedicado à integração e ao comando e controle.
As entrevistas formuladas na pesquisa foram relacionadas à estrutura e ao funcionamento do CICC e considerou a opinião das autoridades entrevistadas, tendo como parâmetro o notório conhecimento deles, bem como as expectativas que cada qual possui frente ao objeto de estudo.
Importa esclarecer que a consignação das entrevistas ocorreu na forma de resumo, privilegiando as partes mais importantes ao estudo do tema, com escolha livre pelo pesquisador dos vernáculos utilizados e, no intuito de promover privacidade, ainda que relativa, com a manutenção do anonimato em relação à identificação dos ocupantes dos cargos, que, no resumo, vêm indicados apenas pelas iniciais dos seus nomes e sobrenomes.
De igual modo, insta ressaltar que apenas duas entrevistas compõem o “corpo” deste trabalho, ficando as outras dez, em decorrência da regra que delimita o número de páginas, incluídas no apêndice A (p. 60).
A seguir, o resumo de duas entrevistas.
R.A., atual subsecretário de comando e controle da SESEG e delegado da Polícia Federal de carreira, esclareceu que possui larga experiência na doutrina de comando e controle, tendo ocupado funções de destaque na sua instituição de origem nos últimos quatro grandes eventos, da Copa das Confederações aos Jogos Olímpicos, passando pela Jornada Mundial da Juventude e Copa do
Mundo. Contou que o convite para a SESEG veio do ex-secretário Roberto Sá, quando, então, passou a ocupar o posto em dezembro de 2016.
Para ele, o processo de integração é evolutivo e ainda está em construção. Disse que o CICC foi arquitetado para ser um grande local de integração, mas que certamente ela há de se desenvolver com o tempo e não apenas com a disponibilização de uma estrutura física. Considera que as questões de comando e controle representam um problema das instituições, já que elas não possuem cultura no assunto, seus servidores desconhecem a doutrina, e não há a devida e importante difusão do tema internamente. Por isso, considera que muitos servidores acabam indo para o CICC representar suas instituições sem qualquer conhecimento sobre o assunto e sem perfil para trabalhar integrado.
Pontuou que as duas principais instituições afetas à SESEG são bicentenárias, mas só passaram a realizar integração há pouco tempo. Assim, há ainda muita “frouxidão” nos conceitos, bem como erros de interpretação, especialmente quando pensam que a SESEG é sempre a agência apoiada, quando, na verdade, quase sempre é apenas um meio para que as agências realizem as suas ações. Aposta que a construção demanda tempo, treinamento e capacitação dos servidores, até que todos os conhecimentos afetos ao tema sejam absorvidos e aplicados. Como um ponto de avanço, neste sentido, citou a inclusão da cadeira de comando e controle no Curso Superior de Polícia Integrado (CSPI) feita a pedido da SSCC.
Explicou que a SSCC é dividida em quatro superintendências, sendo que a Superintendência de Comunicações Críticas (SupCCrit) não fica no próprio CICC. No prédio, há as Superintendências de Coordenação e Administração (SupCAd), Gestão Integrada (SupGI) e Tecnologia da Informação e Comunicação (SupTIC), sendo que a última transcende o prédio e a própria subsecretaria, atendendo a toda estrutura da SESEG, além da Corregedoria Geral Unificada (CGU), Ouvidoria de Polícia, Instituto de Segurança Pública (ISP) e Regiões Integradas de Segurança Pública (RISP).
Ressaltou o moderno conceito de cidade inteligente e a possibilidade dos variados sensores municipais chegarem ao Centro para auxiliar na segurança pública. Como exemplo, citou a atual construção de entendimento para disponibilizar ao CICC tanto o sistema de OCR da Prefeitura (reconhecimento
óptico de caracteres) quanto o banco de dados de veículos subtraídos da PCERJ, para que, por meio de um programa já desenvolvido, o Centro possa alimentar a ponta com informação capaz de possibilitar uma ação policial segura e racional, no intuito de efetuar a recuperação dos veículos. Esclareceu que, a despeito do contingenciamento no Estado, este projeto está avançado, e que a ideia é devolver aos batalhões da Polícia Militar (BPM), delegacias policiais (DP) e Guarda Municipal (GM) o resultado da interação feita entre os bancos de dados da PCERJ e os dados ópticos da Prefeitura.
Explicou que em razão da escassez de recursos e da importância de apresentar um serviço público de qualidade, a ideia é de sempre aproveitar as parcerias, com entes públicos ou da iniciativa privada, para a aquisição de dados ou imagens de interesse para a segurança pública. Contou que a administração do CICC assessora municípios que o procuram, dando conta de que pretendem desenvolver um projeto de colocação de câmeras de videomonitoramento, exatamente pelo fato de o Centro já ser considerado como uma referência de qualidade, bem como porque importa a esses municípios que as câmeras sejam colocadas em adequação à qualidade e processos desenvolvidos pela SESEG, para que possam ser usadas, não só nas questões afetas à mobilidade urbana, mas, também, na prevenção e repressão criminal.
Disse que a rede rádio digital da SupCCrit cresceu tanto em qualidade que é um belo exemplo de integração, ultrapassando as barreiras do CICC. Atualmente, cerca de vinte municípios a utilizam, além da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), Defesa Civil Estadual e Fuzileiros Navais, tendo atualmente demonstrado interesse também a Força Aérea; e que isso, apesar de não aparecer, reverte-se em boa prestação de serviço à população, pois mantém a capacidade de realização de comunicações críticas nas instituições e em (algumas) empresas prestadoras de serviço público (CEG, por exemplo).
Quanto às agências que compõem o Centro, adiantou que as tratativas estão avançadas para a ida da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SEAP), em face da importância de aproximar a administração das tornozeleiras eletrônicas às instituições de segurança pública. E informou que qualquer outra instituição, seja pública ou privada, cuja missão impactar a