Precarização do trabalho e do espaço na cidade de Vitória da Conquista/BA
Victor Andrade Silva Leal Universidade Estadual do Sudeste da Bahia [email protected] Marcos Silva Marinho Universidade Estadual do Sudeste da Bahia [email protected] Orientadora: Drª. Suzane Tosta Souza Universidade Estadual do Sudeste da Bahia [email protected]
Este artigo é oriundo do projeto de pesquisa “Luta pelo trabalho na periferia de Vitória da Conquista/BA”, e tem como objetivo analisar a realidade dos trabalhadores da periferia da cidade e abordar os aspectos da intensa mobilidade e precarização do trabalho nela havidos, condicionados pela lógica do capital a se reproduzirem de forma massiva e desigual. Para isso, pretendeu-se tecer alguns comentários sobre a categoria trabalho, e realizar um breve aporte histórico sobre a formação da classe trabalhadora de Vitória da Conquista. Em seguida, relacionou-se o produto dessas discussões com a pesquisa de campo realizada com os trabalhadores de Vitória da Conquista/BA, de modo a considerar as formas de reprodução social da classe trabalhadora frente aos obstáculos impostos pela sociedade capitalista. Com isso, objetivou-se compreender a construção do espaço geográfico conquistense e da sociedade constituidora da sua totalidade. Para tanto, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, por meio das quais buscou-se compreender na realidade o conceito marxista de trabalho. Tal intento mostrou-se relevante, sobretudo quando nela foram percebidas, na pesquisa de campo, outras categorias fundamentais como: a mobilidade e a precarização do trabalho, bem como a produção do espaço geográfico. A classe trabalhadora dessa cidade vivencia em seu cotidiano a subordinação característica da sociedade capitalista. A negação de direitos, a alienação do trabalho, a informalidade enquanto reconfiguração das formas de reprodução social, a precarização das condições de vida e moradia e a produção desigual do espaço urbano foram verificadas na realidade vivenciada pela classe trabalhadora de Vitória da Conquista.
Palavras-chave: Trabalho, Mobilidade do trabalho. Precarização do trabalho. Produção do espaço.
Introdução
As discussões apresentadas nesse artigo compõem os debates realizados pelo Grupo de Estudos Agrários e Urbanos (DG/UESB) e a pesquisa Luta pelo trabalho na periferia urbana de Vitória da Conquista: mobilidade, permanência
camponesa e reprodução da vida nas contradições do urbano, que buscam compreender as diferentes formas de luta pelo trabalho implementadas pela classe trabalhadora que produzem os espaços da riqueza e da acumulação e residem nos espaços periféricos da cidade. Portanto, o conceito de periferia urbana é tomado, sobretudo, como lócus de reprodução da classe trabalhadora, produto e condição do processo de expansão e acumulação do capital.
Nesse artigo, mais especificamente, enfocamos os conceitos de mobilidade do trabalho e precarização do trabalho como fundamentais para se compreender as complexidades do mundo do trabalho em tempos de crise estrutural do capital. Compreende-se que a mobilidade do trabalho ao mesmo tempo em que se apresenta como condição de reprodução da classe trabalhadora, representa, por outro lado, o momento em que o capital estabelece as diversas formas de uso dessa força de trabalho. Nesse processo, o conceito de precarização do trabalho ganha validade, na medida em que expressa toda a capacidade de extrair o trabalho excedente, por meio da total desefetivação do sujeito social que trabalha.
Na relação teoria e prática, tais conceitos adquirem validade na realidade concreta verificada por meio do contato direto com sujeitos trabalhadores de Vitória da Conquista/BA. Por outro lado, essa realidade é considerada parte de uma totalidade social que expressa às contradições da relação capital versus trabalho, sendo o espaço urbano entendido como produto e condição dessa relação contraditória.
Apontamentos sobre o trabalho
Os homens, dentre todos os animais, são os únicos que produzem uma objetividade complexa através da matéria natural. Através de um processo metabólico que une a sociedade e a natureza, esses sujeitos são capazes de transformá-la em coisas úteis, coisas que atendam necessidades naturais e sociais, mas que também possibilitem a realização de outras atividades. São necessidades gerando novas possibilidades. A atividade que permite toda essa transformação é chamada de trabalho.
natureza na base material indispensável ao mundo dos homens. Ele possibilita que, ao transformarem a natureza, os homens também se transformem. E essa articulada transformação da natureza e dos indivíduos permite a constante construção de novas situações históricas, de novas relações sociais, de novos conhecimentos e habilidades, num processo de acumulação constante (LESSA; TONET, 2008, p. 26).
Logo, é apenas através do trabalho que o homem primitivo, não enquanto indivíduo isolado, mas sim como um sujeito dentro de um grupo, produz a sociedade na qual ele está inserido, ao mesmo tempo em que modifica a si mesmo, enquanto produto da objetividade que ele próprio constrói. Seria o trabalho, então, “uma condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana” (MARX, 1983, p. 50). Sem essa transformação da matéria natural em valores de uso, em coisas úteis, o homem ainda estaria preso a uma busca eterna para a realização das condições de vida.
É através do trabalho social que o homem consegue sair do status de homem primitivo (o qual gastava boa parte do seu tempo de vida lutando pela sobrevivência, caçando, fugindo de predadores, procurando abrigos) para o status de homem social. Esta nova condição do homem lhe permitiu aumentar a sua produtividade dos meios de subsistência, possibilitando um tempo para ócio, onde começou a realizar outras atividades sociais, haja vista que nem todos os indivíduos estariam ligados diretamente a atividades produtivas (LEAL; SOUZA. 2012, p. 981).
É dessa forma que o homem, conscientemente, produz sua realidade, através da produção de valores de uso pelo trabalho social. Porém, é apenas através do valor de troca que as mercadorias podem se equiparar enquanto iguais, enquanto coisas que podem ser mensuradas. Os valores de troca das mercadorias, logo, são representações de equivalência entre mercadorias. Dito isso, questiona-se: o que é comum a todos as mercadorias, de forma que essas possam ser equiparadas e trocadas? Não pode ser algo que está no corpo da mercadoria, intrínseco a esta, já que elas são feitas de materiais diferentes, e os valores de uso não podem ser mensurados, sendo apenas aspectos qualitativos da mercadoria. A única qualidade em comum que sobra entre elas, como demonstra Marx (1983) é que são produtos do trabalho humano. Essa comparação entre as mercadorias ocorre “por meio do quantum nele contido da „substância constituidora de valor‟, o trabalho” (p. 47).
Nesse sentido, se as mercadorias, produtos do trabalho humano, necessárias para a reprodução social, são trocadas levando em consideração primordialmente o valor de troca, este “se sobrepõe ao valor de uso” (MENEZES, 2007, p. 107). Não importa o quão supérfluo seja o uso que um objeto tenha, se este for capaz de atender uma necessidade imediata e indispensável, ou apenas uma necessidade produzida historicamente. Porém, não podemos perder de vista que “não existe valor de troca sem valor de uso. Não se vende nada que não tenha uma utilidade, por mais supérflua que seja” (LEAL; SOUZA. 2012, p. 983).
O valor de troca, por sua vez, é uma representação do valor contido na mercadoria, é também o meio pelo qual podemos perceber o valor enquanto tempo de trabalho médio para produzir algo. Temos um tripé conceitual para compreender a mercadoria e o trabalho que a constitui. O valor de uso, o valor de troca, e o valor. Resumidamente, o trabalho, no capitalismo, produz valor de uso, como em todas as outras formações sociais, mas também produz valor, na medida em que, para trocar os produtos privados do trabalho se considera apenas a qualidade de ser trabalho humano nas mercadorias. Desconsidera-se o trabalho útil do padeiro, ferreiro, pedreiro ou qualquer outro, e seus diferentes produtos são trocados levando em consideração apenas o tempo médio que se gasta naquela produção. O trabalho, por sua vez, se torna abstrato. Com isso, o valor produzido pelo trabalho é representado através do valor de troca da mercadoria, o equivalente em outra mercadoria qualquer (apesar de comumente se utilizar o dinheiro como mercadoria de troca universal) 1.
Por conta de todo um processo histórico que não cabe aqui relatar2, os sujeitos possuidores são separados dos sujeitos produtores, e essas duas classes são postas enquanto antagônicas no processo de produção capitalista. De um lado, aqueles que detêm os meios de produção, as máquinas, as terras, etc. Do outro lado, aqueles que apenas possuem sua força de trabalho para vender. Juridicamente são postos como iguais, mas a relação social de produção é, em sua essência, desigual. Por conta disso, a classe trabalhadora tem que se sujeitar a qualquer situação para vender a força de trabalho no mercado capitalista. É o que acontece hoje com os trabalhadores de Vitória da Conquista/BA, caso a ser analisado nessa
1
Para mais detalhes, ver Marx (1983), mais especificamente o capítulo I.
2 Para mais detalhes, ver Marx (1984), mais especificamente o capítulo XXIV, e Romero (2005).
pesquisa.
A mobilidade do trabalho em Vitória da Conquista/BA
As relações capitalistas de produção no Centro-Sul da Bahia se fortalecem, principalmente, a partir da década de 1970, quando o Estado passa a incentivar o desenvolvimento do cultivo do café, com o propósito de “integrar” esta parte da Bahia a dinâmica da região produtora de café do Planalto Brasileiro (SANTOS, 1987). As terras passam a ser valorizadas e tituladas, gerando diversos conflitos entre proprietários e posseiros da região. Os processos de expropriação camponesa e expulsão de trabalhadores rurais do campo são evidentes e a mobilidade desses sujeitos para as cidades da região, em destaque Vitória da Conquista, se acentua nas décadas posteriores. Expropriados, parte dos camponeses tornam-se trabalhadores assalariados tanto no campo quanto nas cidades. Uma das expressões desse processo ocorre em meados da década de 1980, quando dada a precariedade das condições de trabalho, os trabalhadores do café entram em greve.
Produto do avanço do capitalismo no campo, a greve dos catadores de café, constitui-se em um importante capítulo da organização dos trabalhadores rurais assalariados, frente ao “modelo de desenvolvimento” implementado pelo Estado. Este modelo alterou profundamente as relações de trabalho existentes até então, repercutindo diretamente nas relações camponesas, não assalariadas, e também na degradação das condições do trabalho assalariado, mediante a perda de direitos trabalhistas, a maior exploração do trabalho, e a introdução de maquinários poupadores de mão-de-obra, rebatendo no rebaixamento dos salários e no aumento do desemprego (SOUZA, 2008).
Frente a essa realidade, e devido à crescente expulsão do homem do campo, via expansão de tecnologias, além da falta de oportunidades de emprego nas cidades, pode-se observar dois principais processos na região: primeiro a intensa mobilidade do trabalho, em que os trabalhadores saem em busca de submeter sua força de trabalho em outros lugares e regiões do país, ou a consolidação de novas frentes de luta pela terra que adquire maior proporção na década de 1990, quando diversas ocupações de terras ocorrem na região.
No geral, estes trabalhadores vivem nas periferias das cidades ou no campo, e como estão na condição de trabalhadores, não possuem os meios de produção,
tendo como única alternativa de vida engrossar as fileiras dos trabalhadores desempregados, que lutam pelo acesso ao trabalho e estão, cada vez mais, sujeitos a se entregarem a péssimas condições de emprego para garantir a mínima reprodução social sua e de sua família. No processo constante de mobilidade do trabalho muitos “se perdem”, ou os laços com a família vão se distanciando, em alguns casos caracterizando uma verdadeira desagregação familiar.
Em pesquisas de nos anos de 2012 e 2013, foram feitas entrevistas com diversos trabalhadores das periferias de Vitória da Conquista, e nelas se constatou também que muitos perderam seu vínculo com o campo, inclusive o desejo de voltar para a terra. Mesmo tendo péssimas condições de trabalho e de vida nas periferias, os trabalhadores advindos do campo, que tiravam seu sustento da terra, e que se estabeleceram na cidade, não evocam o desejo de voltar a realizar essa atividade.
A grande maioria dos trabalhadores entrevistados no centro da cidade mora na periferia urbana3, e raramente tem alguma perspectiva de sair de lá, sendo que, na maioria dos casos, eles desejam migrar para outros bairros também periféricos, mas que ofereçam melhor estrutura, como o Bairro Brasil. Porém, ao se perguntar sua perspectiva de vida, ou algum sonho, a maior parte deles demonstram um desejo de “melhorar a situação”, ter uma casa própria, ganhar mais dinheiro, ou até mesmo garantir uma “boa” educação para os filhos. Mas, esses mesmos trabalhadores, tendo consciência da situação da sua classe em geral, pouco tem uma perspectiva de mudança objetiva em mente, as vezes até desacreditam em uma melhora social possível.
A intensa mobilidade dos trabalhadores é registrada nas entrevistas realizadas em Vitória da Conquista. A maioria deles contam ter passado por diversos tipos empregos, e até realizado diversas funções na medida em que estavam no mesmo emprego. Podemos perceber claramente este fato na fala de um trabalhador terceirizado de uma instituição pública, na qual diz que já trabalhou “na Nordeste Segurança, na tesouraria. Fotolândia como faz tudo, tirava foto, diagramava imagens, mexia com contabilidade, um monte de coisa. Na lan house. Numa loja de Xerox, e mais uns lugares”. Encontram-se diversos sujeitos que migram para cidade
3 Vale frisar que os conceitos de centro e de periferia utilizados nesse trabalho não fazem nenhuma menção à periferia geométrica da cidade de Vitória da Conquista. Quando falarmos sobre essa relação de segregação urbana, nos remeteremos à periferia social como o espaço urbano que fica às margens da produção da estrutura urbana, e ao centro social, onde se aglutina essas estruturas, serviços e outros “privilégios”.
no intuito de buscarem “melhores condições de trabalho”. Estes vêm, em sua maioria, das cidades circunvizinhas e do campo, expulsos da terra pelo processo de mecanização da atividade agrícola industrial, como relatado antes.
Dos trabalhadores entrevistados, muitos possuem condições específicas de trabalho, mas um fato liga, fundamentalmente, toda a reprodução social realizada por eles, a necessidade da manutenção do sistema capitalista de produção. Seja direta ou indiretamente, os trabalhadores estão a mercê da produção do capital, mesmo que seja em relações não capitalistas, como os trabalhos não assalariados e os desempregados. Todos esses sujeitos devem-se curvar a essa lógica da produção da sociedade, na qual toda a riqueza é produzida por uma classe e apropriada privadamente por outra, antagônica à primeira. Nas pesquisas de campo, foi percebido que, mesmo não possuindo um patrão para exigir mais esforço em sua atividade, são os próprios trabalhadores e trabalhadoras que estão condicionados a explorarem sua própria força de trabalho, na perspectiva de garantir “melhores condições de vida” que, contraditoriamente, reproduzem o sistema que o explora.
Essa característica do trabalho encontrada na pesquisa expressa as formas de intervenção do capital sobre o trabalho e a degradação destas condições, apresentadas àqueles que precisam vender sua força de trabalho como condição única de sobrevivência. Demonstra os imperativos da crise estrutural do sistema do capital e o não acesso ou o acesso precário ao mundo do trabalho. A “baixa qualificação” acaba por intensificar a exploração da força de trabalho e, ao mesmo tempo, a extração de mais-valia para os detentores dos meios de produção (capitalistas e latifundiários). Assim, a mobilidade do trabalho apresenta-se como condição fundamental de reprodução de parte da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que, dada existência de um exército cada vez maior disponível para o trabalho assalariado, permite, contraditoriamente, a maior extração da mais-valia, interessando diretamente as classes proprietárias.
Precarização do trabalho e do espaço na cidade de Vitória da Conquista/BA
Na cidade de Vitória da Conquista é possível perceber a determinação econômica do espaço urbano como consequência de hierarquizações historicamente produzidas por meio dos antagonismos de classe, já mencionados neste trabalho. A concentração dos serviços públicos nos centros econômicos e nos bairros
não-periféricos aduzem à compreensão de que o desenvolvimento urbano não privilegia interesses coletivos.
Os espaços se distinguem na exata medida do trabalho neles produzido. A produção da cidade decorre da interação dos citadinos com o espaço onde habitam. Entretanto, tal interação é contraditória. Ela orienta a existência de diferentes estágios de desenvolvimento econômico e social porque está consubstanciada no trânsito de mercadorias, dentre as quais se situa a força de trabalho. Esse fenômeno provoca a concentração de diferentes perspectivas em oposição num mesmo espaço (HARVEY, 2006).
Assim acontece quando no centro da cidade de Vitória da Conquista se nota o desenvolvimento desarmônico das atividades comerciais. Isso foi percebido quando na realização das entrevistas para a coleta de dados dessa pesquisa notou-se a desigualdade de condições de trabalho entre os diversos indivíduos entrevistados. Essa situação dá origem à relação de subordinação da classe trabalhadora face aos imperativos econômicos da cidade. A presença dessas diferenças entre os sujeitos é reveladora de contrastes próprios das sociedades capitalistas.
Conforme se percebeu nas entrevistas realizadas no Terminal de Ônibus da Avenida Lauro de Freitas, localizado em região central da cidade, a classe trabalhadora se expõe diariamente a longínquas distâncias em busca da garantia de seu sustento. Advindos de bairros como Parque Paraíso, Petrópolis, Coveima I, Urbis V, Patagônia, dentre outros bairros periféricos, muitos sujeitam-se à meios de transporte cansativos e inseguros, como bicicletas mal equipadas que comumente, conforme registrou um dos entrevistados, os expõe a “acidentes e ignorância”.
Ademais, o mercado de trabalho informal, nesses casos, surge como uma possibilidade precária de sobrevivência, no qual os sujeitos que nele atuam estão desamparados da legalidade e de condições dignas de trabalho. A venda de água de coco, de aparelhos eletrônicos, alimentos, etc., são exemplos dessa realidade no centro da cidade de Vitória da Conquista.
Por outro lado, insta refletir que mesmo os trabalhadores legalmente amparados, isto é, inscritos no mercado formal, concebem o incremento da precariedade em suas condições de trabalho. A extensa jornada de trabalho, extenuante, intensiva, desempenhada em lugar distante do domicílio do trabalhador e sob os auspícios da maior produção do lucro para o capitalista, organiza a sociedade em eixos estigmatizantes, nos quais as perspectivas de vida dos
trabalhadores, cientes de suas desvantagens na negociação de sua força de trabalho, se revelam tímidas, desejosas, em sua grande maioria, por melhores condições de saúde física e psicológica.
Dentre as pessoas entrevistadas, vale destacar o relato de uma trabalhadora, natural do município de Anagé, cidade circunvizinha à Vitória da Conquista, que há dois anos mudou de cidade em busca de “melhores condições de vida” e “possibilidades de estudo”. Desde a sua chegada, há quatro meses, mudou-se de habitação duas vezes, em função do valor pago no aluguel do imóvel onde vivia com mais duas outras pessoas, até então desconhecidas.
A entrevistada relatou ainda trabalhar das oito às dezesseis horas, em pé a todo instante em seu serviço de vendas, que ocorre em vias públicas. Consternada ora pelo “sol escaldante”, ora pelo “frio de doer à espinha”, admitiu sentir impactos em sua saúde. O que mais lhe frustra é o fato de que ainda não pôde realizar o seu objetivo: cursar o ensino superior.
Conforme se pôde confirmar da pesquisa de campo, o labor é fruto de uma relação desequilibrada e desigual entre patrão e empregado. A sua matriz é o processo de acumulação de capital, protagonizado pelo detentor dos meios de produção. Por essa razão, o trabalho está necessariamente vinculado à produção do lucro. A instabilidade dos contextos econômicos e sociais, cada vez menos autônomos, acentuadamente relacionados às tendências econômicas globais, conduzem as atividades de maneira irregular, encarando-as como um meio para o benefício particular que as fundamenta.
A compreensão do trabalho como categoria fundante da sociedade enseja, consequentemente, a sua percepção enquanto fenômeno que determina a produção do espaço. Caso seja a utilização de mão-de-obra em determinado setor vantajosa para a obtenção de lucro, é evidente que não hesitará o capitalista em investir em capital constante4, sobretudo se esse investimento tiver o potencial de reduzir as suas despesas em capital variável5.
Os incrementos em capital constante são imensamente diversificados. Vão desde a construção de pavimentos, edificações e instrumentos de trabalho, até o
4 Entende-se por capital constante a “parte do capital [...] que se converte em meios de produção, isto é, em matéria prima, matérias auxiliares e meios de trabalho” (MARX, 1983, p. 171).
5 Por capital variável compreende-se a “parte do capital convertida em força de trabalho” (MARX, op. cit.).
desenvolvimento de tecnologias. Uma vez incorporados ao ambiente, eles modificam a paisagem e reorganizam as relações sociais no lugar onde foram alojados.
A obsolescência desses elementos compõe de modo perceptível o espaço urbano. Eles podem condenar determinados locais, outrora nucleares para o desenvolvimento de atividades econômicas, ao ostracismo e ao abandono. Exemplo de tal ocasião são as zonas portuárias de cidades litorâneas brasileiras que, após o declínio de sua relevância econômica, encontram-se ermas, reorganizadas como abrigos para atividades ilícitas.
Sublinha David Harvey que:
[...] o capital passa a ser representado na forma de uma paisagem física, criada à sua própria imagem, criada como valor de uso, acentuando a acumulação progressiva do capital numa escala expansível. A paisagem geográfica, abrangida pelo capital fixo e imobilizado, é tanto uma glória coroada do desenvolvimento do capital passado, como uma inibidora do progresso adicional da acumulação, pois a própria construção dessa paisagem é antitética em relação à “derrubada das barreiras espaciais” e, no fim, até à “anulação do espaço pelo tempo” (HARVEY, 2006, p. 53).
Assim como o capitalista, o Estado atua em prol da produção de riquezas. Significativos investimentos para o escoamento de produtos advêm de recursos estatais, realizados sob os argumentos de solidariedade social e interesse público. O Estado moderno atua como um aparelho legitimador de uma ordem jurídica banal e excludente. Ele outorga o direito de apropriação do trabalho alheio enquanto valor da sociedade que representa e ignora o caráter exclusivista de sua proteção, uma vez que estatui ser a propriedade uma possibilidade erga omnes.
Em sua essência:
[...] o Estado é o produto da sociedade num estágio específico do seu desenvolvimento; é o reconhecimento de que essa sociedade se envolveu numa autocontradição insolúvel, e está rachada em antagonismos irreconciliáveis, incapazes de ser exorcizados. No entanto, para que esses antagonismos não destruam as classes com interesses econômicos conflitantes e a sociedade, um poder, aparentemente situado acima da sociedade, tornou-se necessário para moderar o conflito e mantê-lo nos limites da “ordem”; e esse poder, nascido da sociedade, mas se colocando acima dela e, progressivamente, alienando-se dela, é o Estado (ENGELS apud HARVEY, 2006, p. 79-80).
O Estado, ao legitimar – e incentivar, de modo decisivo – as relações capitalistas, engendra conflitos iminentes ao modelo de cidade que delas decorrem. A determinação econômica do espaço provoca a atuação do Estado, enquanto ente promotor dos serviços básicos de assistência aos cidadãos, por meio de prestações elementares, mínimas, como por exemplo, saneamento básico, pavimentação, iluminação, transporte público, etc., de modo desigual nos diferentes lugares.
Portanto, as reivindicações da classe trabalhadora por esses direitos estão diretamente relacionadas à produção excludente do espaço urbano, organizada em prol do benefício particular de uma classe social específica que, por deter os meios de produção e por estar em aliança com o Estado “democrático”, projeta a negação ao acesso dos demais indivíduos a direitos fundamentais, reconhecidos falaciosamente pelas “legislações cidadãs” de nosso tempo (DEL NEGRI, 2012).
Os indivíduos que de fato produzem valor por meio do trabalho que executam, dele permanecem alienados e a materialização desse processo se evidencia na precarização dos espaços habitacionais destinados à classe trabalhadora. Na cidade de Vitória da Conquista, a contradição fundada na inexistência de ações que possibilitem o desenvolvimento urbano equânime e digno, revela a incompatibilidade havida entre esse desiderato e o modelo econômico de sociedade em vigência.
Nesse sentido indicam os resultados das entrevistas realizadas, nas quais, quando questionados sobre a existência de ações estatais nos bairros onde moravam, aqueles que habitam os bairros periféricos desta cidade mostraram-se insatisfeitos com a escassez e com a qualidade dos serviços públicos realizados. Em contrário, os que afirmaram possuir melhores condições financeiras e morar em bairros não-periféricos, declararam a importância dos serviços realizados pelo Poder Público em seus bairros, reivindicando adequações ao estilo de vida que levam e à específicas necessidades que vivenciam.
Considerações finais
Por meio dos estudos realizados sobre a realidade concreta dos trabalhadores do Sudoeste da Bahia, pode-se afirmar que a análise da categoria mobilidade do trabalho, e de seus alicerces teóricos, permite a sua compreensão, revelando-se, portanto, fundamental para a interpretação da trajetória histórica da classe trabalhadora, seja ela oriunda do campo ou das cidades.
A construção do espaço urbano de Vitória da Conquista, concluímos, estar inscrita na lógica do capital – obtenção de lucro e acumulação de riquezas pelo capitalista mediante a exploração, em condições precárias, da classe trabalhadora. O “Estado empresário” desempenha a tarefa nuclear de possibilitar o desenvolvimento dos meios de produção, sem reivindicar qualquer desconcentração destes bens, uma vez que, conforme restou constatado nesse trabalho, cumpre a sua tarefa primordial: garantir a manutenção da propriedade privada e amparar juridicamente o desenvolvimento da sociedade de classes.
Dessa forma, os trabalhadores que participam da construção do espaço urbano encontram-se expropriados do produto do seu trabalho e contraditoriamente submetidos à condições precárias de moradia. A negação de direitos à esses indivíduos ultrapassa o status de mera lacuna estatal, uma vez que representa a lógica impositiva do modelo econômico vigente.
Referências
DEL NEGRI, André. A divisão do espaço urbano. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2012.
HARVEY, David. A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo: Annablume, 2006.
LEAL, Victor Andrade Silva; SOUZA, Suzane Tosta. Trabalho e Alienação dos Sujeitos Produtores da Sociedade. In: Anais da XIII Jornada do Trabalho: A irreformabilidade do capital e os conflitos territoriais no limiar do século XXI. Os novos desafios da Geografia do Trabalho. Presidente Prudente: Editora Centelha, 2012. p. 978-993.
LESSA, Sérgio; TONET, Ivo. Introdução à Filosofia de Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Volume I, tomo 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
Abril Cultural, 1984.
MENEZES, Sócrates Oliveira. De “Supérfluos” a Sujeitos Históricos na Contramão do Capital. (Dissertação) Mestrado em Geografia. NPGEO/Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão, 2007.
ROMERO, Daniel. Marx e a Técnica: Um estudo dos Manuscritos de 1861-1863. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
SANTOS, Antonio Luiz. Produção de Riqueza e Pobreza na Expansão Cafeeira em Vitória da Conquista e Barra do Choça. 1987. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal de Pernambuco. Recife, Pernambuco, 1987.
SOUZA, Suzane Tosta. Da negação ao discurso “hegemônico” do capital à atualidade da luta de classes. Camponeses em luta pela terra no Sudoeste da Bahia. Tese (Doutorado em Geografia). Núcleo de Pós-Graduação em Geografia. Departamento de Geografia. Universidade Federal de Sergipe, 2008.