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Tecendo redes entre comunicação e democracia: pelas tramas da Mídia Ninja

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Academic year: 2021

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Tecendo Redes entre Comunicação e Democracia: pelas tramas da Mídia Ninja

Tese apresentada como requisito à obtenção do grau de doutora em psicologia, área de concentração psicologia social e cultura, linha de pesquisa estética, processos de criação e política. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Curso de Doutorado, Centro de Filosofia e Ciências Humanas.

Orientadora: Profa. Dra. Kátia Maheirie.

Florianópolis 2018

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Para meu pai, Lahorgue, que na rigidez me ensinou a fluidez da vida.

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sobre como agradecer

Recordo-me que, quando era criança, adorava quando não precisava ir à escola, pois significava que poderia ficar em casa assistindo ao Xou da Xuxa, que passava na Globo TV todas as manhãs. O programa era cheio de brincadeiras e prêmios para as crianças, sendo que aquela/e que vencia as brincadeiras tinha a chance de usar o microfone da Xuxa para mandar beijos aos entes queridos. Quando Xuxa perguntava: “e você, vai mandar um beijo para quem?”, as crianças geralmente respondiam com uma frase que virou jargão do programa: “pra minha mãe, pro meu pai e pra você”.

Eu imaginava o que eu falaria se Xuxa me perguntasse para quem eu queria enviar um beijo. Desejava, sobretudo, que não fosse igual ao que acontecia a todas as outras crianças, de modo que durante horas ensaiava meu próprio discurso. Essa, aliás, era uma das minhas brincadeiras preferidas, da qual me ocupava enquanto assistia TV e tricotava as roupas de minhas bonecas.

Conto esta pequena história para que a/o leitor/a me permita sair do tradicional neste espaço da tese, destinado aos agradecimentos. Talvez tenha chegado o tão esperado momento de quebrar o protocolo – algo que já não posso fazer no extinto programa Xou da Xuxa, diante de milhões de telespectadoras/es. Ou então, talvez a própria tese já seja, por si só, uma quebra de alguns protocolos acadêmicos, sutilmente fissurados no decorrer da escrita. Comprometo-me a não fazer nenhum spoiler1, e convido você a continuar a leitura para descobrir o que tem pela frente.

Como a proposta deste trabalho é compreender as possibilidades de tensionarmos o instituído, principalmente na construção de narrativas outras, inicio agradecendo primeiramente a mim mesma pela realização desta tese. Afinal, saí por aí catando os restos de fios de lã e transformando-os em uma linda rede com múltiplos coloridos que refletem e refratam muitas relações, potentes e não tão potentes assim. Relações essas que me possibilitam ser quem sou a cada dia, de uma forma diferente. Então, quando agradeço a mim mesma, estou também

1 Spoiler é um termo utilizado para caracterizar o ato de revelar, antecipadamente, à alguém fatos sobre uma série, um filme ou livro. A palavra advém do em inglês to spoil, que significa estragar.

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agradecendo a tantas outras e outros que estão presentes em mim. Tantas e tantos que nem eu mesma sei elencar quem são, mas que certamente passaram por mim e deixaram marcas.

Sempre me inquietei com o tradicional e hegemônico, na busca por possibilidades outras de ser e estar nessa rede da vida. E por isso sempre estou rodeada de amizades, que me movimentam e me acompanham. Como não concordo muito com essa perspectiva de que família são somente as pessoas com quem temos laços consanguíneos, as quais devemos amar e estar sempre junto, busquei constituir diversas outras famílias, pelas quais tenho amor e com as quais aprendi que amar não é uma obrigação, mas um sentimento vivido de forma singular.

Assim, nesses anos de caminhada, muitas foram as amizades que compuseram/compõem uma de minhas famílias. Algumas estão mais distantes fisicamente; outras, muito próximas. Agradeço às/aos amigas/os que tecem a rede da vida junto comigo e que de alguma forma estão presentes também na escrita desta tese, seja com as trocas de conhecimento, a força para conseguir finalizar, os encontros para relaxar, as risadas, os choros, as idas à praia, os vinhos, as cachaças, as comidas, os cafés, as mensagens pelo WhatsApp, as curtidas pelo Facebook, as viagens… de alguma forma estivemos juntas/os nessa caminhada até aqui. Gratidão: Poli, André, Tati, Helô, Jana, Andressa, Felipe, Deysi, Aline, Neiva, Andreia, Stela, Sheila, Tainá, Laura, Dani, Icli, Tielly, Nalú, Cátia, Daphne, Cleiton, Marcelo, Camila, Beth, Nath, Patrícia, Paula.

Minha família (de sangue) sempre foi muito pequena. Minha mãe era filha única e meu pai sempre teve pouco contato com sua própria família. Recordo-me de conhecer meu tio e minha tia quando eu já tinha dez, onze anos. É como se eu não tivesse tios/tias/primos/primas. Mas, ao mesmo tempo, meu pai e minha mãe me presentearam com três irmãs. Ou talvez, eu tenha sido o presente para elas, afinal, sou a mais nova das quatro. E por ser a mais nova, carrego comigo muito das experiências dessas três mulheres e considero que, em certos aspectos, consegui me desfazer de algumas amarras e construir caminhos outros. Assim, elas são presentes em minha caminhada, mesmo que por vezes tenhamos escolhidos trajetos distintos. Dani, Mi e Gaby o que sou hoje construí a partir do que sou com vocês.

Nessa rede familiar tenho ainda ma sobrinha dois sobrinhos. Manuela, André Luís e Gabriel. Por vezes são inspirações, que acalmam

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neles, e também vejo outros “vir a ser” – alguns me agradam, outros nem tanto. Inquieta-me a incerteza dos caminhos, mas também a certeza de que sou o que posso quando estou na presença desses três diferentes tempos. E que de alguma forma faço transparecer a percepção de que é possível escolher os caminhos que queremos seguir.

Agradecer foi algo que aprendi nos últimos anos, principalmente durante este período em que estive envolvida com o doutorado. Para mim, essa palavra não é um simples verbo com suas múltiplas conjugações, é também sentimento. Agradecer, enquanto palavra no dicionário, é morta, mas enquanto enunciado é uma multiplicidade de vozes, tempos e espaços. E é com essa multiplicidade de sentidos que agradeço àquela que hoje não está mais fisicamente ao meu lado, mas que conseguiu me ensinar esses múltiplos sentidos do que parece ser uma simples palavra. Foi com minha mãe que aprendi a me rever e a ser movimento. Com ela aprendi a tricotar a vida e a escolher o colorido da mesma, juntando e dando vida aos restos de lã, em vez de considerá-los inúteis. E com ela também aprendi o que é sentir a dor da perda e a conviver com a saudade.

Nessa busca por tricotar minha própria rede, percebi quão rígido é meu corpo e ao mesmo tempo quão fluido ele pode ser; nesse momento, me permiti aprender a dançar a vida. Vida esta que se apresenta nem tão rígida e nem tão fluida, num limite muito tênue entre dois opostos que se complementam. E ao conhecer esses pequenos limites, percebi o quanto sou agradecida pela pessoa que meu pai foi e é em minha vida. O quanto ele e sua rigidez de pensamentos me ensinam a saber que há momentos em que é preciso ouvir, mas há também aqueles em que é que preciso demarcar a minha opinião. Quando estou com ele me sinto uma equilibrista, dançando em uma rede bamba, driblando minhas certezas e afirmando minhas posições. E não há como finalizar esse agradecimento sem lhe dizer que: foi Golpe sim! E minha tese fala sobre isso. Mesmo você discordando de mim neste aspecto, de alguma forma você se encontra nela.

Em caminhos desconhecidos me permiti caminhar lado a lado com que se dispusesse a estar junto nas maiores empreitadas que a vida pode nos oferecer. E dessa forma fomos nos tecendo e percebendo que ser duas não é deixar de ser quem somos, é ser três, quatro e muitas mais. E assim vamos multiplicando nossos desejos e trilhando os

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caminhos que nos são possíveis. Agradeço à Ana – àquela que conheci nove anos atrás e também a essa de hoje, por estar comigo, me ensinar a me conhecer e nisso aprender a se conhecer também. Você é o afago para meu coração, mas também o tapa na cara que diz a hora de sair do casulo. No momento mais difícil foi tua voz que fez a tristeza se tornar pequena.

E como disse, nesse caminhar somos muito mais do que só nós duas. Somos uma multiplicidade de coloridos que formam uma rede aberta, heterogênea e que pulsa muito axé. Nessa tecitura de nossa rede aos poucos constituímos assim nossas famílias. Uma delas é nossa família de fé, que representa os desafios que experienciamos nos últimos anos – afinal, afirmar-se enquanto umbandista e candomblecista é um desafio nesta sociedade estruturada com base na intolerância religiosa. Somos, portanto, parte da família da Casa de Caridade Baiano Zé Pelintra e Caboclo Tupinambá (Kwê Vodun Otoòlu Hundê2), a qual escolhemos para partilhar momentos diversos. Família que é constituída também pelas entidades da umbanda e orixás/voduns do candomblé, as/os quais muito têm me ensinado.

E nessa grande família de fé, algumas/alguns acabaram fazendo parte também da partilha de diversos momentos significativos para mim. Agradeço ao Pai Pepe, meu Doté, que muito me ensina, mesmo sem saber. Às mães Ekedjis Gláucia e Walkíria pelos abraços carinhosos e pelo cuidado comigo. Ao Pejigan Marcelo, sempre disposto a aprender sobre comidas e plantas comestíveis. Às irmãs e irmãos Zanza, Natele, Maila, Kaylane, Catarina, Jean, Roberto, Flávio e Chico, por tudo que sempre foi e será partilhado entre nós, pelo amor e confiança, por fortalecerem essa rede que me compõe.

Outras grandes tramas de minha rede encontram-se enlaçadas com a rede da Ana: não fosse por ela, não teria Carla e Sally como madrinhas de casamento; consequentemente, não teríamos tecido essa família com fios tão fortes e seguros. Há nessa trama um compartilhar a vida que a torna mais leve. Agradeço pela força, amor e compreensão durante todos esses anos juntas.

Há um outro fio, que está sempre sendo tecido nessa vida em constante movimento. Nossas agulhas estão sempre tricotando novas

2 Em yorubá significa: A Casa na qual o Caçador faz morada. Otolú é o orixá do Pai de Santo da Casa, é um orixá Odé – caçador e por isso a casa tem essa denominação.

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rede da vida sem a presença de Cyssa. Ela está sempre por perto, desde a juventude é a amiga-irmã com quem compartilho alegrias e tristezas. Aquela que ensina, que aprende e que sabe que sempre haverá lugar ao meu lado, e do lado da Ana também (eu deixo tá).

Alguns fios de minha rede começaram sendo tecidos através de outros fios, mas com o tempo se fortaleceram como parte da minha rede-família, de modo que, mesmo que o fio original se desate, a trama entre eu e ele permanecerá. É o que acontece com aquele com o qual convivi durante muito tempo, desde os meus cinco anos de idade. Maurício me viu crescer, viu essa rede ser tecida, fez parte da mesma e ainda faz, mesmo que um pouco distante agora. Com ele aprendi muito, inclusive sobre redes (de computadores e de internet). Maurício ensinou-me que tenho a liberdade de escolher as cores para os fios da minha vida.

No caminho acadêmico, também encontrei fios que me possibilitaram tecer tramas diversas. Foram tecituras muito potentes que me auxiliaram nesta caminhada e com as quais eu pretendo continuar conectada. Foram grandes aprendizados, os quais pude compartilhar de perto com três mulheres maravilhosas. Agradeço à Katita, por seu acolhimento no doutorado e pela liberdade que sempre impulsionou minhas escolhas. À Andrea Zanella, pela parceria durante o mestrado que inspirou-me a seguir tecendo redes na Universidade. À Jura, pelos encontros e pelas lindas tramas que tecemos juntas. Agradeço também a Frederico Viana Machado – ainda que rápidos, os encontros foram potentes. À Sônia Maluf, pela disponibilidade em contribuir com a banca de defesa.

Outra trama que se fez presente nesta trajetória tem relação com os governos dos últimos anos no Brasil e com as aquelas/es que estavam na gestão das políticas públicas de Pós-Graduação. Foram os investimentos nessa área que tornaram possível minha permanência no doutorado, através de bolsa de estudos vinculada à agência de fomento CAPES. Desejo que as políticas públicas implementadas durante esses anos permaneçam, abrindo possibilidades a outras/os pesquisadoras/es. Que tenhamos forças para lutar por nossos direitos!

Em tempo, outra trama necessária para a tecitura desta tese é a Mídia Ninja, à qual estive e continuarei conectada através de diversos nós. Minha gratidão à todas e todos que tecem essa Rede, que a partir de

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suas narrativas fissura o tecido social contemporâneo e nos permite compreender que a luta por direitos é necessária.

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Enquanto você dorme Eles planejam um novo golpe Dão armas aos fascistas Eles são falsos moralistas Enquanto você ri Eles dão curso ao retrocesso Conspiram ministérios Eles sustentam privilégios Transformam o oprimido em opressor bandido Legislam pela redução da idade penal Reprimem manifestações com militares Iludem livremente em rede nacional Precisamos falar de política A todo custo a praça pública ocupar Precisamos falar de política A nossa luta é pela resistência popular Enquanto você dorme Eles planejam um novo golpe Grampeiam o seu sono Eles são ratos desumanos Enquanto você ri Eles torturam o seu passado E se você não pensa Os mortos não estão na imprensa Massacram todo dia pobre nas favelas Defendem morte como pena pra marginal Revogam previdências de trabalhadores Governam para a exploração do capital

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Esta pesquisa analisou de que forma as narrativas da Mídia Ninja (Ninja) possibilitam tensionamentos no tecido social contemporâneo, buscando para isso compreender as condições ético-políticas que constituem as narrativas dos meios de comunicação independentes e tradicionais; as cenas que são visibilizadas pelas narrativas da Ninja que apontam para outros possíveis no campo da democratização da sociedade; como e em que medida a Ninja contribui para a democratização da comunicação. Ninja é uma Rede de midialivristas que se contrapõe às grandes corporações midiáticas e que trabalha como uma mídia livre que independe financeiramente de partido político, emissora de televisão ou empresa. Ela surge ancorada na rede cultural Fora do Eixo (FdE) que, a partir de vivências espalhadas pelo Brasil, dá visibilidade à produção musical independente. Como percurso metodológico utilizamos a observação virtual da página da Ninja no Facebook e realizamos uma vivência de sete dias na Casa Fora do Eixo São Paulo – uma Casa Coletiva na qual as/os integrantes da Ninja residem. Utilizamos a perspectiva da análise dialógica do discurso, com base na teoria de Bakhtin, que nos auxiliou a auscultar as diversas vozes dos enunciados encontrados ao longo dos caminhos percorridos. Sendo assim, consideramos que o todo da tese se constitui como uma obra de arte que está inserida em um contexto, dialoga com o mesmo e se conecta a diversos outros espaços-tempos e, por este motivo encontra-se aberta para outros possíveis. Por esta razão, apresentamos questionamentos, inquietações, emaranhados de incertezas que impulsionam a continuar tecituras outras. Inicialmente apresentamos os primeiros fios que foram tecidos e que dizem respeito à produção de uma outra comunicação e dão visibilidade às tecnologias de vida coletiva instituídas pelo FdE, e que constituem também a Ninja. Na trama seguinte, buscando compreender o papel que cada canal midiático assume no campo do político, apresentamos o debate sobre a criação das tecnologias de comunicação digitais com o advento da internet e a forma como as/os hacktivistas se apropriam de suas estruturas e que compõem a diversidade de formatos que a comunicação pode assumir. Adentramos nas políticas públicas voltadas para o setor das comunicações desde a ditadura militar até os anos 1990. Na trama seguinte, debatemos o conceito de democracia com base em Jacques Rancière e costuramos o

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mesmo com a discussão sobre as políticas públicas de comunicação nos Governos Lula e Dilma. Tal tecitura nos leva a outra trama importante que se relaciona à democratização da e na comunicação: a disputa de narrativas entre mídias tradicionais e independentes. Disputas de narrativas instituem cenas de dissenso e tornam audível o que antes era considerado ruído. Na sequência debatemos o ativismo contemporâneo a partir da diversidade de perspectivas que instituem outra forma de fazer política, que está relacionada à comunicação digital. Assim, tecemos os fios entre política e comunicação digital e analisamos essa relação a partir das manifestações de rua que aconteceram no Brasil entre 2013 e 2016. As relações entre política e comunicação digital evidenciam a constituição de um “Nós” que está sempre em construção. Na última trama apresentada discutimos sobre o cenário político que estruturou o golpe parlamentar-jurídico-midiático que derrubou a presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2016. Relacionamos esse debate com o lugar político de enunciação dos canais midiáticos e demarcamos assim que as mídias, tradicionais e independentes, amparam-se em perspectivas diferentes de sociedade e, por este motivo, produzem e veiculam comunicação de formas diferentes e que estão amparadas aos projetos de sociedade que cada canal de mídia defende. Com isso, compreendemos que a Ninja é uma estrutura que conecta diversos nós que, através de fluxos, produzem novos ordenamentos e outras possibilidades de (com)viver, (re)criam existências e resistências, ao mesmo tempo em que afetam e são afetados, agenciando outras formas de ser e de viver. Palavras-chave: Comunicação digital. Democracia. Ativismo. Mídia Ninja. Golpe 2016.

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This research analyzes how the Mídia Ninja’s narratives make tensions possible in the contemporary social weave. For this purpose, we seek to understand: the ethnic-political circumstances that constitute the narra-tives of the independent and traditional mass media; the scenes that are made visible by the Ninja narratives pointing to other possible in the field of the democratization of society and how and to what extent Ninja contributes to the democratization of communication. Ninja is a network of independent media that is opposed to large media corporations; it works as a free media that is financially independent of any political party, television net or company. It emerges anchored at the 'Fuera de Eje' cultural net that makes independent musical production visible based on the experiences spread by Brazil. As a methodological path, it was used the virtual observation of the Ninja page on Facebook, and the experience of staying seven days in the Casa Fuera del Eje São Paulo – a Collective House in which the members of Ninja reside. Based on Bakhtin's theory, the perspective of dialogic analysis of the discourse was used, helping auscultate the different voices of the statements found along the paths traveled. In this way, it is considered that the thesis is like a piece of art placed in a context, with which it dialogues and con-nects to different spaces-times, reason why, it is open to other possible. For this reason, we present questions, concerns, entanglements of uncer-tainties that lead to other attitudes of mind. Initially, we present the first threads that were woven and that talk about the production of a different communication that makes visible the technologies of collective life in-stituted by the FdE, and that constitute Ninja. A debate on the creation of technologies of digital communication with the arrival of the Internet, and the way in which hacktivists adapt the structures that shape the di-versity of formats that communication can assume is offered to under-stand the role that each media channel assumes in the field of politics. We deepened in the issue of the public policies oriented to the communi-cation sector from the military dictatorship until the 1990’s. Also, we discuss the concept of democracy based on the work of Jacques Ran-cière, linking it with the discussion on public communication policies in the governments of Lula and Dilma. Such weaving leads us to another important story related to the democratization of and in communication: the dispute of narratives between traditional and independent media.

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Disputes of narratives institute dissent scenes and make audible what was previously considered noise. Next, we discuss contemporary ac-tivism based on the diversity of perspectives that establish another way of doing politics, related to digital communication. Thus, we weave the threads between politics and digital communication and we analyze that relationship from the street demonstrations that took place in Brazil be-tween 2013 and 2016. The relations bebe-tween politics and digital com-munication show the constitution of a "We" that is always under con-struction. Finally, we discussed the political scene that structured the parlamentary-legal-media coup that dismissed President Dilma Rousseff in August 2016. We relate that debate to the political place of enuncia-tion of the media channels, and we demarcate that the media, tradienuncia-tional and independent, depends on different perspectives of society and, for this reason, they produce and transmit communication in different ways, sheltered in the projects of society that each media channel defends. In this way, we understand that Ninja is a structure that connects diverse ¨us¨ that, through flows, produce new orders and other possibilities of (co)existing, (re)creating existences and resistances, at the same time as they affect and are affected, producing other ways of being and living. Keywords: Digital communication. Democracy. Activism. Mídia Ninja. Coup d’état 2016.

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Esta investigación analiza de qué forma las narrativas de Mídia Ninja (Ninja) posibilitan tensionamientos en el tejido social contemporáneo. Para ello cual se busca comprender: las condiciones étnico-políticas que constituyen las narrativas de los medios de comunicación independientes y tradicionales; las escenas que son visibilizadas por las narrativas de Ninja que apuntan para otros posibles en el campo de la democratización de la sociedad; cómo y en qué medida Ninja contribuye a la democratización de la comunicación. Ninja es una Red de medios independientes que se contrapone a las grandes corporaciones mediáticas, trabajando como un medio libre independiente financieramente de cualquier partido político, televisora o empresa. Surge anclada en la red cultural ‘Fuera de Eje” que, a partir de vivencias difundidas por Brasil, visibiliza la producción musical independiente. Como camino metodológico utilizamos la observación virtual de la página de Ninja en Facebook, y tuvimos la vivencia de permanecer siete días en la Casa Fuera del Eje São Paulo – una Casa Colectiva en la que residen los/las integrantes de Ninja. Utilizamos la perspectiva del análisis dialógico del discurso, basada en la teoría de Bajtin, lo que nos auxilió a auscultar las diversas voces de los enunciados encontrados a lo largo de los caminos recorridos. De esta forma, consideramos que el todo de la tesis es como una obra de arte situada en un contexto, con el que dialoga y se conecta a diversos espacios-tiempos, motivo por el cual se encuentra abierta a otros posibles. Por esta razón, presentamos cuestionamientos, inquietudes, enredos de incertidumbres que impulsan a continuar otras tesituras. Inicialmente presentamos los primeros hilos que se tejieron y que hablan respecto a la producción de una comunicación diferente que visibiliza las tecnologías de la vida colectiva instituidas por el FdE, y que constituyen también a Ninja. En la siguiente trama, buscando comprender el papel que cada canal mediático asume en el campo de lo político, presentamos el debate sobre la creación de las tecnologías de comunicaciones digitales con la llegada de Internet, y la forma cómo las/los hacktivistas se apropian de las estructuras que componen la diversidad de formatos que la comunicación puede asumir. Profundizamos en las políticas públicas orientadas al sector de las comunicaciones desde la dictadura militar hasta los años 1990. En la trama siguiente debatimos el concepto de

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democracia basado en la obra de Jacques Rancière, hilvanándolo con la discusión sobre las políticas públicas de comunicación en los Gobiernos de Lula y Dilma. Tal tesitura nos conduce a otra importante trama relacionada con la democratización de y en la comunicación: la disputa de narrativas entre medios tradicionales e independientes. Disputas de narrativas instituyen escenarios de disenso, y tornan audible lo que antes era considerado ruido. Seguidamente, debatimos el activismo contemporáneo a partir de la diversidad de perspectivas que instituyen otra forma de hacer política, relacionada a la comunicación digital. Así, tejemos los hilos entre política y comunicación digital, y analizamos esa relación a partir de las manifestaciones callejeras que ocurrieron en Brasil entre 2013 y 2016. Las relaciones entre política y comunicación digital evidencian la constitución de un “Nosotros” que está siempre en construcción. En la última trama presentada, discutimos sobre el escenario político que estructuró el golpe parlamentario-jurídico-mediático que destituyó a la presidenta Dilma Rousseff en agosto de 2016. Relacionamos ese debate con el lugar político de enunciación de los canales mediáticos, y demarcamos así que los medios, tradicionales e independientes, se amparan en perspectivas diferentes de sociedad y, por este motivo, producen y transmiten comunicación de formas diferentes, amparadas en los proyectos de sociedad que cada canal mediático defiende. De esta manera, comprendemos que Ninja es una estructura que conecta diversos nosotros que, a través de flujos, producen nuevos órdenes y otras posibilidades de (con)vivir, (re)crean existencias y resistencias, al mismo tiempo en que afectan y son afectados, produciendo otras formas de ser y de vivir.

Palabras clave: Comunicación digital. Democracia. Activismo. Mídia Ninja. Golpe de estado 2016.

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Das Tramas que Enlaçam...23

1 Compondo as tramas da pesquisa...35

1.1.Rascunhando os afetos...43

1.2.A escrita na pesquisa: (re)vivendo os afetos...48

1.3.A dialogia dos enunciados: as diversas tramas para outros possíveis ...50

2 Alguns nós que tecem as Redes FdE e Ninja...55

2.1 Uma trama necessária: a produção de uma vida coletiva...55

2.2 Das tramas da cultura para as narrativas midiáticas: uma produção “alta performance do precariado”...64

3 Alguns fios importantes: a comunicação digital e a democratização da e na comunicação...77

3.1.A tecitura da comunicação digital...78

3.2.A comunicação no Brasil: política pública ou mercadoria?...93

3.3.Lugar político de enunciação: vozes midiáticas em disputa...101

4 Disputar narrativas e democratizar a comunicação: quando democracia e comunicação tecem redes...111

4.1.Democratizar a comunicação: uma conversa com a Democracia.111 4.2.Os governos de Lula e Dilma: uma história de amor e ódio com a Comunicação...118

4.3.Disputar narrativas: as Redes em tensão...124

4.4.“ELES SABIAM DE TUDO”, só não viram o Helicoca voando: quando a narrativa entra em disputa...128

5 Fervo e protesto: quando a comunicação se encontra com a política...141

5.1.Redes digitais e as ruas: as tramas do ativismo contemporâneo...141

5.2.Tecendo redes entre política e comunicação: o ativismo contemporâneo...147

5.3.Redes e Ruas: tecendo as cenas do campo político contemporâneo ...153

6 Foi Golpe sim!: tecendo redes entre comunicação e democracia ...169

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6.2.“Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria”: mudando a porra toda...172 6.3.“Um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”: “a solução mais fácil”...178 6.4.#BelaRecatadaeDoLar: o campo do político e a moral

conservadora...183 6.5.Comunicação e democracia: o que a comunicação em rede pode nos oferecer?...191 Algumas tramas futuras...197 Referências...201

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Das Tramas que Enlaçam

Enquanto você ri Eles torturam o seu passado E se você não pensa Os mortos não estão na imprensa

(Golpistas – Caio Prado)

“Primeiramente, FORA TEMER!”

Essa frase tem, desde 2016, antecedido vários discursos, pois simboliza os protestos populares contra o Golpe que destituiu a presidenta eleita democraticamente Dilma Rousseff, levando à presidência o ilegítimo Michel Temer. Esta mesma questão permeia a presente tese, a qual foi tecida durante o período de estruturação do Golpe. É por isso que, logo de início, estamos demarcando nosso posicionamento referente a este acontecimento no campo do político, sinalizando que nosso olhar, no decorrer das análises, focará em alguns discursos midiáticos que, em tensão, compuseram o cenário político brasileiro, de 2013 até 2016.

A cena política vivida no Brasil, das Jornadas de Junho de 2013 ao Golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016, esteve permeada pela disputa de narrativas midiáticas, sobretudo, entre mídias independentes e tradicionais – disputa que se deu no ambiente digital, isto é, nas redes de internet em articulação com as pautas políticas e as manifestações nas ruas. Neste contexto, a mídia tradicional tratou de manipular as manifestações de rua, legitimando determinadas vozes sociais em detrimento da criminalização de outras; as mídias independentes, por sua vez, acirraram o embate com as narrativas tradicionais produzindo fissuras nas mesmas, com o objetivo de dar visibilidade às vozes das ruas.

Compreendemos que as narrativas midiáticas tradicionais contribuíram para o fortalecimento de um processo parlamentar-jurídico (ainda em curso) que referendou os interesses de grupos econômicos, incluindo aqueles que detêm os próprios meios de comunicação tradicionais que, em sua maioria, configuram suas produções midiáticas na dissimulação de seus posicionamentos, pois se dizem imparcial e se escondem no hegemônico de suas narrativas. No embate com estes tipos

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de mídias, as mídias independentes buscam assumir suas parcialidades e instituem possibilidades de uma maior democratização da comunicação. Diante disso, há uma diferença entre estas narrativas midiáticas, seus projetos de sociedade e as pautas que defendem, revelando um entrelaçamento histórico entre comunicação e democracia que está no cerne das relações sociais, constituindo sujeitos e coletivos, modos de pensar e atuar na vida política. É sobre essas tramas que nos debruçamos para tecer essa tese. Os fios que a compõem são múltiplos e intentam-se dialógicos, levando em consideração que a dialogia na perspectiva bakhtiniana é considerada um “fenômeno quase universal, que penetra toda a linguagem humana e todas as relações e manifestações da vida humana, em suma, tudo o que tem sentido e importância” (Bakhtin, 1963/2010b, p. 47). Por relações dialógicas, a partir da contribuição bakhtiniana, compreendemos as relações de tensão e confrontamento de diferentes visões de mundo.

Ao mesmo tempo em que essa tese é composta pelas diversas vozes presentes em nossa sociedade, de 2013 até 2016, ela também perpassa as tramas que foram me constituindo enquanto sujeito e pesquisadora e que demarcam assim o lugar que ocupo na tecitura deste trabalho. Durante a pesquisa de mestrado, quando acompanhei jovens do município de Jaraguá do Sul/SC com o objetivo de analisar a forma como caracterizavam a política a partir das suas relações com a cidade, entrei em contato com as manifestações que compuseram as Jornadas de Junho (Maricato et al., 2013). Este acontecimento se mostrou marcante para mim, pois na condição de pesquisadora pude, pela primeira vez, transcender o olhar de militante – até então recorrente em minha trajetória – e participar de tal ato com um olhar outro.

As questões relativas ao papel da mídia durante as Jornadas de Junho de 2013 foram brevemente apresentadas na escrita da dissertação. No entanto, não houve um aprofundamento do debate sobre as mesmas, pois elas não constituíam o foco da análise naquele momento. Constatamos, na época, que essas diversas vozes sociais – presentes tanto nas matérias veiculadas nos diversos meios de comunicação, quanto na diversidade de cartazes da manifestação na cidade de Jaraguá do Sul – revelavam relações dialógicas presentes em nossa sociedade (Lahorgue, 2016).

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Ao iniciar o doutorado em Psicologia, as questões levantadas durante o Mestrado estavam bem presentes, ao mesmo tempo em que muitas outras inquietações foram surgindo. Navegando pelas redes digitais, encontrei diversos canais de mídias independentes e, aos poucos, fui conhecendo a imensidão desse mar que compõe a cultura digital. Compreende-se por cultura digital o que Lévy (1997/2010, p. 15) nos apresenta como cibercultura, a qual “expressa o surgimento de um novo universal” que “se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si”, por meio das relações estabelecidas nos espaços digitais que possibilitam sentidos diversos ao que ali é produzido e compartilhado. A fim de dialogar com essa diversidade de sentidos produzidos, foquei meu olhar para as tramas que compõem a cibercultura.

Nesse momento conheci a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) e comecei a acompanhar as postagens da mesma no Facebook em outubro de 2014, enquanto acontecia o segundo turno das eleições para presidenta/e no Brasil. Neste cenário político, com uma disputa acirrada entre Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores) e Aécio Neves (Partido da Social Democracia Brasileira), deparei-me com um texto da Ninja: “A Mídia Ninja tem lado” (Mídia Ninja, 2014). Tal texto me afetou de tal modo que despertou minha vontade de pesquisar sobre esse canal midiático, adentrando nas tramas dessa Rede. Assim, defini meu foco de pesquisa: as narrativas da Ninja – o que, no entanto, ainda não se configurava como um recorte para uma tese de doutorado em Psicologia.

Buscando compreender o que havia me afetado naquele texto, percebi que o que estava disposto no seu título era o que me causava tanta inquietação. O fato de a Ninja se considerar uma mídia que tem lado demarcava sua parcialidade, o lugar político do qual as suas narrativas emergem; e tal questão vinha ao encontro de uma postura ética que defendo, enquanto sujeito, psicóloga e pesquisadora. Este encontro me levou a acessar a diversidade de nós que compõem uma outra trama, a da minha vida, levando-me a retecê-la através de lembranças-nós que refletem minha constituição.

Vou adentrar em alguns desses nós, que me auxiliaram também na tecitura desta tese e que são necessários para a compreensão do lugar

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a partir do qual ela é tecida: sou filha de uma geração que vivenciou uma ditadura, que lutou por seus direitos e conquistou diversos espaços democráticos. Ouvia sempre as histórias de minha mãe sobre sua participação na União Pelotense de Estudantes Secundaristas (UPES), de como conseguiu exercer o direito ao voto pela primeira vez, na eleição de 1989. Cresci com o desenvolvimento das tecnologias digitais, acompanhando sempre o trabalho de meu pai em suas empresas de processamento de dados e de desenvolvimento de softwares, o que implicou também na minha relação com diferentes tecnologias de comunicação: desde a época em que não tínhamos telefone em casa e utilizávamos o orelhão para ligações, passando pelo uso da internet discada até a atualidade, com o acesso à internet móvel e/ou Wi-Fi;

Atuei em diferentes frentes de luta por direitos, e me recordo da época de graduação em psicologia, quando iniciei minha participação no movimento estudantil, envolvendo-me na gestão do Centro Acadêmico de Psicologia e do Diretório Central dos Estudantes. Recordo do movimento que eu e meus colegas realizamos na Universidade Regional de Blumenau, contrário aos reajustes das mensalidades e que teve como uma das intervenções um “cortejo fúnebre” pelos corredores da instituição. Até hoje ecoa em mim o toque daquele tambor que eu mesma tocava. Depois de formada, tive a oportunidade de atuar como conselheira tutelar em Blumenau e, na mesma época, coordenei a Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia e também participei do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Blumenau. Tais nós, portanto, se fazem presentes em minha trajetória, de modo que muitas inquietações estão marcadas em mim e me enlaçam com o tema desta pesquisa, a saber: as relações entre comunicação e democracia.

As inquietações que orientam esta tese, no decorrer de sua tecitura, vão sendo costuradas por outras que, entrelaçadas com minhas histórias, vão constituindo uma rede dialógica. Durante esses quatro anos de doutorado, pude encontrar com os meus desencontros, com os fios soltos que me compõem, com os nós que não estavam conectados. Alguns desses nós foram compondo novas tramas, outros foram desfeitos e abriram espaço para aprendizados, muitos foram (re)tecidos com outras cores.

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Ressalto que rede é um conceito polissêmico, e o excesso de sua utilização como metáfora pode até comprometer a sua compreensão enquanto conceito (Musso, 2010), reduzindo-o a uma simples palavra. Assim, para que não nos percamos no seu uso metafórico, nesta tese afirmamos que a sociedade estrutura-se em rede e, ao realizarmos tal afirmação estamos pensando “em rede” e não “na rede”. Ou seja, pensar “em rede” diz da “comunicação como lugar de inovação e do acontecimento, daquilo que escapa ao pensamento da representação” (Parente, 2007, p. 102). Compreendemos que o paradigma das redes adentrou a sociedade juntamente com a criação das tecnologias da comunicação e da informação. No entanto, quando falamos de rede nesta pesquisa, não estamos nos referindo somente a essas estruturas tecnológicas, mas sim às estruturas sociais.

As redes são encontradas também na pluralidade de pensamentos e ideias que estão postas, tanto vertical quanto horizontalmente e que vêm ocupando espaços importantes na estrutura social hierarquizante que compõe o pensamento hegemônico do capitalismo. Pensar em rede é instituir um jeito outro de nos relacionarmos, o que modifica também as próprias estruturas sociais, tornando-as mais flexíveis e menos hierarquizadas. Por este motivo, podemos afirmar que a perspectiva de que a sociedade vem se estruturando a partir de redes não se deve somente ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação – o que a reduziria a uma metáfora – pois “a rede se tornou uma dimensão, indissociavelmente ontológica e prática, de modelização do mundo e da subjetividade” (Parente, 2010, p. 09).

Assim, a partir de uma perspectiva bakhtiniana, nossa preocupação está em apresentar tensões existentes entre alguns discursos midiáticos hegemônicos e independentes, sem concluí-los. Em seguida, buscamos ampliar os nós que as mesmas nos apresentam, mas sem a pretensão de desatá-los, pois são eles que sustentam a pesquisa. Nosso olhar estará focado no que é dissensual a uma determinada dialogia dominante, bem como nas refrações, sem cair na comparação entre uma dialogia dominante e uma dialogia da refração, do contradiscurso. Neste sentido, a Ninja é o dispositivo que nos auxiliará a pensar a cena política, o que ela engendra – a partir de narrativas midiáticas –, a forma

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como a comunicação institui perspectivas diferentes sobre o cenário político e como isso se estruturou entre 2013 e 2016.

O que compreendemos por mídia tradicional é representado pelos conglomerados midiáticos, ou seja, por canais (ou redes) de comunicação que trabalham a partir de uma perspectiva hegemônica e que acumulam propriedade sobre diversos canais de mídia, o que faz com que os conteúdos veiculados sejam similares. Apresentaremos, no decorrer dos capítulos, enunciados produzidos por três diferentes meios de comunicação tradicionais: o Grupo Globo, o Grupo Abril e a Editora Três3. O Grupo Globo estrutura-se como uma rede de comunicação composta por diversas empresas, que atuam em setores diferentes da comunicação e com afiliadas espalhadas pelo Brasil e em outros países. Possuem canais de TV aberta e TV a cabo, rádio, impressos, indústria fonográfica, e etc (Grupo Globo, s. d.), e sua fundação data de 1965, desde a criação da Globo TV, e é coordenado pela Família Marinho.

Já o Grupo Abril é considerado um dos mais influentes grupos de comunicação e distribuição da América Latina. Atua nos setores de educação e cultura e possui algumas holdings4 e empresas que atuam nas áreas de mídia, gráfica, distribuição e logística (Grupo Abril, s. d.). Foi fundado em 1950 e é coordenado pela Família Civita5, sendo o grupo que gerencia a Editora Abril, a qual é responsável pela edição da revista Veja. A Editora Três foi fundada em 1972 e hoje é considerada a terceira maior editora de revistas do país, sendo a pioneira em utilizar das tecnologias digitais para lançar a primeira revista online do Brasil. É responsável pela edição da Revista IstoÉ que tem como foco “um

3 Tendo em vista que nesta tese a Ninja é utilizada como dispositivo para nos auxiliar a pensar a cena política contemporânea, é importante destacar que as narrativas dos veículos de mídia tradicional utilizados para a escrita desta tese foram retiradas também da página do Facebook da Ninja. Tal questão evidencia a constante disputa de narrativa que tal Rede vem constituindo com a diversidade de mídias tradicionais existentes hoje no Brasil.

4 Holdings são consideradas empresas que possuem o meios número de ações de outra empresa e que por este motivo detém o controle da mesma.

5 As famílias Civita e Marinho são duas das sete famílias mais ricas do Brasil e que gerenciam o seleto grupo de empresas que comandam os meios de comunicação brasileiros.

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jornalismo crítico, plural, democrático e compromissado apenas com o Leitor” (Editora Três, s. d.).

As mídias independentes são aqui compreendidas como aquelas que se estruturam a partir de coletivos que independem de empresas, partidos políticos, ONGs e governos, tendo como base a gestão colaborativa. Utilizam-se, em sua grande maioria, das redes de internet para veicular informações6. Das mídias independentes, a Rede Mídia Ninja (Ninja), será o foco de discussão nesta tese, tendo surgido em 2013, início do período político que será analisado nesta pesquisa. A Ninja articula o ativismo e a comunicação digital, tanto no modo de produção quanto no conteúdo de suas narrativas.

Logo após tornar-se conhecida, a Ninja passou a ser alvo de reportagens e matérias de jornais de canais da mídia tradicional, cujos holofotes se voltaram para a forma como essa Rede surgiu e, principalmente para um dos nós da mesma, que é a Rede Fora do Eixo (FdE), para onde apontam diversas matérias que apresentam esquemas e denúncias. Ressaltamos, desde já, que temos conhecimento das mesmas; no entanto, elas não são o foco de nossa pesquisa e, por este motivo, os fios que escolhemos para compor nossa rede relacionam-se com a potência que a mesma é capaz de produzir. Não deixaremos de lado as possibilidades de crítica à Ninja e ao FdE, mas consideramos que não nos cabe somar aos discursos dos conglomerados midiáticos que julgam ou que buscam apontar irregularidades para desestruturar suas ações. O que intentamos, no presente trabalho, é construir um conhecimento que se proponha dialógico.

Como já afirmamos anteriormente, realizar uma discussão sobre as relações entre comunicação digital e democracia era a proposta inicial desta pesquisa. No entanto, o tema é amplo, tornando necessário focar em algumas especificidades dessa grande rede denominada de “relações entre comunicação e democracia”. Assim, primeiro é preciso reconhecer que consideramos as mídias tradicionais como vozes que reforçam o

6 Destacamos que é de nosso conhecimento que existem muitos outros canais de mídias independentes no Brasil, tão importantes quanto a Ninja para tensionar as narrativas midiáticas. No entanto, o foco desta tese serão as narrativas da Ninja.

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pensamento socialmente hegemônico, o qual se relaciona com uma perspectiva de sujeito e de mundo que tem como base as relações capitalistas e conservadoras do status quo vigente. Já a Ninja, com os processos de comunicação colaborativa e a constituição de uma vida em rede, possibilita a configuração de uma outra produção de comunicação e um outro projeto de sociedade, o qual se configura como mais democrático do que o projeto que está posto e que é referendado pela mídia tradicional. Com base nessa perspectiva nos questionamos: de que forma as narrativas da Ninja possibilitam tensionamentos no tecido social contemporâneo?

Considerando a questão levantada acima, algumas perguntas são necessárias para delinear os caminhos que seguiremos na tecitura desta tese: que condições ético-políticas constituem as narrativas, independentes e tradicionais? Que cenas são visibilizadas pelas narrativas da Ninja que apontam para outros possíveis no campo da democratização da sociedade? Como e em que medida a Ninja contribui para a democratização da comunicação?

Para tanto, organizamos a tese em algumas tramas (capítulos) principais, que se compõem de diversos nós que estão interligados. Assim como uma rede de pesca, que é tecida por fios de náilon que percorrem mais de uma vez o mesmo trajeto entre um nó e outro., as tramas desta tese ligam-se através de nós que, por sua vez, estão ligados a diversos outros nós, compondo múltiplas tramas. Cada nó representa um ponto central de uma rede, o qual é imprescindível para que sua estrutura funcione. Se um nó estiver um pouco frouxo, a rede mudará sua estrutura e talvez não cumpra exatamente a sua função; no entanto, outros nós poderão dar o suporte necessário para suprir a falta daquele que afrouxou.

Na primeira trama, “Compondo as tramas da pesquisa”, abrimos espaço para as tecituras da tese que nos fizeram perceber a importância do tricotar sem receitas prévias, instituindo assim um percurso metodológico que se intentou dialógico, sem medidas exatas, buscando auscultar a diversidade de vozes que foram sendo encontradas pelos caminhos, as quais constituem os fios tecidos ao longo da escrita da tese, e que fazem da mesma uma rede híbrida, aberta a diversos outros possíveis.

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Na segunda trama da tese, “Alguns nós que tecem as Redes FdE e Ninja”, apresentamos os primeiros fios que foram tecidos e que dizem respeito à produção de uma outra comunicação. Os mesmos dão visibilidade às tecnologias de vida coletiva instituídas pelo FdE, e que constituem também a Ninja, bem como a produção de comunicação que a mesma apresenta. Alguns aspectos importantes da constituição dessas duas Redes nos auxiliam a compreender como se estrutura a disputa de narrativas com os conglomerados midiáticos.

Na trama seguinte, “Alguns fios importantes: a comunicação digital e a democratização da comunicação”, adentramos no debate sobre a criação das tecnologias de comunicação digitais com o advento da internet e a forma como as/os hacktivistas se apropriaram de suas estruturas em rede, buscando assim conhecer os formatos que a comunicação pode assumir. Em seguida, tecemos os fios que compõem as políticas públicas voltadas para o setor da comunicação no Brasil e a forma como as mesmas vêm se estruturando desde a época da ditadura militar. Esses fios servem como condutores para a tecitura dos próximos nós, que dizem respeito ao movimento de democratização da e na comunicação que foi criado na década de 70, junto com o movimento de redemocratização brasileiro. A proposta desta trama é compreender a comunicação digital, com suas conexões em rede, e sua relação com os processos de democratização da e na comunicação. Neste sentido, apresentamos aqui a compreensão de que cada canal midiático enuncia a partir de um lugar no campo político de enunciação, ou seja, a partir da parcialidade que assume no contexto social.

Em nossa quarta trama, “Disputar narrativas e democratizar a comunicação: quando democracia e comunicação tecem redes”, adentramos no debate sobre o conceito de democracia e a forma como compreendemos o mesmo nesta tese. Tal perspectiva contrapõe-se à forma como a democracia é compreendida no contemporâneo e tem como base teórica os estudos de Jacques Rancière sobre o tema. O tema é costurado com a discussão sobre as políticas públicas de comunicação nos governos de Lula e Dilma, e como a comunicação fora, nesta época, tratada como mercadoria e ao mesmo tempo como um direito a ser garantido pelo Estado. Tal debate nos leva a outra tecitura importante que se relaciona à democratização da e na comunicação: a disputa de

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narrativas entre mídias tradicionais e mídias independentes. Disputas de narrativas instituem cenas de dissenso que revelam os conflitos entre perspectivas diferentes que compreendem o que deve ser visto, ouvido, sentido. Assim, tornam audível o que antes era ruído e possibilitam a criação de outros possíveis.

A próxima trama, “Fervo e protesto: quando a comunicação se encontra com a política”, é tecida pelos fios que compõem o que denominamos de ativismo contemporâneo. O mesmo é composto por uma diversidade de perspectivas que instituem outra forma de fazer política, que está muito relacionada à comunicação digital. Tal perspectiva vem se consolidando no mundo desde os anos 1990 com o surgimento do ciberativismo e do midialivrismo – este último, considerado como o hackeamento de narrativas, vem tensionando a disputa por uma outra forma de produzir comunicação. Neste capítulo, acompanhamos a tecitura dos fios entre política e comunicação digital, e nos propomos analisar essa relação a partir de manifestações de rua que aconteceram no Brasil em 2013 e 2015. Tais manifestações instituíram uma outra forma de organização do campo do político no contemporâneo, a qual engendra relações entre as redes digitais, a rua e o campo artístico-cultural. Essas relações evidenciam, assim, uma constituição de um “Nós” que está sempre em construção e que se relaciona com o desenvolvimento da comunicação digital e da relação da mesma com as pautas das ruas.

Na sexta trama, “Foi Golpe sim!: tecendo redes entre comunicação e democracia”, apresentamos o cenário no qual estruturou-se o golpe parlamentar-jurídico-midiático que derrubou a presidenta Dilma Rousseff de seu cargo de presidenta. Relacionamos essa discussão com o debate que fizemos na terceira trama e que diz sobre o lugar político de enunciação de cada canal midiático, demarcando assim as diversas vozes que estavam em tensão durante o ano de 2016. Evidenciamos os motivos pelos quais compreendemos que este foi um golpe parlamentar (por envolver os setores legislativos e também os partidos políticos que os compõem), jurídico (por ter se estruturado a partir de acordos entre partidos políticos e alguns setores do Pode Judiciário) e midiático (por envolver também os canais de mídia tradicionais que buscavam preparar a opinião pública, desde

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2013). Por fim, consideramos que, as mídias tradicionais e independentes amparam-se em perspectivas diferentes de sociedade e, por este motivo produzem e veiculam comunicação de formas diferentes. No caso das mídias independentes, estas certamente protagonizam atos mais democráticos e contribuem para a constituição de outros modos de pensar e atuar no campo do político.

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1 Compondo as tramas da pesquisa

Observando o movimento do mar, senti que suas ondas se constituem de ondas que já se quebraram e que estão voltando para a imensidão das águas de onde surgiram. Tal movimento faz com que as novas ondas se confundam com as que já se quebraram. Assim é a pesquisa, assim é a vida. O novo que se constitui de partes do antigo. O antigo que se renova no que é produzido atualmente. A pesquisa que vai e volta, que se desenvolve a cada novo caminhar, que possui o antigo, mas que o transforma….

(Diário de campo, 10/11/2015)

Era dia 28 de julho de 2015. As malas estavam prontas – uma mochila com roupas e uma mala de mão com computador, câmera, fone de ouvido, produtos de higiene e um livro. O dinheiro estava na cartucheira, junto com os documentos pessoais e o celular. Saí às cinco da manhã de casa, com destino ao aeroporto de Florianópolis. O cansaço se misturava com a ansiedade, que por sua vez anunciava uma inquietação com o que estava por vir. O avião decolou no horário previsto e às 08:35 da manhã pousou no aeroporto de Guarulhos em São Paulo.

Depois de pegar a mochila que fora despachada, fui até o ponto de ônibus e embarquei em um “Executivo”, o qual, uma hora e meia depois, deixou-me na Estação Tatuapé. A estação integra ônibus, metrô e trem, e faz parte da Linha Vermelha, um dos trajetos de metrô que compõem o sistema de transporte coletivo paulistano. Pensei que havia chegado em horário de pouco movimento, pois um número reduzido de pessoas circulava pela área. Ainda bem, concluí, pois com a mochila seria difícil me locomover em meio a muita gente.

Entrei no metrô em direção à Barra Funda e desci na estação da Sé, que liga a Linha Vermelha à Linha Azul. Logo em seguida, adentrei o metrô da linha Azul sentido Jabaquara, e desci na estação São Joaquim. Subi as escadas em direção à saída para esperar um táxi. Enquanto aguardava, sentei-me em um banco de cimento e pus-me a observar as pessoas que passavam, todas aparentemente com pressa, na

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maioria indo em direção à Estação de metrô. Cheguei na casa FdE São Paulo por volta de meio dia, para realizar a pesquisa de campo do doutorado.

Fui recebida por um participante das Redes, que me apresentou os espaços da Casa e também as pessoas que estavam por ali. Algumas eram moradoras antigas, outras estavam em vivência. Vivência é como as/os Ninjas chamam as estadias de pessoas nas Casas Coletivas. Geralmente as Redes (Ninja e Fora do Eixo) abrem editais de seleção às/aos interessadas/os em conhecer as mesmas e suas atividades. As pessoas selecionadas passam um período nas Casas Coletivas, vivenciando as dinâmicas das Redes e também os processos de produção de comunicação colaborativa. Embora eu não tenha ingressado na Casa FdE São Paulo por meio de edital, elas/es denominaram o período da minha pesquisa de campo como vivência; por este motivo utilizarei tal conceito para descrever este período.

Uma outra menina, a Nath, também estava realizando uma pesquisa sobre a Ninja. Ela estava concluindo o curso de Comunicação Social na Universidade de Santa Maria, e já havia participado da Rede FdE e da Rede Ninja, quando residira na Casa FdE de Santa Maria. Da experiência que tivemos juntas na Casa de São Paulo, surgiu uma proximidade e, por vezes, algumas trocas que perduram até hoje.

Adentrei na casa pela porta da frente, que ao ser aberta revelou-me um ambiente acolhedor com poltronas, algumas fotos e escritos nas paredes que contavam histórias das Redes, bem como um quadro com os nomes das cidades onde aconteceria a edição daquele ano do Grito Rock7. Visualizei a sala ao lado: uma mesa grande de madeira com algumas cadeiras. Fui conduzida a mais uma sala, considerada a sala da Ninja e da gestão da Casa e da Rede. Esses três cômodos eram interligados sem divisória e compunham um pequeno estúdio.

Seguimos para um corredor, em cuja parede estavam pendurados porta-retratos com fotografias que relatavam momentos marcantes da história do FdE e da Ninja. Ao final do corredor, estava a cozinha. A

7 O Grito Rock é um festival de bandas independentes que acontece em diversas cidades e é organizado pela Rede FdE desde o seu surgimento em 2005.

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mesma possuía dois cômodos que não tinham separação física: em um deles ficava uma grande mesa para alimentação, enquanto o outro, um espaço grande, contava com fogão, armários, pia e geladeira. Próximo à cozinha, havia outras duas salas: uma era considerada a sala de edição de vídeos; e a outra, uma sala de reuniões, era mobiliada com um sofá grande e uma TV (que não vi ligada em momento algum da minha estadia).

O piso superior comportava cinco dormitórios e dois banheiros, dos quais somente um era utilizado para banho. Dois quartos eram ocupados por dois casais que moravam na casa, enquanto outros dois dormitórios, de uso coletivo, eram destinados separadamente a mulheres e homens. O último quarto possuía uma cama de casal e era denominado “motel”, o que por si só explicou-me sua função.

Havia uma área externa sem cobertura nos fundos da Casa, na qual era realizado o Domingo na Casa (DNC)8, evento tradicional que acontecia a cada quinze dias no local, trazendo sempre uma temática específica. Ainda na parte externa, uma área fechada chamada “Quartão” servia para alojar bandas que vinham tocar em São Paulo, e também como camarim dos eventos da Casa. Ao fundo do quintal, mais uma edificação, denominada pub. Era um galpão grande, onde eles exibiam filmes e documentários, além de realizar transmissões ao vivo. Esta edificação era constituída de um piso superior, no qual ficava a lavanderia e uma pequena horta.

Pronto, havia conhecido praticamente toda a casa e as pessoas que estavam por ali, as quais fariam parte da minha vivência na Casa FdE nos próximos oito dias. Pensei, e agora? Quais seriam os próximos passos? Deveria aguardar o almoço que estava quase pronto? Poderia adentrar na reunião que já estava em andamento? Ou seria melhor me sentar e esperar a programação da tarde? Muitas dúvidas e uma única certeza, que eu repetia a mim mesma o tempo todo: “Josi, sem ansiedade

8 Em minha vivência na Casa FdE São Paulo tive a oportunidade de participar da produção e realização de um DNC, cuja temática foi “Refugiados”. O evento contou com a participação de diversos haitianos que viviam no bairro do Cambuci, o mesmo no qual fica localizada a Casa FdE São Paulo.

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e sem expectativas que tudo vai dar certo….” ou, como viria aprender ali, nos dias seguintes: “pega esse bonde e vai”.

No entanto, o que percebi aos poucos era que estava enlaçada a diversas expectativas, as quais se faziam presentes nos questionamentos que levava comigo a partir das diversas vozes sociais que me compunham/compõem enquanto sujeito e pesquisadora. É neste sentido que compreendo o conceito de experiência, o qual utilizarei para falar sobre a pesquisa de campo. Tal conceito constitui-se pela multiplicidade que sou, e também pela multiplicidade que serei após os encontros possíveis.

Tal conceito pode ser relacionado à perspectiva de eventicidade que Bakhtin (1920/2010c) nos apresenta. Para o autor, estamos inseridas/os no mundo de forma responsiva, de modo que a eventicidade denota o nosso agir no mundo desde essa responsividade, como participante ativa/o do existir-evento, ou seja, dessa vida em devir, aberta para muitos possíveis. Esta perspectiva nos leva à compreensão da pesquisa como uma possibilidade de reflexibilidade, de olharmos para nós mesmas/os e para essas/es outras/os com as/os quais se pesquisa de forma inconclusa, sem sistematizar conhecimentos e objetificar verdades. Assim, adentrei na vivência na Casa FdE São Paulo buscando um olhar exotópico sobre o campo a ser pesquisado, sobre eu mesma e também sobre aquelas/es com as/os quais estava pesquisando.

A exotopia, na perspectiva bakhtiniana, compreende um olhar a partir de uma outra perspectiva, em outro tempo e a partir de outra relação. Bakhtin (1979/2011) apresenta esse conceito quando teoriza sobre a relação entre autor e personagem na escrita literária. A exotopia é, portanto, o excedente de visão que o autor tem com a sua personagem e com o todo da sua obra; assim, para concluí-la ele precisa contemplá-la a partir de um outro lugar. A partir desse afastamento é que o autor dá o acabamento para sua obra e dá vida à/ao personagem, compartilhando a obra para as/os leitoras/es (ou expectadoras/es quando falamos de obras visuais) atribuírem à mesma os sentidos diversos.

A exotopia também é compreendida como o processo de “afastar-se” para enxergar sob outras perspectivas a eventicidade que compõe as tramas de nossa vida. Vida que se constitui a partir das relações que estabelecemos com outros, as quais nos possibilitam a reflexibilidade

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sobre nós mesmas/os (Bakhtin, 1920/2010c) e que são demarcadas pela constante dialogia que nos compõe. Uma pesquisa que se intentou dialógica pois buscou dar visibilidade às tensões criadoras que possibilitam problematizarmos nosso lugar enquanto sujeito nessa arquitetônica que organiza tempos, espaços e valores heterogêneos.

Dialogia aqui compreendida a partir do que Bakhtin (1979/2011, p. 400) apresenta em seu ensaio sobre as metodologias nas ciências humanas, quando propõe que o “sujeito como tal não pode ser percebido e estudado como coisa porque, como sujeito e permanecendo sujeito, não pode tornar-se mudo; consequentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico”.

Portanto, dentro da perspectiva da exotopia, o olhar que se tem “sobre o outro não coincide nunca com o olhar que ele tem de si mesmo” (Amorim, 2002, p14). É a partir de relações exotópicas que enxergamos essas/es outras/os com os quais pesquisamos. Mas é também a partir dessas relações com as/os mesmas/os que podemos nos afastar daquilo que somos e olhar para nós na condição de pesquisadoras/es. É desses deslocamentos de lugares que a rede da pesquisa vai sendo tecida.

Pesquisar é como tricotar com diversos fios diferentes, de cujas cores não temos conhecimento prévio, semelhante ao ato que aprendi com minha mãe, que disponibilizava as sobras dos novelos de lã que restavam da confecção de nossas roupas de inverno, os quais eu utilizava para criar roupas para minhas bonecas. Eram fios que eu ia encontrando espalhados pela casa, em caixas onde minha mãe guardava seus utensílios de tricô.

Foi de maneira análoga que fui encontrando os fios para a tecitura desta tese, espalhados no caminho para a realização da pesquisa, percorrido “sem direções antecipadas” (Zanella, 2017, p. 101). Ato de tricotar que me levou para a “reinvenção da vida, para a invenção de mundos outros” (p. 106). Neste sentido, permiti-me adentrar à vivência no campo de pesquisa, buscando reinventar a mim mesma e me provocando a despir de muitas certezas, sem deixar de lado as marcas de minha existência, as quais carregava em minhas bagagens.

Durante a vivência na Casa FdE São Paulo, busquei conhecer e compreender a potência das Redes Ninja e FdE, a forma como se

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organizavam coletivamente, quais as dificuldades que encontravam nessa vida em rede e como se articulavam para superar as mesmas. Sob essa perspectiva, trazia comigo uma expectativa de me conectar às pessoas que compõem essas Redes e me tornar parte delas.

Porém, esqueci-me de que havia ali uma diferença entre eu – pesquisadora – e as/os viventes das Casas. Geralmente as vivências têm como proposta conhecer os processos que são desenvolvidos e levá-los a outros lugares. Assim, tive dificuldade em encontrar qual seria esse meu lugar de pesquisadora, que não poderia se confundir com o lugar de uma vivente, embora ao mesmo tempo fosse também o lugar de quem estava em vivência. Afinal, experienciava a vida em rede, participando das atividades, assumindo responsabilidades que são compartilhadas e auxiliando na execução de tarefas coletivas; porém, estava naquele lugar como “a pesquisadora”.

Neste contexto, considero que tive dificuldades em adentrar em algumas dinâmicas já estabelecidas na Rede que, por muitas vezes, encontrava-se rígida aos olhares acadêmicos que eu representava para elas/eles. Ao mesmo tempo, um pouco dessa dificuldade se deu por conta da minha própria timidez e rigidez em alguns pensamentos, bem como minha atitude de contestar, argumentar e compreender algumas questões que me eram nítidas – afinal, a mim era possível o distanciamento, através do qual podia enxergar questões que elas/es não enxergavam.

Houve outras dificuldades enfrentadas por mim, relativas ao ritmo de trabalho ao qual elas/es estão habituadas/os. Há o estabelecimento de um ritmo de produção intenso, que impede muitas vezes de se ter o descanso necessário para continuar, o que pode dificultar o reconhecimento e a compreensão sobre o tempo de cada um/a nessa rede. Esse ritmo pode ser relacionado com o tempo frenético de produtividade que o capitalismo nos impõe, e que é típico das cidades modernas, que estão 24 horas por dias funcionando e que nos obrigam a dar conta de tudo ao mesmo tempo. Neste aspecto, é preciso considerar que este ritmo é uma das linhas que nos subjetiva e a qual, por mais que tentemos escapar, se faz presente na forma como nos relacionamos, e por isso se revela também nos espaços que tensionam esse tipo de

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relação. Contudo, é de se considerar que para lidar com o enfrentamento a essa perspectiva, é preciso adentrar em sua lógica para subvertê-la.

Assim, fui me conhecendo a partir dessas/es fios que comigo se conectavam; neste processo, fui também compreendendo as diversas possibilidades de olhar para a pesquisa e para as inquietações que carregava comigo naquela experiência. Permiti-me tecer novas inquietações a partir de retalhos de fios que fui encontrando ao caminhar por aquela Casa, e que trouxe em minhas bagagens de regresso. Muitas dessas tecituras só foram possíveis após o término da vivência, ao experienciar o processo de escrita da tese. Para olhar com outros olhos os detalhes da pesquisa, foi preciso certo distanciamento, esse movimento exotópico que Bakhtin (1979/2011) nos ensina.

Consideramos a pesquisa como um processo de tecitura de redes diversas, com conexões múltiplas entre sujeitos diferentes. Por muitas vezes é difícil definir quando se inicia a costura dessa rede, mas sabemos que um dos nós principais encontra-se nos questionamentos que levantei sobre o tema que me interessava pesquisar, qual seja: quais as relações possíveis entre a comunicação independente e a democracia? Durante a experiência na Casa FdE São Paulo levei comigo este questionamento, buscando não respondê-lo, afinal, é impossível encontrar resposta para tamanha pergunta. Meu propósito era esmiuçá-la, vivenciá-esmiuçá-la, problematizá-esmiuçá-la, e assim colecionar perguntas (Zanelesmiuçá-la, 2013) que iriam compor as tramas desta tese. É sob esta perspectiva que compreendemos que pesquisar é, portanto, olhar para as singularidades que vão criando um campo de possibilidades de constituir outras formas de pensar, de viver, de perceber, de sentir e de nos relacionarmos com nós mesmas/os e com os outros, pautados em uma ética dos afetos (Spinoza, 2009). Afetos que são compreendidos como territórios que constituem possibilidades para olhar dialogicamente o campo da pesquisa (S. Rolnik 1987/2011).

Enquanto estive na Casa FdE São Paulo experienciei a produção de uma comunicação em rede, com os diversos nós construindo narrativas outras que visavam a disputa com a mídia tradicional. Auxiliei na produção de dois eventos (o Puro Lacry e o Domingo na Casa – Cultura de Refúgio), dormi pouco, fumei muito e tomei muito café. Participei de uma reunião sobre a produção do Festival Amanhecer

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