UNIJUI- UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
DHE - DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
NIQUÉLE CAROLINE MONTEIRO DUTRA DE MORAES
AS IMPLICAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA VIDA DO SUJEITO
Santa Rosa/RS 2019
NIQUÉLE CAROLINE MONTEIRO DUTRA DE MORAES
AS IMPLICAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA VIDA DO SUJEITO
Monografia apresentada ao Curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ, como requisito parcial a obtenção do título de Bacharel em Psicologia.
Orientadora: Taís Cervi
SANTA ROSA/RS 2019
A minha família, por me apoiar durante o percurso acadêmico, aos professores por todo aprendizado e a Deus por me possibilitar chegar até aqui.
AGRADECIMENTOS
Meus agradecimentos...
A Deus, que sem sua permissão nada somos e nada realizamos, que me acompanha e me abençoa em cada projeto e conquista de vida.
A minha família, minha mãe Solange, meu padrasto Valdenir que considero como meu pai; e meu irmão Emerson. Em especial a minha Mãe, pois mesmo não tendo a oportunidade de concluir os estudos por percalços da vida, nunca deixou de me incentivar a estudar, a querer ir atrás de meus objetivos. Apesar das privações e dificuldades que passamos, jamais deixou de ser essa mulher forte e batalhadora da qual tenho orgulho de ser filha.
Aos amigos que conquistei no decorrer do curso, e que estão e permanecerão comigo, nos momentos de alegria ou tristeza.
Aos Mestres, que me apresentaram um saber que me conduziu pelo desejo de sempre querer ir em busca de aprender mais.
Em especial, agradeço aos professores supervisores de estágio durante o percurso acadêmico: Silvia Cristina Segatti Colombo, Marcele Homrich Ravasio, Gustavo Hector Brun, e de uma forma especial a orientadora deste trabalho, Taís Cervi por ter acolhido minha proposta de trabalho e me acolhido em momentos de angústias. Agradeço também à professora Carolina Gross por aceitar fazer parte da minha banca. Grata a todos pelos ensinamentos compartilhados.
Ao FIES, pois sem o financiamento e aos meus fiadores Maria e Julio, não conseguiria realizar meu sonho que era entrar na faculdade e cursar Psicologia.
A todos que direta ou indiretamente fizeram parte desse meu percurso acadêmico.
Minha eterna gratidão ao meu companheiro, marido e amigo Daniel, pelo incentivo de sempre, paciência e compreensão. Ao meu filho amado e tão desejado Benjamim, que veio para me mostrar e me fazer sentir o que é o amor incondicional. Chegou para ser luz e trazer felicidade em nossas vidas. Amo vocês!
O trabalho não é apenas um teatro aberto ao investimento subjetivo, ele é também um espaço de construção do sentido e, portanto, de conquista da identidade, da
RESUMO
Este trabalho parte de uma pesquisa bibliográfica, que abordou a relação entre o homem e a organização do trabalho buscando esclarecer as possíveis consequências tanto da organização quanto da falta da mesma no âmbito do trabalho. A forma como a organização do trabalho é imposta ao sujeito, pode desencadear vivências de prazer e sofrimento. Muitas vezes, a organização não estabelece condições necessárias para o trabalho do sujeito, que entra na organização com expectativas de que a mesma supra seus objetivos de vida e acaba se frustrando. Cada sujeito é único, e vai reagir aos impasses impostos pela organização de trabalho de uma maneira diferente. Alguns conseguem reverter o sofrimento em fonte de prazer no trabalho, outros que adoecem e entram em sofrimento. O prazer e o sofrimento no trabalho sempre vão estar presentes, não se pode anular um ou outro, a posição do sujeito e a forma como ele vai se haver com esses acontecimentos psíquicos é que vai fazê-lo experenciar uma ou outra vivência no âmbito do trabalho.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 8 1. ASPECTOS HISTÓRICOS DO TRABALHO E SUA IMPORTÂNCIA PARA O SUJEITO ... 10
2. VIVÊNCIAS DE PRAZER E/OU SOFRIMENTO NO AMBIENTE DE TRABALHO
... ... 15 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 22 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 23
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INTRODUÇÃO
Ao trabalho se atribui inúmeros significados, que podem ser carregados de afeições ou reprovações, satisfação ou repudio, medos, sofrimento, essencial a sobrevivência ou dignidade. Para Marx (1983) é pelo trabalho que o sujeito pode transformar a natureza e a si mesmo, deixando nela sua identidade de acordo com suas necessidades e possibilidades.
Cada sujeito vai experenciar o trabalho de uma forma singular, pois os diferentes conceitos de trabalho vão advir de um discurso de um tempo, de uma cultura, de uma história que cada sujeito vivenciou e a partir dessa história é que vão atribuir ao trabalho um significado. O trabalho faz parte da vida do ser humano, ou melhor dizendo, é a própria existência do homem, mas quando o ambiente de trabalho desse sujeito não lhe dá um lugar de apropriação de seu fazer, esse sujeito pode não se reconhecer no trabalho que desempenha, gerando sofrimento no ambiente de trabalho. Nesse sentido, esta pesquisa tem como finalidade compreender a importância do trabalho na vida do sujeito, bem como compreender a forma como a organização do trabalho pode ser um fator que vai desencadear no sujeito, vivências de prazer ou sofrimento, e como o sujeito vai se colocar frente a essas duas faces.
Mendes (1995) considera que a busca do prazer no trabalho e a fuga do desprazer constituem um desejo permanente para o trabalhador, em decorrência das exigências contidas no processo, nas relações e na organização do trabalho. O ambiente de trabalho, muitas vezes, oferece condições adversas a este propósito, gerando desprazer, expresso numa vivência de sofrimento, com sintomas específicos, transformando trabalho em necessidade de sobrevivência, no lugar de fonte sublimatória de prazer.
Esta pesquisa, visa não encontra respostas ou culpados, mas refletir acerca do sofrimento psíquico desencadeado nos trabalhadores, derivados de impasses entre organização do trabalho e sujeito.
A metodologia utilizada neste trabalho será a pesquisa bibliográfica, qualitativa de cunho exploratório. Segundo Gil (2002) uma pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. O trabalho será dividido em dois capítulos.
No primeiro capítulo, intitulado Aspectos históricos do trabalho e sua
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a questão histórica, bem como, os diferentes conceitos e modelos de organização de trabalho. No segundo capítulo intitulado Vivências de prazer e/ou sofrimento no
ambiente de trabalho a abordagem explanará o conceito de prazer e sofrimento
paralelos a relação de trabalho e sujeito, fazendo uma releitura de Dejours, e também do que Freud traz sobre o sofrimento em relação ao sujeito e seu trabalho, assim como, contribuições de outros autores que compartilham da temática.
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1. ASPECTOS HISTÓRICOS DO TRABALHO E SUA IMPORTÂNCIA PARA O SUJEITO
O termo trabalho tem vários significados para diferentes áreas de conhecimento e também para o senso comum. Segundo o dicionário on-line de Português,1 trabalho é definido como um conjunto de atividades realizadas por alguém para alcançar um determinado fim ou propósito; é o ofício ou profissão de alguém.
Segundo Albornoz (1994) a palavra trabalho tem sua origem no vocabulário latim Tripallium, que era um instrumento de tortura formado por três (tri) paus (pallium)
aguçados, algumas vezes ainda munidos de pontas de ferro, no qual os agricultores batiam o trigo, as espigas de milho, o linho para rasgá-los e esfiapá-los. Para a autora, a palavra trabalho as vezes, pode vir carregada de emoção, lembra dor, tortura, suor no rosto, fadiga. Em outras, mais que aflição e fardo, designa a operação humana de transformação da matéria natural em objeto de cultura. Lembra ainda, o homem em ação para sobreviver e realizar-se, criando instrumentos, e com esses, todo um novo universo, cujas vinculações com a natureza, embora inegáveis, se tornam opacas.
Cada sujeito vai atribuir ao trabalho um significado diferente, pois ele diz de um tempo, uma cultura e de uma história que cada sujeito fora inserido, tanto coletivamente quanto singularmente, podendo o sujeito atribuir à palavra trabalho inúmeros adjetivos, seja a partir da organização, do prazer e/ou desprazer, dor, cansaço, dignidade ou necessidade.
Segundo Neves (2018) é pelo trabalho que o sujeito pode transformar a natureza e a si mesmo, deixando nela sua identidade de acordo com suas necessidades e possibilidades. O homem tem a capacidade de criar e recriar determinado ambiente e nela inserir seus objetivos, imprimindo no seu trabalho, a sua própria identidade. Para o autor, o homem tem capacidade de dar significado ao que encontra na natureza por uma atividade elaborada e consciente, na qual transforma a si mesmo e a natureza, ressignificando-se subjetivamente e no todo. Assim, se torna possível diferenciar o trabalho humano ao de qualquer outro animal.
O trabalho no decorrer da evolução humana, era tomado como determinante na manutenção da vida do sujeito trabalhador, tanto individual como coletivamente. O trabalho era a própria existência. Para Neves (2018) a que se compreender que fica definitivamente impossível abolir o trabalho da existência humana, diante do impacto
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e importância que o trabalho nela provoca. O trabalho não era meramente desempenhado para suprir as necessidades de sobrevivência, mas era fonte de criação, satisfação, contemplação do sujeito. Contudo, hoje o trabalho está sendo, “[...] um esforço planejado e coletivo, no contexto industrial, na era da automação” (ALBORNOZ, 1994, p. 42).
Freud (1930) em seu texto O mal-estar na civilização, vai trazer que o trabalho não se assemelha a nenhuma outra técnica que mantém o sujeito na realidade. O trabalho fornece ao sujeito na comunidade humana, um lugar seguro em uma parte da realidade, possibilitando a ele, deslocar parte de seus impulsos libidinais para o trabalho.
Historicamente, a partir da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, com frequência foi se abandonando o trabalho autônomo por um emprego nas grandes organizações, com a expectativa de um trabalho menos arriscado do que se exercia no campo, no qual em contrapartida, se poderia desfrutar de regalias que a cidade oferecia, mesmo que não para todos.
Desde a Revolução Industrial do século XIX, um número relativamente grande de pessoas começou a trabalhar em conjunto, voluntariamente, nas relações administrador-subordinado. A revolução Industrial trouxe muita mudança tecnológica ao local de trabalho. Durante essa era, a ênfase foi no trabalho sendo realizado, e não na pessoa que realizava o trabalho (ROTHMANN e COOPER, 2009, p. 7).
Nesse contexto, o sujeito vai se deparar com a modernização da cidade, onde tudo é criado para melhor comodidade de vida, contudo, precisou se haver com a rapidez da produção da máquina. O sujeito encontra então, um trabalho diferente. Não é como um trabalho autônomo onde o sujeito sente necessidade de descanso e para quando deseja. Esse tipo de trabalho passa a exigir um desempenho de produção desse sujeito trabalhador e ele deve dar conta na concepção da organização.
Para Albornoz (1994) no mundo industrial falta o vínculo com o trabalho e o resto da vida. Para agir livremente deixa-se o tempo que sobra do trabalho. Assim, se separa totalmente trabalho de lazer, de prazer, de cultura, de renovação das forças anímicas, que deverão ser buscadas no tempo que sobrar do trabalho.
As formas de trabalho no mundo industrial, traz trabalhadores em um ambiente de trabalho que não lhes dão condições favoráveis de apropriação de sua tarefa. Além disso, um distanciamento dos sentimentos de prazer e satisfação do trabalho, como
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se não pudesse haver os dois sentimentos no mesmo ambiente. Essa concepção de organização de trabalho segue no modelo taylorista.
A partir desse momento, é importante situarmos o modelo de organização de trabalho do Taylorismo criada por Frederick Winslow Taylor e chamada por ele de Administração científica. Segundo Rothmann e Cooper (2009) a administração científica era pautada na maximização da eficiência e maior obtenção possível de desempenho dos empregados na produção. Tal organização se preocupava com as ineficiências nas tarefas de trabalho manual e pensava que se estudado cientificamente os movimentos específicos que perfaziam a tarefa total, se poderia determinar um método racional, objetivo e efetivo de realizar as tarefas.
Para Rothmann e Cooper (2009), a administração científica de Taylor possuía dois aspectos. O primeiro deles era de que o empregado era escolhido com muito cuidado e treinado para as funções que desempenharia. O segundo se referia à motivação nos espaços de trabalho como um aspecto importante.
O taylorismo foi marcado pela racionalização do trabalho e produção, prolongadas e repetitivas horas de trabalho, concepção e execução do trabalho, cronometragem e uma hierarquia/chefe que controlava a produção. Era uma organização de trabalho muito rígida. Dejours em seu livro A loucura do trabalho (1992), faz uma crítica ao sistema apontando que “ao separar, radicalmente, o trabalho intelectual do trabalho manual, o sistema Taylor neutraliza a atividade mental dos operários” (DEJOURS, 1992, p. 19).
Em 1914 surge o fordismo idealizado por Henry Ford com o objetivo principal de diminuir os gastos de produção e assim produzir em massa para atingir maior número de consumidores. Ele seguiu o modelo taylorista mas desenvolveu técnicas que aperfeiçoaram a linha de produção, como a criação da esteira. Os trabalhadores ficavam em frente a essa esteira aguardando as peças para montar sem precisar sair do lugar, o que resultaria em uma mais ágil produção. Cada trabalhador executava uma parte do processo de produção, um trabalho desgastante, alienante e repetitivo. Por não precisar de uma mão de obra especializada e qualificada, os trabalhadores recebiam baixos salários e eram submetidos à rotinas cansativas de trabalho2.
Entre 1948 e 1945 surge o Toyotismo que foi idealizado pelos engenheiros Taiichi Ohno (1912-1990), Shingeo Shingo (1909-1990) e Eiji Toyoda (1913-2013).
2 Informações retiradas do site https://pt.wikipedia.org/wiki/Fordismo e das aulas do componente
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Este modelo produtivo foi desenvolvido nas fábricas da montadora japonesa de automóveis Toyota. O toyotismo surge para diminuir o excesso de produção e somente se produzir a partir do consumo. Trabalha-se com a demanda e controle da produção e a pesquisa de mercado visando a qualidade dos produtos3.
O trabalho ainda continua sendo essencial à condição humana, provedor de crescimento, desenvolvimento, sobrevivência e também fonte de prazer. Entretanto, notamos que o trabalho contemporâneo ainda cultiva características do modelo de trabalho da Revolução Industrial e do Taylorismo, onde a saúde do trabalhador era imposta à agressões. Com o rápido avanço da tecnologia, máquinas foram criadas para facilitar o trabalho humano e diminuir o esforço físico. Contudo, elas acabam por se tornar mais cansativas psicologicamente ao sujeito. Este se vê as voltas para dar conta de acompanhar um sistema que prega a produtividade a qualquer custo, que é movida pelo capitalismo cada vez mais competitivo.Segundo Clot (2006 apud Souza, 2017, p. 13), privar o indivíduo de sua capacidade de criação em um meio de constante mudança é tão penoso quanto o esforço feito por ele para seguir o intenso ritmo de trabalho. Sem poder abolir os pensamentos, o homem busca no seu máximo esforço isolá-los.
Para Clot (2006 apud Souza, 2017, p. 13) a forma como o trabalho vai ser desempenhado, permitirá ao sujeito atribuir a sua tarefa significado ou não, influenciando no sentido individual que a mesma tem para cada sujeito. Esse sentido atribuído ao trabalho pode desencadear vivências de prazer e/ou de sofrimento. De acordo com Dejours (1993) o trabalho não é apenas um teatro aberto ao investimento subjetivo, ele é também um espaço de construção do sentido e, portanto, de conquista da identidade, da continuidade e historicização do sujeito.
A maneira como o trabalho foi abordado neste capítulo, diz de uma história, uma cultura que cada sujeito fora inserido, e que vai repercutir na sua concepção de sentido e significado que o trabalho vai atribuir em sua vida. As formas de organização de trabalho ao longo da história sofreram algumas modificações, mas carregam atualmente, traços dos modelos anteriores, onde a organização gira na era do capital e do consumismo e o sujeito tenta se inserir nesse meio. De acordo com Mendes (1995) a necessidade de estudar mais profundamente a relação do trabalho com os
3 Informações retiradas do site https://www.todamateria.com.br/toyotismo/ e das aulas do componente
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processos psíquicos tem sua origem no começo do século XX, com ampla aplicação dos princípios tayloristas criados com o objetivo de racionalizar o trabalho.
Partindo dessa ideia de que o sujeito tenta se inserir aos modelos de organização de trabalho, que por muitas vezes lhe é adversa as suas aspirações de vida, podemos pensar que sentimentos de prazer e/ou sofrimento no trabalho poderão emergir. Essa é a questão que trataremos no segundo capítulo.
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2. VIVÊNCIAS DE PRAZER E/OU SOFRIMENTO NO AMBIENTE DE TRABALHO
Mendes (1995) aponta que com o desenvolvimento industrial e a acentuação da divisão entre concepção e execução do trabalho, trouxeram graves prejuízos à saúde física e mental dos trabalhadores, em consequência de prolongadas jornadas de trabalho, ritmo acelerado da produção, fadiga física, e sobretudo, automação, não participação no processo produtivo e parcelamento das tarefas.
Dejours (1992) faz crítica ao modelo de trabalho desenvolvida por Taylor, e demonstra que é a organização do trabalho a responsável pelas consequências penosas ou favoráveis para o funcionamento psíquico do trabalhador. Para o autor, no ambiente de trabalho podem ocorrer vivências tanto de prazer como de sofrimento, as quais podem ser expressadas por meio de sintomas específicos de cada sujeito direcionada para o contexto sócio profissional e à própria personalidade.
Segundo Dejours (1993) o trabalho torna-se perigoso para o aparelho psíquico quando ele se opõe a sua livre atividade. O bem-estar, em matéria de carga psíquica, não advém só da ausência de funcionamento, pelo contrário, de um livre funcionamento, articulado dialeticamente com o conteúdo da tarefa, expresso por sua vez, na própria tarefa e revigorado por ela. Em termos econômicos, o prazer no trabalho resulta da descarga de energia psíquica que a tarefa autoriza, o que corresponde a uma diminuição da carga psíquica do trabalho, ou seja, quando o trabalho não dá a esse trabalhador, condições das quais ele possa elaborar suas funções livremente.
O sujeito precisa de um livre funcionamento, para que assim, consiga na laborativa da tarefa em que desempenha, se identificar com o que está fazendo, conseguindo uma articulação no conteúdo da tarefa, e por ela mesma, se revigorar. Assim, a organização do trabalho é importante para o sujeito trabalhador, desde que não rigidamente. Entretanto, a falta de organização do trabalho, também pode gerar sofrimento para esse trabalhador.
Segundo Ferreira e Mendes (2001) o sujeito vivencia o prazer, representado
pela sensação de bem-estar, motivação e satisfação no trabalho quando também é permitida a expressão da sua individualidade e da criatividade. O prazer no ambiente de trabalho é vivenciado quando o mesmo lhe dá condições favoráveis de realização de uma tarefa, reconhecimento e valorização do desempenho da mesma.
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Para Souza (2017) o sofrimento está associado a divisão e a padronização de tarefas, com subutilização do potencial técnico e da criatividade dos indivíduos, à rigidez hierárquica, com excesso de procedimentos burocráticos, ingerências políticas, centralização de informações, falta de participação nas decisões e não reconhecimento; e a pouca perspectiva de crescimento profissional, podendo aparecer outros fatores de acordo com a cultura organizacional.
Mendes (1999, apud Ferreira e Mendes, 2001, p. 96) elaborou um conceito de dados empíricos para as vivências de prazer-sofrimento, fundamentado na abordagem da psicodinâmica. Este conceito é uma operacionalização da construção que deu origem à elaboração de uma escala submetida à análise fatorial, resultando em três indicadores de cada uma das vivências. Nesse estudo, o prazer é definido a partir de dois fatores: valorização e reconhecimento no trabalho. A valorização é o sentimento de que o trabalho tem sentido e valor em si mesmo, é importante e significativo para a organização e para a sociedade. O sentimento de reconhecimento significa ser aceito e admirado no trabalho e ter liberdade para expressar sua individualidade. O sofrimento é definido a partir do fator desgaste, que é a sensação de cansaço, desânimo e descontentamento com relação ao trabalho.
Freud (1930, apud Mendes, 1995, p. 174) aponta que a atividade do homem caminha em duas direções: busca de ausência de sofrimento e desprazer e de experiência intensa de prazer. O prazer estaria relacionado à satisfação de necessidades em alto grau desse sujeito, que vem a se tornar uma manifestação episódica, que tem em vista contrariedades impostas pela civilização. De outro lado, o sofrimento é caracterizado por sensações de desprazer, causada pela não satisfação das necessidades. Estas são de origem inconsciente e estão relacionadas aos desejos mais profundos do sujeito, reveladas ao consciente muitas vezes como expectativas de vida.
Freud (1930) vai apontar que o sofrimento ameaça o homem em três direções: do próprio corpo, que com seu declínio e dissolução não pode dispensar a dor e o sofrimento; do mundo externo, que recai sobre o homem com força de extremo poder e sem controle; e as relações com os outros homens, que se tornam um acréscimo de sofrimento pela dependência do Outro que lhe demanda.
A atividade profissional constitui fonte de satisfação, se for livremente escolhida, isto é, por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de impulsos instintivos (pulsionais) persistentes ou
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constitucionalmente reformados. No entanto, como caminho para felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob pressão da necessidade, e esta aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis (FREUD, 1930, p. 174).
Desta forma, Mendes (1995) considera que a busca do prazer no trabalho e a fuga do desprazer constituem um desejo permanente para o trabalhador, em decorrência das exigências contidas no processo, nas relações e na organização do trabalho. O ambiente de trabalho, muitas vezes, oferece condições adversas a este propósito, gerando desprazer, expresso numa vivência de sofrimento, com sintomas específicos, transformando trabalho em necessidade de sobrevivência, no lugar de fonte sublimatória de prazer.
Se, por um lado, as condições de trabalho têm por alvo principalmente o
corpo, a organização do trabalho, por outro lado, atua a nível do funcionamento psíquico. A divisão das tarefas e o modo operatório incitam o
sentido e interesse do trabalho para o sujeito, enquanto a divisão de homens solicita sobretudo as relações entre pessoas e mobiliza os investimentos afetivos, o amor e o ódio, a amizade, a solidariedade, a confiança (DEJOURS, 1993, p. 126).
Dejours (1992) conceitua organização do trabalho como sendo a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (na medida em que ele dela deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder, as questões de responsabilidades. Já por condição de trabalho é preciso entender, antes de tudo, ambiente físico (temperatura, pressão, barulho, vibração, manipulados, vapores e altitude etc.), ambiente químico (produtos manipulados, vapores e gases tóxicos, poeiras, fumaças etc.), ambiente biológico (vírus, bactérias, parasitas, fungos), as condições de higiene, de segurança, e as características antropométricas dos posto de trabalho. Para o autor, os aspectos relativos a divisão e conteúdo das tarefas, sistema hierárquico e relações sócio profissionais são estabelecidos a partir de padrões específicos do sistema de produção que, por sua vez, determinam a estrutura organizacional na qual o trabalho é desenvolvido.
Dejours (1990, apud Mendes, 1995, p. 36) passa a considerar que a organização do trabalho resulta das relações intersubjetivas e sociais dos trabalhadores com as organizações. Compromissos entre os homens são estabelecidos para definir regras defensivas e regras de ofício, e entre a chefia para
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negociar essas regras, e obter novos compromissos renegociáveis a posteriori, onde caracteriza-se sua evolução em função dos homens, do coletivo, da história local e tempo.
Segundo Mendes (1995) o trabalho não é lugar só de sofrimento ou só de prazer, mas é proveniente da dinâmica interna das situações e da organização do trabalho, assim como, as relações subjetivas, condutas e ações dos trabalhadores são permitidas pela organização do trabalho. Nesse sentido, se pode considerar que o modelo de organização do trabalho prescrito pela organização, assim como, as relações subjetivas dos trabalhadores com o trabalho, possuem papel fundamental na determinação de vivências de prazer, com consequências para a produtividade.
Dejours (1993) em sua obra Psicodinâmica do Trabalho, vai trazer a distinção de dois tipos de sofrimento: o sofrimento criativo e o sofrimento patogênico. Entende-se por sofrimento patogênico, quando as possibilidades de liberdade na transformação, gestão e aperfeiçoamento da organização do trabalho já foram utilizadas, quando foram explorados todos os recursos defensivos, o sofrimento residual, não compensado e começa a destruir o aparelho mental e o equilíbrio psíquico do sujeito, levando-o assim, para uma descompensação, seja mental ou psicossomática e para a doença. Quando o sofrimento pode ser transformado em criatividade, ele traz uma contribuição que beneficia a identidade, aumentando a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática.
O trabalho funciona então como um mediador para a saúde. Quando, ao contrário, a situação de trabalho, as relações sociais de trabalho e as escolhas gerenciais empregam o sofrimento no sentido de sofrimento patogênico, o trabalho funciona como mediador da desestabilização e da fragilização da saúde (DEJOURS,1993, p. 137).
Dejours (1990, apud Mendes 1995, p. 35) coloca que a qualidade do sofrimento está relacionada à cadeia biográfica e a história de vida do sujeito. Quando as condições externas salientam esta cadeia, haverá um reencontro das relações parentais infantis com a realidade atual. A organização do trabalho vai resultar das relações intersubjetivas e sociais dos trabalhadores com as organizações. Nessa relação, serão estabelecidos compromissos entre os homens para definir regras defensivas e de ofício, e entre a gestão para negociar essas regras, onde caracterizam-se pela evolução em função dos homens, coletivo, história local e do tempo.
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Mendes (1995) em sua releitura sobre a psicodinâmica, identifica que o trabalho humano não ocupa uma posição marginal dentro da construção da identidade do sujeito, e que a mesma, deve dar vasão ao estudo da sublimação, ao invés de somente processos patológicos, pois a energia sublimada é essencial para a construção e manutenção da economia psicossomática de cada sujeito.
A sublimação no trabalho pode suscitar questionamentos a respeito de seu papel no processo de alienação. Por isso vale destacar que a sublimação não significa necessariamente resistência as mudanças, bem como pressupõe criatividade e participação do trabalhador, não constituindo um processo passivo e conformado diante das imposições das situações de trabalho, mas sim, um resultado de uma negociação bem-sucedida entre desejos inconscientes do sujeito e a realidade (MENDES, 1995, p. 36).
O trabalhador, por não suportar o sofrimento na organização de trabalho, pode tornar esse sofrimento em criação e prazer, e não se valer de único recurso das estratégias defensivas. A transformação desse sofrimento em criatividade, vai depender da ressonância simbólica e do espaço público de discussão coletiva. A ressonância simbólica ocorre quando há uma compatibilização entre as representações simbólicas do sujeito, seus investimentos pulsionais e a realidade de trabalho, vai articular o teatro privado da história singular do sujeito ao teatro atual e público, referenciada da sublimação e do prazer no trabalho de trabalho (DEJOURS, 1990, apud MENDES, 1995). “Para que a curiosidade fundamental do sujeito seja solicitada e ativada pelo encontro com a situação de trabalho, é necessário que a tarefa tenha um sentido para o sujeito, tendo em vista sua história singular”. (DEJOURS, 1993, p. 134).
De acordo com Mendes (1995) o trabalho pode ser considerado como o lugar de satisfação sublimatória, quando o trabalhador transfere sua energia pulsional, que inicialmente é dirigida para as figuras parentais com objetivo de satisfação imediata e para as relações sociais com satisfação mais altruísta. Muitas vezes a organização é rígida e limitada, não permitindo que ocorra o processo de ressonância simbólica, pois há uma exigência de responsabilidades, como a separação do trabalho real e o prescrito e a execução e concepção do trabalho.O espaço público é construído pelos próprios trabalhadores, constituindo o momento em que são partilhadas a cooperação, a confiança e regras comuns. Representa o espaço da fala, da expressão coletiva do sofrimento e da busca de mecanismos de transformação da situação vigente.
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O sofrimento criativo não é sinônimo de prazer. Este pressupõe um investimento sublimatório, no qual o prazer sexual infantil será substituído pelo prazer no trabalho. Neste sentido, o trabalho tem que ser uma escolha para o sujeito e espaço da satisfação dos desejos inconscientes. (MENDES, 1995, p. 37).
De acordo com Mendes (1995) o investimento sublimatório e a ressonância simbólica tem, muitas vezes, seu espaço delimitado pelas limitações que a organização do trabalho impõe, fazendo com que o trabalhador tenha que utilizar de outros recursos, que Dejours vai conceituar de inteligência astuciosa e o reconhecimento do simbólico para transformar o sofrimento em prazer.
Trata-se especificamente de uma inteligência que tem raiz no corpo, nas percepções e na intuição sensível: inteligência do corpo sobretudo, ela é também uma inteligência em constante ruptura com as normas, regras, é uma inteligência fundamentalmente transgressiva. Está no próprio coração do que chamamos de ofício, é a ‘inteligência astuciosa’ (DEJOURS, 1993, p. 133). Para Dejours (1993) essa inteligência astuciosa vai funcionar sobre uma regulamentação feita pela organização do trabalho anteriormente, que subverteu pela necessidade do trabalho e para atender aos objetivos mais eficazes, ao invés da utilização estrita dos modos operatórios prescritos. “A inteligência astuciosa, para a psicopatologia do trabalho, possui ligações estreitas com as condições psicológicas e sociais da sublimação” (p. 135).
Dejours (1990, apud Mendes, 1995) aponta que as estratégias defensivas são definidas como um mecanismo pelo qual o trabalhador busca modificar, transformar e minimizar sua percepção da realidade que o faz sofrer. Este processo é estritamente mental, já que ele não modifica a realidade de pressão patogênica imposta pela organização do trabalho. As estratégias defensivas coletivas podem permitir ao sujeito uma estabilidade na luta contra o sofrimento, que, em outras situações, seria incapaz de garanti-la apenas com as suas defesas individuais. A estratégia defensiva pode tornar-se um objetivo em si mesmo para enfrentar as pressões psicológicas do trabalho, o que leva a um processo de alienação, e assim, bloquear qualquer tentativa de transformação da situação vigente. Quando essas estratégias se estabilizam, surge o desencorajamento, a resignação diante de uma situação que não gera mais prazer, mas só sofrimento.
O estudo dos aspectos psicodinâmicos da relação homem-trabalho não pode desprezar que as vivências de prazer-sofrimento decorrentes da organização
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do trabalho são dialéticas, e por isso não podem ser estudados separadamente. Não obstante, podemos identificar elementos específicos da organização do trabalho que favorecem uma ou outra vivência, assim como a dinâmica delas decorrente. Isto só é possível por meio da fala dos trabalhadores, do discurso manifesto e latente, da análise da palavra, que se constitui mediadora entre representações psíquicas e a realidade (MENDES, 1995, p. 38).
O prazer não é de todo bom, assim como o desprazer ou sofrimento não são de todo ruins. Os dois sentimentos se farão presentes na relação homem-trabalho, pois é constituinte do sujeito. A maneira como cada sujeito vai direcionar, ou melhor dizendo, sublimar esse sofrimento e/ou prazer, é inerente a cada sujeito, pois cada um vai se haver com os mecanismos que possui.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo desse processo de escrita, percorremos ao contexto histórico que perpassa ao conceito de “trabalho”, onde o concebe primordial ao homem desde sua existência. Carregado de significações singulares, seja ela dor, dignidade ou sobrevivência, pois, cada sujeito tem uma percepção acerca do trabalho, que condiz com o tempo, história e uma cultura a que o sujeito foi inserido.
Os modelos de organização de trabalho mostraram-se um ponto inicial para o desencadeamento do sofrimento no sujeito, um sofrimento que não é físico, mas, sim um sofrimento psíquico. Sofrimento esse, que faz com que o sujeito tenha que se haver com seus mecanismos de defesa para reverter esse sofrimento em prazer no ambiente de trabalho, isso, ainda quando a organização de trabalho possibilita reverter essa vivência de sofrimento em prazer. Quando todos as possibilidades foram exploradas e o sujeito não consegue dar destino a essa carga psíquica, ele entra em sofrimento.
Contudo, as vivências de prazer e sofrimento no ambiente de trabalho são duas vivências que não podem ser anuladas, o prazer não se é de todo bom, como o sofrimento não é de todo ruim. As duas se fazem presente na relação homem-organização, e são constituintes do fazer do sujeito. A maneira como o sujeito vai lidar com essas adversidades impostas pela organização de trabalho, é que vão fazer o sujeito vivenciar o prazer, ou desprazer no trabalho.
Este trabalho, não veio para achar culpados, mas sim, fazer uma reflexão acerca do contexto em que está inserido esse sujeito no ambiente de trabalho, assim como, trazer um olhar e uma escuta para o funcionamento da organização de trabalho e os gestores que estão a frente dessa organização. Deixo como sugestão para possíveis aprofundamentos do tema, o lugar do psicólogo como mediador entre gestão e organização do trabalho com o sujeito trabalhador. Como auxiliar esse sujeito nessa via paralela entre prazer e sofrimento no trabalho?
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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