TflESE
QUEAPRESENTOU
A
FACULDADE
DE
MEDICINA
DA
BAHIA
PARA SER SUSTENTADA
EM
jVOVEMKK©
DE
fl§C9,
DOUTOR
EM
MEDICINA
Entanto
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NATURAL D ESTA CIDADE,
S*iíl5o ^^itiuio De Tíictoúuo jj-oás iSeteUa c 3). Catofiua Jlbatía 9*tanco deleita,
NO
ANNO
DE
1863.
BAHIA
TYPOGRAPHIA
DE
TOURIMIO
&
COMPANHIA
IIna Nova do Commcrcion.° II
FACULDADE
DE MEDICINA
DA
BAHIA.
DIRECTOR
O
Ejr.moSar. Conselheiro
Br.
João
Baptista
«tosAnjos.
0 Ex.moSnr. Conselheiro Dr. Vicente Ferreira de Magalhães.
0$SltS.DOUTORES í .*ANNO. MATÉRIASQUB LECCIONAM
«!»™i-r.™..i..í«M.».ii,s«B "i Physica emgeral,oparlicuJarmcntccm suas
Cons. Vicente FerreiradeMagalhães . .! aplicaçõesa Medicina. FranciscoRodrigues daSilva ChimicaeMineralogia.
AdrianoAlvesdeLimaGordilho . . . Anatomiadescripliva.
a.«ANNO.
Antoniode Cerqueira Pinlo Chimicaorgânica.
JeronymoSodré Pereira Physiologia.
Antonio.MarianodoUomíim BotânicaeZoologia.
AdrianoAlvesdeLimaGordilho. . . . Repetiçãode Anatomiadescripliva.
õ." ANNO.
Cons.EliasJoséPedroza Anatomiageral epathologica.
Joséde GoesSequeira Pathologiageral.
JeronymoSodré Pereira Physiologia.
â.° ANNO. Cons.ManoelLadisláoAranhaDantas. . Palhologia externa.
. Pathologia interna.
o ) Partos, moléstiasdc mulherespejadasedc meninos.
MalhiasMoreiraSampaio
j rccciimascidos.
o.°ANNO.
Continuaçãode Pathologia interna.
JoaquimAntoniod'01iveiraBotelho . . Matériamedicae therapeutica.
. ... > Anatomia topographica, Medicinaoperatória,
JoseAntonio deFreitas
J apparelhos.
C.°ANNO,
AmónioJosé Ozorio Pharmacia. Salusliano Ferreira Souto Medicinalegal.
DomingosRodrigues Seixas liygiene, eHistoriadaMedicina.
Clinicaexternado3.*e 4° anno.
AntonioJanuáriode Faria Clinicainternado5.°e6.' anuo.
Ro/.endo Aprígio PereiraGuimarães.
Ignacio Jose daCunha (
PedroRibeiro deAraujo ) Secção Accessoria.
José Ignacio de Barros Pimentel• • -\
VirgilioClymaco Damazio /
Jose Alfonso Paraizo deMoura. . . .\
Augusto Gonçalves Martins /
DomingosCarlosdaSilva
| Secção Cirúrgica.
DemétrioCyríacolourinho \
Lui/. Alvares dos Santos (
JoãoPedro da CunhaValle > SecçãoMedica.
O
%v.B>r.Cinciniiato l*intoilaMiiva.3)11
O
*ir. BSr.Thomaz
<l'Aqiiino Gaspar.DIAC-1T0STIC0
DIFFERE1TCIAL E
TRATAMEHTO DAS
PÀRAL7SIAS.
SECÇÃO
PRIMEIRA.Nosogjrapliia
«las
paralysia
s.OBSCURIDADE
que reina ainda no estudo das paralysi»s,começa
a revelar-se desde que procuramos investigar sua nosographia. Pathologistas eminentes divergem ainda sobre a significação nosologica da palavra paralysia.Segundo
Jac-coud, (i) na esphera da motilidade, a paralysia éuma
akincsia (impotência motriz) completa ou incompleta, resultante deuma
perturbação na inner-vação motriz. Se, porém, consultarmos Axenfeld (2), veremos que,em
sua opinião, ha paralysia—
todas as vezes que as fibras muscularestiverem per-dido a faculdade de contrahir-se sob a influencia dos excitantes ordináriosdesuas contracções; excitantes que são: ou a impulsão da vontade, ou
uma
impressão sensitiva,
dando
lugar aum
movimento
reflexo, ouem
fimuma
acção espontânea dos centros motrizes (movimento involuntário, não reflexo).As
definições de Jaccoud e Axenfeld estãoem
completo antagonismo epec-cam ambas
pelos extremos: a primeira attribue á innervação motriz a sédeda affecção; a segunda, somente áfibra muscular.
À
de Axenfeld não resiste ã(1) Les paraplegies et1'ataxiedu mouvement, pag. 212.
uma
simplesanalyse, seconsiderarmosque,quasisempre, não éafibra muscular que perde a faculdade de contrahir-se, esim, sãoos nervos,que
deixam de es-timulal-as,por deficiênciaou
por interrupção da acçãocerebral. Demais, estepa-thologista consideracomo
excitantenormal das fibrasmusculares, a impressãosensitiva reflexa, e julga aperda dos
movimentos
reflexos, condição essencial de paralysia,quando
aliás sabemos, que estesmovimentos
até se excitam nosmúsculos paralysados,
sempre
que suas fibras motrizesse derivamda medulla,em
pontos inferiores á lesão que interrompe o estimulo da vontade.A
defini-ção de Axenfeld é pois incompleta porque exclúe os casosem
que a paralysia é devida alesões da innervação.A
de Jaccoud não émenos
exclusiva, porque elimina oscasos de aboliçãodomovimento
por atropina, degeneração gordurosa, ou qualquer outra alteração primitiva dos músculos.Não
é possível admittil-a, estando provadoqueacontra-ctilidadeé essencial á íibra muscular,
como
bem
demonstram
as experiênciasdeLonget,Brown-Séquard
e Cl. Bernard, especialmente, pelaacção da curara; e as observações deKúhne,
queprovam, quediversassubstancias,como
os ácidos nítricoe chlorhydrico, excitam a contracção, quando postasem
contactocom
as fibrasmusculares, e nãoo fazem, applicadas directamente sobre os nervos.
«
Brown-Séquard
conservouvinte eum
mezesum
coelho, cujonervofacialtinha sido arrancado, eexlrahido
em
quasi toda aextensão; e vioacontractili-dade persistir nos músculos paralysados durante avida do animal. (1)
Landry
(2) observou, nohomem
eem
outros animaes, a persistência dacontractilidade muscular pela excitação directa dos músculos,
mezes
depois dasecção dos nervos mixtos, quando o microscópio mostrava já a alteração das
fibrasnervosas.
Duchenne,
quasi só, pretendia sustentar a idéa contraria á opiniãogeral-mente
admittida: todas as vezes, diz elle, (3) quea lesão deum
nervo mixtoé tão profunda que attaque todas as suas fibras primitivas, os músculos, que recebem filetes nervosos d'este nervo,
perdem
igualmente sua contractilidadeeléctrica.
Landry
eMagnien
attribuem o errodeDuchenne
ao facto dejulgar a perda da excitabilidade muscularpela ausência de contracção duranteuma
excitação eléctricafeita através da pelle.As
experiências deChauveau mostram que
é(1) Magnien, Reclierches expcrimeiitales sur les effets consecutifs â la sc.clion de&
nerfs mixtes, 18GG.
(2) Traité des paralysies.
necessário obrarimmediatamentesobreasfibrasmusculares paraverificar a
exis-tênciada contractilidade: por intermédio dos nervos, aexcitação?efaz mais
de-pressaeacontracçãoémaisenérgica doquedirectamente sobreas libras
muscu-lares,(juandoosnervosestãoatrophiados;através dapelle,
embora
humedecida,ascorrentes eléctricas fracas se
recompõem,
em
parte,antesdealtingirern as íi-bras musculares,eassim attenuadas, seriamínsufficientespara produzira contra-cção, se a Irritabilidade estivesse diminuída pelaalteração das fibras nervosas.Magnien,
em
experiências sobre cavaílos, verificouque, oito dias depoisdasecção do nervo facial, os músculos animados por este nervo, impassíveisá
eleetrisação através da pelle, cuidadosamente raspadae molhada, contrahiani-se sempre pelaapplicação directados reophoros.
Duchenne
mesmo,
em
outro lugar de sua obra (I), dizque—
parase estarphysicamente certo de que a contraclilidade muscular esteja completamente
extincta, é preciso que se possa ver o musculo descoberto, no
momento
darecomposiçãoeléctrica.
Às
experiências de Longet (2)provam
queum
nervomotriz, separado doeixo cerebro-espinhal, perde
em
quatro dias toda a excitabilidade, e que o musculo, cujo nervo motriz não éjá excitavel,ainda por maisdeIresmezesde-pois, contrahe-se manifestamente pela applicação immediata doestimulo.
As
mesmas
experiênciasdemonstram
queo systcma nervoso só intervém nacon-servação da contraclilidade muscular, entretendo a nutrição do musculo, da qual depende esta propriedade inherentea suasfibras, que só a perdem,
quan-do, viciadas na nutrição, se atrophiam ou degeneram.
Uma
prova d'estaver-dade é o cffeito da ligadura das artérias de
um
membro
sobre a irritabilidadede seus músculos.
Demonstrado, pois, que a conlractilidade é propriedade intrínseca da fibra
muscular, é incontestável, que a execução perfeitados
phenomenos
de contra-cção voluntária depende da quadrupla integridade do encephalo, da medullaespinhal, dos nervos c das fibras musculares; esua harmonia funccional é tão
necessária, que a faltaou perversão de qualquer d'esteselementos, é capaz de produzir alteração tão notávelnos movimentos, que não se poderia, á primeira
vista, julgar
em
que consiste a alteração, e localisal-a noórgãorespectivo.A
paralysia deve portanto ser definida—
a cessação ou diminuição das con-tracções voluntárias, quer pordeficiência ou interrupção do estimulo nervoso,quer por diminuiçãoou abolição da contraclilidade muscular.
(1) Ob. cit. observ.xliii.
As
perturbações, por falta de coordenaçãodosmovimentos
voluntários, são especialmente designadas poralaxias.Sem
conhecer-se a structuraea disposição intimado systemanervoso, éim-possível conceber o
mechanismo
deuma
paralysia.Faremos
pois ligeiramenteum
esboçoanatomo-physiologico do eixo cerebro-espinhaLSeguindo o trajecto dos nervos, da peripheria para o centro, a anatomia
tem
visto que as fibras nervosas não se continuam individualmente até o cérebro; as raizes anteriores, atravessando as columnas iintero-lateraes, vão se prender na substancia cinzentada medulla, ás cellulasmotiizes, agglomeradaspor gru-pos nas pontasou laminas (1) anteriores d'esta substancia; e as raizes
poste-riores, entrando pelo sulco postero-lateral, vão desembocar
em
cellulas maisvolumosas,quese
acham
aggrupadas naslaminas posteriores.Estes grupos de cellulasmultipolares, motrizesesensitivas,
communicam-se
entre si, respectivamente, ealém d'isso, osgruposmotrizes ligam-se aos sensi-tivos por filetes antero-posteriores, e osdeum
lado seunem
aos do ladoop-posto da medulla, porfibraslatero-transversaes (deLockhartClarke),que con-tribuem a formar as commissuras anterior e posterior, sendo esta mais
notá-vel, porque suas fibrassecortam
em
angulo,emquanto
asanterioressão paralle-las.Nas
laminasposteriores enasanteriores, existem fibraslongitudinaes;umas
que
unem
entre si os diversosgrupos de cellulas, eoutrasquevãoatéocerebro,e
tem
por fim conduzir a impressão recebida pelas cellulas posteriores, outransmittir ás anteriores as determinações davontade.
O
trajectodas fibrassensitivas, quepor muitotempo
se altribuioexclusiva-mente
ás columnas posteriores, faz-seem
grande partepelasubstanciacinzen-ta.
Yan
derKolk(2),quetambém
partilhava a principio d'esta opinião, dizmais tarde,em
sua monographia sobre a medulla allongada: « Creio quepodemos
agorainferir,que osnervossensitivos, na medulla espinhal,
nascem
também
das cellulas das laminascinzentasposteriores,d'onde provavelmente se derivamfi-lamentos que se cruzam nas commissuras e
seguem
depois para cima. »Admittindo a primeira lheoria,
Yan
der Kolk suppunha,destinadasespecial-mente
aosmovimentos
reflexos, as fibras das raizes sensitivas,que
entram(1) Termoadoptadopelo Professor Cosia Simões, de Coimbra,
em
seutratado dePhy-siologia, parasignifiear a palavra—cornua.
(2)
Ou
the minute structure and functions oftlic Spinal C)rd and medulla oblongata.naslaminascinzentasposteriores, c cfahi sedirigem paradiante, áscellnlas
mo-trizes, depois dc atravessarem as intermédias, denominadas sympalhicas.
Wagner,
porém, sustentoua ideia, hoje geralmente acceita, de que todas as libras sensitivas entram nasubstancia cinzenta, fundem-secom
osgrupos dascellulas posteriores, e por meio destes se
poem em
connexãocom
o cérebro,pelos filetes longiludinaes, e
com
as cellulas motrizespelos ante-posleriores; eassim, aimpressão pode ser transformada
em
sensaçãoouem
movimento
refle-xo.
As
libras longitudinaes queunem
entre si os diversos grupos dc cellulassensitivas, servem
sem
duvida para generalisar a impressão, pois vê-se que airritação de
um
nervo sensitivo não excita só omovimento
nas fibras motrizescorrespondentes,
mas
extende-se, a ponto de produzir, ás vezes, contracções geraes.As
commissuras transversaes, segundoVan
der Kolk, parecem destinadas a conservar a harmonia dosmovimentos
entre os dois lados: a anterior,em
connexãocom
os filamentos conduclores das ordens da vontade, para aharmonia dos
movimentos
voluntários, e dos músculos queobram
simultanea-mente
de cada lado do corpo; a posterior, para a harmonia involuntária naacção reflexa, no equilíbrio do corpo, etc.
Depois de se anastomosarem
com
as cellulas anteriores, as fibras motrizesnão se continuam individualmente até o cérebro, pois, seassim fosse,
como
judiciosamente observa
Van
der Kolk, a vontade, influindo sobre estas fibras,pederia operar a contracção de
um
só musculo ou de algumas fibrasmuscula-res insuladamente, contra aobservação
commum
que mostra,quenos diversosmovimentos
voluntários intervém sempreum
numero
determinado dcmúscu-los, e é absolutamente independente da vontade, que
algum
cfelles fiqueem
repouso ou funecionecom
mais energia que os outros.É
pois muito plausível a opinião (Teste illustre physiologista, que achaum
principio de coordenação na disposiçãodascellulas motrize-,cm
grupos,tanto maioresquanto maisavul-tado é o
numero
de fibras que d'el!esemergem,
como
principalmete se vê nos bolbos cervicale lombar.O
diâmetro quasi igual dascolumnasantero lateraes, ern todaa extensão damedulla, a disparidade entre o volume (Testas columnase o de todas as raízes motrizes reunidas, e entre este e o das pyramides anteriores ou dos
pedúncu-loscerebraes,
mostram
evidentemente queasfibrasque se deriram docérebro,e
conduzem
ás cellulas motrizes o estimulo da vontade, sãoem
numero
muitomenor
que as fibras emergentes (festas cellulas, e,como
suggere o physiolo-gista hollandcz, são provavelmenteem
numero
proporcional ao dos grupos decellulas motrizes, e desuas diversas combinações,
em
relaçãocom
osmovimen-tos dislinctos, quese executam noapparelho muscular.
É uma
disposiçãoseme-lhante á de
uma
bateria de botelhasde Leyden, reunidas todasaum
conductor que as ligue ao apparelho productor da electricidade.A
physiologiatem
sanccionadocom
suas experiências estesdescobrimentosiniciados pela anatomia; tem demonstrado
também, que
asfibrasmotrizes, de-pois decontrahirem união intimacom
as cellulas anteriores,proseguem
dire-ctamente pelas laminas cinzentas anteriores e pelascolumnas antero-lateraes,
e vãocruzar-se na medulla allongada,
com
as do lado opposto, constituindo aspyramidcsanteriores; queas íibras sensitivas, depois de por-se
em
connexãocom
as cellulasposteriores, cruzam-selogo, passando para o lado esquerdo asdo direito, e vice-versa- assim,
uma
incisão vertical nalinhamedia
do bolbolombar, por exemplo, torna insensíveis
ambos
osmembros
posteriores deum
animal. (B. Séquard.)
A
physiologiamoderna tem
demonstrado que asub-stanciacinzenta é a via de transmissão das impressões; suainsensibilidade aos excitantes externos induzia a rejeitar esta ideia,
mas
está hoje provado que amedulla é porsi
mesma
insensível; sua sensibilidade apparentc é devida ásfi-bras periphericas, que, depois de se fundirem nas cellulas cinzentas,
perdem
esta propriedade.
Parece,
como
diz Claude Bernard (1), que as fibras sensitivas periphericas são as únicas dotadas da propriedade de receber impressões dos agentes ex-ternos; depois de atravessarem as cellulas cinzentas posteriores, as fibrastransmutam
suas propriedades, não são mais excitadas pelosmesmos
estímu-los, só se deixam impressionar pelas vibrações nervosas dos nervos
periphe-ricos;
—
são aptassomente a receber as impressõesem
segunda mão.É
uma
impressionabilidade especial
como
as do nervo óptico, olfactivo, de todos os nervos sensoriaes, que são excitadossomente por certos estimulantes.As
experiênciasdeBrown-Séquard
provam,queos
filetessensitivos, antesde entrarem nasubstanciacinzenta, atravessam,em
pequenaextensãoelongitudi-nalmente, oscordões posterioresda medulla, e por isso, a destruição de
uma
porção qualquer d'estes cordões, produz a anesthesia e a abolição dos
movi-mentos
reflexos nas partes correspondentes,emquanto
o rórte transversal deum
dos cordões produz anesthesia nas partes inferiores e dolado opposto, e hyperestesia nas domesmo
lado; e esta hyperesthesia é devida, segundoSchiff, á irritação produzida pela operação nos filetes intactos.
Conhecendo
a disposição dosJifferentes grupos de cellulas damedulla, suasconncxõcs
com
os nervos incidentese reflexos, e acommunicação
(Testes gru-poscom
o centro da percepção, cuncebe-se facilmente omodo
porque temos,muitas vezes, consciência d'estes
movimentos
reflexos, e,em
outras,ellespas-sam
desappercebidos, e produzem-se, ainda quea medulla se ache desligadadocérebro.
Esta propriedade especial da medulla, de transmutara impressão
em
movi-mento, denominada, por Todd, polaridade,é necessária aoequilíbriodo corpo,á locomoção, á respiração e todas as funeções.
É
por ellaque, quasiinslincti-vamente, são dirigidos os
movimentos
da locomoção,quando
os nervossensi-tivos,
em
virtuded'essamudança
doestado eléctricodos músculos, que,segun-do Matteucci e
Du
Bois lleymond, se dáem
todaa contracção, transmittem a sensaçãodo estado do musculo, formando assim este sexto sentido, o sensomuscular de Duchennc, cujo auxilio só a vista pode mal substituir na dire-cção dos movimentos.
A
influencia d'cste poder reflexo não émenos
notávelnarespiração. «Uma
falta d'csta funeção, diz o Dr. Williams, éexhibida
em
todos osestadosextre-mos
de debilidade, ou por fadiga, oupor excitação excessiva, ou porinfluen-cias directamente deprimentes ou sedativas,
como
nas febres adynamicas. » «Uma
pessoa neste estado, estámuito fracapara
dormir, porque a medulla, partilhando do abatimento geral, não pode manter a respiração,sem
auxilio dosmovimentos
voluntários. D'ahi o sentimento de oppressão, e o arquejar continuo queimpedem
todo o repouso; ou, se occorre o sornno, é perturbado porpesadellos e sonhos terríveis, occasionadospor sensações dolorosasda res-piração imperfeita. » (I)Terminando
esta analyse succinla da medulla espinhal, vejamos o trajecto dos nervos na medulla allongada, até o cérebro.Na
medullaallongada osele-mentos constituintes da medulla espinhal soffrem
um
novo arranjoem
sua disposição; as laminas cinzentas anteriores desviam-se para a parte posteriore media, e as posteriores ficam aos lados, e mais acima
invadem
um
poucoa parte anteriordas primeiras, de sorte que os nervos motores nascem junto
do pavimento do quarto ventrículo, perto da linha media, e os sensitivos, aos lados e fora d'esles.
As
columnasespinhaes anteriores, depois de se cruzarem na parte inferiorda medulla allongada, continuam-se
com
as pyramides anteriores, e d'ahise-guem
pela pontedeVarolio,entrelaçando-sen'estes pontoscom
fibrassaes, substancia cinzenta, e cellulas multipolares; e vão ter, pelos pedúnculos
cerebraes, aos thalamos ópticos e corpos striados.
Os
grupos decellulas ounúcleos dos nervossão, na medullaallongada, muito grandes e numerosos, e d'ahi procede ovolume
considerável d'esle órgão. Os-nervos cranianosnascem
da medulla allongada,esua
disposição é exactamente semelhante á dos espinhacs:as fibras periphericas,emergindo
dascellulas ner-vosas da medulla, disiribuem-se domesmo
ladode sua origem, ou da séde deseus núcleos; mas, as fibras intermédias (festes núcleos ao cérebro,
cruzam-se entre si, respectivamente. N'esta distribuição estáa razão de ser a paralysia
da lace, na hemiplegia
commum,
domesmo
lado quea do corpo.O
nervo óptico é o único que fazexcepção áquella disposição geral dos ner-vos cranianos, é o únicoque secruzacom
o do lado opposto7 forados núcleos;parecendo que estecruzamentoserveT segundoWollaston, paraa vistasimples
com
os dois olhos, pois,em
sua opinião, cadanervo óptico divide-se nochias-ma em
duas porções,uma
que vai á metade externa da retina deum
olho, e outra que vai á metade internada retina do outro olho, distribuindo- seassint-as fibrasdo
mesmo
nervoem
partesda retina homologas na funcção da visão.« Por esta disposição, Wollaston explicava a hemiopia, moléstia de que elle
mesmo
fora attacado. » (1)Fibras transversaes, pondo
em
connexão reeiprocaos núcleosd'cstesnervos,produzem
esta acção bi-lateral, tãoeminentemente
característica da maiorparte dos nervos da medulla allongada, que não occorre
em
nenhuma
outra partedo corpo,eé
representada pelaacção simultânea e synergica dosmuseu-los da face, dalingua, da phonação,
eda
respirarão. (2)As
columnas lateraes, que, segundo as experiências de Schiff, presidem aosmúsculos respiratórios, terminam-se na medulla allongada, contrahindo rela
-ções intimas
com
os núcleos dos nervos pneumogastrico e espinhal; e istoex-plicao porque, na hemiplegia,osmúsculos do troncosãoquasi
sempre
poupados.Yan
derKolk conjectuia,com
muitoengenho, que o cerebello, unido áme-dulla allongada, pelas fibras longitudinacs dos pedúnculoscerebellosos
inferio-res, e pelas libras transversaes da protuberância annular, estabelece, entre os seuslóbulos e os dois lados da medulla allongada,
uma
união intima, que pa-rececontribuir á coordenação dos movimentos;sem
que, porisso,se deva jul-gar o cerebello séde efeste principio; pois na medulla espinhal, eespecial-mente
na medulla allongada, a disposição das cellulas, o arranjo das fibras.(1) Longct, Traité de Physiologie.
concorrem a effectuar estaharmonia preestabelecida dos
movimentos
normaes.Os
casos observadosporCombette
e por Mare, de falta de cerebello,sem
perda ou perturbação nas funeções motrizes, e os factos pathologicos, referidos
porB. Séquard (1),
provam
que o cerebello não éessencial ácoordenação dosmovimentos.
Andral (2), depois de analysar noventa e tres casos de moléstias do cere-bello, diz
que—
sóum
d'elles tendia a confirmar a opinião dos physiologistasque
suppoem
do cerebello o órgão da coordenação dos movimentos.A
medullaallongada, dizYan
der Kolk, distingue-se do resto doeixo cere-bro-espinhal pelo systema peculiar de fibras transversaes, que a tornam,em
muitas funeções,
um
órgão de acção bi-lateral, isto é, cujos lados trabalham simultaneamente. «No
cérebro,como
na medulla espinhal, a maior parte das funeções são uni-lateraes; assim,uma
effusão de sangue nos corpos striadosproduz paralysia uni-lateral, e na medulla o eíleito é semelhante.
Da
medulla allongada e mesocephalo, as fibras sensitivas e motrizessobem
pelos pedúnculos cerebraes, e se irradiam nos thalamosópticos e corpos
stria-dos, que são oscentros collectoresdas impressões que vão ser percebidas, e das determinaçõesda vontade que
tem
de ser manifestadas pelo movimento. Acima, estão as circumvoluções cerebraes,onde seelaboraopensamento,onde
se converte
em
sensação, a impressão recebida,onde sefaz, emfim,eslacom-municação indecifrável, entre a matéria e o espirito que a assoberba.
Patliogcnia
e classificação
tias
paralysias.
Como
um
symptoma
que sempre é, a paralysiatem
uma
causa immediata,que por si só constitue muitas vezesamoléstia
mesma,
cuja manifestação exte-rior éa perda domovimento.
Conhecida a disposição orgânica do apparelho nervoso, a ligação e
harmo-nia de todas assuas partes, desde o cérebro até as ultimas ramificações;com-prehende-se que, o estimulo da vontade, para ser transmittido do seu fóco de
origem até o ponto onde
tem
de produzir o impulso, necessita dacontinui-dade das fibras, das connexões das cellulas, emfim, de todos os anneis d'esta
cadeia, que liga o centro motriz
com
os instrumentos do movimento.A
solução de continuidade dasfibrasnervosas, sua compressãomesma,
im-(1) Lancct, 183ri,Lição G.
a
(2) Edit. 2.° T. 5.° pag.
pedindo a transmissão do influxo nervoso,
produzem
paralysias; assim, as lesões primitivasdo encephalo, da medulla espinhalou
dos nervos, são outras tantas causas d'aquella manifestação mórbida, e, domesmo
modo,
as lesões dos tecidos visinhos, que consecutivamentevenham
a affectal-os, ouexerçam
sobre elles
uma
compressão desfavorável ao exerciciofunccionaldosconducto-res nervosos.
Estas paralysias são as orgânicas, do Dr. Jaccoud, cuja classificado geral
adoptamos. Entre ellas, incluímos
também
as quesão devidas á alteração dasfibras musculares, que, mais do que qualquer outra, anniquila
completa-mente
a contracção do musculo.O
influxo vivificador do sangue étambém
necessário á funcção normaldos nervos; sua alteração, quer
em
quantidade, occasionando a anemia dos centros ou das ramificações nervosas, querem
qualidade, deprimindodire-ctamente estes órgãos, ou imprimindo-lhes
um
vicio de nutrição, diminue ouanniquila a conductibilidade dos nervos.
A
ischemia dos músculosedas ramificações periphericas dos nervos, inflúenotavelmente sobrea sensibilidade e o movimento, e é por ella, que o frio
intenso entorpece os movimentos e
embota
a sensibilidade.A
embolia, obliterandoas artériasdeum
ou maismembros,
étambém
uma
causareconhecida de paralysias.
Longet e outros physiologistas demonstraram,
em
vivisecões,que a ligadurada aorta abdominal produz a paralysia do sentimento e do movimento, nos
membros
inferiores.Nos
músculos que não recebem sangue arterial,mos-trou aquelle physiologista (1), que os
movimentos
desapparecem, uns quinzeminutos depois da ligadura, e a irritabilidade muscular, cerca de duas horas
mais tarde. Desligando-se a artéria, a irritabilidade se restabelece primeiro, e os
movimentos
voluntários depois.Além
d'estas experiências de physiologia, sufficientes para demonstrara e-xistencia daparalysia ischeinica, a sciencia registraainda casos observadosna
medicina veterinária por Bouley, Vatel e outros; fados clinicos de Barthe Gull; e, ultimamente, a observação completa de
Bourdon
(2),comprovada
pela autopsia, de paralysiadevida áobliteraçãoembolica dasartériasdos
mem-bros inferiores.Richet menciona
um
caso de hemiplegia, consecutiva a ligadura dascaroti-(1) Ob. cit. T. 2.°, pag. 36.
das primitiva e externa; e, segundo Spineux, (i)
tem
se observadotambém,
por eiíeito de tumores
comprimindo
a aorta abdominal, paralysias, mais oumenos
completas, segundo o gráo de compressão.As
hemorrhagias sãotambém
origem de paralysias:Von
Graèfe (á) viocasos de hematemése,
acompanhada
de amaurose repentina deambos
os olhos; Abeille (3) cita dois casos de paralysia, determinada por metrorrhagiasabundantes; c Grisolle, Bonncfont e
Moutard-Martm
apresentam factos seme-lhantes.Sandrasobservou,muitasvezes, paralysias devidas áchloroseou chloro-ane-mia.
A
natureza de todas estas paralysias eraclaramente apontada peloestado de anemia dos indivíduos, e pelobom
resultadoobtido pelo tratamento tonieo-analeptico; e, a respeito d'ellas, dizMacário (4): não sepode reconhecer outracausa senão a perturbação do systema nervoso central,
em
consequência da grande subtracção de sangue. Sanguis moderator nervorum. »Não
podemos,porém,
considerai-aspuramente nervosas,como
pretende este, sendo occa-sionadas por umadyscrasia do sangue,pelaalteraçãode qualidade quecaracte-risaa anemia, e deprime o systema nervoso, trazendo mais tarde, se persistir
sua acção, o vicio da nutriçãodo tecido nervoso e dos músculos.
Adoptando
pois a opinião doDr. Jaccoud, classificamos estasvariedades en-tre as paralysias pordyscrasia anemica.A
dyscrasia toxica apresentaum
quadro mais expressivo e variado.A
toxicologiaenumera
muitas substancias, capazes de abater a energia nervosa, e comprometter a motricidade voluntária.O
arsénico, o helleboro., o antimonio, o tabaco, o mercúrio, o carbono eseus compostos, a cicuta, o opio, as soleneas virosas, o phosphoro, o álcool,
acamphora,
e muitas outras substancias, pela intoxicação lenta, ou depois dossymptomas
de irritação noenvenenamento
agudo, manifestam esta acção paralysadora, que c precedida muitas vezes da perversão ou da excitação dosmovimentos.
A
acção ultra-sedativa destas substancias, especialmente a dosdeprimen-tes e narcóticos, é devida, não só á alteraçãodo sangue,
como
também
auma
acção directa e stupefaciente do veneno sobre o systema nervoso. «
Ha
certas substancias, conhecidascomo
narcóticas, quetem
a propriedade de matar di•(1) Thése, des causesetdes symptomes des paralysies,pag. 11, 1866,
(2) Med. Times and Gazette, 1861, pag. 532.
Ç.\) Etudes cliniquessur la paraplegie indépendante de lamyclite.
rectamente a excitabilidade dos nervos, e destruil-a completamente, se são applicadas
em
estado de concentração. <r Se, porexemplo, o nervo ischiatico, deuma
ran for dissecado e suspensoem uma
solução de opio ou demorphU
na, a porçãodo nervoimmersa
fica inteiramente privada de seu poderdeex-citara contracção muscular; e a perna de
uma
ran mergulhadaem uma
solu-ção de opio ou de acido hydrocyanico se paralysa. » (1)
Certos cogumelos venenosos, o lathyrus sativus, eíc, são
também
produ-ctores de paralysias, análogas a essas, devidas á
cravagem
do centeio, eque
são
uma
das manifestaçõesdoergotismo.Assim
como
os venenos, as peçonhas, os virus, os miasmas,em
geral,pro-duzem
esta alteração zymotica, que Williamsdenominava
neercemia, condi-çãoem
que o sangue é primitivamente affectado e perde suas propriedades vitaes.Á
infecção do sangue são atlribuidas muitas das paralysias consecutivas ásyphilis, á febre typhoidéa, ás febres eruptivas, á cachexia paludosa, á
di-phterite, á dysenteria, etc.
Entretanto, se naalteraçãodoshumores,
tem
encontrado os organicistasum
argumento contra aquellesque queriam incluir estasparalysias na classe das lesões sine matéria, é
também
verdadeque outras existem, nas quaes não setem
podido descobrir alteração material, á qual se possa filiar a perda domo-vimento.
Nem
basta demonstrar post-mortemuma
lesão nos órgãos da in-nervação, para estabelecer, entre esta e a paralysia,uma
relação de causaaeffeito; é necessário que se liguem
ambas
pela evidencia dos symptomas., eque, assim,a lesão nervosa e a paralysianãosejam effeitosdisseminados e pro-gressivos de
uma
outra causa,—
a alteração de structura, devida á deficiência de nutrição, provocadapela inacção do órgão.Assim, podemos, ao
menos
temporariamente, acceitar a existência depa-ralysias nervosas, paralysiasprimitivas funecionaes, segundo Handfield Jones: primitivas porqueo apparelho da innervação foi o primeiro affectado pela cau-sa morbiíica; e funecionaes porque a alteração orgânica, se existe, além de
escapar a todos os meios de observação, é susceptível de ser completamente removida pelos agentes que levantamas forçasdo organismo. (2)
A
inacção do systema nervoso não é incompatívelcom
a sua integridade, poisvemos
o systema cerebro-espinhal abdicar temporariamente os seuspo-deres durante o somno;
um
estrondo causando a surdez; a descarga eléctrica(1) Hoopei^s VadeMecum,pag. 102.
do relâmpago, produzindo a amaurose por destruir a excitabilidade do nervo
óptico^ e cansando a
morte
repentina por stupefacção do cérebro, ouuma
paralysia mais ou
menos
completa, pelo entorpecimento da medulla.Aphysio-logia prova
também
queuma
corrente eléctrica intensa, passada entre dois pontos da medulla, paralysa a porção comprehendida por elles.Entretanto, é possível que se dê
lambem,
n'estes casos, a alteração dosele-mentos
nervosos:uma
corrente eléctrica atravessandoum
ovoem
via de germinação^rompe
os vasos, e coagulaem
parte a albumina; bastauma
emoção
moral para perverter as secreções,como
nocaso notável, referido por Carpenler, deuma
creança que morreo instantaneamente, envenenada peloleite de sua mãi que a
amamentava
em
u:nmomento
de angustia.As
paralysiashystericas são o typo da classedas funecionaes; as consecuti-vas á eclampsia,á epilepsia, eá eboréa,também
são attribuidaspor muitos aoesgotamento da força nervosa pelas contracções violentas.
A
commoção
doencepbalo, por esses
movimentos
repelidos e desordenados, pode determinar o torpor da inlelligencia ou da força motriz, ou, pelo contrario, dar lugar á ex-citação cerebral, ao delírio furioso, tão manifesto na mania epiléptica.Não
hamaior diííercnça, diz H. Jones (1) entre estasduas formas de desordem cere-bral, do que haentre as variedades de desordens sensitivas que occorrem
em
uma
nevralgia brachial.A
parte affectada,umas
vezes está muito dormente,e outras
extremamente
dolorosa. »Segundo
este illustre pathologista, a paralysia primitiva dascellulasnervo-sas docentro encephalico ou do espinhal, é de oceurrencia frequente, e
com-mummente
o resultado de influencias debilitantes, actuando pormaior ou me-nor espaço de tempo; e não éacompanhada
de lesão de structura visível, nosprimeirostempos de suaexistência;mas,
quando
prolongadaconsideravelmen-te, pode complicar-se de degeneração atrophica.
Ha
aindauma
ordem
deparalysias,sem
lesão material,quetem
pontodepar-tidanosnervosperiphericos,esãodenominadaspara/f/síaí reflexas. Asaffecções genito-urinarias, a impressão do frio, as irritações intestinaes, a dentição, são suas causas mais frequentes.
As
experiências physiologicas e os factos clínicos,tem
demonstrado que a irritação dos nervos centrípetos é, muitas vezes, porum
phenomeno
reflexo, causa da perda do movimento:—
a pausadosmovimentos
do coração provoca-da poruma
pancadano
epigastrio, pela ingestão de aguafriaem
momento
de(1) Ob. cit.pag. 109.
muito calor, por perfuração do estômago ou dos intestinos, ele., faz se por via reflexa, porque a irritação do sympathico abdominal se transmilte á medulla pelos nervos splanchnicos, e estareage pelo pneumogaslrico sobre o coração.
É
também
pelomecbanismo
rettexoquese explica como, ás vezes, asprimei-ras inspirações do chloroformio fazem
-parar o coração;
como
sedá a synccpe,em
operações cirúrgicas simples, conforme observaram Milton e Smith nocatheterismo da urethra; e nos velhosvio-aHigginbottom,
sem
outracausa,se-não a irritaçãodos nervos gaslricos por alimentos indigestos. (1)
Brown
Séquard, depois deanalysaruma
serie decasos,em
que a irritação centrípeta foicausa de paralysia, inferecomo
caracteresgeraes: (2) \.° que acausa supposta
sempre
precedeo a paralysiadomovimento
ou da sensibilidade;2.°que as
mudanças
na intensidade dacausa foram ordinariamente acompan-hadas por alterações correspondentes nossymptomas
paralyticos; 3.° que osremédios applicados directamente contra a paralysia e a anesthesia foram
inú-teis; 4.° que estas duas affecções,
em
muitoscasos, foram rapidamentecuradas, depois da cessação da causairritante; 5.° que não havia alteração visível do systema nervoso,em
muitos casos,em
que a autopsia foi feita.A
disposição dos nervos aííerentes, e suasconnexões na medullacom
as cel-lulas sensitivas, e, pormeiodestas,com
as motrizes, revélam omechanismo,
pelo qualosnervossensitivosexcitamascellulasnervosas,e aimpressãose torna
origemde movimento.
Mas como
seráque, naparalysia, reflexa, esta impressãoé causa de
um
phenomeno
inteiramente opposto, a inacção? Será porque, a impressão anómala, levada ácellula nervosa, poude reduzil-a á astbenia, ou osymptoma
adynamico é efieito de transformações outras, operadas no appare-lho motor? Sobreeste ponto reinaainda a controvérsia.Lister, observando que
um
estimulo brando, sobre os nervos, produzia a contracção vascularna pata deuma
ran, eum
irritante enérgico dava lugar á relaxação dosvasos; vendo que choques eléctricos muito fracos, na porçãoin-feriorda medulla dorsal,
augmentavam
osmovimentos
peristalticosdosintes-tinos, e paravam-os completamente,
quando
crescia aintensidadedacorrente;achando ainda,
como
também
viramWeber,
Cl. Bernard, Moleschott e outros, queuma
ligeira irritação da medulla allongada ou do pneumogastricoaugmenta
a frequência da acção do coração, euma
irritação forte diminue e até pára osmovimentos
d'este órgão: Lister, por estes factos, admitte a influencia inhibitoria dos nervos, e conclue, que omesmo
nervo afferentepó-(1) II. Jones, ob. cit. pag. 622.
de, segundo for actuado branda ou energicamente, exaltarou deprimir as fun-cções do centro nervoso, sobreo qual obra.
Pflugcr já tinha proposto a denominação de inhibitorios para certos nervos,
como
os vagos e os splanchnicos, cuja funccão parecia ser somente moderar ou reprimir omovimento
das partesem
que se distribuem.A
opinião de Lister, sobreos effeitos oppostos, segundo o grão de energia, das impressões afferidâs ao centro nervoso respectivo, é corroborada pelo que apresentamde análogo, osestimulantes,que,em
gráomoderado,activamavita-lidade dos centros nervosos, e
em
excessodeprimem
e entorpecem as fun-cções.Com
ogalvanismo, o calor eosoutrosexcitantes,aconteceisto;como
diz Muller:—
quando
a acção d'elles nãoélevada além de certográo de intensida-de,nem
continuadaalém decerto tempo, são estimulantes;mas,se a acção formais violenta, e prolongada por muito tempo,
produzem
um
effeito contrario.H. Jones abraça a opiniãode Lister, e
com
razãoattribúe o effeitodeprimen-te da excitação exagerada, não só á natureza e intensidade doexcitante,
como
também
á susceptibilidade vital do tecido nervoso; assim, diz elle, (1)uma
im-pressão, levadaao centro nervos3 pelosnervosaíícrentes, pôde,
em
vezdeexci-tai', enfraquecer ou paralysar sua acção, ou pela debilidade c excitabilidade congenili ou adquirida do centronervoso, ou porquea impressão seja
indevi-damente
intensa ou absolutamente nociva.Brown
Séquard propõeuma
explicação diíferente. Suas experiências e asde Tholozan e Combaire tinham mostrado,que
uma
impressão periphericapo-de fazercontrahir os vasos sanguíneos de pontos distantes, por influencia
re-flexa; que
uma
ligadura, applicada no hilo do rim, fazse contrahirem osvasosda pia mater espinhal; e quea extirpação de
um
rim ou deuma
capsula supra-renal, produzparalysia domembro
inferiordomesmo
lado.Partindo d'estes factos, B. Séquard attribúe as paralysias reflexas á isebe-mia, por contracção dos capillares da medulla, dos nervos ou dos músculos.
«
E
provávelque as irritaçõesque partem dos órgãos genito-urinariosououtros,produzam
antes aparalysia por contracção dos vasos sanguíneos da medulla,do quedos nervos motrizes edos músculos. Entretanto, não é raro, n'esta
for-ma
de paraplegia, queuma
diminuição notável da temperatura dosmembros
paralysados, mostre que osvasossanguíneos d'estas partes estão
também
con-trahidos. » (2)
(1) Ob. cit. pag. 623.
(2) B. Séquard, Lecturcs onthe diagnosis and treatment of the principal formsof pa-ralysis of the lower extremitics.
Ha, porém, experiênciasque contradizem as de B.Séquard: Gull,collocando
uma
ligadura nos vasos dos rins, ou irritando os nervos d'este órgão,—
ne-nhum
efíeilo visível obteve; osvasosem
observação não soffrorammudança
al-guma;
c Raoul Leroy, experimentandoem
cães, não conseguio produzir a pa-ralysia pela irritação dos rins.Jaccoud objectaainda á lheoria de B. Séquard, que, ainda que a contracção doscapillares succedesse á irritação peripherica, e produzisse a ischemia dos elementos nervosos, esta contracção cessaria brevemente,
em
virtude das leis physiologieas, que nãopermittem, que aactividade se sustentepormuito tempo,sem
repouso proporcional. Mas, nãoprevalece a objecção,porquesi isto éexac-to na vida normal,
vemos
em
casos mórbidos,como
no tétano, nascontra-eturas, a acção muscular sustentar-se por
tempo
indefinido, eem
músculosda vida animal, que
sem
duvidaalguma
estão mais subordinados áquella leique os da vida orgânica.
Jaccoud explica as paralysias reflexas, pelo esgotamento da excitabilidade nervosa,
como
succede pela acção intensaoudemorada
deuma
correnteeléc-trica. « Aqui,
como
lá, a paralysia desapparececom
a excitação que lhe deoorigem; aqui,
como
lá,a paralysia soffre oscillaçõessob a influencia dasmu-danças que sobrevêm na excitação deprimente;
emfim
a observação clinica ensina, que as paralysias d'esta forma são muitas vezes annunciadas poraba-los convulsivos, queatteslam aquelle período deexageração, que precede
ordi-nariamente o esgotamentoda excitabilidade. (1)
Pela exposição que fizemos dasdifferentes espécies de paralysias, vê-se,
que
estão todasincluídasnas quatro classes,estabelecidas peloDr. Jaccoud: l.a
Pa-ralysias orgânicas. 2.aParalysiasischemicas.3.aParalysias dyscrasicas. 4.
"Pa-ralysias funecionaes.
SECÇÃO
SEGUNDA.
Semeiotica
e
diagnostico
differencial.
Diagnosticar é discernir amoléstia, distinguil-a de qualqueroutra, por seus caracteres symptomaticos; descubrir a sua natureza, a causa intima de seu
desenvolvimento, e explicar, poresteconhecimento, aevolução dos
symptomas
observados.
As
paralysias,como
tantas outras manifestações pathologicas, queindevida-mente
oceupara o quadro das entidades mórbidas, não são mais do quesym-ptomas; e,
como
taes, o seu diagnostico devesem
duvida consistir,em
revelar a causa immediata, a moléstia oulesão que lhesdeo origem.Às
paralysiasmie
materiâ, as verdadeiramente primitivasfitnecionaes, po-derãoser consideradas individualidades mórbidas,emquanto
a palhologia não demonstrar,com
seusimmensos
recursos analyticos, a condição orgânica que tenha determinado a asthenia nervosa.Um
perfeito diagnostico deve não só demonstrar a natureza da lesão,como
também
determinar a razão physiologica da manifestação dos symptomas, a séde e a extensão da lesão primitiva.No
diagnostico das paralysias, seguiremosaordem
traçada pela classificação,que
êxpuzemos
na primeira parte, onde se deixam ver os caracteres geraes,que auclorisam adescriminação dos principaes grupos.
Paralysias
orgânicas.
Determinar a séde e a naturezada lesão orgânicado encephalo, da medulla ou dos nervos, que
impede
o livre transito do fluido nervoso, é o que consti-túe o diagnostico das paralysias orgânicas.Com
os conhecimentos ministrados pelaanatomia, physiologia e palhologia do systemanervoso, veremos,quantonosfor possível, a explicação racionaldossymptomas
nos diíferentes casos; ecomo, approximadamente, se pôde deduzird'elles a existência de
uma
lesão determinada.Séde dalesão orgânica.
—
Conhecida a continuidade mediata das librasmo-trizes e sensitivas, desde a peripheriaaté o órgão central, impulsor
do
movi-mento
voluntário, e collector das impressões sentidas, é fácil apreciar as rela-ções dossymptomas
fornecidos pela observaçãoclinica,com
as alterações pa-thologicas dos órgãos da innervação.Nos
corpos striados e nos thalamos ópticos parece residir o centro da inner-vação motriz voluntária; acima d'elles, as camadas corticaesdos hemispherios do cérebro tem sido cortadas,sem
produzirparalysia, e as necropsiastem
de-monstrado focos apoplécticos n'estes pontos,
sem
abolição do movimento; mas, constantemente, a compressão instantânea das circumvoluçõesbraes aííecta as faculdades inlellectuaes, especialmente a consciência,
produ-zindo o estado comatoso.
SchifT e Mageandie
provaram
que a ablação dos corposstriados diminúe a sensibilidadee abole o poder do movimento.Carece ainda de demonstração, a opinião dosphysiologistas, que
suppoem
ser o thalamo óptico, centro colleclordas impressões, e o corpo striado, impulsordos movimentos.
A
lesãodo thalamo óptico, dizTodd, produzquasi, ouprecisa-mente, os
mesmos
effeitos que a do corpo striado.Em
setenta e cinco casos, descriplos por Andral, (1) de hemiplegia,paraly-siado braço, ou da perna, havia,
em
quarenta eum
casos, focoshemorrhagicosnos corpos striados;
em
trinta eum,
nos thalamos ópticos, eem
quatro, entre os dois corpos.Não
é possível, pois, no estado actual da sciencia, descrimi-nar as lesões d'estes dois órgãos;mas
é certo, ao menos, que ossymptomas
constantes que as
acompanham,
servempara designar, provavelmente, aaííe-cção simultânea de ambos, ou sóde
um
d'elles.A
lesão dos corpos striadose dos thalamos ópticos, é
acompanhada
sempre de hemiplegia, que affectano
corpo a metade opposta ao órgão lesado; e á qual escapam somente os
mús-culos dotronco, porque, segundo
Van
der Kolk, os feixes lateraes da medulla, subservientes árespiração, terminam-se nos núcleos da medulla allongada.É
claroque, n'estes casos,em
que alesão é localisadaem
órgãos superiores á medullaallongada, a perda da sensação e domovimento
deveser domesmo
lado docorpo, oppostoá lesão,
porque
os nervossensitivos secruzamem
toda a extensão da medulla espinhal, e os motrizes na medulla allongada.A
para-lysia do
movimento
é signal mais duradouro que a da sensibilidade; algumasvezes, no
começo
doataque, dizTodd, a paralysia domovimento
e dasensa-ção se
mostram
juntas; mas, a paralysia dasensação ordinariamentedesappa-rece depressa, deixando sõ ado movimento. Provavelmente, nos corpos
stria-dos e thalamos ópticos, na protuberância annular e nos pedúnculos cerebraes, os feixes sensitivos estão collocados mais profundamente, da sorteque, ás
al-terações mórbidas custa mais attingil-os.
Na
hemiplegia consecutiva ás lesões dos corpos striadosou thalamosópticos,metade
daface é muitas vezes ligeiramente affcctada, domesmo
lado que ocorpo. Esta forma de hemiplegia, muito mais frequente e essencialmente
dis-tincta dahemiplegia alíema, que depois estudaremos, é
denominada
hemiple-gia
commum
por Jackson, quediz:—
tenho visto pelomenos
500
casos de he-rmiplegia, e somente vi 7 ou 8,
em
que a face estava puxadaparao ladohemi-plegieo,
quando
vi o paciente. (1)A
paralysia de alguns nervoscranianos, de ordinário ado facial e dohypo-glosso, complica,
mas
sempre levemente, a hemiplegia ordinária.À
disposi-çãoanatómica dos nervos cranianos é a razão u"esta differença de intensidade,na paralysiada face, ligeiran'estes casos, e severa, doladoopposto á dos
mem-bros, na hemiplegia alterna. Nascendo dos núcleos da medulla allongada,tem
aquelles nervos suaorigemapparente
em
pontos do encephalo, mais oumenos
alíastadosda origem real;eosfiletesque
communicam
osnúcleoscom
océrebro,cruzam-sena medulla allongada
mesma;
assim, a alteração dos órgãosmotri-zes, acima do mesocephalo, attaca as fibras nervosas da face e do corpo antes
da intersecção, e a paralysia é
menos
profunda doque aquellaqueacompanha
as lesões da medulla allongada, e é devidaá alíecção directado tronco do ner-vo, a qual, impedindo ou anniquilando a influencia da vitalidade do núcleo medullar, offende gravemente as fibras nervosas, abolindo os
movimentos
re-flexos, e por ultimo, atrophiando o nervo.A
paralysia ligeira da face é muitas vezes diííicil de verificar-se; no maiornumero
dos casos, hauma
ligeiratracçãoda bocaparaolado são, aqual poderia ser attribuida aum
spasmo dos músculos domesmo
lado.O
melhor meio de conhecer-se a paralysiada face, é, segundo Jackson,mandar
queodoentemos-treos dentes inferiores.
O
paralytico não pode, de ordinário, executar,com
a faceoucom
alingua, osmovimentos
pedidos, mas,entretanto, estes sefazem,ás vezes, inesperadamente, epor acção reflexa; o queé possível somente nos ca-sos de integridade dos troncos nervosos e seus núcleos medullares.Na
hemiplegia commiim, as fibras do nervo facial não são attacadas todas, e,por isso, disse Trousseau (2), diagnosticando
um
caso de hemorrhagiacere-bral,
—
queuma
paralysia facial incompleta, ainda nafalta dos oulros pheno-menos, característicos deuma
hemiplegiamaisextensa, bastava para fazer-lhe pensarque se tratava, não deuma
affecção do sétimo par de nervos, esim deuma
affecçãocom
sédenum
hemispherio do encephalo.Pequena
em
intensidadeeextensão,a paralysiafacialacompanha,entretanto,constantemente os primeiros períodos da hemiplegia ordinária, limitando-se aos músculos que se
prendem
no angulo da boca, esempre
domesmo
ladoque a paralysia do corpo, e desapparecendo muito antes da extineção d'esta.
O
valor ptatico d'eslesymptoma,
para o diagnostico da sédedalesão, étãoim-(1) Clinicai Lectures andReportsof theLondon Hospital, Yol. 2.°, 1865, pag. 300,
portanto que, a falta d'este signal, porobservaçãotardia, ou descuidada,
Con-fundiria a lesão do hemispherio cerebral
com
a de metade lateral da medullaespinhal, na parte superior. Romber.g diz (1):
À
feição particularda paralysia central do nervo facial na desorganisacão do cérebro, é que,com
poucas ex-cepções, suadistribuição inteiranão éaffectada,mas
são implicadassomente
as Cbrasquesupprem
os músculos da ala do nariz e do lábio superior, e são os agentes das funeções respiratórias do facial.Na
paralysia facial por lesãodo nervomesmo,
paralysia de Bell, ossym-ptomas são muito mais manifestos; todos os músculos superíiciaes da face são attaeados, e é, sobretudo, característica a afíecção doorbicular das pálpebras,
de sorte queo doente não pôde fechar o olho do lado paralysado, o que não
succede na hemiplegia
commum;
edemais, ha impossibilidade dosmovimentos
reflexos, e mais tarde, a atrophia dos músculos da face. «
Por
mais completaque seja
uma
hemiplegia, dependente delesão docérebro, diz Trousseau,nun-cavi omusculoorbiculardas pálpebras completamente paraiijsado; o olhopoude
semprefechar-se; emquanto, na.paralysia de Bell,a paralysia do orbicular das pálpebras nunca falta, e a occlusão completa do olho é impossível.
O
Dr. Cazalis, medico da Salpêtrière,fixou,como
eu,sua attenção sobre esteponto desemeiotica, e declara não ter visto
um
só caso de hemorrhagia ou deamolleci-mento
do cérebro, no qual o doente não podesse fechar o olho dolado attaca-do, por mais grave que fosse a paralysia. Todavia,em
alguns casosexee-pcionaes, todos os ramos do nervo facial não são attacados; aquelles, por exemplo, que se distribuem nos músculos da pálpebra,
podem
estar intactos.O
signalquevos acabo de indicar falharia, pois, algumas vezes. Mas, então, é preciso não esqueceraquellequefoi dadopor Duchenne;signal que eujá men-cionava, e quefoi depois confirmado pelas experiências deVulpian.Na
pa-ralysia facial, dependentede
uma
lesãodocérebro, a excitaçãoeléctrica ésen-tida pelos músculos,
como
no estado normal; ao passo que a contractilidademuscular nãoé absolutamente, ouquasi, despertada por
uma
correnteeléctri-ca, se a paralysia depende de lesão do nervo do 7.° par. » (2)
Marshall Hall já estabelecêra os seguintes principies: os músculos, separa-dos de suas connexõesnervosas
com
o cérebro,augmentam
de irritabilidade; e osmúsculosseparados d'estas connexõescom
amedulla espinhal,diminuem
de irritabilidade.
Ha, nahemiplegia,sensível differença entre o gráo deparalysiadaperna
edo
(1) Clinicai Lectures,V. 1.°, pag. 251.
o
que
é fácil de explicar, altendendo a que todas as porções da medulla são outros tantos multiplicadoresdaexcitação motriz.A
paralysia dosmembros
in-feriores é, muitas vezes, tão ligeiraque passadesappercebida aosdoentes, du-rante sua estada no leito.Trousseau, tratando da hemorrhagia cerebral, saneciona
também
a observa-çãocoinmum,
de que—
omembro
inferior recupera muito mais depressa osmovimentos, do que o braço paralysado; econsignao factodeser,
em
geral,degrave prognostico, a
marcha
inversa dos symptomas, o restabelecimento do movimento, mais rapidonomembro
superiordo que no inferior.A
razão d'isto, ellemesmo
confessa que a ignora.Na
lingua hatambém,
na hemiplegiacommum, uma
ligeiraparalysia, cara-cterisada pelo desvio d'ella para o lado paralysado.A
razão, porque o desvioda lingua se fazpara o lado atacado, não está ainda
bem
determinada; mas,parece, segundo
Yan
der Kolk (1) que cada musculo genio-glosso,em
con-sequência de sua direcção obliqua para cima e para fora, puxa a lingua para o lado opposto, e por consequência, nahemiplegia, o musculo são impelle-apara o lado paralysado. Mas, porque será este musculo atacado, de preferencia aos
músculos aceessorios da lingua, que
tem
uma
acção antagonista a sua, esãotambém
providos pelo nervo hypoglosso? Sóa disposição anatómica daorigemcerebral d'estas fibrasnervosas, poderiaexplical-o.
N'esla forma hemiplegica, a paralysia da lingua é sempre muito pouco in-tensa. «
A
paralysia completadeum
lado da lingua, diz Jaekson. éuma
affe-cçãomuito rara;só a tenhovistoem
quatro casos. » Mas, seestaparalysiacom-pleta é rara, a paralysia parcial da lingua é muito
commum;
apparece quasisempre,
em
maioroumenor
gráo, na hemiplegia: mas, então, a paralysia da hemiplegia é cousa muito diííerente; não é devida a alYecção do nervolingualou do seu núcleo, e sim, á paralysia d'essas fibras do nervo,
que
secruzam
(Lockhart Clarke) e passamparaas partessuperiores dotractomotriz. Esta pa-ralysiahemiplegica da lingua é diííerente da paralysia, por lesão do nervo ou deseu núcleo,
como
o é, a paralysia daface na hemiplegia, da paralysia por aííecção do nervo facialmesmo;
como
a paralysia do braço, na hemiplegia,differedaparalysiaporaíTecçãodos nervos do plexobrachial. (2)
Não
se deve ajuizarda paralysiada lingua pelo defeito ouembaraço
da falia.Parao exercício da palavra,são necessários treselementos, aconcepção da lia»
ti) Oh. cit. pag. 109.
(â) Cl. Lecturcs and Reports. Yol. \.° pag. 317
linguagem, aemissão do
som
e sua articularão.Cada
uma
d'estas funcçõcses-tá incumbida a
um
órgão distincto, e a lesão de qualquer d'elles poderia darem
resultado o defeito ouaabolição dapalavra, confundindo assim, pelaiden-tidadedo eííeito, causas
bem
distinctasentre si.0
cérebro, concebendo alin-guagem,
coordenando os movimentos,e incitando os órgãos quedevem
exe-cutal-os; o larynge, emittindo e vibrando o som; a lingua e os lábios, arti-culando-o;
formam
uma
cadeia de órgãos, tão indispensáveis ao exercício da linguagem articulada, que, destruídoum
dos élos, seria abolida a funeção.Assim, ha naaphasia alesão do elemento cerebral, na aphonia, a dolarynge, e na paralysia da lingua, a affecção doórgãoquearticulao som; mas,
em
todos os casos, hadefeito ou perda da palavra.Quando
a lesão é nos hemispherios cerebraes,em
muitos casos, o defeitoda falia é
um
symptoma
grave, por sua presistencia e intensidade, e contrastasingularmente
com
a integridade ouaffecção tão ligeiradosmovimentos
dalin-gua, dolarynge e do véo do paladar, que não
embaraça
sensivelmente ade-glutição,
nem
a respiração.Esta affecção,
denominada
aphasia,tem
um
caractersingular de affinidadecom
a hemiplegia direita, e por consequência,com
a lesão do hemispherio ce-rebral esquerdo: é raríssimo encontral-acom
ahemiplegia esquerda.Nos
casosde lesão cerebralem
que ha paralysia demetade
da lingua, do véo do paladar ou das cordas vocaes, a falia, aindaque alterada, é possível, enão apresenta,
como
naaphasia, junta á facilidadeouligeiroembaraço
dosmo-vimentos do apparelhovocal, a impossibilidade absoluta depronunciar muitas
ou quasi todas as palavras.
Seguindo os passosde Gall, Bouillaud localisou nos lóbulos frontaes a
fa-culdadeda linguagem articulada, e
Mare
Dax, observando a notável connexãoentre ahemiplegia direita e a aphasia, restringio aquella faculdade ao
hemis-pherioesquerdo do encephalo. Broca, mais exclusivista ainda, quer attribuil-a
á parte posterior da 3.acircumvolução frontal esquerda.
Os
factos,em
geral,parecemsanecionaras ideias de Broca,
mas
écerto que sua opinião estálon-ge de explicar todos os casos registrados na sciencia.
A
aphasia não éuma
moléstia determinada,esim,um
symptoma
delesãomais oumenos
grave, mais oumenos
extensa, das circumvoluções cerebraes; apresentamuitosgráos, desdeodefeito simples etransitóriodafalia,até aabolição completadas manifestações
dafaculdadegeralda linguagem, pela palavra, pela escriptae pelos gestos.
En-tretanto, seé certo quea estesestadoscorrespondem, geralmente,lesões diffe-reníes,
em
extensão e intensidade, dolóbulo frontal esquerdo, e sobretudoda
3.acircumvolução;é
também
exactoque Charcot eYulpian (1)virameprovaram,pelaautopsia, quealgunscasosdeaphasia coincidiam
com
lesõesdohemispherio esquerdo do cérebro, asquaesnãointeressavam o lóbulofrontal.No
hemisphe-rio direito, Parrot e Charcot
acharam
a atrophia ou amollecimento
dascircum-voluçõesfrontaes, inclusive a terceira,
em
indivíduos que tinham conservadoa intelligencia e a faculdadeda
linguagem articulada.Trousseau cita
um
casode aphasiacom
hemiplegia esquerda, e Jackson citadois semelhantes. (2)
De
tudo isto, parecededuzir-se claramente que aapha-sia nãodepende sempre,
como
pretende Broca, da lesão da extremidade pos-terior da 3.a circumvolução frontal esquerda.Se
lesões gravíssimas dos lóbulos frontaes, não implicando as partespos-teriores das circumvoluções, tem existido
sem
abolir a falia (3); se,em
outros casosde aphasia, estavam incólumesos lóbulos frontaes,
mas
havia al-teração das circumvoluções do lóbulo temporo-sphenoidal, especialmente naparte anterior; parece lógico concluir, que a integridade da faliadepende da
communicação
perfeila dosdois lóbulos, queseassociam na concepçãodalin-guagem,
e na coordenação dosmovimentos
dos dilTerenles órgãos que con-tribuem ás funeções importantíssimas da phonação e da palavra. Separadosem
parle os dois lóbulos, pelas fendas de Sylvius e de Rolando, e unindo-se
den-tro d'estes sulcos, pelaprofundidade das circumvoluçõeslimitrophes; as lesões
que cortassem este nexo, destruiriam a harmonia dos elementosprepostos á funeção da linguagem, c a aphasia seria, então, âataxia da articulação, corno a
chamou
Jackson, ou a asynergia verbal,como
adenominou
Lordat;—
seria para a palavra o quea ataxialocomotriz é para o movimento.Parece,
com
effeito, demonstradoque, daintegridade dascommissuras ce-rebraesdependem
todas as combinações da intelligencia. Abercrombie,Paget,tíown, Mitchell
Henry
(4) referem casos de escassez da intelligencia,ligada á alteração ouimperfeição do corpo calloso, do fornix, ou doseptum lucidum.Nos
casosde Paget e Henry,—
em
que algumas fibras commissuraesuniam
ainda os lóbulosanteriores, o doente podia ler efallar livremente;
porém
no deDown,
em
que os lóbulos anteriores estavam completamente separados, aperda da palavra era quasi completa.
O
gráo de extensão daalteração explicaria as diílerentes gradaçõesdaapha-(1) Trousseau, ob. cit. vol. 2.° pag. 601.
(2) Cl. Mcports, vol. l.°pag. 43o.
(3) Trousseau, ob. cit. T. 2.°, pag. 609. (i) Meryon, on paralysys, pag. 115.
sia, desde a perda da faculdade geral da linguagem, até
um
ligeiro defeito da palavra.Ha,
em
muitos casos, abatimento da intelligenciaou damemoria,
porem
nãoéesta a causadaaphasia, porque
em
muitosaphasicosa intelligencia estava tãoperfeita, queellesdirigiamosseusnegócios
com
todaa clarezaeescreviamcomo
d'antes; e demais, na aphasia, aindanoscasos maisgraves,não ha
esquecimen-to absoluto das palavras,
como
bem
o demonstrao desgostoque
transpareceno rosto dos doentss quando, depois de muita insistência,
pronunciam
pala-vra diversa d'aquella quequerem
proferir ou que se lhes ensina.A
aphasia, parece, pois, depender da falta deharmonia
dasideiaselementa-res, que presidem ácoordenação dosmovimentos, necessários á articulação da
palavra. «
Não
se deve esquecer, dizDunn, que
o poder perfeito da falia,istoé, de exprimir nossos pensamentos,
em uma
linguagem apropriada e con-veniente, depende da relação devida entre os centros daacção intellectual e os centros motrizes encephalicos, pormeio
dosquaesse exerce o poder davo-lição. «
Os
pensamentos ou ideias são moldadospara a expressão,na
sédeda
acção intellectual; mas, aacção do poderda volição, para articulal-os, requera integridade das fibras commissuraes, e dos centros motrizes, por
meio
dosquaesos impulsos volicionaesdo pensamento
operam
na falia. »A
lesão dos corpos striados ou ópticos, não affectaa palavra,senão poruma
ligeira paralysiada lingua,
nem
a lesão das circumvoluçõescompromette
omovimento; mas, a contiguidade d'estes órgãos explica
como
a extensão ou propagação da affecção primitivapoderia complicara hemiplegia, deaphasia, e reciprocamente; e sendoambas
produzidas ordinariamente por perturbaçõesda circulação, explica-se a sua coincidência, por serem os corpos striados eas
circumvoluções limitrophes dos lóbulos frontaes e .«phenoidaes, providos pela
mesma
artéria, a cerebral media.Os
corpos Olivares são,como
provaVan
der Kolk, osganglios dos nervosque presidem á falia.
A
amaurose e aperda do olfactocomplicamtambém,
ásvezes, ahemiplegia.A
proximidade dostroncos,dosnervos olfactivoeóptico, e dos corposstriadose ópticos, explicacomo
a lesãopodeattingil-osaomesmo
tempo,ecomo
a relação entre estesórgãos, e arêde vascular dohexágono
arterial e suas ramificações,predispõem estaregião a ser aíTectada mais directamente.